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Visão de Dentro - Episódio 5

38m 22s

Visão de Dentro - Episódio 5

Este episódio do podcast "Visão de Dentro" detalha o caso de Maíara Oliveira, uma jovem grávida baleada na barriga em 2020 durante uma operação policial na Maré, no Rio de Janeiro. Cinco anos depois, o caso segue sem resolução, e a perícia oficial nunca foi realizada no local. Diante da omissão do Estado, a Redes da Maré, organização comunitária, documentou a cena do crime com fotos, testemunhos e coleta de evidências, como marcas de sangue e buracos de bala na parede. A partir desse material, uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, incluindo arquitetos, geógrafos e assistentes sociais, aplicou metodologias de arquitetura forense para reconstruir a trajetória do disparo em 3D. A análise cruzou a posição de Maíara, o ferimento de entrada e saída, e a marca na parede, concluindo que o tiro só poderia ter vindo do local onde os policiais estavam posicionados. O trabalho é chamado de "contraforense", pois rompe com o isolamento tradicional da perícia, envolvendo a comunidade como especialista e abrindo espaços alternativos para apresentar as evidências, como mídia e exposições. O objetivo é combater a impunidade e a "injustiça testemunhal", dando voz a moradores e sobreviventes que são sistematicamente ignorados pelo sistema de justiça. Essa iniciativa pioneira no Brasil mostra como a ciência forense aliada à mobilização social pode produzir evidências poderosas para a luta por justiça.

Transcription

5355 Words, 31729 Characters

Portuguese
Eu me sinto emocionado porque é a realidade. Então, a coisa que outras pessoas que ouvi mais sentir, a mesma sensação que eu estou sentindo, que é a realidade do que aconteceu. Independente do depoimento dos policiais, da mentira que eles inventam, mas a realidade existe. Então, acredito que é a única pessoa que pode falar, como meu corpo é a prova do projeto. Eu sou a única pessoa, a única testemunha que pode falar do realmente que aconteceu. O policiano não foi com o mesmo, podia ser que o filho de alguém, podia ser com o primo meu ou o filho de qualquer outra pessoa. Eu estava dentro de uma caixinha de sapato, me escondi para poder aceitar tudo o que aconteceu. Agora, eu quero o mesmo falar, porque eu sei que tem muita gente aqui dentro, que já sofreu muita violência, que nunca falou. Neste episódio final da primeira temporada do visão de dentro, entramos a fundo nos impactos da violência de Estado, na vida da maiar olhivera, a jovem que foi alvejada por um tiro de fusil na barriga, em uma operação da polícia civil, aqui na Maire, em 2020. O caso da maiara completou cinco anos, sem nenhuma resolução. Nos próximos minutos, vocês vão conhecer os bastidores do processo de análise e fornece comunitária e reconstrução 3D do caso da jovem, uma experiência inédita do Brasil, na luta por acesso a justiça, das vítimas da violência de Estado. Você está ouvindo o visão de dentro, um podcast sobre ciências forenses e acesso a justiça, produzido de dentro da Mairea. Aqui, a gente debate sobre o papel de ciências forenses na luta por justiça, para as vítimas da violência de Estado. O visão de dentro é uma iniciativa da redes da Mairea e conta com um apoio do Instituto Cé rapileira, uma instituição que valorise promove o conhecimento científico no Brasil. Então, eu estava no plantão de acolhimento aos moradores, no dia da operação, em que a maiara foi atingida, e ao longo do dia, eu convencirei que alguns moradores que tinham sofrido algum tipo de violência por parte dos agentes e filmem algumas das violências. No meio da tarde, a gente recebe uma informação que uma jovem grávida tinha sendo bagiada na luta praia, no Parque Mairea, e que estava sendo levada a prospital. Então, a equipe se divide, uma parte vai prospital, acolhia a família, e outra parte da equipe vai pra boda praia. Quando a gente chega na boda praia, os moradores estavam bem abalados, impactados com o que tinha acontecido, e foram se mobilizando, conversando entre si com a gente pra elaborar, e entendeu o que tinha acontecido. Vocês acabaram de ouvir? O Michael Sardinha, ele é geógrafo criada a Mairea, foi um dos coordenadores do Encho, direito à segurança pública, e acessa a justiça. E hoje, coordeno o projeto Mairea por justiça. Nos pontões, o Michael não só acolhe moradores que sofreram violações de direitos, em operações policiais, como também atua na coleta de evidência sobre os casos. Essas evidências são fotos dos locais de crime, testemunhos, vídeos, e o que mais poder documentar no contexto das violações. Naquele dia 27 de outubro de 2020, ele esteve na rua, onde a jovem Mairea foi baliada, e captou diversas imagens do local. Então, a parte daquela mobilização, e com a contribuição de cada um ali, que sabia, a gente foi remontando o momento em que a Mairea tinha sido baliada. Os moradores se analisaram que não havia confronto, e que, muito provavelmente, o disparo tinha parte do local onde os policiais estavam. E aí, eles apontaram para o local exato, onde a Mairea estava, quando ela foi atingida, e mostraram a parede com manja de sangue e um buraco de tiro. A gente também foi entendendo que a movimentação e o posicionamento dos policiais, e segundo os moradores, estavam na estribidade da Gorda Praia, e, inclusive, um deles estaria também posicionado em cima de uma laje. Então, eu fiz fotos desses locais do ponto exato, onde ela foi atingida, mostrando a manja de sangue e o buraco na parede, e desse ponto para a estribidade da rua, onde os policiais estariam posicionados, segundo os moradores. E dessa estribidade, desse outro ponto da rua, uma foto embaixo, em uma foto em cima da laje, nos sentidos do local, onde ela tinha sido atingida. E ali, a gente também foi entendendo que, mesmo numa situação de confronto, pela marca na parede, seria quase possível que um disparo tenha partido de um outro local. Então, a gente aciona a DH, para que fosse feita, por isso, no local, mas eles nunca chegaram para fazer esse trabalho. As fotos geradas pelo Michael, foram um ponto de partida para esse trabalho de análise e forense comunitária, que usou a metodologia da arquitetura forência, para fazer uma reconstrução 3D, da cena do crime do caso maillária. Uma equipe interdisciplinar, de pesquisadores das áreas da arquitetura, da geografia, do áudio visual, das ciências sociais, do direito da psicologia, e também assistentes sociais, vem trabalhando em conjunto nessas análises forences, de casos de violência policial, como o caso da maillária. Esse trabalho vem sendo desenvolvido pela redes da maire, em parceria com o grupo de estudo dos novos ilegalismos, o Gemini da UF, e com o apoio do Ministério da Igualdade Racial, desde 2024. O projeto construindo ferramentas é uma iniciativa que inclui a formação de jovens pesquisadores da maire, em diversas ferramentas instrumentos de reconstrução 3D, escaneamento digital, e outras metodologias tecnológicas, da arquitetura forência, sob a supervisão da equipe de pesquisa do projeto mirante do Gemini da UF, voltado para análises forences independentes. A gente vem com uma equipe muito disciplinar, construindo metodologias, para pesquisa forences, e formando entre os membros dessa equipe, três jovens de favela, e um integrante de um coletivo de mães, todos em arquitetura forência. E a arquitetura forência é um momento de ologia que surge fora do Brasil, e que usa ferramentas, como mapas, imagens, modelagens 3D, testemunhos, entre outros materiais, para analisar violações direitos humanos, e o que a gente pretende é adaptar isso para a realidade das caves, elaborar metodologias sofisticadas de documentação, reconchressantes, analisados, a dinâmica da violação de direitos, e envolvendo as pessoas diretamente afetadas pela violência. Isso não tem a pretensão de ser uma opressa oficial, mas tem a força de produzir evidências, e de alguma maneira dialogam com processos judiciais. E hoje, a partir dessa experiência formativa, em arquitetura forência, a gente percebe que aquele material inicial, ele foi essencial para reconstruir a cena, e mostrar a gravidade da violência que a maíara sofreu. Dois pesquisadores que colaboram com esse trabalho de análises de evidências e de reconstrução 3D, do caso maíara, se formaram no mestrado em arquitetura forência da Goldsmith, na Universidade de Londres. É lá que está baseada a Forência arquiteturi, uma agência de pesquisa que investiga violências praticadas pelo Estado e por corporações no mundo a partir da análise de evidências. Tivemos a oportunidade de conversar com E. A. Oesma, fundador e diretor da Forência arquitetura, uma das maiores referências em arquitetura forência no mundo. O IEL esteve aqui na Maire para acompanhar de perto o trabalho da equipe de investigação comunitária, iniciar uma parceria com a redes da Maire. Ele chamou de pesquisa contra forência, esse conjunto de metodologias, de reconstrução, imagética e espacial de violações de direitos humanos. É importante destacar que em português forência não é usado como substantivo e apenas como adjetivo. Então a nossa tradução vai ter esse sentido. Para facilitar o entendimento de tudo que ouvimos do IAL, vocês vão ouvir agora a tradução da entrevista dele na voz do Mateus Afonso, um dos integrantes da nossa equipe. Consideramos o nosso trabalho como contra forência. E contra forência significa você sabe. Trabalho. e contra o Estado. Então se a perícia é basicamente a forma como as informações são coletadas para oprimir você, para catálogá-lo, colocá-lo em banco de dados e rotulá-lo como uma forma de controle, o trabalho conta a forense, é tudo o que se opõe a isso. Então não é esse tipo de trabalho forense, não é como se fizéssemos o mesmo processo de investigação que a polícia faz, é que agora simplesmente o povo entre aspas tivesse essa capacidade. O trabalho forense precisa ser feito de outra maneira e isso é difícil porque o tribunal tem seus próprios protocolos e procedimentos e sempre vai dizer, "um, vocês são a comunidade afetada". A perícia sempre vai buscar isolar a cena do crime. A primeira coisa que a perícia faz é ser cara a área ao redor da cena do crime com uma fita, o que é essa fita de isolamento? A fita crio um espaço de acessão, um espaço do Estado. Não entanto nem isso é feito na mareira, das 172 mortes registradas entre 2016 e 2025, em contexto de operação policial, apenas 16 tiveram perícia de local. Muito embora em quase todas elas em condições que não preservaram a cena do crime. Nós o povo nunca temos a permissão de entrar no tribunal. Precisamos encontrar maneiras para aquelas coisas vazem, para conseguir passar por baixo da fita de isolamento. Então sabe, a perícia é exipificada por esses cercos. Primeiro vem a fita de isolamento, depois o laboratório onde tudo é exigenizado, é tudo sabe só para pessoas autorizadas e conosco é meio aberto e colaborativo. Então rompemos com terceiro cerco que é o tribunal como um único lugar para apresentar evidências. E dizemos, não, não precisa ser só o tribunal, pode ser na TV, pode ser na mídia, na mídia pública, em galeríaz, em qualquer lugar, na rua. Portanto os princípios do trabalho contra forência são uma epistemologia diferente e uma metodologia de trabalho diferente, que priorizam o rompimento desses cercos. A prática contra forência coletiva, por isso as equipes que trabalham com as metodologias da arquitetura forência são compostas por profissionais de diferentes áreas do conhecimento. Juntos, eles constroem análises sócios paciais complexas e inovadoras, com base em múltiplas evidências, como os testemunhos das pessoas diretamente impactadas, dialogando com a perspectiva da geração cidadã de dados. Podemos fazer uma analogia no qual o conhecimento a divindo dos territórios como a Maré contribui e produzendados, visando maior participação das pessoas afetadas e que vivenciam este cotidiano. O éal enfatiza que os moradores dos territórios são os maiores especialistas sobre as violências que os afetam. Por isso é importante abrir o campo das evidências para vozes que foram excluídas e realizar algo que chamamos de verificação aberta. Tradicionalmente na perícia há um perito que apresenta seu diploma e histórico profissional e em quem acreditamos com base em suas credenciais. Nós dizemos que isso não nos interessa. Nossa evidência são sempre coletivas, elas são sempre produzidas por muitos. As expertises estão na comunidade de luta. Essas pessoas muitas vezes sabem muito melhor do que qualquer especialista o que está acontecendo com elas. Há muito conhecimento que existe dentro das comunidades e queremos trazer isso para as investigações. Por isso as investigações são criadas a partir de múltiplas atividades, equipes multidisciplinárias e muitos participantes. É a pluralidade que atorna mais forte. É sempre a trama quanto mais fios, mais forte o tapete, quanto mais pessoas envolvidas, mais perspectivas, mais fortes as evidências. E é claro, o Estado gostaria de descualificar isso, sabe? Mas sempre que se ganha um caso há sempre duas vitórias, há admissibilidade no tribunal e o precedente para aceitação desse tipo de evidência. Para refletir sobre a produção e análise de evidências é preciso também entender os processos históricos e sociais que constroem as violências e a maneira como elas são experimentadas pelas vítimas. Por isso, é aí a trabalhar com um conceito amplo do que são evidências, incluindo as relações e processos sociais que formam e conformam as violações de direitos humanos. Portanto, uma evidência é algo que é o mesmo tempo, material e social, porque não pode ser reduzida a materialidade da bala. E envolve também a interpretação, a experiência e a história da bala. E talvez a política que levou aquela bala naquele local específico. Por isso é uma produção social. Há tantas vozes, tantos pontos de vista, de criatividade, experiências que contribuem para contar a história daquele crânio ou daquele vídeo. E não se pode separar as vozes humanas que falam sobre isso. É através daquele objeto e o objeto, a evidência, está na relação entre o fórum e o pedaço de materialidade. Precisamos entender isso porque o estado diria, não, não, não. A prova é apenas aquela peça chave que eles mostram na tela. Essa é a peça de evidência. E eu diria, a chave é sempre uma relação entre isso, a porta, o espaço interior e o exterior, a comunidade da estrada de fora, e talvez a comunidade que está dentro da sala. É sempre um conjunto de relações mantidas pela realidade material. E é esse o poder explosivo do trabalho contra a forense. Coraz evidência é se unem, quando você socializa a produção e a apresentação de evidências, e então tem um processo forense radical. É exatamente isso que estamos fazendo na arquitetura forense tudo mais. Tentamos explorar o potencial radical das ciências forences para que sejam práticas, revolucionárias e transformadoras. E isso só é possível se o seu haver muitas evidências. Se as evidências forem bem escomois, se for um processo coletivo. O que você pensa quando falam do Aitê? Terremoto, pobreza, crime, pois a história deste país, o primeiro a se livrar da escravidão, tem muito mais do que isso. O esquecimento da cultura e da história Aitiana é intencional, racista e serve a diferentes interesses. A França, por exemplo, construiu a Torre Eiffel com dinheiro roubado do Aitê. Já os militares brasileiros ficam fazendo propaganda da missão de paz que lideraram por lá, sendo que foi um total fracaso, com muitas violações. Para conhecer essa história fundo, vale a pena ouvir o podcast ou a Itê é também aqui. Ele está sendo tocado pelo colega, o Isneus Joseph, um geógrafo aitiano, com o apoio da antropóloga lá Ism e Negelo. A partir dele dá para entender muita coisa do mundo atual. Assim como visão de dentro, o podcast Aitê é também aqui, tem um apoio institucional do Serra Pileira, que fomenta ciência e a divulgação científica no Brasil. Aqui no Rio de Janeiro, esse movimento de documentar as evidências dos crimes e violações durante as operações policiais nas favelas e periferias já era feito por moradores e familiares de vítimas. Essa organização e mobilização pensada a partir das ciências forenses e da arquitetura forense é resultado de uma inquietação incomodo coletivo dos movimentos sociais. O caso da maillara é o primeiro trabalho de arquitetura forense realizado aqui na maire, junto com uma organização de base comunitária, como a redes da maire. A Flávia Paladino é uma das coordenadores do trabalho de reconstrução 3D realizado no caso da jovem. Ele é mestre em arquitetura forense pela Universidade de Londres e uma das pesquisadoras do projeto Mirante da Universidade Federal Fluminense à UF. No caso da maillara, felizmente ela sobreviveu. Então a gente ainda tinha a palavra da sobrevivente contando o que que ela passou. Era um caso que tinha possibilidade de ser reconstruído, apesar de um teravido perícia, quem acabou fazendo a documentação da cena do crime e coletando evidências foi o plantão da redes. E aí a gente junta esse material aí e começa o cruzamento de materiais. A gente nunca trabalha só com um material específico, uma foto, um relato. Os materiais são sempre cruzados. E aí a gente começa a verificar versões, a partir do cruzamento de materiais a gente começa a verificar a versão da sobrevivente, versão de testemunha, a versão dos policiais. E dentro do ambiente virtual a gente consegue fazer essas analises mais técnicas e chegar no resultado que a gente e aí a gente começa a trabalhar com pesquisa em fonte sabertas, a gente começa a trabalhar com imagens de satélite, medições de ruas vias, calçadas, enlóco, a gente houve os moradores, a gente houve, e com muito cuidado sobre o vivente que ela tem para falar, a gente leita outros depôimentos dos policiais e aí a gente parte para o trabalho de modelagem mesmo do cenário e de inserção dos protagonistas para a gente, no caso da maera para a gente entender de onde pode ter vindo o tiro que acertou. Conclusamento de todas essas informações e fantes foi possível testar as versões do inquérito policial. A Flávia explica um pouco mais. Onde morava a maera tinha mais ou menos 120, 130 metros e aí o local onde ela é atingida, ela estava olhando para final da rua, nesse final da rua tinha um sobrado com uma lage e um grupo de policiais, a distância dela para o grupo de policiais a gente calculou que era de mais ou menos 100 metros e ela estava de frente para eles. E aí atrás dela tinha um muro onde a gente encontra o buraco do tiro que atingiu, tinham vários buracos nesse muro, mas a gente consegue detectar o buraco certo, de acordo com as manchas de sangue. Então a gente começa a cruzar essas informações, as manchas de sangue, o buraco que a gente vê na parede, a posição que ela diz que ela estava, a direção de tagunas policiais, etc. E aí a gente consegue definir uma trajetória ali aproximada, do tiro a partir do ferimento de entrada e do ferimento de saída e da marca na parede. Então a gente faz essa ligação, essa ancoragem a partir da marca na parede. E aí a gente consegue definir que o tiro que atingiu a maiana só poderia ter vindo do lado da rua onde estavam esses policiais. A verdade é que essa análise ela poderia ter sido feita apenas com si ou vai a experiência e se eles tivessem detectado onde estava o furo na parede, já seria claro que só poderia ter vindo do lado onde estavam os policiais, porque essa parede dava de costas pro lado da rua. Então seria impossível o tiro ter vindo de lá. A gente precisa ter pontos para poder reconstruir a trajetória aproximada do projeite. Então a gente tem o agressor, a gente tem o ferimento de entrada na vítima, a gente tem o ferimento de saída na vítima e a gente tem o ponto na parede. A partir do ferimento de entrada de saída e do ponto a gente consegue entender mais ou menos como a vítima estava posicionada. A partir da posição da vítima a gente consegue entender onde estava o agressor e aí a gente consegue reconstruir essa trajetória. E é por isso que a gente consegue a partir do exame a a a a a a das fotos que a gente faz do corpo dela, da cicatrizis, da descrição dos órgãos afetados e da foto feita pelo plantão da redes, a gente consegue dizer que o tiro só pode ter vindo do lado da ronda estava os policiais. A ciência foremcia aliada a mobilização social nas favelas é um fazer científico. Acho que o objetivo é que ela se torna uma evidência importante no caso que ela auxilina a produção de contrar na que é que ela conseguia influenciar a opinião pública, que a gente consiga apresentar ela não só para ser usada no sistema de justiça, mas que a gente consiga apresentar em outros forens para outras pessoas terem acesso ao que a gente está fazendo e entender a história da maior. Mas o mais importante eu acho que essa reconstrução tem o efeito de, pelo menos ela tenta de fazer o que a gente vai chamar aqui, sei lá, de injustiça, testemunhal, que a maiana falou, ela contou sobre o que ela passou, os moradores contaram que eles viram e eles nunca foram ouvidos do jeito que eles deveriam. Pacho fundamental do trabalho é ouvir as pessoas que são consideradas testemunhas não confiáveis pelo sistema de justiça, os moradores, sobreviventes, familiares de vítimas. E elas não serão ouvidas, não é apenas manifestação de racismo institucional, elas não serão ouvidas, é uma estratégia muito bem pensada para a produção de impunidade, portanto para a produção de morte. Sendo assim, a gente sabe que o que elas sempre a contar tem um valor inestimado e, em termos técnicos, a gente tem o privilégio de ouvir a maiana que de forma muito corajosa contou, foi até o local, mostrou o que aconteceu o que ela passou. O Michael também comentou mais sobre esse trabalho realizado pela redes da Maré a partir desse acumulo de experiências no campo da segurança pública, aqui no conjunto de favelas da Maré? Então, cada foto, cada vídeo, cada relato de morador, viram evidência de que aquela violência aconteceu. E essa prática, ao longo dos anos, ela levou a criação do maré-purgi-stiça, que é um projeto novo dentro da rede da Maré, que na ásseda da percepção, que não basta só acompanhar os casos ou dar as estesas jurídicas, que é preciso também criar novos formas de analisar e produzer evidências mais qualificadas que subisitia e, de alguma maneira, instrumentalizem as denúncias dos moradores. Se a gente não documentasse as violações direitos, dificilmente aquela violência, ela vai ser comprovada. Então, para além da produção de evidências em local, a gente vem nos últimos dois anos construindo um momento do doido dia para fazer uma análise qualificado dessas evidências. E a gente percebe que, em paralelo a esse processo de construí-se, de metodogas de produção, de novas evidências, a gente teria que investir também em ações que promover-se em uma disposição e uma sensibilização pública sobre esses casos, trazendo os elementos técnicos que evidenciam os farias do sistema de disteça. E esse podcast, o visão de dentro, nasce dessa perspectiva de construína ativa sobre memória, a verdade e a produção de conhecimento de base comunitária. Todos os dias eu recebo fotos, vídeos, relatos de familiares de pessoas que foram assassinadas ou muito machucadas pela polícia nas favelas. Então, eu vejo meus próprios olhos, o que a violência estatal faz com os corpos, eu vejo os ferimentos, eu ou as suas mães. Mas eu também vejo os laudos fraudados, eu vejo indícios de execução que são ignorados, eu vejo os policiais dando depoimentos idênticos, e não é um caso, não são dois, são dezenas de casos. É uma violência organizada e intencional. Então, hoje eu posso dizer que eu sou testemunha de um genocídio de encurso, e o meu trabalho é fazer com que mais pessoas aceitem testemunha também. Porque eu acho que a partir daí só sobra uns dois opções, ou você ignora isso e torna a complice, ou você contribui com a luta pela proteção da vida. E eu acho que é isso que faz eu continuar trabalhando com isso. Então, o que a gente faz é produzir material probatório, para os familiares de vítima de violência do Estado, para sobreviventes, com objetivo que esse material seja utilizado tanto nos processos legais, mas também em ações de avócas, de formulação de políticas públicas, e na tentativa de influenciar opinião pública. E eu também acredito que esse material que a gente produz, ou tenta produzir, também contribui levemente na recuperação psíquica dos familiares e das comunidades, que são atormentadas pela violência do Estado. Eu estou falando isso porque eu acho que é importante a gente entender que esse material não precisa de aprovação do Estado para causar efeito. Já existe, só na existência dele, essa tentativa de desfazimento, da injustiça testemunha, injustiça visual, injustiça probatória. O processo de produção desse trabalho, ele já é, nele mesmo, um processo comunitário de reparação e feito de baixo para cima. Em primeiro lugar, quero dizer que também estamos aprendendo com vocês, sabe? Então, você começou de forma muito generosa dizendo que estavam olhando nossas técnicas e tudo. Acho que o que está acontecendo na Maré, com muito entusiasmo, tem um potencial de escrever um novo capítulo do campo das práticas contraforens e comunitárias. Então, primeiro eu diria que o que vocês estão fazendo é algo parecido com a prática revolucionária de tomar os meios de produção. E vocês estão tomando os meios de produção de evidências do Estado. Vocês dizem, assumimos os meios de produção. E podemos fazer isso. Eu não faria e acho que o fato de que a própria demanda se torna uma comunidade política, uma comunidade epistêmica no sentido de que ela então produz o conhecimento sobre sua própria história. E certamente já havia habilidades incríveis, especialmente novas tecnologias que existem comunidades. Também, o simples fato de estar lá, de viver lá, é uma forma de conhecimento e experiência que precisa ser conhecida como tal. E às vezes é uma experiência ainda mais valiosa para alguém que estuda balística. Então eu diria que sim, análise e forem se comunitária é um nome muito bom. Certo, é a maneira como você pega o fato e o transforme em algo para criar convicção, para mudar a opinião da sua vida. pessoas para fazê-las ver algo que não tinham visto ou vir algo que não tinha ouvido, para fazê-las entender o mundo de forma diferente. Então, não é só, eu acho que o que vocês fazem é muito além da investigação, porque a incidência que vocês fazem a partir disso é muito poderosa. Até o fechamento deste último episódio, o mundo inteira assistiu mais uma sacra acontecendo em favelas do Rio de Janeiro. Além disso, outros acontecimentos culminaram com a trase da entrega do nosso quinto episódio. No dia 28 de outubro, a operação da Polícia Civil chamada "Contenção" interrompeu mais de 122 vidas no complexo da Peña Alemão. A operação policial mais letal da história do Brasil, as mortes superaram o marco histórico do nosso país, que foi uma sacra do Carandiru. Muita dessas mortes, de jovens, negros, possuem relatos de execução, sumária e dificilmente terão resoluções. São dezenas de famílias que ficam sem respostas e sem o direito ao acesso à justiça. Além de nós indignarmos e repudiarmos essa ação, sem precedentes, por tamanho de as humanidades, brutalidades e violações de tantos direitos, chamamos a atenção para o que o visão de dentro vem abordando desde o nosso primeiro episódio. A realização das perícias de local nos crimes cometidos pelo Estado nas favelas é o caminho para a busca da verdade e da justiça. E, Pazmin, durante a operação "Contenção" nenhuma cena do crime foi preservada. Na Peña também foi a mobilização de moradores, organizações locais e de direitos humanos que garantiram os primeiros acolimentos e atendimentos as famílias de vítimas e toda a comunidade local que ainda elabora todo trauma e dor vividos naquele dia. Assim como a documentação das evidências que serão fundamentais para que a ciência seja usada como ferramenta por a justiça dessas pessoas. Para aprofundarmos mais a nossa visão sobre a pauta do nosso podcast, também não poderíamos deixar de ouvir, novamente, Eleana Souza Silva, doutora em serviço social, fundador e diretora da redes da Maré. Eleana tem um profundo conhecimento sobre o contexto da segurança pública da Maré, como também de todo o país. "Tudo morador, de qualquer favela vai dizer, precisa ter água, precisa ter de godo, precisa ter escólo, precisa ter cresco, precisa ter post-sáudio, mas direito a segurança pública ainda não foi uma agenda sumida dentro dessa lógica republicana pelos próprios moradores de favela. Eu acho que isso é uma grande questão, né? Só denúncia não vai resolver, é igual você ficar reclamando de uma coisa sem construir os instrumentos para superar aquilo que você fica reclamando o tempo todo. Tem sido importantes nessa coisa do enfrentamento, não só da narrativa, mas das evidências que muitas vezes não são nem consideradas nos processos, mas para gente é muito importante a gente ter a história que a gente sabe que é a verdadeira organizada para a gente se contra a pou. Então obviamente a gente como organização de base comunitária da sociedade civil precisa estar junto com essas estruturas que podem trazer essa expectiva mais técnica do trabalho e aumentar nossa capacidade política de falar sobre isso pela legitimidade que a gente carrega de cedali de sofra diretamente a violência. A própria maneira como a gente trabalha, como a gente pensa esse trabalho, a gente está produzindo ciência, a gente está produzindo conhecimento, a gente está criando possibilidades também com muito concretas de ter evidências sobre uma narrativa que a gente fala não é só um ativismo, uma só uma narrativa política, né? São evidências que vão mudar a vida, vai contribuir para que menos pessoas morra, então tudo isso vai para um campo científico, importante hoje, porque muitas pessoas inclusive cientistas, pessoas da universidade determinadas problemas, determinadas questões, às vezes eu ouço assim, mas isso não tem jeito, isso não tem caminho, isso não tem. Como não tem? A ciência vai estar sempre buscando superar isso. Eu tenho certeza que no território você encontra possibilidades concretas de estar formulando e constituindo elementos que podem ser experiências portantes para muitos mudanços, queremos ver em todas as camadas aí da sociedade, todas as questões que nós vivemos, né? Eu estava dentro de uma caixinha de sapato, um escondim para poder aceitar tudo o que aconteceu. Agora eu quero o mesmo falar, porque eu sei que tem muita gente aqui dentro, que já sofreu muita violência, que nunca falou, mas já chegar a inimigo para falar, "Pô, como é que você está relevando? Como que está relevando isso?" e você tal, eu falo "Pô, cara, eu sei, eu e Deus me equipe, não quero saber, sei que está no mundo no topo frente, entendeu?" Eu acredito muito que vai dar certo, não só para poder, tipo, só para poder ensinar a era, mas de sim, comunidade sim, favelas, que se já sofriu muita coisa, não só aqui dentro da marea, mas em outros, favelas outras favelas, outras comunidades que já passaram por pôs espiores, e tão todo mundo dentro da caixinha de sapato, eu acho que se vê, vai olhar assim por causa da ter uma sacuragem de falar, eu também tenho, entendeu? Porque são muitas coisas, eu acredito que a gente vai mudar, vai mudar o Estado, a gente está com a tchada mais de uma mudança aí, vai ser muita coisa. Chegamos ao fim da primeira temporada do visão de dentro, não podemos deixar esse atelogo aos nossos ouvintes sem agradecer a todas as pessoas que entrevistamos e conversamos, mas principalmente a Maíara Oliveira, Bruno Silva, Ana Paula, Caileina Araújo, por toda confiança e generosidade em compartilhar suas vidas, dores e lutas na documentação desse podcast. Todos esses casos ainda estão sem uma resposta definitiva do sistema de justiça brasileiro. A Maíara e a Bruno ainda estão lutando para que seus casos saiam da fase de inquérito e sejam denunciados na esfera criminal, pelo Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, assim como elas, outras milhares de vítimas e familiares, aguardam também por reparação do Estado. O visão de dentro é uma iniciativa da redes da Maire, e conta com o apoio do Instituto Serra Pileira, uma instituição que valorise e promove conhecimento científico no Brasil. A direção geral é de Eliana Souza Silva, a direção executiva de Liliane Santos, Maíra Gabriel, Michael Sardinha e Tainal Varenga, roteir e pesquisa de Jessica Piles e Natas Chanere, a assistência de pesquisa de julho na escimento e Felipe Souza, produção de a fonso da Lua e Arthur Viana, revisão de conteúdo de lidi animal anquine e macela cardoso, consultoria de Telro Press, loucoção de Tainal Varenga, trilha sonora de Cainã Bonilca, montagem de Abel Duarte, identidade visual de Adriana Reyes e designer de Bruno Montoure e a fonso da Lua, a assessoria de imprensa de André Abrum, colaboração de Maria Teresa Cruz e Grasiléne Firmino, agradecimento a toda a equipe do eixo direito à segurança pública e acesso à justiça que toca fialmente esse trabalho no território da Maire. Os cinco episódios dessa primeira temporada estão disponíveis nas principais plataformas de áudio. Até a próxima temporada!

Podcast Summary

Key Points:

  1. O episódio final da primeira temporada do podcast "Visão de Dentro" aborda o caso de Maíara Oliveira, uma jovem grávida alvejada por um tiro de fuzil durante uma operação policial na Maré, em 202
  2. O caso completou cinco anos sem resolução, e a comunidade, por meio da Redes da Maré, realizou uma documentação independente da cena do crime, já que a perícia oficial nunca chegou.
  3. Utilizando metodologias de arquitetura forense, uma equipe multidisciplinar reconstruiu em 3D a trajetória do tiro, cruzando testemunhos, fotos, manchas de sangue e marcas na parede.
  4. A análise demonstrou que o disparo só poderia ter partido da posição onde os policiais estavam, contradizendo a versão oficial.
  5. O trabalho é chamado de "contraforense", pois rompe com os cercos tradicionais da perícia estatal, priorizando a participação das vítimas e da comunidade como especialistas.
  6. A iniciativa busca produzir evidências que possam influenciar a opinião pública e os processos judiciais, combatendo a "injustiça testemunhal" que silencia moradores de favelas.

Summary:

Este episódio do podcast "Visão de Dentro" detalha o caso de Maíara Oliveira, uma jovem grávida baleada na barriga em 2020 durante uma operação policial na Maré, no Rio de Janeiro. Cinco anos depois, o caso segue sem resolução, e a perícia oficial nunca foi realizada no local. Diante da omissão do Estado, a Redes da Maré, organização comunitária, documentou a cena do crime com fotos, testemunhos e coleta de evidências, como marcas de sangue e buracos de bala na parede.

A partir desse material, uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, incluindo arquitetos, geógrafos e assistentes sociais, aplicou metodologias de arquitetura forense para reconstruir a trajetória do disparo em 3D. A análise cruzou a posição de Maíara, o ferimento de entrada e saída, e a marca na parede, concluindo que o tiro só poderia ter vindo do local onde os policiais estavam posicionados. O trabalho é chamado de "contraforense", pois rompe com o isolamento tradicional da perícia, envolvendo a comunidade como especialista e abrindo espaços alternativos para apresentar as evidências, como mídia e exposições.

O objetivo é combater a impunidade e a "injustiça testemunhal", dando voz a moradores e sobreviventes que são sistematicamente ignorados pelo sistema de justiça. Essa iniciativa pioneira no Brasil mostra como a ciência forense aliada à mobilização social pode produzir evidências poderosas para a luta por justiça.

FAQs

É um podcast sobre ciências forenses e acesso à justiça, produzido dentro da Maré, que debate o papel das ciências forenses na luta por justiça para vítimas de violência de Estado.

O caso de Maiara Oliveira, uma jovem grávida alvejada por um tiro de fuzil na barriga durante uma operação policial na Maré em 2020, que completou cinco anos sem resolução.

É uma prática que se opõe à perícia estatal, rompendo com os cercos de isolamento da cena do crime, do laboratório e do tribunal, e priorizando evidências coletivas, abertas e colaborativas, apresentadas em diversos espaços públicos.

Usando metodologia de arquitetura forense, a equipe cruzou fotos do local, depoimentos de moradores e da vítima, imagens de satélite e marcas na parede para reconstruir a trajetória do tiro e testar as versões do inquérito policial.

A análise concluiu que o tiro que atingiu Maiara só poderia ter vindo do lado da rua onde os policiais estavam posicionados, contradizendo a versão oficial de confronto.

Apesar de terem acionado a DH para fazer a perícia, os peritos nunca chegaram ao local. Das 172 mortes em operações policiais na Maré entre 2016 e 2025, apenas 16 tiveram perícia de local.

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