O autor retoma a leitura conjunta de "Totem e Tabu" (1913), de Freud, destacando a relevância de discutir temas como desejo, proibição e neurose obsessiva. Ressalta que Freud não via os primitivos como inferiores, mas os comparava aos neuróticos modernos para provocar reflexão sobre semelhanças comportamentais. A análise foca no animismo, primeira visão de mundo, onde tudo é animado e a magia é a técnica que impõe leis mentais na realidade, sendo a onipotência dos pensamentos um conceito-chave compartilhado por primitivos, neuróticos e narcisistas. Freud descreve três fases evolutivas: animista (narcisismo), religiosa (transferência de onipotência para deuses) e científica (reconhecimento da finitude humana), que não se superam linearmente, mas se sobrepõem. O mito científico do parricídio na horda primeva explica a origem do totemismo: os irmãos matam o pai tirano, sentem culpa e instituem a exogamia, transformando o pai morto em totem (lei). Esse evento funda a cultura através da ambivalência afetiva (ódio e admiração) e da obediência adiada. O autor enfatiza a necessidade de abstrair esses conceitos e atualizá-los para o contexto contemporâneo, evitando interpretações literais, e relaciona o mito ao complexo de Édipo e à dinâmica social moderna, como o Carnaval como válvula de escape para desejos proibidos.
Boas-vindas e Contexto da Leitura de "Totem e Tabu"
Oi pessoal, tudo bem?
Bom, vamos à parte 2 da leitura que a gente tá fazendo em conjunto do texto totem tabu de 1913, de Freud.
Na verdade, uma leitura em conjunto entre aspas, né?
Aqui, na verdade, trago ponto sublinho pontos que eu acho relevantes da leitura que eu faço pra que a gente discuta.
É claro que a minha intenção não é esgotar o texto e é por isso que eu trago em diferentes formatos no sentido de propor.
A partir da estrutura que Freud propõe, é claro, né?
Essa leitura e a gente discutindo em associação livre, né?
Fazendo essas amarrações que eu acho que são super produtivas e importantes pra gente gerar novos debates a respeito de temas tão importantes.
No primeiro vídeo em que a gente tratou da da introdução do texto.
E falamos algumas coisas já mais avançadas a respeito de desejo, de proibição das aproximações que Freud propõe a respeito do tabu e da neurose obsessiva.
A maneira como a gente vai.
É discutindo, né?
A respeito, é das motivações, muitas vezes que fazem com que os atos obsessivos, né?
Repetitivos aconteçam, assim como num nível mais macros, rituais que vão conduzindo também as sociedades e vão dando os primeiros passos a respeito do que Freud também vai discutir mais pra frente sobre a Constituição das religiões, a maneira como essas crenças vão sendo importantes a ponto de.
Não só ritualizar os momentos mais é prementes dessas sociedades ditas primitivas, né?
Lembrando aqui foi um adendo que eu fiz no início do vídeo anterior, do primeiro vídeo.
Super importante que Freud não considera que os primitivos como uma categoria inferior da sociedade civilizada.
Muito pelo contrário, aquele problematiza ele muitas vezes ironiza, no sentido de é.
Convocar os homens e mulheres modernos, né?
A pensarem com um pouco mais de humildade a respeito das semelhanças que se tem, muito proeminentes em relação aos comportamentos desses ditos primitivos em comparação com os nossos neuróticos, né?
Com a sociedade civilizada é que a gente já verifica.
É claro que lembrando que Freud fala que né, é um, é um.
É um homem do século 19, século 20, com a né?
Sua maior parte produtiva do ponto de vista teórico.
É acontecendo no século 20, ele morre em 39.
Mas é claro que pensando nessas distâncias de tempo em relação a essas sociedades primitivas, né?
Com a qual com as quais ele trabalha, pensando nesses comportamentos primevos e fazendo a comparação daquilo que ele verificava na sua realidade.
Em comparação com a nossa, no século 21, existem distâncias muito maiores historicamente.
Falando em relação ao tempo dele, nosso, portanto, né?
Muito curto.
Um é entre 1 e outro, mas muito longo em relação a essas sociedades, né?
Que ele traz aqui para exemplificar, para ilustrar, para problematizar, EE nos convocar a pensar de maneiras distintas a respeito dessas semelhanças e da maneira como a nossa Constituição.
E aqui ele traz muito numa proposta até filogenética, né?
De herança em relação é a comportamentos, a crenças, a maneira como as gerações importam também nessa.
Instituição de costumes, de hábitos, de crenças, da forma como a gente vai se estruturando, psiquicamente também como efeito dessa coletividade e também como como produtores dessa dinâmica coletiva, né?
Nessa retroalimentação constante.
A Primeira Visão de Mundo: Animismo, Magia e Onipotência dos Pensamentos
Bom, feita essa ressalva, né?
Pra até pra gente resgatar um pouquinho do que foi discutido no vídeo.
Um agora a gente parte pra pra ideias fundamentais que ele trata no texto.
É sobre animismo, magia e onipotência de pensamentos, aqui já dando grandes passos aí em relação a esse paralelo que ele vai propor em é se tratando da neurose obsessiva dos comportamentos verificados e da maneira como esses processos psíquicos vão conduzindo a vida desses sujeitos no animismo.
E aqui ele vai separar, inclusive por fases, para nos dar uma ideia, entre aspas evolutiva é de movimentação de dinâmica, da maneira como esses homens primévos pensavam.
A sua vida, os seus costumes, os seus rituais e a forma como o pensamento vai sendo muito protagonista é nessas dinâmicas, nesses processos e também dando uma ideia de complexificação a respeito das dinâmicas de mundo, das narrativas criadas.
E isso vai nos apontando também para essa é complexidade, né?
Com que o homem e a mulher vão se confrontando ao longo do tempo, no caso do animismo.
É, a gente pode dizer que é a primeira visão de um mundo da humanidade, segundo sinaliza Freud, onde o universo é povoado por espíritos e tudo é animado, né?
Todas as coisas são provedoras.
Aliás, são, possuem em si vida, né?
Constituem se de maneira animada, no sentido de pulsarem, né?
De terem uma participação ativa no mundo.
Que as rodeia, né?
Do qual elas participam.
Então, essas sociedades primitivas tinham essa essa característica de observar os objetos ao seu redor, os fenômenos como coisas animadas, a ponto de atribuírem a elas papéis muito significativos na dinâmica social, e a técnica do animismo, portanto, é a magia que impõe as leis da vida mental na realidade.
Então aqui a gente vê que o pensamento ele está muito preconizado pra.
Realmente perceber a realidade de maneira inclusive mágica, né?
Fantástica com poderes.
De que isso, do que da ordem do pensamento, tem total é habilidade, potencial, poder, porque não de se tornar real, de fazer parte de fato, de se materializar na realidade.
E o conceito chave aqui, portanto, nessa perspectiva, é a onipotência dos pensamentos mesmo, que é uma característica tanto do primitivo quanto do neurótico e do narcisista.
A Evolução da Visão de Mundo: Animista, Religiosa e Científica
Freud vai estabelecer uma evolução dessa visão de mundo que espelha o desenvolvimento da libida.
E aqui ele traz 3 momentos pra gente, didaticamente, se organizar.
O primeiro deles é essa fase animista da qual eu falei, que corresponde a esse narcisismo, né?
Onde o pensamento pode tudo, essa capacidade de materialização é disso que é, da ordem do pensamento, mas que, né?
Num num momento mais primevo, obviamente não se tinha tanta tantos elementos, talvez, né, pra sofisticar.
Essa essa diferenciação a respeito do que é da ordem interior, psíquica, daquilo que se evidencia na realidade, tanto é que nessa tentativa de explicação dos fenômenos do mundo se tinha muito se partia muito do pressuposto de que isso da ordem do mental, participava ativamente da materialização que se verificava na realidade dos processos dos fenômenos da natureza e coisas do gênero.
E essa e a segunda, segundo momento, segunda fase é a fase religiosa que corresponde à escolha de objeto.
Então, essa saída desse protagonismo exacerbadamente interiorizado, né?
Desse pensamento que tudo povoa, que tudo materializa que tudo pode.
Para a escolha de um objeto, então, essa onipotência transferida para deuses, para pais, para autoridades, para figuras de poder que vão ter essa habilidade, essa esse poder e essa função de conduzir esses sujeitos, essa realidade.
Conforme, né?
É as suas dinâmicas que são para esses, para essas pessoas, para esses homens e mulheres.
Então, nessa época coisas.
Dignas de credibilidade a ponto de ser respeitadas, né?
E é claro que aqui falando de uma maneira muito simplificada, todos os processos de complexificação, né?
De condução de hierarquização.
Dessas é, é imposições desses rituais.
Isso vai sendo acrescido, vai sendo é submetido a inúmeras transformações, à medida que se percebe diferentes valores a respeito de diferentes.
Fenômenos dinâmicas e maneiras de como se organizar nessa sociedade.
Então, essas complexificações, elas vão adicionando camadas a esses fenômenos maiores, macrossociais, podemos dizer assim.
E essa fase religiosa vai ser muito importante pra esse, pra essas esses novos estabelecimentos, esses novos ditames sociais, porque vai ser justamente a marca, o Marco, aliás, de uma transferência, de um deslocamento, de uma movimentação em relação àquilo que era.
Plenamente interiorizado, né?
Pra participar com poderes, né?
Nesse nível mágico, até da realidade pra alguma coisa que tá fora e que merece respeito, merece esse essa crença de que possui poderes para tanto, né?
E depois, como terceira fase, é a fase científica, que é justamente esse ajuste, a realidade e o reconhecimento da finitude humana, né?
Saindo um pouco dessa perspectiva de um objeto.
Endeusado exacerbadamente respeitado no sentido de ser o detentor de todos os poderes, né?
Inclusive de subjugar essa sociedade é que o respeita pra o reconhecimento de uma finitude humana, a magia.
Aqui ela vai operar por semelhança, né?
Metáfora e contiguidade que a gente chama de metonímia, né?
Aquela questão da parte pelo todo, podendo fazer processos de simbolização de representação mais sofisticados do que a outrora, mecanismos que, segundo lacan, estruturam a própria linguagem e o inconsciente, então.
É de maneira mais complexa que a gente começa a perceber fenômenos, processos que vão dar conta de tornar as coisas menos literais.
A gente vai começar a ter uma capacidade de simbolização mais sofisticada, mais refinada, mais aprimorada, de modo que não se precisa ter todas as partes de um todo pra conseguir observar de forma panorâmica.
A realidade é, a gente pode atribuir funções, significados a determinadas frações daquilo que é da ordem do real ou não.
Pra que a gente consiga compreender o mundo, organizá lo se situar nesse mundo e pertencer a ele, né?
Bem, é.
Essas fases são importantes porque elas vão nos dar muitas pistas de como esses, essa essa dinâmica de criar a realidade, de estruturar as narrativas, de pensar os comportamentos, de articular aquilo que é simbólico, aquilo que é imaginário, aquilo que é real, né?
Trazendo um pouco dessa dinâmica lacaniana que nos serve muito pra pensar essas diferentes esferas.
Disso que é a nossa experiência, da maneira como a gente se relaciona com ela, com os as pessoas ao redor, com os objetos, enfim, essa, essas fases, elas me parecem organizadoras no sentido de sustentar uma base um pouco mais consistente pra gente pensar, claro que não de maneira linear, como se uma fase simplesmente superasse a outra, mas pensando também muito freudianamente, falando da forma como as etapas, elas não se não se superam, mas elas vão se sobrepondo.
Elas vão se.
Se retroalimentando, vão criando.
É preponderâncias, né?
De modo que alguma coisa passa a ter um valor mais elevado, ou então ter um protagonismo um pouco maior, mas não que necessariamente o que veio antes.
No sentido cronológico, né?
Perca perda, tenha AA tenha como efeito, né o.
Aniquilamento total de um sentido previamente construído.
Faltou a palavra pra você fazer toda essa construção, enfim, então acho que é bastante ilustrativo a gente pensar dessa forma.
O Retorno do Totemismo e o Mito Científico Freudiano do Parricídio
Depois eu gostaria de falar, pegando esse gancho, então, dessas fases, dessa forma como a gente pensa, né?
A organização dessas sociedades dos sujeitos.
A importância do retorno do totemismo na infância como um ato fundador.
E aqui já vamos começar a fazer outras relações também provocadas por Freud a respeito de como esse mito científico freudiano, né?
Que vai trazer essa perspectiva da da orda, da orda primeva, né?
Da maneira como esse clã familiar, né?
Vai ter como característica AAAA presença desse pai, né?
Como figura é.
Detentora de todas as mulheres, pensando numa estrutura patriarcal e da maneira como Freud narra, né?
Essa dinâmica mitológica desse pai, então, que era o detentora de todas as mulheres, portanto, alvo de inveja dos filhos, mas também de muito respeito e que acaba, em dado momento, sendo alvo, sendo vítima de parricídio, os filhos se unem para matá lo e é depois dessa morte, esse pai virou totem.
Esse pai morto virou um símbolo de uma lei que acaba sendo colocada dentro daquela dinâmica familiar que.
Justamente vai contra a finalidade do assassinato, né?
Ou seja, se matou o pai para que ele não tivesse todos aqueles privilégios.
Mas, ao mesmo tempo, quando esse pai morre, todos os filhos abdicam desse desse privilégio de ser o detentor de todas essas mulheres, porque nenhum deles isoladamente teria esse poder de conseguir sustentar essa posição.
E também, né?
No limite, isso ocasionaria.
É um ciclo sem fim de mortes por conta de um motivo que nunca IA.
É se é aniquilado que justamente funcionaria, portanto, dentro dessa lógica, como a causa desses problemas.
Então institui se que ninguém vai ter esse super privilégio paterno, todos vão abdicar dessa relação com as mulheres do seu próprio clã.
De modo que aí a gente tem essa perspetiva, inclusive da isogamia, né?
Se ilustrando.
De modo que essas relações, então, vão sendo feitas fora desse ambiente, né?
Sem nenhum desses filhos ter o privilégio absoluto de ser o detentor de todas as mulheres.
E esse pai passa a funcionar como uma figura totêmica, como alguma coisa inabalável, porque precisa ser respeitado e é símbolo de uma interdição imposta a todos os membros daquele grupo E ao mesmo tempo.
E aí Freud vai desenrolando isso, né?
O tratado do tabu e do totem como?
É na maior parte das sociedades primevas.
Se apesar de se haver, né, esse totem como um símbolo irrevogável, super respeitado, existe um momento estabelecido em consenso para todos, em que todos precisam participar, que existe, por exemplo, a refeição totemica, então se mata este animal, este símbolo, este totem, né?
Que para cada sociedade varia, qual é?
É de modo que isso precisa ser feito com a participação de todos.
E enfim, aí são os rituais variados, né?
E aí mistura isso da Redenção, da punição, mas também do remorso, da culpa e de uma de um ato que simboliza também libertação.
E como se fosse também um momento ali pra conseguir extravasar, colocar é em evidência.
Esse desejo proibido, né?
Que é permitido uma vez por ano, ou seja lá a periodicidade com que isso aconteça.
Então, Freud vai dando essas explicações a respeito e a gente pode trazer para uma perspetiva contemporânea, né?
Muito se fala do Carnaval como esse momento de permissividade é.
Muito mais exaltada, muito mais evidenciada do que em qualquer outro momento do ano, né?
Mesmo em uma sociedade como a sociedade brasileira, que teoricamente possui muitas liberdades no âmbito sexual, né?
De expressão, de gênero, enfim.
Mas ainda assim, a gente sabe que, contraditoriamente, o Brasil é o país que mais mata transexuais e assim por diante.
Feminicídios, né?
Mas dentro dessa perspectiva psicanalítica, então, esses atos de é Liberdade esporádica, né?
De realmente se.
Despir das regras e poder fazer as suas, cometer os seus excessos sem punição.
Isso seria necessário pra manutenção, na maior parte do tempo, dessa postura de respeito às regras, às interdições, ao proibido, né não sucumbindo aos desejos de maneira completamente livre e sem sofrer os efeitos, as consequências disso, certo?
Então fiz uma grande, grande passeio aqui, que nem era a ideia fazer.
Mas eu acho que é importante nessa altura do texto, a gente já falar um pouco sobre isso, né, que está contido no texto, e poder fazer essas associações para identificar o lugar onde essas discussões, esses debates cabem, né?
Então esse mito científico freudiano vai ser, vai ser munido a essa hipótese da ordem.
Primitiva de Darwin, né?
Que Freud usa bastante, porque é esse pai violento que retém todas as fêmeas, expulsa os filhos, como eu falei, e esse evento traumático original, ele é o pai recídio, afinal de contas, onde os irmãos se unem para matar e devorar o pai, busca incorporar sua potência só para fazer a síntese do que eu acabei de explicar.
E essa ordem primeva seria o cenário da o cenário da tirania paterna.
Portanto, em outras palavras, né, esse pai que monopoliza o poder e as fêmeas?
O pai recídio é ambivalência.
Portanto, aqui, como eu exemplifiquei anteriormente, os irmãos vão matar e vão devorar esse pai.
Mas esse ato, ele é.
Ele é motivado não apenas pelo ódio, pela inveja, né?
Mas ele é motivado pela ambivalência afetiva, ou seja, o ódio por esse obstáculo que o pai figura em relação a essa detenção absoluta das mulheres e do e dos privilégios, todos daquele clã, mas também a admiração pelo modelo que ele representa e por isso.
Ele vai se tornar depois o totem, né?
Esse símbolo de respeito, né, a imposição da lei.
O pai morto é a lei, né?
Isso é o que a gente aí a gente começa a fazer relações também com o próprio complexo de édipo e o complexo de castração, né?
A lei, ela só passa a existir quando esse país está morto, né?
De certa forma, quando é existe essa mobilização dessa figura, né, dessa, dessa, dessa simbologia, desse símbolo.
Que o que o pai representa num lugar de altíssimo grau, né, de altíssimo nível.
Então ao mesmo tempo que ele exerce essa função de modelo, ele também foi anteriormente, né, anterior a isso, motivo, alvo de ódio, né?
Então são sentimentos ambivalentes que coexistem e esse ato, portanto, ele vai instaurar essa cultura.
A cultura através da culpa e da obediência.
Obediência adiada, né?
Antes de sentir culpa, antes de obedecer, de respeitar o pai, afinal de contas, foi assassinado pelos filhos.
Então houve primeiro um ato de de né?
De expurgar esse ódio, de colocar em evidência esse sentimento para depois vir a culpa, para depois vir essa obediência adiada, que vai, afinal, adiada, né?
Que vai, afinal de contas, ser também uma mola propulsora.
Para organizar a cultura, para organizar as leis, para organizar a maneira de funcionar dos fenômenos, né?
Dos das dinâmicas sociais, que vão ser fundamentais para que haja o mínimo de coesão e de manutenção, de possibilidade de coexistência de tantos sujeitos diversos no mesmo, na mesma sociedade, né, sendo regidos aí pelas mesmas regras e para evitar essa autodestruição.
Como eu falava antes, né?
Se o pai morreu porque ele era o detentor de todas as fêmeas, não se pode matá lo e escolher um irmão para isso, porque esse irmão?
Além de não ter força suficiente, né?
Segundo, é esse mito para sustentar essa posição tão privilegiada, ele também seria alvo, nessa mesma lógica, de uma nova morte, de um novo assassinato.
Afinal de contas, ele de novo, a história estaria se repetindo, né?
Uma única pessoa, detentora de todas as fêmeas, de todos os privilégios, e assim sucessivamente.
Então, para evitar essa autodestruição, esses irmãos, né?
Nesse mito original, eles vão renunciar, essas mulheres.
Caracterizando a exogamia, como eu falei, e proibindo a morte do substituto do pai.
E no caso, né Teles pai como o totem.
Bom, e aí aqui a gente começa a trazer uns elementos mais psicanalíticos pra discussão depois dessa história, dessa narrativa que serve muito.
A Importância da Abstração e Atualização dos Conceitos Freudianos
E é importante frisar isso, né, gente?
Tem gente que quando a gente começa a trazer esses mitos, essas narrativas que Freud abusiva e usa como ferramenta pra explicar a teoria psicanalítica, tem gente que leva isso ao pé da letra, né?
O complexo de édipo.
Ao pé da letra, a gente tem que levar em consideração que existe um nível de abstração importante, necessário aqui, pra que a gente consiga fazer a mobilização de figuras de, de, de símbolos, de signos que representam esses processos.
E não que necessariamente a gente tá falando do pai, homem que tinha x mulheres e filhos homens, e até porque a gente sabe que conforme o tempo passa, a gente precisa atualizar, inclusive discursivamente, né?
AA maneira como a gente coloca essa teorização feita ali entre os séculos 19 e 20.
Então é preciso que a gente tenha também essa maleabilidade de intelectuais, de pessoas que estudam, né?
Que leem a luz da sua época, no caso, a nossa, né?
No caso da época de onde eu falo, de aonde eu estou, então eu preciso levar em consideração isso tudo, não ignorando a realidade com a qual eu estou.
É me prestando entrar em contato agora para conseguir elucidar, né?
Isso que foi desenvolvido, portanto, por Freud, no seu tempo, seu espaço tempo, certo.
Então é importante a gente ter pôr na conta esse nível de abstração necessário para que a essas teorias justamente funcionem e prestem o serviço que elas visam prestar, né?
Que é justamente explicar metaforicamente também essas dinâmicas psíquicas para que a gente consiga ilustrar minimamente.
Alguns dos elementos mais importantes e que a gente identifica de maneira muito Moderna, muito atual na clínica e em nós mesmos, porque não, né?
Por exemplo, aqui, então próximos ingredientes, próximos elementos pra gente discutir a própria questão da lei e da culpa, né?
A Criação da Lei, da Culpa e o Primeiro Contrato Social
Que é essa criação desses dos 2 tabus que é não matar o totem, não matar o pai e não cometer incesto, a exogamia como o primeiro contrato social.
Então Freud vai estabelecendo aqui essa ponte sobre.
Isso que é narrado nesse mito original, né?
Nisso que vai contar um pouco sobre esse parricídio, seus efeitos e o que vai de novo.
É, aliás, o que vai a partir disso, dando insumos pra Constituição, desse contrato social que vai versar muito, que vai contar muito sobre a maneira como as sociedades vão se organizando dinamicamente é em diversos sentidos, em suas mais variadas camadas, né?
E o conceito chave que a gente precisa ressaltar nessa ideia é a questão da obediência, essa obediência adiada, portanto, né, a lei, ela é mais forte, porque ela é uma lei interna, nascida do remorso, da necessidade de preservar a união fraterna.
No caso, né, disso que aconteceu nesse clã, nesse parricídio que conta, né, sobre esse privilégio.
E é a maneira como esses irmãos então, né, é teoricamente resolveram esse impasse.
E a cultura, portanto, ele é um monumento erigido a memória do pai assassinado.
Então, trazendo essa perspectiva, é desse mito científico individual, muito isolado pra uma perspectiva macro, que é o que a gente tem como intenção e Freud tinha ao construir toda essa narrativa.
E justamente pensar que lugar a cultura ocupa dentro desse cenário coletivo que a gente vai extrapolando, né?
Ao analisar o comportamento dos sujeitos e a forma como a gente vai.
É dinamicamente construindo também esse psiquismo é que vai que vai sendo gerado a partir de heranças também, né?
Transgeracionais?
E a maneira como a gente, enquanto sujeito, participa dessas transformações, dessas constituições em seus diversos âmbitos, dentro, né?
De uma sociedade, portanto, detentora e é ativamente construtora de uma cultura própria.
Projeção, Inconsciente e a Luta do Neurótico Obsessivo
Outros pontos importantes, né?
A projeção e o inconsciente, extremamente importantes.
A humanidade cria os demônios e os espíritos malignos como projeção do ódio, dá vontade de matar e explorar que existem dentro de nós e que não são admitidos.
Então, de novo, né?
Mais uma maneira da gente mobilizar essa perspectiva da ambivalência, né?
Desse primeiro ato agressivo do parricídio, por exemplo, como forma de a gente demonstrar visualizar que.
Essa ambivalência existe, portanto, justamente porque depois de um ato agressivo, no caso desse exemplo, existia um remorso, existia uma culpa que justifica a imposição do totem, o respeito absoluto por esse objeto que inicialmente foi alvo de violência, de agressão, de morte, né?
Então, e isso, claro, a gente está trazendo a níveis extremos justamente para exemplificar o que, dentro dos microcosmos de cada um existe coexiste, né?
Essa ambivalência do amor e do ódio.
E a ponte clínica que eu proponho, né?
Que Freud propõe, que eu ressalto aqui, é justamente que esse neurótico obsessivo ele busca o criminoso que é ele mesmo.
O que Oo que o inconsciente mais quer é deixar de ser inconsciente.
A gente sabe disso, né?
Na clínica, a gente justamente conduz o tratamento analítico para tentar trazer a luz aquilo que está inconsciente.
Não partindo do pressuposto de que o inconsciente vai se mostrar enquanto inconsciente, porque senão ele deixaria de ser inconsciente, a gente teria que 11 equívoco semântico, mas sim despertar a partir de manifestações conscientes possíveis para aquele sujeito da gente ir elaborando, né?
Renarrando construindo uma nova narrativa a respeito desses sinais que vão sendo ofertados por meio desse processo analítico, né?
Da transferência.
Então é essa vontade do que é consciente deixar de ser consciente, né?
Que vai traduzir um pouco dessa luta do neurótico que é em direção anão saber o que ele já sabe.
Então também trazendo aqui essa perspectiva desse proibido, né?
Que vai justificar um desejo que existe e por isso precisa ser proibido a mesma coisa, essa luta do do do neurótico anão saber o que ele já sabe.
Então, dentro dessa perspectiva neurótica, é como se a gente já te já inconscientemente, é claro, né?
Soubesse daquilo que deseja, que luta para não saber.
Então, um pouco contraditório, mas plausível para pensar nas soluções, né?
Nas alternativas comportamentais que se cria para tentar dar conta desse paradoxo, desse conflito interno.
E o complexo de édipo?
Ele vai ser essa reedição individual, desse drama coletivo, né?
Que Freud construiu aqui nessa obra para nos ilustrar esse declínio da figura do pai na modernidade, o retorno da barbárie, como no nazismo, né?
Exemplos contemporâneos.
Mostram que, quando o funcionamento simbólico da da lei falha, o horror da horda primitiva ressurge.
Então, nesses eventos, né?
Extremos da humanidade, a gente consegue ter pinceladas ilustrativas importantes de como essa ambivalência.
Ela pode encontrar furos importantes para se manifestar, aquilo que a gente acha dentro de determinado estágio evolutivo, civilizado civilizacional no qual a gente se encontra.
Teoricamente, seria impossível retornar a determinados estágios.
Ou é verificar na humanidade de comportamentos que significariam um retrocesso absurdo.
A gente sabe que não é bem assim e que constantemente, eu diria, diariamente, a gente pode verificar, se assim quiser, se assim se esforçar pra fazer comportamentos absolutamente contraditórios em níveis mais extremos, como esses de guerra, né?
De violências absurdas aí, mas também a nível.
A níveis mais modestos, né?
Do nosso cotidiano de nós mesmos.
Então, é plenamente possível a gente verificar essas contradições, essas ambivalências emocionais, afetivas que a gente consegue perceber em nós mesmos e nos outros, né?
Então é importante também esse exercício.
Recalque Primário, Linguagem e a Reconciliação com o Pai Morto
Talvez um movimento aí de de autopercepção e a articulação metapsicológica aqui seria mais ou menos, nessa perspectiva desse assassinato, representar esse momento mítico do recalque primário.
E da aquisição da linguagem, né?
Ou seja, a lei ela vai nascer do vazio deixado pelo pai morto, que foi o que eu falei antes, né?
A lei só vai surgir depois que o pai morreu.
Então ele ele ele vai representar essa interdição, né?
Ele vai colocar isso do proibido a partir de um ato que já já foi extremo e que ilustrou exatamente essa atividade desse, dessa agressividade em plenos pulmões, aí nesses, nesses protagonistas, né, nesses agentes do assassinato.
Né?
Claro, aqui falando de uma maneira metafórica, usando como pano de fundo esse mito, mas podendo, é claro, extrapolar isso para as nossas dinâmicas sociais, EAE articulando historicamente, né?
A religião e a moralidade são tentativas de reconciliação com esse pai morto, o sacrifício cristão.
A comunhão é uma reedição da refeição totémica, onde o filho toma o lugar do pai.
Então vejam que a coisa não está tão longe, não é tão é.
Tão distante a ponto da gente conseguir verificar apenas nas, entre aspas, ditas sociedades primitivas.
Muito longe da gente, né?
Não que o início do cristianismo esteja muito perto de nós, mas historicamente falando aqui, nessa perspectiva proposta por Freud, a gente consegue atualizar e verificar elementos dessa dinâmica que a gente está descrevendo agora que Freud nos traz de maneira tão brilhante nesse texto, nas nos ritos.
Do cristianismo nessa comunhão, nesse uso da da hóstia como o corpo de Cristo, o vinho como o sangue de Cristo.
Aqui a gente tem elementos, é, é próprios de um evento extremo anterior a isso que se tornou símbolo, né?
AA própria, a própria morte de Cristo, afinal de contas, né?
A maneira como ele se sacrificou para salvar a humanidade.
Então vejam que todas essas representações vão dando pistas da forma como a gente tem.
Essa perspectiva, por exemplo, da fase religiosa que a gente falava, né?
De de transferir para um objeto e isso da ordem de uma possível salvação, de ser protegido, de estar resguardado, né?
E aí a gente pode aqui desdobrar para muitas perspectivas sociais, inclusive de isenção, né?
De passividade, de como a sociedade tende, muitas vezes, a uma melancolização como maneira de não se.
De se colocar, de não ser proativo, né?
Sobre as resoluções da própria vida, isso no âmbito individual ou coletivo, enfim, milhares de possibilidades, infinitas possibilidades de desdobramento que não vem ao caso trazer agora, mas só pra gente ter ideia de como isso que Freud propõe está muito além.
É muito maior do que simplesmente contar uma historinha de filhos que matam o pai, e isso simplesmente trazendo também uma perspectiva reducionista de se de que o complexo de édipo é simplesmente desejar a mãe e rivalizar com o pai, como se isso não trouxesse efeitos ou não contasse da nossa história para o resto da vida e gerasse efeitos para o resto da vida em relação a quem a gente se torna todos os dias.
Né?
Então, e aqui a gente vê a dimensão, a proporção que isso assume quando Freud articula historicamente isso que ele trata, que ele que ele propõe teoricamente, né?
Quanto o mito científico, a própria, o próprio lugar da religião e da moralidade como tentativas de reconciliação com esse pai morto.
Vejam a importância desse pai figurativamente falando, é claro, né?
Não precisamos relacionar ao gênero masculino, ao pai que tem o casamento.
Heterossexual.
Enfim, a gente pode fazer todas as atualizações aqui.
Não vou me demorar em cada uma delas porque ficaria cansativo.
Mas trago o alerta para que a gente atualize, né?
Para que a gente use o bom senso de reeditando essa discursividade dentro de uma perspectiva é mais atual.
É claro que faz sentido para as nossas diferentes constituições familiares, as diferentes maneiras de se relacionar.
EE que ainda assim a gente traz muitos resquícios.
Disso, dessa, desse mito originário, digamos assim, que vai trazer como protagonistas sentimentos de culpa, de remorso, ambivalência afetiva, emocional, tudo isso que vai nos contar sempre mais um pouco à medida que a gente vive.
E experiencia, né?
Os fenômenos da vida, enfim, né?
Os eventos pelos quais a gente passa, dos quais a gente participa, EE aos quais a gente exerce influência, né?
Conclusão da Parte 2 e Próximos Passos da Leitura
Bem.
Essa é a segunda parte do texto.
Ainda vamos ter mais um ou 2 vídeos.
Um, pô, eu achei que eu fosse fazer 154 ou 5, mas a gente vai conseguir fechar em 3?
É pra falar resumidamente, porque teria muito mais coisa pra gente falar desse texto.
Mas acredito que essas 3 partes vão dar conta de dar um Panorama das ideias principais e a gente abrir pro debate, certo?
Aguardem o próximo vídeo pra gente encerrar essa leitura e.
Conversar um pouquinho mais a respeito dela até já.
Podcast Summary
Key Points:
Freud não considera sociedades primitivas como inferiores, mas as compara com neuróticos modernos para questionar a civilização.
O animismo é a primeira visão de mundo, onde tudo é animado e a magia impõe leis mentais na realidade, com destaque para a onipotência dos pensamentos.
Freud propõe três fases evolutivas da visão de mundo
O mito científico do parricídio na horda primeva explica a origem do totemismo, da exogamia e da cultura baseada na culpa e obediência adiada.
As fases não se superam linearmente, mas se sobrepõem e se retroalimentam, criando preponderâncias sem aniquilar sentidos anteriores.
É fundamental abstrair os conceitos freudianos e atualizá-los para o contexto contemporâneo, evitando interpretações literais.
Summary:
O autor retoma a leitura conjunta de "Totem e Tabu" (1913), de Freud, destacando a relevância de discutir temas como desejo, proibição e neurose obsessiva. Ressalta que Freud não via os primitivos como inferiores, mas os comparava aos neuróticos modernos para provocar reflexão sobre semelhanças comportamentais. A análise foca no animismo, primeira visão de mundo, onde tudo é animado e a magia é a técnica que impõe leis mentais na realidade, sendo a onipotência dos pensamentos um conceito-chave compartilhado por primitivos, neuróticos e narcisistas.
Freud descreve três fases evolutivas: animista (narcisismo), religiosa (transferência de onipotência para deuses) e científica (reconhecimento da finitude humana), que não se superam linearmente, mas se sobrepõem. O mito científico do parricídio na horda primeva explica a origem do totemismo: os irmãos matam o pai tirano, sentem culpa e instituem a exogamia, transformando o pai morto em totem (lei). Esse evento funda a cultura através da ambivalência afetiva (ódio e admiração) e da obediência adiada.
O autor enfatiza a necessidade de abstrair esses conceitos e atualizá-los para o contexto contemporâneo, evitando interpretações literais, e relaciona o mito ao complexo de Édipo e à dinâmica social moderna, como o Carnaval como válvula de escape para desejos proibidos.
FAQs
Freud utiliza o mito darwiniano da horda primeva como uma ferramenta narrativa para ilustrar a origem da cultura e da lei, explicando como o parricídio e a culpa resultante fundam as interdições sociais, como o totem e a exogamia.
A refeição totêmica é um ritual que permite a expressão controlada de desejos proibidos, como o parricídio, em um momento específico. Analogamente, o Carnaval funciona como um período de permissividade e excessos que ajuda a manter a ordem social no restante do ano, canalizando pulsões reprimidas.
No animismo, a onipotência dos pensamentos refere-se à crença de que pensamentos e desejos podem se materializar diretamente na realidade, sem mediação. Essa característica é compartilhada por primitivos, neuróticos e narcisistas, segundo Freud.
Eles renunciam para evitar um ciclo interminável de violência e autodestruição, já que nenhum irmão isoladamente poderia sustentar o privilégio paterno sem ser alvo de novo assassinato. Isso institui a exogamia, base da cultura.
Elas não se superam linearmente, mas coexistem e se retroalimentam. Por exemplo, uma pessoa pode ter crenças científicas, mas ainda recorrer a superstições (animismo) ou a figuras de autoridade (religiosa), conforme o contexto.
A magia por semelhança (metáfora) opera pela imitação ou analogia, enquanto a magia por contiguidade (metonímia) usa a parte pelo todo, como um objeto pessoal para influenciar a pessoa. Ambos são mecanismos que estruturam a linguagem e o inconsciente, segundo Lacan.
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