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RadOn#50 - Chernobyl

56m 42s

RadOn#50 - Chernobyl

O acidente de Chernobyl, em 1986, foi causado por um teste mal executado no reator RBMK, que operava em baixa potência, revelando falhas de projeto como o coeficiente de vazio positivo e o uso de grafite, que intensificavam a reação em vez de controlá-la. A explosão liberou materiais radioativos, como césio, iodo e estrôncio, matando dois trabalhadores e causando síndrome aguda da radiação em 134 pessoas. A nuvem radioativa se espalhou pela Europa, levando à evacuação de Pripyat após 36 horas. A contenção envolveu esforços heróicos, como o despejo de areia e boro e a construção de um sarcófago, com liquidadores expostos a altas doses. Os impactos à saúde incluíram câncer de tireoide em crianças, mas estudos são inconclusivos sobre efeitos de baixa dose, destacando traumas psicossociais. A Agência Internacional de Energia Atômica classifica o evento no nível 7, mas afirma que lições foram aplicadas para evitar repetições, embora reatores RBMK ainda operem. O episódio destaca a importância do fator humano e das falhas de engenharia, servindo como referência para segurança nuclear global.

Transcription

8102 Words, 46762 Characters

Portuguese
26 de abril de 1986, o reator 4 da usina nuclear de Chernobyl ficou fora de controle durante a execução de um teste de baixa potência que acabou resultando em uma explosão seguido de um incêndio que demoliu as estruturas do reator e liberou quantidades massivas de radiação na atmosfera. Esse acidente aconteceu pelo não cumprimento das medidas de segurança que acabaram levando ao superaquecimento do reator e derretimento do núcleo, e isso acabou fazendo com que houvesse dissipação de elementos radioativos como plutônio, iodo, estrôncio e césio dissipados na atmosfera. Além disso, essa explosão inicial resultou na morte imediata de dois trabalhadores e, posteriormente, acabou levando a 134 pessoas a sofrerem por síndrome aguda das radiações. Por essa razão, a Agência Internacional de Energia Atômica categoriza o acidente de Chernobyl na escala 7 de eventos nucleares e radioativos. A Agência Internacional de Energia Atômica categoriza o acidente de Chernobyl na escala 7 de eventos nucleares e radioativos. Naturalmente ele vai deixar de ser o que ele é porque a gente está mudando as características. Então, é daí que vem o césio, o iodo, simplesmente viraram subprodutos do processo de fissão do urânio. Tudo no começo era urânio. Só que conforme o urânio foi sendo quebrado e fissionado, foi saindo um monte de pedaço de núcleo que foi virando outra coisa. E daí que vem esses resquícios, essas partículas radioativas que foram dissipadas. O urânio em si nem é tão problemático assim. Ele é radioativo, claro, mas até se a gente vai ver um processamento de urânio, quando a gente olha na fábrica, tem gente que pega na mão, porque ele em si não é tão radioativo assim, o urânio normal, não enriquecido. Que também, inclusive, é um tema para um outro episódio, eu vou explicar para vocês tudo o que é isso aí, mas agora a gente não precisa dessa informação. O principal que nos é interessante é justamente esses processos de fissão que fazem tudo ficar perigoso. A obtenção de energia é grande e esses resquícios, esses pedaços de núcleo arrebentados que viram elementos radioativos de outras coisas, que nos são interessantes, porque são eles que trazem a problemática do acidente. Assim como nós temos muitos modelos de carros disponíveis no mercado, a gente também tem um monte de modelos de reator disponível no mercado, cada um com as suas particularidades. O objetivo é o mesmo, produção de energia. A lógica é a mesma, fissão nuclear. Todos os reatores que nós temos hoje em funcionamento são de fissão. Eu falo isso porque tem um outro modo de produção de energia que é a fusão, mas daí é outro rolê, isso aí está fora de cogitação no momento. O ponto é, todos são iguais, assim, tem as mesmas funcionalidades, mas cada um tem a sua característica, o seu modelo de engenharia. No caso do reator de Chernobyl, o reator que tinha disponível lá é um que nós chamamos de RBMK, que é um acrônimo russo, que eu não vou saber falar em russo, mas significa. Reator de canal pressurizado, refrigerado, água canalizada. O que isso quer dizer? Já vou falar. O importante de pontuar aqui nesse momento é que Chernobyl tinha quatro desses reatores, quatro reatores iguais, e cada um deles gerava ali, quando estava em pleno funcionamento, cerca de mil megawatts de energia, então é realmente uma quantidade bem grande. E esses reatores foram fabricados há cerca de 30 anos antes do evento acontecer em si, pela União Soviética, na época que aconteceu o acidente, na União Soviética ainda existia, e tinha, inclusive, outras três usinas muito parecidas com o Chernobyl naquela região. E por que eles escolheram esse reator, esse modelo especificamente? O reator RBMK é um tipo de estrutura que é barata e rápida de montar, então isso era muito bom, porque isso alavancava o programa nuclear soviético da época. E, além disso, um dos subprodutos da fissão nuclear do urânio, que é usado ali dentro do reator como combustível, é o plutônio, então, quando você quebra ali o urânio, você acaba obtendo como resquício esse plutônio que é utilizado para ser combustível de bomba atômica. Então isso também era muito bom para os interesses da União Soviética da época, porque ajudava nessa corrida armamentista nuclear, então desenvolvia, eram dois coelhos com uma cajadada só, então por isso que eles gostavam desse tipo de reator. Mas o problema é que ele tinha ali umas particularidades que faziam ele ser considerado um reator não muito seguro. ♪ Música ♪ Bom, então, como que funciona? Continuando a falar sobre os reatores, o que acontece? Por que o RBMK era um problema? Todos os reatores nucleares vão ter um núcleo, onde a gente vai ter o combustível nuclear, para a gente poder obter a energia. No caso do reator RBMK, núcleo ali de urânio, como a gente comentou. ♪ Música ♪ Inclusive eu não comentei agora há pouco, mas o urânio, ele é um elemento escolhido para fazer esse combustível nuclear, não só por ele ser um elemento radioativo, porque tem vários, né? Então, porque o urânio especificamente. Urânio, ele tem uma característica de que quando a gente quebra ele, para fazer esse processo de fissão nuclear, para obter energia, essa quebra faz com que ele libere mais nêutrons, além da energia que a gente deseja. E é justamente os nêutrons que são a chave para a gente conseguir fazer a quebra subsequente dos átomos que estão ao redor. Então, o urânio consegue manter uma reação autossustentável. Isso significa que a gente consegue ter produção de energia constante. Quer dizer que tem um rendimento muito bom, esse tipo de combustível. Então, é importante só pontuar isso também, né? Bom, então, o que acontece? Dentro do núcleo do reator, a gente vai ter o urânio disposto num formato de vareta. ♪ Música ♪ É como se fossem pilhazinhas, essas que a gente tem em casa, né? Empilhadas dentro de um tubo, como se fosse isso, a grosso modo, claro. Então, a gente tem ali várias varetinhas dessas com o elemento combustível. A gente tem muito urânio ali dentro. E ele vai ficar ali dentro, né? Pronto para sofrer esse processo aí de quebra, né? E produzir a energia que a gente precisa. Só que o urânio, ele não fica ali sozinho. No núcleo do reator, a gente tem água. Ele está imerso em água. E por que disso? Porque o urânio tem algumas funções dentro do núcleo do reator, como, por exemplo, fazer o resfriamento. Já que a gente tem produção de energia e isso gera calor, a gente precisa resfriar esse núcleo e essa água precisa, né? Trocar calor ali com o sistema, né? E trocar calor também com o sistema externo. Tipo, existem dois sistemas de água. Um que fica no núcleo, né? Para fazer o resfriamento. E um outro sistema externo, que é com a qual a água do núcleo vai trocar temperatura, né? Fazer essa transferência de calor. Para que a gente não tenha problema de contaminação e tudo mais, né? Então, a água do núcleo é um sistema fechado. Enfim. Então, a gente vai ter ali, portanto, a presença da água, bonitinho, para fazer o resfriamento. E, além disso, a água também vai ajudar a fazer o controle ou a moderação da reação, que é o que acontece. Os nêutrons, eles precisam, digamos assim, ter uma certa velocidade para a gente conseguir ter uma efetividade de fissão. Senão, a gente acaba não tendo uma reação tão eficiente, por assim dizer, a grosso modo. Então, a água vai ajudar a dar uma freadinha nos nêutrons e vai manter essa reação em cadeia muito mais eficiente. Então, basicamente, a água serve para isso e também ajuda a dar uma segurada quando você não quer que o processo de fissão aconteça de modo tão intenso, né? Então, beleza. A maioria dos reatores, inclusive, acaba que tem aí meio que água para fazer essas três funções aí, né? De resfriamento, controle e. Poxa vida, controle e moderação, né? Então, tem basicamente essas coisas aí. Aí, tudo bem, tranquilo, nada demais, né? Todo reator é assim. Só que o que acontece? O reator RBMK, Chernobyl, ele tinha, além da água do núcleo para fazer esse resfriamento, barras de moderação de grafite. O que isso significa? Que essa moderação de nêutrons, que pode servir para fazer o controle da reação, para dar uma freadinha nos nêutrons, né? Então, era feito por essas barras de grafite, que absorve esses nêutrons. Até aí, também, nada uau. Só que qual que é o problema? Quando a gente tem um reator funcionando em baixa potência, ou seja, sem estar no seu funcionamento pleno de fissão, quando a gente coloca essas barras de grafite no meio do reator, porque elas ficam suspensas, aí, quando você quer o reator ligado, elas ficam fora do núcleo. Conforme você quer ir desabilitando o reator, você vai descendo essas barras de grafite para o interior do núcleo. Beleza. Quando a gente tem, então, a inserção dessas barras de grafite para você desligar o núcleo, ele vai reduzindo a sua atividade, o que acontece? Significa que o grafite está absorvendo todos os nêutrons e está freando esses nêutrons. Só que o problema disso é que acaba tendo um efeito meio contrário. Então, ao invés de você desligar o negócio, você está mantendo ele mais ativo ainda, porque você está desacelerando os nêutrons e você está fazendo com que a reação aconteça de um modo muito mais intenso do que o contrário. E outro problema: no espaço onde você tem inserido as barras de grafite, você não vai ter água. O resfriamento do reator é feito por água. Então, isso é o que se chama de coeficiente de vazio positivo. Então, nessas regiões onde tem o grafite, veja o problema: você não tem água, então vai ter menos circulação de água naquela região, o calor vai aumentar, você tem um aumento na reatividade da fissão, produz ainda mais calor e não é dissipado adequadamente. E outra: a água acaba ficando tão quente que ela vira vapor. E isso também faz parte desse coeficiente de vazio positivo, porque o vapor não refrigera o reator, tanto quanto a água líquida. Entendem? Cara, é muito bizarro. Então, com o funcionamento normal, beleza, isso não é um problema. Só que em funcionamento em baixa potência, isso aí, para dar uma cagada, é dois palitos. Tanto que aconteceu o que aconteceu justamente por essa característica desse tipo de reator. Esse tipo de coisa, naturalmente, já é previsto. Grupos de engenharia que fazem essas estruturações de reator sabem disso. E por isso que existem uma série de situações. E limites de controle para que isso não venha acontecer. Mas é que aí que está o problema, né? A gente está falando de pessoas que operam esse tipo de equipamento. Então, a gente tem influência de fator humano. e sempre a maioria dos acidentes que a gente conhece, seja radiológico ou seja nuclear, sempre vai ter uma pontinha ali de fator humano como agente inicial. E ainda, que nesse caso de Chernobyl tinha mais um problema. A estrutura ainda não tinha algumas outras camadas de proteção do reator, da estrutura física do prédio mesmo, que hoje a gente observa que são estruturas de concreto, de chumbo, uma série de estruturação física mesmo, para impedir no caso de ter um comprometimento do núcleo, uma destruição para que esse material que está lá dentro não se disperse, esses resquícios de fissão que é o problema. Urânio em si não é o problema, o problema é o resto dos materiais que sobram desse processo, que foi o que a gente comentou ali no início césio, estroncio, iodo, tudo isso aí é resto então não tinha essa cúpula de proteção. Então, explodiu o reator, naturalmente vai voar. Tinha até uma tampa de concreto em cima, super pesada, mas assim a gente está falando de uma explosão de um reator, então isso não era o bastante tem que ter uma estruturação muito mais, digamos assim mais efetiva, por assim dizer Pequena correção, o grafite ele é um moderador e ele já fica no interior do reator naturalmente. O que faz o controle as hastes que descem e sobem dentro do reator, são hastes que são feitas por um reator, que é o que faz o controle, as hastes que descem e sobem dentro do reator, são hastes que são feitas por um reator de outro material, que é o boro. Só pra gente fazer esse pequeno ajuste de definição de como funciona. Eu escutei aqui de novo e eu precisava corrigir mas o resto, segue o mesmo baile. Dá pra gente entender o que acontece Bom, então agora a gente viu aí mais ou menos como que são algumas características importantes do reator RBMK que é justamente o coração do problema, no caso do acidente de Chernobyl essas características, resumindo, a problemática do reator operar em baixa potência, porque é meio paradoxal a gente ter um sistema de controle que na verdade aumenta o processo de fissão e acaba sendo um problema de controlar depois. Então esse aí que é o X da questão Mas o que aconteceu em Chernobyl, afinal de contas, tem relação com isso naturalmente foi o seguinte, no dia 25 de abril de 1986 Tinha um teste pra ser executado ali no reator, que foi marcado pra tentar descobrir como que o reator opera em situação de emergência, que é justamente onde ele estaria com essas características de baixa potência. Eles escolheram esse dia porque teoricamente era um dia que coincidiria com o reator estar desligado pra conseguir executar esse teste E o que acontece? Veja bem, o reator precisa da água pra poder fazer o resfriamento ali do seu núcleo, como eu comentei com vocês agora a pouco. E no caso de Chernobyl é 28 mil litros de água, então é água pra caramba, beleza. E essa água era lançada no núcleo do reator por meio de um sistema interno que era feito por umas bombas que eram alimentadas pela eletricidade produzida do próprio reator. Então, tipo, vejam que daí a gente tem um problema, né? Porque se o reator não tá funcionando, ele não vai produzir energia elétrica. Então como é que essas bombas de água de resfriamento vão mandar água pra dentro? Se ele tá desligado, beleza, não tem fissão, não tem aquecimento. Mas se ele tá em baixa potência, ele tá produzindo uma quantidade de energia baixa, às vezes menor do que o necessário pra ligar a bomba, né? E ele vai precisar de água pra refrigerar. Mas se a bomba não consegue jogar água o suficiente pra refrigerar na proporção que o reator precisa, a gente tem superaquecimento, aumento de pressão, coeficiente de vazio positivo, né? Então começa a ter umas complicações aí, mas tá, era justamente esse o ponto do rolê, né? E o que que acontece ruim? Obviamente, né? Tinha um sistema ali de alternativo pra conseguir fornecer a eletricidade necessária pra essas bombas, beleza? Que era um geradorzinho ali e tal, beleza. Só que o problema era o quê? Esse gerador, produzindo essa energia que o reator precisava, levava cerca de 60 a 80 segundos pra dar o pico necessário. Ou seja, o reator ficaria quase um minuto sem água circulando. E isso é muito tempo, porque a gente tem que lembrar que esses processos físicos de fissão, qualquer processo físico, físico-químico, eles são muito rápidos, questão de nanosegundos. Então, obviamente, que esperar um minuto pra que isso aconteça é um tempo muito absurdo, o reator naturalmente entraria em colapso. E isso não poderia acontecer. Então eles queriam testar pra ver se eles conseguiriam acoplar, né, a turbina junto, a turbina ali do próprio reator, porque, obviamente, mesmo o reator não estando no seu processo de fissão completo, total e funcional, abaixo do esperado, a turbina que produz a energia continuaria girando pelo menos por 45 segundos, o que é mais rápido do que um minuto, né? Então, seria mais adequado. Então, era isso que eles queriam descobrir, se funcionaria esse tipo de coisa. Então, na teoria, parecia fazer sentido, na prática não tinha sido executado, eles precisavam rodar esse teste. Então, beleza. Chegou no dia 25, começaram a reduzir a potência de operação, reduzir, reduzir, até 30% da capacidade de produção de energia do reator. Então, já era uma quantidade baixa. Só que o problema é o quê? Por alguma razão, pediram pra que restabelecessem a potência do reator, porque tinha uma demanda muito grande de consumo de energia naquela região, naquele dia. Era isso. Não dava pra testar naquele momento. Então, beleza, né? Reativaram o reator, mantiveram a potência de energia do reator. Então, tiveram, subiram a potência de operação, top. Só que daí, o que que acontece, né? Beleza, foi passando o tempo, deram lá, né? Passaram lá a produzir a energia que precisava, puderam retomar o teste, tiveram liberação, né? Tudo isso, naturalmente, foi, é uma coisa que não é feita de aleatório, né? Existe toda uma equipe por trás que vai fazer autorização e condução desse tipo de processo. E, beleza, foram autorizados a dar sequência no teste. Só que esse teste era pra fazer no dia 25 de abril, né? Durante o dia, porque era o momento em que teria a equipe adequada pra fazer o teste. Só que, como teve que, né, interromper por um momento pra poder subir a produção de eletricidade e depois ter que descer a potência do reator de novo, isso demora um tempo, né? Especialmente porque é difícil de controlar esse tipo de coisa, né? Tem que ser tudo programado. Então, o reator, ele foi conseguir descer a potência de novo, já era meia-noite do dia 26. Só que o problema é que a equipe do turno do dia, que era responsável por rodar o teste da noite, entendeu? Então, aí, nessa troca de turno, veio uma equipe que, aparentemente, não sabia executar o teste, né? Como nós podemos observar por esse pequeno acidente, né? Não sabiam conduzir o teste adequadamente. E aí, né? Eis a questão. Então, foi meia-noite e cinco que o reator chegou lá na potência de 700 megawatts, que é considerado uma potência baixa, ideal pra executar os testes necessários. Inclusive, né? Os responsáveis pelo acidente, que foram sentenciados posteriormente, até tem aqui, eu vou ler o nome pra vocês, porque eu não sei falar, porque é russo, sei lá. Então, um é o Aleksandr Akimov, que era o chefe do turno, o outro era Leonid Toptunov, ai gente, eu não sei falar o nome dele, Toptunov, alguma coisa assim, que era o operador das hastes, era o operador do reator, e o Anatoliy Dyatlov, que esse daí é o mais conhecido, né? O chefe engenheiro do negócio, né? E o problema, aconteceu, justamente, entre o Anatoliy e o Aleksandr, porque um era o chefe do turno e o outro era o chefe engenheiro, e ficou uma divergência com relação a ordens do que ser feito naquele momento. Quando o reator tava com a potência baixa, acontece um fenômeno muito curioso, que dentre os resquícios de resto de fissão nuclear, como eu comentei com vocês, né? O urânio quebra e vira outros elementos, né? Tinha lá o sésio, tinha o iodo, tinha o strontz, mas um outro elemento que estava sendo produzido no núcleo do reator e baixa, a potência, era o gás xenômio. E isso faz com que a potência do reator fique ainda menor, porque ele faz um processo que se chama envenenamento do reator. O que acontece? O xenômio, ele absorve nêutrons, então ele vai freando esses nêutrons, e isso vai gerando mais calor, porque toda partícula, quando ela tá sendo acelerada e ela reduz a sua velocidade, essa energia que ela tinha, essa energia cinética, ela precisa ser convertida em alguma coisa, porque nada some, no universo, né? E ela é convertida em energia térmica. E isso daí vai fazendo com que o reator funcione com potência ainda menor. Só que aí vai entrar naquele processo que eu comentei com vocês, né? Do reator de baixa potência, de ser um paradoxo, né? Na verdade. E, nossa, gente do céu, que cagada. E daí o que aconteceu? Começou a ter discussão, né? Entre o Alexandre e o Anatoly com relação ao que fazer, porque o. O Alexandre falou, né, que no manual não podia o reator funcionar abaixo de 700 megawatts, mas o Anatoly teimava que sim, que tinha que derrubar esse funcionamento pra 200 megawatts. E o xenômio ali comendo solto, quase desligando o reator, absorvendo todos os nêutrons, esquentando pra caramba aquele núcleo, criando uma caralhada de coeficiente de vazio positivo. Nossa, eu tô contando. Eu tô suando aqui, só de contar o negócio. E eles não viram. Ai, meu Deus do céu. Nossa senhora. Daí tudo bem. Quer dizer, tudo bem não, né? Mas tá. O operador, né, do reator ali, eles resolveram que eles iam erguer. as barras de moderação pra conseguir dar uma aumentadinha ali na potência porque tava realmente abaixando menos de 200 ainda então eles resolveram erguer a barra de controle pra evitar de absorver mais nêutrons, porque os nêutrons já estavam quase sumindo com o xenônimo ali no núcleo envenenado sobre o que que acontece com pouca energia justamente aconteceu aquele negócio que eles estavam tentando testar as bombas que jogam a água pro núcleo do reator não estavam conseguindo bombear a água adequadamente, a temperatura subindo abruptamente, especialmente por causa do coeficiente de vazio positivo ou seja, começou a formar bolha de vapor não pela ausência das barras, mas por causa das bolhas de vapor que tava formando na água do núcleo e lembrando o vapor não vai absorver nêutron só a água ali que vai ajudar a fazer a moderação e reduzir a temperatura não refrigera adequadamente e nossa senhora então o negócio começou a subir temperatura subindo, subindo, subindo quando foram perceber o engenheiro ali, o Anato ele tentou apertar o botão de emergência pra fazer descer as barras de controle só que travou não descia e a parte que desceu ainda então fazia mais coeficiente de vazio positivo porque era ausência de água naquela região onde estavam aquelas barras e aí não teve jeito um descontrole total simplesmente aconteceu uma explosão por causa da pressão a pressão fez isso veja, não seria bem como se fosse uma bomba porque a bomba nuclear é só você pegar ou fissionar tudo de uma vez e que vai explodir nesse caso, não foi nem pelo processo da fissão em si, mas por causa do aquecimento gerado por tanto freamento de nêutron e claro também pelo processo de fissão, porque gera calor isso de qualquer maneira e por falta de resfriamento, principalmente então deu 1:23 à madrugada uma explosão absurda aquela tampa que tampava o reator de mil toneladas voando longe e o reator completamente exposto no ar nossa senhora não, e o pior nossa, daí é eita atrás de eita, sabe? reator exposto ao ar livre, ambiente o grafite de dentro do reator que era usado nas barras de controle começou a pegar fogo por causa do ar entra em contato e então começa a pegar fogo e e o problema é que esse fogo e o ar, e tudo ali mais a água e os metais que tinham dentro do reator começavam a gerar hidrogênio e isso faz explodir mais ainda não teve uma explosão atrás de outra explosão aí ferrou, porque daí começou a dissipar todo aquele resquício aquele resto de fissão do urânio então o iodo, estronço, césio explodiu, aquilo foi lançado na atmosfera, a quilômetros de distância e isso fez com que surgisse uma nuvem radioativa com esses elementos lá em cima precipitados, voando por todo lado e assim foi tudo muito rápido também teve explosão, inclusive de imediato quem estava ali perto do reator morreu eram duas pessoas dois operadores ali que morreram por causa da explosão, da detonação e logo na sequência da explosão dois minutos depois, os bombeiros ali da região já foram direcionados para tentar conter e tentar trabalhar naquela região só que eles não foram informados do que que é que estava se tratando aquela situação, ninguém falou para os bombeiros que aquilo era uma situação de acidente nuclear e eles não sabiam, então eles se expuseram e o pior é que assim daí entram as questões de mascarar o que estava acontecendo, tanto que o governo ali, ninguém é aquele negócio, nossa, explodiu alguma coisa aí não, não, está tudo bem, sob controle tem certeza? não, não, está tudo bem ó, nosso detector aqui está mostrando que a radiação de fundo é 3.6 Röntgen, Röntgen é uma unidade de medida para exposição tinha ali, 3.6 Röntgen só que o problema é que esse 3.6 é fundo de escala, ou seja é teto de escala de detector o detector que eles estavam utilizando ia até 3.6 Röntgen então eles mediam e falavam ah não, está tudo bem, 3.6 Röntgen mas não, na verdade, se você fosse medir com um equipamento que conseguisse numa escala maior ia perceber que estava na verdade em 30 mil Röntgens, que tipo cara, é muita exposição gente cara, é muita radiação, nossa eu não consigo nem fazer uma analogia aqui porque é muita radiação enfim, e na verdade o acidente ele só foi pontuado mesmo, o governo da União Soviética só admitiu o acidente porque essa nuvem imensa de material radioativo que foi dissipada na atmosfera, começou a voar pela Europa e começou a atingir outras regiões, então foi para Polônia Alemanha, Áustria, Romênia, Suíça Itália, França, Bélgica, Holanda, Inglaterra Interesse, Japão, Índia, Canadá, Estados Unidos começou a ir para todos os lados e aí, todo mundo começando a perceber que tinha um negócio avisando que tem radiação e não é nada, ah não aí realmente o governo da União Soviética não teve outra escolha se não realmente admitir o que tinha acontecido, mas óbvio que isso não foi de imediato inclusive os bombeiros boa parte das pessoas que sofreram posteriormente foram vítimas desse evento por síndrome aguda das radiações foram os bombeiros justamente porque não foram alertados do que estava acontecendo, se expuseram sem saber ao que estavam se expondo e com relação a cidades, porque Chernobyl ficava em Pripyat, que era uma cidade construída justamente para as pessoas que trabalhavam na usina e era uma cidade grande e ela foi evacuada, só que isso foi 36 horas depois do acidente e o governo, eles falavam assim, que era para só pegar coisas pessoais ali umas coisinhas que logo iam retornar iam voltar, na verdade não, foi realmente zona de exclusão, tiraram todo mundo evacuaram todo mundo, essas pessoas nunca mais voltaram para suas casas E aí, depois que explode um reator o que você faz? A gente tem que lembrar que nunca aconteceu um acidente como Chernobyl antes então, quando a gente pensa em medidas de ação, é tudo muito no improviso porque você não tem experiência prévia para você definir uma conduta do que você vai fazer para consertar o negócio depois que já azoou todo o barraco Beleza, tem que dar um jeito de parar, tem que parar um incêndio principalmente para parar de dissipar material radioativo por aí, como é que faz isso? Não dá para jogar água porque você vai fazer mais hidrogênio e vai continuar explodindo, não pode então você tem que tentar fazer alguma coisa O que eles tentaram fazer? Jogar uma mistura com areia e boro para poder fazer a absorção de nêutrons e tentar parar efetivamente com os processos ali nucleares que estavam acontecendo só que o problema é que você não podia chegar muito perto por causa do nível de radiação então os aviões que sobrevoavam o reator, eles tinham que fazer um tiro-alvo e tem umas fotos bem interessantes na internet que é os aviões com o chão revestido com chumbo, que os próprios pilotos montavam para tentar evitar absorver a radiação, só que era muito difícil você acertar um saco de areia com boro em cima de um reator e movimento no avião longe ainda por cima então não era lá muito efetivo e é outra coisa, começou a dar um monte de zika porque aconteceu essa mistura de areia com boro, urânio e os outros metais da composição do reator eles começaram a derreter e virou meio que uma lava parecia uma lava radioativa tem um nome para isso que se chama Corium que se você for procurar na internet vai ser tipo o pé de elefante uma lava assim bizarro mesmo, é um negócio tenso só que aí tem um problema nossa senhora, isso aí é parte de uma história bem interessante, isso aí inclusive é um episódio a parte posteriormente que é o seguinte, embaixo do reator tinha um reservatório de água que fazia parte dos processos de funcionamento da estrutura, e qual era o medo? se esse corium encostasse nessa água do reservatório que estava logo abaixo, cara isso aí ia explodir de novo ia dar uma cagada por causa da questão do grafite e hidrogênio e tal, ainda mais com a água ali puta, isso aí ia ser tenso, e daí o que eles fizeram? eles tinham que ter um plano de ação para tirar essa água do reservatório e aí que entram os voluntários, tem três voluntários que eles se colocaram a sacrifício para entrar nesse reservatório e liberar a água, e eles conseguiram eles esvaziaram eles são considerados heróis inclusive por terem se arriscado, e o mais curioso de tudo, por isso que eu falo que isso merece um episódio a parte que ainda farei, eles não morreram inclusive tem dois que estão vivos ainda pelo menos até 2019 eles estavam agora eu já não sei mais, mas até esses dias aí, os caras estavam aí não morreram, ao contrário do que tudo indicava, do que todos pensavam não morreram, não sei também a razão disso, talvez a exposição naquele reservatório não tenha sido tão intensa estrutura muito densa ali barrava, não sei vou pensar sobre isso, vou dar uma lida depois eu gravo um episódio para vocês bom, e aí beleza, sobreviveram e além disso teve mais um negócio, a questão é que toda essa explosão gerou uma série de detritos ao redor do reator e o que acontece, tinha que blindar aquela bagaça, fazer um sarcófago se você for procurar na internet hoje, você vai encontrar a blindagem do reator como sarcófago, top só que como você vai construir um bagulho em volta se está cheio de material radioativo por ali não dava, então foi necessário fazer uma limpeza daquela região eles tentaram fazer com robô, tentaram fazer não sei o que lá, mas não dava certo esse tipo de limpeza teve que ser feito manualmente por pessoas que são os que são chamados atualmente dos liquidadores. Então, eram pessoas que se vestiam com roupas de proteção, que, infelizmente, ainda assim, não eram bastante para proteger, para poder tentar tirar os pedaços de grafite e os outros resquícios de material que tinham ao redor para poder ter, para se fazer uma construção naquela região. Então, as pessoas iam, ficavam questão de um, dois minutos ali, tirando o que dava, foram cerca de 5 mil pessoas convocadas para fazer esse trabalho manual. E aí, eles conseguiram limpar, descontaminar, assim, não por completo, né, mas tirar um pouco ali do principal, que era radioativo, para conseguir, né, estruturar ali o sarcófago e selar aquele reator para que nunca mais fosse disperso nenhum tipo de material. Bom, e aí, falando um pouco. Um pouquinho sobre os aspectos clínicos do rolê, né, as partes médicas, né, o que aconteceu com essas pessoas. Isso aí que, nossa senhora, se você vai procurar, tem alguns livros que fazem tratados médicos a respeito de exposições à radiação. Inclusive, um desses livros eu uso muito, que é Medical Response. Ah, eu nem sei o nome em inglês, mas é Respostas Médicas a Eventos Radiológicos Nucleares. Inclusive, a minha referência atual para falar sobre essa questão de aspectos é esse livro. Tem umas imagens lá que você olha. E você fica, caraca, como que pode? Então, como que foi feito, né? Apesar da cidade de Pripyat ser a cidade, né, dos moradores que trabalhavam na usina, não tinha uma estrutura lá muito adequada para conseguir atender esse tipo de emergência. Mas, beleza, fizeram o que deram, né? E, de início, o que acontecia? Não tinha como você estimar a dose daquelas pessoas de imediato. Especialmente porque os detectores, como eu comentei, 3.6 Roentgen é merda nenhuma. Não representa bosta nenhuma. Não tinha como precisar. Então, como que eles faziam para saber? Sintoma clínico. Então, eles fizeram ali uma análise para conseguir segregar as pessoas que foram expostas. E a problemática é que a radiação emitida por esse tipo de exposição era uma radiação desgraçada. E radiação gama, que ela não é tão ionizante, mas ela é extremamente penetrante, lesiva, energética. E radiação beta. Essa daí, na superfície de pele, internamente, então, nossa senhora, ionizante pra caramba. Nossa, machuca tudo. Machuca muito. Não é tão penetrante, mas onde encosta, machuca. Machuca bastante. E o problema é justamente isso, né? São extremamente letais mesmo que você tenha ali uma intervenção. Então, eles vinham ali com base na sintomatologia das pessoas. Com base no que a gente já tem de conhecimento prévio sobre efeitos radiológicos. Inclusive, muito do que nós sabemos hoje sobre efeitos radiológicos, efeitos radioinduzidos, nada. A radiação é também em virtude de banco de dados de vítimas desse acidente, por exemplo. Muito do que a gente tem de conduta médica pra vítimas de acidentes acontecem. Hoje, o que nós temos vem muito do que foi aplicado em Chernobyl. Aqui no acidente de Goiânia também. Tem bastante coisa aí que foi testado ali naquele evento e que ainda hoje é colocado como prática de conduta. E, bom, a estimativa de dose dessas pessoas, dependendo da sintomatologia, realmente eram de muitos greys. Greys é a maior medida de dose absorvida. E, além da questão da exposição, tinha a problemática da contaminação radiológica. Porque, como eu comentei com vocês, foi dissipado um monte de alimento radioativo na atmosfera. E isso precipita, né, e tal, e depois ele cai no chão. E contamina as coisas e as pessoas. Então, iodo contaminou a galera, césio contaminou a galera. E o problema é que esse negócio demora um pouquinho pra deixar de ser radioativo, né, o tempo de meia-vida que a gente chama. O césio é 30 anos, meia-vida do césio. Então, por 30 anos ele fica ali sendo radioativo. O iodo, às vezes, é até mais rápido. O estronço, ele é meio rápido também. Mas tudo isso contamina e fica irradiando a pessoa por dentro. E isso que dá uma complicação muito grande. E, além disso, nesse caso, né, de contaminantes, por exemplo, o iodo. A maior problemática disso, nesse iodo radioativo, é que o iodo tem afinidade com a glândula tireoide. Inclusive, hoje a gente usa isso em tratamentos de medicina nuclear de modo controlado. Mas isso é natural. É uma afinidade do alimento químico por fixar-se a tireoide. O que acontece? Câncer de tireoide. Câncer de tireoide. A questão do césio. Contaminação por inalação, partícula suspensa no ar, pneumonia. Então, dá uma inflamação dos pulmões ali, muito horrível. Das mucosas, completamente, trato gastrointestinal e trato respiratório. Nossa, dá uma inflamação péssima. Além do que, é claro, na exposição de corpo inteiro, redução de glóbulos brancos e imunidade vai no chinelo. E, assim, claro, para que os efeitos aconteçam, a gente sabe que existe um limiar de dose para eles aparecerem quando a gente está falando de efeitos determinísticos. Recomendo fortemente que quem está ouvindo aqui escute o episódio 3 sobre por que a radiação faz mal. Lá eu explico bem detalhado. Mas a gente tem que lembrar, aqui só resumindo, efeitos para altas doses e efeitos para baixas doses. Efeitos para altas doses são os que nós chamamos de determinísticos. Os efeitos determinísticos acontecem quando a gente tem muita radiação e quando ela passa de um certo limiar de dose. Então, o fato de que a gente tem muita radiação e quando ela passa de um certo limiar de dose. Foi justamente com base nesse princípio que eles estimavam as doses que as pessoas recebiam. Então, eles viam o que a pessoa apresentava de sintoma e sabiam. Ah, para aparecer isso, tem que chegar em tanto. Então, com certeza, a dose da pessoa é disso para mais. E, assim, foram analisando. Não tinha, naquele momento, como fazer uma dosimetria biológica, fazer análise cromossômica, citogenética, blá, blá, blá, blá, blá. Não dá para fazer isso, não tinha tempo. Tinha que se ter uma ação rápida, né? E, assim, pelos efeitos que eles observavam. Eles começaram a atender as pessoas cerca de 4 horas depois do evento, ali, da exposição. E eles identificaram, pelo menos, 237 vítimas severas. E dessas, né, severas, entendam pessoas que realmente estavam passando mal pra caramba. Tipo, tô passando mal, tô morrendo, tô, sei lá, vou morrer. E, realmente. E, nesse caso, das 237, 134 pessoas desenvolveram a síndrome aguda das radiações. Gente, a gente tem que lembrar, eu já falei aqui naquele episódio sobre acidentes radiológicos. Eventos radiológicos, no geral, no mundo, a gente tem em torno de 600, mais ou menos, eventos. Não lembro se era 600 ou 6 mil. 6 mil eventos, eu acho. Agora eu não lembro também. Não faz diferença nenhuma, porque eu quero falar o seguinte. A gente tem uma quantidade muito diminuta de pessoas que desenvolveram síndrome aguda das radiações. Não é uma coisa usual. Isso acontece em acidentes. Em Chernobyl, foram 134. De todos os casos de SAR, que é síndrome aguda, que nós temos registrados, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, representa 45% de todos os casos. Quase metade foi de Chernobyl. O resto são de acidentes e eventos outros, né? Porque, normalmente, quando morre de síndrome aguda, pelo que eu estudo dos acidentes, pelo que eu vejo, no máximo, chutando alto, assim, 10 pessoas. Mas esse de Chernobyl foi realmente estratosférico. 4 pessoas com síndrome aguda das radiações. Novamente, no episódio 3, eu explico bem certinho do que se trata. Mas é uma condição letal. Quando você tem uma exposição de corpo inteiro, uma quantidade grande de radiação, a gente começa a ter síndrome e subsíndrome. Destruição do sistema imunológico, sistema sanguíneo, destruição do trato gastrointestinal, além de todos os outros efeitos tecidoais que essas exposições causavam. Então, problema de pele, necrose, catarata, os olhos, enfim, só desgraça, né? Muitas pessoas estavam com muitas queimaduras, né? E, por causa da radiação beta, ela é muito ionizante, na superfície de pele queima, machuca, né? Queimadura radioinduzida, que a gente chama de eritema. E, naturalmente, as pessoas começaram a ir morrendo. Essas pessoas que têm síndrome aguda não têm como reverter. Teve uma ou outra ali que não tinham, que eles categorizaram de acordo com os níveis, né? Então, teve uma ou outra que desenvolveu síndrome aguda, porque a partir de um grey você já desenvolve. Mas, se você consegue ter uma intervenção ali, contar com um pouco de sorte do sistema da pessoa ser resistente, você consegue ali, uns 4, 6 greys, dá pra tentar reverter. Com transfusão de medula e tudo mais. Nossa, e daí, isso aí, nossa, eu lendo aquele livro me dava uma aflição. Porque você meio que virou um circo de experimento. Porque, como você não sabia como conduzir exatamente, né? O que fazer. Eles iam testando técnicas e abordagens pra ver o que dava certo. Morreu? Ah, ia morrer mesmo? É estranho falar isso. Não tá escrito isso no livro, mas, assim, é a percepção que eu tenho quando eu leio sobre o relato de como foi conduzido esses testes, né? E tudo mais. E, assim. E, assim, as pessoas foram morrendo em tempos muito distintos. Teve uma ou outra pessoa que conseguiu sobreviver em uns 90 dias. Inclusive, me lembra o caso do Hisashi Oshu que eu falei aqui pra vocês, né? Que é lá do acidente do Kaimura. É muito parecido, assim, dessa questão de prolongamento. E muitas pessoas acabavam morrendo ali, né? Por causa da síndrome em si, por causa de infecção, por causa de problema no pulmão, pele, né? Ah, enfim, muita coisa horrível. Mas, né? A gente tem agora, atualmente, um banco de dados efetivo sobre condutas em virtude disso, né? E essas pessoas, né? As que sobreviveram, seja da síndrome mesmo, né? Outras vítimas que, como eu falei, eram 237, né? Dessas eram só 134 com SAR, síndrome aguda. Mas tinham outras vítimas que também tinham seu estágio de agravamento por lesão tecidual. E eles viram ali, né? Então, acompanhando cinco anos posteriormente à exposição, cerca de algumas pessoas ali desenvolvendo cataratas nos olhos, algumas doenças oncológicas, né? O câncer, por causa da contaminação. E infertilidade foi só meio que de momento e depois voltou ao normal. Até a questão de filhos. Isso segundo a agência, tá, gente? Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica. Aí, eu não sei se existe outra fonte que seja concluída. confiável, sem ser a agência, mas normalmente quando eu vou buscar uma informação para saber se é fidedigna, eu procuro lá, e assim, então com relação a crianças nascerem deformadas, o que a gente procura na internet é o mesmo, já vi várias vezes, acabei até usando em momentos indevidos, pelo visto, imagens de crianças com deformidades e falar as filhas de Chernobyl, na verdade não, segundo a agência, não tem registro disso, as pessoas foram todas evacuadas das zonas de exclusão, algumas pessoas voltaram a morar lá, ou moram ainda até hoje, não tão perto, mas moram naquela região, aparentemente tudo normal, nosso corpo tem que lembrar que a gente tem ali uma certa, a gente consegue consertar algumas coisas que a radiação consegue danificar, então também não sei até que ponto é verdade ou não, deixo em aberto isso aí, não posso concluir nada porque não tenho base de informação bastante para argumentar sobre isso. E daí tem também, claro, a análise que foi feita para pessoas que se expuseram a doses menores, que não desencadeou nenhum tipo de síndrome. De sintoma determinístico, né, que é a reação tessidual, síndrome aguda, pessoas que se expuseram a um nível menor de radiação. Cara, nesse caso, infelizmente, qualquer banco de dados que você vai ver de informação, seja da agência ou não, é inconclusivo, inconclusivo, não tem como concluir o que aconteceu, porque quando você não tem efeito que acontece a partir de limiar, é probabilístico, não tem como saber. Então, o que a gente sabe de tudo é que o impacto maior para essas pessoas foram os fatores psicossociais, discriminação, medo, falta de confiança no governo, inclusive para a própria União Soviética, né, diz que ela foi dissolvida justamente por causa dessa questão da falta de confiança e que esse aí foi o prego do caixão da União Soviética, diz que, tá? Novamente, não sei de história, não sei nada, tá? Sou burra, não sei nada. Tô falando aqui com base no que eu li, tá? Se é verdade ou não, daí eu não sei. Se é que manja de história, aí vocês me contam depois. O que a gente consegue concluir também, aí é uma coisa louca, interessante, vejam só. Segundo a agência, se for buscar nos materiais deles, eles falam que o que foi observado é que teve um aumento no câncer de tireoide das crianças e do adolescente, porque as crianças são mais suscetíveis a efeitos biológicos, de fato, do que os adultos. Só que daí, posteriormente, depois da publicação da agência, teve outro estudo feito, né, um estudo epidemiológico, que pontua que, na verdade, a incidência de câncer de tireoide nas crianças não aumentou. Ela foi a mesma, esperada em qualquer lugar. A única diferença é que estava se monitorando com mais frequência, portanto, se identificando com muito mais facilidade do que em outros lugares, onde os cânceres simplesmente acontecem, mas você não rastreia previamente, porque não tem uma razão pra isso. Então, o excesso de monitoração fazia com que você identificasse os cânceres mais facilmente, dava a sensação, induzia o erro de que foi por causa disso, falsa correlação. Diz que, também, não sei, tá, gente, porque esse é um estudo, a agência fala uma coisa, o estudo fala outra. Daí, não sei. Não tenho esse embasamento pra opinar. Bom, e aí, né, vem aquela questão que já perguntaram pra agência, e tem o posicionamento da agência Internacional de Energia Atômica, que é o seguinte. Beleza, aconteceu tudo o que aconteceu, tal, tal, né, inclusive até a Chernobyl-D passou por um processo de descomissionamento, mas me parece que ela ainda funciona e produz uma certa quantidade de energia. Não o reator 4, claro, mas lembrando que lá tinham outros três reatores funcionando, então, se só explodiu um, por que não usar os outros três? Ué. Mas diz que, se você for pesquisar na internet, diz que, o próprio site da agência fala que tava em processo de descomissionamento, e a agência tava acompanhando de perto, blá, blá, blá, não sei o que lá. Não sei, tá? A agência fala isso, mas a gente vê nas notícias, por exemplo, nessa questão aí de, da Rússia invadir a Ucrânia, atualmente, né, e tomar posse de Chernobyl, até onde eu sei, esse mecanismo de guerra, em guerra, é feito pra que você controle os meios de produção de energia do outro país, pra que fique vulnerável. Então, se isso aconteceu, eu acho que é porque ainda funciona. Mas eu também tô, ó, nesse momento aqui, ó, eu estou jogando as informações pra vocês, tá? Eu não estou concluindo nada, eu não estou afirmando nada, porque eu não sei. Tô contando a história, tá? Os restos dos processos aí que tão acontecendo, a gente vai discutir em outro episódio. Mas aí a pergunta pra agência é o seguinte, né? Tá, beleza, funciona o rolê lá. Pode acontecer de novo outro Chernobyl? Segundo a agência, diz que não, porque depois que Chernobyl aconteceu, naturalmente foi feito toda uma reinvestigação em todas as usinas nucleares, em todos os modelos de reatores, as lições foram aprendidas, e foram tomadas novas alternativas de abordagem pra conseguir tornar essas usinas mais seguras, seja com o reator RBMK, que ainda existe, ainda funciona, ou seja com qualquer outro modelo de reator, tá? Inclusive aqui no Brasil nós temos, mas o nosso não é desse tipo, o nosso é PWR, Pressure Reset Water Reactor, reator por água pressurizada, é outro esquema de funcionamento. Não vai acontecer um Chernobyl com os reatores aqui do Brasil, só pra constar. Não é pra acontecer. Se acontecer, porque, assim, a brasileira é muito bom, né, em fazer coisa que não é pra fazer, né? Dado que a gente viveu no acidente de Goiânia, então, não duvido, mas assim, teoricamente, né, dado a questão da engenharia do reator, não é pra acontecer isso, teoricamente. Mas não sei, né? Mas, pontuando e fechando o raciocínio, segundo a agência, não é pra acontecer um Chernobyl novamente. Estamos seguros com relação a isso, segundo o órgão, que estabelece os critérios de controle e segurança. Pois, muito bem, meus irradiados! Eu espero que vocês tenham gostado desse episódio. Claro que aqui foi tudo bem pontuado, realmente, na questão do contexto histórico, tá? Ainda tem um monte de mil coisas que dá pra falar sobre Chernobyl e que eu vou ir falando ao longo dos episódios, porque eu não tenho como fazer. Eu ia levar a 200 horas de episódio que vocês não iam querer me ouvir falar por 200 horas, né? Então, vamos se agregar pra ficar mais leve. E eu também não consigo falar 200 horas sobre a mesma coisa. Então, ao longo do tempo, eu vou postando aqui outros episódios que tem correlação com o Chernobyl, mas agora vocês conseguem entender o que que aconteceu no maior evento nuclear que nós temos registro atualmente. Muito obrigada pela atenção de vocês e pela audiência, mais uma vez. Se vocês quiserem entrar em contato comigo, mandar sugestões, pedir alguma coisa, tirar dúvidas, só mandar um e-mail pra mim no radiaçãoparaleigos.com ou me procurar pelo Instagram radiaçãoparaleigos, que vocês vão encontrar lá e eu respondo sempre que mandam mensagem. E é isso. Nos vemos no próximo episódio.

Podcast Summary

Key Points:

  1. - O acidente de Chernobyl ocorreu em 26 de abril de 1986, devido a um teste de baixa potência no reator 4, que explodiu e liberou radiação em massa. - A causa principal foi a operação insegura do reator RBMK, com falhas humanas e características de projeto, como o coeficiente de vazio positivo e o uso de grafite como moderador. - O reator RBMK era barato e rápido de construir, mas tinha riscos, especialmente em baixa potência, quando as barras de controle podiam aumentar a reação. - A explosão matou dois trabalhadores imediatamente e causou síndrome aguda da radiação em 134 pessoas, representando 45% de todos os casos registrados. - A nuvem radioativa se espalhou pela Europa, forçando a União Soviética a admitir o acidente após 36 horas, com a evacuação da cidade de Pripyat. - Esforços de contenção incluíram despejar areia e boro, criar um sarcófago e usar "liquidadores" para limpar detritos, com riscos extremos. - Efeitos de saúde incluíram câncer de tireoide em crianças, mas dados sobre impactos de baixa dose são inconclusivos, com ênfase em fatores psicossociais. - Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, lições foram aprendidas e novos acidentes como Chernobyl são improváveis, embora reatores RBMK ainda existam.

Summary:

O acidente de Chernobyl, em 1986, foi causado por um teste mal executado no reator RBMK, que operava em baixa potência, revelando falhas de projeto como o coeficiente de vazio positivo e o uso de grafite, que intensificavam a reação em vez de controlá-la. A explosão liberou materiais radioativos, como césio, iodo e estrôncio, matando dois trabalhadores e causando síndrome aguda da radiação em 134 pessoas. A nuvem radioativa se espalhou pela Europa, levando à evacuação de Pripyat após 36 horas.

A contenção envolveu esforços heróicos, como o despejo de areia e boro e a construção de um sarcófago, com liquidadores expostos a altas doses. Os impactos à saúde incluíram câncer de tireoide em crianças, mas estudos são inconclusivos sobre efeitos de baixa dose, destacando traumas psicossociais. A Agência Internacional de Energia Atômica classifica o evento no nível 7, mas afirma que lições foram aplicadas para evitar repetições, embora reatores RBMK ainda operem.

O episódio destaca a importância do fator humano e das falhas de engenharia, servindo como referência para segurança nuclear global.

FAQs

O acidente foi causado por uma combinação de falhas humanas e características inseguras do reator RBMK, que operava em baixa potência durante um teste. Isso levou a um superaquecimento e a uma explosão que liberou grande quantidade de radiação.

O coeficiente de vazio positivo é uma característica do reator RBMK onde a formação de vapor de água aumenta a reatividade nuclear. Em Chernobyl, isso causou um aumento descontrolado de calor e potência, contribuindo para a explosão.

A explosão ocorreu devido ao superaquecimento e ao aumento de pressão no núcleo, causados pela falta de resfriamento e pela reação em cadeia descontrolada. A tampa de concreto do reator foi lançada ao ar, expondo o núcleo.

Foram liberados elementos como plutônio, iodo, estrôncio e césio. O iodo radioativo causou câncer de tireoide, enquanto o césio e outros contaminantes levaram a problemas respiratórios e danos aos órgãos internos.

O governo soviético inicialmente tentou esconder a gravidade do acidente, não informando os bombeiros sobre a exposição à radiação. Isso resultou em muitos deles sofrerem da síndrome aguda das radiações sem saber do perigo.

A síndrome aguda das radiações é uma condição letal causada por altas doses de radiação, que danifica o sistema imunológico e outros órgãos. Em Chernobyl, 134 pessoas desenvolveram essa síndrome, representando 45% de todos os casos registrados.

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