O podcast aborda de forma didática o funcionamento de reatores nucleares, desmistificando a visão popular associada a desenhos como "Os Simpsons" ou tragédias como Chernobyl. O físico Felipe Kieper explica que reatores operam por fissão nuclear, processo em que nêutrons quebram átomos de urânio, liberando energia em reação em cadeia. Essa energia aquece água em circuitos fechados, gerando vapor que move turbinas para produzir eletricidade, sem contaminar a água de resfriamento externa. A conversa traça a história desde a descoberta da radioatividade por Becquerel e Marie Curie até o primeiro reator experimental de Fermi em 1942, destacando a evolução tecnológica e de segurança. Kieper diferencia reatores de bombas atômicas, explicando que a concentração de urânio enriquecido é o fator crucial, tornando explosões nucleares impossíveis em usinas. No Brasil, Angra 1 e 2 fornecem energia significativa, com desafios como gerenciamento de rejeitos radioativos. O episódio também discute a subjetividade do risco, comparando acidentes nucleares com outras fontes de energia, e defende que a decisão sobre energia nuclear deve envolver escuta pública, não apenas educação técnica. O especialista conclui que, apesar dos desafios, a energia nuclear é estável e segura quando bem gerenciada, mas respeita opiniões contrárias.
Se você já assistiu Simpsons, você vai se lembrar que o Homer trabalha em uma usina nuclear,
e ele é um operador de reator. E quando a gente assiste Simpsons e vê como que é o trabalho do
Homer, isso pode dar uma sensação para a gente de que um reator é um local que não existe um
controle, é onde se tem radiação à torta e à direita, e que traz um risco gigantesco,
especialmente porque a gente também se lembra de Chernobyl e já associa uma coisa com a outra.
Mas afinal de contas, como que funciona um reator nuclear? O que ele é? Para que ele serve?
Para responder essas perguntas, eu trouxe um convidado especial para o episódio de hoje,
e inclusive eu já adianto as minhas desculpas para vocês ouvintes, que a minha qualidade do meu áudio
está péssima. Parece que eu estou falando de dentro de uma lata de lixo, mas é porque eu realmente
me atrapalhei inteira com o microfone que eu ia usar.
E acabou captando do lugar errado. Mas eu acredito que dá para entender. Pelo menos o áudio do nosso
participante de hoje está com uma qualidade bem boa, já que é ele que fala a maior parte do tempo.
Dá para a gente ouvir. Tentei consertar, mas não tive muito sucesso, não. Enfim, gente, então espero
que vocês gostem do episódio que a gente vai fazer hoje, e vamos acompanhar então essa sequência.
Olá, meus irradiadas! Como vocês estão? Aqui quem fala é a Paola, e no episódio de hoje,
finalmente, depois de 84 anos, eu trouxe o assunto que muitas pessoas querem saber, que é como
funciona um reator nuclear. E para que a gente possa falar a respeito desse tema, infelizmente eu não
sei o que é, mas eu acho que é um assunto que é muito importante, porque eu acho que é um assunto que
eu sou detentora de todo o conhecimento necessário. Eu trouxe um auxílio, eu trouxe um apoio, e eu
chamei para participar desse episódio aqui comigo uma pessoa que é amiga minha de longa data, que
inclusive entende bastante sobre esse assunto, que é o físico Felipe Kieper. Felipe, se apresente
para nós. Muito bem-vindo e muito obrigado por ter aceito o meu convite. Olá, Paola! 84 anos é bastante tempo, hein?
Estou ansioso já, tudo bem. Nossa, gente, em cada episódio que eu falo, eu prometo, prometo, prometo e nunca trago,
mas agora concretizou-se, graças a você. Muito obrigada, Felipe. Conta para a gente aí, quem é você?
É, acho que a gente se conheceu também já trabalhando junto, né, com essa questão de radiação, né, já trabalhei com vocês aí no Paraná.
Eu sou físico médico, sou formado pela USP de Ribeirão Preto, fiz um mestrado em percepção pública das instalações
lá no IPEI. Depois disso, apresentei meu mestrado, trabalhei um pouquinho com radioproteção no Paraná,
trabalhei um pouquinho em São Paulo antes até, e agora eu estou trabalhando no Hospital Sírio-Libanês
em São Paulo com a parte de radiodiagnóstico, desde dois meses atrás aqui, em agosto.
É, gente, o Felipe, o Felipe é um amigo meu de longa data, inclusive eu só entrei nessa área de proteção
radiológica graças a ele. Ele que mostrou para mim, levou para a empresa Nucro para fazer um estágio,
e aí eu fiquei, tanto que por seis anos, né, Felipe, a gente, acho que foi seis anos, né, que a gente
trabalhou junto, e a gente estudava junto, a gente fez, inclusive, a nossa pós-graduação, né, o Felipe
fez junto comigo, né, nossa especialização em proteção radiológica, então a gente compartilhou
muita radiação aí nesses seis anos.
Haja dosímetro. Sou fã do seu rádio, Paola.
Que bom, Felipe, agradeço bastante.
O acidente de Kisting, esse daí que você falou, do lugar mais radioativo do mundo, eu conhecia como Kisting, né, esse acidente.
E eu lembro que ele é nível 6 aí da IAA, que vai de 1 a 7, né, o Kisting é nível 6.
Então, esse negócio, inclusive, já que você falou nisso, né, até antes da gente falar de reator, eu sempre
diferencio para os ouvintes aqui os acidentes radiológicos dos acidentes nucleares, mas essa escala da agência,
ela é para todos os acidentes de modo geral, né, seja em usina, seja em ambiente comum, digamos assim, né,
porque eu sei que Chernobyl é um acidente que também tem uma escala grande aí, e esse de, eu chamo de Mayak, né,
o acidente de Mayak, que você chamou de outro nome, então quer dizer que ele realmente foi um dos mais,
mais complicados aí, digamos.
É, acho que ele vale um podcast à parte, né, a gente pode um dia falar dessa escala da IAA de acidentes,
mas só para resumir aqui, ela é uma escala que vai de 1 a 7, enquanto o maior,
o acidente maior o número, né, e em 7 a gente tem aí, olha só, dois reatores nucleares, só o de Fukushima
e o de Chernobyl, em 6 a gente tem Kistin, e respondendo a sua pergunta, em 5 a gente tem Goiânia, né,
então tá aí a prova de que as coisas estão misturadas nessa escala.
Entendi, realmente, então eu sei que o de Goiânia ele é considerado o pior radiológico, mas fora de área
nuclear, então que vocês verem, né, gente, os outros que são em escala acima, realmente envolve o tão
estigmatizado reator nuclear, e aí justamente a gente vai cair na grande pergunta da vida do universo
e tudo mais desse episódio aqui, que é o que que é um reator nuclear? Eu, pelo menos, quando penso em
reator, a primeira coisa que vem na minha cabeça é o síntese, eu lembro daquele desenho, porque a
gente vê o Homer, né, mexendo lá com material radioativo e tudo mais, então eu queria que você
contasse para a gente um pouquinho, né, o que que é um reator nuclear, o que que ele faz,
para que que ele serve, como é que funciona, enfim, essas perguntas básicas aí, o que que você tem
para contar para a gente sobre isso? Então, vamos lá, eu acho que a primeira coisa, assim, que eu gostaria de
falar é que o emprego dos meus sonhos é o emprego do Homer, cara, não tem emprego do Homer que ele, né,
o cara fica na usina, entrando no negócio de boa, sentado ali, às vezes erra, come rosquinha, assim,
é uma inspiração para a gente, né, a gente sempre quer trabalhar num reator por causa dele. Bom, reator. Reator é o seguinte, a gente tem que entender duas coisas, primeiro, você já explicou um tantinho
para o pessoal ali, quando você falou de bomba nuclear, que é a diferença entre fusão e fissão,
certo? Então, quando a gente fala de fusão, né, só para relembrar aqui, a gente está juntando
átomos, quando a gente fala de fissão, a gente está quebrando eles, tá? Então, basicamente, o que a
gente faz, né, é quebrar átomos, tá? Em especial, a gente tem que saber que a gente está usando aí o urânio,
o plutônio e o tório, tá? Mas isso, assim, claro que isso não começou assim, de repente, alguém
chegou e falou, olha, vou pegar esses átomos aí, vou quebrar eles e vou fazer energia, né? Não era. Isso começou faz um bom tempo já, né? E isso me lembra do seu episódio do 20, acho que foi do
Hedge and Grows, que a gente tem aquele primeiro evento, que é quando começou a gente a trabalhar
com o raio-x, né? Teve um cara que descobriu o raio-x, que esse cara foi. O Röntgen, né? Então, o Röntgen, em 1995, descobriu o raio-x e aí a gente começou a trabalhar com um monte de coisa ligada com radiação, etc. E o que a gente não lembra também é que logo um ano depois que o Röntgen descobriu o raio-x, tinha outro cara estudando também a radiação, que se chamava Becquerel. Devem ter ouvido falar dele também. E o Becquerel, ele estava estudando outra coisa, que era o urânio. Já sabia que tinha esse elemento radioativo por aí. Então, em 1995, ele estava estudando o urânio. Só que ele viu ali que aquele negócio emitia uma
radiação, fez uns estudos, colocou um filme ali também, sabe? Naquela onda do Röntgen de colocar um filme e medir a radiação. Viu que tinha uma radiação, mas não levou pra frente. Porque, assim, a do raio-x era super útil, né? O pessoal usava na medicina no ano seguinte, né, Paola?
Sim.
E, dois anos depois, veio uma pessoa chamada Maria Slodowski, que a gente vai fazer uns podcasts sobre ela, né, Paola?
Com certeza. Já foi solicitado aqui pra mim. Muitos pedidos a respeito disso. Tá no forno, gente. Tá no forno.
Então, sem spoilers pra esses podcasts. Então, se você gosta de radiação, se você trabalha com radiação, se você se interessa por ciência, se você se interessa por biografia,
se você se interessa por coisas, assim, fodas mesmo, bem legais, de pessoas que vão te inspirar, você tem que conhecer Marie Curie.
Eu já vou deixar até aqui a recomendação aqui, né, Paola?
Tem um filminho dela no Netflix, falando sobre como foi a história de vida dela. Então, depois que você terminar esse podcast, você vai procurar o Netflix na sua assinatura, no seu coleguinho, vai assistir esse filme.
Esse é um filme escrito. Inclusive, gente, esse filme tem até em aplicativos de internet, assim, que não precisa. Não precisa, necessariamente, você ter plataforma de stream, né, que fala. Só que eu não sei se esse é bom de ver, né, porque às vezes pode pegar vírus, mas tem vários lugares disponíveis, assim, pra assistir. É um filme super moderno, né, Felipe?
É, e acho que se você puder ver pelo Netflix, né, você ainda aproveita e prestigia a obra, né, porque o filme dá um trabalho.
Ah, é verdade. Com certeza, claro.
Aliás, esse filme, Paola, ele foi dirigido por uma mulher que chama Marjane Satrapi.
E essa é a mulher que escreveu um livro que o pessoal deve conhecer.
que chama Persepolis, é um quadrinho bem legal.
bem legal, que é sobre a história dela
fugindo do Afeganistão, Afeganistão
se não me engano, chegando como imigrante
na Europa. Então é legal
porque você tá vendo um filme da Marie Curie por uma
mulher também que passou por
poucas e boas, né? E tá narrando a vida
da mulher. E a vida da Marie Curie
assim, é muito inspiradora, muito
importante a gente conhecer nos dias de
hoje. O que que a
Marie Curie fez? Ela descobriu
que além do urânio, tinha outro
elemento radioativo, que chamava
tório. Ele também tinha um
modelo radioativo. E ainda descobriu
dois elementos novos, que era o
polônio e o rádio. Então Marie Curie
chegou pé na porta, né?
Vocês sabem que nenhuma mulher tinha
ganhado o prêmio Nobel, né, Paola? Nenhuma.
Exato. E a Marie Curie chegou e fez
o quê? Ganhou dois
logo de cara.
Deixou barato, não.
Então ela começou a estudar. E ela foi a única
pessoa, né, a ganhar dois, né?
Não só a única pessoa,
ninguém tinha ganhado dois Nobels em
áreas distintas como ela ganhou também, né?
É, faz sentido. Essa é a
história da Marie Curie. Quem não conhece tem que
ver atrás. Aliás, ela até passou no Brasil,
viu? Uns tempos, fez uma visita
aqui pra ver as águas radioativas de
Lindóia. Não pode deixar pra trás.
E no mesmo ano que a Marie
Curie descobriu esses elementos,
teve outro cara famosinho chamado
Rutherford. O pessoal deve ter ouvido falar dele.
Olha só de onde é esse cara.
Nova Zelândia.
Ele é um neo-zeolandês.
Um físico muito bom.
E ele descobriu que além dos raios
X e Y do Röntgen, tinha também
os raios Alpha e Beta.
Então a coisa começou a crescer, começou a ganhar
corpo ali. O Villard
também, que era um outro físico, junto ali com os
estudos do Rutherford, descobriu ainda
os raios Gamma, né? São as palavrinhas que a gente
já tá meio acostumado aí.
E o Rutherford também cunhou um termo,
que você vai reconhecer aqui, Paola, que a gente usa
muito, que é o de meia-vida.
Foi aí
que começou a aparecer essa ideia do meia-vida,
né? Ele com outro físico, chamava
sódio.
E meia-vida, né? Relembrar o pessoal
aqui rapidamente, é que
todos os elementos radioativos, eles vão
decaindo, né? E conforme
vai passando o tempo, eles vão perdendo
essa emissão de radiação.
Então a meia-vida mostra
quanto tempo demora pra reduzir pela metade,
né?
E a gente lembra bastante disso, né,
Paola? Exato.
A gente sempre comenta, né, a questão do tempo
de meia-vida do César, que é 30
anos, né? E que é bem esse processo
de exponencial, né? Metade,
metade da metade,
metade da metade da metade, e assim
sucessivamente. E assim vai.
Quando o pessoal começou a descobrir
essas coisas de reação, eles começaram
a montar algumas cadeias de decaimento.
Aí, Paola, o negócio começou a ficar mais
interessante pro pessoal. O urânio começou
a ganhar uma nova vida.
E as cadeias de decaimento, tinha várias,
elas eram super
complexas, sabe? Tinha,
por exemplo, cadeia do urânio,
aí tinha do tório, e eles começaram,
numerar elas, cadeias um, dois e
três, né? E que que é esse
decaimento? É o urânio, por exemplo,
a hora que ele, naturalmente, ele
decai, ele muda pra um outro
elemento. Urânio, por exemplo, ele decai pro
tório. Aí, depois do tório, ele
pode decair pra outros, e outros, e vai fazendo
toda uma escadinha de eventos, e aquele
elemento, ele muda sozinho.
O pessoal começou a estudar isso.
Acharam que isso era bem interessante.
E aí veio a nossa parte
que começam a entender a reação.
Então, dois físicos,
que era o Han e o Meyer,
eles começaram a estudar esses
decaimentos radioativos.
Eles começaram a observar
que uma nova partícula que eles tinham
descoberto, que era os nêutrons, podia
ser irradiado no urânio.
E eles perceberam que isso estava
fazendo alguma reação que quebrava
o urânio, tá? É realmente, você tem
que imaginar que tinha um átomo de urânio,
aí vem o nêutron, que é uma partícula bem
pequenininha, uma bolinha, ela acerta
o urânio e quebra aquele átomo.
Como que ela quebra? A gente quebra
o núcleo dele, né? Como a gente já falou
no episódio de bomba nuclear.
Então, essa descoberta, essa hipótese,
ela veio do Han e do Meyer.
E aí,
na verdade, foi o Hans Strassmann
que fizeram isso. E eles passaram isso
junto com a Lisa Meyer, que era uma
física alemã,
que ela se juntou com
o sobrinho dela, o Frisch,
tá? E nesse momento
tava começando a Segunda Guerra Mundial.
Então, tava começando
em 1939, 1940, e ela
fugiu, né? Com essa ideia na cabeça.
Olha, será que esses nêutrons,
quando batem no urânio, eles realmente estão
quebrando eles? O que será que acontece?
E essa mulher, a Lisa Meitner,
que era chamada pelo Einstein de
a Marie Curie da Alemanha,
ela descobriu, né?
Ela conseguiu descobrir que isso
é um processo de fissão e que
cada desintegração do urânio,
tá? Cada quebra dela
tava gerando 200 mev
por desintegração.
Isso é muita energia.
É muita energia.
É muita energia.
Então, essa hipótese
que veio do Han, que passou
pra Lisa Meyer, ela conseguiu
propor esse valor
de energia, né? Isso é uma coisa muito
importante na física. Você faz
uma teoria e acha um valor.
E veio o sobrinho dela, que era o Frisch,
que tava também de exílio com ela na
Suécia, e ele fez
a verificação do valor.
Então, ela fez a hipótese,
ele fez o experimento,
e ele comprovou a hipótese dela. Então, aí
a gente finalmente conseguiu
dar como descoberta a reação
nuclear. Por que
que isso acontece? Fantástico.
Quando você quebra o urânio, acontece
uma coisa muito, muito útil
nele, que além dele quebrar, ele
emite muitos outros nêutrons.
Dois ou três, em média.
O que esses outros dois ou três nêutrons
vão fazer? Eles vão bater outro urânio, que tá
ali do lado, que também vai se desintegrar,
vai sair em dois ou
três, e ele também vai desintegrar
e assim sucessivamente, criando
uma reação em cadeia. Esse,
essa é a chave do reator
nuclear. Entendeu?
Uhum. Quando isso
foi descoberto, imagina só como tava
o mundo, Paola. Segunda Guerra Mundial,
de repente uma pessoa
descobre que dá pra tirar uma energia
enorme, enorme, enorme
de um pouquinho de urânio. De uma coisa tão pequena.
Pra você ter uma ideia,
se a gente conseguisse consumir uma uva passa
só de, só a energia dela, daquela
coisinha pequenininha, dava pra
iluminar Nova Iorque por um dia inteiro.
É muita energia. Meu Deus.
É muita energia.
E aí, começa a ficar legal.
Porque, quando a
Lisa Maia conseguiu publicar isso daí, né,
e divulgar pro pessoal, isso chegou até
nos Estados Unidos, chegou num físico
que tava morando lá, um italiano, que
trabalhava muito com isso, chamado Enrico Fermi.
E aí, o pessoal
viu, olha, aqui tem uma coisa grande,
que os alemães estão sabendo,
o Einstein até escreveu uma carta
pro presidente dos Estados Unidos,
avisando que, olha,
tem uma coisa perigosa ali,
e a gente precisa começar uma corrida
pra ver quem vai conseguir dominar
essa,
esse urânio, né, essa forma
de energia.
E aí, esse cara, esse Fermi, ele vai fazer o que?
Ele vai querer, bom, eu vou querer construir, então, um reator.
Já que essa reação em cadeia
consegue se desenrolar,
eu quero juntar bastante urânio
pra ver como que eu consigo produzir uma
energia ali, considerável,
né, e fazer aquilo se
manter, né, aquela reação se manter.
Porque, embora o urânio, ele
quebra e limita alguns nêutrons,
eles nem sempre conseguem chegar no outro
urânio. Você precisa fazer um
material que reduz a energia
desses nêutrons, de modo
que ele passe bem devagarzinho nos outros
átomos de urânio e consiga quebrar eles também.
Então, esse é o que o Fermi vai começar a fazer.
Em 1942,
ele foi lá
em Chicago, onde eles estavam, olha só
que história maluca que esse pessoal foi fazer.
Eles falaram, vamos construir
o reator. Onde que eles foram construir?
Ah, não sei, não sei, não sei.
Meio perigoso, né,
o negócio. E ele foi falar com o coordenador
do grupo dele.
O coordenador do grupo dele é um cara que chamava,
olha o nome do cara, Compton.
Onde você já ouviu? Já disse tudo.
Aonde, né? Compton.
Radiação espalhada.
Exatamente.
Quem trabalha com radiação e quem
estuda isso um pouquinho, sabe que aquele
efeito Compton veio desse cara mesmo.
Era o cara que estudava
radiação espalhada, quando eu acerto o ato.
E, por acaso, também era o diretor
desse instituto lá em Chicago.
E o Compton,
ele chegou lá
pro Fermi e falou, olha, eu vou achar um lugar aqui,
né? Nem vou muito
avisar o meu
reitor dessa faculdade aqui de Chicago,
porque ele era um cara que trabalhava com filosofia.
Então, foi meio que
ele falou, olha, se eu pedir o espaço
pra esse reitor aqui, o cara vai falar,
não. A gente tá no meio de uma
Segunda Guerra Mundial, não vou nem pedir.
Chegou pro Fermi, deu um tapinha nas costas,
falou, meu amigo, vai lá e vai. Faz.
Então, lá tava Fermi,
Leo Szilard. Foram montar
o reator, o pessoal ficou com meio medo, assim,
pô, esse negócio vaza, a gente tá no meio de
Chicago aqui, o que vai acontecer?
E começaram a construir.
Esse reator chama Chicago Pile 1.
Tá? Chicago Pile 1.
Esse foi o primeiríssimo
de todos. Primeiríssimo.
Porque eles vão conseguir montar.
E uma das coisas que, como eu falei, precisava
era um material que vai moderar
esses nêutrons, vai reduzir a energia deles.
Aí foi que os americanos tiveram
um super trunfo, né?
Porque até o momento, eles só
conseguiam usar pra reduzir esses nêutrons
aquela água pesada, sabe?
Que é uma água que tem
bastante nêutrons nela, né?
Enfim, era uma água diferente.
Acho que é importante a gente saber que ela é bem difícil de obter.
E os americanos conseguiram entender
que o grafite funcionava pra isso,
bem. E os alemães não. Então eles
saíram na frente nessa corrida
Provavelmente foi por isso que eles conseguiram.
Então foram lá nesse ginásio,
aí montaram
algumas varetas de urânio,
com elementos com urânio,
colocaram ali em buracos que ficavam
no chão, essas varetas alinhadas.
Quem quiser procurar, tem foto no Google
também do chão.
São vários quadradinhos que parecem um mosaico
no chão. São as varetas enteadas
ali.
E aí eles foram colocando e descendo
elas
e foram vendo como se propagou
essa reação. E o medo
disso dar errado. Então você imagina
o pessoal ali de noite, reunido
de madrugada ou de manhã,
todo mundo olhando,
aquele monte de cientista maluco olhando
uns ponteirinhos,
uns medidores, como é que deve ser naquela época,
para ver como aquilo ia
crescer. E olha
o esquema de segurança deles, Paula.
Tinha dois esquemas de segurança que os caras tinham.
Primeiro tinha um cara que chamava
Norbert Hilbert,
Norbert Hilbert,
que esse cara, ele ficava
ele ficava do lado
do reator e tinha
um lugar, tinha uma cordinha que segurava
umas varetas que podiam cair no reator
e desativar ele.
As varetas, elas caíam bem entre as placas
de urânio
e elas iam reduzir os nêutrons, ia praticamente
parar eles.
Então essas placas, elas conseguiam parar a reação.
Ele ficava do lado de umas cordinhas
que seguravam essas placas.
Eu achei isso muito bom. O melhor sistema
de segurança é um homem que solta uma
cordinha.
Ele não solta, Paola. Esse cara fica com um machado,
ele fica com um machado
olhando a corda,
esperando que se der uma coisa errada.
Os caras falam, corta a corda. Ele joga o machado.
Meu Deus, você imagina se esse cara
cochila. Se esse cara
dá uma de Homer e cochila,
explode tudo.
Meu Deus. Eu não sei você, Paula.
Eu imagino esse cara com uma calça jeans,
uma roupa quadriculada,
uma barba bem grande,
um chapéuzinho de lenhador,
uma chave olhando uma cordinha, sabe?
O Léo Cislardi ali, o Fermi,
dois cientistas nerdão, olhando pra ele
com o braço levantado, sabe?
Espera, espera. Ai, que dó, cara.
Não só isso, tem outro cara
chamado Samuel Allison, que ficava
com um balde de nitrato de cádmio
do lado, pode jogar em cima
do reator.
Meu Deus!
Esse era o sistema
de segurança.
Aconteceu alguma coisa com esse reator?
Ele existe ainda?
Não, já foi desmontado depois disso, né?
Tem ali o museu deles,
tem as fotos, tem os pedaços dele
pra quem tiver a felicidade
de ir lá visitar.
Mas você imagina, né?
Imagina se alguém entrasse nesse momento, né?
Imagina que coisa louca.
Você ia ver um monte de cientista apreensivo
olhando os medidor, um chão
cheio de mosaico
e um cara esperando pra cortar uma corda
com um machado e outro com um balde.
Um machado doado, cara.
Um monte de cientista apreensivo olhando os medidor, um chão cheio de mosaico e um cara esperando pra cortar uma corda com um machado e outro com um balde.
Isso já é com o cara do Caipira de Machado.
Muito bom.
Completamente inocente, mas muito bom.
Vou até contar esse fato, assim.
Nos reatores, tem um botão
que é pra cortar a reação, né?
E esse botão se chama Scram.
Scram, né? Escreve Scram em inglês, né?
Scram é uma palavra que as pessoas falam
Scram, que é sai daqui e vai pra fora.
Mas tem uma lenda que Scram
significa Safety Control
Rods X-Men.
Que do inglês quer dizer assim
varetas de controle de segurança,
do cara do machado.
Caraca, velho!
Pois é. Muito bom.
Tem uma lenda que fala que até hoje
ficou esse nome, né?
E esse reator aí que você falou, ele funcionou?
Ele funcionou. Ele conseguiu
manter uma reação sustentável.
O que é sustentável? É quando aquela
quantidade de nêutrons que o urânio
produz consegue ser reduzida
a ponto dela estimular
os outros nêutrons, né?
E estimular mais do que um, estimular
às vezes até dois. Então a reação, ela
aumenta.
Também tem proporção.
Isso que você perguntou, Paulo, é muito
importante porque esse ponto
marca essa transição da reação sustentável,
mas também gera um perigo
muito grande, que é o seguinte,
que um nêutron consegue estimular
um ou dois, né? Ele sempre
vai aumentar. Aquele próximo nêutron
vai estimular talvez um, dois ou três.
E aqueles outros vão aumentando. Quando é que
você para isso?
Como é que você tem controle disso?
Porque as coisas estão sempre aumentando.
Então aí, né? Mas ela disse que era
reação sustentável, eles criaram um problema bem
grande. De que se eu não tiver. Como parar, né? Exatamente.
Se eu não tiver controle sobre isso, a reação
escala e ela vai indo,
vai indo, vai indo, vai indo, vai indo. E pronto.
Aí você não tem mais controle e aí você tem
o desastre, né?
Então isso deu certo, felizmente, tá?
Eles conseguiram fazer
a reação funcionar.
E aí, né?
Isso levou a dois caminhos.
Um deles levou até pra bomba atômica
e outro vai levar depois, né?
Pra os reatores
que a gente tem aí, os comerciais que a gente
fala. Apesar desse ter sido o primeiro
reator, viu, Paola?
Experimental, o primeiro
reator pra gerar energia não foi nos
Estados Unidos, tá?
O reator de Obninsk, em
1954, na então União
Soviética.
Essa é a historinha de como começaram.
Eu tenho uma pergunta pra
você, só pra gente pegar esse
gancho. Veja, você
falou no início, né? Que quando a gente
fala em questão de reações
ali, né? A gente pode ter o processo
de fusão e o processo
de fissão. E o que vai
ser o coração do
nosso reator, conforme você foi
descrevendo, é o processo da fissão.
Então isso significa que
todos os reatores que nós temos
são de fissão.
Por que não fusão?
Porque eu ouvi falar que fusão
produz ainda mais energia. Ou existe
fusão também? Ou não?
É, já existem estudos aí bastante, tá?
Na verdade, a gente
tem um lugar que faz fusão aí, que a gente
usa bastante, que você já deve ter
explicado também, que é o sol, né?
Sim, claro.
O lugar tá conseguindo fusão agora. Se a gente for
pensar de uma certa maneira, né? O sol é que
manda radiação aqui, essa radiação chega.
Então, a gente tá, de certo modo,
colhendo um pouco de energia
que vem da fusão, passa
por vários processos. Mas,
né? Respondendo a sua pergunta,
comercialmente, a gente não conseguiu reproduzir
o que acontece no sol de uma
maneira que dê pra gente gerar
energia elétrica para consumo.
Então, dá pra gente fazer
fusão aqui
na Terra? Dá. A gente tem um problema
muito grande que o material,
quando faz a fusão, ele fica
muito quente, mas tão quente, de modo
que você não tem nenhum recipiente
que você consegue guardar ele. Como é que você vai colocar
uma coisa tão quente que perde tudo?
Entendi.
Então, uma coisa que eles fazem pra conseguir
fazer a fusão,
eles tentam colocar aquilo
num toroide, que é um negócio magnético
que deixa o negócio flutuando.
Olha o trabalhão.
Então, o grande problema aí tá sendo
no desenvolvimento de conseguir
controlar aquilo de modo
que não
seja seguro, né?
Estamos perto. Entendi.
Parece que estamos perto. O pessoal diz que é
nas próximas décadas. Mas, por enquanto,
só temos os de fissão.
Tá.
Bom, então, todos os nossos reatores
são de fissão. E você comentou até agora,
há pouco, que você falou assim, ah,
esse reator lá de Chicago,
né, foi o reator
que eles fizeram experimental. Mas, daí,
o primeiro reator comercial
foi lá na União Soviética.
Então, quer dizer que existem
classificações de reatores.
Existe uma diferença, então, entre os reatores?
É isso? Sim. Depois que o pessoal
começou a descobrir os tipos de reatores,
esses primeiros, né, eles eram
reatores de água pressurizada, né?
Ou, às vezes, resfriados à água.
E como aquela coisa esquenta bastante,
né? Você precisa refrigerar ele com
água. Você também pode usar água pra
criar, né, alguns processos que vão gerar
energia. Então, é. A grande sacada das gerações
de reatores está nisso.
Isso foi crescendo também, de modo que as maneiras,
né, pra você
montar o reator foram ficando cada vez
mais engenhosas.
Por exemplo, eu vou falar uma bem legal aqui que tem.
Nesse do Chicago
Pile 1, né, eles colocavam umas varetas de
urânio ali, né? Elas ficavam bem próximas
umas das outras. E isso gerava essa
reação em cadeia. O pessoal agora
tem umas que é tipo. Imagina uma panela de pressão bem grande
que, ao invés de você pôr varetas,
você põe umas bolinhas de urânio.
Parece umas bolinhas pequenininhas, sabe?
Elas ficam numa água
meio que borbulhando ali mesmo, sabe?
Próximas umas a outras.
Isso é bem genial, porque
o mecanismo de segurança
é tipo um ralo que tem embaixo,
né? Que você abre
ele e todas as bolinhas, elas caem
por esse encanamento.
Elas são espalhadas de modo que você
não tem mais a reação, você faz uma distância
delas. Por que que isso é tão genial?
Porque se o reator derreter,
essas bolinhas vão justamente
começar a cair pelo buraco, pelo ralo
e vão se desligar.
Então eu acho isso muito genial, porque
o reator, o próprio evento de
criar, né, o aquecimento incontrolável
é o evento que também desliga
ele. Então isso são
gerações de reatores
que são mais seguros.
E isso que eu tinha. Eu queria te perguntar, porque
assim, né, a gente
viu já que existe. A gente sempre fala de Chernobyl, né,
como o evento base de tragédia
e justamente
é o caos, o calcanhar
de Aquiles, né, da energia nuclear,
a gente vê que é um negócio complicado.
E aí o que acontece? Eu vejo que
muitas pessoas que
falam a respeito sempre vão lembrar do caso
de Chernobyl. Mas eu imagino
que quando a gente
tem esses eventos, lições
são aprendidas e
eu acredito que
gerações seguintes são feitas de modo
que a segurança é levado muito em
consideração, né, então eu te pergunto, né,
o quão seguros são os reatores, de fato?
Ah, para essa pergunta, eu vou te fazer
uma pergunta de volta, Paula, o que é ser
seguro? Vamos tentar chutar aí, o que você
diria que faz um reator, como você ia
medir para ver se um reator é seguro ou
não?
Bom, eu ia tentar levar em consideração
a questão de se acontecesse alguma
tragédia, se o material radioativo seria
exposto, se houvesse um atentado
terrorista, se daria para explodir a
usina, se existem barreiras físicas, se
existe controle, regras, não sei, tecnologia,
sabe, eu levaria em consideração isso,
assim, porque a questão é, será que
poderia acontecer um novo Chernobyl?
Esse é o ponto, assim, porque já aconteceu
uma vez, e não foi só em Chernobyl, a gente
já falou, né, eu vou citar aqui, a gente
falou de Chernobyl, Fukushima e o Mayak,
a gente já tem três, teve mais, né,
inclusive, até se você quiser comentar de
algum outro aí, né?
Um grande, é bom a gente lembrar também,
mas que foi menos contido, mas também
gerou muita repercussão, foi nos
Estados Unidos, um acidente de Three Mile
Island, tá? Um reator também derreteu, mas
ele não vazou, diferente do Chernobyl, ele
ficou contido e ele tá lá fechadinho nos
Estados Unidos, ninguém mais mexe nele,
virou uma, o próprio reator também virou
uma, uma coisa mais destruída, né? Ele
derreteu, né, de fato, mas. Virou uma tumba ali de, pra um, como é
que é, um sarcófago, né?
Exatamente. Então, ele tá lá fechado, ninguém
chega perto, ninguém mexe, aconteceu, isso
foi, acho que em 1979, se eu não me
engano, mas eu preciso conferir a data,
então, bem, bem antigo. E ele não teve
vazamento de radiação, então, como
Chernobyl, né, acho que acidentes como
Chernobyl, é óbvio que a gente não tem
como garantir que eles vão ser
absolutamente impossíveis de acontecer,
mas eu posso dizer com certeza que hoje
é bem mais seguro do que já foi naquela
época, né? A gente aprendeu muito com
Chernobyl, isso é verdade. E é
importante a gente saber que a gente não
aprendeu só na questão da técnica, né,
quais são os sistemas de segurança, etc.,
mas também nos processos, Paula, e isso
é muito importante, porque acho que como
a gente já, já, já deve ter comentado, já pode
comentar até nos próximos podcasts, uma
das coisas que aconteceu em Chernobyl, que
eles estavam fazendo um teste de
segurança. E nesse teste de segurança, eles
desligaram vários parâmetros de, de
contenção de, de, de acidentes para
testar os sistemas, né? É como você tem
que fazer. Então, a gente sabe que esse
tipo de coisa não pode ser repetida.
Outra coisa que a gente também tem que
entender nisso é que, quando a gente fala de
radiação, tem esse, muito esse medo, né? Será que ele é
seguro? Será que não é? E como é que eu vou
medir isso, né? E cê falou de várias maneiras aí,
vamos ver se tem blindagem, se não tem, né?
Vou te falar uma medida que a gente pode
fazer. Vamos ver se, é, quantas pessoas já
morreram com radiação. O que que cê acha
dessa, Paula? Isso me cai, isso me
lembra, eu, na hora que cê me fala isso, eu
penso em acidente aéreo. Eu faço a mesma
relação. É, genial. Aliás, acidente aéreo é
uma das famosas, né? Pro pessoal fazer
essa comparação. É, pessoal, fala isso
direto, né? É mais provável você morrer
tomando banho do que viajando de avião, já
ouviu essa? Eu, eu sempre falo, é que as
pessoas têm medo, mas é, é bem isso, é, eu
lá, lá na, na pós, que nós fizemos juntos,
inclusive, né? Cê deve lembrar que a minha,
a minha pesquisa, no final, foi sobre
acidente, né? E falando em questão de
pessoas que morreram relacionadas a
acidentes, seja radiológico ou nuclear, é,
não teve mais do que seiscentos eventos,
né? Levando em conta o tempo, o tempo, o
tempo que a gente tem de uso de
radiação, cento e poucos anos, até que
não é tanto. É parecido com um voo, né?
Poxa, avião voa todos os dias, a gente
nem fica sabendo, mas caiu um avião, um
mês inteiro falando daquilo, e filme, e
notícia, e isso, e aquilo. E as pessoas
ficam com medo. Mas acidente de carro tem
muito mais em contrapartida, mas as
pessoas não têm medo de andar de carro.
E olha outra coisa que também é, é bem
maluca, tô pensando nisso, até tava
pensando. Energia eólica, aquela do
vento, que é uma coisa que a gente
não sabe, né? Você acha que causa
acidente? Olha, olhando, todo mundo
pensa que, ah, é só um, eu pelo menos
acho, é só um ventilador gigante, parece
que não, parece inofensivo. Tem como. E
olha, um dos exemplos, né? Que o pessoal
até se procurar no YouTube vai encontrar,
é que o negócio, às vezes, ele perde o
freio dele, que tá girando, né? O freio
trava ou quebra alguma coisa, e começa a
girar super rápido e pega fogo. Caralho.
Outra coisa, às vezes o pessoal tem que
subir lá pra fazer manutenção.
Acontece acidente de trabalho,
a pessoa cair. Já aconteceu, né?
Fazer essa manutenção. Outra coisa
muito importante, quando a gente pensa,
a gente pensa só do ventilador, né? Da
eólica. Mas não é só isso. Como é que
aquele ventilador chegou lá? Né? Como é
que aquela turbina chegou lá? Tem que
pegar um caminhão e levar até lá, tem
que ter um trabalhador pra montar. E o
mais importante de todos, Paula, aquele
caminhão, ele emite aquela coisa que é
responsável pelo maior número de
mortes, né? Principal tecnologia,
que mata pessoas. É um caminhão que
emite poluição. Então. CO2.
Exatamente, exatamente. Né? Aquecimento
global. Substâncias cancerígenas, tudo
isso tá saindo. Então, quando a gente
pensa em qual, qual usina é mais
perigosa, é eólica, é nuclear, é a
barreira ali de, de, de energia hídrica,
né? Tem que levar em conta tudo, desde o
primeiro dia, do primeiro caminhãozinho
que saiu, até a manutenção, até o
desmontar aquilo, né? Por exemplo, as
usinas hídricas também matam bastante
gente, né? Causam terremotos. O impacto
que tem também, né? O impacto ambiental
que tem ali. Super difícil. Mas Angra
veio, né? Angra veio nessa esteira aí
de, de, de talvez entender isso um
pouquinho mais. A gente tem até uma
coisa, apesar do Brasil tá cheio aqui, né? De
íons. Angra veio aí. Então, mas é que
sabe o que que é? Até tava dando uma
olhada sobre isso. É, é que aqui no
Brasil é muito complicado porque a gente
tem bastante recurso pra produzir energia
de outras formas, só que a gente depende
muito de condições climáticas, né? E você
veja, né? No caso do Brasil. Olha a
estiagem que a gente tá tendo. Então, olha
como que tá a produção de energia nas
hidrelétricas, né? Sabe? Então, e além
disso, o impacto que é, né? De criar uma
estruturação hidrelétrica. Eu sempre
lembro de, daquelas barragens,
lembro, claro, né? Que é Brumadinho, né?
Foi outra, era outra coisa, né? Mas assim,
é uma barragem, por exemplo. A destruição
que você tem que fazer de um espaço pra
poder estruturar desvio de rio, o quanto
que isso não gera, né? Um impacto
ambiental. Só que as pessoas esquecem
porque fica tão em cima desse negócio
de radiação e ficam lembrando toda hora
desses eventos que aconteceram. É, assim,
o Chernobyl foi muito extraordinário.
Os outros, nem você falou, ficou contido
ainda, né? O elemento. Não, não chegou a
vazar, né? Então, eu pergunto até pra
você, aproveitando, o teu tema de
mestrado foi sobre percepção das
pessoas com relação à energia. O que
que você acha que faz as pessoas, o que
que fundamenta isso? Por que que as
pessoas têm tanto medo? Têm tanto
preconceito? O que que você acha?
Sabe que a gente fez uma entrevista, né?
O pessoal pra perguntar justamente isso,
né? E aí, né? Como você vê, né? E a
primeira coisa que a gente percebeu, como
a gente fala de energia nuclear, vem uma
imagem na cabeça das pessoas. E essa
imagem, um cogumelo de fogo levantando
no céu, que é a explosão da bomba
atômica, sabe? Entendi. Era imagem mais
recorrente. Eu acho que é o seguinte, eu
acho que no comecinho, quando o pessoal
descobriu radiação, era só uma
tecnologia maravilhosa, né? O pessoal
usava aí pra, colocava o elemento
radioativo na água, tomava, então era uma
coisa assim, não só via como fazia bem,
né? Mudou bastante com a bomba atômica,
mudou bastante com o Chernobyl,
né? E a fé na ciência mudou bastante
também, depois da explosão da Challenger,
foi outra coisa que a gente viu bastante,
que era uma espaçonave que fazia voos
pro espaço ali, Challenger, Colômbia, deve
ter visto aí o ônibus espacial. Explodiu
em 1980, alguma coisa. Esses eventos
juntos, eles tiraram uma fé na ciência e
eles colocaram a radiação num lugar de
destruição, perigo e morte. Então, acho
que isso é uma coisa que a gente tem que
pensar muito, é, essa história, ela pesa
na cabeça das pessoas. Aí. Tá, e,
desculpa, pode falar. No meu mestrado, né?
Só pra complementar isso, como eu sou
físico, né? Estudava isso, eu achava, pô,
então a gente tem que ensinar o pessoal,
né? Como que isso funciona, né? Claro que
esse é o meu papel. Isso me pareceu bem
óbvio no começo, mas conforme eu fui
estudando, eu fui vendo que, na verdade, não
era nada disso. Porque o acidente de Chernobyl, ele
foi justamente porque as pessoas tinham uma fé,
é, inquestionável sobre aqueles cientistas, sobre aquelas
pessoas e ninguém nunca parou pra perguntar, o que que o
público queria de fato, sabe? Cês querem mesmo energia
nuclear ou vamos, vamos tentar ali a hidrelétrica, né? Então,
eu mudei, né? Conforme eu tô fazendo minha pesquisa, o meu
foco é de, ah, vamos ensinar as pessoas sobre energia nuclear
pra vamos escutar as pessoas sobre energia nuclear. Acho
que essa foi a melhor coisa que eu pedi no meu mestrado, né?
Foi, ao invés de você tentar explicar, hoje, por exemplo,
quando eu vou falar com médicos do meu trabalho, pra falar pra
eles sobre o perigo da radiação. Claro que eu posso
lá explicar pra eles, é super bom, isso ajuda bastante.
mas funciona muito melhor se eu chegar pra ele e falar
olha, olha o seu dosímetro aqui, doutor, vem cá
quando você recebeu de dose, como você
acha que dá pra melhorar, pra diminuir
ouve ele, sabe
radiação, o zero nuclear é a mesma coisa
tem no mundo inteiro
o pessoal tá montando isso, comitês
o pessoal vem, do Ministério da Ciência
discute com representantes
da sociedade, o que que eles acham
e aí, vamos pra radiação
ou não vamos, né
então acho que esse foi o que mais me ajudou
no meu mestrado a entender
foi bem legal
mas você acha que
apesar disso, né, que você falou, o ideal seria
ouvir, mas então nesse
caso, seria válido
ainda assim, tentar
divulgar o conhecimento, porque uma coisa que
eu particularmente como pessoa
me incomoda, e eu aprendi com você
inclusive, né, é que a gente sabe
que as pessoas que são muito da área científica
sobem num pedestal
e às vezes a ciência fica um pouco
inacessível para as pessoas, inclusive
a razão de eu fazer o podcast é pra tentar
né, levar o conhecimento de um jeito
um pouquinho mais simplificado, ainda mais
essa área, né, então
eu acho que às vezes é difícil
para as pessoas entenderem o que acontece de fato
você acha válido
apesar disso, né, de ouvir
você acha válido passar o conhecimento
para as pessoas ainda assim?
com certeza, acho que ele é válido
bem nesse sentido de troca, sabe
eu passo o meu conhecimento pra você
você me informa o que você acha disso também
o que você entende por isso?
entendi
mesmo porque, Paola, quando a gente fala do que é arriscado
eu posso chegar e falar, ó, quantas pessoas
a radiação nuclear matou, isso é uma medida
eu posso falar também
qual foi a expectativa de vida que diminuiu
das pessoas que se contaminaram
mas viveram, né, morreram ali na hora
mas eu também posso ver
quantas pessoas morreram por quilowatt
gerado, e eu também
sabe, eu tenho uma infinidade de medidas que eu posso ver
nenhuma é melhor que a outra
quem vai decidir qual que é a medida?
somos nós, né, somos nós
é difícil de mensurar risco, então
é isso que você tá dizendo
ele é subjetivo, exatamente
ele depende das pessoas, não da usina
a pessoa que vai me dizer o que é arriscado
ela que vai me falar
entendi, é o que a pessoa
o que ela vai levar em consideração, por isso que é imensurável
é subjetivo de acordo com cada um
cada um vai considerar uma coisa diferente
o conhecimento é válido pra isso
pra ajudar a dar ferramentas pra ela, né
pra ela ponderar melhor
porque é a pessoa que vai colher o fruto e os perigos disso, né
essa pessoa
correto
correto
vai correr o risco de estar ali do lado da usina
mas também vai ter energia elétrica
então cabe a ela escolher junto com a gente
e a gente decide nesse meio
ponderação de risco-benefício
tudo que a gente fala que envolve radiação
acaba caindo nessa
no princípio da justificativa, né, risco-benefício
você tem que pesar o que você quer
qual que é melhor
mas deixa eu te perguntar um negócio, né, apesar de a gente
saber, então, dessa questão do risco
aí, né, ser uma coisa subjetiva
me fala, ó, você tá me falando
que o reator nuclear funciona
aí por meio da fissão, lá do urânio
que, né, vai gerar lá a radiação
e esse mecanismo
tanto que até você falou que deu origem a dois caminhos
a descoberta desse processo, né
é o mesmo mecanismo que é utilizado
em bomba atômica, tanto que as pessoas
correlacionam com isso
é possível uma usina nuclear
explodir igual a uma bomba
o que que diferencia uma coisa da outra
já que o processo é o mesmo
fisicamente falando, né, o que tá acontecendo ali
é a mesma coisa, o que que muda?
é bem, eles são bem parecidos
na verdade, pode dizer até que o processo físico
é o mesmo, quando você vai
fazer os elementos pro urânio, né, você não pode
simplesmente pegar da terra ali o urânio, né, jogar
numa pastilha e colocar no meio do reator
não é tão simples assim
bom seria se fosse
mas o urânio, de várias formas
ele tem vários, vários tipos
de urânio, vamos dizer assim, que a gente chama de
isótopos, então tem várias
variações do urânio
e nem todas servem pra gente, né, quando a gente
vê na natureza, a grande maioria
dos isótopos que tão lá do tipo de urânio
emitem radiação, tem seus
importância no estudo, mas ele não
consegue sustentar uma reação
em cadeia, você precisa
além de separar o urânio, né
que já é difícil, do resto dos elementos
você tem que separar tipos de urânio
então você tem que
pegar, que isso é super complicado
imagina você separar
uma coisa que é minúscula
de outras, tem que
separar esses tipos pros isótopos
que vão te dar reação em cadeia
e quando você vai separando eles
vai colocando uma mistura mais rica nos úteis
a gente diz que a gente tá enriquecendo
esse urânio, a gente tá enriquecendo
ele com isótopos que vão ser úteis
pra gerar reação em cadeia
pra você fazer
diga
enriquecer, só pra um adendo, enriquecer então é você
segregar esse urânio, é isso?
exato, segregar os tipos de urânio
e concentrar eles
nos mais úteis
ah, tá
você vai ter ali alguns isótopos que
beleza
não dão uma reação em cadeia
tipicamente na natureza você encontra
coisas perto de 1% dos úteis
então você vai conseguindo
separar e você vai tendo uma proporção
maior daqueles úteis, você começa a chegar
em 5%, 10%
15%, isso já é bem difícil
pessoal, quando descobre esse 15%
eles já conseguem fazer
um tipo de material
que consegue sentar uma reação em cadeia
que vai conseguir produzir um aquecimento
considerável
aí você tem o reator nuclear
aí você consegue esquentar a água
por um processo que a gente vai explicar mais pra frente
e aí você gera energia elétrica
pra você conseguir uma bomba
você tem que chegar em 80, 90%
então
será que o reator pode explodir com a bomba atômica?
não, ele não tem como
aquele negócio precisava ser tratado mais
tanto é que tem países que dominam
a tecnologia do reator
mas não dominam o da bomba
como por exemplo
pelo menos é o que a gente acha até agora
ninguém sabe
vai que os bastidores é outro rolê
então você está me dizendo que o que diferencia
basicamente um do outro
é simplesmente a questão de concentração
do urânio fissionável
digamos assim
o urânio fissionável não
vamos dizer só pra ficar certinho
o urânio que pode sustentar uma reação em cadeia
ah, certo
entendi
entendi
e você começou a falar
desculpa, pode terminar
ele tem que ser fissionável e gerar os nêutrons
entendi
eu vi que você falou ali a questão até
da reação sustentar
e aquecer a água e tudo mais
eu ia te perguntar justamente isso
quando a gente tem um reator nuclear
ok, ele funciona
por meio desse processo de fissão
mas o que que
produz
o que que vira energia elétrica
ali
tipo
é a radiação
do urânio
que vai virar energia elétrica
ou é esse negócio de esquentar
que você falou
o que que é o útil ali do processo
como que vira
bom
tem vários tipos de reatores
que podem fazer isso
aliás até comentários não usam não só urânio
tem plutônio e tório
também são usados bastante
esse eu não sabia
eles podem ser usados também pra produzir
reações também conseguem fazer
o que é na verdade esse aquecimento que você falou
então sempre que a gente tem essa reação
em cadeia
a gente produz uma quantidade muito grande
de energia
que vai
sendo dispersada como calor
então vamos imaginar
como se tivesse uma panela de pressão
a gente fecha ali aquela panela de pressão
a gente põe lá dentro algumas coisas
que elas esquentam
elas mesmas
então aí tem um
pulo do gato
porque na panela de pressão
a gente põe um calor embaixo dela
o que a gente tem que imaginar aqui
é que o calor tá vindo
vamos imaginar do feijão que tá ali dentro
aquele feijão esquenta e esquenta a água que tá lá
então essa reação
ela tem essa capacidade de produzir
é mais ou menos o que acontece em Angra
então em Angra você tem umas varetas
que estão submersas na panela de pressão
as varetas tem urânio
esse urânio tá coberto
por revestimentos que
conseguem fazer uma reação
em cadeia
e em volta disso tudo tem água
passando aí perto dos urânios
tem água que esquenta
e que nem a panela de pressão
ela vira um vapor
você teria um pistão em cima que vai mexendo
lógico que não é tão simples assim
mas o princípio é esse
e esse movimento vai gerar uma bobina
que vai gerar energia elétrica
tem alguns detalhes
só importantes pra gente lembrar aqui
porque a gente fala, nossa e essa água esquenta
e aí fica
o que o pessoal faz com ela?
então na verdade é um pouquinho mais complicado
você esquenta a água
na panela de pressão
e essa água já não vai pro pistão
ela vai pra um circuito fechado
pra outro lugar
um pouco mais longe do urânio
onde ela passa por um cano
que tá envolvido por outro
circuito de água, que a gente chama de circuito
secundário
então a água que esquenta no urânio
é o primário, ela sai por um cano
quente, muito quente
ela vai pra outra piscina lá longe
e ela vai pra outra piscina lá longe
nessa piscina ela só passa por dentro do cano
mergulhado nessa piscina
e vai então, como ela tá quente
esquentar a piscina secundária
a secundária é que vai gerar uma turbina
ela tem ali o pistãozinho dela
que gera a turbina
e essa secundária também é fechada
ela volta de novo
pra piscina original
só que nesse processo de volta
ela vai passar por uma terceira água
que vai ser a água de resfriamento
então
Olha só, são dois circuitos fechados que não chegam na última água de água.
de resfriamento. A de resfriamento
pode ser uma água ali que não
encostou no urânio, que só
resfriou a água da turbina.
E essa é a água
que a gente pode pegar, sei lá, de um rio,
do oceano, né?
A gente usa ela só pra receber
o calor e voltar.
Então, o que que tem? Entendi.
Por exemplo, só um mar ali
que vai banhando e esfria.
Então, essa água
que entra na usina e sai,
ela não é contaminada.
As águas que seriam contaminadas não saem
do reator, é isso? Não, só fica
só nesse circuito fechado.
Nesse circuito fechado, que é o primário,
ela passa pelo reator. Essa água não
super monitorada pra vazamento.
Cada ponto tem um detector pra gente ver
como é que tá passando a radiação.
Na segunda, que é a do
sistema que gera
energia, também é fechado.
Ele recebe o calor de um lado e passa do outro.
Como é que recebe calor?
É que nem a panela de pressão mesmo.
Não sei se você já fez essa loucura, Paulo,
na hora de pressão e colocou embaixo da torneira.
Olha,
eu não cozinho,
mas mesmo que eu cozinhasse,
a panela de pressão é um trem que eu
não gosto de mexer, não.
Mas já vi gente fazendo isso aí.
Então, esse, quando o pessoal
pega e colocaria isso, seria o circuito
secundário. Eles pegam,
ao invés de você pegar a água lá dentro
que tá quente, você pega essa casquinha
que tá quente e joga a água por cima
e aí a sua água vai esquentar
pelo contato, né?
Com a água, se não,
por mistura com a outra água.
Certo.
Na usina nuclear é que isso ainda é o segundo,
ainda é fechado, vai pra um terceiro
que vai resfriar.
Então, é relativamente seguro.
Até a segunda, o segundo sistema
é monitorado também pra radiação.
Pra você ter ideia.
Então, na verdade, a usina nuclear
ela é termonuclear?
Essa é termonuclear, exatamente.
Entendi.
Precisa gerar. É porque quando a gente
pensa, né? Porque, na verdade,
a gente pensa assim, né? Ah, usa o elemento
radioativo, que deve ser a radiação
que. Porque a radiação é bastante energia, né?
Deve ser a radiação que dá
a energia do negócio pra o negócio funcionar, né?
Porque isso gera uma curiosidade.
Então, na verdade, não é bem a. Não é a
radiação em si. É unicamente
o processo. A radiação é uma consequência.
Digamos assim, né? Porque
esse que é o negócio, né? A radiação em si
a gente não precisava dela. Só que. Ela que causa, inclusive, todo o transtorno
da energia nuclear, né? O que fazer
com o rejeito?
Porque. Né? É que o troço fica radioativo por muito
tempo, imagino. Não sei como é que é.
Depois que o urânio decai, né?
Ele vai decaindo, ele vira tórax, etc.
Eles viram que ele se quebra também em várias
partículas. Esses rejeitos, eles
ficam por milhões
de anos emitindo radiação.
Então, a gente tem aí um grande
problema, né? Como você comentou.
O que fazer com isso? Acho que
até a Angra passou por troca
de combustível, se não me engano, em
6 de junho agora. Eles pararam
a usina por 48 horas pra tirar aquele
urânio velho, que já tinha um monte de outros
elementos radioativos inúteis pra
produzir energia. Vão agora estocar
eles.
Tem que ficar guardado lá e. E é isso, né? Fica guardado lá.
Só não pode vazar, né?
Não tem o que fazer.
É, eu sei que a questão do risco,
do rejeito guardado. Eu até comentei num episódio aqui que eu falo
sobre terrorismo nuclear, é a questão
de ação terrorista, né? Porque o reator, a gente
sabe que ele é estruturado fisicamente pra
segundo os cálculos, né? Suportar
um ataque aéreo, qualquer coisa
do tipo. Agora,
o local, às vezes,
onde o rejeito tá armazenado, não necessariamente
tem tanta estruturação
física quanto um reator teria.
Então, acho que isso entra na
conta dos riscos ali também, né? Isso que
eu vejo que as pessoas acabam
torcendo o nariz pras
aplicações. Mas, me diga,
são muitos rejeitos
que é muita coisa que
acaba sendo descartado das
usinas? Troca tão rápido, assim?
É uma quantidade considerável. Pra você ter
uma ideia, a Angra, acho que esse ano encheu
o primeiro rejeito que ela tinha montado e já está
em construção, o segundo ali do lado.
É um prédio bem grande.
Quem tiver a oportunidade de visitar a Angra,
vai ser a visita mais feliz de vocês.
É super interessante vocês verem
como aquilo funciona, né?
Quem não tiver a oportunidade, eu recomendo
ter um podcast, não, um vídeo
do. muito conhecido do pessoal do Manual
do Mundo, que ele visita a Angra.
É um dos meus favoritos.
Se vocês gostam do tema,
terminando esse daqui, já vão direto pra esse
daí, é muito legal.
Essa quantidade é bem grande. Aqui no Brasil,
a gente tem essa ideia de armazenar
do lado ali do reator pra ficar tudo
monitorado, né? E acompanhando.
Nos Estados Unidos,
eles estão com uma ideia de colocar
embaixo de uma montanha, que é
uma ideia que
tá encontrando alguma resistência,
ali, do pessoal, que é o
depósito de Úcata.
Estão tentando fazer isso. E na
França, que é o lugar que mais usa energia
nuclear no mundo, lá,
80% da energia elétrica vem
de usinas nucleares. Eles
separam em uns tonéis, levam lá
pro oceano e jogam
na Fossa das Marianas, que é o ponto
mais fundo de todos, e deixam lá.
Que bonito, né?
E por que que eles fazem isso? Tipo,
isso não gera nenhum impacto
ambiental, você jogar isso no mar?
Porque, obviamente, eles não vão jogar
sem uma selagem, mas, assim,
pode isso?
É, assim, é difícil só falar o que que eu vou
fazer com isso daqui, né? Então,
se essa ideia de enterrar
seria uma boa, a ideia de
colocar aí debaixo do mar, né?
Nesse depósito selado, é exatamente essa.
Lá no fundo do oceano, pelo menos
a gente gosta de crer que tem menos
menos vida, né?
Não chega a chegar
menos luz, né? Óbvio que tem,
a gente já sabe hoje que tem, realmente,
vida marinha lá,
mas eu acho que lá o impacto
é menor, né? Mesmo se você enterrar numa montanha
que nem os Estados Unidos faz, ali
também está criando algum tipo de
problema, né?
Eu penso que a vantagem do mar
é a blindagem da água, né?
É, exatamente.
Todo uso de
geração de energia elétrica,
seja ela por usina,
tem que ser pesado,
que impacto está causando? Porque algum impacto
vai causar. E esse é o calcanhar
de Aquiles da usina nuclear, né?
O que eu faço com esse rejeito, né?
Espero que futuramente a gente
consiga mandar no espaço, né? Seria o ideal.
Seria o ideal, né?
Inclusive, eu ia te perguntar
até a questão também que você está comentando
a respeito de Ângara, né?
Ângara é a usina nuclear que nós
temos aqui no Brasil. E eu ia te perguntar
isso também, né? Aqui no Brasil,
a gente tem. Como que funciona
aqui pra gente, né? Os reatores
a gente tem, que tipo de tecnologia
que é? É só pra
finalidade comercial
ou tem outros tipos?
Como que é?
Aqui no Brasil, a gente tem alguns reatores
usados pra produzir radiofármacos,
como o do IPEM, que você já conheceu, né?
Conheci.
O Felipe teve. Eu tive o prazer
de visitar esse lugar, porque o Felipe foi
um amor de pessoa e me levou lá.
E eu chorei tanto, gente, de ver aquele negócio
tão bonito. Então, sim,
realmente, temos reatores pra outras
coisas. Temos reatores. É bem legal
esse daí, que a gente tem a oportunidade hoje em dia de. de ver. Vale muito a pena. O Serencov
lá, né? Feito lindo.
Esse daí. Então, a gente tem
reatores pra pesquisa, pra geração de
radiofármacos. A gente tem reatores pra comerciais
aqui no Brasil, que são pra geração de energia
elétrica, que é o de Angra.
A gente tem, na verdade, lá em Angra 2, tá?
Angra 1 e Angra 2.
Angra 1, se eu não me engano, é 640
megawatts. Angra 2 é mais ou menos
o dobro, 1.350.
Tá em construção Angra 3,
que vai ser quase
2.000 megawatts.
Se estiver pronto ainda. Então, elas produzem
muita energia mesmo, né?
Eu lembro que o que as duas conseguem
produzir, né? Elas estão ali
bem entre Rio e São Paulo, acaba
ficando nessa região.
De uma maneira geral, elas produzem 10%
de energia elétrica que é
consumida no Sudeste e no
Centro-Oeste, juntos. Então, é bastante.
É uma ajuda boa.
Ela quase passou por uma falta de
combustível esse ano, né?
Porque pandemia, né? O urânio
de onde é que vem, etc.
Mas, até agora, ela tá ok.
Tive essa substituição aí
agora em junho, né?
Que foi 6 de junho
dos elementos
combustíveis, que deixou o pessoal até um pouquinho
apreensivo, né? Que foi no meio da
pandemia, foi com equipe reduzida,
protocolo de segurança, né?
Mas deu tudo certo.
Elas usam uma. Eu só queria fazer um adendo.
Eu só queria fazer um adendo, porque
eu ainda não cheguei a falar sobre medicina
nuclear, mas o Radiofarb
que o Felipe tá se referindo,
são substâncias que a gente usa
numa das modalidades da medicina
que eu até comentei lá no episódio
onde eu falo sobre as aplicações da radiação
na área médica, que é da medicina nuclear.
Então, os elementos radioativos
que a gente usa pra injetar nas
pessoas, não todos, né?
Mas muitos podem acabar vindo justamente
do reator, né? Agora,
como que faz? Isso aí é um mistério pra mim.
Eu tava vendo também que
pra irradiação
de alimentos, que eles usam cobalto
60 pra colocar nos cavaletes lá
dos irradiadores, o cobalto
também é produzido dentro de reator, né?
Eles deixam lá por dois anos e
de repente tá pronto o cobaltinho lá
pra usar. Só que é. Como que você sabe explicar, assim, nele por cima?
Como que é isso aí? Tipo. O que que faz ali?
Vale um podcast esse daí.
Acho que esse daí é um podcast à parte.
É bastante coisa. De reatores.
As aplicações, então, vão muito além, né?
De só produzir energia elétrica,
digamos assim. Você tem uma ideia
do IPN? Ele tem uma potenciabilidade
bem baixinha, mas do lado do Ipem
tinha outro, Paula, assim, acho que
não cheguei a te contar, mas tem um da Marinha ali.
E acho que ele consegue
produzir 14 watts, ou 140
watts de energia, dá pra iluminar
uma lâmpada.
Só uma.
Muito bom.
Os caras querendo um interruptor.
Conseguimos.
Então tem muita coisa que dá pra
fazer, né?
Muitas ideias.
E, aliás, a do Brasil de fazer bomba
né, essa coisa.
O Brasil começou uma corrida, num momento,
com a Argentina, pra Pequim conseguir
montar a primeira bomba nuclear,
lá na época da ditadura.
Até que veio uns órgãos internacionais,
principalmente o Atoms for Peace,
e falou, olha, deixa disso, gente, sabe?
Vamos parar com as ideias de fazer bomba.
Deixa disso.
E o Brasil e a Argentina
assinaram uma carta
que até o momento vai parar as pesquisas aqui.
Mas, quando conseguiram
só de reator ali, né, até que
não tinha pra fazer o reator comercial
de energia elétrica, dizem que os físicos
saíram malucos de lá, gritando,
tiraram a roupa.
Tem histórias, tem histórias aí.
Lá no IPEG.
Muito bom.
Bom, enfim.
Pode terminar de falar, desculpe.
Ah, acho que legal
quem tiver essa oportunidade de visitar o reator,
é legal que você vê bastante coisa.
Não sei se você lembra de umas de segurança.
Lembra quando a gente entrou no reator, a gente não foi
direto nele, né, Paulo? Você lembra que tinha umas
etapas antes. A gente recebeu um
dosímetro, né?
Você vê como o pessoal é monitorado lá.
A gente tem uma câmara
no meio. Antes de ir no reator, tem que passar
por uma câmara que é uma, tipo,
uma eclusa, sabe?
Que ela vai mudar a pressão do ambiente.
Olha que coisa louca.
Pra você ver, né, a parte do reator,
você tá fora, né, ali do prédio.
Antes que você entre, você passa por uma cama
intermediária, onde eles abaixam
a pressão do lugar, que nem um avião mesmo.
De modo que se tiver
algum acidente, nada sai de lá
dentro, nem o ar, né? Como a pressão
lá é menor, é negativa, tudo
entra lá. Então, não vai ter
um vazamento pra fora.
Só vai ter um vazamento pra dentro,
né? Vai ter um escoamento de ar
pra dentro, né? Então, tudo
isso é pensado. É muito legal.
Eu quero te perguntar um negócio
que uma vez eu ouvi, mas é
aquele negócio, né? Diz a lenda.
Eu não sei se é verdade. Então,
diz a lenda
que existe dentro do
das instalações, onde tem reator,
uma profissão
que é tipo um físico sênior,
sei lá, tipo um cara master blaster,
que ele ganha um rio de dinheiro,
mas, se der
cagada, ele é a pessoa responsável
por acionar o mecanismo de segurança
que sela a usina e, por consequência,
ele vai ficar selado lá dentro e não vai
conseguir sair. É real isso aí?
Eu não sei dessa história, não.
Eu sei, Paula, que o treinamento deles,
assim, de monitoração lá de
Angra, ele é
sigiloso, né?
Também tem alguns itens
que você não pode comentar, não pode falar.
Porque você pode estar evidenciando falhas,
né? De uma coisa que é
potencialmente
arriscada, né? Pra alguém
que fizer, sei lá, um acidente.
Imagina alguém que atacar o Brasil, vai
querer começar por lá, né? Pra fazer um estrago.
Certo.
Mas a gente sabe também, né? Que
você lembra até Chernobyl, né?
Chernobyl chegou a um ponto que,
só era possível salvar
aquela tragédia de ser uma tragédia
muito maior, com sacrifícios.
E quem
assistiu aquele seriadinho de Chernobyl
vai saber um pouco disso, né? Não vamos
dar muitos spoilers aí. Então, eu não
acho impossível. O que eu sei
que tem é que, pra construção de Angra
3, tem só um cara que
consegue, um engenheiro ali,
que consegue montar
toda a estrutura ali.
Esse sim é o engenheiro Sander. E quando ele
entra em Angra 3, a construção
para.
Entendi. E tem
uma última pergunta que eu
tenho pra te fazer, que daí
também vai ser mais relacionada aqui pro Brasil.
A gente só tem,
né? As usinas de
Angra ali. Mas, assim,
levando em conta agora a questão
do, digamos assim,
risco-benefício, o nosso contexto atual,
onde a gente tá tendo,
por exemplo, a maior parte
da nossa matriz energética vem de
hidroelétrico. A gente tem
outras fontes, né? Solar, eólica,
né? E térmica, né?
Só que a gente sabe que essas fontes
que nem a hidroelétrica é totalmente dependente
das condições climáticas e a gente tá
numa situação horrível.
E quando chega nesse ponto,
até onde eu sei, eles ativam usinas térmicas,
né? Que vão gerar mais CO2,
que vai ser energia mais cara e tudo mais.
Vai piorar, né? O aquecimento
global e, por consequência, piora
as condições climáticas e vira uma
roleta, vira uma roda,
como é que fala? Fica assim, retroalimentada.
Retroalimentando, né? Um sistema que fica se retroalimentando.
Levando isso em conta, ou até
outras coisas que você quer levar em consideração,
você acha que é uma boa, pro Brasil,
seria uma boa
investir em mais reatores,
produção de energia por reatores,
na sua opinião? Tá.
Na minha opinião, tá? Vou falar da minha opinião
depois, como que eu acho que ela
se encaixa no contexto.
Quando a gente construiu Andra 1 e Andra 2,
com certeza era necessário
pra gente dominar a tecnologia. Então,
isso eu acho muito importante.
Embora, acho que essa foi a ideia, talvez,
até de construção de Andra 1 e Andra 2, né?
Dominar a tecnologia
e, sabe,
se precisar, tá ali, já temos. Dizer que tem, né? Exatamente.
E isso é muito importante, né?
Também pra um país, também se colocar
internacionalmente,
tem, né, uma tecnologia, etc.
Então, Andra 1 e Andra 2, com certeza,
cumprem esse papel.
Aí, nas próximas usinas, isso não vai mais
ser tão relevante.
Eu acho que já
tiveram até alguns estudos sobre outras
usinas nucleares, uma em São Paulo, no
Baixo Tietê, e outra em Sergipe,
que eram as próximas, já estavam
com planos pra serem construídas.
A Andra 3 está sendo
construída, então estamos investindo, na verdade,
nisso. Agora, nessa comparação
com a hidrelétrica, a coisa começa a ficar um pouquinho
mais preocupante.
Se você fala de uns países
tipo Japão, que não tem tantos
rios assim, Inglaterra,
sabe? Aí fica
mais óbvio, né? É interessante você
investir na nuclear, né?
Porque, senão, você vai ficar que nem a Inglaterra, queimava
carvão até pouco tempo atrás, não tem como.
Mas o Brasil, ele realmente tem um
potencial hídrico muito grande.
Então, aí, a conversa começa a ficar
mais interessante.
Eu, Felipe, sou a favor das usinas nucleares
crescerem com, talvez, um pouquinho
mais de ênfase, porque eu
entendo que esse é um tipo de tecnologia que,
apesar de ele ter aquele problema
de geração de resíduos,
eu entendo que, se a gente for olhar ele
de uma maneira de dados, ele é um pouco. ele é mais seguro
do que até
as usinas hidrelétricas.
A gente viu aí. Eu acho que ele é muito estável
também, né? Ele consegue ter
uma constância na produção de energia.
Olha, é interessante
você ter falado isso, né? Porque, quando
criaram a Angra, ela ficava por muito tempo
ligando e desligando, e ela ganhou até um apelido pejorativo
que era vagalube.
Falavam que era vagalube, porque ela desligava
toda hora, etc.
Então, assim,
acho que ela tem uma constância, tem uma capacidade.
Acho que talvez a nossa não tenha.
Incríveis, né?
A nossa, talvez, é tecnologia,
cumpre um papel legal,
está melhorando bastante, vai ter a 3, vai ter. E tem, ela tem
sua constância também, né? Ela, com certeza,
contribui de uma maneira
para auxiliar.
A gente viu aí Alto Xingu também,
a mozinha hidráulica que começou a ser construída
e que teve um impacto ambiental e social
e também com
povos indígenas, povos originários também,
né? Que afetou as terras dele
e isso não é legal.
Apesar de não ser uma coisa que a gente fala,
tá matando pessoas, né? Mas também tem
outros impactos sociais que a gente tem que levar em conta.
Claro.
Mas eu acho que uma das questões que eu gosto muito
da nuclear é que ela gera um monte
de empregos e
uma demanda por
pessoas, assim, que, sabe?
Por exemplo, a solar. A solar é
ótima, mas você precisa de um monte de gente pra ficar limpando
painéis. Será que é esse o tipo
de função que eu quero que a população
tenha? Ficar limpando painéis, tirando pó?
Ou será que era uma população que precisa
de físicos altamente capacitados
e pessoais com profissão audiológica
e estudos ambientais
e contenção? Então, eu acho
que a usina. A gente gera uma cadeia
de conhecimento em muitas coisas, é isso que você quer dizer,
então? Exatamente.
Andra, por exemplo, tem escolas excelentes,
tem uma estrutura
de estradas
que tem que estar impecável, porque se tiver
um acidente, como é que eu faço a fuga dali, né?
Como é que eu faço a evacuação, a estratégia,
procedimentos, tudo isso, né?
Isso aí eu até lembro na época que deu
aquela crise
lá de greve, que parou de ter
combustível, a Andra ia desligar, né?
Porque daí não tem como ter rota de fuga,
alguma coisa assim. Não dá pra executar plano
de emergência, né? Exatamente.
Imagina só.
E tudo isso tem que ser
controlado, monitorado, o pessoal vê
a direção do vento a todo tempo,
como que isso tá indo, pra onde
tá indo, que avião tá passando por perto,
tudo isso tem que ser monitorado.
E. Incrível. Então, eu, Felipe,
acho legal. Agora, na minha pesquisa, eu tenho
que lembrar, assim,
depende do que o público vai comentar.
Então, o pessoal vê, um monte de protesto teve
lá em Aracaju contra as usinas.
São Paulo também, contra.
E eu tenho que ouvir, né?
A gente tem que entender que se as pessoas não querem,
elas querem correr os riscos
que vêm com a hidrelétrica,
então que assim seja, né?
Então. Entendi.
Essa é só a minha opinião.
Mas. Eu entendo que o Brasil não está numa onda agora.
agora, de vamos investir em energia nuclear, não é o que a gente quer agora, e eu respeito isso.
Esses reatores que a gente tem aqui no Brasil, que você comentou, os vagalumes, falando em questão tecnológica,
eles são velhos, uma tecnologia mais rudimentar, uma tecnologia meio-terma, uma tecnologia recente, dá para se reatualizar, como que é isso?
Eles são parte desses reatores de água pressurizada, que são a grande maioria dos reatores que tem por aí.
Então, eu diria assim, que estão em uma classe intermediária.
Aqui na América Latina são os maiores, na Argentina tem alguns também, mas a gente tem os que produzem maior energia.
Então, eu diria assim, que apesar de eles serem um pouquinho antigos, por exemplo, o primeiro veio da Alemanha,
ele já passou por alguns ciclos de reciclagem, mas eu acho que eles estão em uma categoria,
uma categoria intermediária, assim, de tecnologia.
Interessante.
Tem na África do Sul também, tem outros, tem tecnologias diferentes, mas eu considero eles um seguro.
É um carrinho, assim, mais moderno, mas que responde o trabalho, sabe?
Entendi.
Bom, não sei se você gostaria de acrescentar mais alguma coisa, eu não tenho mais perguntas.
Então, não sei se. Você quer deixar?
Você quer deixar mais alguma opinião, mais alguma coisa interessante, uma curiosidade sobre?
Acho que eu vou deixar mais uma indicação só, então.
Quem tiver essa chance, que só trabalha com radiação, eu falo isso pra todo mundo, tá?
Existe uma peça que está passando por aí, chama os Três Sobreviventes de Hiroshima,
que é isso que a peça é.
São três japoneses que moram no Brasil, eles falam português,
que é o Takashi Morita, Kunihiro Bokohara e Junko Watanabe.
Dois homens e uma mulher.
E eles estavam em Hiroshima no momento da bomba.
E eles contam o drama deles, né?
Que foi passar por tudo aquilo.
Então, quem tiver chance, procure essa peça pra assistir eles contando
sobre o que foi passar por essa experiência.
E se conseguir a peça, leve um lencinho, porque é forte.
Nossa!
Eu acho que todo mundo trabalha com radiação, a gente colhe muitos frutos de estudos
que a gente não sabe o que é.
O que aconteceu com essas pessoas, tá?
Assim, não vou nem entrar nos aspectos éticos disso, né?
Mas a gente tem uma dívida com essas pessoas enorme, enorme, enorme, enorme.
Apesar de as bombas serem completamente justificadas, elas são heróis, né?
É o mínimo que a gente pode dizer dessas pessoas.
Então, quem tiver oportunidade, procure e baste essa peça,
porque ela é realmente fantástica.
É isso.
Muito bom.
Vou até eu procurar.
Eu lembro que você já tinha me contado na época que você,
você morava aqui em Curitiba ainda e eu acabei não tendo o tempo nem oportunidade de ver ainda.
Mas vou dar uma olhada pra. Até eu me interessei.
Espero que a pandemia não esteja apresentando.
Eles estão bem velhinhos já.
Você deve imaginar.
É verdade.
Tem isso também, né?
Esse detalhe.
Bom, então eu queria primeiro agradecer você, Felipe, por ter aceitado participar.
Eu achei sensacional a gente ter conversado sobre isso.
Eu acho que ficou muito claro.
Eu gosto muito da tua didática para explicar.
As coisas.
Inclusive, o Felipe me ensinou muita coisa a respeito disso.
E muito do que eu sou hoje nesse quesito educacional, eu aprendi com ele.
Então, minha gratidão dupla pra você, Felipe.
Apesar de eu não gostar dessa palavra gratidão,
porque agora os coaches ficam usando e estragaram o sentido da palavra pra mim.
Mas tudo bem.
Detalhes à parte, né?
Então, agradeço você por ter participado, Felipe, de verdade.
E pra vocês que estão ouvindo,
agradeço mais uma vez, tá?
A audiência de vocês.
Novamente, sempre vou falar aqui, né?
Tô acompanhando as estatísticas do Anchor.
Vejo que tem mais ouvintes, mais pessoas interagindo e mandando e-mail.
E agradeço bastante a vocês por isso, tá?
É o que motiva a gente a continuar falando a respeito desse assunto.
Então, vocês vejam, né?
Tem muito estigma em cima disso.
E esse episódio, eu acho que é um que vai ajudar muito
a tirar muito mito em cima dos reatores que a gente, às vezes, fica pensando, tá?
Então, muito obrigado a todos vocês.
E nos vemos.
Nos vemos no próximo episódio.
Você não vai dar tchau?
Tchau!
Podcast Summary
Key Points:
O episódio explica o funcionamento de reatores nucleares, diferenciando fissão (quebra de átomos) de fusão (junção de átomos), sendo a fissão a base dos reatores atuais.
A história da descoberta da fissão nuclear envolve cientistas como Marie Curie, Rutherford, Lise Meitner e Enrico Fermi, culminando no primeiro reator experimental, Chicago Pile 1, em 194
Reatores nucleares geram energia por reação em cadeia, onde nêutrons quebram átomos de urânio, liberando calor que aquece água em circuitos fechados, movendo turbinas para produzir eletricidade.
A segurança dos reatores evoluiu muito desde Chernobyl, com projetos mais modernos que desligam automaticamente em caso de falha, e acidentes são raros comparados a outras fontes de energia.
Usinas nucleares não podem explodir como bombas atômicas, pois requerem urânio altamente enriquecido (80-90%), enquanto reatores usam baixo enriquecimento (cerca de 5%).
No Brasil, Angra 1 e Angra 2 geram cerca de 10% da energia do Sudeste e Centro-Oeste, com Angra 3 em construção, além de reatores para pesquisa e produção de radiofármacos.
O principal desafio é o gerenciamento de rejeitos radioativos, que permanecem perigosos por milhões de anos, exigindo soluções de armazenamento seguro.
A percepção pública sobre energia nuclear é influenciada por eventos como bombas atômicas e Chernobyl, mas a comunicação deve envolver ouvir as pessoas, não apenas educá-las.
Summary:
O podcast aborda de forma didática o funcionamento de reatores nucleares, desmistificando a visão popular associada a desenhos como "Os Simpsons" ou tragédias como Chernobyl. O físico Felipe Kieper explica que reatores operam por fissão nuclear, processo em que nêutrons quebram átomos de urânio, liberando energia em reação em cadeia. Essa energia aquece água em circuitos fechados, gerando vapor que move turbinas para produzir eletricidade, sem contaminar a água de resfriamento externa.
A conversa traça a história desde a descoberta da radioatividade por Becquerel e Marie Curie até o primeiro reator experimental de Fermi em 1942, destacando a evolução tecnológica e de segurança. Kieper diferencia reatores de bombas atômicas, explicando que a concentração de urânio enriquecido é o fator crucial, tornando explosões nucleares impossíveis em usinas. No Brasil, Angra 1 e 2 fornecem energia significativa, com desafios como gerenciamento de rejeitos radioativos.
O episódio também discute a subjetividade do risco, comparando acidentes nucleares com outras fontes de energia, e defende que a decisão sobre energia nuclear deve envolver escuta pública, não apenas educação técnica. O especialista conclui que, apesar dos desafios, a energia nuclear é estável e segura quando bem gerenciada, mas respeita opiniões contrárias.
FAQs
Um reator nuclear é uma instalação que produz energia por meio da fissão nuclear, quebrando átomos de urânio, plutônio ou tório. Ele serve principalmente para gerar energia elétrica, mas também pode ser usado para pesquisa e produção de radiofármacos.
O reator usa a fissão nuclear, onde nêutrons quebram átomos de urânio, liberando energia e mais nêutrons, criando uma reação em cadeia. Essa reação gera calor, que é usado para aquecer água, produzir vapor e movimentar turbinas que geram energia elétrica.
Não. Para uma bomba atômica, é necessário urânio enriquecido a 80-90%, enquanto reatores usam urânio com cerca de 5-15% de enriquecimento. Portanto, a reação em cadeia em um reator não pode atingir o nível explosivo de uma bomba.
Fusão é a junção de átomos, como ocorre no Sol, enquanto fissão é a quebra de átomos pesados, como urânio. Reatores comerciais usam fissão, pois a fusão ainda não é viável para gerar energia elétrica na Terra.
Sim, reatores modernos são muito seguros e aprenderam com acidentes como Chernobyl. Eles têm múltiplas barreiras de contenção e sistemas de segurança, e a taxa de mortes por energia nuclear é baixa comparada a outras fontes, como carvão ou hidrelétricas.
O rejeito nuclear é altamente radioativo e pode emitir radiação por milhões de anos. Ele é armazenado em piscinas ou contêineres selados, e há debates sobre soluções de longo prazo, como enterrá-lo em montanhas ou no fundo do oceano.
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