A narradora inicia anunciando a cura de sua depressão, mas revela uma estranha nostalgia pela vida em desarranjo mental, que considera mais intensa e espontânea. Ela compara os mantos "quero me matar" e "preciso lavar o cabelo" como rotinas mentais, destacando o vazio que sente agora que está saudável. Em seguida, descreve a liberdade de ser solteira, com momentos cômicos como um porteiro flertando, um segurança da rodoviária citando Salomão e um motoboy de olho de vidro, tudo enquanto ela está de pijama velho. Ela também fala sobre sua relação com o Botafogo, que abandonou para quebrar um trauma geracional, e critica a superficialidade das receitas de pavê, que nunca explicam o básico, resultando em um "pavê de batata" que causa desconforto natalino. Por fim, menciona a formatura e os desafios acadêmicos para um carioca, que prefere a retórica da indiferença ("beleza irmão") à formalidade engravatada. Apesar da cura, ela admite sentir falta do sofrimento e da excitação da vida desordenada, sugerindo que a felicidade plena pode ser monótona.
O Retorno, a Cura da Depressão e o Charme do Desarranjo
Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa postal e estará sujeita a cobrança após o sinal.
Falante 2
Fala, Laurinha.
Minha mãe queria te dar um recado aqui.
Pode dar um recado para ela, Tereza?
Essa é Laurinha.
Mas
Falante 3
quem é Laurinha?
É ela?
É
Falante 2
ela mesmo.
Fala com ela.
Falante 3
Oi, Laurinha.
Aqui sou eu.
Você está tudo bem?
Falante 2
Ela tem depressão.
Falante 3
Tem?
Falante 2
Tem.
Então era isso.
Falante 3
Melhora-se para você, Laurinha.
Ou
Falante 2
não também, né?
Nem conhece a garota.
Ué, você está
Falante 3
falando que ela tem...
Falante 2
Minha mãe adora novela turca.
Tchau,
Falante 4
Laurinha.
Falante 3
Bem-vindos a mais um Respondendo em Voz Alta.
Bem-vindo a eu, na verdade.
Eu que represento para essa audiência a figura de pai ausente.
Mais uma na sua vida.
Abandonei você e agora volto esperando ser recebida como se nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu.
Todas as coisas que podiam ter acontecido comigo desde então aconteceram, incluindo dois anos de namoro, que no caso já acabou.
Vou chegar nisso.
Um título da Libertadores pro Botafogo.
Um ato de caridade aí das organizações envolvidas em prol do torcedor que mais sofre no mundo, que é o botafoguense.
E também a total e absoluta cura da minha doença mental.
Nisso você deve estar se perguntando, como assim eu sou doente mental?
A gente nunca reparou.
E é verdade, eu venho escondendo muito bem.
Eu prezo por esconder.
Doença mental é uma coisa muito íntima, claro, que você divide com seus amigos e família e com os dois milhões de pessoas que já ouviram o seu podcast.
Então, de certa forma, eu me sinto na obrigação de vir aqui informar você, uma pessoa tão querida e especial para mim, que é verdade.
A depressão acabou.
Falante 6
O
Falante 3
negócio é que a doença mental está muito mainstream.
Todo mundo tem.
Todo mundo quer se matar agora.
Virou moda.
É sensato.
A depressão é simplesmente o estado de espírito mais racional que tem.
E eu sou essencialmente do contra como pessoa.
Então, a partir do momento que eu notei
Falante 6
que
Falante 3
estava rolando essa tendência geral à depressão, eu resolvi nadar contra a corrente e lutar pela minha saúde mental.
Ser a única pessoa feliz no fim do mundo.
Grande erro.
Não recomendo.
A questão é a seguinte.
Ao longo dos últimos...
Há vinte e cinco anos, a minha playlist mental ficava repetindo sem parar dois pensamentos.
Primeiro, eu quero me matar.
E segundo, preciso lavar o cabelo amanhã.
Dos dois, preciso lavar o cabelo amanhã era o que mais me estressava.
Mas trazer sofrimento, o inferno de ter o cabelo escuro é que dá pra ver a caspa do outro lado da rua.
E eu não sei vocês, mas no terceiro dia sem banho, meu couro cabeludo entra em decomposição.
Só que também lavando todo dia fica seco.
Cabelo sem brilho, sem vida.
Mesmo o resto do corpo tomando banho todo dia, sem querer me gabar, o cabelo tem que ter todo um regime à parte.
Dia sim, dia não.
A minha vida é um constante preciso lavar o cabelo amanhã.
Então, na verdade, o mantra eu quero me matar é o mais de boa.
Relaxante, até.
Pouco se fala sobre o efeito terapêutico de repetir as palavras eu vou me matar entre vinte e duzentas vezes ao dia.
É a versão verbal de você sair pra fumar um cigarro na varanda.
Tem algum prejuízo a longo prazo, sem dúvida, mas aqui agora é uma delícia.
Tanto que, desde que eu recuperei a minha saúde mental, eu me sinto vazia.
Entediada.
O problema é que a gente não tá deprimida e não tem mais o que fazer às duas da manhã.
Você entende?
Meu hobby era sofrer.
O que eu tenho agora?
Eu tenho nada.
O que eu vou fazer da vida?
O que eu vou pensar?
A doença, ela deixa um gostinho de saudade, sabe?
É gostoso ser maluco.
Uma vida de impulso, espontânea.
Eu lembro de quando o ônibus que eu pegava, o A de sete quatro C, não parou no ponto um dia e eu simplesmente decidi não ir para o trabalho mais.
Nunca mais.
Eu nunca mais fui ao trabalho.
Entendido?
Só parei de ir.
Outra vez eu estava andando com um cara que eu estava saindo faz uma semana já e eu notei que o chaveiro dele fazia muito barulho no bolso.
Barulho incômodo, sabe?
De metal assim, chave batendo.
Cada passo que ele dava era aquele som.
O que eu fiz?
Terminei.
Simplesmente, nunca mais vi.
Lembro nem o nome dele.
Coisa que hoje, eu que somo, leio em equilíbrio, serena, toda trabalhada na saúde mental, jamais faria.
Pro bem e pro mal.
O verdadeiro tabu da doença, o segredo que ninguém quer comentar, é que a vida em desarranjo mental é muito mais viva.
Tá sempre acontecendo alguma coisa, ou você acha que vai acontecer... vive naquela expectativa de um milagre, de um desastre.
Eu era uma pessoa muito ansiosa.
Não mais, obviamente.
E agora eu percebo que a melhor cura para a ansiedade, se é que você quer se curar disso, é você se dar conta de que a maioria das pessoas passa a vida inteira sem que nada aconteça com elas.
Mas é aí que está.
É uma coisa quase assim.
Eu meio que me sinto distante da experiência humana. agora, tendo a cabeça em paz, é muito humano você sofrer.
Eu estava lendo esses dias, como médico costume, um negócio sobre medicina romana, um médico do século II que anotava o problema de saúde dos pacientes,
Falante 6
que
Falante 3
era mais ou menos o que você espera que seja na época, varíola, briga na sauna, e um problema que aparecia de vez em quando era a ansiedade.
No século II, tem uma anedota que o Galeno conta, Galeno é o médico em questão, de um cara que estava muito mal, tinha pensamento de suicida e tal, um terror constante, uma luxa.
E qual era o problema do cara?
Ele estava preocupado que o gigante Atlas, que segura o céu, um dia ia cansar de segurar o céu e deixar ele cair em cima da Terra.
Que coisa bonita, né?
Essa longa tradição de maluco que a gente pertence, um fio conectando gerações de doentes mentais através da história, não deixa de ser uma honra.
Participar disso.
Mesmo saudável e feliz.
Ouço dizer, eu sinto falta.
Eu queria abrir de novo um pouquinho de espaço na minha vida pra isso.
Pra algum sofrimento.
Sabe?
Opa,
Falante 7
falando em sofrimento.
A Liberdade de Ser Solteira e Encontros Inesperados
Alô?
Laurinha, acabei de ver no rádio aqui você falando que tá solteira.
Que ficou solteira depois de dois anos namorando.
Que história é essa de namorar?
Falante 3
Exatamente, que história é essa de namorar?
Não sei.
Não sei o que eu tava pensando.
Nada contra namorar, muito pelo contrário.
Eu gosto quando um homem que eu saio quer compromisso.
Eu só prefiro que não seja comigo.
Porque veja bem, quando eu tô sozinha, sozinha na vida, sozinha em casa, eu estou completamente à vontade.
Tô ali usando meu lookinho crente modas, sabe?
Aquele vestido estampado horroroso, ou aquelas pantalonas gigantes voaçando pela casa. um coque exatamente no topo da minha cabeça, igual uma bola de sorvete, sem sutiã também, deixando o seio enganchar na maçaneta, eu viro um animal.
É isso que eu quero, eu quero fechar a porta de casa e reverter o meu estado de natureza.
Fica tão horrorosa que o porteiro pede meu RG quando eu entro no condomínio.
Existe uma liberdade muito grande em ser feia, em se deixar estar feia.
Uma satisfação, sabe, de encontrar esse limite, de saber, nossa, hoje eu estou tão feia quanto é possível eu estar.
Eu gosto de viver isso.
E se eu não estou vivendo isso, eu quero o contrário.
Máximo desconforto, máximo do incômodo.
Aquele flerte que te dá um frio na barriga, uma fraqueza, um negócio, você não sabe se você quer dar ou se você vai desmaiar.
O batom que arde a boca pra ela ficar zero ponto cinco por cento mais cheia.
Setenta e duas horas antes de um primeiro encontro eu já começo os preparos.
Vou na esteticista pra ela passar aquele palito de picolé com cera quente, se não me abserta.
Que momento íntimo, né?
Eu amo como a depilação evoca, assim, memórias ancestrais de ter alguém ali trocando sua fralda.
Enfim, quando você namora alguém...
Melhor, quando eu namoro alguém... pra não projetar, quando eu namoro alguém, eu fico sem os dois.
Eu não consigo nem me entranhar dentro de mim pra ficar confortável, nem me deslocar completamente pra fora de mim pra seduzir uma pessoa.
É um meio termo horrível, assim, uma aflição, uma rotina, parece que eu vou desabar embaixo do do peso do cotidiano.
Mas foi bom namorar.
Eu gostei.
É...
O interessante é que eu não tinha notado uma diferença tão óbvia assim entre eu solteira e eu namorando, mas devia ter, porque assim que eu fiquei solteira, tudo mudou.
Parecia que a realidade entrou em colapso, sabe?
A primeira coisa que aconteceu foi o porteiro aqui do prédio dar em cima de mim, o que é preocupante, né, considerando que o emprego dele é literalmente saber onde eu moro.
Eu até fiquei me perguntando depois, nossa, como é que ele sabe que eu não estou namorando mais?
E aí eu me dei conta de que é porque eu tinha descido para buscar meu próprio iFood.
Atividade de pessoa solteira.
E ele não estava de plantão de madrugada.
O portão da madrugada te conhece melhor que a sua mãe.
Ele te vê em todos os seus momentos.
Se pá, ele já sabia que o meu namoro ia terminar uma semana antes de eu mesmo saber.
Sentiu uma alteração na vibe, sabe?
Igual o pássaro quando está chegando o inverno.
Na mesma semana desse negócio do porteiro, eu levei meu irmão na rodoviária e um segurança ficou me assistindo, dar tchau pra ele da plataforma, até aí tudo bem.
Uma cena, né, comovente.
O que não ficou tudo bem foi ele chegar em mim falando, ah, é seu marido?
Não, não, não, é meu irmão.
Já errei?
Nunca diga pra um estranho que aquele não é seu marido.
Todo mundo que existe é seu marido.
Aí ele, ah, precisa mesmo aproveitar esses momentos, eu é.
Ele é porque o celular está dividindo muito a gente.
Verdade.
E nisso eu já saquei que ele era uma pessoa maluca.
O que imediatamente foi confirmado por ele começar a setar trechos de Salomão, da história de Salomão na Bíblia.
Teve uma hora que ele me contou o caso lá do bebê, que Salomão fingiu que ia dividir ao meio e foi uma experiência muito única.
Perceber na voz dele a certeza de que eu jamais tinha ouvido essa história. que ele estava, de fato, me abençoando com esse conhecimento pela primeira vez.
Como se eu fosse uma tábula rasa, completamente despida de informação e de cultura, até aquele exato instante em que eu conheci um segurança da rodoviária GT.
E nisso ele já tinha puxado o celular e estava mostrando versículos, assim, no app da Bíblia.
E o meu problema nesse caso é que eu tenho um grande apego a maluco, a figura do maluco, um grande carinho.
Quando aparece um maluco fazendo uma maluquice, eu não penso em ir embora.
Eu quero viver aquilo.
Quero permitir que ele seja maluco comigo.
Na mesma semana, isso foi uma semana só que eu tô narrando.
Na mesma semana, eu pedi uma pizza, novamente, sozinha, solteira, buscando meu próprio iFood.
E era outro porteiro dessa vez.
E o porteiro falou, é sua essa aqui?
Essa pizza?
No que eu respondi que não, que era errada.
E ele falou, bem que eu achei.
Você nunca pede broto?
Só grande?
Pronto, já começou errado.
Já começamos com o pé esquerdo essa interação.
Não que ele seja incorreto, eu jamais.
Você criar uma pegada de carbono da entrega, usar uma caixa de papelão para uma pizza broto, não é sustentável.
Eu me importo demais com o planeta para não pedir oito fatias, você entende?
Enfim, aí um porteiro chamou o motoboy, que já estava lá do outro lado da rua, e o motoboy voltou assim, se arrastando.
Sério, parecia o Charlie Brown voltando para casa.
E quando chegou perto, eu vi que era um senhor grisalho com um olho de vidro.
E era engraçado, digo engraçado com todo respeito,
Falante 6
é
Falante 3
engraçado porque tava um olho sem expressão, devido a ser de vidro, e o outro olho o mais puto possível.
A gente explicou o que houve e tal, ele, porra, mandaram errado de novo, segunda vez que eles erram o pedido hoje, você precisaria, mudou de direção, só fazem merda, vou ligar lá agora e resolver isso.
Ligou na pizzaria, Paulo, veio errado esse pedido também, fala aí com ela.
E me passou o telefone.
Eu no meio da rua, dez da noite, horrorosa, porque eu não achei que ia ter que sair do prédio pra calçada, resolver isso com um cara que tem olho de vidro.
As pessoas passando me vendo de pijama, que naquele dia era a camisa de uma empresa que eu trabalhei em dois mil e sete, e um short escurecido na bunda de tanto eu peidar, ao longo dos anos. segurando uma caixa de pizza na rua e explicando no telefone pra um estranho e pra todo mundo ouvir que na verdade veio errado porque a minha era grande.
A minha era grande.
Tá pequena essa pizza pra mim.
O que eu quero dizer?
Não sei.
Já esqueci a sua pergunta.
Reflexões sobre Futebol e as Tradições Natalícias
Oi Laurinha, tudo certo?
Então, gostou de ver o Botafogo ganhando a Libertadores?
Eu sei o grande apreço que tu tem por esse time.
Eu queria saber se te deixou feliz essa notícia.
Falante 3
Sinceramente, não deixou.
Não deixou.
Veja bem, o Botafogo não se escolhe, se herda.
Igual aquele gene que deixa o cotovelo seco.
Só que ao contrário do gene que deixa o cotovelo seco, do Botafogo eu consegui me livrar.
Abri mão. dessa herança.
Antes de ser flamenguista, eu já não era botafoguense.
Eu virei flamenguista pra fazer oposição ao Botafogo na minha casa.
Quebrar o trauma geracional que é ser botafoguense.
E agora, você tem aí o Botafogo ganhando.
Pra quê?
Por quê?
Quantos milhões de crianças cariocas vão crescer no mundo em que o Botafogo é campeão de alguma coisa?
Como que eu vou explicar isso pro meu filho?
Não cabe a nós construir um futuro melhor?
Enfim, Algo a se pensar.
Falante 1
Natal chegando, aquele clima gostoso de tensão familiar.
Você gosta de Natal, Laura?
Vai passar com a família?
Falante 3
Com a família, não.
Devido a estar convenientemente localizada a mais de quatrocentos quilômetros do núcleo familiar.
Muitos anos que eu não passo Natal em casa.
Mas não quer dizer que eu não tenha Natal.
Todo ano eu faço uma ceia na casa do meu querido amigo Renan e meu papel na ceia é o pavê.
Aliás, coitado do pavê.
Muito triste o lugar do pavê na nossa cultura, essa regressão sem fim de tio do pavê e de piada sobre o tio do pavê e de piada sobre quem ainda faz piada sobre o tio do pavê, quando na verdade a associação do pavê com a figura do tio nunca fez sentido.
O pavê é a mais materna das sobremesas.
Está ali pau a pau com a palha italiana e aquela trufa de maracujá que você compra no caixa do self-service.
Até eu, que tenho mãe apenas no sentido mais técnico da coisa, posso me sentir incluída nas festas comendo o pavê que eu mesma fiz.
Inclusive porque a receita de pavê foi inventada para promover o complexo industrial laticínio.
É leite, creme de leite, chocolate ou leite e duas latas de leite condensado.
Sendo que eu sou intolerante à lactose, como você provavelmente sabe, tendo ouvido qualquer episódio desse programa.
O único derivado de leite que eu como é queijo, porque uma fatia de queijo sozinha é indetectável para o corpo humano.
Isso a ciência já entendeu.
Agora um pavê?
Hum, hum, hum.
E esse é o charme da coisa.
O próprio mal-estar que o pavê me traz já é natalino.
Aquele desconforto, um estresse, uma experiência assim, imersiva de Natal.
O problema, é claro, é que eu na verdade não sei fazer pavê.
Não sei.
O creme branco, que o próprio nome já diz, sai amarelo.
Igual purê de batata.
O biscoito de maisena fica levantando assim, pra fora do brigadeiro, meio que na diagonal, com a fratura exposta.
Por quê?
Porque a receita não explica.
Nenhuma receita explica.
Eu vou ler pra você uma receita de pavê no site Tudo Gostoso, que eu separei aqui.
Creme branco.
Em uma panela, leve todos os ingredientes ao fogo médio e misture até obter uma consistência grossa e cremosa.
Creme de chocolate.
Repita o processo feito no creme branco.
Interessante isso.
Creme branco.
Leve todos os ingredientes ao fogo até virar creme.
Ok.
Até aí tudo bem.
Que o objetivo final do creme é transformar em creme os ingredientes do creme?
Já sabia.
Modéstia à parte.
Será que vem ao caso mais algum detalhe?
Mais alguma instrução?
Talvez dividir o processo em mais etapas?
Creme de chocolate.
Repita o acima.
Ah, entendi.
Tudo bem então, poxa, desculpa incomodar.
Tá muito fácil escrever receita no Brasil.
Lá fora os caras nem pedem pra você jogar farinha na batedeira sem explicar o que é uma batedeira antes.
Aqui a receita é uma coisa assim, tautológica, autodescritiva, como se você fosse idiota de perguntar.
Receita de sopa, ingredientes, os que correspondem à sopa.
Modo de preparo, transformar em sopa, sal a gosto.
Essa do pavê é o melhor exemplo, porque ela é tão incompleta que não tem nem público-alvo.
Quem executa perfeitamente um pavê com essa receita já começou não precisando dela.
Mas qualquer receita vale.
Esses dias deu merda uma geleca em casa, queimou a fruta no açúcar, virou um quebra-queixo horrível.
E o meu amigo Renan, querido amigo Renan, disse que é porque ninguém botou água na panela.
Aí eu fui ver a receita e não falava nada de água.
Ele, ah, é porque tá implícito.
Como assim?
Que porra é essa agora?
Água implícita?
Enfim, junta o problema da lactose com a receita minimalista e dá nisso.
Pavê de batata.
Natal no banheiro.
Falante 6
E tudo bem.
Falante 3
Nada mais tradicional, mais festivo, mais natalino do que ser lembrado dos seus próprios defeitos.
Boas festas a todos nós.
A Formatura e os Desafios do Ambiente Académico
E aí Laurinha, fim de ano agora, né?
Tempo de férias, tempo de festa, tá curtindo as férias?
Tá curtindo as suas férias?
Você tem férias?
Falante 3
Não tô.
Não estou curtindo as férias devido ao fato de que eu me formei esse ano.
Esqueci de falar, tá vendo?
Saúde mental, vida em ordem, conquistas, incrível.
Eu amo ser a única pessoa no Brasil que é feliz.
Mas vou te dizer uma coisa, foi uma conquista, viu?
Foi difícil, porque o ambiente acadêmico é extremamente inóspito para o carioca.
Veja bem, quando você escreve um texto na faculdade, tem que ser tudo assim, na base da frescura, sabe?
Tem que escrever engravatado.
Segundo isso, de acordo com aquilo, convenhamos tal coisa.
E nisso o carioca vai murchando.
Porque não é assim que a gente se comunica.
Não tem um peso a questão do argumento. da coesão... no dia a dia... a pessoa pode opinar sobre o assunto... quando for... mandar assim... um discurso fenomenal... vários fatos... muita lógica envolvida... que se chegar alguém e falar... beleza irmão... acabou... acabou... não tem mais o que ser dito... e o meio acadêmico não gosta disso... eles têm medo... da sonoridade... de um... e ela... bem aplicado... sabe... o poder retórico da indiferença... e está certo... tem que ter medo...
Tem que ter medo mesmo.
Ah, meu irmão, não fode.
É o terror de qualquer argumento.
Semestre passado eu tava lendo um negócio lá da Hannah Arendt, famosa Hannah Arendt, né?
Que eu não sei se você sabe, falava que não dava pra ensinar literatura africana na faculdade, porque na África não tem literatura.
Que coisa, né?
Interessante essa opinião embasada.
E eu tive que entregar um trabalho discutindo isso.
Trazendo fontes que refutam o que ela tava falando.
Por quê?
Porque se eu entregar uma página escrito simplesmente Tá maluca, porra!
Em Times New Roman XII, a errada sou eu.
A Gaveta de Presentes e o Prazer de Gastar 20€
Oi.
Desculpa mandar áudio desse ambiente, nessa circunstância.
Eu tô no meu banheiro.
Mas eu tô te mandando porque eu preciso de ajuda.
Me ajuda a pensar em alguma coisa pra presente de Natal pra quem não tem dinheiro nem criatividade?
No caso, eu sou a pessoa sem dinheiro e sem criatividade.
Falante 3
É, presentear é... é um fardo mesmo.
Hoje em dia, eu tenho um carinho muito grande por aquelas árvores de Natal do ano de dois mil, da minha família, cheia de sacola da líder embaixo, de presente tudo igual.
Dá nem tempo de cobrar o estacionamento do shopping de tão rápido que a sua tia voltava pro carro com quinze bolsas CA embaixo do braço.
É isso, cara, praticidade.
O espírito natalino é o espírito da eficiência.
Tanto que aqui em casa eu tenho uma gaveta, isso é um segredo que eu vou te contar agora, tá?
Fica entre nós.
Eu tenho uma gaveta que é um estoque de presentes genéricos pra qualquer ocasião.
Bodas do chefe, aniversário do síndico, chá de bebê do pincher que a sua mãe esqueceu de castrar, qualquer convite que me fizerem na véspera de um evento, eu já tenho um presente certo. é só você encher uma gaveta da sua casa com um monstro de coisa não perecível entre vinte e quarenta e cinco reais qualquer coisa vela de rico chá importado caneta nanquim licor de cassis bong de vidro um loop hot wheels barbe veterinária um blu-ray criterion collection do filme hit fogo contra fogo de mil
novecentos e noventa e cinco não tem estresse claro que isso exige um certo investimento um certo preparo financeiro, mas aí eu não consigo te ajudar.
Eu tenho uma grande dificuldade orçamentária, que é que eu amo gastar vinte reais.
Amo!
Estou agora mesmo olhando aqui do lado da porta do meu quarto, do estúdio no qual eu gravo, uma sapatilha bege de plástico, naquela vibe bem assistente administrativa, que eu comprei no metrô por vinte reais.
Porque eu amo gastar vinte reais.
Vinte reais é a quantia ideal de dinheiro para se abrir mão.
Mais que isso, é uma compra séria.
Menos que isso, não emociona.
Gastar vinte reais saindo do trabalho é uma questão de saúde mental.
Um assunto no qual agora eu sou referência.
Engraçado, inclusive, notar o desequilíbrio de preço entre as coisas que eu compro.
Os mesmos cinco reais que eu gasto num fone de camelô que durou um mês são os cinco reais que eu pagaria num salgado.
Uma pizza, meia mussarela, meia calabresa, custa a mesma coisa que um ferro de passar.
Dois bifes com arroz é um computador positivo.
Por outro lado, tem um produto na Daiso, o amor da minha vida, na Daiso, que é um estojo.
Estojo de escola mesmo, de guardar coisa.
Ele não é longo, ele é meio achatado, assim quase que um cubo.
E é lindo.
Imagina, um estojinho que cabe na palma da sua mão, transparente, perfeitamente estruturado assim, parecendo um paralelepípedo de PVC, só que ele não é rígido, é um plástico mole que dá pra você apertar se você quiser.
E o plástico é transparente, ele é roxo, limpinho, com a borda em relevo lilás.
Dá pra você ver tudo que tem dentro.
O zíper, grossão assim, cobrindo a largura inteira do estojo, é a coisa mais linda que eu já vi.
Um objeto assim, extraordinário.
De verdade, marcou minha vida, eu trouxe pra casa na mesma hora.
E esse objeto, com toda a alegria que ele me dá todos os dias, custou Rp.
Rp.
Rp.
Rp.
Rp.
Rp.
Rp.
Rp.
Rp.
Rp.
Rp.
A Dinâmica dos Encontros e o Significado de 'Traulitada'
Laurinha, bom dia.
Eu saí com o carinha três vezes e a gente ainda não deu uma traulitada.
A gente sai, se diverte, bebe, come, chega em casa, se beija, se pega, mas aí ele se despede e vai embora.
Eu tô começando a ficar preocupado.
O que tem de errado?
Será que eu sou feio?
Falante 3
Olha, se rolou um primeiro, segundo e terceiro encontro, você ser feio claramente não é o caso.
Porque isso a pessoa descobriu no primeiro.
Ninguém precisa de um segundo encontro para confirmar se fulano é feio mesmo.
Ah, deixa eu voltar lá e ver se é.
Não, o segundo encontro já é um termo de concordância com a sua feiura, qualquer que seja.
Se ele tem algum problema com você, não é esse.
Pode ser outro.
Pode ser o seu jeito, seu senso de amor.
Não quer dizer também que você tem que levar para o pessoal.
Quer dizer, claro que é pessoal ele não gostar de você como pessoa.
Eu digo assim, de você ter noção que às vezes simplesmente...
Não clica.
O problema não é você.
É que ele não gosta de você.
Você pode ser otimista também.
Não é porque vocês não deram uma traulitada ainda, como você diz, que não vai arrumar.
Pode ser timidez.
Pode ser uma estratégia.
O famoso corte lacaniano.
Que é a pessoa te mandar pra casa sem gozar pra você ficar pensando nela.
Pelo visto, funcionou.
Aliás, traulitada é uma palavra ótima.
Maravilhosa.
Não tem palavra melhor pra se referir ao que ela se refere.
Ficada é muito vago, trepada é muito vulgar, transar parece que eu tô preenchendo um formulário do governo, traulitada é na medida.
Tem alguma coisa ali na sonoridade, no duplo T, que enfatiza a frieza da relação.
É o sexo reduzido, é quase um processo fisiológico, uma traulitada antes de dormir pra regular o sono.
Zero envolvimento.
Parece algo que um mecânico inventaria pra cobrar mais na revisão do meu carro.
Ih, deu uma traulitada na suspensão, moça, vai ser caro.
Ó, linda demais.
O Fim da Rádio e o Lançamento do Novo Jornal
Opa, falando em linda demais, tá na hora de bater o ponto.
Isso mesmo, meia hora tá ótimo.
Se você quiser mandar sua pergunta, esquece.
Não existe mais isso, a rádio acabou.
Aceita, supera, vamos superar.
Primeiro acabou a TV, agora acabou a rádio.
O futuro da mídia é o jornal.
É todo mundo voltar a ler e escrever.
Sinto muito, de verdade.
Eu sou a última pessoa que queria estar te dizendo isso agora.
Isso aqui era um porto seguro para as pessoas que não leem desde a quinta série.
Só que o problema é o seguinte, à medida que a tecnologia vai avançando, você tem que acompanhar.
Você entende?
Eu trabalho no treinamento, eu tenho que estar na crista da onda.
Tenho que estar atualizada.
E os jovens estão lendo e escrevendo.
Então eu comecei um jornal. www.laurinalero.com.br Sério, é de verdade.
Vai, bota aí. www.laurinalero.com.br
Lá você encontra de tudo.
Crítica cultural, temos.
Resenha do programa da Virgínia no SBT, resenha da biografia da Viih Tube, resenha do filme do Silvio Santos, o melhor da cultura brasileira, resenha do livro erótico que eu achei na internet, que é uma fanfic do Alexandre de Moraes com a Carla Zambelli, que ela morde a careca dele.
Temos.
Tem a sessão de lifestyle, quais TikToks você devia assistir chapada, guia de viagem de quando eu arrastei meu irmão para o Japão, Ah, mas esse jornal aí tem jornalismo investigativo?
Tem.
Tem jornalismo.
Eu sou jornalista agora.
Jornalismo é só querer.
Nós temos o post em que eu analiso quantitativamente e qualitativamente o cardápio do Paris Seis.
Inclusive vou ao Paris Seis arriscar a minha vida pelo conhecimento.
Primeira jornalista a fazer isso.
Nós tivemos diversas investigações sobre diferentes subcelebridades que podem ou não estar dando um golpe na receita e nos próprios fãs.
Tem todo tipo de coisa lá.
Inclusive, a maior parte das piadas desse episódio é reciclada de lá, porque eu sou o quê?
Sustentável.
Consciente.
E o mais importante é que é de graça.
A menos que você queira me dar dez reais.
Aí custa dez reais.
Sinceramente, cá entre nós, você não tem nada a ganhar com isso.
Mas eu tenho.
E eu amo ganhar.
Até mais.
Falante 1
Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa postal e estará sujeita a cobrança após o sinal.
Falante 10
Fala, Laurinha.
Sou muito seu fã.
Estou com uma situação aqui.
Eu queria saber se você podia me ajudar.
É o seguinte...
É isso,
Falante 3
valeu.
Podcast Summary
Key Points:
A narradora afirma ter se curado da depressão, mas sente falta do "charme do desarranjo" e da intensidade da vida durante a doença.
Ela reflete sobre a liberdade de ser solteira, os desconfortos do namoro e encontros inesperados com pessoas excêntricas.
Comenta sobre o Botafogo, o pavê de Natal (e suas dificuldades culinárias), a formatura e os desafios do ambiente acadêmico para um carioca.
Aborda o tédio pós-cura, a nostalgia da ansiedade e a dificuldade de se adaptar a uma vida "equilibrada".
Summary:
A narradora inicia anunciando a cura de sua depressão, mas revela uma estranha nostalgia pela vida em desarranjo mental, que considera mais intensa e espontânea. Ela compara os mantos "quero me matar" e "preciso lavar o cabelo" como rotinas mentais, destacando o vazio que sente agora que está saudável. Em seguida, descreve a liberdade de ser solteira, com momentos cômicos como um porteiro flertando, um segurança da rodoviária citando Salomão e um motoboy de olho de vidro, tudo enquanto ela está de pijama velho.
Ela também fala sobre sua relação com o Botafogo, que abandonou para quebrar um trauma geracional, e critica a superficialidade das receitas de pavê, que nunca explicam o básico, resultando em um "pavê de batata" que causa desconforto natalino. Por fim, menciona a formatura e os desafios acadêmicos para um carioca, que prefere a retórica da indiferença ("beleza irmão") à formalidade engravatada. Apesar da cura, ela admite sentir falta do sofrimento e da excitação da vida desordenada, sugerindo que a felicidade plena pode ser monótona.
FAQs
Ela compara a repetição a sair para fumar um cigarro na varanda: traz alívio imediato, apesar dos prejuízos a longo prazo. Para ela, o mantra era relaxante e quase terapêutico.
A receita é tautológica, dizendo apenas 'leve todos os ingredientes ao fogo até virar creme', sem detalhar proporções, tempo ou técnicas. Ela critica que quem já sabe fazer não precisa da receita, e quem precisa não consegue executar.
Ela acredita que o mal-estar causado pelo pavê (por ser intolerante) é parte da imersão natalina, tornando a celebração mais real e desconfortável, como tradição.
Ela virou flamenguista para fazer oposição ao Botafogo em casa e quebrar o 'trauma geracional' de ser botafoguense, já que o time era sinônimo de sofrimento.
Ela se refere à falta de instruções claras, como adicionar água, que muitos cozinheiros consideram óbvia, mas que não está escrita. Isso causa erros, como queimar a fruta no preparo de geleia.
Ela afirma que os cariocas são diretos e usam expressões como 'beleza, irmão' para encerrar discussões, enquanto o ambiente acadêmico exige formalidade e 'frescura', o que sufoca a espontaneidade carioca.
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