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POR TRÁS DA MENTIRA

from vibes em análise

1h 6m 23s

POR TRÁS DA MENTIRA

A mentira é um fenômeno central na construção da realidade contemporânea, mais ágil e convincente do que a verdade, porque atende às emoções, desejos e necessidades psicológicas. Muitas vezes, ela se torna uma proteção — por exemplo, para grupos marginalizados que precisam sobreviver em contextos de exclusão. A tecnologia moderna, com filtros, inteligência artificial e fake news, ampliou a capacidade de criar mentiras realistas e difusas, dificultando a identificação da verdade. No campo psicanalítico, a mentira é um mecanismo de defesa, usado para evitar o sofrimento diante de verdades dolorosas. A sociedade atual vive um "pós-verdade", onde a narrativa substitui os fatos, e o que importa é o que a gente acredita, não o que é factual. A mentira também se manifesta em formas sutis, como a "meia mentira" ou o "falso self", usadas para agradar ou manipular. O pensamento de que a verdade é dorosa leva muitos a preferir mentiras que proporcionam segurança e controle. O problema é que isso gera desconfiança, polarização, teorias da conspiração e um desgaste da confiança em instituições. A psicanálise ajuda a entender que a mentira não é apenas algo negativo, mas pode ser um meio de sobrevivência, especialmente quando a verdade é inaceitável. No entanto, quando se torna frequente e automática, ela compromete a capacidade de pensar e se conectar com a realidade, criando um ambiente de manipulação e distorção onde a verdade fica escondida. A consciência da própria mentira, especialmente em contextos de análise, pode ser um passo importante para a autenticidade emocional e o crescimento psíquico.

Transcription

10484 Words, 58321 Characters

Portuguese
A mentira é perniciosa, porque ela não é apenas o contrário da verdade, ela pode ser também simplesmente um exagero, ou uma imprecisão, ou talvez até uma omissão, a mentira costuma ser muito ser doutora, apelativa, e se for bem arquitetada ela se torna fascinante e irresistível. Como diz o ditado, a mentira é mais ágil que a verdade, ela se espalha mais rápido, da volta ao mundo enquanto a verdade ainda nem saiu do lugar. O mito clássico nos diz que quando o mundo vê a verdade nua, desvia a olhar com desprezo e raiva. Ninguém gosta de quem mente o tempo todo, mas com dispostos nós estamos a escutar a cruesa da verdade. É difícil deixar de jogar o jogo do me enganar que eu gosto. Ainda mais com tantos filtros, dipfakes, recursos de inteligência artificial, bots e redes de manipulação, que parecem ter nos tornados bons demais em criar mentiras de verdade. Mentiras que são muito convincentes porque nos dizem exatamente o que a gente quer ouvir. Elas nos mostram aquilo que a gente quer acreditar, e aí parece que a gente não tem mais alternativa, se não topar mentira. Quase 90% da população brasileira admite já ter acreditado em conteúdos falsos. E tem os conteúdos que não são falsos, mas são descapidamente tendenciosos. E que a gente vai comprando ou rejeitando, e fica difícil habitar o meio termo. Como sabemos, isso nos leva a polarização, mas a mentira faz parte mesmo do nosso jeitinho. Um estudo recente concluiu que seis, em cada dez brasileiros, contam uma mentira de vez em quando. Muitos de nós acreditamos que mente é mais fácil. Porque evita o desconforto que está embutido na verdade, só que a mentira dá trabalho, bastante trabalho. Sabe aquele ditado de que quem assim seram não precisa de memória? O mentiroso não pode abrir mão da memória, porque precisa fabricar continuamente uma sucessão interminável de álibes defensivos, de justificativas. E aí não pode esquecer de nada, porque qualquer deslize pode fazer a mentira ou uma teia de mentiras caí por terra. Em fial sujeito numa bola de neve de mentiras. Oi, eu sou o Lucas Lídic, e eu sou André Alves, esse é o vibes e análise. Um podcast que se propõe a analisar algumas vibes que estão submersas no inconsciente coletivo. O André e eu somos psicanalistas e pesquisadores, e as nossas análises estão no perfil float vibes. A gente tem maninhos letra que você pode assinar na plataforma sub-stack. E se você tem interesse em manter esse podcast no ar, a gente quer te pedir pra fazer uma contribuição no apoia-se. Qualquer valor é uma contribuição importante pra gente. Todos esses links estão aqui na descrição do episódio. Então, vamos lá. André, eu não vou nem perguntar se você mente, porque a gente sabe que você vai dizer que não, mas a gente sabe que você vai estar mentindo. Quantas suposições? Pois é, vou começar com outra questão. Você lembra quando que você aprendeu a mente. Um outro que sempre tem a saber sobre o jogo, os scores, os plays. Aqui é o tip. O Apple Sports App. Justa a sua sua favorita e se tiver automática nas opções. Mas não há nem saber seus schedules. E quando os seus osesos são os osesos, ele nos ajuda a ir na sua iphone na escra. Fazer um tempo fácil de checar e até o tempo. Então rouva o grupo de chat e download Apple Sports para o free na appstore ou pode encontrar em sua sua iphone. E a tal. Qual o sentimento que você acha que estava por trás da tua primeira mentira? Eu não lembro quando eu aprendi a mentir, Lucas. Imagino que tenha sido bem cedo, porque a mentira é uma espécie de recurso de sobrevivência. A gente aprende isso com muita rapidez. Mas eu lembro de quando eu me dei conta do poder destrutivo de uma mentira. Aquela sensação de "fui pego, meu mundo caiu". E agora vou ter que pagar um preço alto. Pagou preço. Continuou pagando, tá pagando ainda. Todos não há nada. Acho que a gente está abrindo o episódio, já falando sobre o futuro de uma ilusão. O grande texto do Freud. Que fala pra gente como a ilusão é talvez um dos principais fios na tecitura da nossa civilização. Eu já busquece a imagem da tecitura, porque eu imagino a mentira com uma espécie de colcha de retalhos, ou de tecido, ou de rede. Que são imagens bem frequentes quando as pessoas estão falando sobre mentira. Ou intrigas, rede de trigas. Também. Mas talvez uma das coisas pra mim, mais intrigantes, que eu vou tentar junto com você elaborar nesse episódio, é como a mentira tem esse poder de puxando, outras mentiras, mas também as pessoas de uma forma geral. Porque, é quase assim, se o outro acreditar na minha mentira, talvez eu também acredite. E consequentemente, a gente estaria juntos espantando a verdade. Muita gente fala sobre como a mentira é um alimento tóxico que deteriora o organismo, destrói as relações, enfim. Mas é curioso como a gente também desenvolve um certo anticorpo à mentira. E a gente vai ficando muito bom e negar que está mentindo, sem necessariamente abrir mão da mentira. Ou se deixar a possuir completamente e passar a acreditar na mentira também. E aí tem uma questão de será que a gente sempre sabe que é uma mentira, ou até onde se perde nisso. Porque por definição, a mentira vai ser uma declaração que você vai fazer pra alguém. Sabendo que aquilo é falso, com a intenção de que o outro acredite que é verdadeiro. Mas, em alguma medida, quanto mais você vai falando aquilo, você vai se convencendo de que talvez não seja tão mentira assim, que talvez seja verdade. E aí, dá pra construir a verdade também. Esse episódio ele é traiçoero porque a gente vai ter que encarar dois grandes conceitos ao mesmo tempo, que é a mentira aí a verdade. E a verdade é uma construção subjetiva. Existem os fatos. Mas existe a verdade. Ou as verdades. Tem um caráter narrativo quando a gente está falando sobre verdade. Mas tem também um caráter emocional. É uma expressão que eu falo de vez em quando por aqui, que é a da verdade emocional. Que é o que um acontecimento, ou mesmo um fato, ou mesmo uma história, convoca em nós. Um, qual é a rede de afetos que é mobilizada dentro de nós e que às vezes a gente tem da fugir dela. Mas calma aí, André. Antes de a gente entrar na verdade, vamos pensar um pouco mais sobre a mentira. Porque talvez a mentira seja um pouco mais simples do que a verdade. Mas assim, não é simples porque é muito raro, mas existem às vezes intenções por trás de uma mentira que podem ser, digamos, boas. Boas no sentido de ser boa pra alguém que não seja obviamente o próprio sujeito que está mentindo. Ou seja, é quando a gente mente pra proteger alguém. Ou poupar alguém. Ou uma mentira que de repente pode evitar uma tragédia. Ou evitar um conflito, as mentiras diplomáticas. Mas nem todo conflito deveria ser evitado. O tempo todo. E o grande impasse nisso é. Será que a verdade que machuca é melhor ou pior que a mentira que consola? E aí tem casos e casos. Não tem como generalizar isso. E cada um vai fazer o seu próprio juízo de valor. Combaz no seu caráter, na sua educação, nos seus valores. E como ninguém pensa igual. Ninguém julga igual. A gente vai se desentender muito nesse sentido. Então tem isso de que existem momentos e situações em que talvez seja melhor mesmo você não entrar em contato com entre aspas a verdade. Wow, polêmico. Que essa história de que a ignorância pode ser uma benção. É ter esse âmbito que você está falando e eu fico pensando em proteção. Algumas mentiras elas são protetivas. Por exemplo, se a gente pensar, pessoas LGBT queia a pé mais. E quantas dessas objetividade se vem ao longo da vida ou brigadas a mentir para conseguir serem toleradas, para conseguir não ser expulsas de casa ou no fraturar famílias entre todas as aspas possíveis. Tem algo de mentir para nos proteger de uma sociedade que também mente. Porque nesse caso, por exemplo, se todo mundo tem os mesmos direitos, se todo mundo deveria ser tratado da mesma forma, se a gente é aspas, livre, porque será que alguns de nós temos que mentir sobre algumas características muito fundamentais de quem a gente é para simplesmente sobreviver. Então acho interessante isso que você já abriu de talvez a gente tomar cuidado para já não sair demonizando tudo. É, porque seria muito lindo todo mundo falar a verdade do tempo inteiro se o mundo fosse justo ou se ajustar o superácido de uma forma que a verdade deve prevalecer. É claro que as mentiras servem, em geral, para objetivos que são egoístas, para vocês também, saí ganhando ou mesmo para se proteger. Mas também, para enganar ou passar a perda no outro, e alimentar e sustentar um pouco desse ambiente selvagem que a gente vive, apesar de ser civilizado. E o resultado disso é uma grande quebra de confiança generalizada e que a gente vem acompanhando há algum tempo. Então, sempre que se fala em desconfiança o lembro daquele barômetro de confiança da Edelman, será uma pesquisa global que acontece desde o ano 2000 a 24 horas. E é impressionante acompanhar o otimismo e a esperança nas pessoas e nas instituições colapsando a cada ano, a descreça nos governos, nos líderes, na mídia, nos jornalistas, empresas, enfim. É entender como desconfiança aumenta a polarização na sociedade, e a gente tem que ser cada vez mais esperto. E com isso a gente vai ficando também mais paranoico, e aí vem as teorias da conspiração, berando com os sintomas psicóticos, inclusive. Totalmente, Lucas, o lance das teorias da conspiração é uma das coisas mais impressionantes do nosso tempo. Essas histórias meio absurdas desde a damar e as crianças do Pará, até tudo que a gente viveu com a Kate Meadeu tão esse ano. Messe empuxo coletiva amistérios e mentiras, e que convoca não só a aceitação de redes infinitas de mentiras, mas parece que nesse contexto do barômetro da Edelman que você descreveu de uma colisão da confiança como eles chamaram na edição desse ano, parece que tem uma reação das pessoas de uma forma geral a esse cenário, que é muito de nós nos tornarmos espécies de detetives, que a gente vai fabricando possíveis versões que acabam tão alteradas que produzem muita mentira. Esse é o grande paradoxo das teorias da conspiração. Se a gente pega exemplos bem pop, Free Britney. No final das contas, muitas das pessoas detetives que estavam em voltas nessa teia estavam certas, ou acertaram algumas coisas que eram bem sérias. Agora se a gente pega a Kate Meadeu tão, nossa, quantas coisas foram ditas que eram muito pesadas e tem toda a semana nos jornais notícias de pessoas que enfrentaram consequências muito severas nas suas vidas por causa de mentiras que os outros contaram. Esse exemplo é muito emblemático, que mostra como as mentiras e esses delírios e conspirações super creativos ao redor desse caso do sumista princesa, eram muito mais interessantes e excitantes do que a verdade, do porque ela tinha desaparecido. E a verdade só acabou, digamos, cobrincadeira, que não devia ter graça nenhuma, porque era só uma mulher sofrendo com o câncer. Exato, tem alguma coisa, Lucas, que eu queria tua ajuda para elaborar, que é um pouco comum, por um lado, super estimulada a nossa capacidade de tirar conclusões e de dividir as nossas análises. Afinal, a nossa condição online pressupõe que a gente tem opinião sobretudo e consequentemente réplicas e triplicas, sobretudo, mas como o safátale e um monte de gente vem pensando, parece que tem um certo atrofiamento da nossa capacidade de pensar. O Bion tem uma frase de que eu gosto bastante, que é como a mentira demanda um pensador para poder pensá-la. A verdade ou um pensamento verdadeiro não demanda necessariamente um pensador, porque a verdade é simples e natural. E a mentira é intelectualmente mais refinada. Ela precisa de uma teoria mais sofisticada que desminta a verdade e tem um efeito rebote disso que é muito curioso e relevante para nossa conversa, que é como muitas mentiras acabam parecendo mais convincentes que a verdade. Como se elas fossem mais bem pensadas que a verdade. E por isso elas são mais especiais. Aqui o penso que está a chave para a gente elaborar as teorias da conspiração. Esse ato de ligar pontos vai ficando tão automático, tão sedutor que acaba atropelando a verdade no meio do caminho. Aí nós, nessa condição de detetives de mentira, acabamos produzindo nada mais do que mais mentira. Essa é a ideia de hacker, de hacker a verdade. Isso está muito presente hoje, mas você falou do Bion e eu acho que é bom a gente trazer pra psicanálise e pensar nessa relação entre mentira e psicanálise, porque a psicanálise tem muito a ver com esse universo todo da mentira e dos segredos e das verdades escondidas e da busca pela verdade ou verdades. Só que eu sinto que a psicanálise dá uma certa bagunçada nessa lógica mais óbvia e padrão da mentira. Por vários motivos, primeiro porque elas nos fazem reconhecer que não é tão simples assim pensar em a verdade. Se a gente vai olhar porque que é o projeto moderno, ele está muito numa relação totalizante entre saber e verdade. Só que os nossos pensamentos, os nossos desejos, os nossos afetos, eles geralmente são contraditórios, eles são ambivalentes, existe uma clivagem, uma divisão no sujeito. Por exemplo, você ama uma pessoa, mas aí ela fez uma grande sacanagem com você, ela te agride, ela te trai, te decepciona e aí você sente o quê? Tristeza, raiva, gustia e você pode sentir um desejo de que essa pessoa sofre um grande mal também. Você pode desejar até aquela morra, no auge da sua raiva, da sua mágula, mas você sabe que não deveria sentir isso, não só pela culpa, porque é rado, super eu e tudo mais. Mas porque no fundo você ama essa pessoa? Aí tá posto um conflito, bem básico, então você vai ter que entre aspas mentir para si mesmo, para conseguir de alguma forma sair desse conflito. Para alguns lados, a gente vai ter que conseguir se enganar um pouco, porque não dá para suportar duas verdades, que são tão contraditórios. E além disso, a gente tem não só esses choques entre as minhas próprias verdades, mas os choques entre a minha verdade e a verdade do outro, ou o que seria de repente uma verdade universal, vira um debate bem existencial e filosófico, né? É, mas tem um pedaço que você puxou nisso que eu lembrei daquela aula do Dunker sobre o texto do Lacan, coisa afrodiana, em que o Lacan trabalha essa impossibilidade na visão angelical de que a gente poderia só falar a verdade ou toda a verdade. Ele institui essa ideia de que a verdade ela é sempre meio dita, ou o caráter parcial da verdade, de que ela não se desvela necessariamente e tudo de uma vez. E aí eu concordo muito contigo, a psicanálise balança bastante, o binome verdade mentira. E que eu acho que conecta com esse o que você está colocando, que é, nem sempre, a gente vai conseguir bancar todas as verdades, tudo de verdade, mas a gente vai precisar de algumas mentirinhas, meias verdades ou verdades parciais pra gente conseguir sobreviver e conviver com a gente mesmo, inclusive, porque tem as mentiras que a gente conta pra gente mesmo. Você sabe que sabe, mas finge que não, esquece que sabe, intencionalmente, na repressão ou inconscientemente no recalque, porque assim fica mais conveniente ou porque assim fica suportável, fica possível você viver. E aí não é que seja exatamente uma mentira, mas é sobre deixar a verdade de lado, não ficar pensando. Então olha como mentira e verdade também não são exatamente opostos absolutos, porque imagina você ficar o tempo tudo pensando e lembrando e falando pra você mesmo que um dia você vai morrer, e que pode ser a qualquer hora. Isso é um estado de pânico, a gente sustenta continuamente a ideia de que daqui a pouco ou amanhã com certeza a gente vai acordar e viver mais um dia, mas isso não é uma certeza, a certeza mesmo é a da morte. Então tem alguma coisa aí sobre o desvio da verdade, que é uma tentativa de manter alguma estabilidade psíquica, como o mecanismo de defesa, pra manter alguma paz, no nosso ego. Então que bom que a mentira pode ser um recurso pra proteger o sujeito ou proteger o eu, de uma verdade que é difícil de mais de bancar ou de bancar ela o tempo inteiro. O problema é quando a mentira se torna um recurso, que é tão frequente, que o sujeito já nem consegue mais sustentar o princípio da realidade, até porque a verdade ou as verdades também dá um jeito de aparecer, onde que está a verdade do sujeito, ou pelo menos uma das verdades, que não está sendo reconhecida. No sintoma, o sintoma é o que o sujeito tem de mais real, vai dizer o laca, é o que está tentando ser dito escutado. Por outro lado Lucas, claro, a mentira pode estar encaixada nesse lugar de defesa, mas eu também acho muito relevante, o aspecto da mentira que frequentemente opera como um ataque ao outro, uma forma do sujeito mentir pra manter, inclusive, algum tipo de controle da situação, um certo jogo de poder. Claro, ao mesmo ver quantas, em verdade, o outro está disposto a tolerar, porque tem essas mentiras que são compartilhadas no silêncio, aquela história muito clássica na pernicat casais. A gente tem um acordo não dito sobre como a gente pode fazer o que a gente quiser, a gente só não conta um pro outro. Bom, tem uma omissão que se confunde muitas vezes com mentira, porque pra você seguir emitindo, você vai ter que mentir em alguns momentos pra dizer onde você estava ou que você fez com quem se foi. Se o menos o acordo fosse dito, né? Que o acordo não dito sobre não falar, mas a mentira gosta do silêncio, das sombras, do que é um pouco mais soturno, mas eu fico pensando bastante na mentira como essa falta de cuidado com o laço, a mentira como uma desvaloração da palavra, a sua palavra. se torna ouca de sentido. Ou melhor. Talvez não tão ouca assim, porque a mentira também carrega um significado. Mas a mentira tem esse poder de operar uma certa rasteira relacional, porque quando é verdade viratona, porque eu concordo com você a verdade sempre dá um jeito de viratona, o outro que recebeu a mentira vai acabar um lugar de desampário, que tem essa borda de irresponsabilidade, que é bastante cruel. E a mentira também pode operar nessa indução da passividade do desampário, de provocar uma fragilidade cognitiva no outro, que torna para o mentiroso a situação mais controlável. Então, uma das partes mais fascinantes da mentira para mim é como ela subestima o outro duplamente. Primeiro, porque o mentiroso vamos colocar entre aspas, porque não gosto da mentira com identidade, mas sim como função. Mas enfim, primeiro que o mentiroso considera que o outro não tem a elasticidade psíquica para suportar a verdade. Segundo, o mentiroso considera que o outro não tem inteligência para descobrir a verdade. Então tem uma redução, um achatamento do outro. A gente usa a mentira nas relações como uma forma de controle, e isso acaba produzendo um certo sinismo no mentiroso, porque existe um rebaixamento tão grande que acaba desprezendo algumas partes do outro, como se não importasse muito bem a diferença entre verdade e mentira, importa que eu digo o que o outro vai aguentar, ou eu digo se o outro vai descobrir ou não. Então, o mentiroso é um grande esperançoso, ou um iludido. Porque aquela coisa do biom que eu acho maravilhosa, que é a gente expande a nossa capacidade de pensar por causa dos pensamentos, que é um pouco contrário do que muitos pensadores nos dizem. Então, o mentiroso vai nessa direção de que a mente do outro não é capaz de se expandir para, por exemplo, dar conta de uma mentira até transformá-lo numa verdade, quebrar a casca mentirosa para chegar no núcleo verdadeiro. Se é que existe essa imagem que estou construindo, entende? E é uma posta mesmo que o mentiroso faz. Eu achei interessante que você falou da mentira para atacar nesse sentido de rasteira relacional, que também pode vir de uma outra forma que é mentir para agradar, e também tirar alguma vantagem disso. E aí, a mentira a gente vê em grande peso e em muitas manifestações na publicidade, no mercado, nós estamos pensando a mesma coisa no consumo, porque, em geral, a gente sabe que tem um ontem de mentira, mas a gente compra a ideia, a gente topa a fantasia, você me engana, eu te engano que você me enganou e assim a gente faz um negócio aqui, e a economia gira, o bom e velho me engano que eu gosto. E esse é o aspecto da mentira que é a promessa que ela faz. Você falou do futuro da ilusão lá no começo. A ilusão que a mentira oferece é a mentira que tem o objetivo de seduzir e que está na religião e muitas religiões e no capitalismo, que é a nossa religião compartilhada, como a gente falou aqui no episódio sobre o dinheiro. Então, é importante a gente ter um pensamento crítico sobre esse grande show do faz de conta, não que a gente consiga ficar totalmente exento e de fora disso, mas a gente tem que estar de sobreaviso, porque existe um mundo aí cada vez mais muito artificial na sua autenticidade, que é o genuinamente falso, um fake de verdade, que a gente conversou muito ali na época do filme da barbina, daquele universo tão visualmente tátil e fantasioso e plástico de uma artificialidade autêntica que se manifesta como um sintoma coletivo mesmo, porque essa inaltente cidade ela se tornou extremamente real hoje em dia. A gente habita um estado de tamanho a distorção da realidade e de nós mesmos, que essa pergunta, mas isso é verdade, isso é real, parece até descartável. É claro que a gente quer saber o que é verdade, mas a gente também ressente e rechassa qualquer realidade que coloca nossas fixões em perigo, em questão. E nisso existe uma grande tendência aí de aceleracionismo estético e porque não também ético, onde a inteligência artificial e essa cultura visual de uma estética capitalista algoritmica, criam um mundo de imagens, pós verdade, de falsificações digitais, que vai só projetando, maximizar as curtidas, os lucros com publicidade, isso num extremo, mas também no mínimo, sabe? E talvez até aí, André, eu acho que tenho o perigo maior, que são nas pequenas diferenças. Se você pensa nos filtros, nas minhas alterações, que é quando a gente dá só uma leve maquiada, sabe? A maquiagem é uma mentira, você ressaltar os seus pontos positivos e esconder os negativos, isso é uma mentira. O que está em jogo aí é esse desejo de agradar o outro, e aí tem o que o Inicord trabalha com a ideia de falsos self, que é essa faceta da personalidade, que é desenvolvida para satisfazer os outros, e se conformar de uma forma normopata, muitas vezes, as expectativas sociais, com o abismo, com o nosso suposto self verdadeiro, se é que eles existem, e as teorias vão ser tendo diferentes perspectivas, mas são esses semblantes que você vai usando, e aí parece que é só a meia mentira, sabe? Só que essa história da meia mentira, a gente fala como se fosse uma coisa inofensiva, mas a real é que assim, um copo pela metade, ele está metade vazio e metade cheio, mas uma meia mentira não é o mesmo que uma meia verdade. Mas enquanto eu estava falando, fiquei pensando naquela ideia do bolas de que o falsos self protege o verdadeiro self, ou existem partes aspas nucleares do self, que são de alguma forma defendidas pelo falsos self, mas ao mesmo tempo, é o falsos self e que impede o sujeito de entrar em contato com o seu verdadeiro self, e aí essa casca vazia de sentido acaba colocando sujeito numa situação de muita patia, então essa ideia que você trouxe de que a gente muitas vezes mente para agradar, é importante a gente ter no horizonte que a gente muitas vezes também mente para desvitalizar, no sentido de impobrecer de sentido, de contar algo que seja ouco, que seja protetivo ou que seja algum tipo de ataque, mas que desvitaliza a verdade emocional que está por trás de alguma coisa que está sendo dito contada, ou proposta, ou desejada, mas é curioso esse tempo que a gente habita, em que parece que a gente se acostumou a ideia de que mentem e mentem muito para a gente. - Sim, exato. - Eu sou meio fascinado por esses perfis de Instagram, que ficam analisando rótulos de produtos, sabe quando você pega um produto, ele tem aquele selinho de ele alto, em açúcar ele alto, em gorduras, e aí o sobrenome do produto é assim, naturalmente enriquecido, ou naturalmente delicioso, esses, o termo técnico que eles usam é Bab, ou Bab, brand, added benefit, o benefício acrescentado pela marca, que é espuma, de forma geral, é algo que foi criado para de algum jeito, dizer que aquilo ali tem mais valor, e o que uma galera bem interessante vai chamar de mito marketing, o marketing um pouco mitomaníaco, só que não dá para a gente colocar isso tudo na conta só das empresas, porque esse tempo, do qual eu comecei a falar, é o tempo em que a gente entroje to o marketing, o marketing está em nós, marcas pessoais. E dessa forma, as mentiras vão transitando também numa versão mais branda, do tipo essas trends de TikTok e Instagram sobre as quais a gente até falou já no nosso canal do Substech, que é o romantic e a sua vida. Sim. A ideia é simples, se a sua vida fosse um filme, seria de ação de horror, numa comédia romântica, é mais um sintoma produzido pelo viralismo, mas é a ideia de que todos nós podemos ter, ou temos direito a uma vida de cinema. Desde que, claro, a gente tem uma bordência, nos acompanhando e para chegar lá, a regra é clara. Você tem que começar a romantizar a sua vida imediatamente. Romantizar, importante, não é necessariamente mentir, mas tem essas pequenas distorções das quais você está falando. O ângulo específico, o livro que você coloca junto com seu café também aderecioso, o livro que você não necessariamente está lendo, uma curadoria de imagens e momentos que está intencionalmente destinada a alterar a realidade. É tipo aquele vídeo da Animaya falando que tudo o nosso redor é uma grande ficção, que você entra na avião e na verdade você não sai do lugar. Sim. Enquanto você está lá dentro, é na verdade a produção do seu show de Truman, que está trocando todo o cenário. O mais fascinante é que, a bio do Instagram da Animaya diz, ainda não sou uma pessoa de verdade. A hora que eu cheguei nisso, eu falei bom. Ah, muito lucida. Está tudo aqui. Tem uma relação direta na minha visão com todo o fenômeno de realidade criado ou de escolha a sua realidade no TikTok. Não sei se já passou por aí. Hordas de adolescentes, fazendo vídeos dizendo que passaram a última hora em Hogwarts. Sim. Uma espécie de sonho lucido em que. Um delineio, um delírio. A gente não sabe muito bem. Eu acho que não é um delírio, porque existe uma consciência de que está fantasiando. É que aí tem também esse aspecto lúdico da mentira. Sim. De a mentira nos proporcionar a brincadeira com a verdade. Que pode ser muito interesse. because we can give some good clues about our desire. One of you the one who's always in the know about the game, the scores, the plays, here's a tip, the Apple Sports app. Just pick your favorite teams and get automatic live updates without even knowing their schedules. And when your team scores, it shows up right on your iPhone lock screen, making it easy to check in any time. So rule the group chat and download Apple Sports for free on the App Store or find it on your new iPhone. Coca-Cola. For the big, for the small, the short, and the tall, peacemakers, wrist takers, for the optimists, pessimists, for long distance love, for introverts and extroverts, the thinkers and the doers, for old friends and new. Coca-Cola. For everyone. Pick up some Coca-Cola at a store near you. [Music] Well, and to elaborate more about this mitosphere we're entering here, we have the pleasure of listening to my manager, professor, writer, and one of the most interesting voices of listening to Brazil, Leandro Carnal. We've mentioned, at the same principle, that water was ready to find less resistance. We want to preserve our integrity, our happiness, our body, our mindset. And the truth is a less value than my health, than my home, than my family, so important. We're aware, for example, I have a crime, an adulteric crime, I'm courting in the Sala de Aula, I have a ego that will lend me, and unconsciously, when, for example, we're aware of ourselves, because the reality that I am, or the reality that would cause a lot of pain, if I face it in front, it ends up being so terrible that I prefer to lie. The truth is that a subjective value, truth is not a value that is concrete in such a way that, for me, to preserve, I can sacrifice a subjective value, or my life's objective value. In my mind, we're in trouble, we're in ignorance, we've been through, as I said, to the Catholic church, thoughts, words, acts, and omissions. It's a traditional, and so frequent, that it will constitute a kind of uterus. The uterus, in my mind, is not able to distinguish, the truth of the lie. But in some degree, we all deceive ourselves. I'm deceiving when I think I'm loved by my family, or exaggerate this love, I see this love as all members of the family. When I consider a feeling for my existence, because I say I exist because I'm important for such a situation, I'm important for a situation or for a family like this. But we've been through a lot, we've been through many ways. The big question or the ideal would be to be able to still distinguish what is real, and what is not real. But this is very complicated. The entire psychoanalysis is the attempt to bring all our lies, our falsehoods, our personal fiction, and that's how it's important. It's a universal resource, frequent. All human beings have a lie. You can listen to me too. The ideal would be to not lose the distinction that I'm lying on, because I have such an objective. Even if it's a pitiful lie, even if you're going to lie to present someone, or be a fatal agnostic, and I say that people are fine, but we've been through the whole time. The tools that they suggest increase technological capacity and invent a kind of alternative reality with false photographs, voices, not reals, in terms that didn't happen. There's always a story in the story that was famous for altering photographs. There's always a type of fake news. But we do, every time, more technological dimensions, as always, technology, increases everything we have. It increases our ability to make good, with new and more effective vaccines, and it increases our ability to invent dimensions too. The technology is a tool of neutral. You can use it to save, or to kill the lie today, becomes much more sophisticated. When the painter should do, a famous painting of Napoleon's coronation, he puts the good news on the side of Napoleon's mother, in the church, but it wasn't, which he didn't want, which Napoleon had on Josephine's side, that gigantic painting, shows a fake news today. They can be much more sophisticated in today's society. We have to live with a technology that can also be used to make mistakes every time. But God. Our society prefers the opioids to any pain, it prefers to analgesics, to any reality. So, kindly, for me, and make me believe, for example, that I am a special person and that I am a unique person, I will sell my book. Who says, for me, that my life is interesting, enough to believe, will sell the book. When a doctor says that I'm taking that book, I will live more, in the Rotédoan, it's much more interesting, everything that reality. So, in fact, today, people who sell lies, sell in a very effective way, in a very market. Because we are each time, more sensitive, adored and happy, at the empty, the lies have a great future in front of them. Because real life is a feeling of death, inevitable, for more than I care about death, I will have doubts. For more than me, people will disappear, or betray me. And I want people who believe, no, that love is always, that life can be eternal, here or in a metaphysical plan, and it's natural. People desire to buy lies. sell lies, makes life so permanently. We need photoshop, we need people to alter reality, don't tell me the truth, don't tell me I don't want to listen to lies, I also have a lot of ways, a lot, a lot of work, and how much better lies, but I want to, so do success. Expositions immersive in the Van Gogh or others, because then I will see reality as it is not, much more intense, that's why we alter colors to publish on Instagram. That's why we prefer realities that mask everything that exists. I want a filter, not to look so old, I want the others to love for life that I publish, and not for life that I have. And that's important. The lie has a lot of future, it has a lot of market, lies with others. In the sense, prepare if you still will have your lie of estimated action. Always very interesting to listen to the flesh, and I found it wonderful this phrase that it says that lie has a promising future, lies well and in a balanced way. But especially when he talked about lie in the sense of commodity. In this kind of thought, it's almost like if we live in a time when lie is a natural and inexhaustible resource, a synthetic resource and inexhaustible, that if it is very well manufactured, produced, very capital, but I was thinking, Lucas, how to lie to this doctor, and how to lie to them, they are also very seductive. I don't think we can make an episode about lie if we talk about the past. Because the past really likes to shine with others in the sense of being placed if you look at a place of hope of someone who is above the truth. In a more classic way, the personality of the former social has a lie like a pattern. And to complicate, the problem of the past that generally has a deficit of social effects like the cup in the upper hand. So, a person knows that he is doing or saying something wrong. But that doesn't already be the cup or the inhibitory effects. It's the mechanism of defense of the past is the negation. Perfect. But we forget that this is done many times of a very charismatic way. Then we end up entering that very torturing scheme in which the past manipulates our cup and even with our suffering not because we're a troubled creature. Well, sometimes we even a little. But because we end up seducing that's why the other is saying and that we want to listen too. But the past has a phenomenal capacity to get rid of lies that make us think or feel the things of the type that they find me. Finally, they're saying what I really am. While in the past it's a little more in order to have a more and more object with which I can play. But why does the past be so seducing? Because it's able to involve us with our most obscure part. Because everyone has a little bit of madness and despair. And in a greater or minor degree, of course. It's the past. Recuse a law and invite others to leave the law too. And it's exactly the same when the other is discovered in this place of guilty, of criminal, of honor. The past of the past is not necessarily in winning the other, but in looking for the reaction of the other in this position of being deceived. And then we go into the field of "Fraud" of the golfers. dessa estratégia de construção da realidade também, onde você pode mentir até que se torne verdade entre aspas. - "Fake it to your make it". - Ou verdade, verdade mesmo. Pode vir acontecer, porque você engano o outro, e aí o outro ajuda você a construir uma realidade paralela. Mas se toda realidade é paralela, não existe realidade paralela. O ponto aqui, de fato, nunca a gente teve tantas ferramentas de distorção. Parece que são esses recursos para fabricar melhores mentiras, como se fossem essas mentiras de verdade. E a cultura de massa vem também bastante interessada por essas figuras controversas, que conseguem alcançar um grande sucesso. Através de mentiras, de golpes, de trapassas, e nesse sentido parece que não importa mais tanto o comprometimento com a verdade. Mas sim é história que você consegue contar, de como você foi do zero ao topo, mesmo que enganando todo mundo. Às vezes, no nível, até da psicopatia, que aquele sujeito que mente olhando bem fundo no seu olho, não se constrange de nenhuma forma. E é quase como se essa figura fosse um pouco aspiracional nos dias de hoje, ou talvez sempre tenha sido. Pois é, essa hipótese que a gente lançou com a vibe do golpismo, de que talvez seja algo bastante presente no nosso tempo. Esse enaltecimento dos mentirosos que se dão bem com o artist, como diz o termo inglês. Mas eu não sei, Lucas, talvez sempre tenha sido assim. Mas eu também acho que tem muita gente envolvida, tentar descifrar alguma coisa muito do nosso presente, que parece gozar mais frequentemente com a mentira, ou parece mais em volta, ou perdida, em redes, em termináveis de mentiras. Não sei se ele é o livro novo da Naomi Klein, o Dapoganger, uma viagem pelo mundo espelho. E é um livro fascinante, em que ela conta um pouco da pesquisa que ela tem feito sobre a extrema direita e sobre a capacidade de uma grande parte da política, da ideologia e da cultura, de sequestrar em significantes, mudarem os significados e fazerem com que esses significantes passem a ser adotados transversalmente. Por exemplo, liberdade de expressão. Sim, liberdade de expressão sempre foi um termo muito usado ou mobilizado pela esfera progressista. Nos últimos 10 anos, liberdade de expressão ganhou um tom completamente diferente. Veu Elon Musk bradando sobre liberdade de expressão ou negócio que nos causa até uma certa revir à volta a interna. Então, não é só que as pessoas estão mais predispostas a acreditar em mentiras que elas gostariam que fossem verdade, mas parece que tem agentes culturais intencionalmente colocados nesse projeto de conduzir um rebaixamento massivo e quase consciente do princípio da realidade. Essa mentira instrumentalizada, que não é apenas trocante, é também um negócio. Tem sido usada a favor de manifestações terroristas, conflitos políticos, interesses econômicos muito maiores do que a gente poderia conspirar a respeito. Mas tem um jogo uma espécie de super indústria da distorsão. Então, a gente não está falando só dos golpistas, mas também desses fórums especulativos, como Telegram e Fortune. A gente falou um pouco sobre isso no Saiforia, uma das nossas vibes do viralismo. Como o professor Castro Rocha escreveu no Guerra Cultural e retórica do Horde, é como se a gente tivesse sim vivendo um grande experimento à sua aberto de mobilização da dissonância cognitiva coletiva. Mas para a gente expandir ainda mais essa escuta, a gente convidou o Thomas K. Averine. Ele é jornalista, escritor e criador do aclamado Podcast, Rádio Escafandro. Acho que basicamente as pessoas aumentem para conseguir uma vantagem. E acho que essas pessoas que mentiram ao longo dos séculos se saíram melhor e procuraram mais e tiveram mais descendentes. E a gente foi acabou-se selecionando a mentira como um traço meio quinerente a nossa existência. E acho que a gente pode mentir para a gente, a gente pode mentir para terceiros, a gente pode mentir para aumentar a chance de sobrevivência da nossa tribo. Por exemplo, da nossa aldeia, da nossa grupo, tribo no sentido de grupo, de bando quando a gente era antes, a gente estava na hora da humanidade, a gente dizia assim. Então, eu acho que a mentira nem sempre tem uma connotação ruim, ela pode ser uma mentira para se salvar. O exemplo que o Líger senti-me em um livro do Saposki, que eu fiz um episódio recentemente sobre o Lívera Bítrio. E aí ele fala sobre a questão da mentira, então ele dá um exemplo de um oficial nazista que entra na sua casa e você tá com os refugiados, os judeus no seu sota ou no seu porão. Você mentir nessa hora, você tá fazendo certo, certo? Então a mentira pode ser algo bom, pode ser algo nobre até. Mas aí eu acho que a gente foi selecionando isso e a mentira acabou virando uma parte muito intrínseca do ser humano. Mas a gente tá o tempo inteiro contando pequenas mentiras ou grandes mentiras. Imagina se entra no levador, a pessoa pergunta aí aí "Tudo bem?" e vezes você fala "Tudo bem?" e fala "Nã, putz, meu, come uma coisa meio estragada, tô com uma dura aqui e eu não durbi bem essa noite." E também "Putz, peguei um prássimo que eu não sei se vou conseguir pagar." Imagina se as pessoas vão olhar para você para a mão, tá bom? Chegando. Pode falar a mentira e falar que tá tudo bem, sabe? Então eu acho que a gente tem essa mentira no fundo, no fundo acompanha a gente no cojidiano. Mas aí claro que a gente tem as pessoas que vão um pouco além e perdem a noção do quanto elas podem mentir, do quanto é aceitável a mentir. E eu acho que muitas vezes essas pessoas até perdem a noção de que elas de fato estão mentindo. Assim como quando você tá no levador, a pessoa pergunta se tá tudo bem, não tá tudo bem, você mente. E você não tem noção de que está mentindo, eu acho que as pessoas, algumas pessoas conseguem ir escalorando isso para o restante da vida e criam personas para elas mesmas. E elas começam a acreditar nessas personas, que na verdade são personagens criados para elas mesmas. Eu fiz recentemente uma série de episódios na Rai dos Kafandros sobre um pastor que atua em Tahuatiara. E ele basicamente resgata os horos de drogas, ele filma toda essa ação e transmitem lives e pede dinheiro e basicamente tá ficando rico com isso. E uma coisa que foi um grande desafio para mim, eu acho que ainda é, é entender até que ponto que esse homem entende os danos que ele tá causando, ou porque ele se diz uma pessoa que tá fazendo bem. E é a questão que eu tive durante toda a série, eu tenho até hoje, é entender se ele acredita que ele tá de fato causando bem. Porque fica claro que as ações dele não estão sendo bem feitas, não estão sendo éticas, não estão sendo moralmente aceitáveis. Mas do ponto de vista dele, ele está fazendo bem. Então uma coisa que eu não consegui desvelar na série é se ele acredita nessa persona boa que ele criou ou não. Eu fico imaginando como é que vai ser essa frontera entre a pessoa na que a gente é, a pessoa na que a gente mostra e a pessoa na que a gente consegue mostrar. Porque você imagina, hoje em dia cada vez mais as pessoas, por exemplo, usam filtros nas redes sociais que são que a gente já não consegue entender até que ponto que a pessoa é a imagem da pessoa, é a imagem do filtro. Então a pessoa acaba virando aquela pessoa, certo? E isso vai ser cada vez com essas coisas de depeique, que você pode mudar o seu rosto, pode mudar sua voz, pode criar um rosto, criar uma voz e se relacionar com o mundo através dessa pessoa na que você cria, esse limite entre quem você é, quem você acredita que você é, quem você acha que você é, quem o mundo acredita que você é, ou como o mundo estiver. Vai ficar cada vez mais embolada e complexa da gente separada uma coisa da outra. E eu acho que isso provavelmente não sei, vocês podem dizer muito melhor do que eu, porque vocês que estudam a mente humana. Mas eu acho que isso vai ter impactos profundos na constituição da nossa personalidade. E eu acho que como sociedade, a gente vai desenvolver mecanismos para lidar com esse tipo de mentira ou de essa nova forma das pessoas se colocarem no mundo através de uma pele, de uma casca, de uma persona que na verdade não é ela. Que eu acho que o golpismo sempre esteve em vogue, porque eu acho que essa coisa de você poder mentir, você poder viver na pele de outra pessoa. Uma das grandes tristesas da nossa vida, que a gente vai cada vez mais sentindo ela, é a gente envelhecer e perceber que a gente tem só uma vida para viver, tem só um caminho para ir, tem só uma pele que nos pertence. E a gente está o tempo inteiro lutando com esse desejo de ser outra coisa, de ver outra coisa. E o mentiroso, ele está sempre, na verdade, vivendo, se colocando de uma outra forma que não é ele realmente, vivendo uma alternativa, uma minha alternativa de vida. É, isso tudo me faz pensar no lugar que tenha essa grande mentira social compartilhada, um contexto público e político, e de como isso é um fenômeno muito assustador, Brasil, isso é bizarro, porque a gente tem uma condição de impunidade, a mãe é que você pode mentir na cara dura e não vai acontecer nada, se você tiver muito bem articulado por dinheiro ou poder ou algum capital social. A justiça funciona de formas tão esquisitas que não raro quem mente e quem ganha a causa e quem arca com a verdade, sai perdendo. A verdade nos custa caro, nesse sentido, e o que importa é você saber criar a melhor estratégia para forjar uma realidade. E aí, um parênteses, em termos de registros, RSI, a gente precisa lembrar que a realidade é uma construção fantasística sobre o real, ela é essencialmente simbólico e imaginária. E o real vai ser isso que, estranhamente, é impossível de ser representado, é inominável, é vazio de sentido, não se inscreve diretamente no nosso psiquismo sem ter alguma perspectiva, sem ter algum ponto de vista, sem ter alguma bagagem subjetiva do sujeito que está tentando pensar sobre esse real. que é bom. basicamente a ideia de quem conta um conto aumenta um ponto ou diminui um pouco. Na hora que você começa a contar, na hora que você começa a usar a linguagem, porque a verdade absoluta, esse real na sua pureza total, ele se esvai. Então, o mito é uma narrativa que dá sentido, são representações, são aparatos imbólicos ficcionais, que nos sustentam, que nos ajudam a viver como a gente já falou, que nos ajudam a deixar a vida menos difícil e absurda, porque o princípio da realidade é muito angustante, então a gente cria esses anteparos. Eu já falei isso muitas vezes, mas eu vou repetir. Em uma certa medida, o real está para a realidade, como a verdade está para o verdadeiro. Não é porque alguma coisa é verdadeira, que ela está abarcando toda a verdade. E se a gente vive a quase uma década já sobre o domínio disso que muita gente chama de "pós-verdade", que é essa constatação de que as crianças andam importando mais do que os fatos, e a gente vê, inclusive, diversas abordagens terapêuticas que vão por aí, que trabalham com a noção de crianças, as crianças limitantes, cria a sua própria realidade, romantiza a sua vida. Ok, mas até que ponto? Porque uma mentira compartilhada pode até criar um mundo mais habitável, mas uma verdade de profundamente soterrada nos aduesce, e uma verdade que é inabalável, ela nos isola e ela nos paralisa. Então, para a gente conseguir desalinar a nossa alma, nada melhor do que as verdades flutuantes e não absolutas do nosso desejo. Nisso que você está falando, eu fico pensando em como a verdade ter essa estrutura de proposição, mas também a verdade ter esse âmbito do processo, de uma verdade que vai sendo contada e puxando outras verdades, e que tão exatamente nesse jogo entre real e realidade que você é muito bem em pontô. Você sabe que a ideia de chamar automás para falar nesse episódio veio para mim de um texto que ele escreveu, já faz um tempo, sobre pos mentira. Aliás, essa série que o Thomas citou o pastor é muito boa, vale demais escutar. Mas esse contexto de pos mentira é um que parece que as notícias não precisam mais de fatos, só de volume. Como se a mentira também entrasse na mesma lógica da verdade, processo, proposição continua, uma mentira que vai sendo contada e recontada e circulando e engajando, num volume também intenso, que vai suplantando ou jogando fora a necessidade de lastro. É lógica, especulativa aplicada na nossa reconheição. Nessa lógica, tudo pode ser só basta acreditar e viralizar. Tem um texto do Talys Habsaber pra cult, que ele defende que não existe mais fake news, apenas mentiras em massa, a mentira hoje ela é ágil, construída com rigor e método, ela tem uma linguagem, ela tem uma política e ela tem métodos de circulação. O que o Talys aponta muito bem no texto é que a gente habita um Brasil e um mundo no qual a rede de propaganda mentirosa ou da pós mentira já se desenvolve continuamente a 10 anos como você falou, Lucas. E essas estruturas materiais da propaganda pós mentira, elas estão totalmente entocadas, movidas a ódio, massificação, mistificação religiosa, mitos, recusa da história, realidade dos fatos. Enfim, um processo único de sentido. Mas o que isso tudo constrói e talvez isso seja mais interessante pra gente? Isso constrói um sistema imaginário de devoção e paixão alucinatória, são redes de controle psicosocial, que hoje circulam muito bem pelo menos 20 a 30% dos brasileiros. O que eu acho muito relevante de trazer esse assunto pro nosso episódio é que eu não penso que isso tá acontecendo dentro de uma bolha político ideológica, isso vai transbordando cada vez mais pra outros assuntos e na forma como a gente lida com diversos temas das nossas vidas. Talvez o melhor que você puxou é essas formas de pseudo-psicologia ou esses métodos que nos prometem o mundo, desde que a gente siga repetindo algumas mentiras em massa. Que complexo, Andrea, a gente tá derrubando tudo aqui, não sei o que vai sobrar, porque assim, você foi falando muito bem aí, eu acho que você nem usou essa palavra, mas você foi falando muito bem aí das narrativas, essa palavra, né? Você foi falando das histórias e histórias que são narradas por alguém com alguma intenção. Quando a gente fica mais atento às narrativas, parece que não existe mais verdade, parece que a psicanálise vai por aí, de alguma forma, até ela puxa mais por esse lado. Agora a ciência não, certo? Só que aí tem um ponto pra derrubar um pouco mais as nossas certezas, tem um ponto que eu acho interessante destacar assim de toda essa problematização a respeito da ciência, que é a teoria do Bruno Latur. Latur é um sociólogo e filósofo da ciência, que vai mostrar como tudo que a gente pensa que é natural e científico e verdadeiro também é uma construção, o que a gente chama de fato científico é uma construção, isso não tá dado, a ciência é uma construção social, então ela não tá a isenta dos interesses, dos jogos de poder, das narrativas de uma época e de um contexto em que ela é desenvolvida, não existe uma natureza sem cultura, o entendimento da natureza é cultural, e ele é branco, Eurocentrico, porque se não é, ele é chamado de ciências ocultos, então a gente tem que lembrar que a gente não tem como conhecer as coisas, a gente pode conhecer o conhecimento sobre as coisas, quer aquela frase do Victor Stein, os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo, então a sua verdade vai só até onde a sua linguagem alcança, até onde ela é capaz de suportar, fazendo uma mistura aqui com um pouco, com a frase do Lacan, que é cada um aguenta só a verdade, é capaz de suportar, e aí não é nenhuma questão da intenção ser boa ou ruim, mas de você conseguir a sua limitação, você vai continuar acreditando e falando uma série de coisas falsas e erradas, porque você não tem um repertório que te ajuda a enxergar algo mais verdadeiro do que você, e assim você vai reproduzindo discursos que estão muito longe de ser verdadeiros, e aí então será que falta a informação, dá para acreditar que falta a informação ainda, mesmo com tanta informação que a gente tem, esse é o grande problema da infodemiana, a gente achar que já sabe de tudo, e fechar os sentidos, ficar totalitário nas nossas supostas verdades, ou seja, bem pior do que você desconhecer a suposta verdade é não reconhecer que você adesconhece, porque a gente tem tanta informação que cada vez menos a gente vai também confirmar a veracidade, a procedência, confirmar as fontes, existe um certo desinteresse pela verdade, e uma naturalização da mentira, no sentido de priorizar mesmo o que a mentira pode causar, em termos de entretenimento, de afetos positivos que você está a fim de sentir, ou de afetos negativos que você está a fim de colocar ali naquele assunto naquela questão, e que vão mobilizar as pessoas, o importante é mobilizar e engajar muito mais do que ter uma grande revelação da verdade, é ou de paralisar, porque a mentira também tem esse poder de fazer com que algumas coisas continuem no lugar, sem manter algumas posições, algumas decomposições, para que a gente não tenha que entrar em contato com potencial emocionalmente revolucionário da verdade, transformador, e aí tem um grande sistema de desinformação mesmo, que impede as pessoas de conseguir se perceber mais, e se aproximar mais da verdade, aí vem negacionismo, vem o fascismo, como demagogias que são delirantes e destrutivas, e que geram paranoia, porque de fato as pessoas estão tentando enganar você, mas você está lá tentando descobrir a grande verdade, e aí você confunde fatos com opiniões, e opera nesse menu de realidade, você pode escolher qual é a realidade que você quer acreditar e qual que você vai rejeitar, bom a gente deu todo essa volta Lucas e foi falar sobre a mentira muito mobilizada num campo social, mentiras do mundo, mas eu queria trazer um pouco de volta para as mentiras do eu, e as mentiras do eu com outro, sim, principalmente com outro analista, que é o que a gente faz com as mentiras que a gente conta na análise, reconheça, admita, muito valioso, muito valioso, eu acho legal a gente talvez experimentar, assumir um pouco mais as nossas mentiras, fica pensando até se será que você assumir para alguém que você conhece, que você mentiu ou emitiu ou distorceu, é uma forma de perder ou ganhar confiança do outro, e levar as nossas mentiras para análise, se aprofundar em investigar até mesmo algumas mentiras antigas, por isso que eu perguntei isso para você sendo início do episódio, mas sabe essas mentiras que ficaram lá no passado e que ninguém nunca descobriu, tem muita coisa aí, nisso que não é é dito, a mentira é esse manejo programado consciente da nossa parte, que vai tentar dar conta de um desejo seu que talvez nem seja consciente, talvez você nem saiba direito por que você mentiu, é um sinal de uma transferência que está um lugar muito interessante quando analisando consegue dizer eu menti, ou eu menti aqui, ou nosso acabei de falar alguma coisa que não é verdade. Acho muito legal isso que você está falando porque as mentiras em análise também são material de análise. Claro, a mentira pode ser um jeito de tentar resistir ao tratamento, mas também pode ser parte do processo da verdade, do qual você estava falando um pouco atrás. A mentira que está na imprecisão, no exagero, no excesso de algo, até porque a gente não vai conseguir desvelar toda a verdade do desejo, se é que isso é possível, em um atacado só, ou numa única sessão ou numa vida. O bion tem uma frase que eu acho maravilhosa e que eu lembrei de ela algumas vezes enquanto estava falando hoje, que ele diz que a verdade sem compaixão é crueldade. Tem uma cruesa da verdade, tem um contato forçado ou quase forçado com o real, que a verdade muitas vezes nos propõe, que merece um pouco de trato, ou que pede algum tipo de anteparo, ou de compaixão, não de mentiras necessariamente, mas às vezes as mentiras vão fazer essa função de próteze. Mas o que eu penso ser mais interessante nesse caminho da mentira em análise é a gente lembrar que a mentira tem um caráter sufocante, a mentira também pode ser uma espécie de ataque ao pensamento, não liga essas duas coisas, finge que isso não tenha ver com aquilo, ou que a mentira que eu contei há tantos anos atrás não tenha algum tipo de eco no meu presente. Então, a gente conseguir abrir essas mentiras é também uma forma da gente abrir a nossa capacidade de pensar. E se libertar, esse esforço, eu acho que pode se engenhar a gente pensar assim, vamos mentir menos, mas pode ser interessante pensar pelo oposto, no esforço de. e na grandeza de falar verdades, tem aquele conceito dos gregos que eu acho bem legal, que é a parresia, a parresia é a coragem de dizer a verdade e de falar livremente, de dizer, digamos tudo, que essa fala muito franca e de uma verdade que é responsável, a usadia de falar abertamente e publicamente. E eu penso que a gente deveria ser mais assim nas nossas relações pessoais, e com certeza na análise, nessa associação livre, inclusive, e a gente poderia ser mais assim também um pouco derrubo possível nas nossas relações profissionais, e porque não nas nossas mídias sociais, e a política, com certeza, devia ser mais assim, mas o que ela faz mais parece que é o contrário, o discurso enganador, é a demagogia, é a manipulação. As redes sociais também. Quantas pessoas não reagiram aos nossos textos sobre golpismo e sobre saiforia dizendo que nunca tinham pensado em como enganar e engajar são duas palavras parecidas e também atos parecidos, porque de novo as redes sociais estão muito estruturadas por uma grande passagem ao ato, mas isso é outro episódio. Agora tem uma coisa que a internet faz, Lucas, que pra mim é muito perturbadora, que é um pouco a diminuição da nossa capacidade de lidar com o outro e até de interagir com as pessoas. Por exemplo, se abre o TikTok e as vezes as pessoas não gostam de alguns estudos, só que elas não vão lá e escrevem "nossa, não sei se gostei" ou talvez mudaria essa parte, algo que talvez a gente faça em esferas como uma reunião de trabalho, o homôncio de domingo, enfim. Não te que toque as pessoas só escrevem assim, lixo. Você não deveria falar isso. Tipo, tudo muito grave. E eu não sei se a gente anda muito bom na nossa capacidade de confrontar um mentiroso ou de confrontar uma mentira. Como é que a gente desarma uma mentira? Até porque todo mundo mente, mas ninguém gosta muito de ser chamado de mentiroso. Então não sei se o melhor jeito é necessariamente você é um mentiroso, ou isso é tudo mentira. Enfim, esse jeito meio convocador da irritabilidade ou explosivo e impulsivo. Talvez é um caminho possível pra gente conseguir convocar o remorço do outro ou convidá-lo a nos contar a verdade aos pedaços. Porque talvez seja mais fácil pro sujeito e descamando a cebola no lugar de apresentar pra gente a cruesa total da verdade. Talvez a nossa grande pergunta seja "Será que você tá me contando toda a verdade?" Nunca vai ser toda. Porque aí vai ser. Episcanálise vai passar muito por isso, porque é realmente o poder da fala. Mas aí de uma fala que não tá vazia, que não são palavras invão. Acredito que análise nos ensina isso. De a gente colocar mais a nossa verdade e o nosso desejo implicado, com uma forma de trabalhar na busca pela verdade. E aí formar esses vínculos que você falou, bancar o que a gente tá dizendo, gerar uma relação de confiança, se implicar no que diz, se responsabilizar pelo que diz. E pensar o que a gente vai fazer afinal com as ficções que a gente cria. Vamos deixar aqui. Vamos, a gente segue pensando e contando a verdade. Pode ser. Tá bom. Até mais. Até, tchau. [Música] [Música]

Podcast Summary

Key Points:

  1. A mentira é mais ágil e se espalha rapidamente do que a verdade, e muitas vezes se torna convincente porque atende às desejos e emoções do ouvinte.
  2. A mentira pode ser uma estratégia de proteção, especialmente para grupos marginalizados, que precisam sobreviver em ambientes hostis.
  3. A cultura contemporânea, com tecnologia, filtros e inteligência artificial, permite criar mentiras altamente realistas, dificultando a distinção entre verdade e falso.
  4. O pensamento psicanalítico revela que a mentira é um mecanismo de defesa psíquica, usado para manter a estabilidade emocional diante de verdades dolorosas.
  5. A mentira se torna uma prática comum na sociedade moderna, com práticas como "meia mentira" ou "falsos selves", que servem para agradar ou manipular o outro.
  6. Acredita-se que a verdade é frequentemente rejeitada por ser dolorosa, enquanto a mentira oferece conforto, segurança e um senso de controle.
  7. O fenômeno do "pós-verdade" mostra que a verdade é cada vez mais subjetiva, e o que importa é a narrativa que se circula, não a veracidade factual.
  8. A mentira é um recurso social e psicológico profundo, presente tanto no indivíduo quanto nas estruturas sociais, com efeitos em políticas, mídias e relações interpessoais.

Summary:

A mentira é um fenômeno central na construção da realidade contemporânea, mais ágil e convincente do que a verdade, porque atende às emoções, desejos e necessidades psicológicas. Muitas vezes, ela se torna uma proteção — por exemplo, para grupos marginalizados que precisam sobreviver em contextos de exclusão. A tecnologia moderna, com filtros, inteligência artificial e fake news, ampliou a capacidade de criar mentiras realistas e difusas, dificultando a identificação da verdade.

No campo psicanalítico, a mentira é um mecanismo de defesa, usado para evitar o sofrimento diante de verdades dolorosas. A sociedade atual vive um "pós-verdade", onde a narrativa substitui os fatos, e o que importa é o que a gente acredita, não o que é factual. A mentira também se manifesta em formas sutis, como a "meia mentira" ou o "falso self", usadas para agradar ou manipular.

O pensamento de que a verdade é dorosa leva muitos a preferir mentiras que proporcionam segurança e controle. O problema é que isso gera desconfiança, polarização, teorias da conspiração e um desgaste da confiança em instituições. A psicanálise ajuda a entender que a mentira não é apenas algo negativo, mas pode ser um meio de sobrevivência, especialmente quando a verdade é inaceitável.

No entanto, quando se torna frequente e automática, ela compromete a capacidade de pensar e se conectar com a realidade, criando um ambiente de manipulação e distorção onde a verdade fica escondida. A consciência da própria mentira, especialmente em contextos de análise, pode ser um passo importante para a autenticidade emocional e o crescimento psíquico.

FAQs

A mentira é uma afirmação falsa feita com intenção de enganar. Ela é poderosa porque se espalha rapidamente, é convincente e pode se tornar fascinante, especialmente quando atende aos desejos ou medos das pessoas.

A mentira é frequentemente mais bem pensada e atende exatamente ao que a pessoa quer ouvir, criando um senso de conforto emocional que faz com que a verdade pareça difícil ou desagradável de aceitar.

Sim, mentiras podem proteger alguém, evitar tragédias ou manter a paz em situações sensíveis, como quando se mente para proteger um ente querido ou evitar conflitos dolorosos.

A mentira pode desvirtuar a confiança, gerar desconfiança e provocar fragilidade emocional, especialmente quando é usada para controlar ou manipular o outro.

Sim, a mentira está presente desde a infância e é um recurso de sobrevivência, frequentemente usado para proteger o indivíduo de situações dolorosas ou de dor emocional intensa.

É uma mentira que é feita com intenção de proteger alguém, como quando se mente para evitar que uma pessoa sofra, seja expulsa de casa ou enfrente um conflito difícil.

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