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5. Os piores patrões

52m 36s

5. Os piores patrões

O episódio do Projeto Querino desmistifica a narrativa de que o trabalho no Brasil começou com a imigração europeia após a abolição, destacando que africanos e afrodescendentes sempre foram a base da força de trabalho, mesmo como livres. Tecnologias como a bateia e o cadinho, trazidas por africanos, foram essenciais para a economia colonial, mas tiveram seus créditos usurpados por europeus. Foco especial é dado ao trabalho doméstico, profissão que carrega marcas profundas da escravidão: mulheres negras, como Lucileide Mafra, relatam assédio, humilhações e condições degradantes, enquanto a categoria foi excluída da CLT por 70 anos. A luta por direitos culminou na PEC das Domésticas, impulsionada por Laudelina de Campos Mello, pioneira sindicalista que enfrentou o racismo e a servidão. A resistência dos patrões, incluindo políticos, revela um ressentimento elitista contra a dignidade dessas trabalhadoras. A pandemia agravou a vulnerabilidade, com mortes e casos de trabalho análogo à escravidão. O episódio conclui que a desvalorização do trabalho doméstico reflete uma cultura de servidão enraizada, que ainda persiste, mas que a organização e a luta dessas mulheres, como exemplificado por Laudelina, continuam a transformar a história.

Transcription

7397 Words, 42479 Characters

Portuguese
[música] Antes de começar, um aviso. Este episódio contém relatos de casos de acédio sexual e acédio moral. Então, fique se alerta. Eu sou o Thiago Rogério, esse eu pode caixar do projeto Kirino, produzido pela Rádio Novelo. [música] E episódio 5, os piores patrões. [música] Tem uma novela que fez muito sucesso nos anos 80, sim a moça. [música] A tramera toda numa cidade fictícia do interior de São Paulo, nos anos que antecederam a abolição. E o protagonismo, claro, como uma boa novela brasileira, era branco. Tinha uma figura lá que era o irmão do quilombo, o nome do personagem era esse. Era tipo um zorro, um Batman, um sujeito mascarado que entrava na senzala da fazenda e libertava os escravizados. Daí, num ponto lá, eles finalmente revelam a identidade dele. E era um homem, branco. Mas nem é isso que me chama a atenção nessa novela. É a cena final. [música] A lei Aúria já tinha sido assinada, e daí estava tocando essa música enquanto mostrava um grupo enorme de pessoas andando em direção à fazenda. Os homens estavam de terno e chapéu, alguns estavam de boina. E as mulheres de camisa de linha, saem cumprida, lenço no cabelo. Todo mundo branco. Meu Deus, os italianos. A única personagem negra nessa cena é a bar, interpretada pela grande chica Xavier. Ela era uma escravizada da fazenda, mas ela trabalhava na casa, doméstica. Na época da escravidão, se dizia também, mukama. E a batinha sido também ama de leite da protagonista, assinha a moça. A única coisa que a personagem diz na cena toda é isso aqui. Ela está segurando um bebê branco dos patrões na sacada, olhando para os italianos que acabaram de chegar. Quem que eles estão falando, senhar? Eu não sei, bar. - Que te acho de línguessa? - É italiano, bar. - Italiano. - Hum, eu não gostei deles. Daí ela saia andando pela sacada, olhando feio para os italianos e entra na casa. E assim a moça começa a falar com aquela multidão que tinha acabado de chegar. Diga eles que são todos bem-rindos a fazenda araruna. - Que eles ficarão alojados? - Da melhor maneira possível, por enquanto. Mas nós cuidaremos pra que todos possam construir as suas casas. Diga eles que eles são livres pra andarem pela fazenda, as crianças pra brincar, mas tome cuidado com o Rio. Diga também que depois que eles descansarem, eu chamarei uma um pra conhecê-los melhor. Daremos um jeito de nos entender. Daí essa moça fala mais um pouquinho, entra esta música de fundo e a câmera começa a mostrar um monte de peças caminhando. Pés de escalsos. A câmera depois se move pra um contra-alus visto de baixo. Dá pra ver só as silhuetas das pessoas. Mas dá pra perceber que os homens, por exemplo, não têm chapéu, nem terno e nem sequer camisa. A câmera finalmente mostra o rosto das pessoas. E são pessoas negras. Samos vezes gravizados da fazenda. Os italianos chegaram, os negros estão inibóra. O que mais me incomoda nessa cena é essa ideia que está cristalizada até hoje na mente das pessoas, dessa transição quase que automática entre o trabalho escravo e o trabalho livre. Como se tivesse sido de uma hora pra outra? Como se já não tivesse começado muito antes, porque havia muitas pessoas negras que tinham conquistado a própria liberdade e já trabalhavam livres há muito tempo. E como se o europeu tivesse sido trazido pra finalmente superar uma inaptidão do trabalhador africano e afrodecendente? Como se o negro fosse um incapaz, um preguiçoso? Como se agora, o país, enfim, pudesse avançar, não porque acabaram com a obscenidade que foi escravidão. Mas porque o trabalho seria finalmente executado por mãos mais capazes? O grande trabalhador europeu. Você sabe por que que houve um incentivo amigração europeia, né? Já que não dava mais pra explorar, a elite branca e as autoridades queriam disimar a parcela negra, branquear a população. E olha, aqui nada contra os italianos que vieram muitos de origem o milde e nem foram só italianos que vieram nessa época, espanhóis e portugueses também. A gente sabe que muitos deles acabaram também explorados pela boa gente rica, trabalhando muito e ganhando quase nada. Mas a gente sabe também que num país que foi construído graças a mais de 300 anos de escravidão, o simples fato de serem brancos europeus de terem uns olhos claros, já configuravam privilégio e um baita diferencial no mercado de trabalho na hora de disputar o entrego com uma pessoa negra. Mas o que realmente importa aqui pra mim é que, diferentemente do que tá cristalizado na mente das pessoas, o trabalho no Brasil não começou quando foi assinada a Lei Aúria. Não começou quando a mão de obra negra foi substituída pela mão de obra europeia que nem na novela. Se teve um povo que sempre trabalhou no Brasil, foi o negro. Eu sou o Blue Silei de Máfara, eu nasci em curúrupo interior do Maranhão. É uma cidade que fica mais ou menos há seis horas de são Luís da capital do Maranhão e meus pais eram caponeses. E é uma questão de acabar também, de uma vez por todas, com essa ideia do escravisado ignorante, desprovido de conhecimento, um bicho que foi colocado ali só pra executar o que era mandado. Os povos africanos que foram trazidos por Brasil trouxeram consigo suas tecnologias. E isso tá marcado já na chegada dos primeiros lá no século XVI. Era um povos que vinham de sociedades que já desenvolviam a pecuária, por exemplo. Ou então, sistemas agrícolas complexos. Nos engenhos, muitos africanos chegavam e já eram colocados como mestres de açúcar, que era a principal função na parte do beneficiamento da açúcar, de transformação do melasso em açúcar de fato, refinado. Mestre de açúcar era um posto alto na hierarquia. Ou então, se a gente pensar no ciclo do ouro, no começo, os exploradores eram basicamente catadores, encontrando aqui ali as pepitas, mas uma técnica trazida pelos africanos mudou esse jogo. O nome era Bateia e servia pra tirar o ouro que vinha no curso da água. Foi também por causa dos africanos que começaram a extrair o ouro do cascalho das encostas dos morros, porque era uma atividade que eles já desempenhavam nos seus países no continente africano e que acabaram trazendo pra cá. Na África Central, onde hoje é o Zimbabwe, o processo de fundição do minério de ferro já era conhecido desde antes de 1500. Até os 12 anos eu trabalhava na roça com meus pais, a gente nunca teve Natal, porque o Natal pra gente passava dentro daquele pulsão de manjocas tirando manjocas pra fazer farinha. Então, a gente não tem tradição de Natal em casa, eu nunca armei marro de Natal na minha vida. E aos 12 anos eu vim para parar, morar com meu irmão, ser babado o meu subrinho. Tem um alemão, o barão de esvegue, ele fundou a primeira cederúsca do Brasil, a patriótica em Minas Gerais em 1812, e quem trabalhava, claro, eram os escravizados. E o barão se apropriou de um método trazido por esses africanos, o cadinho, que é um tipo de recipiente conformato de pote que é usado para fundir metais. O alemão fez lá uma pequena adaptação no cadinho, e isso potencializou a capacidade de produção dos fornos. Foi uma revolução tecnológica na época. Hoje tem um monte de livro e de faculdade de engenharia que homenageiam o barão, que é chamado de pioneiro da cederúgia no Brasil. Os africanos que ensinaram isso a ele não sabem nem o nome. O meu irmão era a gente do exército e foi passar muito tempo de três meses para mata. Eu morava, ficava com minha cunhada, a mãe dela, a família dela morava com ela, na casa do meu irmão. E aí eu tinha que ir lá barro para 15 pessoas na casa. A historiadora Natalha Garcia Pinto. analisou 244 anúncios de compra venda e aluguel descravizado os homens publicados ali por volta de 1850 no Rio Grande do Sul. Ela listou 44 profissões diferentes. Cuzinhairo, pintor, marineiro, alfaite, marceneiro, ferreiro, charqueador, tanueiro que eu precisei jogar no Google pra saber o que é, quer dizer, não dá pra dizer que faltava qualificação, né? E tinham também, claro, as funções que nos exigiam tanta qualificação ou especialização, até porque os escravizados precisavam fazer tudo. Os senhores não pudiam mover uma pália. Eu tinha que limpar casa, que eu não podia comer as comidas que eles comiam arromente. Quando um dia que o ferro deu um choque e aí eu joguei o ferro no chão quebrou e ela me botou na rua. Tem vários relatos de viajantes estrangeiros que ficavam impressionados com a forma exagerada, com que a mão de obra escrava era empregada no Brasil. Por exemplo, mesmo não faltando animais de carga, os senhores preferiam que o transporte fosse feito por pessoas escravizadas puxando as carrossas. Era muito comum, também, umas cadeirinhas. Por rico não precisar andar, não precisar pisar na rua, ele era levado de um lado para o outro carregado. Tem um relato de um viajante específico, que é perfeito para ilustrar tudo isso, está numa pesquisa do historiador Claudio Onorato. Ele conta lá que esse viajante que era a estadunidense tinha passado uns dias no Rio. Aí uma vez ele tava num escritório de advocacia. Um dos sócios pegou um pacote pequeno e entregou para um rapaz de 18 anos filho de uma boa família que tinha para trabalhar por lá. E o sócios pediu para o rapaz levar aquele pacotinho para uma outra firma que ficava lá nas redondesas. Daí esse viajante que tava vendo a cena toda escreveu assim. O jovem olhou para o pacotinho, olhou para o comerciante, segurou o pacote entre o polegário indicador, tornou a olhar novamente para o comerciante e para o pacote, meditou o momento, saí o porta fora aí, de dar alguns passos, chamou um negro que atrás dele levou o pacote para o destinatário. E obviamente as pessoas negras não trabalhavam no Brasil só na condição de escravizados. Foi como trabalhadores livres também. Afinal e a gente já falou sobre isso, mesmo durante o período da escravidão, havia um contingente enorme de pessoas negras que já tinham conquistado a própria liberdade. E essas pessoas foram responsáveis pelas criações dos primeiros sindicatos de trabalhadores do país. O sindicato que costuma ser citado como primeiro do Brasil surgiu já na época da república em 1903 e era o dos estivadores do Porto do Rio, que era o maior eternamente homens negras. Aí eu comecei também trabalhar em casa de família, cuidando de uma senhora, limpo no quintal, enfim, como babar mesmo, e como eu tinha bastante facilidade a aprendia a cozinhar muito rápido. Eu já, com 16 anos, eu já era chefes de consinto de melhor que o restaurante para a de Altamira. O que marcou a contribuição portuguesa, europeia e branca em todos esses séculos de formação do Brasil, o que marcou essa contribuição foi sobretudo a preguiça. Essa história é de que o escravizado é preguiçoso surgiu graças ao projeto político que queria descualificar a população negra e legitimar as políticas públicas de imigração. E a preguiça das elites era tanta, que as mães brancas não podiam nem dar de mamar a seus próprios bebês. Isso está representado na figura da "âma de leite". No começo, tinha até uma crença de que o leite das africanas era mais forte. Depois, quando a classe médica ganhou mais força no Brasil, começaram a espalhar que, na verdade, o leite das mulheres negras era perigoso para os bebês brancos. Mas a prática tava tão enraizada que as madames continuaram colocando mulheres escravizadas para amamentar seus bebês, que nem a personagem da Chica Xavier ensinha a moça. Era um sinal de "status", ter uma ama de leite. E era uma fonte de renda também, porque a escravizada, quando ficava grávida, já começava a ser anunciada pelos patrões em jornais, colocada para a loguéu. As amigilei-te mais valorizadas eram as que tinham acabado de dar a luz. E se acha que a mãe negra podia levar junto o próprio filho para poder amamentar? Nada disso. Se a ama viaci desacompanhada do próprio bebê, tinha madame que pagava até o triplo. Daí, para poder lucrar ainda mais, tinha muito senhor que desaparecia com os filhos dessas mulheres negras. Desaparecia mesmo, vendia, abandonava na rua, deixava na roda dos expostos que era uma instituição da igreja que cuidava das crianças abandonadas. Enfim, se a gente parar para pensar, não é muito diferente do que acontece hoje com a figura da babá, né? Não essa parte de desaparecer com os filhos, claro. Mas quantas babás não passam a vida inteira, tomando conta do filho dos outros, sem poder criar os seus. Ou então, sem poder pelo menos estar tão próxima da própria família quanto gostaria. Sei, foi quando eu vim para Belém, continuo meu estudo e trabalhar até os 15 anos, eu não sabia nisso, não meu nome. Porque o meu pai não deixava as mulheres estudar lá em casa e ao 16 anos eu vim para Belém e comecei a continuar meus estudos e trabalhando sempre em casa de família. A profissão de babá ainda guarda muitos elementos desse período da escravidão. Mas não é a única. Em boa parte dos casos, a babá também precisa ser cozinheira, passageira, faxineira, precisa ser até gestora do lar e da vida das pessoas que moram ali. Ela é uma trabalhadora doméstica. Uma profissão que nem de longe recebe a remuneração, nem o reconhecimento, por todo esse acumulo de funções. A origem do trabalho doméstico aqui no Brasil está na escravidação. Porque durante o período de escravocrata, a gente tinha ali a separação de algumas meninas e algumas mulheres para trabalhar em nas casas dos senhores. E esse trabalho incluía dos evícios domésticos, apoio às sinhares. Esta é a professora e pesquisadora Danila Kau. E essa prática, hoje, ela ainda guarda ressquícios coloniais. Ainda existe essa cultura da servidão de que uns devem ser servidos enquanto outros servem. Existe uma cultura também que descoassifica esse tipo de trabalho como um trabalho digno que deve ser bem remunerado, que esse tipo de trabalho é como se ele nem fosse um trabalho. A sociedade brasileira tem muitos risquícios da escravidão. Muitos. Mas é difícil pensar numa relação profissional em que os patrões assumam tanto a postura de senhora e de senhar quanto no trabalho doméstico. Tem uma frase da Sueli Carneiro, que é uma pesquisadora muito importante para nossa pesquisa, que ela diz o seguinte que o trabalho doméstico é um elemento eurístico para que a gente compreenda as relações sociais no Brasil. Então, olhando do trabalho doméstico, a gente pode entender muito de como são constituídas a exiderar que as sociais e de valor na nossa sociedade. Não sei se existe algo mais brasileiro do que essa dependência que a classe média e as elite têm do trabalho doméstico. Tem uma outra autora que é muito importante para a gente que ela é lhe agonzales. E ela fala como as mulheres negras típicamente são visto e são consideradas no Brasil. Então, tem a ideia da mukamba. Isso continua. Permei ainda o imaginário e além disso, ainda tem duas relações aí, que a mulher negra que deve prestar serviços para a família, essa lógica da cultura da servidão, do racismo e tudo mais. Mas tem ainda as violências relacionadas, por exemplo, a violência sexual de acharem que aquela mulher que está ali, ela está ali, não para prestar um serviço de cuidar da casa ou serviços domésticos, mas está ali para servir aquela família, com toda a amplitude que esse termo pode gerar. E quando eu vi pra Belém, eu fui trabalhar em uma residência que dormia na cozinha numa rede e o padrão me acedeava direto. Ele estava esposa sair, voltava pra casa e ficava me acediando. Aqui de novo, a Lucie Leide Mafra, que a gente está ouvindo ao longo do episódio. Eu vou postar que ela jogou no chão na rua, que eu era uma ser mergonha, que eu cardando confiança pro marido dela e o marido dela não tinha feito isso. Isso. Eu tinha que estar com 16. E eu não tinha prontinho. Eu tive que ficar em cima de uma caussada aqui. E muitas outras casas que eu tive que passar por isso, não foi só uma vez. Eu tive casas que eu tinha que escorar um guarda-ropa no oite. Eu tinha que escorar máquina de costura na porta. Porque o patrão fazia isso com todas e nós é um sim empregada. Mas, em compensação, era um salário meio dividido pra todas. Pra é 5, a gente não podia sentar no sofá deles e eu tinha que sentar no banquinho porque eu não podia sentar em nenhuma outra cadeira que não fosse aquele banquinho de madeira para dar um contaminar eles. Então, assim, eu não digo que o trabalho doméstico é um dos piores trabalho, mas eu te digo que tem os piores para onde tem. E quando se fala que a profissão de trabalhadora doméstica é vista como algo menor, algo que nem é considerado trabalho ou que é considerado menos trabalho, isso não é no sentido figurado, mas literal. A CLT, Consolidação das Leis do Trabalho, que regulamentou as relações trabalhistas no Brasil, é de 1943. O trabalho doméstico ficou de fora e foi assim por mais 70 anos. Só em 2013, com a aprovação da PEC das Domésticas, que sofreu muitos ataques das patrões, dos patrões, da classe política e da mídia, é que as trabalhadoras domésticas finalmente tiveram seus direitos equiparados aos demais profissões. Demorou 70 anos. E só aconteceu por causa da luta dessas mulheres. Até para a gente saber que a conquista das mulheres negras empregadas domésticas foi uma conquista que não foi nenhum homem branco ou uma mulher branca que deu, foram as próprias trabalhadoras domésticas, foram as próprias mulheres negras. Esta é a Elizabeth Pinto, professor e pesquisadora. Ela é a biógrafa de uma mulher que simboliza toda essa luta. Aqui começou tudo isso. Se não fosse por essa mulher, talvez até hoje as trabalhadoras domésticas ainda estivessem sem esses direitos. Donald Aldelina, de Campos Mello, é uma heroína da nossa história. Ela conseguiu não só elaborar teoricamente, mas intervir politicamente. Foi uma mulher que esteve a frente do seu tempo, mas também no fronte de várias áreas na área do trabalho, com a questão das empregadas domésticas, era uma mulher que lutou pela sua dignidade, pela dignidade do povo negro. Donald Aldelina era uma mulher de coragem que teve coragem de defender a sua dignidade pessoal e a dignidade do seu povo. Primeiro já vou explicar por que Aldelina de Campos Mello é revolucionária. Pensa na profissão de trabalhadora doméstica hoje. Aliás, eu estou falando sempre no feminino porque mais de 90% são mulheres, e a maioria entre elas é formada por mulheres negras. Bom, mas pensa nessa profissão hoje. Agora pensa quase 100 anos atrás. Imagina como devia ser a relação entre patrão e trabalhadora. Donald Aldelina nasceu numa família de empregadas domésticas, como a maioria dos nossos antepassados das nossas antepassadas, nossas bisavostas para a voz. Rara são aquelas que tiveram outras oportunidades. Então, a mãe dela Aldelina era empregada doméstica. Uma vez, Aldelina viu a mãe dela sendo chicooteada pelos patrões, e isso em 1914, quase 30 anos depois da abolição. Em 1936, Aldelina criou o que é considerado o primeiro sindicato de trabalhadoras domésticas do Brasil, a associação de empregadas domésticas de Santos. Ela era uma pessoa que tinha o máximo de consciência possível com a sua época. Então, ela não admitia a injustiça e a humilhação. E o trabalho, sim, tudo bem, ela sempre trabalhou e defendeu as domésticas. Em Santos, quando ela funda a primeira associação das empregadas domésticas, aí ela já faz pela necessidade dessas empregadas e vendo a realidade da classe trabalhadora, ela começa a lutar pelas empregadas domésticas pelos direitos para que essas mulheres pudessem ter os mesmos direitos dos trabalhadores. A história da dona Aldelina é tão incrível que olha isso. Quando teve a segunda guerra mundial, ela se alistou e serviu ao exército brasileiro. Ela ficava de prontidão no Brasil, não forte em praia grande na abaixada cientista. Daí nos anos 50, a Aldelina se mudou para campinas. Campinas, caso você não saiba, é uma cidade que tem um enorme histórico racista. Tinha muita fazenda de café e tem registro de pessoas sendo mantidas escravizadas por ali até 1920. E lá em campinas, a dona Aldelina criou uma outra associação para as trabalhadores domésticas. Quando veio o golpe militar de 64, a associação acabou fechada. Era uma mulher que estava no meio dos homens que lutando, pressionando, politicamente, ela também pensava na educação, na saúde. Pensava em questões que, mesmo as mulheres negras agora dos sindicatos, que estão começando a pensar agora, por exemplo, na saúde das empregadas domésticas, na saúde mental das empregadas domésticas. Ela trabalhou muito com uma questão que a gente acaba não discutindo, que era com a questão do acedio sexual com as empregadas domésticas. Ela também organizava Biles, porque, nos clubes da cidade, os negros não eram bem recebidos. E nesses Biles tinham concursos de beleza negra e também Biles de debutantes para as meninas negras quando elas completavam 15 anos. Porque as meninas negras das famílias de negro e classe média, como a gente pode dizer, numa elite negra campineira, não podia também participar dos Biles da debutantes dos brancos. E tem que indiga que o racismo no Brasil é mais brando do que nos Estados Unidos. Aqui nunca precisou de lei pra ter essa agregação. A separação entre negros e brancos foi sempre na prática. Com a redemocratização, a associação da Laudelina foi reaberta e com a Constituição de 88 transformada em sindicato. A dona Laudelina morreu em 1991. Antes de morrer, ela transferiu a casa dela para o sindicato das trabalhadores domésticas. E onde o sindicato funciona até hoje? Hoje estamos gravando. Primeiro pergunta pra vocês pra tentar situar o ouvinte, onde a gente está agora? A gente está em campinas na casa da Laudelina, onde ela morou durante muitos anos. Esta é a teresinha de fátima da Silva. Você se chegar a conhecer ela? Sim, eu convivi com ela uns 10 anos, eu acho. E como ela era? Não pode falar tudo. Você pega essa partícula. Assim como o movimento da Laudelina é extraordinária. Eu acho que não existe nível de Brasil. Eu não conheço nem na América Latina, onde eu participei dos encontros das trabalhadoras. Alguém com o poder de falar com a Laudelina. Ela tinha uma oratoria fantástica e muito brava, então a pessoa tinha uma ouro respeito, onde ela chegava. E ela tinha moral de descascar as vezes a gente, ou qualquer político, onde ela estava. E é por isso que você falou que não dá pra falar tudo. É esse lado dela, mas com as cascaduras? É esse lado com as cascaduras. É invisível. Você tinha quantos anos quando você conheceu da Laudelina? Eu tinha gente que ia fazer 20. Eu não tinha esse nenhum, porque meu pai era aquele que mudava de fazenda pra fazenda. Então a gente só as vezes, quando matriculava na escola, sem um dia, ali a pouco já ia mudar a potulgar sem o ia mais. Eu juntando todos os dias que eu fui na escola, eu acho que dava mais ou menos meio ano. Eu me sentia muito mal. E aí quando vim pra associação, pra mim foi uma aprendizada maravilhoso, porque dessas rodas de conversa e com as broncas de Laudelina, é que eu pude crescer um pouco, que eu pude ir pra escolar estudar, porque eu era na facabeta de pai. E isso me fez ir pra escola, depois de velho, pra poder dialogar de igual pra igual, como os demais. Ela sempre falava que o estudo é a única coisa que ninguém pode tirar de você é o conhecimento. Eu, por exemplo, potei estudar por causa da organização sindical, assim, se eu baixaria o indireto, e por isso que eu estou ainda aí na apoio das companheiras. transcrição de uma entrevista que Adona Aldelina deu nos últimos dias de vida promuseu da imagem do som de campinas. Adona Aldelina nasceu em 194 na virada do século passado e eu sempre fico muito empolgado com a possibilidade de ouvir a voz de uma pessoa histórica, porque isso infelizmente é bem raro no Brasil. Se documento de papel já é difícil de achar, imagina gravações em áudio vídeo. Meu nome é Orestes Algosto Toledo, trabalho no museu da imagem do som de campinas desde 1990. Trabalhava aqui com os funcionários que eu já conhecia de longadada, um deles era o Juvenal que era progestionista. Ele conversou com microfla lá no bairro, no bairro da periferia. Ela tem uma senhora negra, ela é uma referência e eu achei interessante. Bom, o carboa me entrevistava. E quando eu for recebido, por ela, até estava presente também, algumas direitores do sindicato das trabalhadoras domésticas, acho que não passou 20, 15 minutos, eu percebi que eu estava diante de uma pessoa afascinante. Não só do ponto de vista do conteúdo, da sua vivencia, da sua biografia, né? O que me impressionou e me impressionou, até hoje, a força, a energia, a convicção e a importante, o áudio visual, porque não só o som, você deu um brilho nos olhos dela. Infelizmente, não dá pra mostrar aqui o brilho nos olhos da dona Lodelina, mas a voz, você pode ouvir. Meu nome e nascimento da Lodelina de Campos Melo, data de nascimento 12 de outubro de 1904. Os empregados domésticos tinham sido destituídas das leis trabalhistas, porque eles achavam, até hoje, eles acham que a empregada doméstica não contribui para a nação, e que a empregada doméstica não traz dentro do bojo da nação e economia. Ela não traz economia própria nação, mas traz para o patrão dela, que ela que dá a cobertura para a requerza do patrão, que ela que cria os filhos do patrão, que cuida da casa, que ela que fica tomando conta dos filhos, então a conta do patrimônio do patrão e sem direito a nada, que a maioria daquelas antiga trabalham 20, 30 anos, morrer na uma pedilismo, várias delas a gente teve, cuidou delas e tratou delas e cuidou até a morte, que ela não tinha condição, não tinha família, tinha ninguém por ela, ainda um resíduo de escravidão, que é tudo descendente e descrava, né? Pregada doméstica, no dia, ela fará vários trabalhos, ela vai tratar um serviço numa casa, ela faz o trabalho de lavadeira, de arrumadeira, de cozinheira, de passadeira e tudo, né? E aí, ainda não tem uma profissão, ela não está considerada ainda como profissional, mas ela é uma profissional, então ela é profissional dentro da cozinha, ela é profissional, lavando roupa, ela é profissional, fazendo dose, ela é profissional, arrumando uma casa, ela é profissional, tomando conta dos filhos, tomando conta dos filhos, ela é uma babar, tomando conta da casa, guardando o patrimônio, portanto, ela é uma dona de casa, eles só consideram profissional aqueles que têm um diploma na mão, aqueles que trabalham não é indústria, aqueles que têm um nome, ligado a a profissão, mas a impregada doméstica não é considerada, tá, ela vai dar a segunda categoria, porque foi escava de vocês, não tinha profissão pra vocês, mas ela nasceu já, dentro da profissão, eu, por exemplo, um sete ano, eu já consenhava, já tomava conta, deu prima cozinha. Oi, aqui é o Thiago Rogero, e eu estou aqui pra te contar uma novidade, o projeto querino pode que este produzido pela rádio novelo que lançamos em 2022, acaba de virar livro. Se você já ouviu o podcast, vai encontrar muita coisa nova no livro, que é pela editora Fósforo, eu passei mais de um ano escrevendo e pesquisando novas informações. Se você nunca ouviu o podcast, o livro também é pra você, projeto querino olhar afrocentrado sobre a história do Brasil já está à venda nas livrarias e no site Fósforoeditora.com.br Eu lembro muito bem que eu troubo ali uma casa aqui na cidade velha, e eu compravava aquelas velas de sete dias, sete noite, porque eu não podia usar energia da casa pra estudar. De novo, a alucilei de mafra cuja história a gente tá ouvindo desde o começo do episódio. Eu dizia que eu sonhava alto, igual o rubudo ver o peso, e que empregada doméstica, empregada doméstica, e não passava disso, que eu jamais que iria conseguir alguma coisa. A esposa dele era muito legal, mas ela tinha muito medo dele, ele era aposentado, ele foi militar e ele se envia na reserva, e ele ficava em casa o dia inteiro, perturbando a minha vida. Ele mandava as janelas duas, três vezes, a minha mão ficava em carro e viva pra limpar aquelas janelas. E quando eu passei na faculdade, eu passei em duas faculdades, eu levei o jornal pra ele e disse "olha, eu passei, e o filho dele não passou em nenhuma, fez vestibular, mesmo tempo não passou em nenhuma". Eu disse, eu conheço aquela frase que diz assim, pro meuzinho amigo desejo vida longa para que possa assistir minha vitória de pé, e quando eu me for meio, eu fiz questão que ele fosse meu paranife, e eu fiz questão de dizer pra toda a turma, sabe, gente, você lembra aquela história que eu contei pra você, que é que ele, meu padrão, dizia que empregada doméstica, empregada doméstica, que eu sou minha armazata do que o rubudo ver peso? Pois é, é aquele senhor que tá ali na minha frente, que é meu paranife, e aí ele ficou com a cara no chão, né, sim, mas eu sei que foi uma forma grosseira, mas eu precisava falar que ele não precisava, sabe que eu engolhei aquilo durante anos, aceco ali, ele me falando, ele diz, a única forma de pobre subir na vida é se colocar um sapato alto. Eu disse, eu vou conseguir escrever minha própria história, não vou pedir quando eu quero alguma coisa, eu vou lá e pego, eu fico esperando que ninguém pegue por mim, enfim, então assim eu nunca deixei, que as pessoas me anulasse, eu sempre elutei por aquilo que eu queria. E aí, desde então eu fui me especializando, me investi a muito meu salário em cursos de qualificação profissional, principalmente na área da gastronomia, que é uma área que eu gosto muito, né, e fui melhorando, meu salário, sempre estudando, lógico, primeiro eu me formeia de administração de empresa, e depois eu me formei em turismo, e agora eu estou fazendo direito, fazendo pós-graduação do Océsio, se eu não ensino o superior. É muito incrível a história da Lucilleide, né, passou por todos os perringes clássicos de uma trabalhadora do Amésica no Brasil, e deu a volta por cima, e como, né, sambando na cara do patrão. É que nem o que horas ela volta, o filme, mas no caso da Lucilleide não foi nem a filha dela que passou no vestibular, mas ela mesma, mas ainda tem mais coisa nessa história. A Lucilleide foi uma das pessoas diretamente responsáveis ao lado de várias outras companheiras trabalhadoras domésticas, por uma das leis trabalhistas mais importantes da história do Brasil. O Senado acaba de aprovar, por unanimidade, a proposta de emenda, a Constituição, que garante mais direitos trabalhistas aos empregados domésticos. Em 1972, foi aprovada uma lei que trazia algumas proteções às trabalhadoras domésticas. A trabalhadora do Amésica tinha direito a carteira assinada, tinha direito às férias de 20 dias. Logo, não tinha os mesmos direitos que os trabalhadores celetistas Martinia algum direito. Trabalhador celetista é o trabalhador protegido pela CLT, e esse ainda não era o caso das trabalhadoras domésticas. Nós não tínhamos nenhum direito de reclamar, não receber as férias, não recebemos desse multecero. Depois veio a Constituição de 88, que também trouxe alguns avanços, como a obrigação de pagamento do salário mínimo e a licença maternidade. Em 2006, foi estabelecido direito a descanso-semanal remunerado aos domingos e fériados. E olha só para você ver, só em 2006, antes estava liberado ser de segunda-segunda. Mas ainda faltava muita coisa, por exemplo, a demissão podia ser sem justa-causa e sem pagamento de multa. Trabalhadora do Amésica não tinha seguro de desemprego, não tinha jornada de trabalho estipulada muito menos hora extra. E aí veio a proposta de Menda Constituição, a PEC, a PEC das Domésticas, em 2012, e começou a polêmica. Imagina a audacia de exigir direitos para a trabalhadora do Amésica, de equiparar a categoria às demais categorias de trabalho do Brasil. O que? Precisa assinar carteira e recolher FGTS, poder contar com ela só oito horas de trabalho por dia. Ela está lá vindo a novela, que não sei quê, o casal, o pessoal, o Jantô e tal, aí depois da novela, ela vem ela arrumar cozinha, vai ter que contar essa hora, que ela arrumou a cozinha. Então, qual é o primeiro momento? Vou te pedir. Eu já conheço muita gente que despediu, porque eu lembro do tempo que era pequena, os empregados da minha casa, alguns vieram comigo quando eu casei, minha babá me acompanhou, eu aposentei, ela morreu com 80 anos, tinha recebido salários de novela, então ela [MÚSICA DE FUNDO] Essa é a família, a gente dormia na cama abraçada com ela. Na casa da Tatiana é assim, a babar recebe um salário de R$1.400 por 12 horas de trabalho. O custo da empregada doméstica, que trabalha de segunda a sexta, é de R$1.000. A Tatiana decidiu não arriscar, e antes mesmo da emenda ser aprovada, demitiu a empregada doméstica, que acabou se tornando de arista. A mídia que o Romero Jucá tentou implantar na fala dele na mídia, era que ia ter de se impregnaça. O Romero Jucá era o relator da pek das domésticas no Senado. Os senadores e deputados começaram a fazer essa mesma fala. A gente teve alguns problemas no início com as próprias trabalhadoras de dizer. Eu perdi o meu emprego por caso desses direitos que vocês acharam que a gente teria que ter. Eu fiquei direto em Brasil. Eu visitei os R$5.13 deputados, e isso, várias vezes, tem deputados de eu visitar 180 vezes. Ele não queria receber a gente enquanto você não desceu o voto para o projeto de lei da categoria, das trabalhadoras domésticas, você vai ver a nossa cara aqui. Na Câmara, a relatura foi então deputada, Benedita da Silva, que já foi trabalhadora doméstica também. A proposta teve só dois votos contra, dois. Um foi o Van der Leicirac de São Paulo, que depois disse que tinha apertado o botão errado. O outro, bem, o outro até hoje se vangloria de ter votado contra a pek das domésticas. E ele não só se vangloria disso, como usou na campanha de 2018, várias vezes. A gente tem o governo país, um presidente, que foi abertamente contra a pek das domésticas. Ele era um dos que defendia que essa pek destruiria as famílias, que o pai de família não teria mais condições de cuidar dessa dinâmica familiar, porque não poderia pagar uma trabalhadora doméstica. Aqui de novo, a Danila Cal, que a gente ouviu no começo do episódio. Um debate público havia o discurso muito forte, que era algo que iria destruir as famílias, porque os patros não iam ter mais como contratar trabalhadores domésticos, e por isso não iam ter mais como desenvolver bem as suas atividades. Certo? A rotina da casa é ficar prejudicada. Imagina que trabalhadora doméstica querê hora extra. Ela trabalha nas casas de famílias. Não tem hora, gente. Não tem hora para o café pro jantar. Isso é revelador do ressentimento que os governos de esquerda no Brasil, notadamente o governo do Lula e da Dilma, geraram nas classes medias e nas elites em relação a ascensão das classes mais baixas. A pek das domésticas aprovada, funcionada durante o governo da Dilma, é um dos elementos que alimentou o ressentimento, que conhecem uma tese que eu defendo, em relação ao antipetismo. Por conta dessa lógica de que teria destruído a cultura familiar, e considerando toda a lógica de cultura da servidão, que remonta a escravização no Brasil, a gente entende de onde vem esse ressentimento. Como? Como eu não vou ser servido? A proposta disso, né, Adanila. Adanila organizou um livro sobre o trabalho doméstico lançado em 2021, em parceria com a também pesquisadora e professora Rosalie de Seychas Brito. A gente também conversou com a Rosalie. O ministro da economia Paulo Guedes, eu não sei a isso de uma forma clara, da questão da, agora tem até empregada doméstica, indo para Disney. Tourismo, todo mundo indo para Disney Land, obrigado a Mespa de Disney Land, uma festa da nada, mas espera aí, espera aí. Vai passear ali em fós-liguaçú, vai passear ali no Nordeste, achei de praia bonita. É um discurso elitista, né, a exelite. Exatamente por conta dessa marca colonialas culturaram a ideia de que elas precisam ser servidas. Elas precisam ser servidas, paparicadas. Essa cultura do ódio, que nós estamos vivendo no Brasil hoje, ela é uma cultura marcada sobretudo pelo recentimento. Agora, se tem uma coisa que a boa classe média e a boa gente rica no Brasil, sabem fazer? Que se cidadãos de bem sabem fazer, é descumperleis. E é isso que tá acontecendo. É evidente que a PEC trouxe benefícios e mensos e mensos e mensos e absolutamente urgentes, né, para sanar essa dívida histórica, que existia no Brasil com as trabalhadoras domésticas. Porém, as famílias vão encontrando os seus jeitinhos de continuar se valendo do trabalho doméstico, mas ao largo da reclamentação. E eu penso que o contexto da pandemia, ele só gravou isso. A primeira morte por COVID-19 no estado do Rio de Janeiro foi de uma trabalhadora doméstica, a Cleo Nisse Gonçalves de 63 anos. Ela morava em Miguel Pereira a 120 km da capital e trabalhava numa casa no alto Leblon, um dos metros quadrados mais caros do Rio. A patroa tinha acabado de voltar de uma viagem para a Itália, que eu não sei se você lembra, mas teve um surto de COVID muito antes da doença chegar ao Brasil. E aí, quando a Cleo Nisse morreu, foi notícia no mundo todo. Uma mulher brasileira pegou COVID nas ferias, agora a empregada dela está morta. Em maio de 2020, quando não existia a vacina nenhuma, e mesmo cientistas não sabiam praticamente nada sobre o novo vírus, pelo menos quatro estados brasileiros já tinham incluído o trabalho doméstico na lista dos serviços essenciais, que mesmo com a pandemia não podiam parar. A gente no Brasil tava feita, feita, porque uma pessoa tava lá com a gente faz tudo aqui a passar 25 dólares a hora mais. Ah, para dobrar 25 dólares. Ah, para poder esticar o braço aqui mais 10 dólares. É assim, assim, então você que tem alguém no Brasil, ajude ele a agradecer a Jesus, porque aqui no Estados Unidos, é diferente. É desse jeito que você ouro quando eu chegue, eu fiquei louca, louca, falando "não, não faça isso". Infelizmente, o trabalho doméstico é um dos focos desse de respeito aos direitos trabalhistas, porque ele acontece num ambiente que favorece muito isso. É uma forma de trabalho mais difícil de se fiscalizar, porque esse dá no interior das casas, tanto que quando a gente ouvi falar, por exemplo, de trabalho análogo ou trabalho escravo no Brasil, o que se vê, é justamente isso, a dificuldade que os fiscais do Ministério do Trabalho tal têm de chegar a esses casos, justamente porque eles estão ao abrigo do olhar, digamos, ou seja, as instituições fiscalizadoras e tal. Tem uma idosa foi resgatada em situação análogo, a escravidão em um bairro nobre de São Paulo, ela trabalhava para a família há 20 anos, e a nove não recebia esse alário, quando foi encontrado, estava sem ter acesso sequer ao banheiro. A dona Laudelina estaria muito brava com tudo isso. Aqui de novo, a Elizabeth Pinto, a biógrafa da Laudelina de Campos Mello. Estaria brava com o presidente da República, elas se vieram dezenas de encontros. E eu perguntei para Elizabeth como que ela acha que a dona Laudelina estaria vendo o Brasil de hoje. Estaria indignada com a população brasileira, pobres, empregadas, mas que votou no presidente da República. Estaria lutando e se organizando para discutir essa questão das empregadas domésticas, principalmente na pandemia, de ter empregadas domésticas. Que foram mantidas em cá, ser privado. Também estaria brigando muito e estaria expondo, porque dona Laudelina espunha os nomes, dos maus patrones. Hoje você tem pessoas que para bolhar a lei registra, mas a pessoa tem que trabalhar em duas casas. Por exemplo, eu sou seu aparente, contratamos uma empregada, eu a registro. Era a trabalho há dois dias por semana na minha casa, três na sua, por exemplo. Só que ela tem que dar conta da minha casa e da sua casa. Então isso é uma exploração. Você tem uma empregada doméstica, você acha que ela é sua mucama. Você faz a sua empregada comprar o seu cigarro, você grita para trazer água. Se você tem filho e as crianças estão brigando, você grita para ela ir lá com dias essas crianças. No final da tarde, depois ela tem ido duas vezes ao mercado para você, que era a subrigação e você não foi. De comprar cigarro e na quitando, atender a porta e levar água para você. Aí não deu conta dela fazer todos os trabalhos, daí você exige dela o quê. Você é mole mesmo, você não deu conta do trabalho. Então, dona Aldenina sempre trabalhou para isso, né? A empregada doméstica não é mordomo, empregada doméstica não é governanta. Ela queria que as empregadas domésticas fivessem orgulho do seu trabalho e que pudesse reivindicar o respeito. Por que? É um trabalho como outro qualquer. Era lutou para o empregado doméstico que fosse valorizado e que as empregadas pudessem fazer aquilo que elas querem. Uma luna, a minha dizia uma vez que tinha muito orgulho de mim e não entendi por isso. porque depois que ela olhava para me infelecer, que essa minha não gosto de mim, não, um dia ela falou professora. Eu tenho muito orgulho porque você fará da sua história, fará da história da sua mãe, com muito orgulho. E a minha mãe foi teada num pregada doméstica, né? E eu tenho muito orgulho disso. O projeto querino é apoiado pelo Instituto Ibiraphtanga, o podcast é produzido pela Rádio Novelo. O nosso site projetokirino.com.br reunitou das informações sobre o projeto e conteúdo adicional. O site foi desenvolvido pela AE. E eu te convido a conferir também todo o material do projeto querino que está sendo publicado pela revista Piauí, das bancas e no site da revista. Este episódio teve pesquisa de Gilberto por Sidônio, Rafael do Mingus Oliveira e as Mim Santos e Angélica Paulo que também fez a produção. A edição é do Luca Mendes, a sonorização da Julha Matos e a finalização da Pipoca Sound. A checagem é do Gilberto por Sidônio e a música original do Victor Rodrigues. Estratégia de promoção, distribuição e conteúdo digital, o Bia Ribeiro. A identidade visual é do Draco Imagem. Os transcritores das entrevistas foram Guilherme Povoas e Rodolfo Vianna. A loucoção foi gravada no estúdio da Pipoca Sound com trabalhos técnicos de João Jabase. O Frederico Faro também fez a captação de áudio para este episódio. Consultoria em roteiro de Mariana Jaspi, Paula Escarping e Flora Tomson Bevô, com revisão de Natalha Silva. Consultoria história e naelóps dos Santos. Produção executiva Guilherme Alpendre. A execução financeira do projeto é do Espíz Instituto Sincronicidade para Interação Social. Idealização, reportagem, roteiro, apresentação e coordenação Tiago Rogero. Este episódio usou áudios do Museu da Imagem do Sound Campinas, da TV Brasil, da TV Globo, da TVI, da TV Folha e da CNN Brasil. Agradecimentos, a Petrônio do Minges, aparecido livreira, Barbara Alves e o Museu da Imagem do Sound Campinas. Até o próximo.

Podcast Summary

Key Points:

  1. A escravidão no Brasil não terminou abruptamente com a Lei Áurea, e a ideia de que o trabalho europeu substituiu automaticamente o africano é um mito.
  2. Povos africanos trouxeram tecnologias avançadas para o Brasil, como a bateia para mineração e o cadinho para fundição, frequentemente apropriadas por brancos sem reconhecimento.
  3. O trabalho doméstico, majoritariamente exercido por mulheres negras, preserva resquícios coloniais, incluindo exploração, assédio moral e sexual, e desvalorização profissional.
  4. A CLT de 1943 excluiu trabalhadores domésticos, e só em 2013, com a PEC das Domésticas, houve equiparação de direitos, graças à luta de mulheres como Laudelina de Campos Mello.
  5. A PEC enfrentou forte resistência de patrões e políticos, revelando ressentimento das elites contra a ascensão das classes baixas.
  6. A pandemia de COVID-19 expôs a vulnerabilidade das trabalhadoras domésticas, com casos de morte e trabalho análogo à escravidão ainda recorrentes.

Summary:

O episódio do Projeto Querino desmistifica a narrativa de que o trabalho no Brasil começou com a imigração europeia após a abolição, destacando que africanos e afrodescendentes sempre foram a base da força de trabalho, mesmo como livres. Tecnologias como a bateia e o cadinho, trazidas por africanos, foram essenciais para a economia colonial, mas tiveram seus créditos usurpados por europeus. Foco especial é dado ao trabalho doméstico, profissão que carrega marcas profundas da escravidão: mulheres negras, como Lucileide Mafra, relatam assédio, humilhações e condições degradantes, enquanto a categoria foi excluída da CLT por 70 anos.

A luta por direitos culminou na PEC das Domésticas, impulsionada por Laudelina de Campos Mello, pioneira sindicalista que enfrentou o racismo e a servidão. A resistência dos patrões, incluindo políticos, revela um ressentimento elitista contra a dignidade dessas trabalhadoras. A pandemia agravou a vulnerabilidade, com mortes e casos de trabalho análogo à escravidão.

O episódio conclui que a desvalorização do trabalho doméstico reflete uma cultura de servidão enraizada, que ainda persiste, mas que a organização e a luta dessas mulheres, como exemplificado por Laudelina, continuam a transformar a história.

FAQs

O episódio aborda a história do trabalho no Brasil, desmistificando a ideia de que o trabalho começou com a abolição e a imigração europeia, destacando o papel fundamental dos africanos escravizados e dos trabalhadores negros livres.

Laudelina foi uma trabalhadora doméstica que criou em 1936 a primeira associação de empregadas domésticas do Brasil, em Santos, e lutou pelos direitos da categoria, sendo fundamental para a conquista de direitos trabalhistas.

A PEC das Domésticas, aprovada em 2013, estendeu às trabalhadoras domésticas direitos trabalhistas semelhantes aos demais trabalhadores, como jornada de trabalho, hora extra e FGTS, após décadas de exclusão da CLT.

O trabalho doméstico remonta à escravidão, quando mulheres e meninas negras eram separadas para servir nas casas dos senhores, e essa prática ainda guarda resquícios coloniais, como a cultura da servidão e a desvalorização da profissão.

Ela afirma que a relação profissional no trabalho doméstico ainda assume posturas de senhora e senhor, refletindo uma cultura de servidão e racismo, o que evidencia desigualdades sociais e de valor na sociedade.

O episódio mostra que africanos e afrodescendentes trouxeram tecnologias e qualificações, como a bateia para mineração e o cadinho para fundição, e que a ideia de preguiça foi um projeto político para desqualificar a população negra.

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