Alimiares numa vida que nunca atravessamos inteiramente sem um aperto no coração, mesmo quando os desejamos.
São os momentos em que deixamos algo para trás, em que fechamos uma porta atrás de nós, em que uma etapa termina para que outra possa começar.
Imaginemos alguém que fecha pela última vez a porta de uma casa que está a deixar.
Viveu ali durante anos.
As paredes nuas ressoam agora de uma maneira que ele não lhes conhecia.
As divisões vazias de móveis parecem, ao mesmo tempo maiores e mais pequenas, estranhamente reais.
Tudo ainda está ali e, no entanto, nada é igual.
Parte para outra coisa, talvez para uma vida melhor, para uma casa que escolheu, para um futuro que espera e apesar disso.
No momento em que a chave gira na fechadura pela última vez, algo dentro dele se aperta, algo que não tinha previsto e que não sabe bem nomear, todos conhecemos essa emoção.
Parece se com aquela que por vezes nos toma diante de uma árvore de outono, quando o vento leva as suas folhas uma a uma, ali, uma beleza inegável.
Esses Dourados e vermelhos, essa luz oblíqua de fim de dia sobre os ramos que se vão despindo e ao mesmo tempo uma melancolia surda.
A sensação de algo que se acaba, que se vai embora e que não voltará sob essa forma há em tudo o que se vai, algo que nos aperta o coração e aprender a compreender essa emoção, a olhá la de frente, em vez de fugir dela.
Ensina nos muito sobre a mudança, sobre a perda e, no fim, sobre nós mesmos.
É disso que gostaria de falar hoje, do que se vai e do que isso faz de nós.
É preciso começar por reconhecer uma verdade que muitas vezes sentimos sem a formular.
Claramente, toda mudança contém uma perda.
Nas mudanças que sofremos, essa verdade impõe.
Se com violência um luto, uma rutura, um fim que não tínhamos desejado, arrancam da nossa vida algo que teríamos guardado se tivéssemos podido.
A perda está nua, evidente, por vezes brutal.
Ninguém precisa que lhe que expliquem.
Ela faz se sentir na carne.
Mas existe outra forma de perda, mais discreta, que raramente nomeamos porque se esconde no próprio coração das nossas alegrias, é a perda contida nas mudanças que escolhemos.
Desejamos por vezes esperamos durante muito tempo.
A criança que cresce ganha o mundo, mas perde a infância.
Quem escolhe um caminho, uma profissão, um lugar para viver, ganha tudo o que esse caminho lhe oferecerá, mas renuncia ao mesmo tempo a todas as outras vidas que poderia ter vivido, a todos os caminhos que não tomará mesmo mudar, se para AA casa dos seus sonhos é deixar aquela onde tanto se viveu.
Nada verdadeiramente novo acontece sem que algo antigo se apague.
É uma lei da existência.
E ela explica uma experiência estranha que todos já tivemos.
Porque é que as nossas maiores alegrias são por vezes tingidas por uma melancolia que nos surpreende e que temos vergonha de confessar, porque, sem o sabermos, choramos ao mesmo tempo aquilo que a nova Felicidade nos obriga a deixar.
No coração de cada ganho vela a pequena sombra de uma perda.
Se compreendermos isto, compreendemos também porque resistimos tantas vezes a mudança, mesmo quando a desejamos, porque aquilo que tememos, no fundo, não é tanto.
A novidade em si, é aquilo que precisamos de largar para acolher perante essa perda que acompanha toda a mudança.
Desenvolvemos 1000 estratégias para reter o que passa.
Congelamos as coisas, adiamos as transições, agarramo nos ao que já não é.
Gostaríamos que nada se movesse, que o tempo suspendesse o seu curso, que aquilo que amamos permanecesse eternamente, tal como o conhecemos.
Guardamos objetos, hábitos, maneiras de ser que já não correspondem ao que nos tornamos, simplesmente.
Porque largá lo seria reconhecer que algo se foi.
Esta luta para reter é profundamente humana e não devemos desprezá.
La nasce do amor, do apego ao que nos foi precioso, do desejo tão natural de preservar o que nos fez bem.
Não é uma falha, é a marca da nossa capacidade de amar, mas é também.
É preciso reconhecê lo com suavidade, a fonte de uma grande parte do nosso sofrimento, porque não se retém aquilo que foi feito para fluir.
Apenas nos esgotamos a apertá lo e ao fazê lo privámo nos do que poderia ver.
É como querer guardar água fechando o punho.
Quanto mais apertamos, mais a água escapa entre os dedos.
E tudo o que obtemos é uma mão crispada fechada, incapaz de receber seja o que for.
A mão aberta também não retém a água, não é verdade?
Mas ao menos pode acolher Água Nova, sentir a sua frescura, deixá la passar e voltar o punho fechado.
Esse não guarda nada e já não recebe nada.
Passamos muito tempo nas nossas vidas.
De punho fechado, sobre aquilo que se vai e depois espantamo nos por nos sentirmos tão cansados e com as mãos tão vazias.
É aqui que a sabedoria antiga nos oferece outra maneira de ver, mais ampla, mais apaziguada.
Ela convida nos a olhar o real tal Como Ele É.
Não como um conjunto de coisas fixas que deveriam permanecer, mas como um movimento perpétuo, um fluxo incessante, onde nada alguma vez se detém.
Nunca nos banhamos 2 vezes no mesmo Rio, diziam os antigos, porque a água em que entramos da primeira vez já correu em direção ao mar.
E é uma Água Nova que nos envolve.
As estações giram sem Descanso.
Os dias sucedem as noites, os seres nascem, crescem e regressam de onde vieram.
Tudo passa, tudo se transforma, tudo é levado por um grande movimento que não conhece repouso.
Nesta visão, a impermanência não é um defeito do mundo que seria preciso corrigir, nem uma crueldade contra a qual deveríamos indignar nos.
Ela é a própria natureza das coisas, a sua maneira de estarem vivas, porque aquilo que já não muda está morto.
Uma água que já não corre estagna, uma árvore que já não perde as folhas, deixou de viver um ser que já não se transforma.
Terminou a sua existência a mudança com as perdas que contém.
É o próprio sinal da vida que continua querer que as coisas permaneçam eternamente fixas.
Seria, portanto, querer, sem o saber, que deixassem de viver.
Seria preferir uma fotografia a um rosto, uma flor seca, a uma flor que se abre e murcha.
Julgamos amar as coisas ao querermos fixá las, mas apenas recusamos a sua própria vida.
Ajustar se ao movimento, em vez de lutar contra ele, não é resignação nenhuma indiferença que teria renunciado a tudo e acompanhar o ritmo do que está vivo.
Aceitar que viver é mudar e que mudar é perder e receber sem cessar.
Isso não elimina a dor de perder e não se trata de fingir que ela não existe.
Mas transforma a nossa relação com ela.
A perda deixa de ser uma anomalia escandalosa.
Uma injustiça feita a nós em particular, torna se o reverso natural da vida que avança o preço da nossa pertença ao mundo dos vivos.
Quando algo se vai da nossa vida, deixa atrás de si um espaço.
Esse espaço é doloroso, vazio.
Semelhante a uma falta que não deixa de se recordar.
A nós, onde havia uma presença, resta apenas uma ausência.
E essa ausência pesa por vezes mais do que pesava a própria presença.
Todos conhecemos esse vazio deixado por aquilo que já não está.
E, no entanto, esse vazio não é apenas uma mutilação, é também.
A sua maneira, uma abertura.
Quem perdeu aprende coisas que quem nunca perdeu nada não pode conhecer.
Aprende o valor daquilo que permanece, que talvez olhasse sem ver.
Aprende a profundidade que a falta dá.
Essa maneira como a ausência escava em nós uma capacidade maior de sentir, de compreender, de amar.
Aprende uma nova compaixão pela dor dos outros, porque conheceu a sua.
A perda, quando não nos quebra, aprofunda, nos alarga a alma, por vezes, dolorosamente.
Como se abre um suco na Terra para poder semear?
Há uma velha imagem que diz isso com justeza, a do vaso rachado.
Um vaso perfeitamente fechado guarda o seu conteúdo, mas permanece fechado sobre si mesmo.
O vaso que foi rachado.
Esse deixa por vezes passar uma luz que antes não entrava, precisamente pela brecha da sua ferida.
Aquilo que foi partido em nós torna se por vezes o lugar por onde algo novo pode entrar, por onde comunicamos com os outros e com a vida de uma maneira que a nossa integridade anterior não permitia.
Não se trata de idealizar o sofrimento nem de fingir que toda perda seria um bem disfarçado.
Isso seria mentir e faltar ao respeito a quem sofre.
A perda é, antes de tudo uma perda e dói.
Mas é preciso reconhecer que ela não é apenas destruição, abre um vazio onde algo novo pode germinar, desde que não nos aprecemos, atapá lo logo com a negação.
Com a fuga ou com uma Consolação demasiado rápida que impediria o trabalho subterrâneo de se cumprir?
Porque esse vazio, quando lhe damos tempo, opera em nós uma transformação.
Talvez seja isso o mais importante, não atravessamos uma verdadeira perda sem sair dela.
Diferentes, muitas vezes imaginamos que curar de uma perda.
Consistiria em voltar a ser quem éramos antes, como se nada tivesse acontecido, uma vez a ferida fechada.
Mas não é assim que as coisas acontecem.
Não se regressa ao estado anterior, tornamo nos outra pessoa, alguém que integrou a perda no seu próprio tecido, que a carrega agora dentro de si, não como um peso morto, mas como uma parte daquilo que é.
A natureza oferece nos a imagem dessa transformação no grão semeado na Terra.
O grão só dá fruto, deixando de ser grão.
Se quisesse conservar, se intacto, permanecer para sempre aquilo que é, ficaria um grão único e estéreo, é desfazendo, se desaparecendo enquanto o grão que se torna caule, depois espiga, depois colheita.
A sua perda de si mesmo é a condição da sua fecundidade.
Ele não se conserva, transforma se e essa transformação passa necessariamente por uma forma de desaparecimento.
O mesmo acontece conosco.
Aquilo que perdemos não nos é apenas retirado.
Trabalha em nós, molda, nos participa na pessoa em que nos tornamos.
Os seres que nos deixaram continuam a formar nos pela própria falta, que deixam por tudo o que a sua ausência nos ensina, pela maneira como agora os carregamos em nós.
As vidas que deixamos de viver, os caminhos que não tomamos, alimentam secretamente aquela que vivemos nada do que nos tocou verdadeiramente desaparece por completo, transforma se em profundidade.
Em sabedoria, em compaixão, nessa densidade que adquirem os seres que viveram muito e perderam muito.
Aceitar transformar se através da perda não é, portanto, esquecer nem virar a página como quem fecha um livro.
É deixar que aquilo que se foi se torne uma parte viva da nossa profundidade, mais uma raiz na Terra do nosso ser.
Mas para que essa transformação se cumpra, é preciso adotar a atitude justa.
E essa atitude situa se entre 2 perigos que convém saber evitar.
O primeiro perigo seria negar a perda, passar depressa, fazer como se nada tivesse acontecido.
Atirar se imediatamente para minha novidade, para não sentir o que?
Se vai.
Encher o vazio a toda a velocidade por medo de o experimentar.
O segundo perigo inverso seria fechar.
Se na perda recusar todo o futuro por uma espécie de fidelidade ao passado, fazer da ferida um santuário onde nos instalaríamos para nunca mais sair.
Entre esses 2 perigos, existe uma via justa.
E ela consiste em honrar aquilo que se vai honrar.
É tomar tempo para saudar aquilo que termina.
É olhar uma última vez com atenção antes de fechar a porta e agradecer o que foi.
Reconhecer o que nos deu conceder ao que se acaba a dignidade de um verdadeiro fim, em vez de o deixar fugir na distração.
Os antigos conheciam bem essa necessidade.
Tinham ritos para marcar as passagens, gestos para saudar as estações que terminavam, cerimônias para dar aos finais o peso e a dignidade que merecem.
Nós muitas vezes atravessamos as transições sem cerimônia, a pressa sem parar para reconhecer aquilo que se vai.
E algo dentro de nós fica então inacabado como uma frase que não tivéssemos terminado, uma despedida que não tivéssemos dito.
Aquilo que não foi honrado não se torna verdadeiramente passado.
Continua a assombrar, nos a puxar por nós a partir de trás, em vez de se depositar pacificamente dentro de nós.
Honrar aquilo que se vai é precisamente permitir lhe tornar se passado, no bom sentido da palavra.
Não esquecido, mas cumprido, reconhecido, integrado.
É por esse reconhecimento que a perda pode transformar se em profundidade fértil, em vez de permanecer uma ferida aberta que nunca cicatriza, voltemos para terminar aquele que fechava a porta da sua casa e que olhava a árvore perder as folhas na luz de outono.
Agora podemos compreender o que essa árvore tinha para lhe ensinar.
O outono não é uma derrota da primavera.
Não é o momento triste em que a natureza renuncia e se empobrece.
É, pelo contrário, o cumprimento de todo ano, o tempo em que a árvore depois de ter dado os seus frutos.
Se despe daquilo que já não tem de carregar.
E esse despojamento não é um fim.
Já prepara nos segredos da Terra a primavera que virá.
As folhas que caem não se perdem, alimentam o solo de onde renascerão as folhas futuras.
Nada se perde verdadeiramente, no grande ciclo das coisas.
Tudo se transforma, tudo circula.
Tudo passa de uma forma a outra, sem nunca deixar de ser.
Nós próprios estamos envolvidos nesse movimento.
Somos feitos de tudo o que perdemos tanto quanto de tudo o que guardamos, os seres que nos deixaram, as épocas da nossa vida, que terminaram as versões de nós mesmos, que deixamos para trás.
Tudo isso não se evaporou no nada, vive em nós.
Transformado, tornado a própria matéria daquilo que somos hoje consentir em transformar.
Se através das perdas não é resignar se tristemente ao inevitável é aceitar estar plenamente vivo, porque o que está vivo não permanece, o que está vivo torna se e há uma paz profunda que espera aquele que deixa de lutar contra esse movimento.
Que abre o punho em vez de o fechar, que deixa ir aquilo que deve ir e que se deixa moldar, sem revolta, por tudo o que passa através dele.
Penso, ao terminar nessa árvore de outono, ela não retém as suas folhas, não se agarra desesperadamente a sua folhagem de verão, não se revolta contra o vento que a leva.
Deixa as ir simplesmente sem drama.
Numa espécie de consentimento tranquilo.
E esse despojamento, que poderia parecer um empobrecimento, não a empobrece.
Prepara na sua própria nudez.
A árvore permanece pronta, recolhida, disponível para a nova seiva que subirá quando chegar o momento.
Largou o que devia ser largado, e é precisamente por isso que poderá voltar a florir.
Deixamos sempre alguma coisa para nos tornarmos aquilo que ainda não somos.
Essa é a lei do que vive.
E talvez seja também, no fundo, a forma mais humilde e mais alta da nossa Liberdade.
Não recusar aquilo que se vai, mas consentir em ser transformados por isso e confiar, como a árvore nua do outono, naquilo que a seu tempo renascerá.
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