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Speaker 2CBM Pelo Mundo, com Bruna Santos.
Speaker 3Oi Bruna, boa tarde. Boa tarde, tudo bem? Tudo bem. Hoje falaremos de Estados Unidos e Venezuela. Hoje falaremos de Estados Unidos e Venezuela. O Trump chama de o maior acordo de petróleo da história. Sabe que esses dias eu tava vendo umas coisas no Instagram? Aí tinham um carro. A imagem da traseira de um carro no chão. No chão tinha óleo. Aí a piadinha... E tinham três soldadinhos assim ao redor da poça de óleo. Aí a legenda era Os Estados Unidos quando vem... Petróleo. O que é que o Trump... Do que é que ele tá falando quando ele chama de o maior acordo de petróleo da história lembrando que os Estados Unidos basicamente sequestraram o presidente venezuelano e passaram a controlar a Venezuela, né?
Speaker 4É, eu acho que ainda não controlam completamente. Eu vou elaborar um pouco sobre isso. Mas olhando pro contrato que foi feito por esse acordo, o maior acordo que... Como a gente sempre vê aqui, o Trump adora uma hipérbole, né? Em letras bem grandes. Ele realmente ganhou um nível extraordinário de controle sobre uma parte muito importante do petróleo venezuelano. A empresa envolvida no acordo chama NABEP. Ela recebeu direitos de exploração por 100 anos de 17 campos venezuelanos de petróleo, o que significa acesso a 65 bilhões de barris. Em reservas até agora aprovadas. E pelo acordo, o que que é diferente nesse contexto, assim? O que que eu acho que é único? Pelo acordo, o departamento de guerra americano, o Pentágono, ele terá controle de 35% da empresa. Da empresa que controla a tal da NABEP. E esse acordo, ele também prevê que os Estados Unidos possam comprar a custo de produção 20% do petróleo, todo o petróleo extraído desses campos e direito de preferência sobre o... o restante, além de um direito extraordinário ali, que é o único também, né, até hoje, de veto dentro do conselho da empresa. Então, acho que tem dois elementos aqui importantes de ressaltar. Primeiro é os Estados Unidos virando sócio do negócio, o Estado americano. Segundo, o que você falou, o Washington conseguiu isso sequestrando o presidente, mas sem ocupar o país. A mudança na Venezuela, não foi uma revolução, não foi um desmonte do chavismo. O Maduro saiu de cena, mas a Delcy Rodrigues assumiu a presidência interina e você manteve nomes centrais do regime chavista ali. Então, isso reduziu, eu acho, muito os custos dos Estados Unidos de ter o que eles chamam botas no território, mas, de algum modo, deu a eles um acesso, muito mais fácil a esses ativos importantes. Mas, Tati, eu diria, tem uma ressalva que eu acho bem importante da gente fazer, que é o seguinte, esse trunfo, na minha opinião, ele tem dois riscos bem grandes, assim. O primeiro é político, o segundo é contratual. O risco político é: o Washington precisa dos setores do chavismo para manter o Estado venezuelano funcionando. E você não controla todos os incentivos desses atores. Então, o que pode acontecer lá dentro, na prática, os Estados Unidos não têm pleno controle da complexidade da lógica de poder venezuelana. O segundo risco, que eu acho super curioso, grave, e demonstra um pouco o raciocínio de curto prazo do presidente Trump, é o risco contratual. Você está fazendo um acordo de 100 anos. Um acordo de 100 anos exige o mínimo de estabilidade jurídica e institucional. Então, assim, o mesmo arranjo que viabiliza o negócio hoje, que é a continuidade estatal, sem transição democrática, pode acabar com o seu arranjo no dia seguinte, porque você não tem Estado de direito. Então, a grande incógnita aqui é: ó, os Estados Unidos conseguiu estabilizar, entre aspas, a questão política, conseguiu o negócio que eles queriam, o petróleo, mas... e a democracia, a transição democrática, está no plano, está lá escrito, eles dizem que querem, mas não tem um prazo definido.
Speaker 2Uma questão que... É complicado de entender. Por que o Pentágono virou sócio nesse negócio? O que o Pentágono tem a ver com o petróleo?
Speaker 4Então, isso é muito importante, Fê, porque eu acho que para quem está observando como os Estados Unidos estão olhando para a região agora, para mim esse é o elemento mais novo e controverso do acordo. Pentágono é o nome do prédio onde fica o departamento, hoje, de guerra, o antigo departamento de defesa, como a gente chama o departamento de defesa, tem um mandato de segurança, não é um mandato comercial. E eu acho que isso demonstra, no momento que os caras vão lá e viram sócios do negócio, demonstra que o governo americano, ele trata hoje o tema petróleo, minerais críticos, semicondutores, não só como um tema de segurança econômica, mas um tema de segurança nacional. Então, essa novidade, ela é muito concreta e muito peculiar para quem está observando, e eu acho que essa lógica não inicia com a Venezuela, e aí entra o ponto do Brasil e porque eu acho importante a gente trazer esse tema aqui. Quando você olha, por exemplo, para o investimento feito pelos Estados Unidos na mina da Serra Verde em Goiás, você vê o Washington usando instrumentos muito parecidos numa outra cadeia estratégica que é a dos minerais críticos. No caso de Goiás, o que aconteceu? A DFC, que é essa agência de financiamento dos Estados Unidos, apoiou uma operação de financiamento para a expansão dessa mina. Mas, para mim, a grande manchete não é o investimento. A grande manchete é o acordo comercial feito na sequência disso, em que os americanos, também através do Pentágono, estruturaram um contrato de 15 anos, que é um contrato que a gente chama de off-take, para garantir a compra de 100% de todos os minerais terras raras que saem da mina de Goiás. O que eles estão fazendo ali na prática? Eles estão garantindo que o minério saia de Goiás, mas tenha um destino certo já numa cadeia industrial que seja ocidental, que esteja longe da China. Então, além do empréstimo, através dessa agência, o governo foi lá, fez esse acordo e com isso, também, recebeu o direito, e aí entra aqui a chave, o direito de comprar, no futuro, uma participação de até 12% da empresa que controla a Serra Verde. Então, em termos simples, traduzindo, Washington ajudou a financiar a mina e, em troca, ficou com a opção de virar sócio minoritário do negócio no futuro. Então, olhando agora o paralelo Brasil-Venezuela, não são casos iguais, eu não estou dizendo isso, mas fazem parte de uma mesma dinâmica. Que é os Estados Unidos deixando de tratar o petróleo, e terras raras, e minerais críticos como mercadorias, e utilizando a sua política comercial e industrial, e tratando como uma infraestrutura de segurança nacional, e, portanto, colocando aí todo o seu aparato de segurança nacional, o próprio Pentágono. Isso abre uma caixa de Pandora de uma série de perguntas. O que isso significa quando você tem um responsável da segurança nacional americana, também com interesses financeiros envolvidos, em torno de determinados ativos? Eu acho que esse é um questionamento que ainda vai aparecer, mas para mim é o grande insight desse processo todo, que a gente tem que começar a observar. Muito bom.
Speaker 3Bruna, se a gente olhar para novembro, nas eleições de meio de mandato, se os democratas retomarem a Câmara, e talvez o Senado, porque também há essa possibilidade, você acha que muda alguma coisa na política que o presidente Donald Trump vem praticando na América Latina?
Speaker 4Então, eu tenho pensado muito sobre isso, Tati, e tenho sido muito perguntada sobre isso, e acho que pode parecer contraintuitivo o que eu vou dizer, mas eu tendo a achar que uma vitória democrata em novembro pode significar mais Trump na América Latina, e não menos Trump na América Latina. Por quê? Porque se o Trump perde espaço para aprovar leis e orçamentos, pensamentos, na sua política doméstica, a política externa vai continuar sendo uma das áreas que a presidência americana pode ter mais margem de manobra. É claro que, se eles ganham a Câmara, o Congresso, o Congresso tem, teria ali, com uma maioria democrata, poderes para fazer duas coisas, né? Abrir investigações, comissões, investigações, inclusive questionar esse acordo com a Venezuela. Poderia também, através do poder do dinheiro, limitar recursos destinados a determinadas ações e operações. Se eles ganharem no Senado, o que é menos provável, eles teriam ainda a alavanca de, a alavanca adicional de limitar, por exemplo, o número de embaixadores nomeados ou cargos nomeados. Mas eu acho que a mudança mais importante que acontece a partir... A partir das eleições de meio-mandato é, a partir das eleições, das mid-terms em novembro, é dada a largada para 2028. E depois dali, cada movimento do secretário Marco Rubio e do vice-presidente J.D. Vance, começa a ser interpretada à luz da sucessão do Trump. E todos nós sabemos que o legado do Marco Rubio é o hemisfério, é a América Latina, é o hemisfério ocidental. Então, para mim, ao contrário do que muita gente pensa, de que, bom, se as eleições de meio-mandato viram a chave, talvez tenha mais controle as ações do Trump na região, eu estou tendendo a discordar. Eu acho que não. Trump pode ficar mais ativo na América Latina justamente quando a gente começa a tratar ele como um presidente já com prazo de validade, já vai terminar em dois anos. É contra-intuitivo, mas acho que dialoga um pouco com isso tudo que a gente está falando aí sobre... A mudança na forma como os Estados Unidos têm abordado a região.
Speaker 2Perfeito.
Speaker 3Tá bom. Bruna Santos conosco às sextas-feiras no nosso CBN Pelo Mundo, falando diretamente de Washington. Obrigada, Bruna. Beijo. Até a semana que vem. Até a semana, gente. Beijos. Tchau, tchau.
Speaker 1Tchau, tchau. Tchau, tchau.