O texto reflete sobre a impossibilidade de definir o que significa ser mulher por meio de conceitos ou palavras. A autora, Flávio Landa Gaeta, descreve uma sessão de análise em que, ao ser questionada diretamente sobre o tema, fica em silêncio, percebendo que a pergunta toca uma camada anterior à linguagem. Para explorar essa ideia, ela recorre a três figuras femininas: Clarice Lispector, que em "A Paixão Segundo G.H." tenta escrever o indizível, o que ocorre antes do pensamento se organizar; Mary Shelley, que, após perder uma filha, escreve "Frankenstein" como uma metáfora sobre a criação e o abandono, expressando uma dor profundamente feminina; e Elis Regina, cuja entrega total no palco revela uma força que não pode ser encapsulada em definições. A autora conclui que, embora consiga reconhecer o feminino nessas obras, quando a pergunta é direcionada a ela mesma, retorna ao silêncio — mas agora entende que esse silêncio não é vazio, mas cheio de significado. A dificuldade de definir "ser mulher" não é uma falha, mas sim a aceitação de que algumas perguntas só podem ser respondidas através da experiência vivida, do reconhecimento em outras e da entrega sem reservas, como fizeram Clarice, Mary e Elis.
[Música] Oi, Oi, Oi, Oi! Chegou a hora da nossa sessão imprurrogável. A primeira do dia, chegou a hora do pequeno expediente. Pode gastar para você pensar com profundidade. Eu sou Flávio Landa Gaeta e conduzirei os trabalhos a partir de agora. Oi, Oi, Oi, Oi! [Música] Oi, Oi! Sejam bem-vindos, que maravilha que vocês estão aqui de volta. É, tem momentos que eu demoro um pouco mais, tem momentos que eu demoro um pouco menos. Mas o importante é que eu sempre volto com reflexões. Reflectões que mexem com meu espírito e provavelmente mexem com você também. Porque é o mais natural e típico da natureza humana. Esse episódio nasce de uma cena que aconteceu no consultório do meu analista. E que desde então não me largou. E se eu estou trazendo para cá, para esse espaço que é nosso, é porque eu tenho certeza de que não é só sobre mim, é sobre você, é sobre todos nós. Meu analista me perguntou semanas atrás o que significava ser mulher. Assim, direto, sem contexto preparatório, sem nenhuma construção, sabe, aquela progressiva. A pergunta veio como vem uma pergunta de uma analista. No momento exato que eu não estava preparada para ela. E eu, que passos dias, destringando conceitos complexos, que construir uma carreira inteira em cima da minha capacidade, traduzir o difícil, em claro, fiquei completamente muda, sem falar. Eu disse, literalmente, eu não sei. E fiquei com essa frase reverberando durante dias. Porque eu sabia que não era verdade que eu não sabia. E ao mesmo tempo, era a coisa mais honesta que eu já tinha dito naquele constróer. Eu não sei explicar o que significa ser mulher. E aqui, eu preciso abrir um parentes. Porque é importante entender o que o silêncio diante de certas perguntas não é uma falha. É sintoma de que a pergunta toca uma camada que a linguagem conceitual não foi feita para alcançar. Eu sei explicar coisas difíceis. Faço isso todos os dias com previsão e com muito gosto. Porque eu gosto de enfrentar um caso difícil, uma situação difícil. Mas quando alguém me pede para definir o que é ser mulher, eu percebo que essa pergunta se parece como o que é estar vivo, o que é a vida. Eu posso descrever processos, posso se estar filósofo, posso ser cá o conceito por todos os lados. E ainda assim, o centro permanece em tocado. Porque ele não é conceito, é experiência. E experiência, por definição, precede a palavra que tenta descrever-la. É aqui onde entra a Clarisse. Clarisse, de expectedo, entrou na minha vida, fazendo uma coisa que quase nenhum outro autor, em língua portuguesa, tentou com a mesma radicalidade. Ela tentou escrever o que acontece antes do pensamento virar a lavar. Em a paixão segundo G.H. publicado em 1964, a protagonista entra no quarto da empregada, encontra uma barata na parede de um armário, e a partir desse encontro aparentemente banal, mergulha numa experiência tão crua. Então, anterior a qualquer categoria mental, que a linguagem do romance começa a rachar. As frases se repetem, voltam sobre os mesmos, se contradisem. Porque Clarisse não está tentando na rauma história. Ela está tentando reproduzir na escrita o momento exato em que o pensamento ainda não se organizou. E esse é o ponto que me interessa. Clarisse compreendia que existiam experiências que só podem ser escritas. Se eu aceitar que a escrita vai falhar paciamente, que as palavras vão chegar perto, mas não vão fechar o cerco. Em o leio G.H. aí reconheço ali o que aconteceu comigo no consultório. A pergunta do meu analista me empurrou pra uma zona onde eu sei que existia algo imenso, mas o ato de nomear reduís o que eu estou tentando dizer. E aqui eu trago Mary Shelley. Porque o caso dela me fascina por uma razão muito específica. Mary Shelley escreveu, Franksson, em 1818, ela tinha 19 anos. Tinha acabado de perder uma filha prematura, uma filha que viveu 11 dias. Mary registrou no diário que sonhava com a filha voltando à vida, que esfregava o corpo da minha criança perto da laireira, imaginando que o calor pudesse trazer a devolta. Messes depois, durante uma temporada com Percy Shelley e Lord Byron, uns arredores do Lago de Genebra, ela começou a escrever a história sobre um homem que cria vida em laboratório e depois abandona o que criou. Franksson é muita coisa. Ficação científica, errou uma sigótica, é terror clássico, é crítica ao prometer o moderno. Mas quando eu leio esse livro, sabendo que Mary Shelley estava vivendo no corpo, no luto, na maternidade interrompida, eu enxergo ali uma compreensão profundamente feminina do que significa criar. Criar não é um ato técnico, criar é um compromisso irreversível com aquilo que eu trouxe ao mundo. E o monstro, a criatura de Franksson, não se torna violento porque nasceu mal. Se torna violento porque foi abandonado porque criou. Mary Shelley aos 19 anos em luto, escreveu o que muitos filósofos não conseguiram articular entratados inteiros que a responsabilidade pela criação não termina no ato de criar. E o que me toca nessa história não é apenas o livro, é a circunstança. Uma mulher de 19 anos, cercada por homens brilhantes que atratavam com interlocutora, mas também como parte importante da vida de Percy Shelley, ela que tinha ele como seu abrigo, a sua estrutura, entregou a escrita, na escrita um lugar onde sua experiência de perda que era intransferível e solitária se tornou universal. Ela transformou uma dor mais particular que existe a morte de uma filha em ficção de um mundo inteiro ler a duas séculos. E isso é uma forma de tradução do que eu reconheço como feminino, não porque são mulheres fazer isso, mas porque Mary fez a partir de um lugar do corpo que só ela ocupa. E veja que Mary Shelley, quando coloca o vitor Frankston e a criatura, dois homens lidando com a própria existência, nas próprias consequências dos atos, esse orgulho com ego, é como se a criatura também fosse uma espécie de cristalização da neurose de vitor, aquele que tinha um orgulho intelectual desmedido, que não media naturalmente as consequências, não cedia, preferia criar um outro problema, preferia criar uma outra solução transferindo aquilo que era de sua responsabilidade para a outra e que não tem até tomar consciência de tudo aquilo. E vai até as últimas consequências, vitor Frankston e a criatura. Esse livro é, ele é lindo, não somente pela história que Mary Shelley transpõe, mas pela quantidade de vezes que aquela mulher aparece em todos os personagens, em todas as manifestações mais íntimas de cada uma daquelas entidades, de cada um daqueles diálogos, ali eu vejo uma mulher, uma mulher, uma mulher, mas o que significa ser mulher? E aí eu trago uma outra mulher para a gente conversar respeito, depois tem eles regina, que é um caso a parte, porque nela ou feminino não está no texto, está no corpo. Quando eu ouço eles cantando águas de março, aquela gravação de 1974 com Tom Jobi, ou como nossos pais de Belquior, gravação de 1976, o que me atinge não é apenas a técnica vocal, que era extraordinária, é a qualidade da entrega. Ele escantava como se não houvesse separação entre a liga música, como se o corpo inteiro fosse o instrumento e cada nota custasse um pedaço dela. Eu já vi muitas gravações da Elise, e o que me impressiona toda vez é que ela não interpreta a canção, ela mora naquela canção, em como nossos pais, quando ela chega no verso sobre perceber que, apesar de termos feito tudo, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais, existe uma indignação ali que não é performática, e nem é qualquer recurso de palco. É uma mulher de 31 anos que sabe do que está falando e que decidiu não proteger nenhuma parte de si, enquanto diz o que precisa ser dito. E essa decisão de não se proteger, não é, essa decisão de simplesmente não se proteger, é isso, tem um custo que a plateia é raramente médica, porque para quem assiste a espetáculo, é linda, arrepiante, mas para quem está ali em cima, exposta daquele jeito, é alguma coisa que as palavras fogem traem a possibilidade de descrição. Existe uma generosidade nesse tipo de entrega?
existe também um risco enorme, porque quem se entrega, assim, não tem como se proteger. Eu vejo nessa entrega de Elis algo que reconheço em mim, muitas mulheres que conheço, uma disposição para estar inteira naquilo que faz, sem reserva, sem rede de segurança, sabendo que isso pode custar muito mais do que a gente imaginava quando começou. E Clarice tem uma música que fala justamente sobre "Eu quero uma casa no campo" "Onde eu possa plantar?" Acho que é "Meus amigos", "Onde eu possa ter meus livros?" e nada mais. Clarice é isso. E Clarice não Elis. Mas Clarice desmontando a linguagem pra alcançar o que vem antes dela. Mary Shelly escrevendo sobre a criação e abandono enquanto o próprio corpo ainda carregava, ostentava suas próprias experiências pessoais. Elis se entregando no palco até o limite do que o corpo sustenta. Três mulheres, três séculos, três linguagens diferentes, fazendo a mesma coisa, tornando visível uma força que eu reconheço em mim, mas que resiste a qualquer definição que eu tente dar. E aqui eu volto ao pauta, o volto ao consultório. Quando eu percebi que não ia conseguir responder a pergunta do meu analista com uma definição limpa, fiz o que eu sempre faço quando algo me escapa. Fiboscar nas palavras dos outros. Trouxy Clarice, Trouxy Shelley, Trouxy Lee, se tentei explicar o que a ser mulher apontando para as mulheres que expressaram isso melhor do que eu. E meu analista me ouviu com muita paciência. Depois de se você consegue ser menos teórica e essa frase que era simples me desarmou completamente. O que me fez perceber que eu tinha dado uma volta intelectual enorme para evitar a única coisa que eles estavam me pedindo, que eu falasse de mim. E consigo reconhecer o feminino na obra de cada uma dessas mulheres. Consigo apontar onde ele aparece. Eu consigo explicar por que me atravessa, mas quando a pergunta volta para mim, para o que eu sinto no corpo, para o que significa na minha história concreta, eu volto para o silêncio do início, só que agora sabendo que ele não é um silêncio vazio. É um silêncio que está cheio e muito barulhento. E essa descoberta mexeu comigo de um jeito que eu não esperava, porque eu passei a vida inteira construindo competência exatamente com as palavras. Eu vivo de traduzir, de explicar, de tornar claro o que parece obscuro. Minha profissão inteira se sustenta na minha capacidade de pegar uma coisa complexa e entregar uma linguagem que o outro consiga receber. Essa é a docência de descomplicar aquilo que parece complexo. E de repente, eu estava diante de uma pergunta que exigia de mim justamente contrário, que eu aceita se não saber dizer, que eu ficasse com a coisa, sempre precisar em brulhá-la no conceito. Eu percebo que talvez essa seja a diferença entre o que eu faço quando eu trabalho e o que aconteceu naquela cadeira. No trabalho eu traduz um mundo para os outros, e esse é um movimento que eu domino. Naquela seção eu precisava traduzir a mim mesma para mim. E a linguagem que eu uso tão bem para organizar tudo, mas não serve para esse segundo trabalho. Ou pelo menos, não serve sozinha. E eu fiquei pensando, será que essa dificuldade de definir não é justamente a resposta? Será que ser mulher não é exatamente isso, carregar algo tão constitutivo, tão entranhado que, em quem eu sou, que qualquer frase que eu construir vai ser menor do que aquilo que eu estou tentando dizer? Eu não sei se eu vou encontrar a resposta para esse pergunta. Eu não sei se ela tem resposta em formato de frase. Eu não sei, não sei. Mas eu sei que desde aquela seção, eu ando mais a tenta o que acontece comigo quando eu clarei-se, quando eu sou elíse, quando eu penso no texto de Mary Shelley, quando ela resolveu escrever uma história, depois do encontro entre os amigos e a promessa de que sairiam uma história de terror. E que é, na verdade, uma ficção psicológica inacreditável, um dos melhores livros que eu já li. E o que eu percebo aqui, nesses momentos, eu não estou aprendendo que essa irmulha é, eu estou me reconhecendo em personagens, em trechos, em manifestações femininas e masculinas. Eu estou me reconhecendo humana. Talvez a minha tarefa não seja enfrentar a definição certa. Talvez a minha tarefa seja aceitar que essa é uma das pocas perguntas da minha vida que eu vou continuar respondendo sem palavras. E o que isso não é uma limitação, muito pelo contrário. E cerramos aqui o nosso pequeno expediente. Até a próxima. Gostou? Fala.
Podcast Summary
Key Points:
A pergunta "o que significa ser mulher?" feita pelo analista deixou a autora sem palavras, revelando que algumas experiências não cabem em definições conceituais.
Clarice Lispector, em "A Paixão Segundo G.H.", tenta escrever o que acontece antes do pensamento se organizar, mostrando que a linguagem falha ao tentar capturar a experiência pura.
Mary Shelley, ao escrever "Frankenstein" aos 19 anos após perder uma filha, transforma a dor da maternidade interrompida em uma reflexão sobre criação e abandono, expressando uma compreensão feminina do ato de criar.
Elis Regina, em suas interpretações, entrega-se inteiramente à música, sem proteção, revelando uma força feminina que resiste a definições.
A autora percebe que sua dificuldade em definir "ser mulher" não é uma limitação, mas sim a aceitação de que essa pergunta só pode ser respondida através da experiência e do reconhecimento em outras mulheres.
Summary:
O texto reflete sobre a impossibilidade de definir o que significa ser mulher por meio de conceitos ou palavras. A autora, Flávio Landa Gaeta, descreve uma sessão de análise em que, ao ser questionada diretamente sobre o tema, fica em silêncio, percebendo que a pergunta toca uma camada anterior à linguagem. " tenta escrever o indizível, o que ocorre antes do pensamento se organizar; Mary Shelley, que, após perder uma filha, escreve "Frankenstein" como uma metáfora sobre a criação e o abandono, expressando uma dor profundamente feminina; e Elis Regina, cuja entrega total no palco revela uma força que não pode ser encapsulada em definições.
A autora conclui que, embora consiga reconhecer o feminino nessas obras, quando a pergunta é direcionada a ela mesma, retorna ao silêncio — mas agora entende que esse silêncio não é vazio, mas cheio de significado. A dificuldade de definir "ser mulher" não é uma falha, mas sim a aceitação de que algumas perguntas só podem ser respondidas através da experiência vivida, do reconhecimento em outras e da entrega sem reservas, como fizeram Clarice, Mary e Elis.
FAQs
Ser mulher é uma experiência tão constitutiva e entranhada que qualquer definição verbal é menor que o que se tenta expressar. A resposta está no silêncio cheio de significado, não em conceitos.
Ela ficou muda porque a pergunta tocou uma camada que a linguagem conceitual não alcança, sendo mais honesto reconhecer que não sabe explicar do que forjar uma definição.
Clarice tentou escrever o que acontece antes do pensamento virar palavra, como em 'A Paixão Segundo G.H.', onde a linguagem racha para alcançar experiências que precedem qualquer categoria mental.
Mary Shelley, ao escrever 'Frankenstein' após perder uma filha, transformou uma dor particular em ficção universal, mostrando que criar é um compromisso irreversível, uma compreensão profundamente feminina.
Elis Regina cantava com o corpo inteiro, sem se proteger, como se cada nota custasse um pedaço dela. Essa disposição de estar inteira naquilo que faz é reconhecida como uma força feminina que resiste a definições.
Porque carregar algo tão constitutivo que qualquer frase é menor que a experiência pode ser exatamente o que significa ser mulher, aceitando que algumas perguntas são respondidas sem palavras.
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