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O que as eleições americanas realmente escondem

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O que as eleições americanas realmente escondem

A conversa entre Bruna Santos e Fernando aborda as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, e a complexidade por trás da polarização política americana. Bruna destaca que as primárias têm mostrado que a política está mais dividida do que a sociedade real, citando exemplos como a vitória da socialista-democrata Andy Nixon na Flórida sobre um candidato moderado com mais recursos, e a campanha "Peixe, Família e Liberdade" da democrata Mary Peltola no Alasca, que liderou as primárias abertas do estado. Ela explica que a coalizão de Trump não é monolítica: dados de um estudo mostram que só 38% dos eleitores dele são MAGA convictos, enquanto outros grupos, como a "direita relutante", têm visões muito diferentes, especialmente em temas como guerra no Irã, onde há uma diferença de mais de 60 pontos percentuais. A disciplina dos republicanos no Congresso, segundo Bruna, vem do medo de que Trump apoie adversários nas primárias e da necessidade de coesão partidária, mas fissuras aparecem quando políticas afetam o bolso dos eleitores. Por fim, ela traça um paralelo com o Brasil, onde a polarização entre Lula e bolsonarismo esconde uma sociedade mais complexa, e sugere que 2030 pode ser um teste crucial para entender o que existe além desses líderes, tanto no Brasil quanto nos EUA.

Transcription

2048 Words, 11770 Characters

Portuguese
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Speaker 2CBN Pelo Mundo, com Bruna Santos. Bruna Santos, boa tarde pra você. Bem-vinda.
Speaker 3Boa tarde, Fê. Tudo bem?
Speaker 2Tudo bem. Tempo e temperatura em Washington.
Speaker 3Gente, tá lindo hoje. Hoje tem sol e estamos na casa dos 25 graus. Pra quem não sabe, o verão aqui parece o verão de Manaus. É muito úmido e muito quente. E agora a gente já tá chegando perto do outono.
Speaker 2Bom, a gente vai falar hoje, Bruna, sobre eleições de meio de mandato e também explicar aqui pro nosso ouvinte o que a polarização americana esconde. O que as primárias estão mostrando? O que o MAGA tá mostrando? Tem dados importantes. Sobre esse pleito, o que que você nos traz?
Speaker 3Sim. Bom, é importante falar assim, as eleições de meio mandato aqui nos Estados Unidos, elas vão acontecer dia 3 de novembro. E aí, o que que tá em jogo? A Câmara dos Deputados e cerca de um terço do Senado. Além disso, nesse mesmo período, alguns governadores entram pra... E tem eleição em alguns governos de Estado. Essa disputa, ela já começou, a gente até já tinha falado aqui um pouco sobre isso, mas, de março, você tem tanto democratas quanto republicanos escolhendo os seus candidatos, Estado por Estado. E aí, eu acho que tem uma... muitas coisas que têm sido, acho que, reveladas ao longo desse processo, que eu acho bacana de contar aqui. Porque, assim, Fernando, como diz aquela música do Caetano, "De perto ninguém é normal", eu acho que, de perto, nenhuma sociedade é binária. Não dá pra dividir entre republicanos e democratas. Tem muita nuance. Sim. E eu acho que é isso que as primárias americanas estão mostrando, que a política americana, ela tá, hoje, muito mais polarizada do que a sociedade, de fato. Eu acho óbvio que os Estados Unidos estão polarizados, mas isso não significa que existam esses blocos de forma muito coerente. E, obviamente, aqui, por ser um sistema de dois partidos, isso fica especialmente visível. Mas, durante as primárias, que é esse momento que eles estão ali escolhendo os candidatos, fica muito mais clara as disputas internas entre os democratas e os republicanos. E, quando chega novembro, na urna, essa complexidade precisa ser traduzida entre D ou R. Olha, mas, assim, só pra dar um exemplo do que tá acontecendo agora, dois exemplos que eu acho que, pra mim, foram bem interessantes na última semana. Na Flórida, uma candidata socialista-democrata, que é dessa ala mais socialista do Partido Democrata, chamada Andy Nixon, ela arrecadou menos de um milhão de dólares e derrotou um candidato muito mais moderado, democrata, que era um cara dentro dessa linha de establishment democrata, que era um cara que tinha uma capacidade extraordinária de campanha, que tinha arrecadado 16 milhões pra sua campanha. E ela foi lá e derrotou ele. No Alasca, o Alasca é um pouco diferente, aconteceu uma outra coisa interessante. Lá, a primária, ela é aberta. Você tem os democratas... Os democratas e os republicanos concorrendo juntos. E quatro deles, quatro dos mais votados, avançam. É um modelo ranqueado. E é um estado que, tradicionalmente, é vermelho. Tradicionalmente, ele elege republicanos. Mas quem terminou na frente foi uma candidata, uma democrata, de origem nativa do Alasca, chamada Mary Peltola. À frente, inclusive, de um senador republicano que tava ali tentando a eleição, que é o Dan Sullivan. E o interessante da campanha... Da campanha dela, é que ela fez uma campanha chamada Peixe, Família e Liberdade. Peixe? Uma campanha numa... Peixe, Família e Liberdade. Uma campanha... E ela é uma democrata, veja bem. E ela fez uma campanha muito conectada com a realidade do Alasca. Então, eu acho que o Alasca, pra mim, é um ótimo exemplo de que, quando você vai, quando você sai desses rótulos nacionais, que a gente vê muito aqui em Washington e chega perto do eleitor, nas regiões, você vê que essas combinações ficam muito menos previsíveis. Então, eu realmente acho que a polarização política, ela esconde muita coisa. Quando a gente olha apenas o mapa lá, vermelho ou azul, eu acho que a gente perde a perspectiva das motivações e das visões de mundo que permeiam cada campo. Porque os Estados Unidos, eles parecem esses dois blocos, mas eles são muitos.
Speaker 2Perfeito, perfeito. Você ia trazer alguns dados com relação... Os dados do MAGA, o que que você tem?
Speaker 3Então, o que que eu queria falar? O MAGA, o Trump tem uma coalizão hoje que vai muito além desse grupo chamado MAGA, que significa Make America Great Again, vamos fazer a América grande novamente. E essa diferença, eu acho que ela é muito importante pra gente entender o que que aconteceu em 2024, o que que pode acontecer daqui pra frente. Quando você pega o agregado dos eleitores, do Trump, tem um estudo que saiu de uma organização chamada...
Speaker 2Peraí, tivemos um problema aqui no momento que ela fala sobre o estudo de uma organização chamada... Bruna, o estudo da divulgação de um instituto chamado como mesmo? Mais em comum. Tá, continue. More in common. Tá. Hum.
Speaker 3Sim, perfeitamente. Não, não, não, não, não, não é porque falhou. Vou desacelerar.
Speaker 2Não, não, imagina porque falhou, pode continuar. Ah, desculpem. Imagina, imagina. Tá. É.
Speaker 3Tá. Esse estudo... Então, ele mostra o quê? 38% dos eleitores do Trump dizem que ser MAGA é importante pra eles, é parte da realidade deles, é necessário. Além disso, você tem dentro do agregado dos eleitores do Trump, você tem os conservadores que são mobilizados pelas guerras culturais, você tem os republicanos tradicionais e um outro que eles chamam de direita relutante, que é o cara que votou no Trump, mas de maneira muito transacional. E o que que é interessante quando você vai olhando os detalhes dessas... desses dados? Quando você tá falando de Irã, 87% desse grupo, linha dura, MAGA, apoia a guerra, mas na chamada direita relutante, você tem um grupo de 26% só apoiando a guerra. Então, é uma diferença de mais de 60 pontos dentro do mesmo eleitorado que colocou o Trump... o Trump na Casa Branca. Então, se a gente trata... a minha visão, se a gente trata todo eleitor do Trump como um MAGA convicto, a gente começa a errar na ideia de que essa coalizão vai aceitar qualquer coisa, porque não vai aceitar. Quando política externa, quando inflação, imigração, deixam de ser slogans de campanha e viram consequências na vida delas, elas mudam de lado. Então, o voto foi o mesmo, mas o contrato, vamos dizer assim, que elas têm com o Trump é outro. Acho que esse é o ponto mais interessante dessa pesquisa.
Speaker 2É interessante, é porque quando você rotula, você acaba perdendo... você perde nuances, e aí você não consegue acertar nada. Você perde nuances. É, exatamente. Por que que o Congresso quase sempre fecha com o Trump? Porque se o eleitorado, como você trouxe, republicano, é tão heterogêneo, por que que essa heterogeneidade não se reflete no comportamento dos republicanos no Congresso?
Speaker 3É, eles votam em grupo sempre, né? E... mas acho que tem dois motivos aí, eu acho que essa pergunta é realmente muito boa e vale muito pra gente entender o contexto. Porque a bancada republicana no Congresso, ela é, claro, mais homogênea do que o eleitorado republicano que ela representa. O eleitorado agregado, porque ela passou pelas primárias, e as primárias vai filtrando essa diversidade. Porque quem participa das primárias é, em geral, aquele eleitor super engajado, aquele eleitor super ideológico. E aí entra um segundo mecanismo, que é o fato de que os incentivos pra um parlamentar republicano hoje é muito maior pra ele ter lealdade ao Trump do que pra ele expressar as suas divergências. E aí entra um segundo mecanismo, que é o fato de que os incentivos pra um parlamentar republicano hoje é muito maior pra ele expressar as suas divergências. E aí entra um segundo mecanismo, que é o fato de que os incentivos pra um parlamentar republicano hoje é muito maior pra ele expressar as suas divergências. Porque na primária, o Trump apoiar um adversário é algo que um parlamentar republicano teme muito.
Speaker 2Teme?
Speaker 3Hoje a gente brinca que a lei...
Speaker 2Ué, mas não seria positivo?
Speaker 3Não, sabe por quê? Porque quando eles estão na primária, eles estão concorrendo entre republicanos. Então o maior temor dele é ele sair candidato e o Trump apoiar o amiguinho, e não ele mesmo. Porque o Trump ainda tem o menor... Teme capacidade de apoiar um adversário numa primária e mobilizar o eleitor republicano mais engajado. Eu vou dar um exemplo aqui que eu acho que é bom. Tem um senador chamado Bill Katz... Cáceres, que havia votado há uns anos atrás para condenar o Trump depois da invasão do 6 de janeiro. O Trump ficou muito raivoso e apoiou na primária o adversário republicano do Cáceres para o mesmo assento no Senado. E aí o Cáceres acabou fora. Então, existe esse temor de ir contra o Trump nas primárias. E depois, uma vez eleito, existe a própria disciplina do Congresso, porque você tem ali a liderança partidária, as chamadas comissões, a capacidade de colocar os projetos em votação, que faz parte dos ritos. Para conseguir isso, você precisa de uma maior coesão do partido. Você precisa dos votos em bando. Mas eu acho, Fernando, que o custo de acompanhar o Trump começa a subir quando as fissuras aparecem. E a guerra no Irã, para mim, é o melhor exemplo. Porque você pega republicanos no Senado, republicanos na Câmara, que já votaram com os democratas para limitar a ação militar do presidente no Irã. Por quê? Porque a guerra chegou no bolso do eleitor deles. A guerra está causando o preço da gasolina subindo, a guerra está complicando a vida deles e dos eleitores deles. Então, esse custo está aumentando. Então, eu não interpretaria essa disciplina de voto em bando dos republicanos como uma ausência das divergências, claro. Mas é muito mais uma percepção do custo de romper com o Trump do que necessariamente de engolir a divergência.
Speaker 2Bruno, nosso tempo está acabando. Eu queria saber se você quer citar algo sobre os democratas ou se a gente pode colocar o Brasil nessa história para também saber como a capolarização de lá interfere aqui. O que você prefere?
Speaker 3Eu prefiro falar do Brasil, Fê, porque... Porque eu acho que o Brasil e os Estados Unidos, eles funcionam um pouco como espelhos imperfeitos. E nos dois casos, a política divide em dois as sociedades que são muito mais complicadas. E no Brasil, claro, é muito diferente por conta dos muitos partidos que nós temos, mas eu acho que também existem dados e livros, um deles, inclusive, chamado Brasil no Espelho, do Felipe Nunes, que trazem essas nuances do quanto o brasileiro quer mais do que isso. E eu acho que em 2026, a gente ainda não tem essa realidade, mas 2030 talvez venha a ser um teste muito interessante para o Brasil e para o campo progressista e para o campo à direita, para o campo conservador. Porque vai ser a primeira vez que, se Lula for reeleito agora, ele não vai estar na cédula daqui a quatro anos e a gente também não sabe de que forma o bolsonarismo vai evoluir até lá. E eu acho que aí nós vamos descobrir entre esses dois cantos, se esses dois campos dependiam desses líderes dessa polarização para existir ou o que existe além deles. E aí entra o paralelo também com os democratas, que hoje não sabem o que existe além do antitrampismo dentro do partido e a gente vê essas rupturas acontecendo.
Speaker 2Perfeito. Bruna Santos, diretora do Inter-American Dialogue em Washington, toda sexta-feira com a gente aqui no CBN Pelo Mundo. Bruna, muito obrigado mais uma vez, um bom final de semana e até a sexta-feira que vem.
Speaker 3Tchau, tchau, querido. Obrigada.
Speaker 1Tchau, tchau. Legenda por Sônia Ruberti

Podcast Summary

Key Points:

  1. As eleições de meio de mandato nos EUA ocorrem em 3 de novembro, com disputas pela Câmara, um terço do Senado e alguns governos estaduais.
  2. As primárias revelam que a política americana é mais polarizada que a sociedade, com nuances internas entre democratas e republicanos, como os casos de Andy Nixon na Flórida e Mary Peltola no Alasca.
  3. A coalizão de Trump não é homogênea
  4. A disciplina dos republicanos no Congresso deve-se ao medo de retaliação de Trump nas primárias e à coesão partidária, mas fissuras surgem quando questões como inflação e preços afetam os eleitores.
  5. O Brasil e os EUA funcionam como "espelhos imperfeitos", com polarização que esconde complexidades sociais; em 2030, o Brasil pode testar o que existe além de Lula e do bolsonarismo.

Summary:

A conversa entre Bruna Santos e Fernando aborda as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, e a complexidade por trás da polarização política americana. Bruna destaca que as primárias têm mostrado que a política está mais dividida do que a sociedade real, citando exemplos como a vitória da socialista-democrata Andy Nixon na Flórida sobre um candidato moderado com mais recursos, e a campanha "Peixe, Família e Liberdade" da democrata Mary Peltola no Alasca, que liderou as primárias abertas do estado. Ela explica que a coalizão de Trump não é monolítica: dados de um estudo mostram que só 38% dos eleitores dele são MAGA convictos, enquanto outros grupos, como a "direita relutante", têm visões muito diferentes, especialmente em temas como guerra no Irã, onde há uma diferença de mais de 60 pontos percentuais.

A disciplina dos republicanos no Congresso, segundo Bruna, vem do medo de que Trump apoie adversários nas primárias e da necessidade de coesão partidária, mas fissuras aparecem quando políticas afetam o bolso dos eleitores. Por fim, ela traça um paralelo com o Brasil, onde a polarização entre Lula e bolsonarismo esconde uma sociedade mais complexa, e sugere que 2030 pode ser um teste crucial para entender o que existe além desses líderes, tanto no Brasil quanto nos EUA.

FAQs

Nas eleições de meio de mandato, que ocorrem em 3 de novembro, estão em disputa a Câmara dos Deputados e cerca de um terço do Senado, além de eleições para governadores em alguns estados.

As primárias mostram que a política americana está mais polarizada do que a sociedade, revelando disputas internas entre democratas e republicanos e nuances que não aparecem no mapa eleitoral dividido entre vermelho e azul.

Na Flórida, uma candidata socialista-democrata derrotou um candidato moderado com muito menos financiamento. No Alasca, uma democrata de origem nativa liderou a primária aberta, à frente de um senador republicano.

A coalizão de Trump inclui 38% de eleitores MAGA convictos, além de conservadores mobilizados por guerras culturais, republicanos tradicionais e uma 'direita relutante' que vota de forma transacional.

Os parlamentares temem que Trump apoie um adversário nas primárias, o que pode custar-lhes o cargo. Além disso, a disciplina partidária e os incentivos para coesão no Congresso reforçam essa lealdade.

Quando políticas como guerra no Irã afetam o bolso dos eleitores, aumentando preços de gasolina, alguns republicanos passam a votar com democratas para limitar ações militares, mostrando que o custo de romper com Trump pode subir.

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