O livro "O Impacto das Cotas" é fruto do Consórcio de Ações Afirmativas, criado entre 2021 e 2022 para avaliar a Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) diante da ameaça do governo Bolsonaro de cancelá-la por falta de avaliação oficial. O consórcio, coordenado por Luiz Augusto Campos e Márcia Lima, reuniu 40 pesquisadores de 8 grupos de 7 universidades (UERJ, UnB, UFBA, UFSC, Unicamp, UFRJ, UFMG), representando diferentes modelos de ação afirmativa. A pesquisa enfrentou obstáculos como cortes de financiamento público e dificuldade de acesso a dados devido à LGPD, sendo financiada por recursos privados.
Os principais achados revelam mudanças significativas: as matrículas de pretos, pardos e indígenas no ensino superior público subiram de 30% para 52% entre 2000 e 2023, enquanto a classe A (5% mais rico) perdeu espaço, caindo de 50% para 20-30% das vagas. A análise de desempenho mostra que cotistas e não cotistas têm resultados acadêmicos similares, com diferenças mínimas de entrada que desaparecem durante os cursos, e taxas de evasão equivalentes. Casos específicos, como a UFBA (que inicialmente tratou a cota como teto) e a Unicamp (que adotou bônus antes das cotas), ilustram como diferentes modelos afetam a inclusão. O consórcio também publicou resultados no "Index Cotas" do Nexo Políticas Públicas, com textos sobre ingresso, desempenho e evasão, visando informar o debate público e subsidiar a renovação da política de cotas.
Pessoa 1
Boa tarde, bom dia, boa noite pra todo mundo que está nos ouvindo aqui.
Eu sou Zé soako e esse é o podcast da unpox pública, podcast da associação nacional de pós graduação em pesquisa em ciências sociais.
Sou Zé soako, sociólogo, político e membro da própria unpox pública.
E hoje a gente tem o enorme prazer de receber o pesquisador Luiz Augusto Campos.
Luís Augusta é professor de sociologia e de ciência política no instituto de estudos sociais e políticos, o iesp, da uerj.
Ele é editor da revista dados e um dos coordenadores do consórcio das ações afirmativas.
Hoje na nossa conversa é sobre o livro que ele organizou junto com a professora Márcia Lima, da USP, e que infelizmente não pode estar aqui com a gente.
O livro chama o impacto das cotas, 2 décadas de ação afirmativa no ensino superior brasileiro, lançado agora em 2025 pela autêntica bom, Luiz, obrigado por ter aceitado o convite.
E a gente vai direto pra primeira pergunta.
O livro é fruto do trabalho de um consórcio de cientistas sociais reunidos pra avaliar o resultado das cotas, né?
Você pode falar um pouco sobre a construção desse consórcio antes do livro?
Pessoa 2
Bom, Zé, primeiro eu queria agradecer a você e a unbox, especificamente a unbox pública, pelo convite pra gente falar um pouco mais do livro aqui e o livro, como você já adiantou, ele é fruto de um consórcio consórcio das ações afirmativas que na verdade, foi construído por questões relacionadas aos problemas das pesquisas ou do campo de pesquisa.
Sobre ações afirmativas, pra entender um pouco o que que a gente construiu o consórcio, eu acho que a gente tem que voltar um pouco no tempo e entender o que que estava acontecendo ali entre 2021 e 2022, no que se refere ao debate em torno das cotas no ensino superior, a lei 12711, de 2012, que é a lei de cotas, que regulou as cotas no ensino público federal.
Ela, enfim, é uma lei complexa.
E ela tinha algumas ambivalências, né?
Uma dessas ambivalências tinha a ver com um dos seus artigos.
Que mandava que fosse feita, depois de 10 anos da sua aprovação, uma avaliação, na verdade, 11 pesquisa sobre os resultados dos impactos das políticas de cotas.
Esse artigo, especificamente, não determinava prazo de validade para a lei de cotas.
Ele basicamente dizia, olha, depois de 10 anos, o governo precisa fazer uma avaliação dessa política.
O governo Temer, de um modo bastante curioso, e muda.
A estrutura dessa oração tira o governo de sujeito dessa oração e coloca algo como dever se á fazer uma avaliação dessa política bem à moda do ex presidente Temer.
E enfim, a lei dizia isso, embora ela não falasse em validade, ou seja, não estabelecesse nenhuma punição para caso essa avaliação não fosse feita ou se os resultados dessa avaliação fossem negativos, a gente antecipava que o governo Bolsonaro no ano de 2022.
Iria utilizar essa ambiguidade desse artigo para dizer que a lei de cotas teria que ser cancelada porque não houve avaliação.
Então, em 2021, a gente começou a organizar é algumas pesquisas para fazer essa avaliação via sociedade civil, via academia, já que o governo naquele momento não tinha nenhum interesse em avaliar a política de cotas.
Preciso lembrar também que, naquele momento, os financiamentos públicos para agenda de ações afirmativas, diversidade, raça, gênero tinham praticamente sido eliminados, né?
Na época, a gente tinha até a gente tinha tido um financiamento chamado Capes diversidade, que o governo basicamente suspendeu e não permitiu que a gente terminasse esse financiamento.
Então, o que a gente fez foi, em primeiro lugar, trabalhar com financiadores privados interessados em em contribuir para que essa avaliação fosse feita.
E, em segundo lugar, tentar responder a perguntas muito básicas sobre a os impactos da lei das leis de cotas, né?
E nesse aspecto, a gente enfrentou outros obstáculos, porque o acesso a dados, sobretudo dados agregados, relacionados ao ensino superior brasileiro como um todo e o ensino superior público brasileiro como um todo.
Tinha também sido dificultado pelo governo e pela aprovação da lei geral de proteção de dados, que, embora não se aplique, a pesquisa, vinha sendo e ainda vem sendo utilizada pelos burocratas para impedir o acesso a dados.
Então, o que a gente tentou fazer foi reunir pesquisadores e pesquisadoras de diferentes universidades que já tinham algum acesso aos dados das cotas, para daí formar esse pool, esse consórcio de grupo de pesquisa.
Que fosse capaz de responder as questões que a gente levantava.
Só para você ter uma ideia, uma das questões que a gente levantou que talvez seja mais simples de todas é uma questão que até hoje não tem resposta, como, por exemplo, quando os cotistas do Brasil formou desde que as cotas foram implementadas.
A gente não tem como responder essa pergunta, né?
Os dados existem, eles estão em alguns lugares, mas eles não são acessíveis.
AA gente consegue hoje, por exemplo, dizer quantos cotistas estão matriculados nas universidades federais, mas a partir de dados do Inep sobre tudo.
Mas a gente não consegue responder isso para as universidades estaduais, que tem o seu sistema de dados próprios.
E quando a gente volta a olhar para o passado, sobretudo tendo em vista que as políticas de ações afirmativas começaram antes da lei federal de 2012, na verdade, começaram uma década antes, essa pergunta vai se tornando de solução mais difícil ainda.
Então, o modo da gente equacionar os problemas com os dados e as demandas políticas.
Para que a gente se munisse de dados?
Para que se caso o governo Bolsonaro se opusesse ou atacasse essas políticas, isso tudo pareceu demandar uma estrutura mais coletiva.
EEE consorciada, digamos assim, de grupos de pesquisa.
Nesse sentido, a gente montou o consórcio com 8 grupos de pesquisa ligados a 7 universidades distintas.
Pessoa 1
Excelente.
Você pode falar só um pouquinho sobre a estrutura do do consórcio.
Acho que é interessante para as pessoas que não conhecem, porque a gente pode pensar aqui que outras áreas podem replicar esse modelo.
Pessoa 2
Então, o consórcio, ele tinha uma coordenação da coordenação, foi executada por mim e pela professora Márcia Lima.
E a gente selecionou ou tentou selecionar universidades que fossem emblemáticas de determinadas dimensões das políticas de cotas, né?
Então?
A gente começou com a uerj, que foi a primeira universidade a adotar essas políticas de ação afirmativa, ainda no início dos anos de 2000.
E, nesse caso, eu fui coordenador do consórcio, mas também representante da equipe que analisou os dados da uerj.
Depois a gente somou AUNB, que foi a primeira universidade federal a adotar essas políticas de cotas.
Então aí a gente trabalhou a equipe da UnB trabalhou sobre a coordenação do professor Carlos Machado e do professor joás Bernardino somamos.
A Universidade Federal da Bahia, que é a universidade que está no estado mais negro do Brasil e que por isso tem 11 enorme importância, inclusive para além disso, que teve uma equipe coordenada pela professora Paula Barreto.
E pela professora edilza Sotero, no sul, a gente pegou a Universidade Federal de Santa Catarina, que foi uma das primeiras a atingir os percentuais de representatividade negra a partir de suas políticas de ação afirmativa.
E depois a gente selecionou universidades com perfis que fossem também representativos de outras dimensões das políticas.
Por exemplo, selecionamos a Unicamp, que teve uma equipe coordenada pela professora Ana de Almeida, porque a Unicamp adotou diferentes tipos de ação afirmativa que não cotas.
A gente queria entender se os outros tipos de política, ação afirmativa, como bônus, como vagas suplementares, tinham tido os mesmos efeitos das políticas de cotas, a UFRJ, que até então era a maior universidade brasileira em termos de matrículas, e UFMG, que além de ser uma universidade importante, era a universidade sobre a qual você tinha mais produção bibliográfica sobre o tema.
Porque AUFMG durante muito tempo franqueou o acesso aos seus dados pra vários pesquisadores.
Então não sei se esqueci alguma, mas é basicamente essa composição do consórcio e em cada uma dessas universidades a gente procurou os colegas das ciências sociais que já tivessem acesso a esses dados pra que a gente pudesse fazer avançar as pesquisas do consórcio.
Pessoa 1
Excelente.
Luiz, quais foram os principais achados do livro em relação ao ingresso de cortiças na universidade e o quanto a gente avançou nesse período?
Pessoa 2
Os achados em termos de ingresso foram bastante surpreendentes até mesmo pra gente.
Que que pesquisa isso já há algum tempo.
Assim, uma frente de trabalho do consórcio que não envolveu as universidades em específico é foi a tentativa de produzir estimativas em relação a um sobre as mudanças nas universidades.
A partir das grandes bases de dados da do governo federal, do IBGE, do idep e et cetera, uma primeira estimativa tem a ver com AA quantidade de pessoas pretas pardas, indígenas matriculadas no ensino superior público brasileiro.
Então, quando a gente pega esse dado, a gente vê que ali no início dos anos 2000, a gente tinha mais ou menos 30% das matrículas no ensino superior público brasileiro de pessoas pretas, pardas ou indígenas.
Quando a gente observa o ano de 2022, 2023, esse percentual sobe para 52%.
Então a gente saiu de 30% para 52%.
Nem todos os pretos pados indígenas dessa análise ou matriculados no ensino superior brasileiro são cotistas, né?
Ou seja, você tem muitos pretos pados indígenas que não são cotistas que concorreram pela ampla concorrência.
Ou seja, a gente não pode atribuir essa mudança.
É estritamente as políticas de cotas.
Mas fato é que você tem uma mudança bastante rápida em termos históricos da composição do ensino superior público brasileiro.
Você sai de 30% para 52%, o percentual muito mais próximo da presença de pretos, países indígenas na população brasileira e muito diferente do percentual anterior.
Essas mudanças foram, de certo modo, mais drásticas.
Quando a gente observa o critério socioeconômico, né?
Lembrando que a lei de cotas no Brasil é ou as leis de cotas no Brasil, elas são sobretudo socioeconômicas, né?
Então você tem, primeiro, em geral o recorte pra escola pública, depois um outro recorte pra baixo renda e só então recortes raciais.
Mas quando a gente faz essa mesma análise, a gente vê que ali no início dos anos 2000, a chamada classe AO quinto mais rico do Brasil ocupava mais de 50% das vagas no ensino superior público brasileiro.
E hoje em dia ocupa entre 20 e 30%.
Ou seja, a classe a perdeu o espaço dentro do ensino superior.
Público brasileiro ainda está sobre representada.
Porque quando a gente fala de classe a de quinto mais rico do Brasil, a gente está falando basicamente de mais ou menos 10% da população.
E quando a gente observa as classes CDE esses 3/5 mais pobres, eles são mais de 50% hoje das matrículas, quando no passado era menos de 30%.
Então também houve 11 mudança em termos socioeconômicos, em termos de ingresso.
Outra coisa que a gente percebeu em termos de ingresso tem a ver com as diferentes mudanças que os diferentes modelos de cotas e as diferentes interpretações da lei de cotas estiveram em universidades específicas.
Um exemplo interessante é da Universidade Federal da Bahia.
A Universidade Federal da Bahia é a universidade que está no estado mais negro do Brasil e por isso, é a universidade que tem a maior cota racial.
Mas durante boa parte da vigência da política de cotas na Universidade Federal da Bahia, a universidade fez uma interpretação comum a outras universidades de que a lei de cotas estabelecia uma raia específica para os cotistas concorrerem.
O que que isso significou?
Isso significou que cotistas que tinham notas boas para passar na ampla concorrência não eram deslocados para ampla concorrência.
Ou seja, a cota que Era Para Ser interpretada como um piso, foi interpretada como um teto.
Então houve nos primeiros anos das cotas Na Na UF.
Uma redução, a rigor, da da presença de candidatos negros em alguns cursos que já tinham, por exemplo, uma grande quantidade de pretos e pardos, né?
Isso depois foi modificado pela própria universidade e serviu de base, inclusive pra mudança que vai haver na lei em 2023.
Mudança essa que dialogou com o consórcio e com outros consórcios que estavam ali operando no mesmo sentido.
Outro caso interessante que eu já mencionei é o da Unicamp, né?
Então a Unicamp, por exemplo.
Resistiu muito as políticas de cotas e adotou outros tipos de ação afirmativa.
Então ela adotou as chamadas políticas de bônus, né?
Inicialmente, os candidatos pretos, pardos, indígenas, de escola pública, baixa renda ganhavam pontos a mais nas provas de vestibular, o que significou uma maior inclusão na universidade.
Mas essa inclusão ficou muito aquém das metas da própria universidade e foi uma inclusão muito desigual.
Porque você dá 10 pontos, por exemplo, para um candidato que está concorrendo ao curso de pedagogia ou de ciências sociais, tem um efeito.
Esses 10 pontos não tem efeitos para os candidatos que estão concorrendo ao curso de medicina ou cursos mais concorridos.
Então, o caso da Unicamp foi interessante, porque depois, quando a Unicamp adota uma política de cotas, aí sim você tem uma inclusão uniforme nos cursos.
EE uma inclusão que tem impactos de fato No No alunado da universidade, né?
Pessoa 1
Legal, bom, pelo menos há uns 1015 anos atrás você tinha vozes contrárias às cotas, né?
Segundo a qual essa tinha uma expectativa de que os cotistas não tivessem um bom desempenho, uma vez que eles tivessem dentro da universidade.
O que que o livro traz sobre isso?
Pessoa 2
Bom, esse é o argumento que foi muito forte contra as políticas de cotas e, em alguma medida, hoje também é um argumento presente, né?
Ainda que que menos forte.
Mas é a ideia de que a universidade é um espaço muito competitivo, as universidades públicas no Brasil tem uma qualidade bastante boa e que você colocar estudantes cotistas dentro da universidade seria algo perigoso, porque esses estudantes cotistas, de um lado, não teriam condições de acompanhar os cursos.
E isso levaria a uma queda da qualidade do ensino superior.
A gente tentou atacar essa questão de diferentes modos.
Um modo tem a ver com a gente fez uma grande revisão bibliográfica, sistemática dos textos acadêmicos que avaliam as políticas de cotas e boa parte deles mostram que, na verdade, essa expectativa não se concretizou.
Cotistas e não cotistas têm desempenhos bastante similares, mas a gente fez análises específicas para as universidades, a mais interessante e instigante, na minha opinião.
Foi a feita pela equipe da UFMG, coordenada pela professora Ana Paula carrus, e que contou com a participação da pesquisadora fora Maia, em que elas fizeram basicamente o seguinte, elas analisaram as desigualdades de desempenho dos estudantes cotistas e não cotistas na entrada da UFMG, ou seja, No No Sisu, né?
Então, elas fizeram um gráfico com várias curvas que mostravam a distribuição das notas dos alunos de ampla concorrência, a distribuição das notas dos alunos das cotas para escolas públicas, a distribuição de notas.
Dos estudantes de baixa renda, pretos, pados, indígenas, et cetera.
E o que elas mostram, nessa análise é que há uma desigualdade na entrada.
Ou seja, os estudantes que pleiteiam uma ampla concorrência têm um desempenho um pouco melhor do que os estudantes que que são dessas diferentes cotas.
E estudantes cotistas mais favorecidos têm um desempenho pior, né, comparado aos demais.
Agora, quando elas replicam essa mesma análise.
Para o desempenho dentro da universidade, utilizando o índice que é AUFMG, tem que é ONSG, que é o índice de rendimento acadêmico.
Essas curvas praticamente se sobrepõem, ou seja, as desigualdades de entrada não se traduzem em desigualdades no decorrer dos cursos universitários.
E isso tem diferentes explicações.
Uma outra um outro dado interessante dessa análise é que elas mostram que as desigualdades de entrada não são tão grandes quanto a gente imaginava, ou seja, as diferenças de notas entre cotistas.
Entre os grupos de cotistas e de ampla como essa, são relativamente pequenas.
E muita gente às vezes ouve isso e diz assim, Ah, se são pequenos, porque então a gente precisa de cotas?
É, ué, a gente precisa de cotas porque uma diferença pequena de nota num vestibular altamente concorrido como brasileiro ou num Enem é da vida.
É uma diferença que é tira a chance de alguém que entra, de alguém que não entra.
E aí a gente também fez outras análises.
Por exemplo, uma análise importante tem a ver com outra expectativa de que os estudantes que não conseguiriam acompanhar os cursos evadiriam da universidade no Brasil.
E o que a gente mostra é que os estudantes cotistas, a rigor, evadem em taxas muito similares aos estudantes e não cotistas.
A gente sabe que o ensino superior público no Brasil tem taxa de evasão muito altas de modo geral.
Mas, a rigor, não há uma grande diferença nem em benefício nem no malefício em relação aos estudantes cotistas, né?
Pessoa 1
Excelente, Luiz.
Uma boa parte dos textos do né, dos capítulos do livro, foi publicada antes de sair em livro no index cotas, do jornal nexo políticas públicas, que além disso ganhou o prêmio.
É um ponto de divulgação científica, né?
Como funcionou esse índex?
Pessoa 2
Então, esse índex foi uma experiência bastante interessante, porque, embora o consórcio tivesse uma, tem sido pensado numa abordagem acadêmica de pesquisa científica rigorosa, trabalhando sobretudo com dados quantitativos.
Ele mirava no debate público, né?
A nossa ideia era, bom, não vamos abrir esse debate sobre as cotas, né?
Ou seja, não vamos chamar atenção para o para as cotas, porque vai que o governo a época gosta disso e queira detonar essa política?
Mas a gente tem que se.
Preparar em termos de dados para se esse debate for aberto, digamos assim, né?
Ou seja, a gente tem que estar no iniciado de dados de avaliação dessa política para caso esse debate seja aberto.
Então, como é que a gente resolve?
Não equaciona esse problema de divulgação.
De produzir dados, divulgar dados, mas ao mesmo tempo não fazer uma campanha ou algo desse tipo.
A gente achou uma solução nesse sentido a partir do nexo políticas públicas, que é um braço do nexo jornal e que tem basicamente o objetivo de divulgar evidências para a formulação EE implantação e avaliação de políticas públicas a partir de dados acadêmicos.
Então.
Os nossos grupos já tinham entradas no nexo, políticas públicas, e o que a gente fez, basicamente, foi uma espécie de compromisso de divulgar textos do consórcio, mas isso também teve um impacto na metodologia do próprio consórcio.
Então isso foi interessante, porque o que a gente fez primeiro foi dividir as perguntas que o consórcio queria responder, que acompanham mais ou menos as perguntas que você está fazendo, né?
Ou seja, o que que está acontecendo no ingresso, o que que está acontecendo em termos de desempenho?
Que que está acontecendo em termos de evasão, saída, conclusão, etc?
A partir disso, a gente juntou os mais de 40 pesquisadores que compuseram o consórcio e fez compromissos de que cada um deles, de cada equipe, de cada universidade, produzisse no mínimo 3 ou 4 textos sobre as suas universidades em cada uma dessas dimensões.
Então, a gente criou diferentes formatos, né?
Que o livro acompanha de certo modo, mas que também estão divididos assim na nossa página do index.
Cotas, né?
Um primeiro formato é a linha do tempo das ações afirmativas de cada universidade, que parece algo banal, mas na verdade, cada universidade tem uma história específica com essas políticas de cotas.
E essa história informa bastante sobre os resultados dessas políticas.
Depois a gente publicou textos com os resultados gerais dos ingressantes, né?
Os números sobre ingresso, depois textos sobre desempenho, evasão e essas outras dimensões.
E assim a gente conseguiu dar um dinamismo para o consórcio, que sempre estava produzindo pequenos textos sobre esse assunto.
E outra vantagem desses textos é justamente o fato deles serem pequenos, né?
Ou seja, eram textos que abordavam e respondiam perguntas muito específicas.
Em que a gente ouvia muito, né?
Ou seja, em que momento tal universidade atingiu os patamares desejados de entrada na política de cotas?
Como está o desempenho dos estudantes de uma determinada universidade?
Etcétera?
E aí depois disso, a gente entendeu que era o momento de reorganizar esses textos.
EE modificá Los pontualmente no livro que enseja esse podcast e que permitiu também que eu e a Márcia.
Fizéssemos uma espécie de prefácio, sintetizador desses achados, ou seja, que que permitiu que a gente pegasse esses achados organizados a partir das universidades e de grandes mais de dados, e dissesse, a partir desses dados, Oo que que a gente acha, digamos assim, que está acontecendo em termos de impactos das políticas de cotas?
Pessoa 1
Muito bacana.
Só para fechar, então, uma questão que eu acho que tem a ver com o que a gente está fazendo aqui agora, né, que é divulgação científica.
Quem tá nos ouvindo não sabe, mas o livro ele é os capítulos.
Eles são muito curtos, né?
Assim, pensados frente ao modelo tradicional de um capítulo de livro, eles são curtos, né?
É, eu queria que você comentasse isso, né?
Pegando aqui a onda do você teve uma interlocução, então, uma inserção ali no nexo, políticas públicas, então, para divulgar, traduzir esses dados, sintetizar.
EE também esse formato então que tá aí conjugando, porque continua sendo um livro acadêmico.
Não é um livro de divulgação, mas num outro formato.
Se você pudesse comentar pra gente aqui o que que você pensa, o que, né?
Porque talvez se vocês pensaram nesses capítulos menores.
Pessoa 2
Ótimo a gente é.
Desde o início o consórcio tinha esse duplo objetivo.
Analítico e político, digamos assim, né?
O objetivo analítico era produzir uma avaliação da política de cotas que fosse rigorosa, que fosse imparcial, que se baseasse em dados igualmente rigorosos, etcetera.
Mas tinham objetivos políticos no sentido de que esses dados só teriam significado se eles fossem efetivamente utilizados para repensar a política de cotas.
E é importante frisar que nesse processo a gente descobriu as funcionalidades da política de cotas, né?
Uma delas tem a ver com essa que eu já mencionei, né?
Da da interpretação de algumas universidades de que a cota deveria ser um pedido ou não teto.
Outra disfuncionalidade que apareceu, que eu acho particularmente interessante, tem a ver com os limites de renda da política de cotas.
Então, as cotas para baixa renda, na lei federal, elas utilizavam limite de um e meio salário mínimo.
Per capita, que parece algo ok, porque você pensa assim, Ah, o meu salário mínimo não é muito dinheiro.
Mas se você imagina uma família de 5 pessoas que ganha 10000 BRL de renda mensal, essa família se capacita para ser considerada de baixa renda.
Para além da questão de se ela é ou não baixa renda.
Fato é que havia uma sobreposição entre escola pública e baixa renda.
Ou seja, quase todo estudante de escola pública se encaixava na cota de baixa renda também.
Então isso gerava um problema de focalização.
E isso levou a uma mudança na lei.
Então, hoje a nova lei estabelece o limite de um salário mínimo.
Eu acho que eu tenho que fazer um parênteses aí, porque eu acho que um dos maiores ganhos do consórcio foi o fato de que a Márcia Lima se tornou secretária nacional de políticas de ação afirmativa, né?
Ou seja, a dimensão analítica do consórcio levou a uma dimensão política.
De tornar a massa secretária, algo que foi muito ruim para mim, porque eu fiquei sozinho na coordenação do consórcio durante um tempo, mas muito bom porque a massa pode levar os achados do nosso consórcio e de outros consórcios da bibliografia de modo geral, para fazer uma revisão bastante técnica e bastante adequada da lei de cotas em 2023.
Então, a gente tinha esse dilema, né?
Ou seja, como é que você faz algo analeticamente, rigoroso, que tenha validade acadêmica, mas que tenha também entrada no debate público?
Então o que a gente tentou fazer foi, como é que a gente fragmenta as nossas questões de pesquisa e as bases de dados que a gente tá utilizando em unidades analíticas?
Pequenininhas, né?
Então eu posso perguntar, como anda o desempenho dos cotistas no Brasil de modo geral?
Pra eu responder essa pergunta, eu tenho que integrar um Monte de base de dados.
Eu tenho que pensar em diferentes métricas de desempenho, eu tenho que pensar em diferentes métricas analíticas.
Tem que fazer um esforço que dificilmente um capítulo de 5 páginas vai conseguir dar conta.
Agora, se eu fragmentar essa pergunta EE questionar como anda o desempenho dos cotistas em comparação aos não cotistas na Universidade Federal de Minas Gerais?
Eu simplifico essa metodologia sem necessariamente ter que torná la menos rigorosa.
Então, o nosso esforço foi justamente tentar quebrar ou fragmentar as perguntas do consórcio em perguntas mais simples, que fossem passíveis de ser respondidas por textos menores, que teriam um efeito de divulgação científica, mas que teriam também um efeito de documentação para pesquisa acadêmica.
E depois disso, a gente pensou no prefácio do livro e em outros textos maiores que a gente publicou e vem publicando, que buscam sintetizar esses achados e compará Los, né?
E o próprio livro tem capítulos pequenos que tentam fazer avanços em relação a esses dados, mas que a partir daí podem se referir aos capítulos anteriores, né?
Então?
Eu particularmente, acho que a gente equacionou bem isso, mas não quero ser corporativista aqui nesse auto elogio.
Mas eu acho que a gente pensou um pouco desse modo, né?
Então, eu particularmente defendo que os textos dos capítulos do do livro, embora eu tenho aí 456 páginas, são capítulos que, inclusive, vem sendo super bem citados, porque documentam dados importantes e trazem análises importantes sobre aspectos.
Pontuais da política de cotas que, no cômput geral, permitem ao leitor e a leitora fazer uma análise um pouco mais ampla e elaborada de como a política de cotas funciona de modo geral.
Mas é, mas é isso, você captou bem?
Essa ideia de pensar em textos pequenos, em pequenos relatórios, que em conjunto dão uma visão mais ampla, foi uma ideia deliberada pra gente realizar esses 2 objetivos de produzir análise que fosse academicamente relevante, mas que tivesse também efeitos políticos, né?
Pessoa 1
Muito bacana.
Bom, Luis obrigadíssimo pelo teu tempo, pelas suas respostas.
Parabéns pelo livro.
Parabéns pra você e pra Márcia Lima também.
É só fazer mais um último jabá.
Que comprem.
Leiam o impacto das cotas. 2 décadas de ação afirmativa no ensino superior brasileiro.
É isso?
Obrigado.
Pessoa 2
Um abraço, valeu?
Obrigado, Zé.
Pessoa 1
Bom, obrigado por terem ouvido esse episódio.
Todas as referências mencionadas ao longo da conversa com o Luiz vamos estar disponíveis na descrição e, além disso, a gente disponibiliza também para garantir maior Acessibilidade.
A transcrição da entrevista.
Esse episódio foi apresentado e produzido por mim, Zé soáco, pela Carol Parreiras.
A edição é de Irene do Planalto, que min.
Da consultoria de podcast caminho do som, a área de divulgação e de autoria de Israel, temete a vinheta que a área finaliza episódio é de joshuaweiges disponível para uso livre no Pixel.
Vocês encontram mais informação sobre a unpox no nosso site e no Instagram.
O podcast unpox pública é um produto de divulgação científica da unpox.
Até a próxima e continuem conosco.
Podcast Summary
Key Points:
O livro "O Impacto das Cotas
O consórcio foi criado entre 2021-2022 para avaliar a Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) diante da ameaça do governo Bolsonaro de cancelá-la por falta de avaliação oficial.
A pesquisa enfrentou dificuldades de acesso a dados, agravadas pela LGPD e cortes de financiamento público, contando com apoio privado.
O consórcio reuniu 8 grupos de pesquisa de 7 universidades (UERJ, UnB, UFBA, UFSC, Unicamp, UFRJ, UFMG), representando diferentes modelos de ação afirmativa.
Principais achados
Cotistas e não cotistas têm desempenho acadêmico similar, com diferenças mínimas de entrada que desaparecem durante os cursos, e taxas de evasão equivalentes.
O consórcio publicou resultados no "Index Cotas" do Nexo Políticas Públicas, com textos sobre ingresso, desempenho e evasão, além de linhas do tempo de cada universidade.
Summary:
O livro "O Impacto das Cotas" é fruto do Consórcio de Ações Afirmativas, criado entre 2021 e 2022 para avaliar a Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) diante da ameaça do governo Bolsonaro de cancelá-la por falta de avaliação oficial. O consórcio, coordenado por Luiz Augusto Campos e Márcia Lima, reuniu 40 pesquisadores de 8 grupos de 7 universidades (UERJ, UnB, UFBA, UFSC, Unicamp, UFRJ, UFMG), representando diferentes modelos de ação afirmativa. A pesquisa enfrentou obstáculos como cortes de financiamento público e dificuldade de acesso a dados devido à LGPD, sendo financiada por recursos privados.
Os principais achados revelam mudanças significativas: as matrículas de pretos, pardos e indígenas no ensino superior público subiram de 30% para 52% entre 2000 e 2023, enquanto a classe A (5% mais rico) perdeu espaço, caindo de 50% para 20-30% das vagas. A análise de desempenho mostra que cotistas e não cotistas têm resultados acadêmicos similares, com diferenças mínimas de entrada que desaparecem durante os cursos, e taxas de evasão equivalentes. Casos específicos, como a UFBA (que inicialmente tratou a cota como teto) e a Unicamp (que adotou bônus antes das cotas), ilustram como diferentes modelos afetam a inclusão. O consórcio também publicou resultados no "Index Cotas" do Nexo Políticas Públicas, com textos sobre ingresso, desempenho e evasão, visando informar o debate público e subsidiar a renovação da política de cotas.
FAQs
O consórcio recorreu a financiadores privados interessados em contribuir para a avaliação das cotas, já que os financiamentos públicos, como o Capes Diversidade, foram suspensos pelo governo.
Cada universidade foi selecionada por representar uma dimensão diferente das políticas de cotas: a UFBA por estar no estado mais negro do Brasil, e a Unicamp por usar bônus em vez de cotas, permitindo comparar modelos distintos.
A UFBA interpretou a cota como teto, não como piso, mantendo cotistas com notas altas na cota em vez de deslocá-los para ampla concorrência. Isso reduziu a presença de negros em cursos já diversos, até a correção posterior.
O bônus fixo de pontos beneficiava mais cursos menos concorridos, como pedagogia, mas tinha pouco efeito em cursos muito concorridos como medicina, onde a diferença de notas é maior. Já as cotas garantiram inclusão uniforme.
Não, essa pergunta ainda não tem resposta. Os dados existem, mas não são acessíveis, especialmente para universidades estaduais com sistemas próprios, e o governo Bolsonaro dificultou o acesso a informações.
Ela criou um compromisso de cada equipe produzir textos sobre ingresso, desempenho e evasão de suas universidades, dando dinamismo ao consórcio e garantindo divulgação constante dos resultados.
Chat with AI
Loading...
Pro features
Go deeper with this episode
Unlock creator-grade tools that turn any transcript into show notes and subtitle files.