O futebol é apresentado como um microcosmo da sociedade brasileira, onde misoginia, racismo e homofobia se manifestam de forma intensificada. A entrevistada argumenta que o esporte, historicamente, excluiu mulheres e negros, refletindo um legado colonial e patriarcal. Ela destaca que a misoginia é a base da homofobia no futebol, e a impunidade diante desses comportamentos envia uma mensagem de que tais questões são irrelevantes. Além disso, critica a influência de treinadores europeus, como Ancelotti, que impõem um estilo defensivo e sufocam a criatividade do futebol brasileiro, enraizado na rua e na comunidade. O futebol, porém, também oferece lições de coletividade e resistência, sendo um espaço onde homens podem expressar emoções reprimidas, mas que se torna hostil quando mulheres invadem esse reduto. Ídolos como Pelé e Maradona carregam contradições, e as mulheres precisam negociar essas ambiguidades. Por fim, o feminismo é apresentado como uma força libertadora capaz de salvar o futebol, rompendo hierarquias e libertando os homens do machismo, que os aprisiona e mata diariamente. A entrevistada elogia Leila Pereira como uma figura que, apesar das contradições, usa seu poder para promover mudanças feministas no esporte.
O Futebol como Microcosmo da Sociedade Brasileira
A misoginia é a mãe da homofobia em todas as circunstâncias.
Quando a gente fala de futebol, quando a gente vê isso acontecer e não ser punido, o que Oo as pessoas que estão no poder estão dizendo é, isso não importa, gente, vamos só jogar bola, deixa de frescura.
Nós do Brasil oligárquico a gente, é um erro.
Esse Brasil oligárquico é um erro.
Quando o cara ou a menina chega lá, isso precisa ser esvaziado, porque a ideia de que olha aqui uma pessoa negra nesse espaço de poder é só as outras pessoas se esforçarem.
Não seria a responsabilidade do Vini lutar contra o racismo?
Mesmo a responsabilidade seria das pessoas brancas.
Pessoa 2
Siri, seja muito bem-vinda, prazer enorme te ter aqui.
Pessoa 1
É um prazer estar aqui para falar de futebol sempre um prazer.
Obrigada pelo convite.
Pessoa 2
Bora falar de futebol?
A gente sempre começa me com uma pergunta chave assim, e eu queria te perguntar se o futebol ele é um reflexo da sociedade brasileira.
Pessoa 1
É exatamente, é exatamente isso.
Assim, Oo futebol é um microcosmo da sociedade brasileira.
Tudo que a gente vê de bom e de ruim na sociedade, a gente vê com mais força no futebol, as coisas boas e as coisas ruins.
Então eu acho essa analogia perfeita.
Pessoa 2
Então dá para assumir que o futebol odeia as mulheres?
Pessoa 1
Sim, sim, sem dúvida nenhuma.
O futebol detesta as mulheres.
É EE todo.
Toda mulher que trabalha com futebol, ela é, é, é.
Faz isso por pura teimosia assim.
Porque todos os dias OOO jogo organizado da maneira Como Ele É organizado, convida a gente a se retirar e a gente diz não, muitos de nós acabam saindo, sabe?
Pra cada pra cada uma que fica tem dezenas que não ficaram.
É então é isso, é um, é um.
É um cenário de pura teimosia, resistência e desobediência, seguir.
Pessoa 2
E tem também o racismo, né, que vem junto com isso.
Acho que tem.
Mas isso vem desde o início, né?
OOO futebol, de uma certa forma, sempre excluiu a mulher, sempre excluiu o negro, principalmente no início.
Hoje essa conta fecha, está mais perto de algum lugar.
Pessoa 1
É, o Brasil sempre excluiu pessoas negras e mulheres, né?
A gente está falando de um país que foi invadido em 1500, ocupado.
Teve um genocídio Na Na sequência, né?
De populações negras e populações é originárias.
A gente, durante 4 séculos sequestrou pessoas do continente africano pra escravizar e enriquecer a Europa.
E a gente trouxe também a é esse colonialismo, trouxe também o gênero, né?
Essa separação, homem manda, mulher obedece.
Isso chegou também em 1500, então a gente nunca deixou de ser assim.
Quando o futebol no final dos anos 1800 chega ao Brasil, ele encontra esse país uhum.
E é dentro desse cenário que ele cresce, com toda a beleza da resistência que já estava colocado em circulação.
E com toda essa crueldade, perversidade e violência?
A Essência do Futebol Brasileiro Contra Modelos Europeus
É, de uma certa forma, parece um esporte amistoso, né?
Quando a gente olha com mais distância, né?
Mas quando a gente chega perto essa lupa e bota uma lupa, isso meio que se esvai.
Como que você percebe isso mais de perto?
Pessoa 1
É isso.
Assim, ver de perto é, é muito, é muito.
Você acaba com o romance com a paixão, né?
Se você não tiver.
Muito cuidado, tudo fica destruído, mas assim, o jogo em si, ele é muito bonito, né?
Tudo que envolve esse encontro de pessoas com uma bola, 2 times e esse jogo de relacionamento.
Mesmo assim, o que que é o futebol?
É você colocar esses afetos em circulação e você está dentro de um time.
Aquelas pessoas estão com você.
E vocês vão levar uma bola até o outro lado do campo juntos, tem gente que vai fazer isso sem tocar na bola, então você cria espaços, você tabela, você triangula, é tudo um jogo de relacionamento, é um é, é você conversar com alguém sem usar palavras.
É muito poderoso jogar bola, é uma coisa, deveria ser um direito humano, meninos e meninas, sabe porque assim hoje eu não jogo mais porque eu tenho meu joelho, fui embora, mas eu joguei muitos anos, muitos anos da minha vida.
E mas ainda eu ainda fecho o olho e me imagino jogando.
É eu sonho que eu tô jogando.
É das coisas mais bonitas e potentes que alguém pode fazer na vida, sabe?
Então o jogo em si, ele também é resistência.
Ele resiste, ele, ele não se deixa matar e eu acho que ele não vai se deixar matar, mas estão tentando.
Pessoa 2
Acho que o futebol ele acaba sendo um lugar aonde meninos, principalmente os meninos, né?
Tem um primeiro contato com essa coisa do coletivo, né?
Você acha que é esse contato?
Ele aprisiona mais.
Ou ou ele também provoca algum nível de libertação aí nessa relação?
Pessoa 1
É, ele pode fazer as 2 coisas, ele pode aprisionar.
Se você quiser olhar para o futebol e entender ele como o núcleo disciplinador autoritário, então o que que a gente tem hoje, por exemplo, treinadores que enxergam o campo como um jogo de posição.
Então eles dizem, você, número 2, não vai sair dessa zona do campo.
Você, número 3, não vai sair dessa zona do campo e vocês vão passar a bola assim e vão passar a bola assado, que é um futebol tipicamente europeu.
Isso isso é matar o jogo.
O futebol brasileiro é o futebol de rua, é um futebol sem regras, é um futebol dos 2 chinelos para fazer o gol.
É um futebol que é jogado na Terra da favela, na Areia da praia.
Na Várzea, né?
Por isso, uma Várzea.
Esse é um futebol de comunidade.
Esse é um futebol que você não precisa falar para entender o que que vai acontecer.
Então é recuperar esse futebol, é recuperar o que é o Brasil.
Mas a gente não tem isso hoje mais.
Pessoa 2
Você acha que o Lancellotti está fazendo um trabalho bom nesse sentido?
Pessoa 1
Não, não, não acho.
Eu acho que a gente teve uma primeira experiência com treinadora.
É estrangeira, a pia.
É uma sueca que veio treinar a seleção feminina e ela era, quando ela chegou, AA maior treinadora do mundo.
Ela chegou com muito status para treinar a seleção feminina.
Foi uma tragédia, uma tragédia, porque ela tentou colocar essa, essa uma cultura que não é a nossa em campo.
Ela não fez bem ao futebol feminino brasileiro.
Eu não vou nem dizer que ela não fez bem porque ela trouxe um tipo de organização que a gente ainda não tinha no feminino.
É o Ancelotti, ele chega com o mesmo status, maior treinador de clubes do mundo, sim, grande campeão, vamos trazer.
Mas ele vem de uma escola, a escola italiana.
Ela é uma escola defensiva, uhum, ela não é a nossa.
Então ele, numa das entrevistas agora ele falou assim, o importante é a gente não levar gol.
Ele matou o futebol do Brasil, entendeu?
Pessoa 2
Não é Brasil?
Pessoa 1
Não é Brasil?
Exatamente.
O importante é fazer mais gols do que levar total.
É isso, né?
Então, não acho que ele está fazendo um bom trabalho.
É claro que se ele for.
Jogando assim, campeão mundial, todo mundo vai falar, Oh meu Deus, mas não, eu não vou mudar o meu discurso, mesmo que ele seja campeão.
Pessoa 2
Vai dizer que era isso que faltava?
Pessoa 1
É exato, exatamente.
Ah, está vendo?
Agora, trouxemos um homem Sério, um homem que usa terno, gravata, colete, debaixo de um verão de 40°, que eu não acho nem elegante, mas, enfim, ele está lá.
Um colete?
Exato, exatamente, mas é isso.
Assim, tem muita gente que gosta muito dele.
Pessoa 2
Ô Mili.
O Futebol como Sonho Coletivo Apesar da Homofobia
O campo normalmente é um espaço bem homofóbico.
Né, é isso não parece que preocupa muito os anunciantes, a torcida, os dirigentes, por quê?
Pessoa 1
Porque essas são as regras do patriarcado.
Assim, não, isso não é importante.
Isso não pra, pra, pra pra quem está no poder.
É quando a gente fala de homofobia, a gente tá falando de gênero também.
Então, por exemplo, uma coisa muito comum é em jogo de homens, uma torcida chamar a outra torcida de elas ou o time delas, você colocar no feminino pra tentar dizer que o feminino é mais fraco, não é?
É homofobia, claro, mas é também misoginia, né?
Então tem as 2.
A misoginia é a mãe da homofobia em todas as circunstâncias, quando a gente fala de futebol.
Então, quando a gente vê isso acontecer e não ser punido, assim como o racismo, né, é a mesma coisa.
O que Oo as pessoas que estão no poder estão dizendo é, isso não importa, gente.
Vamos só jogar bola.
Deixa de frescura.
Pessoa 2
Eu IA te trazer um ponto que é, Oo futebol também é um sonho, né?
Ele acaba sendo, de alguma forma, um ponto de partida para milhares de garotos e garotas que ao meio de uma vida melhor.
O que ele tem de mais inclusivo nesse sentido?
Pessoa 1
Eu acho que ele tem essa, essa.
AAA sensação, a lição de que a vida é coletiva, a vida é comunitária.
A gente não vai fazer nada sozinho.
Tudo o que a gente fizer é porque a gente tem pessoas do nosso lado.
Então, mesmo que tenha alguém muito bom como Messi.
Que vai e dribla e chuta de fora e faz ele.
Ele não conseguiria fazer isso se o goleiro antes não tivesse feito uma defesa impossível.
Se alguém não tivesse correndo do lado dele para levar a marcação, se alguém não tivesse passado a bola para ele, não.
Não tem nada que a gente faça sozinho.
Então eu acho que o futebol ele é mais bonito quando ele dá essa ideia de que a gente tá junto nessa aventura que é existir.
Dentro de um corpo, nesse planeta, entendeu?
Futebol faz isso.
Futebol dá sentido à vida.
Se a gente estiver prestando atenção, ele dá sentido à vida.
A Complexidade dos Ídolos do Futebol e Suas Contradições
Mas ele também pode esvaziar.
É se ele for encarado só como um negócio por.
Pessoa 2
Exemplo, qual foi a seleção brasileira que mais te encantou?
Pessoa 1
Foi em 1970, assim.
É incrível.
Mas eu lembro, eu tinha um ano e pouco, 2 anos EE, meu pai me chamou.
É pra ver o jogo com ele.
Eu lembro assim, flashes, meu pai é um quarto, a gente morava no Rio, é um quarto.
Eu, minha mãe, meu pai e a minha mãe na máquina de costura fazendo uma Bandeira, porque a gente IA descer pra ir pra rua, era general Glicério.
Eu lembro da rua lotada, eu no eu aqui, no meu é é e da festa então.
E depois assim, eu revi esse esses jogos muitas vezes com meu pai EOO.
Quarto gol do Brasil contra a Itália, que é um Oo gol mais coletivo da história do futebol.
Ele é o gol mais bonito que já foi feito, entendeu?
Então assim, essa seleção eu tenho muito carinho Por Ela, sabe?
E o rivelino é sempre foi Oo meu ídolo no futebol, sim, porque ele jogou no Corinthians, depois ele foi para o Fluminense.
São os meus 2 times, enfim.
Então tem muita coisa ali nessa seleção.
Pessoa 2
Teve ídolos desse momento que depois te decepcionaram.
Pessoa 1
É que eu não fui investigar muito nenhum deles, porque teria é só a gente não não querer saber da vida pessoal desses caras.
Que a gente até fica com eles de ídolo ainda.
Porque um dos meus ídolos era o Ricardo rocha, que acabou de ser preso, sim, porque não pagou pensão alimentícia de 2000 BRL, foi preso, foi solto, embarcou, tá lá nos Estados Unidos e acabou de postar uma foto dele bebendo um vinho.
Então eu fico imaginando a ex mulher, sabe, é que teve que colocar ele na justiça por 2000 BRL vendo a foto dele bebendo um vinho que deve custar mais ou menos isso.
Pessoa 2
Como que você enxerga a figura do Pelé, que foi um grande ídolo do Brasil?
Pessoa 1
Contradições, né?
Assim eu acho que é foi o maior jogador que já existiu.
Acho que a gente pode até debater se foi o melhor, mas sem dúvida nenhuma ele é o maior.
É.
Tem questões extracampo a respeito de uma filha que ele não reconheceu, então.
Eu acho que a gente ser mulher e gostar de futebol é você ter que acomodar essas contradições dentro.
Você tem que achar um espaço pra acomodar essas contradições, entender o que você vai descartar e o que você vai negociar.
Por exemplo, Maradona, Maradona, Maradona foi outro.
Meu ídolo máximo assim e um cara com consciência de classe total.
Um cara com consciência é do que é uma democracia.
Do que é o capitalismo?
Do que é?
Ou são os países periféricos, ao mesmo tempo acusado também de práticas de violência de gênero?
Então, e?
Pessoa 2
Outros desafios?
Pessoa 1
Né?
Que que a gente faz com isso?
Outro dia eu li um texto de uma jornalista Argentina feminista, maravilhoso, e ela fala assim, gente, me deixem amar o Maradona, pelo menos não me tirem isso.
Eu vou acomodar em mim.
Essas contradições então eu acho que se a mulher gostar de fujil é você tem que ficar acomodando essas contradições todos os dias.
Pessoa 2
Você acha que o Sócrates estava um pouco mais próximo dessa perspetiva do Maradona que você trouxe?
Pessoa 1
Acho, acho, sem dúvida, assim também.
Não sei muito da vida pessoal dele e vou procurar não saber.
Mas eu acho que ele foi.
O prefeito de Nova Iorque acabou de citar ele, né?
Assim, eu acho que ele foi completamente fora da curva.
É em questões republicanas, sabe?
Entendendo que o jogo acontece dentro e fora do campo.
O jogo não acontece só dentro de campo, né?
Então ele, o casão, o Vladimir, eu acho que foram caras que fizeram uma história que mostra que o importante nesse jogo não é ganhar, tem isso também, sabe?
O jogo hoje é assim, se você não ganhar, você não vale nada, é que é uma que é uma coisa também muito do capitalismo, tem até um nome pra quem não ganha, loser, né?
E a vida e o jogo não são sobre ganhar, é sobre a gente se relacionar.
Então eu acho que sim.
A Expressão Emocional Masculina e a Misoginia no Futebol
Que.
Pessoa 1
É uma coisa também que é exigida muito da masculinidade, né?
Que é essa performance constante, desempenho, eficiência, não pode abaixar a cabeça, tem que aguentar tudo, não pode recuar, não pode dizer não aguento mais, então exige se isso, né?
Dos homens na sociedade e isso é replicado no jogo.
Pessoa 2
Tem 2 coisas que eu queria te trazer assim, que conversa com que a gente tá falando.
Mas vou começar por essa da emoção masculina, porque no estádio, né?
Os homens se abraçam, choram juntos.
Que acontece nesse Reduto aonde é possível ou talvez de uma certa forma, parece que é permitido.
É demonstrar carinho junto com outro homem.
Pessoa 1
É, eu acho que essa masculinidade encontrou no futebol uma maneira de extravasar sentimentos que foi, é, foi foram ensinados que eram proibidos pra todos os meninos, né?
Mas dentro de um estádio ou vendo um jogo com teu melhor amigo, com homens que você ama, você pode dizer, cara, eu te amo.
Abraçar, beijar, se mostrar vulnerável, dizer que que que que derrota horrorosa.
Eu não estou aguentando.
Essa derrota está doendo.
Quando as mulheres entram, é no jogo para trabalhar.
A gente vê isso e é isso que dói.
Eles.
Eles construíram esse Reduto para eles, onde eles podiam extravasar essa masculinidade aprisionada, né?
Essa masculinidade tão perversa com os homens.
E aí a gente entrou eu estar vendo isso e eles não estão gostando.
Pessoa 2
Você acha que talvez saia daí um pouco desse ódio com as com as mulheres, porque parece que você está invadindo meu Clubinho?
Pessoa 1
É, eu acho que é um efeito do ódio, né?
O ódio é anterior a isso, assim.
Pessoa 2
Maior que isso também.
Pessoa 1
Né?
É porque assim, quando meninos são socializados, o mais importante, quando o menino está crescendo, que dizem para ele é, não seja igual uma menininha, né?
Uhum?
Então meninos são socializados sabendo que ser menina.
É menor, é desprezível, é ridículo, é vergonhoso.
Chuta que nem homem, não chora que nem sua irmãzinha.
Isso é muito forte na construção de um menino.
Quando esse menino vira homem, o que que você vai fazer com isso?
Que te ensinaram que era tão menor, tão desprezível, sabe?
Tão ridículo, tão vergonhoso.
Você vai matar, silenciar, abusar.
Isso.
Você vai fazer o que você quiser com isso, porque isso te ensinaram, não é nada.
Então, às vezes eu vejo homens condenados por crimes absurdos contra mulheres e eles falam assim, mas eu não fiz nada, eles não estão mentindo.
Eles foram ensinados que a gente não é nada.
Então quando isso chega no futebol, isso tá se potencializa, porque ali tá um.
Clube de homens fechado é quase uma sociedade secreta.
É, sabe?
Aqui na sociedade aberta tem que se misturar um pouco, fingir algumas coisas até para vocês poderem ser.
Pessoa 2
Tem um roteiro aceito, né?
Tem.
Pessoa 1
Um roteiro aceito.
Mas também tem a necessidade de vocês serem cuidados, sim.
Então você precisa meio que tratar bem aquela mulher que vai te dar café da manhã, almoço de jantar, arrumar tua cama, é isso?
Agora, lá dentro, só com homem, você não precisa fingir mais nada, entendeu?
Aí quando a mulher chega, aí é demais.
Como o Feminismo Pode Libertar o Futebol e os Homens
AI bane e tudo EEA.
Leila Pereira quando ela entra nessa dinâmica que é muito legal de ver isso acontecer, né?
É?
Pessoa 1
É maravilhoso assim, porque tem, eu tenho.
Eu tenho muitos problemas com a Leila porque ela é uma banqueira e eu me identifico como comunista uhum.
Então, meu primeiro encontro com a Leila, eu sentei numa mesa na frente dela.
E eu falei, Leila, eu sou comunista e você é uma banqueira.
A única coisa que nos une nessa vida é o feminismo.
Então porque você eu falei tudo isso para ela, ela ficou ouvindo você na teu castelo, sabe exatamente o que eu passo no meu chão de fábrica?
Você sabe o que é ser mulher no meio de homens dentro do futebol, você sabe o que é ser mulher dentro dessa sociedade, e eu sei o que é ser também.
Então isso nos une e isso é muito mais forte.
Do que?
Qualquer outra coisa.
E ela concordou assim, ela é, ela É Ela.
A curva de de aprendizagem dela é uma coisa absurdamente alta.
E ela, por ser uma banqueira, por ter tanto dinheiro assim, ela ela pisa forte nesse mundo.
Então ela é capaz de fazer coisas que a gente demoraria muito para fazer.
E eu acho que ela está fazendo, sabe?
Pelo pelas mulheres no futebol.
Então eu tenho uma profunda admiração Por Ela, sabendo que também carrega contradições.
Pessoa 2
É isso é poderoso, né?
Porque ela talvez use um elemento masculino que é essa coisa do poder financeiro, né?
Mas.
Traz junto com ela o feminismo, que é super importante.
Pessoa 1
Exatamente.
Ela é uma infiltrada, então?
E ela se entendeu como?
Porque ela ela não tinha se entendido como infiltrada.
Foi só quando ela chega a presidência do Palmeiras que ela entende que ela também não é bem-vinda.
Então ela se vê como infiltrada e aí muda tudo dentro dela.
Pessoa 2
É, começa a ter um novo comportamento que que você entende que o feminismo?
Pode ensinar para o futebol?
Pessoa 1
O feminismo pode ensinar o futebol a sobreviver, porque se o futebol continuar indo para onde ele está indo, ele acaba.
Se o futebol se enxergar apenas como um negócio, ele acaba.
Se o futebol se enxergar apenas como é, só só só merecem louvor aqueles que vencerem.
Ele acaba.
Se o futebol continuar sendo elitizado e embranquecido.
Porque nesse Brasil?
Você, encarecer, é embranquecer que a gente, a gente nunca resolveu a questão de ter passado 400 anos de escravizando pessoas.
A gente nunca deu a essas pessoas escravizadas uma chance digna na sociedade.
Você mata ele.
Então, quando o feminismo chega, o feminismo diz, a gente precisa romper com essas estruturas de poder.
A gente precisa romper com essas hierarquias, né?
Não existe 11 cor de pele superior à outra, não existe um gênero superior ao outro, não existe uma sexualidade superior à outra.
O feminismo, ele não é uma luta de mulheres contra homens.
Pessoa 2
Totalmente.
Pessoa 1
Não, de maneira nenhuma, muito pelo contrário.
Assim, às vezes um cara pergunta assim, que que eu posso fazer para te ajudar?
E eu respondo, meu querido, você não entendeu essa, essa pergunta me disse que você não entendeu.
Onde a gente está?
Somos nós que estamos te ajudando.
O feminismo vai libertar você, porque o machismo te aprisiona totalmente.
O machismo mata homens todos os dias.
É?
Homens morrem porque ele eles não recorrem a médicos.
Homens morrem porque eles não pedem ajuda.
Homens morrem porque como eles não podem demonstrar sentimentos, eles recorrem a drogas.
Homens morrem porque eles não sabem.
Não ser violentos.
Então eles se metem em brigas em coisas violentas.
Eles andam com o carro como se o carro fosse uma arma para mostrar o que é ser homem.
Essa masculinidade que precisa se renovar todo dia através da violência.
Então, o machismo, o machismo é uma de aula para os homens, sabe?
Pessoa 2
E não tem referência, né?
Pessoa 1
As referências são violentas, né?
As referências.
Pessoa 2
Levam para o machismo?
Pessoa 1
É exato.
Assim, as referências são muito violentas, né?
Então?
Oo feminismo vai salvar todo mundo, né?
EEE também o planeta.
Porque é através dessa masculinidade tão violenta, tão extrativista, tão exploradora, que a gente segue derrubando floresta em nome de um lucro muito rápido.
É, a gente segue explorando OOOA Terra para tirar o petróleo que.
Que é finito, né?
Esses recursos são finitos.
Isso tudo é exploração.
Isso tudo é uma é, é tudo isso reúne características muito masculinas, sim.
Então o feminismo chega para dizer, vamos mudar a rota, sabe?
O Impacto Devastador da Desigualdade e das Apostas no Futebol
A gente estava falando há pouco sobre a história do ídolo, né?
Que acontece nesse lugar.
E eu acho que tem uma conversa muito sobre separar a obra e autor, né?
Que que que está muito presente no dia a dia.
Mas qual que é a importância desses, né?
Jovens que se tornam ídolos?
E que às vezes se manifestam ou compartilham opiniões que não necessariamente condizem com esse lugar de de evolução e talvez até reforce essas questões masculinas que a gente tá falando.
Como é que isso fica nesse lugar de responsabilidade?
Pessoa 1
É problemático porque a gente vê, por exemplo, 11 emissora nova como a Casé TV, né?
A Casé TV depois dessa copa, nada jamais será como antes.
A Casé TV tá revolucionando a maneira como a gente conta histórias.
Como a gente narra o jogo, como a gente é, fala uns com os outros.
Assim ela ela chega oferecendo autenticidade, originalidade.
Eles fazem isso muito bem.
Ao mesmo tempo, o núcleo do machismo está lá, intacto.
Absolutamente intacto.
Então eu fico pensando assim, como seria forte se eles usassem toda essa capacidade de comunicar com originalidade e autenticidade, para dizer assim?
Por exemplo, olhando para a câmera, você que não pagou pensão alimentícia, você é um merda, você é um bosta, eles falam assim, essa é a linguagem deles, então peço desculpas, tá?
É você que não pagou alimentícia?
Pensão alimentícia você é um nada, você não vale, mudaria o jogo, isso muda o jogo.
Mas eles não só não fazem isso, como eles contratam quem não paga pensão alimentícia e eles celebram homens acusados de algumas violências de.
Pessoa 2
Valorizam, né?
De uma certa.
Pessoa 1
Forma sim, então mudou tudo, menos o magismo.
Pessoa 2
É eu.
Eu queria te perguntar um pouco sobre essa relação financeira também que acontece hoje, porque é o dinheiro compra os melhores, né?
De uma certa forma, e aí pensando um pouco na estrutura dos times, você acha que existe um desequilíbrio muito grande hoje entre as equipes?
Pessoa 1
Sim, e a tendência é que haja ainda mais, porque assim, do mesmo jeito que a gente falou no começo que o futebol é um reflexo da sociedade racista, misógina que a gente tem, ele também é um reflexo da sociedade desigual que a gente tem.
Então, hoje a gente tem no mundo 6 homens que tem uma Riqueza maior do que metade da população mundial.
A gente agora acabou de saber que o Elon Musk.
É um trilionário, né?
EE, ele acumula uma Riqueza maior do que 40% da população.
É um número absurdo bizarro nesses termos.
O futebol tá indo por esse caminho, então você tá vendo clubes te destacarem, outros irem ficando para trás.
Quando a gente fala assim, Ah, jogador de futebol é uma carreira de sucesso.
Mais da metade dos jogadores de futebol ganham um salário mínimo.
É 1% que consegue ganhar esses salários estratosféricos, sabe?
Pessoa 2
Chega nesse lugar.
Pessoa 1
Né?
É, acho que 60% ganha até 5000 BRL assim.
É isso.
Essa é a classe futebolística do Brasil.
É uma classe precarizada.
E aí a gente ainda ainda vende a ilusão de que você ser jogadora ou jogadora de futebol, você você pode usar isso para acender.
A classe social que ó, absolutamente não é verdade.
Os números negam isso, né?
Mas quando você diz isso, você forma pessoas e com 19 anos elas vão ver que não deu.
E elas vão fazer o quê?
Porque não tem uma base, elas não estudaram, elas largaram tudo para tentar.
A família investiu tudo para que aquele menino, aquela menina, conseguisse.
E se não consegue, para cada Estevão, para cada entrick, tem 200000 que não.
Pessoa 2
Consegue e tem também o dinheiro das bets, né?
Que tá acontecendo, que é, enfim, gigantesco.
Qual que é o impacto disso para a sociedade e pro próprio esporte?
Pessoa 1
É devastador, é a chegada das bets, é trouxe ao futebol um ambiente de pura devastação.
Eu tava vendo ontem que de todas as pessoas que recorrem ao SUS.
Pra por problemas de Beth, 43% são mulheres e elas não chegam lá necessariamente porque elas estão com problema de estarem apostando.
Elas chegam lá pra dizer, eu tô com angústia e ansiedade porque meu marido apostou o dinheiro da escola, porque meu marido apostou o dinheiro da comida.
É porque eu tô aqui, porque meu marido se tornou um homem muito violento, porque ele deve.
Porque eles se vestiam em jogo.
E agora ele pega empréstimo, porque o empréstimo agora existe uma financeirização da pobreza.
Qualquer um pode pegar um empréstimo de 500 BRL 1000, BRL assim nesses bancos populares, como a Leila Pereira tem.
E aí você vira uma bola de neve, você não consegue pagar.
Tem gente pegando empréstimo para jogar.
O cenário é de devastação, se nada for feito, é um cenário.
É absolutamente preocupante.
Pessoa 2
Isso reflete um pouco do nosso momento de sociedade, né?
Porque se eu não tô enganado, acho que na Europa eles organizaram isso melhor e baniram até das camisetas, né?
Esse Patrocínio das.
Pessoa 1
Bets, né?
Eu acho que é uma ilusão a gente achar que as bets vão embora, mas a gente teria que encontrar uma maneira de primeiro proibir propaganda.
Assim, você tem hoje não só as bets, apoiando quase todos os clubes da série a do Brasil.
Mas você tem em todas as partidas, Beth anunciando e na casa e TV, por exemplo, quando, quando acaba o anúncio e volta para o estúdio, narradores e comentaristas chamam para apostar.
Então você imagina aquele cara que fala com você numa linguagem tão coloquial, tão, tão amigão, né, meu amigão?
Esse cara aí fala que nem eu falando assim, aposta aí com ainda fala com responsabilidade, mas assim falar isso não sabe, não quer dizer nada, então.
Eu acho muito, muito, muito cruel, muito perverso.
A Falsa Meritocracia e os Padrões Sociais no Esporte
Acho que tem outro tema também relacionado a essa dinâmica, que é um pouco dessas pautas de Extrema direita, né, que de uma, de certa forma, às vezes acaba também sendo a opinião daquele jogador.
E aí ele traz isso usando toda a força, né, que ele tem como ídolo EE validando e coisas que às vezes ele nem tem condição de falar sobre como que você está chegando para os jovens.
Pessoa 1
Então o que eu acho assim é.
A gente não tem consciência de classe, os jogadores não se entendem como classe, porque você vê a história de todos os caras que se deram muito bem, Gabigol, Vini, Junior.
É uma história de precarização, de uma vida absolutamente dura.
Pai quando tem pai, né?
Mas mãe trabalhando muito é menino, tem tendo que andar a quilômetros para ir jogar bola, às vezes faltando em treino, porque não tinha o que comer.
A história do Romário, por exemplo, é essa.
Quando eles conseguem, o que esse sistema econômico vende como ideia é meritocracia.
Você conseguiu porque você se esforçou.
Se todo mundo se esforçar, como você, todo mundo vai conseguir esse discurso.
Ele é muito poderoso, porque é bom eu acreditar que eu me esforcei, que eu sou muito boa no que eu faço, e então eu consegui, né?
Então você você fica sem a consciência de classe assim, é óbvio que eu, eu, por exemplo, falando de mim.
Eu tô aqui hoje porque eu sou eu nasci branca, num país racista.
As portas se abriram para mim, como não se abriram para muitas mulheres, talvez muito melhores do que eu, que não estão aqui hoje.
Então, quando o cara chega lá, a consciência de classe dele é esvaziada, esvaziada propositalmente, porque o discurso da meritocracia faz ele acreditar que foi ele os 200000 que ficaram pelo caminho.
Gente, isso não importa.
Aí aí vem a mídia.
E conta a história de quem conseguiu, não conta a história de quem ficou pelo caminho, porque aí passa também a ideia de que, gente, é só você se esforçar.
Pessoa 2
Romantiza um pouco, né?
Pessoa 1
Romantiza e passa a ideia de trabalhar mais, se esforça mais assim.
As pessoas mais esforçadas que eu conheço, elas são muito pobres e elas vão ser pobres para sempre.
Elas acordam às 4 da manhã, ficam 2 horas em transporte público, trabalham 10 horas na casa de alguém ou numa empresa, vão embora para casa e continuam.
Se for mulher, vai continuar trabalhando para um filho, para uma.
E as mais preguiçosas que eu conheço são obscenamente ricas.
Pessoa 2
Eu queria olhar isso um pouco pela perspectiva da das meninas que jogam.
Você acha que a trajetória delas vai ser diferente?
Você tem alguma história nesse contexto?
Pessoa 1
Eu acho que vai, porque elas têm essa noção de gênero, pelo menos, embora muitas delas talvez já estejam sendo esvaziadas.
A ideia de classe de que elas pertencem a uma classe.
Então, se você chega lá.
Você deveria resgatar a tua classe.
Elas têm a questão de gênero, porque o machismo é muito, segue sendo violento com elas.
Então eu acho que isso vai fazer com que elas sigam como grupo, sabe?
É lutando para que outras venham.
E acho que não é só no Brasil, não.
Aí eu acho que é uma.
É um cenário mundial do futebol feminino.
Elas se entendem como classe, como como gênero.
Pessoa 2
Você falou de classe, mas tem também a questão de raça, né?
Pessoa 1
Sim, mas isso também é esvaziado.
Hã?
Quando o cara ou a menina chega lá, isso precisa ser esvaziado, porque a ideia de que está vendo conseguiu.
Então, não, não tem assim, não temos.
Olha aqui, uma pessoa negra nesse espaço de poder, é só as outras pessoas se esforçarem.
E quando você esvazia nesses termos, é bom você poder se livrar da dor.
É bom você achar isso, sabe?
A gente não pode culpar as pessoas que chegaram e estão esvaziadas disso.
Quer dizer, o Vini não seria responsabilidade do Vini lutar contra o racismo?
Só ele sabe quanto custa isso.
Para ele, a responsabilidade de lutar contra o racismo seria das pessoas brancas, né?
Então a gente não pode cobrar das pessoas que são vitimadas.
A Leila, muita gente fala.
A Leila não vai se meter aqui.
Olha o machismo acontecendo ali na série BA Leila não vai falar nada, mas são os homens que tem que falar.
Não dá para cobrar isso da Leila, sabe?
Pessoa 2
Sim, e acho que você citou bem o Vini EEAAO meu, entendi.
Minha sensação é que ele se identifica como negro, né?
Pessoa 1
Sim, ele não perdeu isso.
Pessoa 2
Exato, e a gente já ouviu o Neymar, por exemplo, dizendo que ele não, se não se percebe nesse lugar.
Pessoa 1
Isso, mas isso também a gente precisa, a gente precisa.
Ter o cuidado de não culpar a pessoa negra, que não se vê como negra, porque é uma sociedade que diz que ser negro é menor, que ser mulher é menor.
Então se a gente fica repetindo isso, a pessoa acende, ela vai falar, então então eu não sou.
Então a gente não pode responsabilizar, a gente tem que responsabilizar a sociedade que produz esse tipo de perversidade, sabe?
Então tem amigas minhas que dizem, teve um dia que eu me vi negra.
Teve o dia que eu entendi que eu era uma mulher negra, sabe?
Então é isso.
A gente, a gente fica tentado a responsabilizar sempre a vítima sim, pelo pelo, pela ordem de poder que está vítimando ela.
Pessoa 2
É, tem um contexto que está gerando isso nela, né?
Pessoa 1
Exato, a gente AA sociedade produz pessoas assim.
Pessoa 2
É e até as namoradas que aí são todas brancas.
Pessoa 1
Porque?
Porque a sociedade é racista.
Então é, é é curioso isso das namoradas.
Eu estou soltando um vídeo sobre isso hoje, porque assim tem até um nome, celesposas agora.
Selesposas selesposas, é porque o que que o futebol faz com as mulheres, chama a mulher que vai ver o treino de Maria chuteira, né?
Então é uma mulher que quer achar o jogador para casar, vamos voltar que a gente é menino, tem história aí a gente é menininha, crescendo nesse mundo, o que que dizem para gente?
Você vai casar, a sua função é casar, você vai achar um cara que vai te sustentar, te proteger e é esse o seu destino na vida.
Então é óbvio que a mulher vai tentar encontrar esse cara.
Se você ver num treino homem jogando ali nas séries, é de acesso a série principal.
Você vê ali um cara que talvez possa ser representar essa figura para você.
Pessoa 2
Essa é minha âncora.
Pessoa 1
Essa vai ser a minha âncora, então a menina, ela está sendo incentivada a fazer isso.
E também a transformar OOO sapo em príncipe, o monstro em príncipe.
As fábulas ajudam AE ajudam a gente a entender que é uma função da mulher pegar um cara.
Que é supostamente um sapo ou alguém violento, e ela vai fazer ele virar o príncipe, então a mulher também absorve isso.
Pessoa 2
Mais uma responsabilidade.
Pessoa 1
Mais uma responsabilidade aí para os caras que estão lá.
O que que é ensinado para eles?
Você vai encontrar uma mulher que vai cuidar de você, mas precisa estar dentro de um padrão de beleza.
O padrão de beleza é racista.
Hum, é racista.
Então dá um match muito perigoso ali.
Mas a gente não pode culpar ninguém, porque a gente está produzindo essas pessoas.
Chamar de Maria chuteira é, é, é pejorativo para destruir aquelas mulheres enquanto você produz elas para serem daquele jeito e os caras também.
Ah, então você só fica com mulher branca.
Mas.
Mas o padrão racista está sendo introjetado neles.
Pessoa 2
É, o sistema funciona, né?
A Transformação Social Através do Afeto e Letramento Feminista
O sistema perfeito o sistema funciona exatamente como.
Pessoa 2
Que a gente reverte isso de alguma, de de alguma forma.
Mas se você fosse recomeçar o futebol, o que que você manteria?
Pessoa 1
Eu obrigaria todo mundo a fazer um letramento feminista na base.
Já na base, menino de 11 anos.
Na escolinha, vai treinar chute, escanteio, drible.
Feminismo na mesma proporção.
Meninos e meninas, porque o machismo está na gente também.
Não adianta eu dizer que eu acho muito curioso quando amigos meus falam assim, mas eu não sou machista, Miriam, eu falo, mas você foi criado em Urano porque eu sou como você conta como você escapou todo mundo é.
Então a única maneira da gente reverter isso é na base, sabe?
Acho que tem pessoas que hoje já são bem mais velhas, que a gente tem que esperar morrer.
É isso, basicamente, porque elas não elas vão morrer racistas, machistas, misóginas e homofóbicas.
Pessoa 2
Qual o papel da CBF?
Nesse lugar?
Pessoa 1
Em reproduzir esse horror é total e absoluto.
Eu, eu eu acho que a CBF deveria tratar o feminismo é como fundamento, então obrigar as bases dos times e das das das seleções a fazerem esse letramento.
Só assim a gente muda, a gente não vai mudar é explicando prum menino ou pra uma menina já velhos assim, 1819.
O que é o mundo?
A gente tem que mudar, como alfabetizar, porque aí você cria uma outra sociedade.
Depois é muito difícil, assim como a gente muda, a gente muda por afeto.
Por exemplo, eu eu não sabia o que era ser transexual, né?
Eu não sabia como eram essas pessoas.
Aí eu passei a conviver com pessoas transexuais e elas me afetaram.
Então essa afecção é que transforma a gente.
Minha mãe era profundamente homofóbica.
Ela tá curada porque ela, pelo afeto, pela convivência.
Não foi um processo rápido, mas ela tá curada.
Então a gente só se transforma pela ficção, por a gente se afetar uns aos outros.
Pessoa 2
É normalmente pelo amor ou pela dor, né?
Pessoa 1
É exato, assim, mas.
Mas até o afeto assim.
Quando você coloca outros corpos em circulação, a gente vê outras formas de vida.
Não tem como a gente não se afetar, por exemplo, é.
Eu, eu fui criada para ser racista, né?
Então, em toda a minha infância, pessoas negras, elas estavam me servindo, né?
A primeira vez, se alguém tivesse me dito assim, o seu escritor favorito, Machado de Assis, ele é um homem negro, embranqueceram o Machado de Assis, então naquela hora eu IA falar, meu Deus, então a pessoa que eu acho o mais inteligente do mundo é uma, é uma pessoa negra.
Isso mudaria toda a minha estrutura.
Agora, depois de velha, a gente, a gente que está atenta precisa se desconstruir do racismo e do machismo, sabe?
Se alguém tivesse me dito, olha, a pessoa que inventou os códigos para mandar um foguete para a Lua é uma mulher.
Eu teria dito, nossa, então, mulher é, muda tudo, sabe?
Pessoa 2
É, é.
Eu tenho teu amigo, é africano e eu tive com ele num num jantar, porque é diferente no Brasil, né?
No Brasil, quando você vai para um espaço onde você onde a maioria negra.
Você não tem a presença do branco servindo, mas na África você tem lugares aonde isso acontece.
Você tem, né?
OOO inverso.
E acho que aí você consegue se deparar com esse choque, talvez exatamente de o quão é diferente assim, o quão a gente de fato vive num lugar onde você não consegue tocar nem o que se sente.
Pessoa 1
Né?
É, eu fui uma vez pra Ah, eu vou muito pra África do Sul, né?
Eu gosto muito da África do Sul.
É, eu fui uma vez pra Joanesburgo com a Camila Pitanga, com a natalineri, com a Djamila Ribeiro, e a gente foi numa boate em Joanesburgo e quando eu entrei, eu era a única pessoa branca da boate.
A única e aquilo me diz, consertou.
E eu vi como eu tava todo mundo dançando e cantando e eu tava num lugar assim, e eu eu eu lembro que eu falei pra natalinéia, eu falei, eu não tô sabendo do que fazer.
Ela falou bem-vinda ao mundo do que é ser uma pessoa negra dentro de uma sociedade racista.
E aí eu lembro que entrou um outro cara branco e a gente meio que se olhou assim, tipo, sabe, você também tá aqui?
Então foi, é uma sensação de ir na África do Sul também.
Às vezes você vai num restaurante muito chique, tem.
Pessoas negras comendo e pessoas brancas servindo, né?
EE, é isso sim que deveria ser, né?
O mundo assim vai ter essa mistura.
Então assim, eu recomendo que todo mundo vai para a África do Sul.
Pessoa 2
Né?
E esse convívio com diferente ele, ele, ele enriquece, né?
E traz um pouco do que você é, o afeto desse lugar de consciência, né?
Pessoa 1
É o afeto, é o afeto.
É como a gente se afeta, sabe?
É como a gente enxerga outras formas de vida, outras culturas, outras possibilidades de ser no mundo.
É como a gente entende.
Onde que os nossos vínculos foram construídos?
Dentro de relações muito limitadas, né?
É porque as minhas maior parte dos meus amigos, das minhas amigas são pessoas brancas.
Exato, sabe?
Então é, é muito limitado.
Quantas pessoas eu deixei de conhecer e de amar?
Pessoa 2
Hoje eu acho que você tem que fazer um esforço, né, para sair dessa bolha.
Pessoa 1
É ainda AAA política de cotas do Lula, um uhum mudou esse cenário, sabe?
Eu acho que a gente mudou a maneira como a gente.
E a gente mudou o Brasil, epistemologicamente falando, a gente mudou nosso conjunto de saberes e isso vai ter um impacto que vai durar.
Se a gente não não retroagir.
É esse o medo também, né?
Sim, então a gente precisa continuar investindo nessas políticas de reparação.
É histórica?
A Identidade Brasileira e Suas Profundas Raízes Africanas
É.
Então eu acho que as coisas vão acontecer naturalmente, mas sim, hoje a gente precisa pelo menos entender que nós somos criados, nós do Brasil, oligárquico, a gente é exceção.
A gente é um erro, a gente é um erro.
Esse Brasil oligárquico é um erro, né?
Tudo que é bom a respeito da nossa cultura não foi trazido da Europa.
Tudo que é bom a respeito da nossa cultura foi feito na desobediência, na resistência e no desacato.
Pessoa 2
Tem um lugar da criação nossa, né?
Eu já ouvi você falando bastante sobre a relação da capoeira com o futebol.
Isso né?
Que é EE.
É bonito de pensar assim.
Pessoa 1
Né?
É exato.
Você sabe que minha mãe é italiana, né?
Então, quando eu era jovem, eu fiz uma viagem para a Itália para conhecer a família da minha mãe.
E foi legal, foi ótimo, foi maravilhoso.
Mas e eu?
E eu pensava assim, bom, então aqui são meus ancestrais, metade de mim está aqui, mas não é bem assim, né?
Porque eu cresci no Rio de Janeiro, então eu sempre achei que, por exemplo, que eu não gostava de samba.
Eu sempre achei que eu gostava de rock.
E a primeira vez que eu ouvi um samba, quando eu morava fora do Brasil, que foi em Los Angeles, fui numa festa de brasileiros, eu comecei a chorar.
Aquilo, aquilo, aquilo me arrebatou.
E eu pensei, isso sou eu.
Mas a minha sensação visitando o continente africano.
Quando eu cheguei a primeira vez na África do Sul, eu cheguei em casa, aquilo também me arrebatou.
Então, eu não tô na Europa, eu tô aqui, sabe?
E aí você tem que também lidar com essas contradições, porque eu sou uma mulher branca, minha mãe fala italiano e me fizeram acreditar a vida inteira que eu era metade italiana.
Mas eu estou muito mais perto da África, então, enfim, a gente tem que lidar com isso.
Pessoa 2
E eu acho que é um lugar potente, né?
Talvez é o que nos faz Brasil, né?
Pessoa 1
Muito exato.
A gente, a gente é considerada a cultura.
Eu vi outro dia uma trend no TikTok.
Não sei se você viu, pegavam pessoas de diferentes países do continente africano e do continente europeu e perguntava assim, se você não fosse norueguês, você iria ser o quê?
Brasileiro?
Se você não fosse nigeriana, você queria ser o quê, brasileira?
Se você não fosse holandês, todo mundo escolhia ser brasileiro.
Então, assim, a nossa cultura é muita coisa.
A gente é muita coisa, sabe?
Então a gente se entender brasileiro e brasileira é poderoso demais?
Anedotas Pessoais e a Memória Afetiva no Futebol
É.
Pessoa 2
Poderoso demais.
A gente tem um quadro novo aqui que é um bate bola rapidinho aham que eu tenho que descobrir se o que eu vou falar é verdade ou mentira sobre você, tá?
Então eu vou falar 3 coisas.
E aí em tese, do. 2 são verdades e uma é mentira.
E aí você pode obviamente me corrigir e me dizer se eu acertei ou não.
E aí também fala.
Pessoa 1
Mas eu tenho que esperar você falar às 3.
Pessoa 2
Eu vou falar às 3 e vou dizer qual que eu acho que é mentira, tá?
Tá bom.
Então, primeira vez que você pisou no estádio foi a trabalho.
Seu time do coração é o Corinthians e o Fluminense.
Você já brigou com o Rogério Ceni do São Paulo?
Eu acho que a mentira é que a primeira vez que você pisou no.
Estádio foi a trabalho.
Pessoa 1
Correto?
Você acertou.
É mentira.
Eu fui ao estádio pela primeira vez com 3 anos, com meu pai.
É fui ver o Fluminense e Flamengo, Fla, Flu.
E depois a gente repetiu isso muitas e muitas vezes.
Eu briguei com o Rogério Ceni.
Na verdade, assim, eu não briguei com o Rogério Ceni.
Eu dei uma informação errada e ele entrou pro taço no ar porque, né?
Eu dei uma informação errada.
Então, sim, essas 2 são verdade.
Pessoa 2
Faz parte de quem vive a vida.
Pessoa 1
Né, isso erramos.
Pessoa 2
Exato, exato.
E vocês fizeram as pazes depois disso, né?
As coisas eu nunca.
Pessoa 1
Mais encontrei com ele assim, eu, eu, eu me retratei.
Mas assim, quando a gente pede desculpas, a gente não pede desculpas para que a outra pessoa fique bem com você.
Sim, tanto faz a outra pessoa.
Tem o direito ou não de desculpar, né?
A gente pede desculpas pra gente mesmo reparar um erro dentro da gente.
Pessoa 2
Exato.
Agora essa essa primeira, que é a primeira vez que você pisou no estádio, foi a trabalho e achei que era mentira, mas eu queria ouvir, de onde vem esse amor pelo futebol?
Pessoa 1
Dessa relação com meu pai?
É meu pai sempre me tratou como sujeito pleno.
Assim, ele nunca me tratou como menina, nem como um menino.
Olha, ele sempre me tratou como uma pessoa intelectualmente capaz de entender.
O que é a vida, então?
Ele sempre conversou comigo como uma pessoa adulta.
Ele me ensinou a ler e ele me ensinou a ir ao estádio.
Então eu com 23 anos, eu tinha quase 3 anos.
Eu lembro, eu e ele subindo a rampa do Maracanã, minha almofadinha tricolor, uma Bandeira, e ele me ninguém.
Ninguém aprende sobre futebol lendo um livro, a gente aprende sobre futebol, vendo o jogo com alguém que a gente ama, por isso também é muito potente, sabe?
É ensinando pra gente falando, olha, o cara saiu com a bola, é tocando errado e a gente levou um gol.
Não quando fizer um gol.
Lembro muito do meu pai falando isso.
Assim, quando o Fluminense fizer um gol, não comemora antes de ver se o bandeirinha está correndo no meio do campo.
Porque se o bandeirinha não correr o gol vai ser no lado, né?
Agora, com var, isso mudou um.
Pessoa 2
Gol qual ótima gestão de ansiedade essa?
Pessoa 1
Exatamente, exatamente.
Então eu lembro do que ele falava sobre o placar de 2 a zero.
Tudo que eu aprendi, eu aprendi com o meu pai.
Então é esse essa força do futebol também?
Pessoa 2
E acho que, de uma certa forma, todo mundo acaba tendo uma memória afetiva, né?
Seja com todo mundo, com amigo.
Pessoa 1
Não existe futebol sem memória, não existe futebol sem memória afetiva.
O futebol é o tecido que que que une o mundo dos vivos ao mundo dos mortos.
Maravilhoso.
Esse é o tecido que une o mundo dos vivos.
O Miguel nicolelis tem uma história maravilhosa.
Ele é palmeirense, muito palmeirense e foi um tio dele, obstetra, que trouxe ele ao mundo, né?
Porque fez o parto da irmã dele, da.
Da mãe, do do Miguel e ele, ele, ele, o tio vinha em todos os jogos do Palmeiras com ele, enfim, o tio morreu na véspera de um jogo muito importante do Palmeiras, na véspera de alguns dias antes, e o nicolelis comprou 2 ingressos e ele não deixou ninguém sentar do lado dele.
Ele falou, meu tio não vai sentar, não vai sentar, meu tio tá aqui com ele, então é OOO, futebol é esse tecido assim, quando o Fluminense entra em campo, o meu pai está comigo, e quando o Corinthians entra em campo, a Roberta está comigo.
Pessoa 2
Delícia que você mantém isso.
Pessoa 1
É sim.
Pessoa 2
Nas horas vagas você escreve poesia.
Seu nome é Maria Emília e você é comunista.
Eu acho que só nas horas vagas você escreve poesia, que é mentira.
Pessoa 1
É mentira.
Já houve uma época da minha vida, com 1011 anos, em que eu fazia isso.
Não mais acho.
Pessoa 2
Que você pode se arriscar aqui um pouco, né?
Pessoa 1
Arriscar na poesia é, Ah, olha, poesia é um negócio, assim é.
Eu fico, eu fico assim, eu, eu não entendo como alguém escreve poesia.
E, mais do que isso, eu não entendo como alguém que traduz poesia.
Tem um poema da Elizabeth Bishop, porque eu gosto muito de chamar arte de perder.
É EE.
Ela escreveu originalmente em inglês, mas a tradução para o português é um negócio arrebatador também, sabe?
Então, não, eu não me arrisco na poesia não.
Pessoa 2
É uma segunda arte?
Pessoa 1
Né, é, é.
Pessoa 2
Você foi roteirista de amor e sexo, o programa da Fernanda Lima.
Na infância.
Uma professora te convenceu a jogar bola?
E você cobriu os atentados de 11 de setembro?
Eu acho que é na infância.
Uma professora te convenceu a jogar bola, que é mentira.
Pessoa 1
Você vai gabaritar, é mentira.
Pessoa 2
É uau.
Pessoa 1
Uma pessoa tentou me tirar do do da Quadra.
Me fazer, brincou.
Me me obrigou a brincar de boneca.
Pessoa 2
É, mas ouvindo que você contou do teu pai, acho que é, né?
Com certeza não veio da professora.
Pessoa 1
Exato, exatamente.
Não.
Essa é mentira.
Pessoa 2
Bem, acho que a gente queria falar um pouco sobre esse lugar do futebol, talvez esse lugar aonde ele consegue fazer com que as pessoas de fato se conectem, né?
O Poder Transformador do Futebol Feminino no Brasil
Que eu acho que a gente explorou um pouco desse lugar No No universo masculino, desse momento em que, né?
Os caras se abraçam, choram, falam eu te amo, mas.
Como que essa história do coletivo, né?
A gente fala um pouco de cultura de sociedade, né?
Em todas as nossas questões, racismo, et cetera.
Como que esse lugar coletivo do futebol, ele também pode ser uma alavanca pro pro nosso desenvolvimento como sociedade?
Pessoa 1
Eu acho que ele pode mostrar para gente que a gente ninguém existe sozinho, sabe?
Eu acho que é um lugar em que a gente entende que quando a gente perde, a gente perde todo mundo.
Se a gente tem uma criança que não foi alfabetizada, perdemos todos, sabe?
Se a gente tem um jogador que deixou de marcar, é perde, perde o time inteiro.
Então eu acho que o futebol dá a noção de que é, nós somos o todo, né?
Você é importante treinar, é importante dormir.
É importante você olhar se as pessoas do teu lado tão bem emocionalmente.
É importante você saber se aquela pessoa dormiu bem, se ela não dormiu, se ela tá passando por algum problema.
Você não faz um time muito vencedor sem tudo isso.
Tá encaixado.
E isso fala sobre a vida também, sabe?
Assim, a gente não pode achar que porque a gente mora em Higienópolis e a polícia não vai chegar arrombando a nossa porta às 6 da manhã, que tá tudo bem.
Se há 3 km dali não há democracia.
Se a polícia faz isso e a pessoa que teve a casa invadida não tem, a quem recorrer?
Sabe?
Então, enquanto enquanto houver precarização.
Enquanto houver, enquanto todo mundo não tiver água encanada, não vai dar tudo bem, por exemplo.
Pessoa 2
Porque que você acha que a gente continua amando o futebol?
Pessoa 1
Porque o futebol é muito poderoso.
O futebol ele se reinventa.
É quando a gente vê é um time como a Costa do Marfim, jogar de igual para igual com o país que colonizou a Costa do Marfim.
É isso.
É muito bonito, sabe?
É muito histórico, é Cabo Verde.
Quando a gente entende que no futebol o pequeno ganha do grande e não é raro, muito pelo contrário, é bastante frequente.
Quando a gente entende que o futebol traz infinitas histórias de superação pra que todo mundo esteja ali.
O futebol não ensina a gente a ganhar, o futebol ensina a gente a perder, o futebol ensina a gente a existir.
Então essas visões a gente tem que levar pra vida, porque ganhar deixa a gente insuportável, é perder que forma, alma e caráter, sabe?
E o futebol fala essas coisas pra gente e eu acho que ele vai seguir falando.
Estão tentando matar ele, transformar nesse nesse lugar só de lucro.
A lógica do lucro, né?
Única lógica AA orientar o jogo.
E o jogo é sobre a gente ser humanos nesse país, sabe?
Então é por isso que ele é lindo.
E ele, ele não vai, ele se recusa a morrer.
Pessoa 2
Você falou da copa de 70, né?
Eu vi um documentário recente sobre a copa de 71 das mulheres aham.
Pessoa 1
Né que?
Pessoa 2
Em tese, não.
Não é necessariamente.
Não foi, não existiu, é não existiu.
Qual que é a sua expectativa?
Aí pro pro futebol feminino, para a copa feminina, né, ano que vem?
Como é que você está vendo isso?
O que que você espera que aconteça?
Pessoa 1
Eu acho que a copa de 2027 feminina no Brasil não vai deixar Pedra Sobre Pedra.
Eu acho que vai.
Tudo vai mudar a partir desse encontro.
Eu acho que as pessoas vão ser levadas de arrasto para sentir o que elas não estão preparadas para sentir.
Eu acho que o futebol feminino vai riscar o chão do que a gente pode ser enquanto nação, sabe?
E elas vão fazer aquilo que os caras não fizeram, elas vão levantar uma taça no Maracanã, é.
E eu acho que a gente nunca mais vai olhar para uma mulher jogando bola do mesmo jeito depois que essa copa acontecer.
Tem um ditado português que eu gosto muito, que assim, os fados convidam a dançar.
Aqueles que estão prontos, os que não estão prontos, os fados arrastam.
Eu acho que a gente vai ter um samba que vai arrastar todo mundo para isso, mesmo aqueles que estão esperneando para não ir.
Pessoa 2
Estou feliz.
É você me.
Você me deu 11 coisa para acreditar que com certeza vai fazer.
Pessoa 1
Bem, pode acreditar.
Pessoa 2
Miley, muito obrigado, eu que agradeço.
Delícia de conversa.
Qual que é seu palpite para a copa?
Pessoa 1
Eu acho que o Brasil sai bem rápido, eu não sei quando, mas eu acho que o Brasil é vai dececionar muita gente.
E acho que a gente vai ter uma seleção campeã que ainda não foi campeã você.
Pessoa 2
Está bem aí no seu bolão?
Eu tô.
Pessoa 1
Péssima, tá, péssima, péssima.
Então não acreditem nisso que eu acabei de falar, porque assim eu acho que tem um bolão do UOL que fazem todos os que eles chamam de talentos, né?
E gente assim eu parei até de olhar, porque só tinha atrás de mim só quem não tinha ainda feito o bolão, entendeu?
Só quem estava com zero só.
Pessoa 2
Quem ainda não entrou?
Pessoa 1
É então por tudo isso que eu falei, pode não ser verdade.
Obrigado, obrigada, prazer.
Pessoa 2
Ter você aqui com a gente.
Prazer.
Falar de futebol com esse brilho no olho é dá outro lugar, com certeza.
Pessoa 1
Muito obrigada pelo convite.
Pessoa 2
E para você que ficou com a gente até o final, não, não esquece de se inscrever no canal, de dar seu like, de comentar, de mandar dúvidas.
Depois a gente manda para a Mili para ajudar a gente a entender um pouco mais.
Muito obrigado.
Podcast Summary
Key Points:
O futebol é um microcosmo da sociedade brasileira, refletindo tanto aspectos positivos quanto negativos, como misoginia, racismo e homofobia.
O futebol historicamente exclui mulheres e negros, enraizado no colonialismo e no patriarcado, e as mulheres que atuam nesse meio enfrentam resistência diária.
Críticas aos modelos europeus de treinamento, como o de Ancelotti, que priorizam a defesa e sufocam a essência criativa do futebol brasileiro de rua.
A homofobia e a misoginia são interligadas, com a misoginia sendo a base, e a falta de punição reforça a ideia de que essas questões são irrelevantes.
O futebol oferece lições de coletividade e comunidade, mas também pode ser aprisionador quando tratado como negócio ou núcleo disciplinador.
Ídolos como Pelé e Maradona carregam contradições, e as mulheres precisam acomodar essas ambiguidades para continuar amando o esporte.
O estádio serve como refúgio para homens expressarem emoções reprimidas, mas a entrada feminina gera hostilidade, vista como invasão.
O feminismo é visto como essencial para salvar o futebol, rompendo hierarquias e libertando tanto mulheres quanto homens do machismo.
Summary:
O futebol é apresentado como um microcosmo da sociedade brasileira, onde misoginia, racismo e homofobia se manifestam de forma intensificada. A entrevistada argumenta que o esporte, historicamente, excluiu mulheres e negros, refletindo um legado colonial e patriarcal. Ela destaca que a misoginia é a base da homofobia no futebol, e a impunidade diante desses comportamentos envia uma mensagem de que tais questões são irrelevantes.
Além disso, critica a influência de treinadores europeus, como Ancelotti, que impõem um estilo defensivo e sufocam a criatividade do futebol brasileiro, enraizado na rua e na comunidade. O futebol, porém, também oferece lições de coletividade e resistência, sendo um espaço onde homens podem expressar emoções reprimidas, mas que se torna hostil quando mulheres invadem esse reduto. Ídolos como Pelé e Maradona carregam contradições, e as mulheres precisam negociar essas ambiguidades.
Por fim, o feminismo é apresentado como uma força libertadora capaz de salvar o futebol, rompendo hierarquias e libertando os homens do machismo, que os aprisiona e mata diariamente. A entrevistada elogia Leila Pereira como uma figura que, apesar das contradições, usa seu poder para promover mudanças feministas no esporte.
FAQs
A convidada sugere que recuperar o futebol de rua, de várzea e de comunidade é essencial para resgatar a identidade do futebol brasileiro. Isso envolve valorizar o jogo como um espaço de relacionamentos e afetos, em vez de priorizar a disciplina tática e a defesa, como fazem treinadores estrangeiros.
Ela critica Ancelotti por trazer a escola defensiva italiana, que prioriza não levar gols em vez de fazer mais gols, o que mata a criatividade do futebol brasileiro. Ela afirma que, mesmo se ele for campeão mundial, não mudará seu discurso contra esse estilo.
Ela diz que Pia tentou impor uma cultura estrangeira, que não é a brasileira, ao futebol feminino, o que não fez bem ao time. Embora tenha trazido organização, isso não compensou a perda da essência do jogo local.
Ela afirma que a misoginia é a mãe da homofobia, pois chamar a torcida adversária de 'elas' é uma forma de diminuir o feminino, associando-o à fraqueza. Quando esses atos não são punidos, as estruturas de poder mostram que não os consideram importantes.
Ela a vê como uma 'infiltrada' que, apesar de suas contradições como banqueira, usa sua posição financeira e o feminismo para transformar o futebol. A convidada tem profunda admiração por ela, pois Leila pisa forte no mundo masculino e faz coisas que outras mulheres demorariam para fazer.
Ela argumenta que o feminismo rompe hierarquias e estruturas de poder, libertando tanto mulheres quanto homens do machismo. Sem isso, o futebol acabará se tornando apenas um negócio elitizado e embranquecido, perdendo sua essência.
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