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Magreza extrema e o que a gente vê no espelho

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Magreza extrema e o que a gente vê no espelho

A discussão aborda o retorno e a normalização do padrão de magreza extrema na mídia e na cultura, contrastando com o breve avanço dos movimentos de diversidade corporal. Especialistas analisam que este ideal, enraizado em padrões eurocêntricos e capitalistas, nunca desapareceu verdadeiramente, sendo agora reforçado por ferramentas como medicamentos para perda de peso (ex.: canetas emagrecedoras) e discursos em redes sociais. A psicóloga Vanessa Tomazini destaca que a busca por este corpo inatingível, vendido como sinônimo de sucesso e felicidade, gera um ciclo de consumo e insatisfação, com sérios riscos à saúde física e mental. O fenômeno impacta desproporcionalmente mulheres e jovens, ensinando-lhes desde cedo a performar magreza e docilidade para serem aceitas, enquanto a gordofobia estrutural e a medicalização do corpo continuam a excluir a vasta diversidade corporal real. A cobertura midiática irresponsável sobre tratamentos de emagrecimento agrava o problema, glorificando um padrão restritivo e perigoso.

Transcription

5689 Words, 32025 Characters

Portuguese
O Retorno da Magreza Extrema e a Mídia O osso do ombro fica quase pontiagudo, sustentando braços bem finos. As costelas aparecem marcadas na pele, na base do pescoço. A tal da saboneteira, que oficialmente chama clavícula, também fica saliente. Se a magreza Extrema não tem Aparecido para você, você é privilegiada? Sim. Pessoa 2 O padrão de corpos super magros tem como aliado um novo comportamento ou uma nova ferramenta. Pessoa 3 Somente em 2025, o uso de canetas emagrecedoras no Brasil cresceu 88%. A importação de produtos como os empique monjaro somou cerca de 9 bilhões de reais no período, superando a compra de itens como salmão smartphones. E azeite de oliva? Pessoa 1 Não é exatamente novidade até a magreza como padrão, mas a magreza Extrema, que já foi considerada chique nos anos 2000, voltou a ter lugar nos filmes, na cultura pop, na publicidade. Pessoa 2 No ano passado, o governo do Reino Unido interveio, proibiu uma propaganda que exibia corpos ultra magros. Pessoa 4 A marca espanhola de moda Zara foi notificada por um órgão regulador britânico de publicidade e precisou retirar 2 imagens do seu site que exibem modelos com aparência considerada de magreza pouco saudável. Um porta-voz da marca no Reino Unido garantiu que as fotos. Já foram removidas e reafirmou o compromisso da empresa com a publicidade responsável. Pessoa 1 Nas passarelas onde a magreza nunca saiu de moda, os ossos à mostra voltaram a ser celebrados, valorizados e expostos. Um relatório da Vogue Business analisou 182 desfiles da temporada outono e inverno 2026 nos Estados Unidos de 7817. Looks apresentados. Praticamente 98% eram dos tamanhos zero a 4, que são tipo do tamanho 34 ao 38 aqui no Brasil. Pessoa 2 A ideia do body positive, movimento que ganhou força na década passada com a valorização de corpos curvilíneos, com dobras, com celulite, com tudo mais com o corpo, tem parece ter ido para as gavetas. Modelos com corpos mais diversos, ainda que não gordos, chegaram a ganhar as passarelas por um instante. Mas a defesa do corpo livre perdeu força e espaço para as mensagens que enaltecem os corpos magros. Pessoa 1 O discurso tem usos muito diversos, uma diversidade inversamente proporcional ao que as imagens de corpos expostos têm mostrado. A defesa da magreza aparece na boca de influenciadoras e influenciadores de grande alcance. Tem quem fale de saúde, tem quem fale de exercícios físicos, tem quem ensine como usar canetas emagrecedoras e tem até quem em bolhas masculinistas dê vazão a discursos misóginos por meio dessa defesa da magreza. Pessoa 5 Mas o provedor, o homem de valor, quer uma mulher magra. Entenda que se o cara tem Bom Gosto, ele vai apreciar a beleza de verdade, que é harmônica e sutil. Pessoa 2 O café de hoje discute como a exposição crescente a parâmetros de magreza Extrema impacta a relação das pessoas com o próprio corpo. A psicóloga Vanessa tomazini, especialista em transtornos alimentares, explica por que esse ideal de corpos super magros voltou. Trata do papel de medicamentos e redes sociais e analisa de que maneira isso afeta especialmente meninas e mulheres. Pessoa 1 A gente já volta com A Entrevista. A Magreza Extrema: Um Padrão Que Nunca Nos Deixou Vanessa, eu queria começar é entendendo um pouco o momento que a gente vive de uma exposição que parece crescente a esse ideal de magreza Extrema. Eu queria na verdade, confirmar se é mesmo algo crescente. Os corpos super magros como algo bonito, ideal voltaram ou na verdade, ele sempre. Estiveram por aqui? Pessoa 6 Eles nunca deixaram de estar por aqui. Essa é a triste conclusão nos últimos 10 anos, mas principalmente nos últimos 5 anos, nós tivemos uma fase aonde falar sobre diversidade de corpos era algo que estava no hype. Teve seu espaço um pouco mais aberto na TV, nas mídias, até mesmo na moda e automaticamente na sequência disso. A gente vê essa questão da diversidade dos corpos e dessa esse olhar mais neutros sobre os corpos decaindo, e aí a gente volta de novo com essa questão da magreza Extrema em todos os veículos, o tempo inteiro, para quem quiser ver. Pessoa 2 O que que aconteceu com os movimentos body positive, por exemplo, aquela ideia de corpo livre? Pessoa 6 Toda vez que a gente vai olhar como é que a sociedade funciona, a gente tem que olhar como é que? O capitalismo também funciona. Naquele momento, a gente teve uma abertura para um discurso diferente, aonde entrou também muito nas graças das grandes marcas também. Então, falar sobre diversidade de corpos, aumentar a grade para esses corpos, ter outras pessoas fazendo propagandas, por exemplo. E aí o que entra? Como, né? Uma positividade corporal, a questão do body post. Na verdade, vai mostrando cada vez mais que era um discurso alinhado com aquele momento e com o que estava sendo solicitado socialmente, aquilo que estava rendendo mais. Então você vê uma diversidade de pessoas. Que naquele momento eram, por exemplo, influenciadores digitais, né? Eu tenho dificuldade com esse nome, né? Mas assim que influenciavam as pessoas de alguma forma e naquele momento, aquele discurso, ele era rentável e ele, a própria questão do capitalismo, tava buscando isso. Quando a gente sai desse movimento, e aí a gente começa a ter a questão da medicação para tratamento de pessoas gordas, né? Ou de obesidade? Isso cai por Terra automaticamente. Porque quem é que é gordo hoje, né? Se a gente for pensar dessa forma, quem não consegue ter acesso, quem tiver acesso a medicação, quem tiver acesso a uma alimentação mais natural, quem tiver acesso a te fazer uma academia ou. A ter um personal trainer, quem tiver acesso, até alguém que faça a sua comida em casa, né? E não coma tantas coisas, por exemplo, altamente industrializadas. São essas pessoas que vão poder ter um corpo magro. Então a gente tá falando de acesso, a gente tá falando sobre o que tá também vendendo mais, né? O corpo. Nunca deixou de ser um capital, mas ele está como um capital bastante importante socialmente para mostrar sucesso, Felicidade, o quanto você é desejado socialmente, o quanto você é feliz e entra novamente nessa questão de que não é para todas as pessoas ter um corpo magro dessa maneira, como a gente vê muitas vezes no TikTok, Instagram, entre outros lugares. Só que o que é vendido para nós é que se você tiver dinheiro, se você tiver foco, força e fé, você é capaz de atingir esse corpo, que é uma grande mentira. Mas as pessoas gastam tempo, gastam muito dinheiro também e gastam também a saúde mental atrás desse corpo. Dito como um perfeito que também. Né? É um corpo completamente eurocêntrico, né? Ele é magro, alto, branco, cabelos lisos, né, olhos claros. Então isso chama muito atenção e isso é é muito rentável. O Custo da Perfeição e o Controle do Corpo Feminino Se a gente for ver a quantidade de cirurgias plásticas que a gente tem, a quantidade de intervenções estéticas que a gente tem, a quantidade de medicações, né? A cada ano a gente está tendo mais e mais medicações que estão sendo não só criadas, mas testadas também a quebra das patentes das medicações que são agonistas do GLP um, então a gente está entrando num momento cada vez mais preocupante. E principalmente, preocupante pra crianças e adolescentes que são expostos desde muito cedo a esse padrão de corpo que na verdade, muitas vezes nem a pessoa que tá ali dançando no TikTok ou que tá mostrando o quanto ela come num dia, né? Pelas imagens dos seus pratos de refeição é a realidade, mas é isso que é mostrado, né? Pessoa 1 Eu IA te perguntar se essas pessoas que, como você narrou, aí é. Gastam energia. Dinheiro é para atingir esse corpo. É visto pela sociedade como ideal. Quando elas atingem esse corpo, elas ficam satisfeitas. Pessoa 6 Não é muito interessante? Como é que isso funciona? Você quer ser magra e aí você usa a medicação, faz atividade física, controla alimentação? Consegue emagrecer, por exemplo. Mas aí não basta ser magra, você precisa ser magra, mas você também precisa ter muscularidade. Aí você vai lá e faz uso de uma medicação para isso. Treina cada vez mais. Mas aí isso só não basta. Você ao mesmo tempo está envelhecendo, então você tem que fazer o botox, o preenchimento nas suas primeiras marcas de expressão. Mas isso também não basta. Você tem que aparentar ser jovem mesmo quando você está obviamente envelhecendo, que é a premissa central, né? A gente só morre se a gente estiver vivo, né? Então a gente quer envelhecer automaticamente. Então, é sempre vendido mais alguma coisa que você pode e deve consumir para que você permaneça não só magra. Porque vamos pensar o seguinte, ser magro não é uma condição para todos os corpos. A gente tem uma diversidade gigantesca, de geneticamente inclusive. Como é que a gente pode pensar em um único padrão de beleza? Se a gente tem 78 bilhões de pessoas na face da Terra, cada um de nós com um código genético diferente, como é que a gente pode dizer que existe um único padrão de corpo, uma única cor de pele e por aí vai, né? Então, se manter nisso faz com que você sempre vá consumindo mais e mais pra tentar se manter nisso que é o inalcançável. Essa é a grande verdade. E aí, obviamente, a gente tem um viés de gênero importante, mas cada vez a gente vai ensinando as meninas e cada vez mais cedo que para elas serem amadas, para elas serem se sentirem pertencentes, elas precisam performar a magreza, precisam performar a obediência, precisam performar, né? Uma docilidade também, porque é isso que atrai. Aos homens é isso que atrai a né? Que faz com que elas possam ser feliz com que ela possa ser escolhida a. Pessoa 1 Fragilidade, né? Sim. Pessoa 6 Sim, é só você olhar ao seu redor assim, uma mulher, quando ela é assertiva, é alguém que fala sobre aquilo que pensa, né? Que tem, coloca o seu ponto de vista crítico. Ela é lida muitas vezes como agressiva, raivosa. Isso é muito comum. Né? Porque porque ela não está mostrando, ela não está demonstrando essa fragilidade que se espera, né? Ela não está performando essa docilidade daquela pessoa que está sempre ali recebendo a informação. E ela própria não é a produtora de senso crítico, né? Não É Ela que levanta a mão, diz para ele, eu não concordo. Meu corpo não está sobre a sobre o seu domínio. A História dos Padrões de Beleza e a Gordofobia Enraizada Queria pedir para a gente olhar para além da foto, para o filme, né? Para a linha do tempo dessa história. Como você enxerga os movimentos, as modas que envolvem o corpo? Existe algum tipo de backlash, de efeito rebote? Pode ser que a próxima moda seja de mais curvas ou os movimentos possíveis são sempre dentro da magreza. Pessoa 6 Olha, é interessante você fazer essa pergunta. Eu estou formada há 23 anos, então nesses 23 anos trabalhando com transtornos alimentares, eu já vi bastante coisa acontecendo nesses últimos anos. E é muito interessante o quanto que a questão da magreza é como se ela sempre fosse um retorno sempre para esse centro da magreza. Vou dar um exemplo aqui, não relacionado ao corpo, mas por exemplo, Ah, as mulheres poderem usar mais os seus cabelos cacheados. Casados, crespos ou até mesmo os cabelos grisalhos? Ok, isso vem como uma grande onda de que parece até muitas vezes uma onda de libertação, mas na sequência vem alguma grande onda tentando controlar o corpo. Então, ok, você pode usar o seu cabelo do jeito que você quiser, no formato natural dele ou até mesmo. Com o grisalho aparecendo, mas vamos controlar esse corpo. Então o que acaba acontecendo é que assim, em alguns momentos, quando esse discurso apazígua um pouco mais sobre o controle sobre o corpo feminino, a gente vê outras questões vindo juntas ou outros momentos, inclusive até políticos que começam a tirar a Liberdade da mulher, por exemplo. Então eu não consigo ver um movimento aonde a magreza? Não tenha estado em voga. O que eu vejo é que tem momentos em que o discurso é quase como se fosse uma cortina de fumaça. Vamos falar um pouco mais sobre neutralidade corporal. Mas assim, tem um tamanho também pra gente falar sobre neutralidade corporal, porque se essa pessoa for uma pessoa gorda maior, por exemplo, mas aí já. E a gente já não está mais falando sobre diversidade de corpos. Tem um limite, entende? Então, mesmo com o discurso nesses últimos tempos, até com todo o levante da questão do bodypost, o mesmo da neutralidade corporal, foi interessante? Obviamente que foi. Mas ainda assim, por trás não é para todos, porque o que que a gente tem também? A gente tem a gordofobia completamente enraizada. No discurso capitalista, no discurso do patriarcado, no discurso sobre quais corpos podem ou não podem viver, tem direito ou não tem direito de acesso. Então, de alguma maneira, se a gente for parar para pensar, mesmo em momentos em que estava um pouco mais propício olhar para diversidade de corpos, não era bem isso. Eram alguns corpos, não eram todos. Pessoa 2 Mas se a gente vai Além do Tempo, né? Se a gente voltar mais é na história. É essa noção da magreza. Ela tem uma origem como padrão, né? Ela tem uma origem No No espaço e no tempo, porque a gente vê, sei lá, obras de arte europeias antigas, com mulheres gordas. Você situou um pouco esse padrão, como eurocêntrico, né? E justamente no continente africano é comum a gente achar estátuas de homens e mulheres com barriga. É em Salvador, aqui no Brasil a gente tem as meninas do Brasil feitas em 2005, representando brancas, negras e indígenas, com corpos volumosos. Enfim, quando a gente olha para esse padrão de magreza, a gente tá olhando para a estética de onde e de que tempo, né? A gente tá falando só dessa contemporaneidade. Pessoa 6 É como se a gente tivesse. Olhando pra uma imagem criada, porque se a gente pega pela história, corpos diversos sempre existiram, se você hoje entrar no metrô, por exemplo, e olhar as pessoas ao seu redor, você dificilmente vai ver uma pessoa que seja como esse padrão de beleza que está dentro da nossa da nossa mente. Claro que pensar olha para o seu, ao seu redor assim, quantas pessoas você conhece então, de alguma maneira, os corpos volumosos, eles sempre existiram, eles sempre foram também retratados. Mas quando a gente começa AAA entrar em determinados momentos da da sociedade, principalmente quando a oferta de comida passa a ser. Mais igualitária, vamos dizer assim. Então, tirando lá daquele momento histórico, aonde quem tinha acesso a um grande volume de comida ou o quanto um corpo maior era um corpo que era visto como rico dominante, né? Daquele que tinha acesso a magreza por muito tempo foi atribuído a pessoas pobres, né? E ninguém queria parecer. Pobre ninguém queria ter um corpo que não fosse com volumes, porque isso também mostrava as suas posses. Percebe que a gente fala de novo de uma questão de poder? Quais corpos podem mais? Quando isso começa a declinar? Quais corpos podem mais? Aqueles que são menores? Porque eles necessitam de uma quantidade de procedimentos, vamos dizer assim, né? E de tentativas de formas, né? De controlar esse corpo que não é pra todos. Eu costumo dizer que o padrão de beleza ele tá sempre localizado naquilo que não é para todos. Pessoa 2 Numa restrição que remete a ideia de uma exclusividade ou de um status inalcançável, né? Ou difícil? Pessoa 6 Exatamente. Exatamente. É o que não é para todos. Ele está sempre deslocado no que não é para todos. O Uso Indiscriminado e os Riscos das Canetas Emagrecedoras Como você avalia o uso das canetas emagrecedoras e a reconfiguração que elas trazem para os nossos parâmetros de beleza e do que seria um corpo saudável e bonito? Pessoa 6 A grande questão é que assim, hoje, se a gente olha a quantidade de pessoas que realmente tem corpos gordos ou tem. De diabetes tipo 2 e que seriam muito privilegiadas pela medicação. É a grande minoria dos pacientes que usa. A gente tem relatos, inclusive na mídia, de pessoas da mídia relatando o quanto que queriam perder 2, 3 kg, 5 kg. Estavam fazendo uso desses análogos do GLP 11 medicação que não foi criada para isso. Não é uma medicação que foi criada para perda de peso, sem falar nos efeitos também do ponto de vista de saúde mental. Né? Porque a gente observa que é bem comum pacientes que fazem o uso do agonistas terem um rebaixamento do humor, então sintomas um pouco mais depressivos. Então, a gente tem que sempre olhar para a totalidade do paciente para poder dizer se ele pode ou não pode ser beneficiado pela medicação, e não só por uma questão de perda de peso. E o que a gente vê hoje é que assim a gente tem adolescentes usando caneta, né? Isso não só aqui no Brasil. Nos Estados Unidos, eles têm uma oferta ostensiva de canetas análogos do GLP um para tratamento de obesidades na adolescência. E a gente não sabe como é que isso vai ficar ainda aqui no Brasil a gente tem um uso cada vez mais indiscriminado, mesmo com as diretrizes de terem colocado retenção de receita para que os pacientes comprem. Infelizmente, ainda assim, tem muita gente que consegue receita ou que os médicos. Jurídicos, muitas vezes passam essas receitas, porque bom, ser magro é o que importa, né? A saúde tá na magreza. Infelizmente isso ainda perpassa a questão da medicina e da saúde, então acaba tendo esse uso mais indiscriminado também. E o que a gente acaba vendo é que assim as pessoas estão fazendo uso dessas medicações. Eu atendo pacientes que fazem uso da medicação, eu atendo pacientes que já fizeram uso da medicação e a grande questão é. Não existe nenhuma medicação hoje que mude a relação das pessoas com o corpo e com alimentação. Não existe. Então você até pode fazer o uso dessa medicação e você ter uma melhora temporária de sintomas como exagero alimentar ou até mesmo o food, nós e tudo mais. Mas em algum momento você vai parar essa medicação. Em algum momento você vai ter que trabalhar com a regulação das suas emoções. Pra poder entender o que acontece dentro de você, que faz com que você muitas vezes busque o alimento como uma forma de conforto. O que eu tenho também visto é isso. Assim, pacientes usam, perdem peso por um período, param a utilização, reganham esse peso e aí aumentam. Obviamente, sentimentos de frustração, de culpa, retornam aos tratamentos base e a gente novamente começa a trabalhar essa regulação. Institucional dos pacientes para lidarem com aquilo que eles sentem sem que a alimentação seja a única forma de regular. A gente chama isso de afeto negativo, né? Seja a única forma de regular esse afeto negativo. Só que quando a gente pega adolescentes já usando essa medicação, assim, todo o conhecimento que eles estão produzindo ainda sobre o próprio corpo, sobre a própria fome, a própria saciedade e essas oscilações que existem, até porque eles estão sendo tomados por uma série de hormônios durante a adolescência, isso vai se perdendo. E o que fica mais importante é ser magro. Novamente, né? É conseguir ter esse corpo, que é o corpo esperado, que é o corpo magro que volta a estar nesse lugar do não é para todos. Pessoa 1 Queria te pedir para dizer em poucas palavras o que é food Noise, por favor? Pessoa 6 Claro, claro, é muito comum que os pacientes relatem um pensar em comida e pensar em comer por boa parte do dia. Normalmente, pacientes que estão em restrição alimentar tem mais uma quantidade de pensamentos maior com relação à comida e a comer, e isso é muito comum em pacientes que têm exagero alimentar ou que comem de uma forma mais emocional. E alguns desses pacientes, ao fazerem uso dos análogos do GLP um, relata uma diminuição desse fudinois e relata uma diminuição desse pensamento sobre comer e sobre comida. Pessoa 1 Você acha? Que o jeito como a mídia, as redes sociais, mas principalmente a mídia trata a caneta emagrecedora, é responsável. Pessoa 6 Não, eu acho que eles são responsáveis. Pelo que tá acontecendo, é pelo que tá acontecendo, boa, por glorificar essa medicação. Mas assim, com certeza, eles colocam de uma forma muito irresponsável, mas assim, muito irresponsável assim de relatos de pessoas que estão muito em evidência na mídia falando sobre o uso, né? Como se esse uso fosse para todas as pessoas. Como se fosse só quase criando o clube da caneta, sabe? Vamos fazer o clube da caneta, todo mundo que usa. Vamos aqui e isso. Assim, brincadeiras à parte, a gente vê pacientes que muitas vezes não teriam condições de arcar com o custo da caneta dividindo caneta, então, assim, dividindo, às vezes comprando substâncias, né? Em outros lugares que a gente nem sabe que substâncias são essas e estão injetando no próprio corpo sobre a ideia de que estão usando análogos do GLP. Um, então assim, isso é muito grave. Isso é muito grave. A Falsa Ligação Entre Magreza e Saúde nas Redes Sociais deixar. Pessoa 2 Passar uma associação que você fez, né, que você mencionou entre magreza e saúde. Uma associação que a gente costuma fazer, né? Em que só a magreza é saudável ou em que a saúde só existe na magreza, como é que você vê essa ligação e quais são os limites e os riscos disso dessa associação? É muito interessante. Pessoa 6 Ver o quanto que a gente associa claramente a uma pessoa magra, a uma pessoa saudável. Se essa pessoa magra ela fumar, ela não fizer nenhuma atividade física, mas ela for magra, a gente não questiona absolutamente nada com essa pessoa. Se a gente for uma pessoa gorda, a primeira coisa que a gente pergunta é, mas você come muito, mas você faz atividade física? Ah, você deve ser fumante, a gente imediatamente. Olha um corpo, né, que desvia desse padrão magro. E a gente já acha que é um corpo que precisa ser domado, precisa fazer atividade física. Ele precisa ser diminuído. E a gente olha para pessoas magras e não pensa isso. Se você tiver andando na rua E você vê uma pessoa magra comendo uma coxinha. Você imediatamente vai pensar, nossa, olha, essa pessoa come com prazer. Se você vê uma pessoa gorda nas mesmas condições, comendo uma coxinha, você vai olhar e vai falar, é por isso que é desse tamanho, né? Ou é por isso que a pessoa tem esse corpo? Então a gente tem que partir do princípio de que a gente tem essa gordofobia dentro da gente, aonde a gente faz uma associação direta entre poder, Felicidade e magreza, ligado a um corpo magro. E a gente liga falta de força, de vontade, às vezes até sujeira com pessoas gordas. Então a gente tem um olhar diferente sobre corpos magros e corpos gordos. E a gente só de olhar a pessoa, a gente é capaz de já perceber uma série de pensamentos em nós. Sobre como essa pessoa come, como é a saúde dessa pessoa e o quanto a séptica, né? Limpa ou não, essa pessoa é só pelo tamanho do corpo. Então, quando você pergunta, né, qual que é o limite? A questão é, a gente precisa treinar o nosso olhar, todas as pessoas, mas principalmente na área da saúde, de que eu só sei algo sobre alguém, não pelo tamanho que o do corpo que ela tem. Mas a partir do momento em que eu faço uma anamnese, em que eu pergunto ativamente sobre o estilo de vida dela, porque só de olhar a gente não tem esse raio x de saber como é que são os exames bioquímicos dessa pessoa, se ela faz atividade física regularmente ou não, como é que é a alimentação dela? Então a gente aprendeu a dividir e olhar as pessoas e automaticamente já julgar se elas são. Ou não saudáveis pelo tamanho do corpo? Bom, todo mundo aqui. Pessoa 1 Viveu uma vida de exposição a imagens de corpos magros nas revistas, nos filmes, em qualquer catálogo midiático, né? É. Mas como as redes sociais mudam a forma como essa exposição acontece? Ela muda. Pessoa 6 Porque antes a gente ainda pra ter contato com o filme, com uma novela, com uma propaganda, a gente ainda tinha que acessar esses locais ou esses materiais. Hoje a gente tem praticamente uma extensão da nossa mão, que é o celular com as mídias sociais te trazendo e te bombardeando, na verdade, de milhares de imagens, vídeos de corpos tidos. Como os corretos, os certos, os bonitos e por aí vai, né? Então, hoje, o quanto a gente é bombardeado por essas imagens é muito mais do que era nos anos 90, nos anos 2000, onde você tinha que comprar uma capricho, né? Eu tinha que passar na frente da banca pra ver a imagem da atriz ou da modelo que tava ali. Agora a gente basta abrir os olhos e a gente pode ficar 548 horas do dia. Sendo bombardeado por essas imagens. Então, o nível de exposição que a gente tem hoje é incalculável. Com antigamente, é incalculável. Tanto é que cada vez mais a gente tem tentado brigar por legalizações com relação às mídias sociais, pensando em crianças e adolescentes, mas também pensando em adultos. Não é porque a pessoa é uma adulta que ela também não tá. Exposta a ser literalmente bombardeada por essa quantidade de imagens. O exemplo é muito fácil. É só você chegar na sua casa, parar na frente do espelho, olhar o seu corpo e automaticamente você já tem uma série de questões com esse corpo, você já quer modificá lo? Você já acha que ele está grande, que ele dobra, que ele não é igual aquele que você viu no vídeo, que às vezes nem aquele que foi postado é real? Porque ele ainda está sob filtro. Às vezes ele está sob uso de AEA. Gente está vendo nosso próprio corpo no espelho de casa, achando que tem um grande problema nele, quando na verdade é um corpo que tem movimento, que tem vida que dobra. Mas não é simples. O que a gente está vivenciando é um bombardeio assim midiático de todas as formas possíveis e imagináveis e aterrorizante, aterrorizante. A Contradição do Controle Corporal e o Sofrimento Feminino Você já falou? Pessoa 2 Bastante sobre como isso impacta especialmente meninas e mulheres, ainda que impacte também meninos e homens, né? E como essa ideia de um corpo é de controlar o corpo, tem a ver com o controle também de comportamentos, de padrões, né? Que serve a 11 espécie, não a uma dominação de das mulheres também, né? É, eu eu queria te perguntar, como é que você acha que a gente tá lidando com isso? É, e se a gente vê e se você vê uma contradição. Entre aceitar a diversidade das mulheres, como foi o movimento body positive, que celebra corpos de todos os tipos, e criticar figuras públicas que exibam e acabam promovendo por exibir essa magreza? É Extrema. Tipo atrizes brasileiras e internacionais que aparecem publicamente com frequência, com roupas que expõem justamente os sinais dessa magreza. Falar desses corpos não é? Também é controlar corpos. Também é controlar. Pessoa 6 Corpos, o que acaba acontecendo e que é, eu brinco que se vem de veneno e antídoto com as mesmas mãos. Então, por um lado, quando a gente passa a ter essa noção de que o controle sobre os corpos femininos é um controle que vai muito além do peso corporal, né? Ou do tamanho corporal, mas que tem a ver com o controle de qual é o lugar que essa mulher. Ocupa. Quais são os espaços que ela pode ocupar? Quais são as falas que ela pode ter. Ao mesmo tempo, a gente vai ter do outro lado mulheres que tem uma grande questão da visibilidade que elas têm, do que elas representam muitas vezes, né? Então a gente viu, por exemplo, o Oscar agora há pouco tempo, a quantidade de mulheres que estavam ali com seus corpos expostos na magreza Extrema. E performando justamente esse momento que a gente tá vivendo é algo que assim, qual é a responsabilidade que cada uma dessas mulheres tem sobre se apresentar dessa forma? E aí é muito difícil, porque elas também são perpassadas por esse controle sobre o corpo muitas vezes, se elas não performarem dessa forma. Elas também estão fora, então percebe como é muito difícil, porque é como se você soubesse qual é o veneno, tomasse desse veneno, vendesse o antídoto. Mas daqui a pouco você está tomando antídoto, mas já não sabe mais se é veneno. Então a gente fica nesse ciclo que é muito, muito, muito ruim para todas as mulheres. Essa é a grande verdade, né? A gente vê o Demi Moore, por exemplo, que participou de um filme super aclamado, muito importante como a substância e que aparece no Oscar, talvez com um dos menores corpos que ela já teve, né? De tamanho de corpo que ela já teve na vida. Que que será que acontece? Como é que a gente pode participar de uma? Ela pensando na mulher, né? Ali, a mulher Demi Moore pode participar de um dos filmes de maior crítica a respeito do que se faz pra ficar magra e jovem e de repente aparecer exatamente alguns meses depois da forma como ela apareceu. Então o que pra mim fica demais? Um maior reconhecimento é o quanto que o sofrimento e esse controle do corpo, ele vai acontecer de várias formas e por vários vieses, e a gente não consegue sair dele não numa visão. Pessimista Gabi, mas numa visão de a gente precisa andar bastante, a gente precisa conversar muito sobre isso, a gente precisa expor muito o que acontece e falar de coração aberto da dificuldade que é, porque mesmo quando uma mulher tá ali performando a magreza, ela também está sofrendo. Não é que ela passe lesa, na verdade, no final nenhuma mulher passe lesa. Essa é a grande verdade, nenhuma. As Últimas Notícias e o Encerramento do Episódio Depois de ameaçar. Pessoa 2 Matar uma civilização inteira para nunca mais ser ressuscitada. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, adiou mais uma vez o ultimato dado ao Irã por 2 semanas. A ameaça de Trump se concretizaria na noite de ontem e, segundo ele, incluiria a destruição de infraestrutura civil persa, como pontes e usinas de energia, o que pelo direito Internacional, seria crime de guerra. O republicano afirmou que o recuo foi decidido com base em uma proposta de cessar fogo temporário feita pelo Paquistão. É a quinta vez que a Casa Branca adia o prazo para que o regime iraniano reabra o Estreito de ormuz. O anúncio foi feito pouco menos de 1 hora antes de expirar o prazo que Trump tinha dado para que Teerã liberasse a passagem para navegação. O regime iraniano confirmou que as negociações com os Estados Unidos vão acontecer no Paquistão a partir de sexta-feira. Segundo a mídia local, a proposta do Irã inclui a reabertura controlada do Estreito de ormuz, o fim da guerra e a retirada das forças Americanas da região. Teerã reforçou que as negociações não significam o fim imediato do conflito, depois da ameaça de Trump. Destruiu uma civilização inteira. O Irã tinha dito no conselho de segurança da ONU que a fala do norte americano constituia incitação a crimes de guerra e potencialmente, genocídio. Pessoa 7 A procuradoria geral da. Pessoa 2 República defendeu eleições diretas para o governo tampão do Rio de Janeiro. A manifestação da PGR foi feita ao Supremo Tribunal Federal e fortalece a reclamação feita pelo PSDO partido de Eduardo Paes, pré candidato ao governo do Rio. Pede que o governador tampão seja escolhido pelo voto popular direto, já que o ex governador Cláudio Castro foi declarado inelegível pelo TSE. E o vice, Thiago pampolia, renunciou ao cargo no ano passado para assumir uma vaga no tribunal de contas do estado. A Constituição do Rio define que, num cenário de dupla vacância como esse, seja realizada eleição direta. Caso exista condenação eleitoral sem condenação, a votação deve ser indireta, feita pela assembleia legislativa. A discussão atual existe porque Cláudio Castro renunciou ao cargo um dia antes de ser julgado. Ou seja, a dupla vacância aconteceu, em tese, sem a condenação. No julgamento, OTSE determinou a realização de eleições indiretas. OPSD argumenta ao STF que a Renúncia de Castro foi uma manobra para evitar as eleições diretas. APGR entende que a cassação do mandato e a declaração de inelegibilidade mesmo após a Renúncia. Indicam afastamento por decisão da justiça. Por isso, a procuradoria geral da República é favorável às eleições diretas. O supremo vai julgar hoje a reclamação do PSDE decidir a final. Como vão ser as eleições no Rio de Janeiro? Pessoa 7 Esse foi o. Pessoa 2 Café da manhã, o podcast mais importante do seu dia, parceria entre a folha e o Spotify. Eu sou o Magé. Pessoa 1 Flores e eu, Gabriela Mayer. Pessoa 2 A produção é de Guilherme. Pessoa 1 Almeida, Gustavo Luiz, Jéssica Cruz e Laura Lever. A edição de som é de Rafael conclli e Tomé graneman. Esse episódio os áudios. Pessoa 2 De SBT, Breno faria e Jovem Pan News. Até amanhã até.

Podcast Summary

Key Points:

  1. O padrão de magreza extrema, associado a um ideal eurocêntrico de corpo, retornou com força na mídia, cultura pop e publicidade, suplantando os movimentos recentes de positividade corporal.
  2. Este retorno é impulsionado por fatores capitalistas e patriarcais, que comercializam o corpo como símbolo de status, e pelo uso indiscriminado de medicamentos como as "canetas emagrecedoras", frequentemente promovidos de forma irresponsável.
  3. A exposição constante a esse ideal inalcançável gera impactos negativos na saúde mental, especialmente em mulheres, adolescentes e meninas, reforçando a insatisfação corporal, a gordofobia e a noção de que o corpo deve ser controlado e performado para ser aceito.

Summary:

A discussão aborda o retorno e a normalização do padrão de magreza extrema na mídia e na cultura, contrastando com o breve avanço dos movimentos de diversidade corporal. : canetas emagrecedoras) e discursos em redes sociais. A psicóloga Vanessa Tomazini destaca que a busca por este corpo inatingível, vendido como sinônimo de sucesso e felicidade, gera um ciclo de consumo e insatisfação, com sérios riscos à saúde física e mental.

O fenômeno impacta desproporcionalmente mulheres e jovens, ensinando-lhes desde cedo a performar magreza e docilidade para serem aceitas, enquanto a gordofobia estrutural e a medicalização do corpo continuam a excluir a vasta diversidade corporal real. A cobertura midiática irresponsável sobre tratamentos de emagrecimento agrava o problema, glorificando um padrão restritivo e perigoso.

FAQs

Sim, a magreza extrema, que já foi considerada chique nos anos 2000, retornou com força nos filmes, na cultura pop e na publicidade, substituindo temporariamente a valorização da diversidade corporal.

Sim, a defesa do corpo livre e a diversidade corporal, que ganharam destaque na década passada, parecem ter perdido espaço para mensagens que enaltecem corpos magros, especialmente nas passarelas e na mídia.

O uso indiscriminado, muitas vezes por pessoas que buscam perder poucos quilos, pode causar efeitos colaterais como rebaixamento do humor e não aborda a relação psicológica com a comida, levando a reganho de peso e frustração após a interrupção.

O padrão é inalcançável porque ignora a diversidade genética e exige consumo constante (medicações, procedimentos) para sua manutenção, promovendo insatisfação corporal e afetando especialmente a saúde mental de meninas e mulheres.

A mídia e as redes sociais glorificam a magreza ao exibir corpos ultra magros como ideais, promover relatos irresponsáveis sobre medicamentos emagrecedores e reforçar um padrão eurocêntrico que associa magreza a sucesso e felicidade.

'Food noise' refere-se a pensamentos constantes sobre comida e comer, comum em restrições alimentares. Alguns análogos do GLP-1 podem reduzir temporariamente esses pensamentos, mas não resolvem a relação emocional subjacente com a alimentação.

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