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Jurema Werneck

45m 33s

Jurema Werneck

A entrevista com Jurema Werneck, médica, ativista e pesquisadora, traça sua trajetória desde suas raízes no Morro dos Cabritos, no Rio de Janeiro, em uma família negra profundamente ligada ao samba e a tradições religiosas de matriz africana. Ela descreve uma infância marcada pela forte pressão familiar e comunitária para estudar, enfrentando racismo desde os seis anos de idade. Sua entrada na medicina foi quase acidental, decidida de última hora por seu pai, e ela desenvolveu um método de estudo baseado em memória visual para superar dificuldades de aprendizado. Apesar de se formar, sua verdadeira paixão sempre foi o ativismo e a cultura. Jurema se envolveu cedo com o movimento estudantil e, posteriormente, com o movimento de mulheres negras, participando de encontros históricos na década de 1980. Sua pesquisa acadêmica no mestrado e doutorado focou nas potências criativas e políticas das mulheres negras, utilizando o samba como campo de estudo, refletindo sua paixão pessoal. Ela enfatiza a liderança e agência das mulheres negras como anteriores e fundamentais ao feminismo moderno, mantendo uma relação íntima com a cultura do samba, mas uma conexão mais distante com a prática religiosa formal, apesar de ter crescido nesse meio.

Transcription

7389 Words, 40976 Characters

Portuguese
[Música] Oi, eu sou o Gassveli Carinha. Eu sou o Anéca Sétuba. [Música] Esse é o escútil das mais velhas, o podcast da flutação de Sétuba produzido pela radio no verde. [Música] Nesse podcast, celebramos as principais representantes das lutas sociais no Brasil, dando voz às suas próprias histórias e conquistas ao longo de suas trajetórias. E a nossa conversa de hoje é com a Médica ativista e pesquisadora Jurema Verdnque. [Música] Jurema é a mais jovem das nossas entrevistadas e é o elutiligação entre gerações. Ela faz a transição da nossa geração para as gerações mais jovens. [Música] Quem é Jurema Verdnque? Por Jurema Verdnque. [Risos] Bom, eu sei lá quem eu sou, eu sou eu mesma no sentido de que. Eu sou aquela menina negra que nasceu no Morro dos Cabritos em Copa Cabana em 1961. Eu sou a filha de um alfayate, que foi malandro de favela de morro, e que foi posto para correr por madame satã, de um cabarea da Lapa, porque queria fazer segundo ele preservada e madame satã só virou para ele, disse "é melhor você ir para casa". Eu sou aquela menina que vira por pai e fala "e aí pai, o que você fez?" Corri, "fui embora, claro". E desapontado eu pego para ele, mas como o pai ele virou para me falar "hora, era madame satã". Sim, precisar, isso. Sou filha também de uma mãe que também nasceu no Morro dos Cabritos, que esse pai viu passar na porta da alfayate que ele tinha no caminho da favela e disse "eu vou casar com essa mulher e a família da minha mãe, ninguém queria que casasse, pelearam malando da favela". Mas ele tinha uma ofayate, uma oferta ali, mas eles ficaram juntos até a morte dela, ele ficou sem ela viver essa perda ou resto da vida dele, até ele falecer. Então a sua filha desse casal, soneta de duas avóis diferentes, uma voca era uma mejera, a minha voca, uma terra, era uma mejera, assim, ela não gostava de seres humanos. E da outra voca, ela sabia o nome, porque que servia cada planta. Meu pai teve de juntrizão grave e quase morriu, ela não lematava da cama lá no Morro dos Cabritos, e ela salvou a vida dele com duas coisas, com uma folha e raspando o sangue do balcão de um açougue, e fazendo um guisado com a folha com esse sangue, foi o que fez, ele retornar daquela situação de juntrizão gravíssima. Eu sou filha dessa gente e bisneta da minha bisavó, que nasceu antes da leoria, e criou a gente, quando eu nasci, ela já era velha. Então era muito engraçado com viver com ela, porque ela era matriarca, ela mandava em todo mundo, uma família gigantesca de sangue, sem sangue, mas aquela família gigantesca, ela mandava em todo mundo, mas com a gente, ela falava, falava nos condidos, ensinava jogar carta e roubava gente na carta, era muito legal. Então eu sou essa pessoa que veio daí, me tornei ativista com 8 anos de idade, na escola ainda, participado do gremio, gente concorreu lá um gremio, minha chapa ganhou, e daí não parei mais no ativismo, e convivia com essa família estendida, que era uma família religiosa, uma família de samba, uma família típica de pretos, aquele montão de gente, quando juntava lá em casa, para a religião, né, que era lá em casa que acontecia, da celebração religiosa, e depois, pro samba arrancava-se as portas, portava ao outro lado da outra e virava a mesa e todo mundo sentava em volta da mesa, as crianças, mais longe eles ficavam fazendo samba, virando a noite, e é só essa pessoa que entendo a força que a comunidade tem na minha história. A gente vai querer saber mais da religiosidade, mas antes disso, conta um pouco dessa sua educação escolar, conta um pouco essa história antes de entrar na questão da religiosidade, que a gente também quer saber. Bom, o estudo era muito importante, filhos de paz que nasceram na década de 40 e 50 e daram isso, essa certeza de que pela educação a gente ia mudar de vida. Meu pai e a irmã dele, mas velha, eles estudaram pouco, mas o tempo que eles estudaram, eles eram campiões de tudo. Eles tinham um rendimento acima da média em escolar, mas tiveram que deixar o estudo cedo. Então, eles tinham essa perda profunda. Minha mãe estudou também muito pouco, e eles diziam que a gente tinha que estudar. E eu, minha história escolar, era pior possível, assim, porque não me acabeça ou não tinha que estudar. Depois que eu tinha aquilo que, na clínica, eu chamava de "Deficit de atenção", mas eu era uma pessoa que o método escolar não servia para mim. Então, era uma tortura aí para escolar. Então, o movimento estudantil participar de grêmio foi o que me manteve na escola fora, a pressão familiar. - Ah, boa, boa. - A pressão familiar. Meu pai diziam que a gente tinha que estudar. - E acabou. - Acabou. Ponto. Eles fazia de tudo para a gente estudar. E eles faziam. Eles trabalhavam, a gente ficava acordado, os 48 e 72 horas trabalhando direto para poder a gente continuar estudando. E dizia que a gente não fazia mais de obrigação de que passava de ano. E o mal adaptado era uma pressão todo dia. Era absolutamente todo dia. E não era só meus pais, meus tios e tias, minhas avós, era a vizinhança e também voltando à coisa da religião. Também na religião, eu me lembro. Perto da minha casa tinha uma casa de um banda que minha mãe foi. E eu nunca fui muito religiosa. Então, eu preferia não ir, mas quando todo mundo da família ia, tinha que me levar, porque eu não podia ficar em casa sozinho. Então ela me levou para essa terreiro de um banda. E eu me lembro, tarde da noite, que elas pombajiram, estão lá, e tem a pombajira da mãe de Santo, vem andando na minha direção. É uma criança pequena. Ela olha para mim e fala, "Dó aquele sotaque de pombajira?" E fala, "Você passou de ano?" - Que medo. - Ai, é gordo. Que medo. Isso é o da dimensão da pressão que eu sofri para estudar e para passar de ano. Passei de todos os anos. - Nunca repeti ano. - Sim. Mas sempre foi um muito dramático esforço. Bom, minha primeira experiência, de ainda não dar o nome, mas saber que alguma coisa muito ruim aconteceu. Eu tinha seis anos de idade e na festa junina, a professora me fez par com o menino chamando de ecarlos, que eu não esqueço dele até hoje. E ele se recusou a encostar a mão dele na minha. - Ele não queria dar a mão para dançar. - Nós. Só que esse menino de seis anos botou um prego na mão. - Hmm. - Para quando encostasse a mão, achou que a facetasse. E ele também tinha seis anos, não é? Parece um poema de rambo, se eu não acho que é infância. Vai descrever no cenário lindo, um festejo, pessoas com fitas nas mãos, flores, etc. E o poema termina assim, de repente, quando você tem fome sede, tem alguém que tinha inshoda. Essa experiência é do racismo. A gente vai indo na vida que tem que de repente, alguém tinha inshoda. E é sempre muito pequenininho, né? É no primeiro contato. Eu tinha seis anos de idade ecarlos também tinha, eu reclamei com a professora. A professora fez fôr brigar ele a me dar mão. E esse tema de racismo não foi tocado naquele tempo. Acho que o trabalho de Elianic avaleu. Muito tempo depois mostrava que não continuasse assim. Talvez, ultimamente, tem mais. Tem mais com o fronto. Mas foi assim. Então essa experiência do racismo e depois da indiante sempre foi, sempre foi. Quando fui para a medicina e na faculdade, todos os dias, quase, algum funcionário me parava, perguntando o que eu estava fazendo ali. Toda vez. Não, eu acredito que era uma estudação. Não imaginei nada, não acredito. Não imaginou. Acho que eu tinha entrado numa porta e me perdi naquele prédio. Eu sempre tinha que dizer que eu estudo aqui. Agora isso é importante. Como é que uma menina que nasceu na. lá nos cabrito, entre a edêo? Como é que faz essa escolha pela medicina? E gostando de estudar, como você gostava? É, não gostava. Exatamente. Eu tinha que escolher alguma coisa. Naquele tempo era vestibular unificado, lembra? A gente tinha que preencher um formulário gigantezco e eu era obrigado a estudar. Minha mãe já tinha falecido. E eu tinha que fazer vestibular. Eu não queria. Porque eu não queria estudar. Aí eu preenchio o formulário e deixei a parte da carreira com você que tinha que dizer para que você vai concorrer. Em branco. Aí no dia último dia, sete horas da manhã, meu pai pega o formulário e me acorda dizendo, "Tá faltando a carreira?" "Tem que botar alguma coisa e dizer, "mas pai, eu não sei." "Mas tem que botar alguma coisa, pai, não sei sete horas da manhã." "Bá, bota alguma coisa, não sei." "Aquela coisa, falei, bota a medicina." "Oa, sei." Foi desse jeito. E ao mesmo tempo, no paralelo fui eu sésco a Senake. Me inscrevi num curso de fotografia. Eu me interessei mais pela fotografia do que pela medicina. "Popá, de medicina, está esqueci." Fiz vestibular. Me deixei pra lá. Há um dia de mantolá distraída e vê uma colega que fez vestibular junto comigo. "Toda só idente na minha casa, eu vou ficar cagatariando." "Ela falou, se você passou, como assim, eu passei?" "Você passou." "Tendo o time, eu tenho a nativa." "Pesado, eu vi ele em médica e depois já estava lá." "Ah, meu obrigação é terminar, porque eu era obrigada." "E não fui nunca para fotografia." "A faculdade de medicina é o inferno." "O inferno." "Não, porque a medicina você teve que estudar muito." "É, mas eu já tinha achado um método." "As dificuldades que eu tinha. " "Eu não tinha dinheiro, em que povo da medicina tem grana." "Tom as minhas amigas, mais próximas, me pagava a comida." "A biblioteca nunca tinha livro suficiente para emprestar." "Fazer rodizos estudava junto, antes de emprestarvam o livro." "Condo, né, aquela coisa?" "Foi com muita dificuldade." "Mas eu tinha que estudar, então eu vou estudar." "E aquele método de memorizar. " "Eu memorizarva a imagem do livro." "A imagem quer dizer." "Tudo que aquela página virava a memória." "E o memoria visual sentiu de novo." "E quando eu vou ver a memória. " "Exatamente, quando eu vinha alguma coisa. " "Vamos falar sobre o que do coração." "Se lembra a imagem da página e o que estava dito na página." "E depois a prática da medicina é relacional." "É meio Sherlock Holmes, você tem lá o próximo de protocolos na cabeça." "Cê conversa com a pessoa e você vai descobrindo." "Ela vai te guiando na compreensão do que está acontecendo." "A prática da medicina não é difícil." "Se você aguenta aquelizando as infernidades, a prática não é difícil." É incrível. "E uma curiosidade, esse nome, verneque, vem de onde?" "Provavamente daquela serança e da sensá-la." "Eu imagino, porque todos somos todos pretos, mas tem um outro lá. " "O outro corrente de verneque são todos muito brancos e clarinhos." "Na história do Rio de Janeiro, na época dos vice-reis, tinha um vice-reio no interior do Rio de Janeiro." "Que o Sobrino Mendeleira Verneque." "Então, imagino que vem daí?" "Meu avô, João Verneque, tamera preto, o irmão dele, mano, não é eu." "Tinha o Manéco, meu padrinho, tamera preto." "Todo mundo preto, todos os verneques que eu conheci de perto são pretos." "Mas eu conheci depois, aduta outros verneques." "Bem claros, bem claros, então não sei." "Mas eu acho que a nossa erança era sensá-la, mesmo tem." "Ca gente só errou o nome." "Jurema, e aí dá medicina que você se afastou?" "Você também depois foi pra engenharia, fez doutorada em cultura." "Como diz a a Aço Ali, você foi pra cultura, mas foi antes pra engenharia." "Conto um pouco essa história pra gente." "Mas eu não fui nem pra engenharia nem pra cultura." "Eu não tinha que ver." "Dá minha forma como eu não fui pra engenharia." "Trasgras foram pra uma medicina." "Quando deixei a prática clínica, a medicina não deixei porque o movimento de mulheres negras não deixou largar a saúde." "Né?" "Nos vamos passar por isso." "Nos vamos passar, tá aí?" "Pois é todo mundo, mas você vai contar um pouco pra ele." "Mas eu fui pra um lugar onde eu tinha colhida pra meus estudos em torno das potências criativas, políticas das mulheres negras." "No mestrado engenharia de produção, eu estudei a formulação de saúde que as mulheres negras não têm. "E a amparada está na modernidade na medicina alopática da ciência, conto nas tradições africanas e indígenas que vieram." "Foi isso foi mistudo, foi mulher negra e na comunicação e cultura, a mesma coisa. Eu queria estudar a capacidade de agência das mulheres negras na esfera pública, potência política. Eu queria fazer um estudo de coisa mais divertida do que engenharia, do que a medicina. Então eu fui pra cultura porque eu fui estudar isso através do Samba, que é muito mais legal." "Então foi isso. Eu não tive nem na cultura, nem na engenharia, nem no lugar nenhum. Eu tive sempre mais ou menos o mesmo lugar." "Mas tem uma defoção que é real. Você ama o Samba, ama o carnaval, ama bloco e essa paixão, como ela se constitui. Eu não nasci nisso, eu não moldo os cabritos quando meu pai e meu tio em mão dele mais novo, eram crianças, mas em hora, eu não moldo os cabritos que iram bloco, chamado Unidos da Vila Rica. Depois, com o tempo, meu pai foi da diretoria, meus tis da diretoria. Então eu nasci nisso, fora que na casa tinha uma casa de religião, por torno da figura, da liderança da minha mãe. E não tem uma cumbra que não tem a Samba. Então, vivi no Samba vir inteira. Eu tenho esse meu estijo, mas você tem paixão pelo Samba e não tem pela macumba." "É um pouco essa relação. Gossamba e dar religiosidade pra você, pra sua família e pra você. Conta." "A minha família era toda religiosa, meu pai cresceu na tradição católica, mas a minha mãe foi iniciada aos 8 anos de idade. Ele é um bom da acredito que tem assim, não bom." "Quando ela cresceu, ela deixou a religião. Mas mesmo assim, ela deixou de frequentar os lugares. Mas ela nunca deixou a tradição, ela fazia as coisas em casa, de um terreiro lá em casa." "Eu quero que isso nem haver comigo, além de crescer nesse meio, e tinha isso, né, de. Eu nasci sem vocação religiosa. Não é só da. por conta da religião de Matriz Eufando. Nem uma. Por que a minha mãe dizia que é muito ruim a gente ter uma religião obrigada? "Ela achava que eu tinha que conhecer o mundo, e eu tinha uma vizinha que ela era apaixonada por religiões. Cada ano ela tinha uma religião diferente, e ela levava as crianças pra religiões. Meu mãe deixava eu ir. Então, tudo todo tipo de religião que ela teve levava a gente, eu fui. "Eu não tenho dúvida que eu não interessei por nenhuma, mas eu não entendo, mas quem entende de música, sabe que a célula do tambor é a mesma célula que está no sambar?" "O aquele ritmo fala muito pra mim, né. Eu não sou. não entendo o suficiente pra ouvir tudo o que aquele tambor está dizendo, mas uma parte eu entendo." "Então, também é uma religião que não tem essa frontera toda, né. Os quais diferenças entre o Sábio e a religião? O preceito. Ais, obrigações. Não sou boa nisso. Eu sou boa, né. Na coisa solta. Então tem tudo a ver comigo, Samba. Não me é estranho, né. "O mundo da religião, né, o mundo da Samba, ainda tem um detalhe da minha história, pessoal também. E quando eu nasci na hora do Parto teve um acidente, que minha bizavô dizia que a médica contou pra ela, e minha mãe dizia que ela viu a cara desprusional e saiu na hora que eu nasci mal. Alguma coisa aconteceu. Malá no morro, num terreiro de um banda, uma cabocla de urema mandou chamar meu pai. E quando ele chegou lá, essa cabocla de urema disse que ela estava lá e ela resolveu, ela salvou a minha vida. Eu que ia me chamar Regina, virei de urema." "É incrível." Aí toda vez que eu tinha que ir em algum terreiro, seja de um banda, o cano blé, se tinha o choc, se tinha o chum, me tratavam de uma forma muito especial, eu queria andar correda ali, eu falei criança, não quer ser tratado especial, criança quer ficar quieta, ainda mais a criança como eu que nem queria estar lá. Mas eu sempre foi muito bem tratada, muito bem recebido, você já tem? Esse mundo não me é estranho, bloco de rua é outra coisa, bloco de rua não é isso, bloco de rua é só sair na rua e voltar. Não era que ia acabar. Ela faz como ninguém. "Julema, como é que entrou o tema da mulher na tua vida? Quando você começa a lidar com isso?" Quando eu começo a racionalizar, porque ele dá com isso uma família, a matriar, cara, minha bizavô, a liderança, depois da minha bizavôra, a minha mãe, os homens da minha família eram fortes, permaneceram como pás responsáveis, mas as mulheres eram a força. Não era uma força na ausência, era uma força na presença. Não foi uma coisa pensar da situação dos milha, não foi a partir da falta nem da violência, foi uma constatação dessa liderança. - Você tinha uma referência. - Depois eu fui racionalizando essa liderança existe e o mundo racista tenta de facilar. E elas refazem o caminho, elas criam barreiras, em alguns momentos são derrotadas, mas é preciso reconhecer que isso existe. Quando eu soube que existe, movência de mulheres negras de 1987, né? 1986, sei lá o ano que. - Mas você foi pra onde? Como você? Foi o encontro feminista, engaranhões. - É histórico. - Então conta, porque esse negation. - Com o encontro feminista. - Não desse encontro feminismo, sei se era nacional, ou seja, latina americana, foi engaranhões. Eu fui em um grupo de mulheres negras todas fomos e as mulheres negras tiveram uma decisão muito interessante. Se reunir em separado e dentro da piscina do hotel. Era fascinante, por um lado, mas isso provocou um escândalo naquele encontro feminista. Um escândalo foi inaceitável pra muita gente, que aquilo estivesse acontecendo. Isso por um lado, mas por outro lado, ali naquelas conversas, nós conversamos que era importante no. É, realizar um encontro nacional de mulheres negras. Aí primeiro veio, pelo menos lá no Rio, né? O primeiro encontro estadual de mulheres negras em 1987, preparatório por um encontro nacional 1988. - Quer ir valência, não? - É, ir valência no interior do Rio de Janeiro. Então é isso, eu entrei no movimento de mulheres negras quando soube que eles existia. Você é alguém que começa a fazer demarcações, né? Inclusive numa tradição, né? Já está. sei lá, que foi instituída desde. Lélegam Zález, por exemplo. Eu acho que você é um ponto de inflexão. Alguém que já olha essa inserção, né? De mulheres negras, no âmbito do feminismo, buscando outras formas de afirmação dessa identidade política e acho que o conceito de aludeio que você vai trabalhar na tua tesse de doutorado é muito emblemático no sentido dessa demarcação. O que é que essa sua geração queria dizer, né? O que é que você como uma nova corrente política dentro do movimento mulheres negras, queria pretender afirmar com isso? - Não sei se eu sou uma corrente. - E conta um pouco também desse conceito de aludeio, tá, gente? - Eu não sei se eu sou uma corrente porque ninguém me segue, esse negócio de feminismo negras é muito mais forte do que qualquer coisa, né? Não sou uma corrente, mas é o como penso. É isso que eu disse antes, né? A liderança, agência, né? A capacidade de realização, de pensamento político, definição estratégica das mulheres negras já estava aí antes que o feminismo aparecesse na face da terra muito mais antes do que da década de 70, 80, quanto se importa essa feminismo moderno da Europa. Então eu nunca me pensei como feminista, você, Lele, Niusa, né? Você pensava como feminista? Vocês não fizeram sua presença política forte no feminismo? Eu nunca achei isso. Eu sempre achei que era movimento de mulheres negras porque são muitos atravessamentos nessa experiência do racismo patriarcal, não é? Também acho que o feminismo brasileiro sempre foi muito tributário das marcas das lutas das mulheres negras a forma como passam a descobrir o corpo, a forma como passam. A experiência do prazer, de uma certa forma, é uma experiência mais nossa do que das descendentes de europeias no Brasil. Então é isso, eu acho que falar feminismo é falar de uma coisa moderna que as mulheres negras se colocaram na luta antes, eu imaginava, que era do momento da invasão colonial indiante. Mas como você é a minha profunda, é isso que eu vou no conceito de alode, porque alode é um título, uma descrição, que aparece na literatura, parece registro desde o século IV antes de Cristo. É meio antigo, né? E ela fala da representação política pública das mulheres. É o título que se dá a representante das mulheres no conselho da cidade, porque as sociedades de alguns países africanos de tradição e urbanas eram urbanas. E tinha o Parlamento, o Conselho da cidade, representante da mulher, nesse conselho recebi o nome de alode. Isso fala de uma tradição de ação política. Muito antiga, muito antiga. Então eu recorro a isso, e depois no Brasil e alode esse termo, esse conceito, essa título, é preservado dentro do candomblé de queto. Fica lá, não aparece nas cantigas, assim, no título, e tá lá. Por que que tá lá? Porque a gente tem que reverência ao chão, e não é por isso, é também, mas é porque ali está guardado nossos segredos entre aspas. E alode foi trazida daquele século, atravessou a história da violência, da brutalidade, que passou o continente africana, atravessou toda a história de brutalidade, da travessia transatlântica, atravessou toda a história de brutalidade, do regime de escravidão, do pós-abolição, com toda a violência racista que a gente viveu, e ficou presente, chegou o meu ouvido no século 20. Então isso tem força, isso é o recado das nossas antepassadas para nós. Por isso, que eu acho que feminismo é válido para quem se defende como feminista, mas eu acho que a nossa tradição é mais antiga e é preciso também fazer referência e reverência a esses passos que nos trouxeram até aqui, que são muito mais potentes, diga-se de passar. Mas a provocação é no sentido de dizer bom que a gente, a feminina hoje poderia ancora, se ancorar nessa tradição. Não sei. O que é ancora nessa tradição é agência, essa coisa de apostar na vida antes da morte, ou como fizer as poderosas lá no interior, nada baía, criar a boa morte, propiciar a boa morte, isso acontece todo o tempo e as mulheres também fazem isso. Nós trabalhamos como mulheres mães desses meninos que foram mortos, porque dizem que eram bondidos, porque eram facínulos, porque não sei o que. E o que elas fazem é dar a eles uma boa morte, mesmo depois que eles já morreram, morrer como homens, dizer que eles eram filhos, eles eram amados, eles não eram que as pessoas estão dizendo dele, eles, né? É esse esforço, isso não muda, essa agência atravessa muito, muito séculos, esse poder de agência a boa morte para que se tem uma vida. A vida que resta da verdade é possível, para riscatar de quenidade, é exatamente. Agora você trabalhou muito com as mulheres e continua, obviamente, conta um pouco para a gente da criola, como é que surgiu a sensituição, conta aí. Eu trabalhava como médica na rocinha e vi aqui o impacto de que algumas políticas, mesmo políticas estroficiais tinham sobre as mulheres negras naquela favela gigantesca. Eu criava um projeto e propuz para vários homens que criam na existia, uma hongue de homens e mulheres, uma hongue misto aceitou, mas eu entrei para trabalhar com o grupo de mulheres que tinha lá dentro e dizia, eu vou ficar aqui só um tempo, porque eu acho que a gente tem que ter uma organização só nossa. Não, por nada, porque eu sempre fui assim. Minha experiência não era de gastar energia, disputando espaço com homem, a minha experiência de espaço de agenciamento, de mulheres, então vamos fazer a nossa coisa. Então eu faz assim que surgiu a criola, bom, da minha cabeça. Foi há uns 10, né, cada uma teve uma ideia, mas todo mundo achava que era pertinente, fazer uma organização de mulheres negras e fizemos esse 1992, das mulheres negras, dor de setembro de 1992. Então é isso, é criola, é isso, essa iniciativa de mulheres negras que eu não tô lá mais no cotidiano, né, porque. Mas ela nasceu com o objetivo de. É de atuar com mulheres, meninas e meninas negras, aportando o repertório, ferramentas, formas de fazer, de estar junto, de contribuir para a gente aplicar melhor essa capacidade de agência de agenciamento que a gente tem, para melhorar os condições de vida ao mesmo tempo, para vocalizar o que está ruim e para vocalizar também o que pode ser melhor, o que pode ser feito, e revindicar o nosso lugar na sociedade, um lugar melhor do que a gente tá. Mas por força dessa tua experiência, com a saúde das comunidades, você pessoalmente e criou a lação, referências no tema, da saúde direitos reproduitivos, salva da população negras, na verdade. Ao ponto de você presidir uma conferência de saúde, né, desse uma quarta conferência da nossa. A dessa uma quarta conferência de saúde foi presidida por uma mulher negra dona Juliana Meneck, fala disso. A presidência era do ministro, né, eu era a secretária geral, ou sei lá, que não tinha. É um cargo muito importante, né. E foi uma coisa que não se repetiu, e foi única, e foi muito emblemática, né? Essa coisa da saúde, né, é quando eu fiz medicina, não tinha gente negra na faculdade medicina, né? A medicina era muito prestigiosa, e ainda é dentro da comunidade negra, e não tinha muitas médicas ou médicos. Então, sempre fui forçada a permanecer na saúde. Nesse momento em que eu me dedico a saúde do portudio de vista do movimento de mulheres negras, tinha outras pessoas, todo mundo com experiência de saúde, e trabalhando em diferentes aspectos de saúde. E na. foi fazendo uma conjunção, foi possível se juntar para pensar um caminho para a saúde, e alguma proposta de saúde para o Brasil, de saúde da população negra para o Brasil. É esse grupo que cria o programa nacional. A política nacional de saúde da. Sim, esse grupo faz o primeiro draft, o primeiro rascunho, no que faz o rascunho. Tem um outro momento importante, que é a eleição para o Conselho Nacional de Saúde, com vaga para o movimento negro, antes não tinha vaga do movimento negro. A articulação de mulheres negras brasileiras concorre uma vaga, vença essa vaga, Fernando Alopz assume como a primeira representante negra, depois de 70 anos de existência do Conselho Nacional de Saúde. A gente tinha essa rascunha de proposta, Fernando Alopz, que é encarregado, porque a política nacional de saúde só acontece, se ela for aprovada no Conselho Nacional de Saúde. Fernando, ao longo de um ano, faz a negociação para essa política existir, no final do ano, o Conselho aprova por unanimidade. Política Nacional de Saúde da população negra tem três diretrizes fundamentais, um, enfrentar os impactos do racismo na saúde e na vida das pessoas, dois, enfrentar o racismo no sistema de saúde nas políticas públicas, que afetam o cuidado de saúde da população negra três, reconhecendo e corporar os conhecimentos da tradição brasileira, porque ela era no sistema de saúde e a gente existiu sus, e permitiu que a gente vivesse com todas as vissitudes e tudo a gente viveu até aí sem o sus, né? E assim ela foi aprovada, mas o Ministério não implementou de fato até hoje. Depois vamos fazer outras coisas e quase ninguém pegou. Toda a gente pode que este aqui fala de legado. Nos chamam esse de legado, o chamo de pauta que está aí para alguém pegar. Poco a gente pegou ainda, não foi implementada. Não foi implementada e tanto tempo mais de uma década depois, precisa ser aprimorada, precisa responder a esse tempo, ao desafio desse tempo, mas enfrentar o racismo na saúde e suas consequências na saúde, enfrentar o racismo do sistema e incorporar os elementos da tradição como promoção de saúde, isso continua bastante atual. E hoje muito atual, hoje quando está toda essa questão da saúde mental muito forte na sociedade, da saúde ambiental, e saúde ambiental, racismo ambiental, e como todo isso traz consequências muito fortes, isso está muito claro, né? Então é uma pauta muito atual. E na istera da criação da política na saúde só de integral da população negra, isso movimentou outros movimentos, se criou a política nacional de saúde integral da população indígena, se criou também a política nacional de saúde integral da população LGBT, se criou a política nacional de saúde integral da população do campo, política da saúde da saúde integral de grupos populacionais que o sistema não atendia adequadamente foram criadas, mas não enfrentar. Não, enfrentar. Para concluir esse negócio de movimento de mulheres negras, como você vê como movimento hoje e os desafios que ele enfrenta? O Veju de duas formas. Primeiro acho que ele é diferente desse movimento que eu vivia uma parda a minha vida de agregar, olho no olho, né? Agora ele é um movimento de certa forma, ele se movimento no enxame, alguém, vem de algum lugar e, de repente, vai a multidão falar. E, de repente, vai a multidão falar, "é desse movimento enxame", que é diferente. A gente fazia reunião, pensava, debatia, e vamos pra onde? Vamos fazer o quê? Aí produz esse o quê? Tinha coletivo, né? Tinha coletivo, agora, não enxame, né? Proto lado, diante dos desafios anunciados em voz tão alta. Porque eu acho que os desafios, as crises existenciais, nós que são pessoas negras, sabemos que elas vivemos todos os dias da vida, como coletivo, vivemos crises existenciais. Mas agora elas estão enunciadas e parece que outra vez o fim do mundo é, depois da manhã. E o movimento agora não tem energia pra dizer que não vai acabar não. Porque a gente dizia que não vai acabar não, né? Para acabar tem que passar por cima de mim, não tinha esse negócio. Agora não, agora vai acabar. Então eu vou ver se eu ganho um diário aqui, para comprar meu carrão, sabe? Eu acho que falta energia para confrontar esse enunciado. A gente tem energia, dizia, "não, é problema meu, eu vou resolver." "Vou resolver!" Não é que a gente resolvez, mas a gente encarava. Agora tem uma depressão, coletiva, falta de energia, uma entrega. Onde quebrou isso? Essa causa de acreditar? Não sei se quebrou. Quebrou. Não dizem "encanto". As pessoas não acho que vale a pena mas. É, mano, algo tem gente que não acha que vale a pena, mas você ainda deve ter gente, aí que acha que vale a pena? "Var na pena". Eu acho que vale a pena. Se me pergutar, eu acho que tem que ser me pergulto. Que a TV está entregada. É só fomos uma geração. Que acredito. É acredito. Mas a gente não vê, digamos, sucessores, sucessoras dessa geração. Parece que a gente não está sendo capaz de lembrar. Porque eu fico com os ovos com versão do fã, mas nós já derrotamos essas forças antes. É claro. Nós já derrotamos. Já. Mais de uma vez. Mais de uma vez. Mas essa memória não sei como sabe, como tonalha presente. Eu não me vejo na obrigação de fazer com que eles lembrem de nada. Eu conto o que eu vejo. Eu conto o que eu sei. Eles têm o dever. Eles têm também a agência. Eles estão fazendo escolhas. Sou daquela em lugar da ética. Você escolhe o seu caminho. Se tem uma geração que está achando melhor sem mercadoria, eu vou denunciar essa geração. Vou chamar eles pelo nome. Entregista. Deu odista. Prigui sozos. Com o nome que tenha. Eu não vou paparicar essa gente que vai ficar aprisionado nessa proximo termo que eles adoro. Na rativa de fim de mundo. Essa coisa na rativa é engraçada. Mas. Fala muito. Bobagem. Porque se você somar dois mais dois, o nosso mundo acabou muitas vezes. E recomeçou tantas ou muitas vezes. É verdade. A gente olha na história e não fica só neste momento. A principal ameaça existencial é essa inércia. E como o diretor da Nistir Internacional está vendo este momento, como você vê isso, como é ser uma mulher negra diretora no organização internacional? Sou eu. Estamos falando da Nistir Internacional. É como o nome da coisa. É uma nistir dentro das nistias do mundo todo. Esse movimento de milhões de pessoas que já ganhou o prêmio nome da paz, como é ser uma mulher negra lá? Bom, sendo. Vai, a gente vai sendo, né? Eu acho que no Brasil foi fácil. Porque o Conselho da Nistir Internacional já instituiu obrigação da Nistir Internacional no Brasil atuar no antirracismo. E eu entendi que a missão que o Conselho me dá, verá, não apenas continuar com a ponta de racismo, como um dos principais senão, principal problema de direitos humanos do país e de grande parte do mundo, mas também a tarefa de fazer concluir resto do movimento, entender isso e chamar-se para a responsabilidade do antirracismo também no mundo tudo. E é o que eu faço. A Nistir Internacional já é um movimento inantirnacional que se define. Um movimento antirracismo de liderança feminista que defende o direitos humanos para todos em todos os lugares. Você é uma senhora casada há muitos anos. Muito nem sei quantos. E qual é o segredo de uma relação, né, como a sua longeva, né? Porque cada dia é mais difícil, né? Mantenha relações. E especialmente uma relação que é longeva e que ela vem de um tempo em que o nível de aceitabilidade era outro ou era muito menor. Sim, mas nós somos, nós temos a vantagem de sermos dois mulheres afirmativas, ou seja, a gente é o que é sem ocultar. Então era assim. Era assim no princípio sem ocultar, nunca teve necessidade de. E veja, eu tenho 60 anos, mas nesse brandão fez 80 anos, 12 de setembro. Lecibrandão se afirmou no lampeão da esquina, na década de 70, eu acho. Eu era homem menina. E nesse brandão era o farol que minha família me apresentou. Duas figuras, minha família sempre chamava atenção para mim. Lecibrandão e Angela Deves, duas lêgicas, negra. E quando talvez que apareceu alguma coisa delas, eles mostraram e falam para mim. Ela estudou. Isso é o dizer-me, elas estudou. Quando chegou a minha verde, de ser quem eu sou, já tinha tido o Lecibrandão como farol. Então quando chegou a minha época de saber quem eu era, já tinha esse farol que tudo era barbacá. Eu sou muito feliz de ter tido Lecibrandão como farol. E não tenho palavras para agradecer para ela para sempre, porque fica tudo mais fácil. E agora é uma relação de tanto tempo. Bom, meu problema é o primeiro a coisa, eu não conto tempo. Então eu não sei quanto tempo é. Todo dia é uma empreitada. Vou que são duas pessoas extremamente diferentes, somos duas pessoas extremamente diferentes. E a mãe empreitar, é investimento. É querer. Nem sempre é bom. Nem sempre é bom, mas é querer. Ela também quer. E a gente vai querendo, vai continuando. Vai ficando um tempo. Parece um tempo. Ela sabe quanto tempo eu, não sei quantos anos são, mas eu sei que é um tempo. E é isso. E também é uma pessoa maravilhosa. Você conhece-se ali? Eu sei que diz para ela que se a minha orientação sexual fosse outra, eu ia disputar essa mulher. Ela ia levar. Não diga isso. Não diga isso. Eu cheguei primeiro. Ela me escolheu. Me escolheu, porque é um botão de gente disputou. Ela é um amor de pessoa. É maravilhosa. É realmente uma pessoa criativa. Ela é muito inteligente. É interessante. Ela é mais chata que a minha brunquinha. Ela tem muitas qualidades de fato. Então é incrível. Então vai acontecendo e vai pra entendora. Eu acho que isso é um investimento que tenha acontecido. E também é só beneficiar desse tempo. A gente pode ser sem se esconder e foi sendo. Jurema, você escreve muito. Você escreve bem, mas escreve pouco. Isso é o que fala isso. Você escreve muito pouco. Ela escreve muito bem. Mas escreve muito pouco. Eu preciso de tempo para deixar a ideia se desenvolver. Se eu tenho que pensar em outras coisas, eu não tenho tempo de pensar naquele assunto. Porque tem uma ideia, mas eu preciso não uma ideia. Uma ideia é só uma coisa que passa assim. Você tem que olhar para ela. E ela trabalhar aqui dentro. Eu não vou pensar sobre ela. Ela só precisa de espaço mental para trabalhar aqui dentro da minha cabeça. Que depois ela sai, a escrita sai. Vamos lá. Então a gente sempre termina. Aqui estamos chegando a nossa hora. A gente termina, não jurei, não quero saber um pouco. Como é que o temcido para você? Me velecer. Vá lá. Você ainda tem muito tempo. Você vai chegar no 70, sem ainda nem chegar no 70. Isso ali já estamos. Já algum tempinho. Mas como é que tem sido? Como é que você encontra tempo para descansar? Como é que tem sido esse tempo? E como é que tem sido em velecer para você? Foi uma surpresa para mim, e descobri que eu sou velha. Eu não tinha prestado atenção. Pensava no tempo e pensava quando eu era criança. Eu achava quando eu fiz 15 anos. Tudo vai ser diferente. Quando eu fiz 15 anos, foi horrível. Minha mãe tinha morrido quando eu tinha 14, então foi horrível. E depois eu descobri que nada acontece. Aí eu falei, "larguei o tempo de mão". Então ainda é uma surpresa. Quando eu penso que a gente sou velha. Mas eu me vejo na obrigação de me chamar de velha. De afirmar que eu sou uma velha. Nesses tempos de juventude. De afirmar que eu sou uma velha, porque eu sou. Isso é interessante. É interessante afirma. Eu sou uma velha como sujeito político. Mas não sou uma velha. Não me dóem em juntas. Então, não. Sabe aquela velha, aquele modelo de velha? Então, o que eu vou pensar com sou velha? Bom, eu descobri que uma coisa boa que tem. A gente pode passar na frente na fila do avião. Por outro lado, perdemos solimar. Mas perdemos solimar na mesma época que perdemos Jorge da Mion. Que era um ativista lá do Rio de Janeiro. Então, me dei conta que o tempo da minha geração está acabando. Foi assim que eu percebi uma outra percepção da velha e seis. O tempo da minha geração está acabando. Está chegando a minha vez também. A fila está andando. Mas fora isso, eu vivo com isso. Pensar na morte, eu experimentei a morte muito nova, que é a morte da mãe. Não é? Então, pensar na morte, a morte me acompanha. Já entendi a morte, eu estudei sobre a morte, eu lhe estudei sobre a morte. Eu fleti sobre a morte, creviça, a morte inclusive. Sabe? É isso, né? A morte é parte. É parte. Mas fora isso eu sou velha porque sou velha, sabe? E daí, né? É assim? Só o at, como diz a América, não tem página 2. Não tem página 2. Faça o checape anual e não me assusto fazendo desse tometri, né? Caras coisas, todos. Porque é só checape. Checape da nossa idade é aquilo, tudo. É assim? É isso. Terminando, terminando. E não vou usar um pouquinho. Porque você falou dessa próxima geração aí. Quando você está com esse público, jovem, o que você fala? Corra. Corra mais pra cima, né? Pra corrida. Eu falo o que penso. A juventude virou um sujeito político na década de 50 do século 20. Sim. Veja. Então eu já não reifico mais a juventude. A gente analisou o que é juventude, o que ela é capaz. Eu penso, nos cidadãos que vivem estão vivendo esse tempo não importa a que idade que tem. Todo mundo tem responsabilidade. Então essa juventude, eu digo que espero mais. Eu espero mais porque também tá recebendo mais. Sim. Tá recebendo mais. Tá recebendo mais oportunidade. A gente sabe. Isso é ele sabe o que foi entrar na Wisp. Não é? Então recebendo não é de bandeja. Não é um presente pra levar pra casa. É uma responsabilidade, é uma tarefa. É um compromisso, entendeu? Por isso que eu vou quando vocês falam de legado, não é legado. Obrigação. Se não estão pegando, agora me explica por quê? Tá devendo. Tá devendo. Tem que fazer. É isso que eu digo levanta da cadeira e corra. Porque tá ruim, precisa melhorar. É preciso, como diz baiano, se plantar. É isso que eu espero. É isso que eu digo. Não com essas palavras. Mas eu escotando o que eu tento dizer o tempo todo. Foi assim com a gente, desde os anos 50, a juventude é uma importância na fase da Terra. Mas veja, é um estado transitório, como a velha isso também, não é? É um estado transitório. O que é permanente a vida. Então tem que investir nela. Que vestinela. Lindu, linda esse final! Obrigado! Muito obrigado! Eu quero alem muito! Muito linda! Muito gostei de ter vindo! Muito obrigado, você gostou também que a gente. Quando eu fiz essa 70 anos sem me chamar de "não" a gente já vai dar muito velhinha. Eu acho. Se a gente vai por aqui bem velhinha, ela quer dizer a pôr. Não quer dizer barada, né? É verdade! A gente te agradece por acompanhar o escúteas mais velhas. Siga o podcast no seu aplicativo de alto favorito para não perder nenhum episódio. Nesse redes sociais da Fundação de Cetú, na roupa Fundação TIT e da Rádio Novelho, a roupa Rádio Novelho, você pode repercutir o podcast, deixar comentários, elogios e críticas sobre as entrevistas. Escúteas mais velhas é um podcast da Fundação TIT Cetúbal produzido pela Rádio Novelho. A coordenação em produção são da Ashley Calvo. A didação criativa é da Paul Skarpin e da Flora Ponto, São Devô. A direção executiva pela Rádio Novelho é da Marcella Casaca. A edição executiva é da Natalha Silva e a gerença de produto é da Juliana Iegger. A montagem desse episódio redado é do Issa Silversi-Venha e a sonorização em Mixagem, São da Maria Laleão. A trilha sonora original é da Estela Nessin. O desenvolvimento de produto é a utência da Maria Ribeiro com o apoio da Isabel de Santana. A identidade visual é da Larissa Ramos. A coordenação de ilustração e design é do Gustavo Lascimento e a análise administrativa financeira é da Tayna Nogueira. A pesquisa desse episódio é da Marcella Garcia Correia. Essa entrevista foi gravada no estúdio trampolinha em São Paulo. A gerente de comunicação da Fundação de Setúva é Fernanda Nogue. Eu sou a Nega Setúva e eu sou o suelicateiro. Obrigada por nos acompanhar a Temque.

Podcast Summary

Key Points:

  1. Jurema Werneck narra suas origens no Morro dos Cabritos, Copacabana, em uma família negra, religiosa e do samba, destacando a influência comunitária e familiar.
  2. Sua trajetória educacional e profissional foi marcada por pressão para estudar, racismo desde a infância e uma entrada acidental na medicina, área que exerceu com um método de aprendizado visual.
  3. Ela se tornou ativista desde cedo, engajando-se no movimento de mulheres negras, e posteriormente direcionou sua pesquisa acadêmica para as potências políticas e criativas dessas mulheres, especialmente através do samba, mantendo uma relação próxima com a cultura, mas não com a religiosidade formal.

Summary:

A entrevista com Jurema Werneck, médica, ativista e pesquisadora, traça sua trajetória desde suas raízes no Morro dos Cabritos, no Rio de Janeiro, em uma família negra profundamente ligada ao samba e a tradições religiosas de matriz africana. Ela descreve uma infância marcada pela forte pressão familiar e comunitária para estudar, enfrentando racismo desde os seis anos de idade. Sua entrada na medicina foi quase acidental, decidida de última hora por seu pai, e ela desenvolveu um método de estudo baseado em memória visual para superar dificuldades de aprendizado.

Apesar de se formar, sua verdadeira paixão sempre foi o ativismo e a cultura. Jurema se envolveu cedo com o movimento estudantil e, posteriormente, com o movimento de mulheres negras, participando de encontros históricos na década de 1980. Sua pesquisa acadêmica no mestrado e doutorado focou nas potências criativas e políticas das mulheres negras, utilizando o samba como campo de estudo, refletindo sua paixão pessoal.

Ela enfatiza a liderança e agência das mulheres negras como anteriores e fundamentais ao feminismo moderno, mantendo uma relação íntima com a cultura do samba, mas uma conexão mais distante com a prática religiosa formal, apesar de ter crescido nesse meio.

FAQs

Jurema Werneck é uma médica, ativista e pesquisadora negra, nascida no Morro dos Cabritos em Copacabana em 1961. Ela é filha de um alfaiate e uma mãe que também nasceu na mesma comunidade, tendo uma forte ligação com suas raízes familiares e comunitárias.

Jurema descreve sua trajetória escolar como difícil, pois não se adaptava ao método tradicional de ensino, mas era mantida na escola pela pressão familiar e pela participação no movimento estudantil e grêmio. Ela sofria uma grande pressão para estudar e passar de ano, vinda da família e até da comunidade religiosa.

Ela relata experiências de racismo desde os seis anos de idade, como quando um colega se recusou a dançar com ela na festa junina. Na faculdade de medicina, era constantemente questionada por funcionários sobre sua presença, tendo que justificar que era estudante.

A escolha foi quase acidental. Durante o vestibular unificado, ela deixou a opção de carreira em branco e, sob pressão do pai na última hora, preencheu com 'medicina'. Ela passou no vestibular sem grandes expectativas, mas seguiu a profissão por obrigação familiar.

Jurema cresceu em um ambiente familiar onde o samba e as tradições religiosas de matriz africana estavam presentes, mas ela não desenvolveu vocação religiosa. Ela se identifica mais com o samba, que considera uma expressão cultural livre e acessível, diferente das obrigações religiosas.

Ela entrou em contato com o movimento após participar de um encontro feminista na década de 1980, onde mulheres negras se reuniram separadamente para discutir suas pautas. Isso levou à organização do primeiro encontro estadual de mulheres negras no Rio de Janeiro em 1987.

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