Um estudo publicado na revista Science, discutido no canal Biologia em Meia Hora, documentou um caso raro e bem documentado no Parque Nacional de Kibale, em Uganda. Uma comunidade de chimpanzés (grupo Ngogo), que era grande e coesa, começou a se dividir por volta de 2015 devido a uma polarização social. As interações, antes fluidas, concentraram-se em dois blocos distintos, levando à evitação, à divisão do território e ao fim do cruzamento reprodutivo entre os subgrupos. Esta separação social e espacial evoluiu para um conflito violento. A partir de 2018, iniciaram-se ataques coordenados e letais de um grupo contra o outro, resultando na morte de vários machos adultos e, posteriormente, de filhotes. O grupo numericamente menor foi o mais agressivo, sugerindo que a coesão interna foi mais crucial que o tamanho do grupo. O estudo conclui que mudanças nas relações sociais e alianças podem, por si só, redefinir identidades de grupo e desencadear violência coletiva letal, mesmo na ausência de diferenças culturais profundas, oferecendo insights sobre as origens potenciais de conflitos tanto em chimpanzés quanto em humanos.
O que faz um grupo entrar em guerra contra outro? Religion, política, diferenças culturais? E se eu te disser que um estudo super recente observou algo assustador em chimpanzes, nossos parentes vivos mais próximos. Oi, eu sou a Milamasuda e no episódio de hoje do Biologia Inmeia Hora, a gente vai conversar sobre um estudo recém publicado na revista science que descreve a separação permanente de um grupo de chimpanzes e selvagens e a escalada de violência letal entre endividos que antes viviam juntos. O mundo está em guerra. Talvez não do jeito que a gente viu nas grandes guerras mundiais com blocos bem definidos e conflitos globais declarados. Mas não dá pra dizer que a humanidade está em paz. O cenário gel político atual é instável com conflitos prolongados tensões que aumentam e novos confrontos surgindo em diferentes partes do mundo. E isso inclui tanto guerras entre países quanto conflitos internos dentro de uma mesma sociedade. A gente sabe que guerras não são eventos bonitos nem gloriosos, mas elas assim como outras formas de violência coletiva também não são novidade na história humana. Seus efeitos deixam marcas na forma como a gente vive. Mundoam fronteiras derrubam sociedades reorganizam alianças. Só que, apesar de serem tão presentes na nossa história, as causas dessas guerras ainda são muito discutidas. Do ponto de vista científico existe uma linha de pesquisa bastante influente que defende que marcadores culturais, como religião, etnia, língua e identidade política, ajudam a definir que em pertencia um grupo. E a partir disso, fortalecem a cooperação entre os nossos e a hostilidade contra os outros. Essa é uma explicação que faz bastante sentido, só que ela funciona melhor quando estamos falando de grupos que já eram diferentes desde o começo. Agora, e quando a ruptura acontece dentro de uma comunidade que antes era coesa, e quando antigos parceiros passam a se tratar como inimigos. Como explicar esse tipo de transformação, é aqui que entra uma outra hipótese que aparece logo na introdução do artigo. A ideia de que mudanças nas relações sociais, nas alianças, nas rivalidades locais e nos vínculos entre endividos podem por si só ser suficientes para quebrar um grupo e gerar violência coletiva. Mesmo sem religião, sem ideologia, e sem aqueles marcadores culturais que a gente costuma associar as guerras humanas. E isso abre uma possibilidade bem interessante. Se esse tipo de processo também puder ser observado em outros animais, então, talvez seja possível entender uma parte mais profunda da violência entre grupos. A boa ou péssima notícia é que conflitos entre grupos não são uma exclusividade da nossa espécie. Em vários outros animais também existem disputas organizadas. E aqui vale a pena entender uma coisa importante. Quando a gente fala de conflito entre grupos em animais, não estamos falando de guerra no sentido humano da palavra, com estratégia formal, ideologia ou justificativas políticas. Estamos falando de algo que em alguns aspectos lembra uma guerra humana. Por exemplo, algumas espécies defendem territórios de formativa. Isso significa que indivíduos de um grupo patruream áreas específicas e podem atacar membros de outros grupos que invadem esse território. Esse tipo de comportamento já foi observado em diferentes espécies. Em mangustos que são pequenos mamíferos carnívoros parecidos com doninhas e comuns na África e na Ásia, os grupos rivais podem entrar em confronto direto. Em leões, coalizões de machos disputam territórios e acessam as fêmeas, o que pode levar a confronto violentos. E em lobos, matilhas também entram em conflito por território e recursos. Em alguns desses casos, esses confrontos podem inclusive levar a morte de indivíduos. Ou seja, a ideia de que grupos organizados entram em conflito e podem causar dano sérios uns aos outros não é algo exclusivo dos humanos. Perceba que em todos esses exemplos, os conflitos acontecem entre grupos que já são distintos, com territórios separados que já não convivem entre si, que já são desde sempre o outro entre eles. Mas sempre tem um exemplo muito pude-se que da hora. Nesse caso, os chimpanzees ocupam um lugar bem especial. Primeiro, porque eles são um dos nossos parentes vivos mais próximos. E em segundo lugar, já há décadas os pesquisadores observam comportamentos que lembram em alguns aspectos formas de violência coletiva que se assemelham as nossas guerras. Entre eles estão ataques coordenados, patrulhas territoriais e até mortes de indivíduos de outro grupo. Existe até um caso clássico que ficou muito famoso dentro da prima atologia. Um caso que aconteceu no Parque Nacional de Combe na Tanzânia lá na década de 1970. Nesse período, um grupo de chimpanzees que vinha sendo estudado começou a se dividir. E ao longo de alguns anos, essa divisão acabou resultando em algo bem assustador. Os machos de um dos grupos passaram a atacar sistematicamente os indivíduos do outro grupo. E, no final desse processo, todos os machos de um dos lados foram mortos. Inclusive, indivíduos que antes faziam parte do mesmo grupo. Ou seja, chimpanzees que já tinham convivido se alimentado juntos e mantido relações sociais passaram a se atacar de forma letal. Isso chamou muita atenção. Mas tinha um problema. Esse caso tinha algumas limitações importantes. Na época, os chimpanzees eram alimentados artificialmente pelos pesquisadores o que podia alterar o comportamento natural deles. Além disso, os dados eram mais limitados com menos tempo de observação e menos ferramentas para acompanhar as relações sociais ao longo do tempo. Por causa disso, durante muito tempo, esse episódio foi tratado quase como uma exceção. Um caso isolado, algo curioso e intrigante, mas difícil de interpretar com segurança. Até agora. Para entender, porque esse novo estudo é tão importante, a gente precisa voltar no tempo. Mais especificamente, para um grupo de chimpanzees que vive no Parque Nacional de Kibali em Uganda. Esse grupo, conhecido como grupo de Nigogo, foi acompanhado por pesquisadores ao longo de décadas desde 1995. Durante muito tempo, ele é exatamente isso. Um único grupo, grande, estável e socialmente conectado. Só que aqui tem um detalhe importante sobre chimpanzees. Eles não andam juntos o tempo todo. Em vez disso, eles vivem em um sistema chamado "difizão fuzão". Ou seja, ao longo do dia, o grupo se divide em subgrupos menores, chamados de partes ou grupos temporários. Esse subgrupo muda o tempo todo. Os indivíduos se separam, se reencontram, formam novas combinações. E tudo isso acontece dentro de um mesmo território com todos ainda pertencendo ao mesmo grupo maior. Então, mesmo quando estão separados fisicamente, eles ainda fazem parte da mesma comunidade. E interagem entre si com frequência, eles se alimentam juntos, coperam na igiene corporal, o famoso catapiolio, que é um comportamento mega importante e que ajuda a fortalecer vínculos sociais. E também fazem patrulhas territóriais juntos. Quando os pesquisadores começaram a analisar essas interações de forma mais detalhada, usando dados coletados ao longo de muitos anos, uma coisa interessante apareceu. Mesmo dentro desse grupo único, existiam substruturas. Ou seja, alguns indivíduos interagiam mais entre si do que com outros, formando o que a gente poderia chamar de panelinhas. Foram identificadas de duas a quatro panelinhas de 2018 a 2024.
Só que essas panelinhas não eram fixas, elas mudavam ao longo do tempo. Doas panelinhas mais marcantes correspondiam ao grupo ocidental e um grupo central. Os indivíduos transitavam entre esses subgrupos, sendo que 29% dos indivíduos trocavam de grupo de um ano para o outro. As relações eram super flexíveis e, apesar dessas divisões internas, o grupo continuava funcionando como monidade. Todos compartilhavam o mesmo território, todos faziam parte da mesma rede social e, inclusive, se reproduziam entre si. Ou seja, apesar de existirem diferenças internas, não existiam uma separação real entre nós e eles. Pelo menos, não ainda. Mas, em algum momento, essa dinâmica começou a mudar. E o mais interessante é que isso não aconteceu de forma lenta e quase imperceptível. Na verdade, os dados mostram que houve uma virada bem clara, uma mudança que os pesquisadores conseguiram identificar com bastante precisão por volta de 2015. Até então, os chimpanzés de enigogo formavam uma única comunidade com subgrupos flexíveis, relações cruzadas e bastante interação entre todos os indivíduos. Mas, a partir desse momento, alguma coisa começou a se reorganizar. As interações passaram a ficar mais restritas. Os vínculos começaram a se concentrar e aquelas panelinhas que antes eram fluidas começaram a se tornar mais definidas, mais estáveis e mais fechadas. Esse processo foi chamado de polarização. Em vez de uma rede social ampla, cheia de conexões entre diferentes indivíduos, o que começou a surgir foram dois grandes blocos, dois conjuntos de indivíduos que interagiam mais entre si e cada vez menos com outro lado. E isso não foi só uma impressão, isso apareceu nos dados de várias formas. Quando os pesquisadores analisaram quem passava tempo junto, quem se aproximava, quem se limpava e quem formava grupos ao longo do dia, ficou claro, que essas interações passaram a se concentrar dentro desses dois blocos e se tornaram cada vez mais raras entre eles. Ou seja, os chimpanzés ainda estavam no mesmo território, mas socialmente já não estavam mais tão juntos assim. E isso não apareceu só nos padrões gerais das interações. Em 24 de junho de 2015 aconteceu algo bem marcante. Membros dos grupos ocidental e central se aproximaram perto do centro de seu território. E a primeira vista seria só mais um encontro comum. Dentro da dinâmica, fizão e fusão, o esperado era que eles se reunissem normalmente como sempre fizeram, mas não foi isso que aconteceu. Os chimpanzés ocidentais fugiram e os chimpanzés do grupo central começaram a perseguir-los. Depois desse encontro veio algo ainda mais incumum. Por seis semanas, eles simplesmente deixaram de se encontrar. Evitaram uns aos outros, e isso não era algo esperado dentro da dinâmica normal desses animais. Um período tão prolongado de evitação assim nunca havia sido observado antes. A partir daí, esse afastamento foi sim intensificando. Os encontros ficaram mais raros, as interações diminuíram, e o que antes era uma única comunidade com separações temporárias começou a se comportar como duas comunidades diferentes. Em 2016, os machos ocidentais iniciaram a primeira patrulha territorial direcionada aos chimpanzés centrais. Nessa patrulha, os machos ocidentais foram acompanhados por dois machos centrais. Depois disso, as patrulhas dos chimpanzés ocidentais incluíram apenas membros de seu grupo. Em 2017, os machos centrais realizaram sua primeira patrulha em direção aos chimpanzés ocidentais, e as interações agressivas entre eles aumentaram. Durante um encontro em 2017, os chimpanzés ocidentais atacaram coletivamente e feriram gravemente o macho alfa que pertencia ao grupo central, mas havia feito parte do grupo ocidental antes de 2014. Isso mostra que o espaço também começou a mudar. Antes, todos utilizavam praticamente o mesmo território com uma grande sobreposição, mas aos poucos, esse espaço começou a ser dividido. Áreas que antes eram compartilhadas passaram a funcionar como fronteiras, e os dois grupos passaram a ocupar regiões diferentes. Tem um outro ponto que é muito importante, que é a reprodução. Até esse momento, machos e fêmeas de diferentes subgrupos ainda se reproduziam entre si, mas a partir de 2015 isso praticamente deixou de acontecer. Os acas alamentos passaram a ocorrer apenas dentro de cada um desses blocos, o que na prática começou a separar biologicamente esses grupos. Então, olha o que estava acontecendo ali. Sem aqueles marcadores culturais humanos, um grupo que antes era um só começou a se dividir. As relações mudaram, as interações diminuíram, o espaço se reorganizou e a reprodução se separou. Pouco a pouco, duas novas identidades de grupo começaram a surgir. A partir de 2018, aquela separação deixou de ser apenas social, espacial e reproduziva. Ela passou a ser violenta. E mais do que isso, passou a envolver mortes. Depois que os dois grupos estavam completamente separados, começaram a ocorrer ataques organizados de um grupo contra o outro. E esses ataques não eram encontros aleatórios. Eles aconteciam em geral depois de patrulhas territoriais. Ou seja, grupos de machos se deslocavam juntos de forma coordenada entrando no território do outro grupo. E quando encontravam indivíduos isolados, atacavam. Ao longo dos anos seguintes, esse padrão se repetiu várias vezes, foram registradas dezenas de ataques e nesses ataques, vários indivíduos foram mortos. Entre 2018 e 2024, pelo menos 7 machos adultos de um dos grupos foram mortos pelo outro. Mas a violência não parou por aí. A partir de 2021, os ataques passaram a incluir também os filhotes. Por observados, diversos casos de infanticídio, ou seja, a morte intencional de indivíduos ainda jovens. E isso mudou completamente o cenário. Porque não se tratava mais apenas de disputas pontuais, nem de confrontos ou casionais. O que se via ali eram padrão consistente de agressão letal entre dois grupos que poucos anos antes eram um só. Individos que já tinham convivido se alimentado juntos, formado alianças e mantido relações próximas passaram a se tornar alvos. E tem um detalhe que torna tudo isso ainda mais interessante. O grupo que realizou a maior parte desses ataques era o grupo menor. Mesmo em desvantagem numérica, ele conseguiu atacar repetidamente o outro grupo com o sucesso. Isso sugere que não era só o número de indivíduos que importava, mas também o nível de coesão interna. O quanto aqueles indivíduos estavam conectados entre si. Ao longo do tempo, o resultado desses ataques começou a aparecer. O número de indivíduos do grupo atacado foi diminuindo, especialmente entre machos adultos e filhotes. Em vários casos, nem foi possível determinar exatamente a causa da morte. Alguns indivíduos simplesmente desapareceram. Como não apresentavam sinais de doença, existe a possibilidade de que parte dessas mortes também tenha sido resultado desses ataques. Então, o que começou como uma reorganização social, como mudanças nas relações e no espaço, acabou evoluindo para um conflito continuo. Um padrão de violência direcionada, persistente em muitos casos fatal. O que os autores concluíram a partir desse estudo é que esse não foi apenas um caso isolado de agressão entre Chimpanzés, mas um bom exemplo bem documentado de como uma comunidade social pode se reorganizar ao longo do tempo, que a partir disso gerar novos grupos e novos padrões.
de interação. A sissão, observada em Nicogo, foi considerada extremamente rara, tanto pelo tamanho do grupo envolvido que reunia quase 200 individos, incluindo mais de 30 machos atutos, quanto pelo fato de ter sido acompanhada por agressões letais entre individos que antes pertencia uma mesma comunidade. Ao contrário do que costuma acontecer em primatas, a divisão de um grupo geralmente funciona como uma forma de reduzir disputas internas, como por exemplo por alimento ou por parceiros reproduitivos, nesse caso, a separação não levou a um simples alívio dessas tensões. Em vez disso, ela foi seguida por um padrão consistente de ataques coordenados entre os grupos que se formaram. Os autores interpretam esse resultado como um forte suporte a chamada hipóteses das dinâmicas relacionais. Essa hipótesse parte da ideia de que a estrutura de um grupo não é fixa. Ela depende das relações entre os indivíduos que o compõe. Quem interage com quem? Quem copera com quem? Quem passa a evitar quem? A medida que essas relações mudam ao longo do tempo a própria organização do grupo também pode mudar. Se as interações começam a se concentrar entre certos indivíduos e a diminuir entre outros a rede social vai se reorganizando. E, em algum momento, isso pode levar a formação de dois conjuntos cada vez mais separados, com menos contato entre si. A partir daí, esses conjuntos passam a funcionar como grupos distintos com novos limites sociais entre nós e eles. Mesmo que não exista nenhuma diferença cultural como religião, etnia ou ideologia marcando essa divisão. Além disso, o estudo sugere que esse tipo de processo não depende de uma única causa. Fatores, como grande tamanho do grupo, possíveis pressões por recursos, mudanças na hierarquia social, mortes de indivíduos e eventos como epidemias podem ter contribuído para infraquecer conexões dentro da rede social e favorecer a fragmentação do grupo. Esses fatores são interpretados como elementos que em conjunto podem alterar a organização das relações sociais ao longo do tempo. Outro ponto importante, levantado pelos autores, é que a agressão observada não foi direcionada a indivíduos desconhecidos como normalmente acontece em conflitos entre grupos de chimpanzees. Ela ocorreu entre indivíduos que tinham um longo histórico de convivência que já tinham se alimentado juntos, se limpado mutuamente e cooperado em atividades como patrulhas territoriais. Isso mostra que a hostilidade não surgiu simplesmente por falta de familiaridade. O que aconteceu foi uma mudança na própria definição de quem fazia parte do grupo. Individos que antes eram reconhecidos como membros da mesma comunidade passaram a ser tratados como pertencentes a outro grupo. E isso indica que a identidade de grupo nesses animais não depende apenas de quem é conhecido ou desconhecido, mas pode ser reorganizada ao longo do tempo a medida que as relações sociais se transformam. Os resultados também mostram que o grupo responsável pela maior parte dos ataques era numericamente menor. Mesmo assim foi esse grupo menor que realizou a maior parte das incursões e dos ataques letais de forma repetida ao longo do tempo. Isso indica que a dinâmica desses conflitos não depende apenas do número de indivíduos envolvidos. O que parece ter feito diferença foi o nível de coesão interna, ou seja, quantos indivíduos daquele grupo estavam conectados entre si coordenados e capazes de agir junto durante as patrulhas e os ataques. De forma geral, os pesquisadores argumentam que esse caso contribui para a compreensão de como conflitos entre grupos podem surgir a partir de mudanças internas relações sociais sem a necessidade de fatores culturais complexos. Eles discutem no entanto que isso não substituí a importância de fatores culturais na explicação de conflitos humanos, especialmente em contextos de grande escala. O que o estudo propõe é que processos relacionais como a reorganização de vínculos sociais e a formação de novas fronteiras entre grupos podem ter um papel mais fundamental na origem da violência coletiva do que se costuma sumir. Nesse cenário, a violência não surge necessariamente a partir de grandes diferenças culturais. Ela pode emergir de mudanças graduais nas relações entre indivíduos. Eu sou a Mila Massuda e esse foi o Biologia Em Meia Hora.
Podcast Summary
Key Points:
Um estudo recente documentou a divisão permanente de um grupo de chimpanzés selvagens, seguida por violência letal entre subgrupos que antes formavam uma comunidade coesa.
A separação começou com uma polarização social (formação de "panelinhas" estáveis) por volta de 2015, levando à evitação, divisão territorial, isolamento reprodutivo e, finalmente, a ataques coordenados e mortais de 2018 em diante.
Os resultados apoiam a "hipótese das dinâmicas relacionais", sugerindo que mudanças nas relações sociais, sem marcadores culturais como religião ou etnia, podem por si só fragmentar um grupo e gerar violência coletiva.
Summary:
Um estudo publicado na revista Science, discutido no canal Biologia em Meia Hora, documentou um caso raro e bem documentado no Parque Nacional de Kibale, em Uganda. Uma comunidade de chimpanzés (grupo Ngogo), que era grande e coesa, começou a se dividir por volta de 2015 devido a uma polarização social. As interações, antes fluidas, concentraram-se em dois blocos distintos, levando à evitação, à divisão do território e ao fim do cruzamento reprodutivo entre os subgrupos.
Esta separação social e espacial evoluiu para um conflito violento. A partir de 2018, iniciaram-se ataques coordenados e letais de um grupo contra o outro, resultando na morte de vários machos adultos e, posteriormente, de filhotes. O grupo numericamente menor foi o mais agressivo, sugerindo que a coesão interna foi mais crucial que o tamanho do grupo.
O estudo conclui que mudanças nas relações sociais e alianças podem, por si só, redefinir identidades de grupo e desencadear violência coletiva letal, mesmo na ausência de diferenças culturais profundas, oferecendo insights sobre as origens potenciais de conflitos tanto em chimpanzés quanto em humanos.
FAQs
A divisão ocorre devido a mudanças nas relações sociais, como a polarização de interações e a formação de 'panelinhas' mais definidas, sem necessidade de diferenças culturais como religião ou etnia.
Após a separação, houve ataques coordenados e letais entre os grupos, incluindo patrulhas territoriais, mortes de machos adultos e casos de infanticídio, evoluindo para um conflito persistente.
A hipótese sugere que a estrutura de um grupo muda conforme as relações entre indivíduos, e que a concentração de interações pode levar à formação de grupos distintos, mesmo sem marcadores culturais.
É raro devido ao grande tamanho do grupo (quase 200 indivíduos) e porque a divisão foi acompanhada por agressões letais entre indivíduos que antes pertenciam à mesma comunidade.
Fatores como grande tamanho do grupo, pressões por recursos, mudanças na hierarquia social, mortes de indivíduos e epidemias podem enfraquecer conexões sociais e favorecer a fragmentação.
O grupo menor, mas mais coeso, realizou a maioria dos ataques letais, mostrando que a coordenação e conexão interna são mais decisivas do que o número de indivíduos.
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