A conversa entre as professoras Dione e Pamela foca na implementação da lei 11.645, que torna obrigatório o ensino de história e cultura indígena, indo além do calendário comemorativo de abril. Pamela, do povo Cariri, critica a visão estereotipada dos indígenas, muitas vezes reduzida a um "colar de macarrão" ou à figura folclórica. Ela destaca que a sociedade brasileira foi formada por violência colonial e que existem hoje 391 povos indígenas, cada um com saberes complexos e milenares, frequentemente deslegitimados pela valorização excessiva da escrita. Para romper com esse ciclo, os professores devem abandonar a postura de "detentores do saber" e se abrir para conhecimentos ancestrais, integrando-os a disciplinas como matemática (através de grafismos) e ciências (usando medicina tradicional, engenharia alimentar, leitura do céu e da lua). Pamela ressalta que a ausência de alunos autodeclarados indígenas não justifica ignorar a lei, pois a subnotificação é histórica e muitos estudantes carregam ancestralidade indígena não reconhecida. Ela sugere que os educadores estejam atentos ao território, ao cotidiano e aos elementos trazidos pelos alunos, como origens familiares, para criar conexões significativas. A curiosidade e o compromisso com a pesquisa são essenciais para desmistificar estereótipos e fazer com que os saberes indígenas façam sentido para a comunidade escolar. A conversa encerra com o lembrete de que a educação transforma pessoas, que por sua vez podem transformar o mundo.
Desconstruindo Estereótipos Indígenas e a História Colonial
Olá, colegas, educadores e educadoras da nossa rede municipal de educação do Rio de Janeiro, está começando mais um episódio do Freire na veia, o nosso espaço de formação e diálogo.
Eu sou a professora Dione Andrade e hoje nossa conversa toca o cerne da nossa identidade, do nosso compromisso ético e político com a educação.
Vamos falar sobre a lei 11645, mas não sob a ótica do calendário comemorativo de abril.
Queremos falar de presença, de permanência e de saber ancestral no chão da escola o ano inteiro.
E para guiar essa conversa, recebemos hoje a professora Pamela, uma voz fundamental da nossa gerência de educação para relações étnico raciais, a gerer.
Seja muito bem-vinda, Pamela.
Pessoa 2
Muito obrigada, Dione.
Obrigada pelo convite.
É agradeço muito estar aqui é, eu me chamo Pamela souta da Silva, como a Dione me apresentou.
Eu sou uma mulher indígena do povo Cariri, sou professora de artes da rede desde 2012 e nesse momento estou trabalhando na gerência de relações étnico raciais.
Sou parte dessa equipe.
Eu estou muito feliz de estar aqui com você e falando sobre um tema que é tão caro para mim também.
Pessoa 1
Muito bom, Pamela.
A gente sabe que existe uma angústia nas escolas.
Muitos professores querem cumprir a lei, mas acabam caindo no colar de macarrão.
Estereotipando o indígena naquela figura folclórica que só aparece em abril.
Como a gente rompe com esse ciclo e traz a temática para o nosso cotidiano?
Pessoa 2
É fundamental é olhar mesmo para nossa história, né?
Qual é a história do nosso território?
É, a gente não pode seguir ignorando que nós somos uma sociedade que foi constituída a partir de uma violência colonial.
Porque esse encontro, né?
É um encontro que ele foi muito violento para os povos indígenas.
Então acho que é importante a gente pensar para as pessoas.
É pensarem que de de montarem a ideia de que elas sabem tudo sobre as pessoas indígenas, porque existe essa fantasia, né?
De que você sabe tudo sobre as pessoas indígenas.
Falta curiosidade mesmo de conhecer, saber sobre as culturas, de olhar com pra complexidade que as culturas são só.
Nós estamos falando de nações de hoje.
A gente fala de 391 povos, né?
Éramos muito mais.
Hoje nós somos 391 e esse número ele vai crescer, com certeza.
Esse é o ponto principal, se abrir para os saberes e olhar com entender que não se sabe tudo sobre as pessoas indígenas, que tem muita coisa que o colar de macarrão.
Ele não dá conta de absolutamente nada, né?
EE, às vezes isso parece.
As pessoas acham que é muito difícil falar sobre essa temática, porque elas não se abrem mesmo para outros saberes, né?
Porque a gente tem essa ideia de que até nós, como professores, sabemos tudo, sabemos absolutamente tudo.
Nós temos todas as respostas, quando não essa ideia de que dessa visão, mesmo estereotipada, de uma pessoa indígena que se tinha em 1500.
Porque quando a gente vai olhar a documentação.
É essas documentações é AOO do produzidas, né?
Pelos portugueses, essa parte dos a primeira, o primeiro documento falam que é a carta de pero Vaz caminha.
Ele não não tinha a menor noção do que ele tava é encontrando.
E ele ele faz essa carta a partir de uma leitura de mundo que ele tinha.
Ele não compreendia nada sobre as pessoas indígenas que estavam ali, sobre Oo, aquelas culturas milenares, porque era isso que eles estavam encontrando, culturas milenares, povos que estavam aqui.
Já há muito tempo se constituindo, constituindo suas relações culturais, suas relações com a natureza, os povos.
Eles se relacionavam já entre si, né?
Para além de de ser ali um povo fixo, as pessoas já já tinham relações acontecendo aqui.
Relações que a gente poderia ver como relações econômicas, relações comerciais.
Que pra, pra.
Na visão dessas pessoas que enxergaram, eles não conseguiam enxergar mesmo.
Eles tinham aquela ideia de que por esse povo, pelos povos, né, viverem como viviam em consonância e inconfluência com com os seus territórios, existia.
Eles tinham essa visão de que eram povos atrasados, de que povos que não tinham ali, né?
Sua, suas culturas estabelecidas.
Então acho que a primeiro passo é se abrir e reconhecer.
Que se sabe pouquíssimo sobre as sobre as populações indígenas, sobre os povos indígenas, se sabia pouco antes.
E a gente continua reproduzindo esse não saber, né?
Integrando Saberes Ancestrais Indígenas no Currículo Escolar
E aí você pode, por exemplo, substituir o colar de matar um por um, pode sementes, experimentar uma outras outras formas de se relacionar mesmo, trazer outros elementos, muitas vezes elementos dos próprios territórios onde as escolas estão inseridas.
Porque eu acho que essa é uma ideia.
É importante de em relação às pessoas indígenas, né, a relação com o território.
Então, onde você está, o que que você, onde você está inserido aí, o que que se tem de abundância, né?
Essa relação com abundância, com o que é, com tudo que está em volta, com as árvores, com os pássaros.
Existe uma Riqueza que que pode ser nossa parceria, né?
E que se pode falar dos povos indígenas a partir dessa leitura.
Pessoa 1
É importante o professor se se retirar desse é é desse lugar de detentor do saber, né?
De de é entender que muitas coisas a nossa sociedade como um todo ainda não conhece, né?
Então, a figura do professor como esse facilitador e esse mediator é fundamental pra também buscar os novos conhecimentos e os saberes, né?
Pensando nisso, isso é muito potente, né?
Falando na prática pedagógica, como um professor de matemática ou de ciências, por exemplo, pode trazer essa essa temática sem que pareça algo forçado no currículo?
Pessoa 2
Por exemplo, o material matemática em todo lugar.
Ontem eu tava olhando o material, um dos materiais, e eles falam sobre os grafismos, sobre os grafismos indígenas.
Traz assimetria.
Vai ali, conectando saberes que.
Que tão presente nessas práticas, né?
Fazendo aí uma tradução também, né?
Olha a gente, porque não eram, é?
Eu acho que tem 11 coisa muito cruel, né?
Que em relação às culturas orais, que é essa ideia de que se que não se valorizam, é como se a gente tivesse que criar teorias para tudo, né?
Quando você não tem sociedade cujo saberes são passados.
Tem oralidade.
Acho que isso foi fundamental pra nossa sobrevivência até hoje, né?
Como pro pra sobrevivência dos povos indígenas.
E aí é olhar para esses saberes e aí fazer uma tradução, né?
O que eu consigo aqui trazer, né?
De outras outras formas de enxergar o mundo mesmo.
Essa essa questão da matemática nas ciências, eu acho que é muito mais fácil.
Porque a gente nós temos.
Aí é teorias até, né?
Práticas, né?
Mais do que teorias, né?
Nós temos práticas de é milenares.
De de, de estudos científicos.
Quando a gente é pega aí o uso das das medicinas tradicionais, né?
O uso das ervas, o uso que se faz as engenharias, da, da, da, de alimentação, que os a gente fala muito da, dos alimentos, né?
Quer trazer a mandioca, quer trazer o milho, trazer, só que por trás desse, dessa, da mandioca que a gente come hoje, tem muito saber científico, tem muito estudo, tem engenharia de alimentos, tem cruzamento.
De variedade.
Você tem muitas variedades de mandioca, por exemplo.
Então isso é é ciência, né?
É olhar essa as leituras de mundo, a leitura do do, dos, do clima, a leitura do desse, do tempo, das estações, né?
Olhar para o céu, ler a Lua, saber conseguir enxergar é é se localizar hoje em dia a gente.
É uma coisa que a gente, principalmente na cidade, a gente não consegue ver muito o céu, né?
Existe aí toda uma poluição luminosa.
A gente não consegue ter essa, esse olhar.
Muitas vezes a gente passa semana sem nem olhar pro céu, sem se localizar.
E os povos indígenas é se movimentavam por conta a partir dessa leitura do céu, né?
Os calendários, eles veem a partir dessa, desse olhar pro céu, de perceber a natureza, de perceber o que está em volta, perceber os ciclos, né?
Então, acho que assim, ciências é um tem um prato cheio mesmo.
Acho que é 11, é.
É um facilitador.
Eu uma vez eu estive num Quilombo lá na Bahia.
EAA professora do Quilombo da escola do Quilombo.
Ela dizia que.
Ela Foi me me mostrando 11.
Toquinho de mandioca, né?
E que é o caule da mandioca, que é o que se planta, né, da partir daquele caule.
E aí ele tem uns veios ali e ela disse que eles estudavam dezenas e dúzia a partir portavam, né?
Dezenas ali e ela estudava com com as crianças, dezenas a partir desse desse galho ali, da mandioca, desse caule.
Então, como acolher esses saberes que estão aqui há muito tempo?
Que são mesmo deslegitimados, que são colocados em segundo plano.
Porque que eu acho que é a crueldade da da questão da escrita, né?
A gente tem aí, Ah, o que?
Tudo que que surge, que é ante anterior a escrita, é.
É como se fosse uma coisa, é.
É, é muito desvalorizado, né?
Esses saberes, eles são colocados em como menores, né?
Quando não, quando tem ciência, quando tem matemática, quando tem, não tem essa nomenclatura.
Tem outros nomes, né?
Tem outros, outras são chamados de outras coisas, porque pra quando você impregna de sentido, né?
As coisas, imagina se tem uma aula sobre sobre o céu, sobre as fases da Lua, mas.
Estimular as crianças a olharem pro céu, olharem pra lua, olharem pro pro que tá em volta, né, pro que tá vivo, porque tá tudo vivo pulsando.
Então esse como se esse saber fica impregnado de sentido mesmo, né?
Pessoa 1
O próprio movimento da lua que faz no céu é um ângulo, né?
Porque não?
A gente é relacionar isso e encontrar nessas temáticas.
É meios da gente, é, é relacionar ao que a gente tem de conteúdos e habilidades.
A gente trabalhou na pauta desse desse ciclo, tanto em língua portuguesa quanto em matemática.
Essa relação direta, né?
É e trazendo elementos da cultura indígena para dentro da nossa pauta, relacionando o trabalho da matemática e o trabalho da língua portuguesa.
A língua portuguesa, inclusive, tem um eixo, né?
Oralidade em que a gente é, valoriza e é um eixo e que a gente avalia.
Então, né, a gente fez toda essa relação.
A Importância da Ancestralidade Indígena e Autodeclaração
E aí a gente tem uma pergunta que chega muito a gerer, né?
Na minha escola não tem aluno que se autodeclara indígena.
Como eu trabalho isso com crianças que se veem tão distantes dessa realidade?
Pessoa 2
É porque eu acho que assim a gente tá distante.
Mas não está, né?
É quando a gente começa a mexer e começa a trazer essas histórias.
É, elas começam a abrotar mesmo no cotidiano, elas começam a aparecer.
Eu acho que que assim, não ter um estudante autodeclarado não significa que você não tem ali nessa escola pessoas com a ancestralidade indígena.
Eu fui uma estudante da rede, eu não me declarava uma criança indígena.
EE assim é Oo que eu tinha o que eu tive de acesso aos saberes em relação aos povos indígenas.
É, não.
Não davam conta de fortalecer a minha trajetória, a minha história, a história da minha família, a história familiar, as autodeclarações.
Elas são subnotificadas, né?
A gente tá vê.
Se a gente for olhar o histórico dos dos censos, dos últimos censos, a gente não é à toa que a gente tem um Salto de 2010 para 2022.
Não é não é, é, é na no número de autodeclarações por conta de uma mudança também no IBGE.
É até o centro de 91.
Só indígenas aldeados eram contabilizados.
Então a gente tem hoje mais de 50% da população indígena vivendo nos centros urbanos a partir do centro de 2022.
Então tem um projeto de estado pra também nos nos invisibilizar, né?
Até até pouco tempo atrás, antes que a partir da Constituição de 88, isso vai mudando.
E a gente hoje tem muitos avanços, mas esses não ter um estudante autodeclarado não significa que você não tenha que trabalhar a 11645, porque essa é a história desse território EE.
Eu acho que conforme a gente vai mexendo essas coisas, elas vão aparecendo.
Não é tanto.
A gente pensa em é.
A gente fala muito de retirar o concreto.
Retirar OOO cimento, retirar o asfalto para as coisas, pra Terra respirar e crescer, né?
E isso também tem a ver com o nosso corpo, com a nossa, com as nossas histórias.
Então, muitos estudantes estão aí nesse caminho.
E eu acho que quando a gente vê o material reeduca uma formação é o que é, é é 11 outro, outros imaginários, né?
Outros mundos sendo apresentados.
Isso em algum momento também vai estimulando esses estudantes, eu acho.
Eu Acredito, né, que esse essa questão da autodeclaração, por exemplo, daqui a uns anos a gente vai poder fazer uma leitura disso, do quanto essa é interferência mesmo, o quanto essa mudança pra virada mesmo que a gente tem na nossa rede, o quanto o que isso vai reverberar, sabe, em relação a essa questão da da autodeclaração?
A Importância da Curiosidade e Engajamento na Educação
É isso, é isso, Pamela.
Nossa conversa passou voando, mas tenho certeza que o impacto dela fica.
Eu queria para a gente encerrar, que você deixasse uma mensagem para além de toda essa que você já deixou para gente.
É para o professor que está nos ouvindo agora e quer começar essa mudança amanhã.
Pessoa 2
O principal é estar estar atentos também para quem é sua turma, o que aparecem de elementos ali que você pode usar para fortalecer essa, essa, esse vínculo primeiro, esse vínculo com essa, com esse grupo, né?
Com esse, esse encontro, se fortalecer a partir desse encontro.
E o que que sim, o que que a gente pode tentar oferecer?
Eu sempre pensei nas minhas aulas muito assim, o que eu tenho pra oferecer essa comunidade, o que eu tenho a oferecer pra esses estudantes, né?
O que eu que eu estou trazendo aqui que pode ser útil também pra essas pessoas que estão aqui nesse encontro.
Então acho que essa atenção, né?
Estar atento a seu.
As pessoas que estão em volta, porque às vezes é um elemento, é um estudante que diz, olha, eu vim da Paraíba, e aí você já pode trazer ali questões de imigração indígena, questões de quais são os povos desse território.
Quem tá ali tem tanta coisa que pode ser mexida a partir de uma informação, né?
Mas para isso a gente tem que estar com o corpo atento mesmo, precisa estar com o corpo sensível, com o corpo disposto.
AA.
Enfim, acolher isso que está chegando, né?
Então eu acho que eu eu vejo isso assim, que o principal talvez seja essa atenção mesmo.
O que que o que aparece ali que pode ser 11?
Que pode fortalecer esse grupo E que pode.
E o que que você tem pra pra trazer ali pra essa troca, né, a partir do que você, do que vocês estão vivendo, porque aí também não fica uma coisa apartada, né?
Porque às vezes você parece assim, Ah, eu vou falar dos indígenas da Amazônia.
Lindo, incrível.
É importante, você pode trazer as pessoas indígenas da Amazônia e falar, fazer 11, projeto riquíssimo sobre isso, mas não é uma coisa que pontual só.
Porque como?
Como é possível ir aprofundando?
Eu acho que com a partir do território, do cotidiano, da vivência ali, é é possível fazer, ter, ter ali 11.
É ter aulas ou projetos ou por que que sejam muito mais.
É que possam se aprofundar mesmo e fazer sentido, né, que eu acho que é o principal, como a gente faz sentido, como a gente traz saberes que fazem sentido pros estudantes, pra nós também, pro território, pra escola, pra gestão, como é que isso tudo também é tá interligado, né?
Então, enfim, o que que faz, o que faz sentido, né?
E é possível.
E pra isso a gente precisa também se abrir pra estudar, criar outros imaginários, quando a gente fala de ereno geral.
A gente não tem uma receita, você precisa mesmo se comprometer, se envolver com com com o cotidiano, né?
Pessoa 1
Eu IA pontuar exatamente isso.
Assim, além de estar aberto, além de se envolver, é a curiosidade que você em algum momento, também na sua conversa, você tocou.
A gente tem as informações hoje em dia na Palma da mão, né?
Pesquisar, ser curioso, se interessar é encontrar, é meios da de.
É desmistificar, né?
Tudo, todos os estereótipos.
Então tá, tá na Palma da mão mesmo, é Pamela, muito obrigada.
Queria agradecer muito essa nossa conversa.
E você, colega professor, continue conosco nas formações da nossa rede, esse foi mais um Freire na veia, até a próxima.
E lembrem se a educação não transforma o mundo, a educação muda as pessoas que vão transformar o mundo.
Obrigada.
Podcast Summary
Key Points:
A lei 11.645 não deve ser tratada apenas em abril, mas integrada ao currículo escolar durante todo o ano, combatendo estereótipos como o "colar de macarrão".
É essencial reconhecer a violência colonial na formação da sociedade brasileira e a diversidade atual de 391 povos indígenas, com saberes milenares deslegitimados.
Professores devem sair do lugar de "detentores do saber" e se abrir para conhecimentos ancestrais, usando elementos do território e do cotidiano dos alunos.
Disciplinas como matemática e ciências podem incluir saberes indígenas (grafismos, medicina tradicional, engenharia alimentar, leitura do céu e da lua) sem forçar o currículo.
A ausência de alunos autodeclarados indígenas não significa falta de ancestralidade; a subnotificação é histórica e o trabalho com a lei 11.645 deve ser feito independentemente.
O principal é estar atento à turma, valorizar a curiosidade, pesquisar e criar conexões que façam sentido para a comunidade escolar.
Summary:
645, que torna obrigatório o ensino de história e cultura indígena, indo além do calendário comemorativo de abril. Pamela, do povo Cariri, critica a visão estereotipada dos indígenas, muitas vezes reduzida a um "colar de macarrão" ou à figura folclórica. Ela destaca que a sociedade brasileira foi formada por violência colonial e que existem hoje 391 povos indígenas, cada um com saberes complexos e milenares, frequentemente deslegitimados pela valorização excessiva da escrita.
Para romper com esse ciclo, os professores devem abandonar a postura de "detentores do saber" e se abrir para conhecimentos ancestrais, integrando-os a disciplinas como matemática (através de grafismos) e ciências (usando medicina tradicional, engenharia alimentar, leitura do céu e da lua). Pamela ressalta que a ausência de alunos autodeclarados indígenas não justifica ignorar a lei, pois a subnotificação é histórica e muitos estudantes carregam ancestralidade indígena não reconhecida. Ela sugere que os educadores estejam atentos ao território, ao cotidiano e aos elementos trazidos pelos alunos, como origens familiares, para criar conexões significativas.
A curiosidade e o compromisso com a pesquisa são essenciais para desmistificar estereótipos e fazer com que os saberes indígenas façam sentido para a comunidade escolar. A conversa encerra com o lembrete de que a educação transforma pessoas, que por sua vez podem transformar o mundo.
FAQs
Os grafismos indígenas possuem padrões geométricos que podem ser analisados em aulas de matemática. O professor pode pedir aos alunos que identifiquem eixos de simetria nos desenhos, relacionando a arte indígena ao conteúdo curricular.
Porque envolvem conhecimentos complexos, como engenharia de alimentos no cultivo da mandioca, leitura do céu para calendários e uso de medicinas tradicionais. A oralidade não diminui o rigor desses saberes, que são passados por gerações com base em observação e experimentação.
Isso não significa que não haja ancestralidade indígena na comunidade. Muitas pessoas não se autodeclaram devido à subnotificação histórica, já que antes de 1991 só indígenas aldeados eram contabilizados. O professor deve trabalhar a Lei 11.645 de forma contínua, pois a história do território inclui esses povos.
Observando elementos do território, como árvores, sementes ou histórias familiares. Por exemplo, se um aluno diz que veio da Paraíba, o professor pode explorar quais povos indígenas habitam essa região, conectando a vivência ao conteúdo.
Falar sobre indígenas da Amazônia pode ser rico, mas tende a ser genérico. Já a abordagem local, usando elementos do entorno da escola, torna o aprendizado mais significativo e permite aprofundamento, pois conecta o saber ancestral à realidade dos alunos.
O professor pode estimular os alunos a observar as fases da Lua e os ciclos naturais, como os povos indígenas faziam para se localizar e criar calendários. Isso integra conceitos de astronomia e ecologia de forma prática.
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