Speaker 1Olá, seja bem-vindo a mais uma edição do Mundo em Meia Hora. Hoje eu converso no primeiro bloco com Guga Chakra sobre as expectativas para a Assembleia Geral da ONU. Representantes do Irã vão participar da Palestina pelo segundo ano consecutivo? Não. O que estará na mesa no encontro entre o chinês Xi Jinping e Donald Trump em Washington? Com Ariel Palacios no segundo bloco, falando sobre a Venezuela que liberou alguns poucos jornais, portais que eram censurados no país e o otimista projeto de orçamento do presidente Javier Moreira na Argentina para 2027. Guga Chakra com a gente diretamente de Nova Iorque. Bem-vindo, Guga. Oi, Fernando. Oi, Ariel. Oi, ouvintes. Guga, na próxima... Bom, já está acontecendo a Assembleia Geral da ONU, mas na próxima terça-feira acontecem os discursos de chefes de Estado. É a edição de número... 81 da Assembleia Geral da ONU. O tema desse ano, achei interessante, é restaurar a confiança, administrar a transformação, uma ONU que produza resultados para todos. A gente vai ter o presidente Lula, como é tradição, faz o primeiro discurso e logo na sequência tem o discurso do presidente americano Donald Trump. Agora, Guga, primeiramente, você cobre a Assembleia já há muito tempo. Pode nos dizer há quanto tempo e... mudanças mais perceptíveis que você tem?
Speaker 2Olha, Fernando, eu cubro desde 2009 a Assembleia Geral da ONU, primeiro como correspondente do Estadão e, posteriormente, pela Globo News. Então, eu estou lá todos esses anos. Assim, a estrutura, na prática, muda muito pouco. Começa sempre numa terça-feira, é sempre mais ou menos do mesmo jeito. Tem ali o presidente da Assembleia Geral, que discursa primeiro, o secretário-geral da ONU. Aí, passa para o presidente do Brasil, que é o primeiro chefe de Estado ou de governo a discursar. Primeiro representante governamental, vamos colocar assim, a discursar na ONU, o que é um privilégio para o Brasil, de uma certa forma, porque as pessoas acabam prestando um pouquinho mais atenção do que se presta na média, porque o discurso que todos sempre aguardam é do presidente dos Estados Unidos, quando eu comecei a cobrir a ONU, ainda ali era o início do governo Obama, acho que era o primeiro ano do Obama discursando como presidente dos Estados Unidos. Então, claro que gerava muita expectativa, foram oito anos, ele é um grande orador, como a gente sabe, depois veio aquele primeiro período do Trump, também uma expectativa gigantesca, com o Biden mais por ser presidente americano do que por algum talento dele para discursar. Mas sim, era o presidente dos Estados Unidos, enfim, sempre se presta muita atenção no presidente americano. Presta-se atenção também em países envolvidos em alguma grande questão internacional, normalmente uma guerra. Então, é natural que o Netanyahu, que já discursa há muitos anos, a primeira vez que ele discursou ainda foi nos anos 90, a primeira vez que ele foi primeiro-ministro, e Israel muitas vezes envolvido, naturalmente sempre tem a questão palestina, mas outras vezes temas, como agora, naturalmente, a guerra contra o Irã, então tem uma expectativa contra o Netanyahu, e tem sempre a brincadeira, que desde os anos 90 ele fala que o Irã está há alguns meses de conseguir desenvolver uma bomba atômica, e lá se vão quase três décadas, Fernando, até hoje o Irã não tem bomba atômica. Mas, enfim, figuras como Zelensky, naturalmente, muitas vezes por vídeo, mas claro, por ser o presidente da Ucrânia, há expectativa, lideranças iranianas, e sempre se presta muita atenção naquelas figuras exóticas, Fernando. O que é a figura exótica? O Hugo Chávez, o Muammar Gaddafi, o Mahmoud Ahmadinejad, e o Brasil teve seu representante, o Bolsonaro. O Bolsonaro acabou conseguindo se qualificar como uma figura exótica para discursar na ONU, que as pessoas... As pessoas paravam para prestar atenção porque era algo um pouco diferente da normalidade dos discursos. O Milley teve essa expectativa também, mas acabou não conseguindo tanto, não gerou tanta audiência, vamos colocar assim, o próprio Bolsonaro ficou muito aquém do que foi o Ahmadinejad, o Gaddafi e o Hugo Chávez, que eram performáticos, então, naturalmente, se mais a atenção. O interessante, Fernando, é que alguns líderes, por mais que sejam de países considerados muito relevantes na geopolítica, vou pegar figuras conhecidas, vou pegar o Macron, acaba não gerando tanto impacto, porque ele acaba discursando, às vezes, numa quinta-feira à tarde, quer dizer, começa na terça-feira de manhã, aí não se presta muita atenção, o discurso atrasa, porque os anteriores foram falando muito. Então, não tem, acaba, a não ser, claro, no primeiro ano que discursam, mas depois já perde um pouco a força. Os líderes da Rússia e da China, Fernando, eles raramente discursam para a ONU. Você tem uma ideia? Nesse ano, o Xi Jinping vem ao Washington e não vai discursar na ONU em Nova Iorque, ele vai estar na mesma época, na mesma semana.
Speaker 1Mesma semana, é verdade, a gente vai falar mais sobre isso.
Speaker 2Mesma semana, e vão botar o vice-chanceler. Para discursar. A Rússia, em geral, manda o chanceler, é mais tradição da Rússia, mas a China dá umas esnobadas mesmo, assim, na Assembleia Geral, o que acaba enfraquecendo um pouco.
Speaker 1Agora, Guga, os Estados Unidos negaram, pelo segundo ano consecutivo, o visto de entrada ao presidente palestino, Mahmoud Abbas, que pretendia participar da Assembleia, mas tem um contraste. Tem um contraste aí, porque houve autorização de Washington para a entrada de integrantes da cúpula do governo iraniano na mesma reunião. Por que isso?
Speaker 2Porque os Estados Unidos não podem impedir a vinda de representantes iranianos para a Assembleia Geral da ONU. Mas pode, da Palestina? Pode, eu vou explicar o motivo. O Irã, Fernando, o Irã é membro da ONU, membro integral da ONU. E os Estados Unidos, a partir do momento que eles concordaram em ser sede da ONU, eles acharam que aceitaram que representantes iranianos morem em Nova Iorque, o embaixador junto às Nações Unidas e outras diplomatas, e precisam autorizar também que venham aqui seus representantes para discursar durante a Assembleia Geral. Eles não podem impedir. O que existe é uma regra, a regra dos 40 quilômetros. É um raio de 40 quilômetros a partir do Columbus Circle, que é um ponto que fica ali numa das quinas do Central Park. No lado oeste, no lado sudoeste do Central Park, na Rua 59, com a Broadway, a Columbus ali, mais ou menos as duas se cruzam, mas é com a Broadway ali, fica o Columbus Circle. E esse raio de 40 quilômetros acaba englobando os aeroportos, o JFK, o LaGuardia e o Newark, que é lá em Nova Jersey. Então, eles têm condição de chegar a Nova Iorque, ficarem em um hotel e circularem para ir até a ONU ou participar de reuniões bilaterais. Os Estados Unidos não podem impedir, Fernando, então, nesse caso, eles podem vir. Por esse motivo, Fidel Castro vinha, e exemplos citados anteriormente, como o próprio Ahmed Nejad, Mahmoud Ahmed Nejad, que era o presidente do Irã. Dessa vez, claro, tem essa questão, os Estados Unidos estão em guerra com o Irã, mas, em outros casos, países que os Estados Unidos estavam em guerra, também, seus representantes podiam vir para cá. O problema da Palestina é que a Palestina é membro observador da ONU, ela não é membro integral. Ela não é membro integral porque os Estados Unidos vetam no Conselho de Segurança o ingresso da Palestina nas Nações Unidas. Então, por esse motivo que eles não são membros. 150 dos 193 membros da ONU já reconhecem a Palestina como um país independente, ocupado ilegalmente por Israel. Mas os representantes palestinos, primeiro o Rafal, hoje em dia o Mahmoud Abbas, eles podiam vir à ONU discursar os Estados Unidos, concediam visto, mesmo sendo membro observador, falavam, não, não, deixa eles virem, não há problema, inclusive no primeiro mandato do Trump. Nesse segundo mandato, o Trump mudou o argumento americano, é que eles são prejudiciais à paz, o que é uma mentira, é um argumento mentiroso, literalmente, do governo americano, o Abbas continua comprometido com a solução de dois Estados, reconhece Israel no território pré-67, que é basicamente a mesma forma que o Brasil ou a França reconhecem Israel, e aliás, a imensa maioria dos países do mundo, raras exceções como os Estados Unidos, que reconhece, por exemplo, Jerusalém integralmente como parte de Israel, mas enfim. Ele reconhece Israel, está disposto a negociar o problema, e que hoje no lado israelense Tem uma coalizão de governo ultra-extremista, liderada pelo Netanyahu, que rejeita a existência de um Estado palestino, quer dizer, é Israel que não reconhece o direito de a Palestina existir, e não o governo palestino que não reconhece o direito de Israel existir. É Israel quem ocupa os territórios palestinos, e é o governo Netanyahu que se recusa a dialogar para avançar no processo de paz.
Speaker 1Guga, então, agora a gente vai passar para a visita de Xi Jinping ao Washington, marcada para o dia 24, tem questões envolvendo comércio e tarifas, temos duas guerras em andamento, tem terras raras, minerais críticos, tem inteligência artificial, qual que é a expectativa? O que não falta é assunto.
Speaker 2Pode colocar. E também Irã e Ucrânia, todos esses assuntos devem entrar, então vamos colocar. Questões geopolíticas internacionais, claro que a mais importante para a China é Taiwan, naturalmente, a China quer que permaneça da forma atual, o status quo, que os Estados Unidos reconhecem uma só China, embora mantenham relações com Taiwan, comerciais, mas não reconhecem dependência de Taiwan. Então, isso em primeiro lugar. No caso da guerra da Ucrânia, pouco que os dois lados podem avançar, porque, na verdade, diz muito mais respeito ao Vladimir Putin, mas na guerra do Irã, sim, talvez o governo americano, Trump, queira ajuda da China, para a China tentar convencer o Irã a aceitar ali alguma forma de acordo, a China pode trabalhar com o Irã, na verdade, não por causa dos Estados Unidos, mas por causa da Arábia Saudita, que é o importante aliado chinês, que a China compra petróleo. Então, na questão do... Talvez a China ajude. A relação comercial bilateral, que é algo que eles estão sempre negociando e que, para ambos, é muito importante, com impacto para toda a comunidade internacional, afinal, são as duas maiores economias do mundo, a China é o principal parceiro comercial da maioria dos países do planeta, os Estados Unidos também é importante, parceiro comercial de diferentes nações, em geral, um é o primeiro e o outro é o segundo, na maior parte. países do mundo e naturalmente a questão da inteligência artificial quando a gente falava na corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética a inteligência artificial é literalmente Estados Unidos e China e com todas essas questões de desaceleração no desenvolvimento dessa tecnologia é muito, mas muito importante que os dois lados dialoguem, é importante que haja um acordo entre Estados Unidos e China como houve voltando de novo para a gara fria na questão dos armamentos nucleares entre Estados Unidos e União Soviética
Speaker 1Perfeito Guga, então te desejo bom trabalho nessa semana aí em Nova York e a gente volta a se falar em breve, um grande abraço
Speaker 2Obrigado Fernando, abraço Ariel, abraço a todos
Speaker 1Daqui a pouco a gente volta com Ariel Palacios falando mais sobre Venezuela que liberou alguns sites de notícias mas muito poucos, até já De volta agora com Ariel Palacios diretamente de Buenos Aires, Ariel, bem-vindo, tudo bem?
Speaker 3Como está Fernando Guga ouvintes, tudo bem?
Speaker 1Tudo bem, Ariel, a gente vai começar falando sobre Venezuela porque o governo interino de Delce Rodrigues desbloqueou portais de notícias que tinham sido fechados pelo governo de Nicolás Maduro e aí o plano liberou já alguns, o plano liberar cerca de 200 domínios na internet e alguns inclusive são estrangeiros mas ainda tem muita censura para tirar do caminho, né Ariel?
Speaker 3Tem uma imensidão de tem todo um oceano de censura, de repressão para desmontar bom, falando em desmontar o regime da Venezuela começou a desmontar talvez gradualmente uma pequena parte do aparato de censura que foi construído especialmente durante o regime de Nicolás Maduro isto é, de 2013 até o início deste ano, até 3 de janeiro quando ele foi sequestrado por um comando americano e que continuou depois também com o regime de Delce Rodrigues, que havia sido sua vice que agora é autocrata interina bom, a Comissão Nacional de Telecomunicações restabeleceu acesso a 10 portais de notícias que permaneciam bloqueados dentro do território venezuelano, entre eles El Pitaxo é é o Efecto Cocujo, que é um jornal mesmo não é só um site, é um jornal mesmo online, muito detalhado o Runrunes clássico dos clássicos, já mesmo antes do regime Maduro, quando já sofria pressões do governo de Hugo Chávez o Crónica Uno o El Estímulo e também a agência espanhola EFE que mesmo não sendo, você citou estrangeiros mesmo não sendo venezuelana você não podia acessar o site da EFE que é uma antiga agência estatal espanhola, né? e também da revista colombiana Semana é um passo sim, pra frente mas um passo ainda muito pequeno perante o tamanho do problema geral antes desta deste desbloqueio desta decisão do regime de Délice Rodrigues 200 domínios de internet permaneciam bloqueados a ONG V Sem Filtro considera, disse que a medida era importante, mas insuficiente o que é fato, né? E reivindicou o fim das restrições também contra outros meios contra organizações não governamentais contra plataformas e comunicações serviços de VPN, que volta e meia o regime chavista também estava atrapalhando, e esse desbloqueio ocorre no momento em que o regime interino de Délice Rodrigues e a oposição retomam negociações com apoio dos Estados Unidos entrando, perdão no antes, quando eu disse que o regime interino de Délice Rodrigues e a oposição no antes aqui é o regime interino de Délice Rodrigues e um setor da oposição, porque a oposição como um todo não está nessa conversa
Speaker 1tem a mediação dos Estados Unidos
Speaker 3e tem a mediação dos Estados Unidos e de Trump, que não tem pressa nenhuma que os venezuelanos façam eleições, e tampouco o interesse do regime de Délice Rodrigues
Speaker 1Ariel, tem um projeto de lei, de Javier Millet, na Argentina que versa sobre Malvinas mas envolve um artigo sobre desinformação é o artigo 111 que acrescenta ao código penal o crime de desinformação massiva
Speaker 3gostei do verbo versa, muito bem o projeto de lei de defesa da soberania das Malvinas que já parece coisa assim, com um título desse você lembra do ex-ditador argentino Leopoldo Fortunato Galtieri o que desatou a guerra das Malvinas em 82 foi enviado nesta quinta-feira pelo governo de Millet à Câmara de Deputados e dá início a uma nova fase de controvérsios, porque a questão não é a soberania das ilhas, que para a política argentina e para a sociedade argentina de forma geral, é um assunto de consenso todos pensam exatamente da mesma forma, que as Malvinas são da Argentina e que foram conquistadas, usurpadas etc, etc, pelos ingleses a partir de 1833 os argentinos alegam que herdaram da coroa espanhola que a coroa espanhola, por outro lado isso não se comenta, mas herdou isso do Papa graças ao Tratado de Tordesilhas, enfim mas o fato é que isso é um consenso então, o projeto que penaliza as empresas que explorem petróleo, pesca e outros produtos na área das Malvinas que possam ser penalizadas dentro da Argentina, pela Justiça Argentina, isso não se discute inclusive até porque é uma recauchotagem de uma lei similar da Cristina Kirchner de 2011 não é uma novidade dentro do país, essa lei já existe mas não era muito aplicada de forma rigorosa então, a lei quer agora aparecer o durão e que vai aplicar essa lei e que inclusive intensifica o alcance dessa lei bom, então o assunto não é a questão da soberania das ilhas que está causando controvérsia o que está causando controvérsia é um artigo que prevê até 12 anos de cadeia para pessoas envolvidas em e ali vem outra perla das coisas ambíguas e genéricas abre aspas, campanhas coordenadas de desinformação massiva fecha aspas, vinculadas a interesses estrangeiros, o que também é muito genérico então, a proposta modifica o código penal para estabelecer apenas de 5 a 12 anos de cadeia, a quem agindo por ordem, conta o financiamento total ou parcial de um estado, organização ou agente estrangeiro tente alterar processos eleitorais ou, abre aspas, manipular a opinião pública fecha aspas, por meio dessas campanhas e outro dispositivo prevê entre 8 e 15 anos de cadeia para quem promove o financiamento em violência ou sabotagem contra o estado ou seus habitantes com agravantes para ameaças, subornos, coerção ou estruturas criminosas só que a primeira parte que tem causa mais inquietação os deputados opositores afirmam que expressões como desinformação e expressões como manipulação da opinião pública são muito abertas, muito genéricas e podem permitir interpretações de qualquer tipo, discricionárias o deputado Maximiliano Ferraro que é da coalizão cívica classificou a proposta como instrumento potencial de perseguição política e acusou Milei de tentar ampliar com isso o poder do executivo, usando o assunto das Malvinas e ele questionou essa inclusão dessa medida numa legislação um projeto de lei sobre Malvinas, que segundo esse deputado, não deveria servir essa lei, o projeto das Malvinas, para introduzir mecanismos de controle interno. O constitucionalista André Gil Domingues disse que o tipo penal é muito aberto, que pode ser usado contra opositores, e os especialistas dizem que essa proposta poderia chegar ali na beirada da censura prévia, devido à margem conseguida para determinar o que constitui ataque ou tentativa de manipulação. E o Foro de Jornalismo Argentino, o FOPEA, que é uma entidade de quase um quarto de século de existência, também alertou para riscos à liberdade de expressão. A FOPEA argumenta que a lei não define suficientemente quais condutas seriam criminosas e lembra que normas semelhantes já foram utilizadas em vários países para punir dissidentes e desestimular o jornalismo crítico. A oposição, inclusive, destacou uma ironia. O ex-assessor de Milei, e assessor de vários governos de direita e da extrema direita, Fernando Serimedo, que está preso atualmente na Bolívia, porque ele próprio admitiu que fez campanhas eleitorais com notícias negativas, com fake news, e utilizou bots e trolls. Então, quer dizer, com essa lei, esse próprio ex-assessor de Milei, mas que Milei volta e meia estava retuitando, repostando até pouco tempo atrás, poderia ser preso. Então, ironias da política argentina.
Speaker 1Outro projeto, esse é muito importante, o projeto de orçamento do governo argentino para 2027. É importante porque ano que vem vai ter eleição na Argentina. E aí, nesse projeto, Ariel, há lá a previsão de corte de verbas para a saúde, para a educação. E me chamou muita atenção uma previsão de crescimento do PIB de 4%. Aí, quando a gente vai ver o que as consultorias estão trabalhando, é muito acima do que está na previsão, né?
Speaker 3Exatamente. Bom, é... A economia está, de novo, dando sinais de preocupação. O PIB caiu 0,6% no segundo trimestre, em relação aos três primeiros meses do ano. Interrompeu o crescimento 0,7% que havia sido registrado no início deste ano. O problema está, principalmente, na demanda interna. O consumo privado recuou 2,4%. Os investimentos caíram 0,8%. Na comparação anual, o PIB ainda cresceu 2%, sustentado pelas exportações. Tiveram um crescimento de 13,7%. Só que os investimentos dentro do país despencaram 11,1%. Então, se houver uma nova queda no terceiro trimestre, a Argentina entra numa recessão técnica. Então, a deterioração do estado da economia abala os sentimentos da população sobre o andamento do país. E uma pesquisa da consultoria Jorge Jacob indicou que 58,9% dos argentinos consideram que a economia está piorando e 48,9% afirmam que já sentem essa piora. Pessoalmente. Para 47,8%, o programa econômico de Millet está errado e que o sacrifício exigido por ele aos argentinos, em vários discursos, não está tendo resultados. Apenas 35,8% consideram que está havendo uma melhora. O mercado de trabalho tem um sinal bem significativo. O desemprego, que era de 7,6% a um ano e que foi de 7,8% no primeiro trimestre deste ano, subiu de novo para 7,9% no segundo trimestre. A informalidade também cresceu. A informalidade é um problema grave na Argentina desde os anos 90, desde o período do peronista ex-presidente Carlos Mene. Eram 43,2% no ano passado e agora 45% dos trabalhadores informais. Na indústria, somente 58,2% da capacidade instalada estava sendo utilizada em julho. Seis setores operavam abaixo de 50%. E todos os setores operavam abaixo de 50% da sua capacidade. E toda essa debilidade, toda essa fragilidade fica muito mais clara nos setores que não pegaram carona em uma parte da recuperação. Porque houve alguns setores que se recuperaram e outros setores que não. Então, por exemplo, agrobusiness, energia e mineração crescem, só que isso não basta para puxar o conjunto da economia argentina. Até porque, lembremos, agrobusiness, energia e mineração empregam pouquíssimo. Em cima, mão de obra. Os analistas consultados pelo próprio Banco Central Argentino reduziram para 2,1% a previsão de crescimento do PIB em 2026, agora neste ano. E para complicar tudo isso, o tecido empresarial encolhe e vai encolhendo e sem parar. Desde novembro de 2023, quer dizer, semanas antes da posse de Milley, desapareceram 31.342 empresas com empregados registrados. Quer dizer, uma queda de 6,1%. No número de empresas no país. Algumas pessoas vão dizer, sim, mas a inflação está desacelerando. Mas, às vezes, você tem países no interior da Ásia Central e da África que também a inflação cai, que o PIB aumenta. Um índice só não... Uma mundurinha só não faz verão, como diziam. Então, tudo um cenário bastante complexo dentro da Argentina. O que também é uma novidade. O país teve nove grandes crises econômicas desde 1995. Em 1975, nos últimos 51 anos.
Speaker 1Ariel, mais uma vez, obrigado pela conversa aqui no Minha Hora.
Speaker 3Muito obrigado, Fernando Guga e ouvintes, e que tenham todos um bom fim de semana.
Speaker 1Trabalhos técnicos de Daniel Mesquita e Bruno Carvalho. Edição de Gabriel Campos. Até a próxima edição.