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📈 Estamos tentando otimizar demais a vida? | #060

12m 34s

📈 Estamos tentando otimizar demais a vida? | #060

Neste episódio do "Tá para dentro falar", Marcela, conhecida como Tchela, reflete sobre a busca excessiva por otimização na vida moderna, especialmente com o uso de inteligência artificial. Ela começa questionando a pergunta de um seguidor sobre qual IA é melhor para resumir livros, o que a leva a pensar sobre quando começamos a buscar atalhos para experiências que talvez não devessem ser encurtadas. Marcela reconhece o valor da eficiência e da tecnologia, mas alerta para o perigo de aplicar essa mentalidade a áreas como hobbies, leitura e relacionamentos, transformando tudo em desempenho. Ela destaca que a IA pode nos ajudar a pensar melhor ou nos tornar preguiçosos, se passarmos a terceirizar decisões e pensamento crítico. Inspirada pelo livro "Rápido e Devagar", de Daniel Kahneman, ela explica que o cérebro prefere caminhos fáceis, mas que o crescimento pessoal exige esforço e atritos. Marcela conclui que nem todo atrito é um problema; alguns são essenciais para desenvolver habilidades e experiências significativas. Ela sugere que, em vez de otimizar tudo, devemos refletir sobre quais esforços valem a pena ser vividos, e usar o tempo economizado para descansar e aproveitar a vida, não apenas para preenchê-lo com mais tarefas. O episódio termina com um convite à reflexão pessoal sobre o equilíbrio entre eficiência e experiência humana.

Transcription

2293 Words, 12953 Characters

Portuguese
[Bruído] Alo, você tem um minuto? Tá para dentro falar? Falsa de ligar. Preciso te falar uma coisa. [Música] Oi, eu sou a Marcela, mais conhecida por aqui como Tchela. E esse é mais um episódio do "Tá para dentro falar". Esses dias eu estava olhando, scrollando a minha rede social, e eu via alguém perguntando qual era a melhor inteligência artificial para resumir um livro. E aí eu fiquei pensando sobre essa pergunta. Não que exista algo de errado em você resumir um livro. Eu adoro ferramentas que economizam tempo, que otimizam a nossa vida. Enfim, eu falo muito sobre isso também nas redes sociais. Mas aquela pergunta ficou um pouco na minha cabeça, e me trouxe uma reflexão maior, que é o grande tema do episódio de hoje. Porque ela me fez pensar em que momento a gente começou a procurar atalhos para experiências que talvez não tenham sido feitas para serem encurtadas. Já para eu propensar sobre isso. E quanto mais eu entrava nessa temática, mais eu percebi que essa lógica de otimização, principalmente agora como IAI, está em todo lugar. O tempo todo a gente estava buscando formas de otimizar a nossa rotina, o nosso treino, o sono, o trabalho, as nossas finanças, processos do dia a dia, a leitura, como nesse caso da pessoa que estava buscando, a IAI que resumirei o livro. E nessa era de tecnologia de IAI, a gente estava buscando otimizar até o nosso próprio pensamento. Se já reparou. E foi aí que eu comecei a me questionar e veio a tona a pergunta desse episódio. Será que a gente está tentando otimizar demais a nossa vida? Eu acho que uma das palavras mais valorizadas da nossa geração hoje é a eficiência. Inclusive, eu falando por mim, porque eu falei já em algum episódio aqui, e também já postei sobre isso, de que eu decidi, em janeiro de 2006, que a minha palavra do ano era a eficiência. E ainda é, tá? Eu acho que é uma coisa que eu busco, que eu estou conseguindo implementar na minha rotina, no meu trabalho, principalmente, para fazer mais coisas com menos desforço. Então, assim, esse episódio não é um ataque à otimização e à eficiência. Eu acho que existe uma importância muito grande e um saldo muito positivo que aí a IAI trouxe para a nossa vida. Mas eu acho que ao mesmo tempo é uma alerta e um cuidado que a gente tem que ter. Porque ser eficiente quase sempre é visto como algo positivo. Na verdade, sempre a mim sempre foi. Se você consegue fazer algo, na metade do tempo que você faria, melhor, se você consegue automatizar uma tarefa para fazer a mesma tarefa com menos desforço, ótimo. Se tem uma ferramenta que faz o seu trabalho, de um jeito muito mais rápido, perfeito. Então, eu entendo completamente essa lógica. Isso é muito a favor de a gente usar essas ferramentas. Afinal, a tecnologia evoluiu justamente para facilitar a nossa vida. Tem um episódio que inclusive se conecta um pouco com o que a gente está falando aqui agora, que talvez você precise de mais desconforto na sua vida. Eu falei um pouco sobre esse efeito da tecnologia, da nossa vida está muito confortável e muito fácil, mas no outro viés não falei sobre a otimização. Mas se você gosta desse tema, busca esse episódio aqui no Spotify. Mas voltando, o problema da tecnologia é que, talvez, a gente tenha começado a aplicar essa mentalidade de otimização em lugares onde ela não deveria ser o critério principal. Existem algumas coisas na nossa vida, algumas áreas ou algumas situações que não merecem ser otimizadas. Faz sentido. Porque uma coisa é você otimizar uma planilha, um processo. Outra coisa é você tentar otimizar e automatizar experiências, experiências humanas. E talvez seja bem aí que a discussão comece a ficar interessante. E tem uma coisa que eu estou percebendo muito hoje, acho que todo mundo já entendeu isso também da nossa geração. É que ficou difícil você fazer algo simplesmente porque você gosta daquilo, porque te dá prazer, porque te relaxa. Então, toda a leitura precisa gerar um tipo de aprendizado. A academia precisa gerar um resultado visível. A viagem que você faz precisa te render um conteúdo. O hobby precisa desenvolver alguma habilidade. Você precisa ser muito bom naquele hobby. É como se a gente estivesse transformando quase todas as experiências da nossa vida em ferramentas pra chegar em algum lugar. E aí, que tal problema? Porque eu acho que a gente começa a colocar um peso que não deveria existir em coisas como o que eu acabei de falar. Tem um hobby. Quando a gente começou a trelar um hobby, a performance. E claro, sempre trazendo o contraponto aqui, não é que eu estou dizendo que é ruim você ter grandes metas, objetivos, você se cobrar, você querer ser bom nas coisas que você faz. Mas existe uma diferença muito grande entre fazer algo que gera benefícios e fazer algo apenas pelos benefícios, pela experiência em si, porque algumas dessas coisas, como ter um hobby, ler um livro de romance, vão ter valor justamente pela experiência em si. E não pelo resultado final, sabe? E aí, vamos voltar um pouco para o tema da inteligência artificial. Eu não acho que o grande impacto da AI seja só fazer as tarefas mais rápido. Isso por si só é muito bom. Mas para mim não tenha a ver só com a velocidade de execução das tarefas. Quando você joga uma atividade pra ser feita dentro de uma AI, você reduz o seu esforço mental, você tem uma ferramenta que te ajuda a organizar as ideias, resumir conteúdos, criar um racional, uma estrutura de alguma coisa, de algum projeto. Muitas vezes ela ainda te ajuda a tomar decisões. E mais uma vez, eu estou falando em uma posição onde eu uso inteligência artificial literalmente todos os dias. Eu nem sei como eu vejo isso, mas se eu conseguir abrir no meu celular, para ver quantas vezes eu clico no ícone do chat de PT e tipo assim, ele tá na minha tela inicial. Tipo, na minha tela bloqueada do iPhone eu tenho acesso ao chat de PT. Então eu tenho certeza que eu acesse mais vezes do que o próprio Instagram. Justamente por isso, eu acho que existe uma pergunta importante da gente se fazer. Será que a gente tá usando AIA para pensar melhor? Ou para pensar menos? É uma coisa que eu me policio muito. Todas as vezes que eu faço uma pergunta pra AIA, e assim, claro, eu uso muito pra coisas rápidas, sabe muito mais pra parte de informação. Quando eu pego isso do celular que eu falei, no trabalho já é outros 500. Aí eu deixo no computador aberto, eu uso o cloud bastante também. Mas no celular normalmente são perguntas rápidas que eu preciso ali de alguma informação, alguma questão lógica, enfim. Mas quando eu me pego entrando em discussões ou de lemas da minha vida, e aí eu não sei quem já fez isso, mas eu sei que muita gente usa o chat como ter a peuta. Isso é muito perigoso. Mas, enfim, quando eu vejo que eu tô entrando nessa linha T e de sei lá, basear minhas decisões em respostas da AI, aí que eu comece a entender que tá perigoso e comece a me policiar. Porque eu acho que esse é o maior risco. Ao invés de gente usar o nosso favor para impulsionar, para trazer eficiências do nosso trabalho, é a gente começar a ficar preguiçoso e pensar menos. Porque tudo fica extremamente confortável. Fora que a AI sempre vai ser muito enviesada. E a gente sabe disso, ela vai falar que você quer escutar. Então, acho que uma boa ótica para se olhar para essas ferramentas, é que a ideia é que ela consiga ampliar o seu raciocínio de trazer mais elementos de realidade mais fatos para que você construa ali o seu pensamento crítico sozinho. Porque, toda vez que você terceriza ou você deixa AI, assumir alguma função por você, existe uma habilidade que deixou de ser exercitada. Essa é uma das coisas que mais me ajuda a não cair nessa de tercerizar toda a minha vida, todas as minhas decisões pro JAPT. Então, eu tento sempre entender que eu preciso pensar sozinha sobre algumas coisas. Eu não posso ter esse viés de uma inteligência artificial. E mais do que isso, quando eu deixo de usar para ser o mais eficiente possível e faço alguma coisa na mão, faço com o meu pensamento crítico sozinha, eu estou exercitando uma habilidade em mim, que precisa ser exercitada, porque se a gente deixa de fazer isso, a gente esquece como fazer. Próximo bloco. Existe um livro que conversa muito com esse tema. Eu acho que eu nunca trouxe como referência para cá, talvez já tenha falado rapidamente, mas é um livro bem conhecido e que chama "Rápido de Vagar", duas formas de pensar. O autor, que é o Câneman, ele explica que o nosso cérebro funciona através desses dois sistemas, o sistema rápido, intuitivo, automático, e o outro mais lento, analitico e reflexivo. E o que ele mostra ao longo do livro é que o cérebro adora economizar energia. Pensar profundamente sobre alguma coisa da trabalho, refletir da trabalho, tomar decisões difíceis da trabalho, e mais que isso questionar as suas próprias opiniões da trabalho. Por isso, sempre que aparece uma alternativa mais fácil, a tendência natural é a gente escolher esse caminho. Então, pensa nessa lógica aplicada aos dias de hoje. A gente nunca, na história da humanidade, teve tanta ferramenta, teve acesso à tantas ferramentas, capazes de reduzir o esforço mental. Só que muitas as coisas que mais nos fazem crescer na vida e evoluir como pessoas exigem exatamente esses forços, que a gente está deixando de ter. Construir repertório vai te exigir esforço, desenvolver o pensamento crítico exigir esforço. Você forrar opiniões, exigir muito esforço, construir autoconhecimento exigisforço, e não existe atalho para essas coisas todas que eu acabei de falar. E existe uma ideia que eu gosto muito até voltando para esse ponto da otimização de tudo e o periguto do isso, né? É que nem todo atrito é um problema. Alguns atritos, inclusive, são o próprio processo. O que eu quero dizer com isso? Porque quando a gente otimiza tudo, a gente está pegando atalhos, a gente está fugindo ou driblando alguns atritos, certo? Porém, quando você precisa pesquisar uma coisa por conta própria, quando você precisa tomar uma decisão difícil, todos esses processos, quando não atimizados, te geram algum tipo de aprendizado, algum tipo de crescimento. São situações importantes da gente passar por esses atritos. É importante que não exista atalho em algumas situações, é isso que eu quero dizer. Porque hoje a gente fala muito sobre eliminar fricções, sobre ser super-eficiente. Mas a gente esquece que são essas situações, essas fricções, que ajudam a construir habilidades que nenhuma tecnologia consegue te entregar. Então, acho que esse é um pouco da reflexão, assim, talvez o objetivo, o nosso objetivo, não deveria ser removê todo o esforço da nossa vida. Alguns valem apenas ser removidos, mas eu ainda acho que valem entender quais são os esforços que valem apenas passar por, sabe, e fazer na mão mesmo e passar pela ficção e por tudo isso que envolve esse desafio. E aí, existe uma ironia muito interessante, porque durante décadas a tecnologia prometeu nos devolver tempo. Então, a lógica era simples. Se algumas tarefas ficassem mais rápidas, sobraria mais tempo para a gente viver. Mas o que a gente fez com esse tempo? Porque, olhando para a forma como a gente vive hoje, não parece que a gente passou a viver mais. Eu sinto que na minha vida, qualquer tempo é extra que eu tenho, seja porque eu fui a profissiante em um trabalho, porque eu otimisei alguma tarefa, eu vou lá e preencho rapidamente com mais coisa. Quando a gente ganha uma hora livre na agenda, raramente a gente pensa em descansar. A gente sempre pensa em como aproveitar melhor aquele tempo, como encaixar mais uma tarefa, mais um hábito, mais uma meta. [Música] Bom, e para fechar o episódio de hoje, eu gostaria que você olhasse para a sua vida e tentasse refletir um pouco sobre isso. O que eu estou otimizando, que na verdade não deveria ser otimizado? Quais atalhos que eu estou encerindo na minha vida e estão me fazendo perder algumas habilidades importantes, algumas experiências que eu poderia estar passando? E, mais uma vez, esse episódio é muito para mim também, porque eu sou a pessoa da AI que otimiza tudo e que o tempo todo está buscando eficiência. Mas foi até um feedback de uma amiga que eu recebi, uma época de trabalho, que eu nem parava para almoçar, assim. Eu pedia de livre na mesa, não saia da mesa de trabalho. E tudo tinha que ser otimizado rápido, ágil eficiente. E aí ela falou na época, cara, acho que você está perdendo a mão na otimização, sabe? Então, fica esse recado para você olhar um pouco para a sua rotina, entender se você está chegando nesse momento, assim, de otimização extrema e fazer algumas mudanças mesmo e reflexões aí. E também, repara se você não está tentando transformar tudo em desempenho e performance. Todos os seus hobbies, todo o seu tempo livre, otimizando essa parte também que é importante que não seja. Espero que esse episódio tenha sido útil. Deixe a minha dica de leitura de hoje para vocês, que é o livro rápido de vagar e a gente se vê na semana que vem.

Podcast Summary

Key Points:

  1. A busca por otimização e eficiência, impulsionada por ferramentas como IA, está levando as pessoas a procurarem atalhos para experiências que deveriam ser vividas plenamente.
  2. Existe o risco de aplicar a mentalidade de otimização em áreas onde ela não é adequada, como hobbies, leitura e relacionamentos, transformando tudo em desempenho e performance.
  3. A IA pode ser usada para pensar melhor ou para pensar menos; o perigo é terceirizar o pensamento crítico e deixar de exercitar habilidades importantes.
  4. Nem todo atrito ou esforço deve ser eliminado; alguns são essenciais para o crescimento pessoal e construção de repertório.
  5. O tempo "economizado" com otimização muitas vezes é preenchido com mais tarefas, em vez de ser usado para descanso ou experiências significativas.

Summary:

Neste episódio do "Tá para dentro falar", Marcela, conhecida como Tchela, reflete sobre a busca excessiva por otimização na vida moderna, especialmente com o uso de inteligência artificial. Ela começa questionando a pergunta de um seguidor sobre qual IA é melhor para resumir livros, o que a leva a pensar sobre quando começamos a buscar atalhos para experiências que talvez não devessem ser encurtadas. Marcela reconhece o valor da eficiência e da tecnologia, mas alerta para o perigo de aplicar essa mentalidade a áreas como hobbies, leitura e relacionamentos, transformando tudo em desempenho.

Ela destaca que a IA pode nos ajudar a pensar melhor ou nos tornar preguiçosos, se passarmos a terceirizar decisões e pensamento crítico. Inspirada pelo livro "Rápido e Devagar", de Daniel Kahneman, ela explica que o cérebro prefere caminhos fáceis, mas que o crescimento pessoal exige esforço e atritos. Marcela conclui que nem todo atrito é um problema; alguns são essenciais para desenvolver habilidades e experiências significativas.

Ela sugere que, em vez de otimizar tudo, devemos refletir sobre quais esforços valem a pena ser vividos, e usar o tempo economizado para descansar e aproveitar a vida, não apenas para preenchê-lo com mais tarefas. O episódio termina com um convite à reflexão pessoal sobre o equilíbrio entre eficiência e experiência humana.

FAQs

O tema é a reflexão sobre se estamos tentando otimizar demais a nossa vida, especialmente com o uso de inteligência artificial, e se isso nos faz perder experiências e habilidades importantes.

Não, ela usa IA todos os dias e acredita que ela traz eficiência, mas alerta para o risco de usá-la para pensar menos em vez de pensar melhor.

Porque a IA é enviesada e pode falar o que você quer ouvir, além de fazer você terceirizar habilidades importantes como pensamento crítico e autoconhecimento.

Significa que alguns esforços e desafios são essenciais para o aprendizado e crescimento, e não devem ser eliminados com atalhos ou otimização excessiva.

O livro 'Rápido e Devagar', de Daniel Kahneman, que explica como o cérebro prefere economizar energia e tende a escolher caminhos fáceis, o que se conecta com a tendência de usar IA para evitar esforço mental.

Ela sugere refletir sobre quais áreas da vida não devem ser otimizadas, como hobbies e momentos de descanso, e evitar transformar tudo em desempenho e performance.

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