O quarto episódio do podcast Oficina de Psicanálise recebe o psicanalista francês Jean-Michel Vivès, professor de psicopatologia, em uma conversa conduzida por Simone e Júlio Nicodemos, com a participação de alunos e professores. Vivès narra sua formação e revela que sua vocação psicanalítica nasceu de uma paixão infantil pela dimensão poética da língua e pela voz, articulando sentido e não sentido. Ele apresenta sua tese central: o sujeito se constitui a partir de um chamado da voz do Outro, que o neurótico esquece, constituindo um "ponto surdo", enquanto o psicótico permanece invadido por essa voz. O canto e a transferência surgem como anteparos que mantêm a voz à distância. O debate aborda ainda a "voz do poder" e a ameaça da extrema-direita, que tenta homogeneizar e calar as diferenças. Vivès distingue o "grupo", que apaga as singularidades, da "trupe", que as conserva, elogiando a propaganda política brasileira que valoriza o timbre singular de cada voz. Por fim, discute a psicanálise no Brasil, o racismo, as pautas decoloniais e a necessidade de "desemburguesar" a psicanálise, levando-a às periferias. Ele sustenta que a transmissão só ocorre no divã, mas defende uma prática que vá ao encontro das pessoas e das questões sociais, resistindo aos ataques neoliberais e conservadores.
0:11
Pessoa 1
Olá, olá bem vindos ao nosso quarto episódio do podcast oficina de psicanálise, uma atividade articulada pós graduação em clínica psicanalítica do Nilo assali, bem como no pele núcleo de pesquisa de psicanálise e letra.
0:28
Estamos hoje reunidos.
Eu, Simone, ravisini, meu amigo Júlio nicodemos, com o querido psicanalista e professor de psicopatologia da universidade, coach dazu.
Falei certinho.
0:43
Pessoa 2
Quase.
0:44
Pessoa 1
Em Nice é quase como bebê em Nice, na França, Jean Michel vivez que veio gentilmente gravar esse podcast com a gente.
Em meio a um Turbilhão de compromissos aqui no Brasil, temos ao redor, compartilhando desse momento alguns alunos e professores da graduação em psicologia e da pós graduação em clínica psicanalítica, do unila sale, Jean Michel desde que nos conhecemos, em uma fala sua na UFF, Universidade Federal Fluminense, já faz algum tempo.
1:23
Inclusive com a presença de Paulo Vidal, um dos fundadores da oficina de psicanálise.
Ficou encantada com a sua vivacidade e carinho pelo Brasil.
Costumo dizer que você é o francês mais brasileiro que eu conheço.
1:40
Amando o Sol, as praias e as caipirinhas.
Seja bem-vindo ao nosso podcast, Jean Michel vivez.
1:48
Pessoa 2
Muito obrigado.
1:50
Pessoa 1
É ao meu lado aqui, Júlio nicodemos, né?
Mas é a gente hoje foi super organizado, ambos muito organizados.
A gente nunca faz isso, né?
Então é o primeiro podcast, sendo o quarto né, que a gente prepara um roteiro pra fazer perguntas, né?
2:10
Tamanha e a importância da sua vinda.
Então, pra começar, gostaria que você falasse um pouco sobre a sua formação.
Isso nos interessa muito, pois em nosso percurso, meu de julho e de outros professores por aqui, nos ocupamos com a transmissão da psicanálise e a formação de um analista.
2:34
Achei bem bonita a maneira como você foi tocado pela questão da voz e da escuta.
Quando li um trechinho do seu artigo publicado recentemente na revista orelha, por sinal muito bonita, já divulgando aqui a revista.
2:51
O título é a escuta em Caracol, gênese de uma vocação psicanalítica.
Ali você aponta para a descoberta, desmembrar das palavras.
Fazendo ouvir entre aspas o canto dos trens, algo para além do significado, e complementa com a aceção de que o não sentido assombra o sentido e pode poetizá lo o que você já faz nesse artigo, especialmente em seu início, quando diz que a psicanálise não se reduz apenas a um desvelamento do sentido não sabido.
3:32
Mas Visa, sobretudo, a domesticar poeticamente o não sentido sobre e contra o qual se ergue o sentido.
São palavras suas, né?
Nos fale, então, por favor, sobre essa paixão que te fisgou pelos ouvidos e te levou na direção da psicanálise.
3:54
Pessoa 2
Ah, muito obrigado, muito obrigado pelo convite, Simone, e pela apresentação tão carinhosa, né?
Então, eu sou psicólogo.
Eu fiz um doutorado de psicologia e, em paralelo, eu fiz a minha formação de psicanalista.
4:12
Eu tive 3 psicanalistas, um primeiro que faleceu durante a análise e foi uma experiência realmente difícil.
Depois a um segundo.
E no fim eu encontrei Serge le Claire.
4:29
Serge le Claire, que é um psicanalista francês muito importante, foi um aluno de de lacão.
E um encontro com Serge le Claire foi uma coisa extraordinária, porque era 11 pessoa cheia de de tato, não 111.
4:47
Acolhimento delicioso.
Então você fala do do artigo.
E eu encontrei essa Ah, trocadilha.
Existe um trocadilho, né?
Essa trocadia com as palavras desde e início da minha vida.
5:06
Pessoa 1
É, você colocou 10 anos, né?
Sim, ficou.
5:08
Pessoa 2
10 anos de idade, com 111, cantor francês bem conhecido que se chama boby le plantz.
E bebida point é um cantor que que gosta muito de de fazer assonâncias palavras novas EE quando era uma criança.
5:32
Me encantava muito com isso, porque já descobri AA dimensão poética, a dimensão poética da língua e a articulação mobiliana entre o sentido e o não sentido.
5:49
E eu conservei, eu conservei essa, esse gosto para isso.
Então, quando eu comecei?
A minha análise como um psicanalista lacaniano, eu encontrei a psicanálise bem jovem, mas eu precisei.
6:10
Foi uma necessidade para mim encontrar a psicanálise.
Então eu encontrei a psicanálise desde a adolescência e desde o início da psicanálise OE percebi essa dimensão da.
6:27
De uma língua que não seria normal, de uma língua que seria poetizada, de uma língua que seria estranha?
EE eu reconheci imediatamente o trabalho de behilapontes, então me apaixonei totalmente pela psicanálise.
6:46
No início, não queria me tornar um psicanalista, queria fazer biologia, outra coisa.
E minha experiência da psicanálise realmente me conduzi a fazer essa escolha, acho que foi uma escolha.
7:10
Quase obrigatório.
7:11
Pessoa 1
E aqui na faculdade, né, tem a graduação de psicologia e uma das cadeiras é clínica psicanalítica.
E eu sempre falo isso para os alunos, né, que eles vão ser tomados pelo coração, que a escolha, ela é feita pelo coração.
Ela não é uma coisa racional, não bate por esse viés, que foi o que você trouxe.
7:30
Me me chamou muita atenção pelo artigo.
Quando eu li um pedacinho, eu falei, é exatamente isso aonde bate.
No corpo aonde bate?
No coração, então é por aí, né?
7:40
Pessoa 3
É só uma coisa, primeiro, bom dia, senhor Michel, é você ainda não entrou, eu não falei ainda, mas sem problema, Ah, meu Deus, é, acho que nós somos escolhidos também, né?
A gente acha que a gente escolhe, mas você, quando você fala, dá essa dimensão de que a gente também é convocado, é escolhido.
Você falou de uma escolha obrigatória, né?
7:57
Quando a gente se vê, a gente está lá, né?
Isso é interessante, né, porque.
Na faculdade de psicologia, a gente fica achando que a gente vai ter um menu de coisas, né?
E nós somos convocados pela psicanálise, né?
A experiência analítica faz isso.
8:09
Pessoa 2
Acho que podemos reencontrar aqui a questão da pulso invocante, né?
Você sabe que é é um assunto importante para mim, é.
Acho que tem um encontro que funciona como um chamado, um chamado é.
8:26
Eu encontrei a psicanálise e.
Eu experimentei que o lugar certo para mim é tem 11 momento, uma lembrança muito forte para mim.
Um dia um professor que se chama border, não é border. 11 aluno de lacão, então ele falava de lacão, ele falava do seminário, estavam era um professor extraordinário e um dia ele estava falando da dos sadomasoquismo e uma aluna.
9:11
Fez uma pergunta dizendo, Ah, professor, não, não entendo essa questão do ela.
Fez um lapso dizendo, não entendo essa questão do sadochista fazendo uma condensação entre masochista e sádico.
9:33
E então broyer respondeu para ele, você não entende, mas se o inconsciente entendeu, é, gostei disso, é, é realmente para mim, eu quero fazer isso.
Depois eu decidi, Ah, isso é, é, é realmente é interessante. 11 descreverta mostrar o trabalho do do inconsciente no momento mesmo, no momento certo, é uma coisa incrível.
10:03
Pessoa 1
E foi isso que te chamou também para dar aula, né?
Sim, poder passar é isso.
Transmitir isso, né?
Bom, primeiro, antes de chegar na segunda pergunta, queria te dizer que seu português está cada dia melhor.
10:16
Pessoa 2
Obrigado.
Eu gostaria, mas eu sei que é um pouco desajeitado, mas.
10:21
Pessoa 1
Não é não, é com certeza não.
Mas então imagina o meu?
O meu não é conhecível, é o primeiro livro seu que eu tive a oportunidade de ler.
Foi a voz no divã, trouxe até ele aqui comigo, os alunos todos trouxeram ele por aqui também para pegar o autógrafo.
10:42
Foi bem interessante poder saber sobre a Constituição do sujeito, não pelo viés da imagem, mas pela questão da voz.
Isso para mim foi muito esclarecedor e, posso dizer, surpreendente também.
Agora, na sua primeira aula no curso para o esp, você retoma esse ponto muito legal.
11:04
Não sei se posso usar a palavra legal, se é muito coloquial, mas é isso muito legal.
Aquele exemplo clínico sobre o uso do rádio por um psicótico como um modo de situar até a clínica, né?
Mas também a voz.
Em algum lugar, diante de uma alucinação poder localizar no rádio, o inlocalizável me fez lembrar de um exemplo trazido por Paulo Vidal em uma de nossas jornadas de psicanálise e literatura da pós de uma paciente que ele atendia, que chega ao consultório dizendo que resolveu completamente o problema das vozes que a perturbavam.
11:46
Ela lhe disse, foi muito simples, eu apenas desliguei o rádio.
Seria possível então você falar um pouquinho aqui pra gente sobre a especificidade dessa questão da voz e do gozo, o recorte que você quiser e o que você vem trabalhando a partir das suas pesquisas?
12:08
Pessoa 2
Um pouco difícil, porque eu trabalho muito essa.
Essa questão é 11 questão para mim é realmente importante.
Você imagina que para mim, o objeto voz é o objeto de uma minha fantasia?
12:27
Claro, não é?
Mas não vou falar da minha análise e vou falar da da da dessa coisa da articulação entre o sujeito a voz.
A minha hipótese é que o sujeito não seria com a voz do outro num chamado é isso?
12:50
Me parecia muito interessante tentar pensar as coisas assim, porque.
Porque para surgir no palco da no palco subjetivo, o sujeito tem que encontrar um chamado, mas ele tem também que esquecer esse chamado.
13:12
No caso contrário, ele vai continuar ficar invadido pela voz do outro.
É isso.
É a questão da Psicose, não é o neurótico.
Foi chamado, mas ele vai esquecer esse chamado.
13:29
O psicótico nunca vai esquecer esse chamado e por isso que encontramos na Psicose, essa dimensão de demissão.
Eu sou eu sou um psicótico chamado para realizar uma coisa extraordinária.
13:48
É a voz do outro que está me chamando.
Na, na, na neurose o sujeito vai constituir o que eu chamei de ponto surdo ao bebé vai conseguir AAA constituir esse ponto surdo o lugar onde ele pode se ensurdecer a voz do outro para ter sua voz.
14:22
Para ter a voz própria e poder falar sem ficar invadido pela voz do outro.
Mas é os neuróticos que que somos.
Conhecemos também essa perseguição pelo super eu.
14:42
Não é o super eu EEO resto poderíamos dizer, disse a voz do outro que está continuando.
Perseguindo o sujeito.
14:53
Pessoa 3
Você tem uma frase que eu acho que é muito.
É poética e clínica.
Cantamos para espantar a voz do real.
Eu acho que é isso que você está.
15:00
Pessoa 2
Dizendo é isso é OOO, canto para mim seria uma armadilha para a voz do outro, né?
Você sabe que lacum no seminário 11 ou 4 conceitos fundamentais da psicanálise.
15:17
Ele vai falar do quadro como amardia para olhar.
Eu eu fiz AO mesmo trabalho usando o exemplo de lacão para o canto.
O canto seria como o quadro para olhar.
15:34
Oo canto seria a amardia para o avós.
É a exemplo.
O exemplo do psicótico é isso, ele vai localizar a voz No No rádio para manter essa voz a distância.
15:56
Pessoa 1
Que aí ela consegue desligar, é hoje ela consegue operar.
16:00
Pessoa 2
Simbolicamente, mas você sabe que quando estamos atendendo psicóticos, o psicótico pode delirar?
Antes do encontro com nós, durante o encontro, a voz vai calar e depois do encontro a voz vai recomeçar.
16:22
É o que é muito interessante para mim, é que é a transferência.
A transferência como psicótico, pode ser também uma amardia para voz.
É isso.
É 11 ponto clínico essencial.
16:36
Pessoa 3
Que até sustentou um certo corpo ali, que por vezes fica fragmentado e invadido.
16:40
Pessoa 2
Pelo outro, isso.
16:42
Pessoa 3
Eu lembro de um paciente que caminhava comigo dentro do hospital EE.
Ele dizia assim, vai devagar porque meu sangue vai sair para fora.
E eles se espelhavam um pouquinho assim.
E ele conseguia sustentar o corpo dele até o leito e voltar pela minha presença.
Acho que é isso que você está falando.
16:57
Pessoa 2
É isso, a transferência permite estar consistente do corpo para o psicótico.
É uma coisa.
É importante?
17:08
Pessoa 3
Acho que eu posso então fazer uma pergunta aqui é Jean Michel, primeiro, é uma honra de receber aqui, né?
Em Niterói, na universidade, é.
E eu vou fazer 2 perguntas, na verdade.
A primeira, as 2, tem a ver com o meu campo de pesquisa atual, que é pensar psicanálise e sua relação com a política, né?
17:27
E aí, no seu livro a voz no divã, você fala do poder da voz e a voz do poder, né?
E aí, como você já falou do poder da voz, né?
É a partir das perguntas da Simone, eu gostaria que você falasse da voz do poder, né?
17:42
Assim, mais especificamente, o que eu venho acompanhando nas redes sociais de alguns amigos, dessa tentativa do estado francês de restringir a psicanálise nos serviços de saúde, né?
Meu percurso é na saúde pública, né?
Minha formação começa aí, né?
17:58
A psicanálise chegou a mim aí, né, além da universidade.
E eu soube de uma emenda 159 a Amanda acho que é 159, né?
EE, eu fiquei muito assustado com isso, né?
Queria que você pudesse falar um pouquinho assim sobre qual é a paisagem que temos.
18:17
Pessoa 2
Acabou já acabou essa história Na Na Na França, porque quando essa proposta de lei chegou?
Imediatamente, todas as pessoas a fazer a petição para dizer não é possível.
18:37
Pessoa 3
É, eu assinei?
18:39
Pessoa 2
É, rapidamente a coisa acabou, mas mas vai?
Vai voltar?
Claro.
Claro que agora, na França, no Brasil, no mundo inteiro, Oo movimento é um movimento que ataca de maneira.
18:59
Realmente forte e violenta a questão da da psicanálise.
Mas tudo bem, tudo bem.
Acho que realmente a psicanálise vai sobreviver, porque AA proposta dela é uma proposta que nunca se encontra No No outro lugar, jamais essa, esse tato, essa dimensão de subtileza.
19:25
Essa dimensão de abrir sobre uma alteridade, né?
E isso é essencial.
É, é.
Acho que o projeto a político que existe agora, podemos ver com Bolsonaro, com Trump.
19:41
Na França também tem um projeto de Extrema direita, muito forte, né?
Estou preocupado com a ideia que a Extrema direita possa.
Chegar ao poder na França nos nas próximas eleições é uma possibilidade?
19:59
Espero que não, mas uma possibilidade.
Acho que o projeto da Extrema direita e sempre fazer calar as vozes, claro, de maneira claramente, eu estudei porque.
20:16
Amo o Brasil aí.
Sou realmente uma amante do Brasil.
Adoro todo.
Eu estudei as canções das eleições para o Brasil.
AA de da da publicidade para Bolsonaro e da publicidade para Lula.
20:39
É muito interessante porque o canto para Bolsonaro é um canto, há uma voz.
O grupo canta a mesma coisa?
É, é, faz a um dancinho?
É.
Mas a ideia, você tem que fazer um.
20:57
Você tem que cantar a mesma coisa da mesma maneira.
Não, não precisa obter diferença, sobretudo, não queremos.
Obter diferença EOA publicidade para para Lula é bem interessante porque começa como uma Voz 1 timbre especial, bem estranho, e pouco a pouco as pessoas aparecem e isso é bem interessante para mim, que trabalha sobre a questão da voz.
21:31
Essa publicidade, eu não sei como se se chama.
Não é publicidade, é uma publicidade, uma propaganda, obrigado.
Essa proposta é bem interessante porque o timbre, o timbre é o mais singular do sujeito na voz.
21:49
O timbre é o real da voz.
Você vai reconhecer imediatamente o timbre de uma pessoa.
É a pessoa está dizendo alô imediatamente você sabe que amar o amante, a amiga ou o timbre é o que AI de o que tem de mais singular a voz.
22:12
Então, a propaganda de Lula proponhando a essa dimensão do timbre é propôs uma dimensão política que.
Vamos trabalhar sobre a singularidade para fazer um país.
22:32
Cada um vai participar do projeto político desse país.
E é quando eu vi essa propaganda, gostei demais.
Realmente eu sou de esquerda, claro, não vou a mentir, mas acho que a ideia.
22:52
A ideia da do, do, da, da pessoa que realizou a propaganda é uma ideia psicanalítica, usando o timbre, a singularidade da voz de cada um, ele mostra um projeto que, ao contrário do projeto bolsonarista, que é um projeto que vai.
23:16
Arrasar.
23:18
Pessoa 1
Homogeneizar.
23:19
Pessoa 2
Homogeneizar exatamente que vai homogeneizar para fazer desaparecer a diferença é, é um é um projeto ao contrário.
23:32
Pessoa 3
E é interessante.
Eu nunca tinha me dado conta disso, da música da propaganda do Lula.
Tem uma dimensão coletiva, né?
Muitas vozes também ao mesmo tempo.
23:41
Pessoa 2
Mas.
Que se constrói de maneira pouco a pouco para fazer entender a singularidade de cada um.
E essa singularidade de cada um vai permitir construir um projeto, mas dentro cada um vai continuar, continuar existir de maneira singular, eu faço.
24:12
A diferença entre o grupo E a tropa OAAA tropa a tropa de de de teatro é isso.
24:25
Pessoa 1
Trup Trump.
24:27
Pessoa 2
Desculpa o Trump de teatro, a tropa militar, não o trup, o trup, obrigado, o grupe no grupe.
O grupo?
24:44
Ufa, bebê, desculpa o grupo.
No grupo, as diferenças vão desaparecer.
24:55
Pessoa 3
É a massa.
24:56
Pessoa 2
É a massa.
Você você sabe que um psicanalista bem conhecido na França, que se chama didienzo, falo de ilusão grupal.
AA ilusão, ilusão grupal, seria uma maneira de se perder no grupo.
25:19
Eu vou desaparecer como sujeito, no grupo, no trup, no trup.
Desculpa, está no momento.
25:31
Pessoa 3
Onde os gêneros estão se misturando?
25:32
Pessoa 2
OK, netrupp cada um.
Vai participar do projeto imagina AA trupe de de mulher ou celebra dramaturgo francês do século 17?
25:52
A trupe dele era constituída de pessoas muito diferentes, mas cada um participava ao projeto a obra de mulher.
26:07
Acho que temos que pensar a sociedade num como um grupo, mas como uma trupe.
26:17
Pessoa 1
Uma trupe, uma trupe.
26:19
Pessoa 2
Uma trupe, uma trupe que vai conservar OOO singular.
26:24
Pessoa 1
Em suas particularidades.
26:26
Pessoa 2
Suas diferenças, seu sua ligação ao real, que que é o estilo de cada um.
O grupo vai fazer desaparecer o estilo de cada um e a trupe permite conservar o estilo singular de cada um.
26:50
Pessoa 3
Precioso.
João Michel.
26:52
Pessoa 2
Muito bom.
26:53
Pessoa 3
Eu quero depois ouvir muitas vezes a sua fala.
Eu tenho uma última questão que eu fiz 11 roteirinho aqui, mas eu vou falar livremente assim.
É aqui no Brasil, a psicanálise.
Ela tem sido atravessada o tempo todo pela nossa condição histórica e pelas pautas de decolonialidade o racismo.
27:13
Eu queria te ouvir, saber o já que o Renato Palma, que é um grande amigo, né, me falou, né, do seu Encanto pelo Brasil, eu acompanho você.
Sei que você gosta de caipirinha também sei que você gosta da psicanálise aqui do Brasil.
Queria saber se você identifica assim, se essa marca de uma psicanálise no Brasil tem contribuído ao campo psicanalítico no mundo, na França, se isso chega até lá, como é que você entende isso?
27:35
Pessoa 2
Né não, eu gosto muito.
De vir aqui no Brasil, não só para as praias, para vigiacas, não só para amigos e caipirinhas, mas também para trabalhar com os colegas.
27:53
Ah, eu trabalho muito no Brasil.
27:56
Pessoa 3
Inclusive, você já tem vários eventos amanhã também.
27:59
Pessoa 2
Eu, eu, eu gosto disso porque.
Porque eu encontrei aqui no Brasil 11 Liberdade.
Uma Liberdade, uma maneira de de pensar.
AA psicanálise que que me encanta realmente é essa dimensão de pensar AA psicanálise na sociedade, no mundo de pensar, as questões sociais, políticas, a partir da psicanálise, essa questão do, do, do grupo.
28:35
E da trupe, realmente eu pensei isso no Brasil e vendo as propagandas, acho que eu tenho uma.
Como se disse, dívida.
28:51
Pessoa 1
Dívida é.
28:52
Pessoa 2
Uma dívida muito obrigado eu tenho.
Eu tenho 11 dívida muito forte como AAA psicanálise brasileira, porque quando eu volto na França, sempre eu tenho novas ideias e uma maneira para mim de de de bagunçar.
29:15
A minha teoria EEE ter a necessidade de reinventar a psicanálise a partir da dos encontros que eu que eu faço aqui.
29:32
Pessoa 1
Do sem sentido, né?
Para o poético, que é como você colocou ali, né?
29:37
Pessoa 2
EE trabalhar também numa língua estrangeira.
Difícil, você pode ver, e complicado para mim, mas também é uma maneira de me deslocar de de um de um saber que que às vezes pode se se tornar 11 saber.
29:58
Pessoa 1
Engessado, né?
O engessado é uma boa palavra.
30:01
Pessoa 3
Nossa, muito bom te ouvir falando disso, porque a gente sabe que isso é 11.
Momento de tensionamento, né?
Entre a psicanálise na França e algumas pessoas na França e o Brasil.
E acho que é isso.
Precisamos construir essas pontes.
A ponte Nice Niterói, né?
30:17
Assim bem importante, vamos.
30:19
Pessoa 2
Muito obrigado, vamos?
Muito obrigado.
30:21
Pessoa 1
Obrigada, vou passar a palavra então para os alunos, né?
Que estão aqui, se algum dos outros professores, a Talita já levantou ali o dedinho, que ela é assim com o dedinho levantado.
30:33
Pessoa 4
Olá, é meu nome, é Talita valdin, eu sou professora atualmente da Universidade Federal Fluminense, fui professora do curso de pós graduação aqui com Simone e com Paula que está aqui, dentre outros, Júlio, né, dentre outros colegas, e Jean Michel, eu fiquei muito tocada pela sua fala, né?
30:51
Eu sou artista, sou atriz e a gente trabalha muito com a voz e entende esse lugar da voz, né?
E como a voz ela tem, ela dá um direcionamento e ela pode tanto entrar no lugar de uma palavra de ordem.
Né?
O quanto ela pode entrar no lugar de um convite pra gente ampliar olhares, pra pensar outras coisas e a gente vindo vindo pra cá?
31:11
Assim eu me deparei com uma postagem, é de uma página bastante popular aqui no Brasil, que é a mídia Ninja, e relembrando assim alguns fatos que aconteceram essa semana que nós vivemos.
Casos muito, muito tristes assim, né?
De mulheres que foram mortas.
31:26
Por companheiros, por ex companheiros, por desconhecidos.
Mas homens, né?
É, e a gente coloca isso em português como feminicídio, né?
É.
Então esses casos eles ganharam pelo menos 5 deles na última semana, ganharam alcance nacional, e eu, por conta da crueldade, mesmo assim com o que aconteceram.
31:44
E aí eu tava justamente lendo uma pesquisa que foi divulgada pela mija Ninja.
Que fala que é traz alguns dados dizendo que mulheres jovens estão muito mais atreladas às pautas progressistas atualmente, né?
É enquanto os homens jovens estão cada vez mais aliados atrelados às vozes aí que falam uma parte da Extrema direita, né?
32:06
Que é o que você trouxe um pouco na sua fala já.
E isso tem vindo muito no sentido de um temor desses homens, né, a esse discurso de equidade.
E aí eu queria te perguntar assim, a partir da sua análise, do que você tem visto também na França, se tem pensado sobre isso, né?
32:23
É, mas na América Latina, essa é uma pauta muito cara para gente, especialmente porque falo também como uma mulher, né?
É, o que que a gente pode esperar da psicanálise em relação a isso?
32:34
Pessoa 2
É, infelizmente, na França encontramos exatamente a mesma situação, não é?
Podemos ver os jovens homens.
Com masculinismo não é existe.
Com essa identificação. 11 machão insuportável, claro, mas existe.
32:58
Então temos que fazer com com isso.
E realmente tem uma divisão.
As as meninas hoje na França são mais da esquerda e os meninos são mais.
33:16
De de direita até direita à direita.
O que a psicanálise pode fazer?
Nada, nada.
Porque AA psicanálise não é uma coisa que que possa intervir na sociedade, mas podemos.
33:41
Intervir um a um.
A psicanálise não se transmite fora do divão.
Acho que o que estou fazendo aqui não é uma transmissão da psicanálise, é uma informação sobre a psicanálise e bem diferente.
34:00
Não tem transmissão fora do divão, e isso é a é a é a tese de lacão.
Lacom no final do se se o ensino vai, vai dizer, a psicanálise é intransmissível.
34:17
Bom, OK, mas o que é intransmissível?
O que é intransmissível é a experiência do inconsciente.
Não podemos transmitir a hipótese do inconsciente num curso ou na rádio.
34:34
Não é possível.
Podemos transmitir essa experiência no divã como a questão da transferência, então, o que podemos esperar é que um jovem, encontrando a psicanálise, pode acolher, acolher ao estranho ou ou a alteridade que existe.
35:01
MLOK porque a posição, a posição da da, da Extrema direita é sempre a mesma coisa.
A recusa da alteridade, a impossibilidade de acolher a alteridade, que seja feminina, que seja homossexual, que seja estrangeira, é sempre a mesma coisa, a alteridade.
35:26
Então, acho que a psicanálise.
Pode dar uma explicação, pode dar orientação, pode ajudar, fazer informações escolar ou educacional, mas não pode transformar esse movimento, infelizmente.
35:52
Gostaria.
Gostaria muito que a psicanálise possa modificar esse movimento, mas é um movimento.
Que me parece muito forte.
E temos que resistir.
Vamos.
36:05
Pessoa 4
Existia isso, né?
Obrigada.
36:08
Pessoa 2
Não aceitaram.
36:11
Pessoa 1
Isso mesmo.
36:11
Pessoa 5
É, eu estava ouvindo a palestra, falando sobre as crianças.
É se sentindo muito invadidas pela voz na questão do autismo, né?
E quando eu estava ouvindo essa palestra, né, essa aula.
36:28
Eu fiquei pensando na situação de crianças que são é que vivem em outras comunidades, em outras formas de de criação, né?
Que não é pedagógica.
Ela é uma criação que se faz pelo, pela imitação, pelo espelhamento, né?
36:46
É a criança que vê a mãe cuidando de outras crianças, então ela vai lá e cuida do irmão ou.
É, vê o pai, é pescando e vai junto até que um dia consegue pegar o próprio peixe, né?
37:01
Então a minha pergunta é, nos dias de hoje, será que as crianças não estão sendo muito invadidas por vozes?
37:08
Pessoa 1
Antes de responder, né Viviane?
Aluna, né?
Daqui da graduação de psicologia, também participa da pesquisa.
37:18
Pessoa 2
Muito obrigado pela pergunta, então.
O que você está descrevendo é 11 processo de imitação.
Mas esse processo de imitação podemos encontrar nas todas as culturas realmente é 11, movimento essencial para a construção da identidade.
37:43
Podemos ver o garotinho que vai fazer como pai.
Podemos ver a garotinha que vai fazer a mesma coisa que a mãe.
E agora, felizmente, o garoto pode fazer como a mãe.
38:01
EOA garota pode fazer como pai.
Ok, então acho que está questão de invasão pela vós.
Não é uma questão cultural meu, é questão estrutural das todas as culturas.
38:23
Podemos encontrar uma divisão em estrutura psíquica.
Então essa questão da invasão da voz que vamos encontrada no autismo, realmente, porque?
38:38
O sujeito autista não pode ceder a voz.
Então ele completado pela voz é, isso é.
É uma questão terrível.
Eu grito que a criança autista está fazendo sempre uma maneira de tentar, de se de completar de seu jeito, sem, sem conseguir.
39:03
No caso da da Psicose é um pouco diferente, porque o psicótico é.
Ele tenta manter a distância essa voz, mas ela volta sempre, sempre, sempre.
E na neurose a coisa é um pouco diferente.
39:22
O sujeito neurótico conseguiu se ensurdecer a voz de outro, mas tem um traço.
E o traço é o super eu, o superior é super eu, que vai continuar dizendo é, é.
39:37
Você fez a experiência, você não pode, você não tem que fazer isso.
Você não vai conseguir.
Ah, e você conseguiu.
Parabéns.
39:51
Pessoa 5
Disse que IA acabar no divã.
39:55
Pessoa 6
Bom dia, meu nome é Paula Coutinho, eu sou professora da pós de psicanálise aqui.
E, bom, não tava com a questão que a Talita formulou.
E a partir da sua resposta me veio outra que é uma questão da transmissão da psicanálise.
É você diz a tese do lacan de que a transmissão só se dá no divã.
40:15
No entanto, a gente vem vendo uma expansão do discurso psicanalítico, tanto numa certa captura pelo neoliberalismo.
Uma tentativa de, né?
De forçar a psicanálise a caber nos moldes.
É de uma regulamentação da psicanálise por um lado e por outro também.
40:33
Aqui no Brasil, isso que você diz na de uma psicanálise, digamos assim, decolonial uma psicanálise ocupada aí das questões da colonização, da política, também uma expansão da psicanálise para a periferia, uma preocupação de como é que a gente faz.
40:49
A psicanálise sai de uma lógica central de dos.
Do núcleo da zona sul, onde estão as a maioria das escolas de psicanálise, para alcançar espaços periféricos, para abrir para pessoas negras, né?
Pessoas racializadas poderem fazer as suas formações em psicanálise e o psicanalista deixar de ser essa pessoa branca aburguesada.
41:11
Queria saber como é que?
Como é que você vê essa questão do neoliberalismo entrando na psicanálise e quais são as possibilidades da gente se não transmitir?
Porque essa uma experiência que se faz no divã.
Expandir o discurso psicanalítico torná lo mais acessível para pessoas não que hegemonicamente são as pessoas que dominam a psicanálise, digamos assim, né?
41:33
Pessoa 2
É uma questão maravilhosa e bem difícil, mas eu vou tentar responder um pouco rapidamente a partir de minha experiência.
Eu comecei meu trabalho a quando era a 23.
41:51
Na rua, na rua, encontrando Oo os meninos desporalizado não que que não vão na escola.
42:05
Pessoa 3
Sem escolarização?
42:06
Pessoa 2
Sem escolar, é isso, então eu estava tento encontrando e caminhando.
Com com eles falando, meus colegas de educadores que estavam trabalhando comigo me chamavam de psicoteraputa, porque que está na rua, andando, andando e para encontrar o cliente, então?
42:45
Eu fiz esse trabalho e gostei demais, sabe não de fazer a psicotera.
42:51
Pessoa 1
Para Deus também é.
42:53
Pessoa 2
É, é então essa ideia que a psicanálise a possa ir ao encontro das pessoas?
Me parecer uma coisa maravilhosa?
Realmente eu gostei demais de fazer isso.
43:09
Agora eu sou 11 idoso num consertório.
As coisas mudaram, não é?
Mas começar minha prática fazendo isso.
43:24
É e já para mim foi um ato político trazer AA psicanálise da rua, não para convertir.
43:40
Você entende converter, existe convertar converter, OK, não para converter as pessoas.
A psicanálise não sou um missionário da psicanálise, não sou um creante da da psicanálise, não.
43:56
Quando uma pessoa chegar no meu consultório dizendo Ah, o saber, Ah, você sabe, não creu no inconsciente, eu respondo sempre.
Que bom.
Eu também não creio no inconsciente, porque eu respondo isso para dizer que a psicanálise não uma questão de criança.
44:20
Hum, é uma questão de experiência.
Temos que experimentar o que a psicanálise pode nos fazer?
Tocar do inconsciente.
A lacom no fim do do no fim do ensino dele, vai ter uma expressão maravilhosa dizendo que a psicanálise permite encontrar um toque do real num um toque de real.
44:56
Me do real é.
A psicanálise permite encontrar o real, diferentemente, não mentar a distância o real.
Ah, estou angustiado, mas traquejar AA sabariffer traquejar saber fazer, saber fazer com com essa questão do real, então, claro.
45:24
Que eu espero que a as psicanalista da periferia, podemos reinventar a psicanálise a partir dos lugares periféricos.
Ah, é essencial.
É essencial.
45:41
Temos que desembolguiser.
Desenvolver desembolguizar eu tentei, eu passo.
45:50
Pessoa 3
Minha vida no Brasil.
45:52
Pessoa 2
Tentando coisas às vezes funciona, às vezes não funciona.
45:57
Pessoa 1
Mesmo quando não funciona, funciona, né?
46:00
Pessoa 2
Desembolguizar AA psicanálise a partir desse lugar estranhos fora do do centro, a questão trans, a questão, todas essas questões que.
Hoje me parece, me parece essencial.
46:17
Realmente é essencial.
Temos que sustentar, sustentar esse.
Esse projeto é essencial para a psicanálise?
EE, não.
Sobretudo para a psicanálise, mas além disso, para as pessoas.
46:35
Obrigado, Michel, muito.
46:35
Pessoa 1
Obrigado, nossa, a gente que tem agradecer porque foi lindo, né?
A.
46:40
Pessoa 3
Gente anotando esse significante aqui, psicoteraputa.
46:44
Pessoa 1
Tá?
Ele vai guardar.
AI, meu Deus, vou sofrer com isso daqui em diante.
Mas assim em nome de todos, né?
Os professores, os alunos.
Junto com o Júlio, meu parceiro sempre, né?
Nossas empreitadas.
Tô lembrando aqui da frase do livro que eu te dei, que me lembrei de você, que é começar e escolher uma palavra e inventar o mundo.
47:08
Então acho que a gente inventou um mundo aqui muito poético, com a sua contribuição.
Então só agradecimento.
47:15
Pessoa 2
Muito obrigado.
Foi um prazer.
Eu poderia continuar falando com vocês o dia inteiro, mas eu tenho que perder uma.
Caipirinha agora?
Muito obrigado para a técnica foi.
47:28
Pessoa 1
Ótimo.
47:30
Pessoa 3
Muito obrigado.
Tem 1000 perguntas aqui, mas a gente vai ter que fazer isso num outro momento.
47:35
Pessoa 2
Obrigado a vocês, obrigado.
Podcast Summary
Key Points:
O podcast recebe o psicanalista francês Jean-Michel Vivès, professor de psicopatologia, para discutir sua formação e sua relação com a psicanálise.
Vivès relata que sua vocação psicanalítica nasceu de uma paixão pela dimensão poética da língua, pela voz e pela escuta, desde a infância.
Ele desenvolve a tese de que o sujeito se constitui a partir de um chamado da voz do outro, que o neurótico esquece e o psicótico não consegue esquecer.
O canto e a transferência funcionam como anteparos à voz do Outro, protegendo o sujeito de ser invadido por ela.
Vivès analisa a "voz do poder" e a ameaça da extrema-direita, que busca homogeneizar e fazer calar as vozes singulares.
Ele distingue o "grupo", que apaga as diferenças, da "trupe", que conserva o estilo singular de cada um.
A psicanálise brasileira, segundo o convidado, o inspira a reinventar a teoria e a "desemburguesar" a psicanálise a partir das margens.
Vivès afirma que a transmissão da psicanálise só se dá no divã, mas defende uma psicanálise que vá ao encontro das pessoas e das questões sociais.
Summary:
O quarto episódio do podcast Oficina de Psicanálise recebe o psicanalista francês Jean-Michel Vivès, professor de psicopatologia, em uma conversa conduzida por Simone e Júlio Nicodemos, com a participação de alunos e professores. Vivès narra sua formação e revela que sua vocação psicanalítica nasceu de uma paixão infantil pela dimensão poética da língua e pela voz, articulando sentido e não sentido. Ele apresenta sua tese central: o sujeito se constitui a partir de um chamado da voz do Outro, que o neurótico esquece, constituindo um "ponto surdo", enquanto o psicótico permanece invadido por essa voz.
O canto e a transferência surgem como anteparos que mantêm a voz à distância. O debate aborda ainda a "voz do poder" e a ameaça da extrema-direita, que tenta homogeneizar e calar as diferenças. Vivès distingue o "grupo", que apaga as singularidades, da "trupe", que as conserva, elogiando a propaganda política brasileira que valoriza o timbre singular de cada voz.
Por fim, discute a psicanálise no Brasil, o racismo, as pautas decoloniais e a necessidade de "desemburguesar" a psicanálise, levando-a às periferias. Ele sustenta que a transmissão só ocorre no divã, mas defende uma prática que vá ao encontro das pessoas e das questões sociais, resistindo aos ataques neoliberais e conservadores.
FAQs
É o lugar que o neurótico constitui para se ensurdecer à voz do outro e poder ter voz própria. O psicótico, por não esquecer o chamado da voz, nunca constitui esse ponto e permanece invadido por ela.
A transferência opera como uma 'armadilha para a voz', mantendo-a à distância durante a sessão. O psicótico pode delirar antes e depois do encontro, mas a voz cala durante a transferência, permitindo sustentar o corpo.
No grupo, as diferenças desaparecem e o sujeito se perde na massa, numa 'ilusão grupal'. Na trupe, cada um conserva sua singularidade e estilo, participando do projeto coletivo sem se dissolver.
O timbre é o mais singular do sujeito na voz, seu 'real'. A propaganda de Lula usava timbres singulares que se somavam, valorizando a diferença, enquanto a de Bolsonaro homogeneizava as vozes num grupo.
Ele retoma a tese de Lacan de que o que é intransmissível é a experiência do inconsciente. Só se transmite psicanálise no divã, pela transferência; fora dele, faz-se apenas informação sobre psicanálise.
É reinventar a psicanálise a partir das periferias e de questões trans e raciais, tirando-a do centro burguês. Vivès relata ter começado aos 23 anos na rua com jovens desescolarizados, como ato político.
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