Em um mundo onde os encontros afetivos e sexuais são cada vez mais mediados pelas telas, não tem jeito: você vai mandar ou receber um nude. Mas o que começou como uma simples ação de leveza e diversão, se tornou em um dilema da era digital.E para responder o que é o amor - e um nude -, chamei a Beatriz Accioly, que é uma antropóloga com longa experiência em estudos sobre violência doméstica e familiar contra mulheres, enveredando bastante sobre direitos humanos e da internet. E foi nessa caminhada que ela acabo...
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6214 Words, 35175 Characters
[música] Olá, eu sou Michelle Alcuforado e esse é o TudoCupa da Cultura, um podcast de um antropólogo, com outros antropólogos, para não antropólogos. Aqui você vai descobrir que seus hábitos, formas de pensar, preferências, e até mesmo suas angústias, são de algum modo culpa da cultura. Calma, eu te explico, a cultura nada mais é do que uma massaroca de sentido construída coletivamente, com força de te dar um lugar no mundo, é o que te permite viver junto dos outros. A gente inventa a cultura do mesmo modo que ela nos inventa. Nessa temporada, você vai entender que o amor é uma construção cultural. E se você está rastando o chifre no asfalo, está se apaixonando pela pessoa errada, está achando seu casamento insuço, e que abre a relação bem. Pode não ser só culpa sua. Afinal, você já sabe. É tudo culpa da cultura. [música] Beatriz Acioli, o que é o amor? O amor é esse lugar da ambivalência de sentimentos mais também de práticas e práticas complexas, não todos positivos. O amor é uma produção só escultural, que isso é quase um jargão, já batido da gente das cências sociais. O amor é uma expressão de códigos de gênero, o amor, ele não exclua violência, ele não excluiu monte de experiência e sentimento negativo. Tem até uma expressão ativista que me incomoda histórica no Brasil, e eu entendo o lugar na história dela, que é a quem ama não mata. Mas isso é mais um desejo do que uma realidade. É muito mais uma vontade, na prática, mata assim, mata muito, viola muito. [música] Beatriz Acioli é uma antropóloga com ampla experiência nos estudos de violência doméstica e familiar contra mulheres, além de enveredar para caramba sobre o tema dos direitos humanos e da internet. Foi nessa toada que ela acabou caindo num tema central aos nossos tempos. Os nudes. Em um mundo em que os encontros afetivos e sexuais são cada vez mais mediados pelas telas e pelos aplicativos de encontro. Uma hora ou outra, você aí. E sim, você aí que tá me ouvindo, vai mandar ou receber uma foto de pinto ou de pepeca. Não tem jeito. Mas que era para ser fonte de curteção, prazer e alegria, tem gerado uma quantidade enorme de sofrimento de todos os tamanhos. E aí, o que você faz? Mandem corre o risco, não mandem, não pega ninguém, sofre porque tem que mandar ou sofre porque não mandou. Beatriz Acioli conta tudo pra gente e a sua stenografia virou um livro, chama-se Caio na Net. Nudes e exposição de mulheres na internet é suco de antropologia. [música] Mas antes de gente entrar nesse assunto, eu queria que você me contasse um pouquinho, como é que você caiu nessa de antropologia? Que às vezes eu acho que é quase um carro, mas esse negócio, eu ouço em outras palavras aqui, mas acadêmicas, quase uma vocação, no chamado de vindo que leva a gente a cometer esse. esse ato. [risos] Eu tenho a impressão de que eu queria ser uma intelectual. Eu achava muito bonito aquelas pessoas que davam entrevista nos jornais, como especialistas, como a estanteia de livros atrás e aparecia flam de tal, especialista da uso, fechava aquilo excelente. Eu, quando eu entrei na faculdade, eu já decidi de cara que era que eu menos gostava de antropologia. E eu ia ser socióloga ou cientista política. Eu achava assim, "Ah, mas tem que ter essas aulas de antropologia pra quê?" E aí é muito louco, porque parece um pouco uma frase descabida, mas eu costumo dizer que a antropologia salvou minha vida, assim, que nem as pessoas falam de Jesus, das suas religiosidades. Mas eu me vejo muito como antropologia, como uma forma de estar, pensar e evitar o mundo, sabe? Mas tem um negócio que é legal também, que por mais que a gente escolha, a caída de cabeça nos textos teóricos, em geral a gente consegue apontar um momento onde você acha que virou antropólogo. Eu sei que essa viração é contínua, e você se questiona até hoje, se é antropóloga suficiente ou não, mas há um momento quase um rito de passagem, um marco fundamental, que vai dizer "olha, eu acho que estou virando antropólogo agora". Na tua história qual foi esse momento? Eu acho que eu me senti uma antropóloga indo a campo, nessa experiência. O meu campo era um endelegacia de polícia, eu brinco com isso no meu texto da medicitação. Imagina-se numa ilha deserta, que é o texto clássico do Mali Noves, que é um grande cano para a antropologia dos argonautos do Pacífico Sistental. Bruno Islam, Mali Noves, que é o cara, é considerado por muitos um dos pais da antropologia moderna. E, principal, sistematizador, que é um trabalho de campotinográfico. A minha ilha deserta é, de repente, toda uma delegacia de polícia, com a autorização da coordenadora estadual, para poder trabalhar, a ficar lá dentro, mexer nos inquéritos, mas tem a menor ideia do que fazer, por onde começar, onde sentar, e ali eu me senti totalmente deslocada, e eu acho que antropologia essa experiência de deslocamento, mesmo de se perceber num lugar diferente do seu de costumem. E, de começar, bolar estratégias para entender aquele lugar, para interagir com ele, para contar sobre ele. Mas, depois, você vai entrar no doutorado nesse assunto dos nudes. Eu confesso para você que, com crescimento, com a unipresença, dos epindates, dos aplicativos de encontro. Toda vez com o amigo meu, uma amiga minha diz que está conhecendo alguém, em algum lugar, se essa conversa prosseguir um pouquinho mais, eles vão chegar nessa unipresença também, da necessidade de você mandar nudes. E eu fui descobrir, na longo do tempo, que nudes não eram uma foto sua, pelo lado, ou não era uma foto só de um pedaço do seu corpo. Tinha toda uma produção estética de filtros, ações, para poder despertar o interesse do outro para esse encontro. Mas, todo mundo, de algum modo, ou vai mandar nudes ou já recebeu nudes ou já mandou nudes, mas esse era um assunto que, algum momento, todo mundo ia ter que passar. Eu queria entender como é que você chegou nesse assunto. Eu cheguei nessa pesquisa, que acabou sendo a pesquisa sobre nudes, e muitos colegas, e me chamam de doutor nudes. Um título que eu também levo com o orgulho. A partir da minha pesquisa de mestrado, que foi sobre o trabalho policial, e era um período, assim, em início dos anos 2010, em que os smartphones, quanto dispositivos estavam popularizando no Brasil, com a internet móvel, e as redes sociais, nos smartphones. Essa triad tecnológica, nos smartphones, com câmera frontal, também, que são uma grande mudança na nossa relação com a imagem. Presta atenção nisso. A cultura cria a nossa necessidade por avanços tecnológicos, mas depois de inventadas, essas tractanas também nos inventam. É dialético, sem internet móvel, sem os smartphones, e sem a câmera frontal, e digo mais, sem os app-in-dates. A gente não ia ter essa farra dos nudes. Não ia ter aí pintinhos, peitinhos e pepecas, pra todo lado como a gente vê. E aí, tá melhor pior, hein? Hum, não sei, hein. E nas delegacias começavam a chegar a muitas mulheres com demandas relacionadas aos celulares. Desde ele quebrou meu celular, ele me impede que eu acesse meu celular, ele invadia as minhas contas. Até o ele disse que vai espor imagens minha, que vai mandar as minhas imagens os meus nudes. Mas B3 me contem, o que é o nudes? Assim, se a gente conseguir se definiu, o que é o nudes? O nudes pode ser muitas coisas. Desde literalmente, na língua inglesa, por exemplo, que é dizer uma certa tonalidade, tom da pele, então tem roupa nude, tem baton nude. Até imagens que incluem ou ensinam o ámgo, tipo de nudeis, na iconografia das artes. Mas no momento que a gente vive, nesse momento marcado pela satria de tecnológica, do smartphone com câmera frontal, da internet móvel e das redes sociais por aplicativo, o nudes é essa linguagem que não é só também pro outro, pode ser pra si, também, que é uma das coisas que eu trago no meu trabalho, de explorar formas de apresentar o seu corpo a partir da nudeis, da seminudeis, que é uma categoria que aparece, ou da sugestão da nudeis. E o nude é muito um alto retrato também, essa experiência de poder se perceber de quem aponta a câmera, não mais ser o outro e ser esse próprio, porque para as mulheres é uma grande transformação na história da produção de imagem. Então, o nude é uma ferramenta de pequera, de sedução, ele é uma linguagem sensual, erótica, mas ele também é uma ferramenta de autoconhecimento, de exploração da própria imagem, de relação com o poder do registro da imagem. Então, ele é muito múltiplo e interessante. E ele também é uma disputa por direitos sexuais, direitos aos nudes, que aparecem. Bastante, na minha pesquisa, o direito de exercer uma sexualidade sadia, segura e consensual, que não seja violada. Um nude, simples nude, é coisa pra chuchu, hein? Tu já reparou nisso? Oato transgressor de explorar a própria nudeis, ou de ter interesse pela nudeis do outro, está presente ao longo da história. Mas é interessante notar que essa unir presença do nudeis, como forma de construção de vínculo com outro. E mais do que isso, só, não como um momento de expressão artística, mas como um caminho pra estabelecer vínculo com outro, é um fenômeno recente dos nossos tempos, assim. Como é que esse negócio se transforma no fenômeno social? É interessante isso, porque eu acho que, ao longo de todo esse meu trabalho com esse elemento tecnológico, aparece essa pergunta de, é uma grande novidade, ou é como nas palavras aí do poema, do prever a novidade, como é velha a novidade? "Oh, meu compromisso contigo é contar sobre as referências de autores antropólogos. Poeta francesa, eu não conheço." Foi mal. Eu acho que tem essas duas coisas, porque ao mesmo tempo em que tem possibilidades que só o contexto atual possibilitam com o telefone no modelo smartphone com a câmera frontal, conexão, móvel com a internet, e as redes sociais para aplicativos nesses mesmos telefones, permitem que a gente registre fotos, armazen, fotos de troque, fotos, imagens e vídeos, é numa velocidade, numa escala que a gente nunca fez antes. Então, tem um elemento que é muito novidade, mas tem um elemento que também é uma nutrição do que a gente já tinha. Então, essa ideia de registrar no deis, a sua e dos outros, é algo que todas as ferramentas de registro de imagem, desde que a gente inventa como sociedade a câmera fotográfica, a câmera de filmagem. O gênero dos filmes ditos pornográficos é tão antigo quanto a história do cinema, a história do registro de imagem. E a mesma resposta, acho que vale sobre se é uma relação com sigo ou com os outros, acho que são as duas coisas. A experiência do nude é tanto uma estabelecimento de vínculos e uma relação com esse mundo exterior, quanto uma relação consigo própria de tal modo que muitas pessoas que eu encontrei, ao longo da minha pesquisa no campo, sobretudo mulheres e meninas que têm a prática cotidiana de registrar fotos de sínodes e selfies, dizem que nem gostam de imagens que não são feitas por si próprios, só gostam das fotos que elas mesmo tiram, porque elas já conhecem os seus ângulos, já conhecem as suas preferências. Então, acho que a resposta para essas duas perguntas é os dois, as duas coisas conviven. E o nude é um fenômeno muito dos nossos tempos, tanto na sua possibilidade positiva de uma relação de fluição, de prazer, de autogoso e de estabelecimento de vínculos heróticos, sensuais e afetivos, quanto na possibilidade de violação, de sofrimento, disso de alguma maneira esparramar, para além do que a gente imaginou que essa imagem ia chegar. E esse negócio de vasar nude? Coisa do nosso tempo? Eu conto, ao longo da minha pesquisa, por exemplo, que a ideia de um nude vazado ela ganha contornos muito específicos nos nossos tempos com as redes sociais e com um estanto de imagem que a gente produz é armazena e troca. Mas a primeira capa da revista Playboy, por exemplo, da década de 50, ela é certa maneira, ela é um nude, não consensual, para um fotos que na época, então, norma de "in Baker", que vai se tornar Marilyn Monroe, ela faz na época da guerra, para conseguir algum dinheiro. E essas fotos que é um estatuto muito esquisito da fotografia, né? Se alguém tira uma foto sua, essa foto pertence à pessoa, e não a você, porque a pessoa tem o direito a autorar sobre a imagem. Então, essas fotos pertencem ao fotógrafo que fica lá com elas, em algum momento, a Marilyn Monroe fica muito famosa, e esse fotógrafo vem de essas fotos pro Rio and Reffner. Está criando a revista Playboy. E a primeira capa da Playboy é isso. Fotos da Marilyn Monroe mua, essa é a Manchester. São imagens que ela não autorizou, que ela não fez com esse propósito, que na verdade, até essa situação trouxe bastante sofrimento para ela, e, de uma certa maneira, é um vazamento comercializado de nudes para a internet, para celular. E, então, tem esses elementos de novidade, mas tem muita manutenção do que já existia antes. Enquanto eu li o teu trabalho, né? E aí, essa, tanta produção dessas imagens me interessou para caramba. E é um assunto que a gente vai conversar daqui a pouco, mas eu fiquei muito alucinado por esse quase sistema de troca, que a gente estabelece da divoso aqui. Da divoso, de da diva, do ensai sobre a da diva. É um texto clássico de um antropólogo francês muito importante, Marcel Mousse. Que é uma relação que vai sustentando, sobretudo, também, pela confiança que se cria a partir da troca dessas imagens. Em que momento que alguém acha que vai dar a pena mandar nudes para alguém? Eu acho que tem uns elementos interessantes para a gente abordar aqui. Primeiro, sim. Vamos combinar que quando a gente vai falando de nude, que a gente está falando de um nude consensual. E, de fato, ele é esse estabelecimento de vínculo de você envia numa relação de alguma maneira expectativa que essa confiança seja mantida, seja honrada. Eventualmente, a reciprocidade não está em enviar nudes de volta, mas está em manter se acordo de que esse material te mandei para isso nesse momento com essa intenção. E isso não vai ganhar uma vida para além do que a gente combinou. E se a gente parar para pensar se todo, quase todo mundo manda nudes, a quantidade de nudes que transforma em violência é bem pequena. Ou seja, essadade vai estar sendo honrada pela maior parte das pessoas. Mas, em um momento, aí é muito curioso porque vai depender muito do propósito do nude. Se esse nude que do flerte da sedução, ele é justamente nesse momento da construção da relação em que os vínculos ainda estão sendo estabelecidos em que a confiança está sendo construída e trabalhada. Então, de certa maneira, é curioso, é isso mesmo? Eu mandar algo muito intimo ser para alguém que você não tem certeza se vai honrar essa intimidade dessa privacidade. Então, a chance de dar ruim é pequena, né? Tem um elemento que eu acho que passa também pelo desconhecimento que a gente tem do digital, que é algo que eu aprendi muito no campo, que a gente, quando a sociedade ainda socia a internet, há algo que não dura, algo que é fugidio, fugasse, e a ideia de que a internet é o lugar dos anônibus das relações que não duram. Quando, na verdade, a internet que a gente usa hoje, sobretudo, as redes sociais e os aplicativos de comunicação, é a internet da durabilidade. Caiu na rede pixel, costumou dizer, o dado não morre. Não tem esquecimento, né? Exatamente. Então, quando a gente digitaliza algo, esse algo pode se perpetuar e ganhar uma escala de circulação inimaginável. Então, quando a gente troca esses materiais de certa maneira, a gente ou não se atenta para isso, que eu acho que é muito comum para essa durabilidade do digital, porque mesmo que a pessoa que recebeu esse nude, ela não, ela, por si só, não resolva vazá-lo, de uma maneira endelicada. Mas, se esse celular é roubado, ou se esse celular emparela com o outro, e isso vai parar em outro dispositivo, então, eu tenho uma frase de uma interlocutora minha, que eu uso, até como é pígrafo de uns capítulos, que a tecnologia é essencialmente promiscua. E é isso, né? Então, esses materiais, eles são feitos para circularem. E a gente está tentando controlá-los, ou vivendo na ilusão de que é possível controlá-los. E isso precisa ser dito. É pequena, mas é grande. Cuidado! Dietrich tem um negócio que é muito interessante, porque eu já fiz pesquisa sobre Tinder, e uma das coisas que as pessoas mais diziam no campo, era da dificuldade do primeiro encontro, por conta desse contraponto entre aquilo que você vendeu como imagem, e a dificuldade que é manter isso na relação face a face, manter isso no primeiro chopo, no primeiro café, no primeiro jantar. Quando a gente está falando de nude, eu aprendi também, que nude não é uma foto de você pelá-la. Tem que ter todo um trabalho aí, de construção desse negócio. Ninguém quer ver um pinto, ninguém quer ver um peitinho atoa, as pessoas querem uma produção estética em relação a essa imagem que está sendo produzida. E aí, nas seu trabalho, você fala do uso de artifícios ou ferramentas, que ajudam as pessoas moldarem essas fotos de algum modo. Isso é um reflexo para tentar controlar essa imagem do eu, ou é uma necessidade satisfazer o desejo do outro? Sem dúvida, aparece em vários estudos. E na nossa própria vida, a satificuldade entre essa versão computacional de C, que a gente cria, e como a gente se relaciona no dia a dia, essa grande preocupação em nosso comportamento, nossa aparência, não dá conta dessa versão computacional curada, que é muito bem curado. Acho que tem um exercício do nude, essa curadoria. Não é simplesmente um selfie de pau, que, inclusive, muitas vezes, é devido como uma violência. Uma violação recebia, eu não pedi, considerado extremamente de malgosto e violador receber essa imagem. Ao passo que o nude, que tem uma curadoria estética e também uma curadoria das emoções dos afetos ali envolvidos, é diferente dessa experiência de qualquer foto de nutéis. Então, o que que é novo e o que que é antigo? Eu acho que uma certa maneira tem muita coisa que permanece as pessoas, se a gente pensar nas cartas, ou mesmo no telefone, as pessoas, muitas pessoas se conheceram por cartas, ou se conheceram pelo telefone. E viveram esse dilema também do primeiro encontro em carnioso. E será que eu vou corresponder a expectativa que eu criei da minha versão escrita, na minha versão falada? E a gente não tinha, enquanto sociedade, essa obsessão de falar, mas você conheceu mesmo a pessoa, você conheceu ela pelo telefone. E a gente tem essa obsessão com a internet, mas isso aconteceu mesmo ou aconteceu na internet. Então, é um dilema que ele não é exatamente completamente novo. Mas ele ganha com torno, nos novos, na medida em que as tecnologias digitais permitem que a gente faça uma curadoria da nossa imagem pública em diferentes plataformas, inclusive, porque tem o eu do Instagram, tem o eu do Twitter, tem o eu do LinkedIn, que é um eu muito pouco. Eu acho que erótico, inclusive. Esse dilema é um dilema exponenciado com características próprias do nosso tempo, mas um dilema que já existia antes, produziu meu nude e olhar para mim com desejo, com a ideia de que eu sou bonito desejável, é justamente transgressor, porque não é o meu corpo que se quer ver. Não é a minha subjetividade que se quer ver como erótico, como desejável. Mas tem também o olhar para se como um corpo desejável e erótico. Então tem muita essa compreensão de que eu só comecei a me sentir segura para interagir contra os pessoas, quando eu comecei a entender o olhar para mim, via nudes, como alguém bonita desejável, interessante e erotizável assim. Rapaz, bom, isso, hein, eu ainda não tinha pensado nisso antes. Mas tem um limite também para esse amor no viracilado, assim, né? Você pode alterar para poder, né? Se satisfazer em termos da imagem que você quer vender. E também atissar o desejo do outro, mas também não possa alterar demais, né? Tem um limite ali desse negador. Datas, se tornar que é difícil, né? Se tornar irreconhecível, é o dilema aí também que aparecem com os filtros, com os aplicativos de alteração de imagem. No Brasil, a gente precisa se atentar a questões raciais, porque essas ferramentas são muito utilizadas a nuançar características associadas à racialização, sobretudo, tamanho do nariz, tamanho da boca, a cor da pele. Então, tem esse elemento e tem o elemento também da gordura, do diminuir os tamanhos, as proporções dos corpos. Então, o limite muito sutiu entre apagar certas características que eu considero eu mesma, ou que também os outros podem considerar indesejáveis no meu corpo, mas não me tornar irreconhecível, que acontece muito. E aí, se reconhece isso, olha, se no núdio não dá pra ver quem é você, porque isso aparece muito e me pergunta o jornalista, tem a sobressensão. Como fazer o núdio seguro? E aí, uma das primeiras coisas é, não mostre características de si próprio, não mostre tatuagens, não mostre pintas, não mostre pedaços da sua casa. E aí, o núdio perde a razão de ser, porque pode ser de qualquer pessoa? -Fa de ser mais forte do Google, do Axmer. -Pode ser aquele livro sexo da Madonna, entendeu? Então, assim, e aí perde o sentido da estabelecimento de vínculo que o núdio é. E de "eu estou te mostrando uma parte de mim, eu estou me revelando pra você e confiando você". É uma corda bomba bem difícil de andar entre. E aí, o núdio fica tão menos desejável quanto mais falso ele parece, ou quanto mais irreconhecível ele é. -No teu trabalho, você vai mostrando que o núdio, ele abita numa zona fronteirista, onde a enorme transgressão tão do lado lado, o novio ver o tão do lado lado, o consentimento e o abuso ficam brincando ali também, e prazer e doce mistura. Outro dia, assistiu uma entrevista com Kakai, que é esse advogado famoso, Antônio Kakai, e ele defendeu a Carolina Díquima, no famoso caso de vazamento de nudes dela. E é principal o argumento que a Carolina Díquima usou pra poder. E a justiça, e culminar na tal da lei, Carolina Díquima, foi que ela queria ter coragem de dizer pro filho dela de 15 anos, que ela estava fazendo aqueles nudes só na relação dela com o marido dela. Ela não tinha nenhuma ambição de vazar aquilo pra imprensa e ficar famosa, fazendo foto pelada, sentado na privada e por aí vai. Era algo íntimo, o território íntimo e privado. Esse é um aspecto interessante, porque abre a possibilidade de discutir um conceito que é fundamental pra você, quer ter cidadania sexual. Que é isso da cidadania sexual? O que tipo de direitos e deveres hondam também, a maneira como a gente hiria da conceito que é a nossa própria sexualidade? É interessante pensar essa questão do núdio que ele abita nesse lugar, de penumbra, pra prazer e perigo, pra consentimento e violação, pra fluição e dor, sobretudo pensando no exercício da sexualidade das mulheres. Eu trabalhei tanto com mulheres heterosexuais, como mulheres bissexuais e ilésbicas. É essa sexualidade que está sendo do convívio constante com as possibilidades do prazer e do perigo. O exercício da sexualidade te coloca em risco, porque existe sempre a presença a possibilidade da violação. Eu acho que o caso da Carolina Dickman, e é um caso que todo mundo lembra, se tornou lei, inclusive, e é até complicado porque não é o caso dos vazamentos genuídicos clássicos. No caso da Carolina Dickman teve uma invasão do dispositivo da levou computador ou celular pro um conselto, e não é o caso de que ela enviou essas imagens pra alguém, essas imagens, ou foram repassadas por essa pessoa, foram conseguidas de maneira irregular. E, mas o que mostra, acho que na fala da Carolina, e não é uma crítica à pessoa física Carolina Dickman, mas a nossa, como a gente, como sociedade, trata a questão da sexualidade, das mulheres, é aquela sua eletítima se ela está no campo do privado da intimidade. Se ela esparrama, e se a mulher brinca com a possibilidade disso, é como se ela perdesse a legitimidade de defender o seu valor. Então, quando a Carolina diz isso, olha aquilo ali, eu produzi com meu marido, eu nem troquei nesse sentido, mas ela fosse uma profissional de ONLY fans, por exemplo. Isso atorna menos vítima de uma situação em que essas imagens circulam o somzado sem a autorização dela, não deveria, mas na realidade social sim. Muito, muito bom isso, hein? Então, o que ela está querendo mostrar ali é que ela mantêve a sexualidade dela na intimidade na privacidade, pra que ela possa ser considerado alguém que mereça respeito. Isso é uma das moralidades em jogo aí, na sexualidade das mulheres. Esse é um negócio interessante, porque você pega, sei lá, alguns estudos sobre violência, é o Luís Roberto Cardoso de Oliveira, Luís Roberto Cardoso de Oliveira, é antropólogo brasileiro importante, com anos de pesquisa, sobre antropologia e a filosofia e direito. Vai dizer que violência é só acontece quando tem uma agressão moral, aquele que se sente agredido moralmente, é que que reenvindicam o seu direito de agredido moralmente, aí sim, a gente pode dizer que houve uma violência, pra ficar muito claro aqui, seu piso no seu pé por engane, peço de esculpas. Você acha que aquilo não foi uma violência, mas seu piso no seu pé é intencionalmente, e você entende que assim o foi, ali a gente está diante de uma violência. Diante dessas questões de gênero é interessante pensar que o vazamento de nude de homens, às vezes não é uma violência, né, dado que eles moralmente, muitas das vezes, se ainda mais ser foalhi, bem dotado, com padrão da sociedade, ele nem vai se sentir agredido. E não é por acaso que esse tipo de vazamento atua mais sobre as mulheres do que sobre os homens, né? É, porque na abextração o vazamento pode incidir sobre todas as pessoas, só que o impacto dele é diferente, e num recorte de gênero e de sexualidade ficam conversando sobre pessoas heterossexuais, por exemplo. Um vazamento de um nude de um homem pode ser plantado, por exemplo, pra afastar teorias oboatos sobre a sua sexualidade. Então, sem dúvida, a gente precisa lembrar disso, que os impactos são sentidos de formas diferentes a partir dos marcadores sociais que atravessam aquelas pessoas. E pra as mulheres tem esse lugar, esse lugar da condenação moral. Então, por que você fez? Você sabia que era um risco? Então, se você resolveu jogar com esse risco, tem um caso que eu conto também no meu trabalho, que é um caso do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, de uma moça que teve suas imagens circuladas em autorização dela, o juízo da primeira instância, o juízo juízo, por que agora não me recordo, da causa ela estabelece a indemnização em 100 mil reais. E aí, no real, não, mas a outra parte recorre e vai para a segunda instância, vai para os disembargadores. E o relato no acorde, ele diz que mantém a decisão de que ela deve ser indemnizada, só que ele diminua a indemnização de 100 mil reais pra 5 mil reais, porque ele diz que alguém que tem amoral tão elástica não deveria ter uma indemnização sobre essa moralidade tão alta. Então, é um caso que é muito sintomático de como do ponto de vista egemônico a sociedade lida com isso, né? A mulher explica, torna público, seu desejo, exercício da sua sexualidade, ela está correndo risco, ela está sabendo que isso pode acontecer com ela e no caso do Nude é isso. Mas B3, quais novas tecnologias isso tende a piorar, né? Atualmente, né, a gente está gravando isso aqui em julho de 2023, uma discussão sobre a inteligência artificial. E tem os deep nudes, que são os nudes criados e inteligência artificial, que eu pego em imagens pessoas com roupa, com piquini e criam uma Nudeis, ou mesmo a partir da. só de imagens de face, de cabeça criam ali uma imagem. E do ponto de vista, eu acho que dá ciência sociais o que a gente pode contribuir, dizendo que para a pessoa que é impactada por isso, na sua reputação e na sua honra, não importa se é real ou não, os impactos são muito reais na vida dessa pessoa, em especial nessas meninas e mulheres. A gente tem no Brasil casos de meninas e mulheres que tiram a própria vida no meio dessas situações, então são impactos muito retumbantes, muito trágicos e revogáveis na vida das pessoas. A moralização da mulher que produz o Nude, ela cria também esse impacto naquela cujo Nude, foi produzido sem a consentimento dela, ela vai ser julgada e condenada, igual a que ela que produziu, e embora nenhuma das duas devem ser. E essa discussão sobre a cidadania sexual. O direito do exercício, a sexualidade, sadia, segura e consensual, que é um debate dos nossos tempos, um debate do direito, ao prazer o direito a exercir a sexualidade de uma forma que não ofenda ninguém, que não machuque o viola ninguém, mas também que não viola assim. Você sabe que todo mundo, quando pensa sobre esse vazamento de nudes, esse uso violento das imagens dos outros, para outros frins, fins que não sejam só, a fluição ou o prazer, por aí vai. Tras essa categoria, ali, de uma pornografia da vingança, como se alguém afetado, chateado, diante de algum evento, decide vazar o nude dos parceiros e das pessoas que te mandaram, como uma forma de se vingar em relação a esse sofrimento que você está vivendo. E as próprias mulheres têm muita dificuldade de usar em essa categoria, nomear o próprio sofrimento. Querê te perguntar por quê? A pornografia de vingança é uma tradução do termosado no inglês de Revenge porn, a ideia de que alguém, que não se sentiu contemplado com o fim de uma relação, pega esses materiais e se vinga. E as mulheres que passam e mulheres e meninas passam para essas situações, tem uma dificuldade muito grande, primeiro pelo termo pornografia, porque o nude não é uma pornografia. Repara, nude a nude. Por não é por não. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Então, a tem uma necessidade muito grande de fazer essa diferença. A pornografia, ela é entendida como algo que é feita. Para olhar do outro, para o goso alheio e é feito comercialmente, muito associado até a prostituição, como um trabalho sexual. Então, o que eu fiz ali, uma vez que está em volta a fethos, a vínculos, não é pornográfico. Está no plano do erótico, não do pornográfico, se a gente for fazer uma contraposição. No sensual, do erótico, do de bom gosto, da sexualidade associada a fethos, não precisa ser amor. Mas associada a fethos e não a comercialização da sexualidade. E uma recusão muito grande também é a vingança, porque a vingança pressupõe que um mal foi feito. Eu me vingo de algo ruim que foi feito comigo. O termo pornografia de vingança vai ser um que a gente imediatamente imagine essa situação de um ex-companheiro examorado que compartilha imagens que foram enviadas para ele. Durante a relação, depois que a relação acaba, ele não quis que a relação acabasse. No meu trabalho, eu conto uma situação de campo que foi muito interessante, que a minha interlocutora pediu para me encontrar no museu no Máspeo. E na época em que a gente se encontrou, estava tendo uma exposição das Guerrilla Girls, um coletivo de artistas, ativistas, feministas, Estados Unidos. E logo na entrada tinha uma adaptação de uma obra muito famosa delas, que elas fizeram para o Met, para o Museu de Nova Iorque, para o Máspeo, que era assim, né? As mulheres precisam estar nuas para entrar no museu de arte de São Paulo. Aitinha, tantos por cento dos noção femininos cerca de 90, sendo menino, e apenas 100 por cento das artistas, que estão em exposição, fixando o Máspeo, são mulheres. E essa interlocutora me falou, a gente estava caminhando, gendo algumas imagens esses quadros das vanguardas da virada do século passado. E ela falava, será que essas moças achavam que daqui a 100 anos e até gente olhando a bunda delas? E por que, quando é o Maneque faz, outros lotreques, é arte, e se sou eu que faço, é pornografia de vingança, é feio, né? Porque a nude na arte pode, e o meu nude, adimar o gosto. E para terminar a Beatriz, e a gente já caminhando aqui para o final, eu queria usar uma pergunta aqui, por mais que eu também acho que ela não tenha resposta, eu acho que vale ser feita, sobretudo do ponto de vista antropológico. Se eu mando o nude para você, ou você me mando um nude, quem é o dono da foto? E quem mandou, o que recebeu? Essa é uma pergunta que tem várias respostas, né? E ela não tem uma resposta tem várias respostas. E eu acho que isso tem um exemplo do caso do regime da propriedade intelectual, inclusive em alguns países, é se conseguiram decisões judiciais justamente apelando para isso, dizendo que a mulher tinha direito autoral sobre a imagem, que ela produziu, se foi um alto retrato, e que, por isso, a divulgação, a circulação dessa imagem, feria um regime de propriedade intelectual, mas também existe essa possibilidade que se alguém tirou, essa coisa do fotógrafo. Ah, mas qual a diferença entre você baixam salgado, tira uma foto, inclusive, de pessoas nos, que não assinaram um termo de consentimento livre esclarecido, porque muitas vezes nem são elitradas na língua portuguesa, e um qualquer desconhecido que pega o seu celular, uma foto da sua namorada, então tem várias respostas, vai depender do contexto e do regime do que o direito, tem a dizer sobre propriedade intelectual, que é muito louca, que pode ser do fotógrafo da pessoa que tirou essa fotografia, e que mostra que as coisas não são binárias. Essa é uma das coisas que eu falo que a antropologia me salvo, é que é escapar de determinismos, de binarismos, e de respostas fáceis e prontas. Eu costumo falar que eu acho que o que antropologia tem é contribuir, com qualquer profissional de qualquer ó area, ou qualquer discussão, são essas negações aos binarismos, aos determinismos, esse olhar para a alteridade e essa escuta que é interessada, que não é só ouvir, mas é se permitir se atravessar pelo talvin, mudar de ideia e sair diferente daquela interação. Que lindo isso que a Beatriz contou, né? É sobre isso, esse podcast, é sobre isso a antropologia, é sobre a possibilidade de você a todo momento, se livrar das suas crianças do mundo e ter uma visão mais expandida sobre o que é a realidade, a vida ou até mesmo o mundo. Então, nesse sentido acho que antropologia tem tanto, a ofrecer de um ponto de vista hegemônico, mas a gente ainda é nichesco, né? Então. A gente era, a gente está saindo dos niches. Beatriz, muito obrigado, olha, queria avisar que é todos os nossos ouvintes, que, se você gostou desse papo, você, por favor, vá até livraria mais próxima da sua casa e compre o livro da Beatriz, que é isso e muito mais. Caio na net, nudes em exposição de mulheres na internet, é uma aula sobre o papel que os nudes têm na nossa vida e porque que eles mobilizam tanto as nossas atensões. Beatriz, obrigadis-se, me adorei o papo. E eu quero agradecer e, por favor, me chamei mais vezes que continuamos produzindo antropologia, ainda que não somente na academia. Genial, genial. Todas as referências desse episódio, além de outras dicas de leitura, você pode encontrar na descrição do seu tocado de podcast preferido. Olha, e coisa boa, você sabe, a gente não faz sozinho. A gente faz junto em misturado com uma turma, uma turma de primeira, a produção dessa temporada do Etú do Cupa da Cultura, foi feita por Fabiola Gomes. O roteiro ficou na minha mãe na dela. A vinheta é a criação do time do estude cavalo. E a captação de áudio, edição e sonorização é a responsabilidade da vozativa à produções. É isso. Até mais, pessoal.
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