O episódio do podcast "Vibes e Análise" explora as contradições do ideal de beleza contemporâneo. Os apresentadores, Lucas e André, psicanalistas, partem de um paradoxo: apesar do discurso da "Beleza Real" e da crítica ao Photoshop, o Brasil é líder mundial em cirurgias plásticas, com um aumento expressivo entre jovens. Eles argumentam que a beleza não é superficial, mas um tema carregado de implicações culturais e psicológicas, conectado a dinâmicas de poder, classe, gênero e raça.
A análise se aprofunda na relação entre o sujeito e seu rosto e corpo. O rosto é descrito como uma "membrana" entre o eu e o outro, um cartão de visitas que a cultura molda e que, na era digital, se torna um outdoor de sucesso. O corpo, por sua vez, é um "litoral" que nos dá limite, mas a obsessão em modificá-lo revela uma falha simbólica: a dificuldade de integrar o real, o simbólico e o imaginário.
Os apresentadores discutem como a beleza serve como um "anteparo frente à morte", uma miragem que nos protege da finitude. A necessidade constante de se olhar no espelho (e nas telas com comentários) reflete uma alienação e uma busca por uma identidade estável, que é constantemente abalada. Eles introduzem o conceito de "homo aestheticus" para descrever o sujeito contemporâneo, que busca incessantemente o design do corpo e da vida. Por fim, apontam que a pressão estética é exercida por grupos que se protegem através da uniformização, criando um "microfacismo" que anula a diferença e reforça a exclusão, tornando o dilema entre resistir ou se entregar ainda mais complexo.
Beleza é um assunto curioso. Por um lado, a gente está na segunda década do discurso da Beleza Real e até desse imperativo de "M" a si mesmo, acima de tudo. Por outro lado, nunca se fez tanta cirurgia plástica na história. Ao mesmo tempo que a gente faz piada e até expõe as imagens que foram muito alteradas no Photoshop, também tem uma pressão muito grande para que a gente use filtro toda vez que abre a câmera do smartphone. E apesar de todos esses discursos sobre Beleza Real, Beleza de Dentro para Fora, o Brasil segue como um dos países em que mais se faz cirurgias plásticas no mundo. Nos últimos 10 anos, por exemplo, houve um aumento de 141% no número de procedimentos entre jovens de 13 a 18 anos, segundo a sociedade brasileira de cirurgias plásticas. Nesse sentido, discursos como você não precisa disso ou você linda ou linda desse jeito, parecem superficiales demais. Toxinas laser harmonização, preenchimento, lipolágio, microagulhamento, criofrequência, bioestimulador, estética dental, estética íntima, implantes de cabelo ou silicone ou encherto de gordura, redução ao aumento ou remodelagem de partes do corpo e do rosto. Um pouco de botox, ou muito botox, medicamentos, suplementos, anaboresantes, a lista não para e a sensação que cresce. É de que tem mesmo algo muito errado com a gente. O universo da Beleza hoje é muito mais interessante e diverso e acessível, mas ser bonito, ser bonita ainda é um dos imperativos mais sólidos da cultura. E as definições de Beleza seguem profundamente conectadas com dinâmicas de poder e exclusão da nossa sociedade, como classe, gênero, raça, frequentemente a gente escuta discurso de que a solução seria a gente se preocupar menos com a Beleza. E até falar menos sobre Beleza, mas como a gente vai construir relações melhores consigo e com o outro se a gente não puder elaborar as nossas ideias, os nossos ideais e as nossas idealizações? Isso tudo em um mundo onde a hashtag Beleza não tique com o botox, tem mais de 120 bilhões de visualizações. Nesse contexto, testemunhar tantas alterações e intervenções no outro nos convoca fazer o mesmo com a gente. Mas será que é por aí? Beleza é um assunto muito massivo e popular, mas não deve ser tratado como um assunto superficial. Precisamos levar em conta todas as implicações, culturais e psicológicas desse tema e encarar todos os ângulos desse espelho. Eu sou Lucas Lidke e esse é o Vibes e análise, um podcast onde a gente busca analisar algumas vibes que tão submersas no inconsciente coletivo. Para quem tá nos conhecendo agora, o Lucas e eu somos psicanalistas e pesquisadores. As nossas análises e pesquisas tão no perfil @flutevibes no Instagram e no TikTok. E novas vibes vão vir na nossa newsletter que você assina no Substack, os links estão todos na descrição do vídeo. O episódio de hoje tem o apoio de um outro podcast, parecer nosso, que é o crônicas de um cuidado, que é inclusive já participar de um episódio. O crônicas é um spin-off do Mamilos, sai toda a quarta feira e tem um foco específico em saúde mental, com diferentes abordagens teóricas e linhas de tratamento. É e o legal do crônicas de um cuidado é que cada tema que é abordado, tipo ansiedade, família, traição, burn out, vem sempre baseado na história real de alguém que vive ou viveu essas questões. E também conta com a participação de um especialista para ajudar a elaborar esse tema. Então vamos lá, Adra, elaborar o nosso tema aqui. Quer contar para a gente os seus segredos de beleza? Só se você contar quais são os procedimentos téticos que você já fez. Então, no caso antes de a gente começar a fazer algumas elaborações teóricas, tem um ponto que me impressionou muito na preparação para esse episódio. Eu queria te ouvir um pouco sobre isso inclusive. Apesar da beleza ser um tema super presente no nosso tempo, eu tenho a sensação de que muito do que se diz, se pensa, se escreve ou vai na lógica da condenação ou vai na lógica do elogio. Como se desce para ser própria beleza e contra beleza? Enfim, umas visões um pouco extremas sobre o assunto e até um pouco alienantes eu diria. Esse é um bom alerto. Assim, para a gente fazer esse episódio talvez identificar atento aos nossos julgamentos e o que é o gosto de cada um ou essa psicologização barata que a gente costuma fazer quando vai falar desse tema. E pensar também sobre o que é cultural e que está, talvez acima do bem do mal, acima do bem do mal, é um bom jeito a gente começar esse assunto. Eu queria começar então a fazer uma pequena separação por fim de dáticos mesmo entre rosto e corpo. Mas entrando pelo rosto, eu acho que o rosto representa vários papéis ao longo da história das culturas e também nos ajuda muito a identificar alguns sinais e valores de alguma época. Nenhum de nós escapa a cultura ou um espírito do tempo e nenhum de nós escapa a ter um rosto e a ter esse rosto lido pelo outro de alguma forma. A gente sabe que a formação psique capaça, inclusive pelo momento em que o bebê entende que tem um rosto, que tem um corpo e que é essas coisas. O deleuzio Gatari, eles têm uma frase muito interessante que é introduzímonos em um rosto mais do que possuímos um. Então não é que a gente nasce com o rosto, a gente aprende a ter um rosto. A gente vai sendo instruído pela cultura e pelo outro sobre o que rosto é esse e como esse rosto é percebido. A essa boca parece a difulano, esses olhos são muito bonitos, essas orélias são muito grandes, essas orélias são muito pequenas, enfim. O rosto vai sendo profundamente atravessado pela cultura e é exatamente essa membran inicial entre eu e o outro. E como essa membrana é percebida que vai constituindo a nossa psique de alguma forma. Só que aí a gente está nesse tempo e acho que a pandemia agravou bastante isso de uma certa sociedade facial. Esse destaque é muito grande para os nossos rostos. Uma série de sintomas bem obsessivos eu diria que vão aparecendo nessa nossa relação com o rosto. Por exemplo, se você olha no TikTok hoje, tem uma trend muito grande das pessoas falando sobre cimetria, rosto simétricos, aplicativos que te mostram como seu rosto seria se fosse cimetrico, filtros que te mostram como as pessoas enxergam seu rosto e claro que isso também vai desembocar em vários tratamentos estéticos e em várias intervenções estéticas inclusive que estão ligadas a deixar esse rosto mais perfeito, deixar esse rosto mais ideal, deixar esse rosto mais digno de ser praticamente uma publicidade de nós. Então o rosto além de moldura, além dessa membrana que eu estava falando entre o eu e o outro, o rosto também tenha adquirido nos últimos tempos esse lugar de cartão de visitas, de primeira impressão, de outdoor das decisões, escolhas que a gente faz e com bem sucedidos a gente é. Faz sentido? Faz muito sentido, mas você falou que é falar de rosto e corpo e o corpo. Falando um pouco sobre corpo, acho que tem esse livro do Dunker Coilows Arramíries e Tatiana Sadi que foi pra mim bem importante na pesquisa para esse episódio, que chama "A pele como litoral" e falam um pouco de alguns fenômenos psicossomáticos e da psicanálise. E acho que o corpo, se a gente vai pra uma psicanálise mais lacaniana, ele tem um lugar muito interessante de exatamente a integração do real simbólico imaginário. O corpo é o que nós faz um, o corpo é o que nós dá limite. Então por isso essa imagem de "A pele como litoral" é tão bonita, porque a pele é exatamente o litoral do corpo, o que está exatamente naquela frontera, o que nos expande, ou que também de novo nos limite um pouco. Quando a gente tem uma obsessão tão grande com o corpo e acho que a gente vai falar nesse episódio sobre hipocondria, sobre fenômenos psicossomáticos, impossível escapar dessa discussão, também tem uma falha do simbólico. Quando a gente tem essa relação tão implicada no corpo, em como o corpo deve ser e a gente está patrulhando esse litoral, subindo e descendo esse litoral para ver se está tudo nos conforme, se está tudo como dever estar, tudo como deveria ser, ou como a cultura nos diz que tem que ser. A gente está numa certa falha do simbólico. Tem um texto nesse livro da Danieli Santes, que é muito bom, que fala um pouco sobre a ideia de uma falha simbólica mesmo nessa pínica psicanomática. No sentido de que, se o corpo lembra, se o corpo guarda as marcas, se o traumático também se alija ao longo do corpo, quando eu estou patrulhando esse corpo e modificando esse corpo como se fosse uma massa morfa, que eu meixo, manipulo o tempo inteiro no lugar de ser este corpo, vai ficando muito difícil da gente fazer a integração entre essas três áreas. Se o corpo está no centro de alguma forma, do noabo romano, a gente tem que lembrar que é muito importante a gente conseguir elaborar a nossa relação com o corpo, falada nossa relação com o corpo, sentia a nossa relação com o corpo. Se não, a gente desloca tudo pro imagino.
é o mais puro suco do sentido fechado. Tem que ser assim e se não é assim, está errado. E aí o sujeito se desistrutura. Moravilhoso, você começar a dar essa forma e engressar a gente pensa em corpo e vem esse pedaço de carne. Não parece que é algo imaginário. Só que o corpo é um pedaço de carne que precisa ser subjetivado. E daí vem a ideia de ego. O ego vai ser exatamente essa formação psíquica do corpo que crie a uma noção de eu. Uma ideia de eu é só que o corpo se torna uma imagem de corpo. E aí você começa a organizar a sua imagem corporal. E aí começa toda brincadeira, né? É que fica legal, na verdade. E aí que surgem também os problemas. O násio fala assim. "Não somos nosso corpo encarnioso. Somos o que sentimos e vemos de nosso corpo. Eu sou o corpo que sinto e o corpo que vejo. Nosso eu é a ideia íntima que forjamos de nosso corpo. Isto é a representação mental de nossas sensações corporais, uma representação que é mutante e incessantemente influenciada por nossa imagem do espelho." E aí, quando ele fala espelho, a gente pode acrescentar todas as câmeras e telas que nos rodeiam, tudo isso como recursos que nos ajudam a criar uma identidade. Só que tudo que envolve a formação de uma identidade que é imaginária, a gente vai ter que olhar como muito cuidado. Como diz a psicanalista Miriam D.B.R. e o Dunker também você falou de se inclusive no outro episódio. A gente pode pensar na identidade como um sintoma, como uma defesa contra angústia de não saber de se anoncer a partir de uma imagem, a partir de uma metáfora que é congelada em um sentido único. Mas que está a entramsformação, na comunalza eu falou aqui. E que vai e se transformando até chegar no fim. Falando, enfim, eu estava lendo aqui que o Lacan fala que a beleza é uma espécie de anteparo frente a morte. Que a beleza cria uma barreira diante da coisa a última que é a morte. Ou seja, é como uma miragem. É algo reconfortante, porque obviamente ninguém quer encarar a sua finitude, a sua durabilidade, nossa fragilidade e mortalidade. Por que mortalidade? De novo, por que é um pedaço de carne? Você falou de espelho e tem uma coisa interessante da nossa constituição psíquica ou de como a gente vai se formando, que é o tempo inteiro esse contato entre eu e outro. E a gente nesse processo e esse processo nunca termina, como você falou no texto do Náezio, passa por a gente nunca ter muita certeza de si. E olhar no espelho também é um certo mecanismo de reaseguramento, ainda sou eu, ainda estou aqui, ou nossa mudou, é um pouco eu e um pouco outra coisa, um pouco estranho. Sabe quando a gente olha no espelho e não se reconhece, a gente passa um pouco por isso todos os dias. Aí, eu não quero essas rugas, eu não quero esses espelhos, eu não quero essa gordura. Enfim, ou eu não sou mais como eu era, ou eu queria que meu cabelo ficasse assim todos os dias, é todo um exercício de reaseguramento. Só que eu venho pensando um pouco, Lucas, que essa necessidade que a gente tem tido de se olhar tanto e o tempo inteiro em todas essas câmeras que você citou, aponta que a gente estava vivendo em um tempo um pouco alienado demais de nós mesmos. Olhe nada em nós mesmos. Eu vou me olhando iníter rupitamente na esperança de que eu tenho alguma ideia do que eu sou, ou de quem eu sou, ou de quem eu quero ser. E de como o outro nos percebe, toda a história do espelho, do lacá, é sobre a gente não se perceber exatamente como o outro nos percebe. Só que tem muitos níveis para isso, tem níveis níveis. Algumas vezes essa diferença, é tão gritante que isso compromete a nossa saúde, físicamente a uma opção nova. É muito louca que eu ia buscar, porque eu acho que a gente está necessitado do espelho 24 horas por dia, 7 dias por semana. O spoiler é a gente já sabe, né? É insuportável. Ainda mais, quando o espelho tem caixa de comentários. Porque é essa é a questão. Então, assim, se você pensa, por exemplo, em brisoneiros, se você pensa em situações extremas, sabe-se que privar um sujeito de se olhar no espelho é uma forma de esse sujeito e se desumanizando, porque vai esquecendo de se. Se olhar esse civo pro espelho gera um efeito semelhante de não conseguir sustentar algumas coisas ou de estar muito preso em si, como você falou, preso numa identidade que é muito frágil, que é quebravel, como um espelho. Aí, aviam essas crises, as dietas locas, os comportamentos compulsivos, cirurgias, muito problemáticas que simplesmente não deveriam estar sendo realizadas pelos médicos, os quadros de anorexia, bulimia, vigorexia, que é quando o sujeito é forte e musculoso, mas se enxerga como fraco. Tudo isso faz parte dos quadros de transtorno, desmórfico corporal, que gera muito sofrimento, muita ansiedade, comportamentos destrutivos, porque estão baseados numa noção muito problemática da auto-imagem. E isso são tentativas muito desajustados dos sujeitos de tentar adequar a percepção e a formação da imagem do eu, com o que ele supõe que o outro está enxergando. Isso vem se complexificando cada vez mais nos tempos atuais. Essas percepções que você trouxe são uma chave, e não dá pra gente ter essa conversa sem falar sobre o ideal ideal de eu. Simplificando bastante nas fases do nosso desenvolvimento psíquico, um dia a gente aprende que a gente não é um euperfeito todo poderoso, fonte de satisfação integral dos nossos pais. É a grande queda da qual a gente nunca se recupera, mas é também quando a gente aprende, que somos todos os falhos, e que no lugar de tentar sustentar a monidade absoluta, ou mesmo encontrar pessoas que sejam completas, a gente vai buscar ideais de eu pelo mundo. É de buclásico, o eu ideal é desmontado e a gente vai em busca dos ideais de eu. Daí grande parte da nossa vida vai ser construir sustentar uma imagem razoavelmente confortável, coerente e se possível realista de quem eu sou. Que vai lidar com esses ideais de eu, que vai buscar esses ideais de eu, sem necessariamente ter que insistir o tempo inteiro na reconstrução do eu ideal. Isso é teoria. Só que tudo isso vai ser viscer realmente atravessado pelo outro, que vai dizer, se o nariz não é bonito, o seu pé é estranho, se você tem muito disso, você não tem nada daquilo, enfim. Essa imagem, minimamente confortável que a gente está tentando sustentar, vai o tempo inteiro sendo questionado, atravessada, bagunçada. Só que é importante a gente lembrar que ninguém faz esse processo sozinho, eu preciso do espelhamento do outro, de novo nosso espelho. Isso é estrutural do ser humano. O eu nasce através do outro, o outro nasce através do eu. Parece simples, mas assim, isso é uma revolução psíquica, que acontece dentro de cada um de nós, para a nossa formação. Só que a gente não atravessa tudo isso, como um portal mágico, que nos torna adultos, muito pelo contrário. A gente retorna muitas vezes a esses estágios. A gente se engana muitas vezes. E aí, para o nosso tempo, puxando um pouco das discussões que você trouxe até agora, Lucas, na dinâmica das performances online, parece que a gente está vivendo uma reprisa diária desses processos. Parece que a gente está ficando muito bom de se enganar, ou de ser enganado pelo outro, que nos diz, mas vai dar para você ser o ideal. Se você trabalhar um pouquinho mais, se você se esforçar um pouco mais, se você fizer esse procedimento aqui, fizer esses quem quer, alguma dessas coisas, vai dar para você ocupar esse lugar. Você vai sentir completo. Você vai sentir invencível, imbatível, embrochável. É quase como se a gente tivesse nessa era, especialmente boa, e nos relembrada aquela perguntinha cretina insistente, mas isso eu fosse, de fato, perfeito. Tem um livro interessante do lipovético, que concerrói, que é o capitalismo estético na era da globalização, que fala um pouco sobre como a gente habita uma época, que fez emergir um novo sujeito cultural, que é o "omuaestéticos". O "omuaestéticos" é quase um novo ser, que é tão consumista, tão individualista, tão insaciável, que está perpetuamente em busca de outras sensações, de outras misancens, que levam exatamente a esse design do corpo, design da vida. Eu vou tentando aperfeiçoar, editar initerruptamente. Então, assim, a busca de uma vida estética, segundo o lipovético, que o ser roi, era uma paixão super-eletista, aristocrática, burguesa, realmente, somente associada ao luxo. Hoje, ela é uma paixão consumista e democrática, da massa. Não é a toa que o supermercado está cheio de produtos que se dizem premium. Ou gourmetização, ou enfim, todos esses movimentos da cultura, é porque a gente está profundamente implicado nessa ideia de que tudo tem que ser estético, espetacular e estetetizante. Certo, André, interessante essa doomo estéticos. Eu super convoco.
e eu ainda pensaria que tem mais a ver com a gente ter mais consciência a respeito dessas políticas do corpo, dessas imposições de padrões e uniformização. Porque de alguma forma isso sempre teve aí, desde a agressa antiga, mas hoje é como se a gente estivesse um cenário muito curioso onde as duas coisas acontecem. De um lado você tem mais recursos, você tem técnicas novas, tecnologias para fazer qualquer tipo de intervenção possível. E na paralela a gente também está adquirindo mais consciência ou uma postura mais crítica a respeito de toda essa carga cultural e dessa pressão social que nos invade. De um jeito que sim é cada vez mais opressivo. Isso só torna o dilema mais complexo, porque afinal o que o sujeito deve fazer nessa hora? Será que ele tem que resistir e fazer a sua militância, usar o seu corpo como um statement ou se entregar e entrar na onda? Quais que são os limites assim? Como é que a gente pode tomar essas decisões? A gente diz, "Meu corpo, minhas regras". Mas é você que está formulando essas regras, sozinho, tem certeza, com relação aos padrões? Eu acho que você vai concordar comigo que existem cenas e contextos sociais que são mais plurais e outros que são menos plurais. Tem lugares onde existe mais abertura para uma diversidade de corpos, de formas, de estilos, de diferentes belezas que podem existir e outros espaços e contextos que são mais homogênios. Então, por exemplo, aquele ambiente corporativo onde todo mundo se veste exatamente igual. Ou as festas onde todo mundo parece que vai no mesmo cirurgião plástico ou no mesmo salão de beleza, ou que segue as mesmas blogueiras. Tem esses grupos de convívio que têm exatamente o mesmo biotip físico, grupos grandes, inclusive. E que se você for um pouco mais gordo ou um pouco mais baixo ou mais negro ou mais peludo ou que for, você não será bem recebido. Todas as fobias e preconceitos contra minorias tão estruturadas no alicércio dessas lógicas que são bem escludentes. A gente falou disso inclusive naquela vibe, pacto narcísico, na gaybranca. O que é importante analisar é que esses grupos e esses contextos se protegem e protegem o seu próprio narcisismo através da uniformização, tendando anular o que é singular o que é diferente, em prol da adoração desses ideais de eu, que são compartilhados. É como um tipo de supermacia mesmo, um microfacismo. E essa uniformização garante é o sujeito um passe. Eu sei que se eu me parecer com eles eu vou ser melhor aceito. Só que esse passe, ele é puramente imaginário e no fundo todo mundo sabe disso, porque a gente vive isso na pele. Em contextos assim, inclusive, a investigação que a gente faz atrás da diferença daquilo que seria uma falha, daquilo que seria um deslize vai ficar ainda mais irresistível e mais rigorosa. Porque no ambiente onde todo mundo é muito parecido existe mais opressão, mesmo que você já faça parte desse grupo e com certeza mais objetificação e alta objetificação. Porque o próprio sujeito vai se colocar, se posicionar como objeto, para ser usado, aprovado, ou rejeitado. E isso tende a nos deixar mais neuróticos, mais inseguros. Por que mais inseguros? Porque a gente começa a falar da mínima diferença e não da grande diferença. A tentativa de disfarçar as mínimas diferenças é o que puxa lá o conceito do Freud. No narcisismo das pequenas diferenças. A intolerância que a gente começa a alimentar quando está entrando nesse modo de avaliação e de comparação, como se todo mundo fosse um produto na prateleira. Uma marca de detergente, assim, quieto de igual. Só que o que é mais curioso, nessa história é que, para quem está olhando de fora, você não consegue mais nem distinguir direito um sujeito do outro. Parece uma grande massa pasteurizada porque os traços identitários vão ser dissolvendo. O inferno do igual, é como diz o Biong Churra para falar dessa homogenização e extinção da assimetria e exterioridade do outro. É curioso, porque a gente vem falando tanto de padrão de beleza na cultura de massa, só que a palavra padrão começou a ficar tão associada com beleza, não é virão sinônimo de beleza? Só que padrão também significa o que é comum, o que é ordinário, o que é sem graça, sem sal, sem diferencial. Porque padrão é repertoção, e a repertoção é mortífera. E aí eu tiro o saipal aculatron. Essa frase que se disse, o padrão é comum, é muito boa, Lucas. Porque, acho que nela, está contido uma das grandes mudanças que a gente viu na relação com a beleza no último século. Vamos lá. Se bonito, é o imperativo do nosso tempo, que é inegável. E tem um outro que também é do nosso tempo, se for buscar o rã, que é a produtividade do desempenho. E aí, se a gente faz uma análise só su histórica da relação com a beleza, durante muito tempo, a beleza foi uma qualidade herdada, algo que é passado das pessoas bonitas para as pessoas bonitas. Sabe aquela história? Nossa, os filhos da Angelina Jolie com Brad Pitt vão ser lindos. Só que a gente foi deslocando através do tempo, a beleza para o campo da produtividade. Então a beleza passou a ser também uma questão de mérito. Você é muito bonito porque você se esforça muito para isso. Sabe, Beauty Hurts, Beauty Spain, Beauty Smoney, tipo esses ideais que são bem norte-americanos, bem gringos, inclusive, mas que eles também foram muito bons em exportar esses ideais por aí e fazer a gente comprar e pagar bem caro por isso, inclusive. Mas então, quando você fala que o padrão é comum, eu acho muito interessante porque também diz desse deslocamento de uma beleza subjetiva para uma beleza objetiva. Então a beleza não é uma questão de interpretação. A beleza é uma questão de desempenho e as pessoas vão sendo arranqueadas de acordo com a sua beleza. Quantas listas a pessoa mais bonita do ano? A mulher mais bonita do ano, um homem mais bonita do ano, enfim, tudo isso. E aí, pegando o começo dessa sua última fala, tudo isso só foi possível pelo que o povo preciado chama muito bem de tempos tecnicamente modificados. Essas tecnologias de intervenção que a gente foi ficando muito bom em aplicar, em desenvolver. Technologias essas que só foram possíveis por causa da tria de sagrado a psicologia, a sexologia e a endocrinologia. Essa manipulação por dentro por fora em todos os sentidos. Um tempo, como diz o preciado no texto de Anke, em que os conceitos são transformados em substâncias. Beleza, é Botox, é ácido e alurônico. E aí a gente vai fazendo esse deslocamento de novo do subjetivo para o objetivo. Porque é muito perceptível e para o que você pode comprar. Sim, até como uma forma de diferenciação, porque se você tem um contexto onde todo mundo começa a ficar muito parecido, o que a gente faz para se diferenciar entra na lógica de consumo. Então, quenta mais atualizado com as últimas tendências da beleza vai estar a frente e vai influenciar o outro. No que vai ser o novo padrão para aquele grupo. Até que fica todo mundo igual de novo. E precisa surgir uma nova moda? É, e a gente não pode tirar disso tudo como a beleza também está ligada a uma série de fantasias ou mitos inconscientes de nós e da nossa cultura. Pessoas bonitas são mais respeitadas, pessoas bonitas são mais bem sucedidas. Porque pessoas mais bem sucedidas geralmente são pessoas mais bonitas. Beleza, chama dinheiro. Ser bonito permite que eu consiga conquistar ou transar com quem eu quiser. E na minha opinião, acima de tudo, tem uma fantasia inconsciente. Muito forte que está parando no ar e que a gente precisa falar sobre ela que é pessoas bonitas podem fazer o que elas quiserem. Já que você abriu essa porta aí, André, a gente pode pensar nessa beleza neoliberal com ideais e perçaturados, almejando sempre a perfeição através de um auto-oprimoramento constante, progressivo, sempre de olho na competitividade para nunca correr o risco de perder a nossa posição no mercado. O que pode até parecer bem divertido até a hora que perde a graça e viram um apresonamento? A gente tem cada vez mais recursos como você estava dizendo, para cuidar mais e melhor do nosso corpo, da nossa saúde, de dentro e da aparência de fora também, da nossa beleza. E isso é maravilhoso. A gente precisa concordar com isso. Mas nessa, a gente geralmente começa a cuidar do nosso corpo e do nosso rosto com uma espécie de objeto externo que a gente tenta controlar. Ou que a gente pode também negligenciar. A gente briga e faz as pazes com a nossa beleza como acontece com as relações pessoais. Mas antes da ideia de possuir um corpo, a gente tem que lembrar que somos esse próprio corpo. Não somos o corpo que temos, somos o corpo que somos. É bom lembrar disso porque essa objetificação toda de colocar o corpo sob escrutinho o tempo todo nos separa de nós mesmos. Bom, no meio de toda essa conversa, a gente pode parar e ouvir a Monica Senkman. Ela é psicanalista, linguista, pós-graduada em psicologia clínica pela Pukitsão Paulo. Além de professores supervisora clínica no curso de formação em psicanálise do SEP. Para pensar a ditadura estética em que vivemos hoje, temos, primeiramente, de observar que o Brasil ocupa nela num lugar de estar. O culto-abeleza que deve ser conseguida a qualquer preço é um dado cultural muito importante entre nós.
Essa dimensão é dada, por exemplo, pela excelência de nossa medicina estética, tanto as técnicas desenvolvidas, quantos profissionais da área se encontram entre os melhores do mundo, os mais respeitados. A cultura da beleza aliada a informação macisa, bombardeada pelos algoritmos das redes sociais e por outros meios de comunicação, impõe a todos um padrão de beleza, ideal, portanto, impossível de ser alcançado. Na clínica, isso aparece desde cedo como um tema ser trabalhado, pois envolve diretamente a preocupação com a aceitação social. Claramente, todos convivem não importando a idade com o fato de poder estar com os belos e bem formados corpos. A possibilidade de transformação da própria imagem está presente desde o início dos tempos e desde então está ligada a um lugar social junto ao outro e a conquista da admiração e amor do outro. São várias as possibilidades de intervenção sobre a nossa imagem corporal, maquiagem, roupas, corte de cabelo, adeleços, tatuagens, chegamos hoje a um ponto quase delirante dessas possibilidades. Precoacemente, em satisfeitos com a própria aparência, os adolescentes, por exemplo, jaciqueixam da falta de vício e das pretensas marcas presentes em seus rostos, da falta de um corpo sarado e malhado, nos quilos amais ou menos, como tentativa de solução, eles podem se retirar do convívio social, restringindo ao inivitar ou podem apelar as transformações nos seus diversos níveis e âmbitos. Como consequência, ao surgimento do desejo de intervenções no corpo, cada vez mais cedo na vida das pessoas, afim de alcançarem a tão procurada felicidade e amor. A busca pela perfeição e a intolerância aos mínimos defeitos acabam por deturpar profundamente a percepção de si e o reconhecimento do próprio corpo, levando a criação de uma imagem que não corresponde ao corpo de fato. Além disso, podemos também ver a fabricação em série de corpos que desafiam a singularidade, formando um exército uniformizado visualmente, assim como também temos a impossibilidade de aceitação do amadurecimento com suas transformações naturais. A psicanálise possibilita reflexão sobre a singularidade propondo um caminho inverso ao da massificação da imagem padronizada, idealizada e sobretudo alienada. Esse não é um processo fácil, nem tão pouco rápido. Trata-se aqui de se haver com as deficienças, as faltas e as diferenças, questões nada simples para a subjetividade humana. Contudo isso, o corpo deveria ser um tocável e mutável. É interessante pensar que a pele e aquilo que ela delimita e que chamamos de corpo é que vale a vestimenta a cada nova coleção, a moda transforma-se e colore nossos corpos sem nenhuma consideração pela continuidade lógica ou utilidade. É possível pensar que o limite é extremamente alástico, devem ser objeto de reflexão e elaboração caso a caso. Pois estas mudanças passam pelo crivo do desejo de cada sujeito que se dispõe e que mesmo necessita refletir sobre estas questões. Apesar do desejo de mudança, esta não pode ser calculada com a exatidão trazendo em muitas oportunidades surpresas, nem sempre agradáveis do ponto de vista estético ou psiquico. Há possibilidade de um estranhamento, nem sempre assimilável, dessa nova imagem provocando novos conflitos e descompassos entre psiquicorpo, criando outros conflitos ao ter seus sintomas deslocados, mas não elaborados. Psiquicamente é importante poder trabalhar o quanto as transformações e intervenções são frutos de um desejo criativo interno de construção ou são imposições externas, cujo sentido escapa não podendo ser apropriado nem reconhecido pelo sujeito. Gosto muito de escutar a mônica sempre. Eu também. E nos faz lembrar que o importante é realmente investigar, talvez o que ia por trás dessas buscas desses comportamentos de busca da beleza ideal ou perfeita. E o que que talvez possamos deixar mais ou menos satisfeitos e saciado assim e qual que é o custo de tudo isso, de todo esse investimento. Não só o financeiro, mas a nossa saúde física e emocional. Qual o contexto que a gente está falando aqui é um contexto de uma cultura de vigilância. A gente se disponibiliza a essas culturas. É um livro muito interessante que chama "Politicas da Imagem" da GZL Beigman, que ela vai além do fucô e fala das estéticas da vigilância, de como esquisito isso, de seguir esse seguido, de todas essas tecnologias de reconhecimento facial, essas distorções estéticas, as quais a gente vai submetendo. E como a gente estava dizendo antes, a gente não está mais só de olho no outro. Mas se veem se analisa esteticamente muito mais. Na céu, o fim da vídeo chamada, no zoom, principalmente depois da pandemia. Ou seja, tem uma pulsão escópica e que está bombando, que é essa escopofilia, o prazer no olhar. O que pode, às vezes, até virar um fim em si mesmo. Deixe-a de ser preliminar e vir ao fim, como no consumo de pronografia ou no prazer exibicionista de ser visto. O mais louco nesse cenário é que a gente não tem tanto o medo de ser capturado pelo olho omnipresente do Big Brother, mas o contrário é o medo de não ser mais visível e desaparecer. Então, a gente vai ter que fazer muito pra merecer essa atenção do outro, pra chamar muita atenção. E para isso, você vai ter que estar muito bonito. E às vezes, até assustadoramente bonito. Nossa, aí você tocou num ponto pra mim muito interessante, que é uma pergunta que a Vox fez alguns anos atrás, que é a cultura da beleza online, está nos prejudicando. Porque se tudo isso que você descreveu está acontecendo, parece que existe um exército de criadores de conteúdo que estão nos ensinando e nos dando dicas de como ficar mais bonito, de como aumentar a nossa beleza, de como aperfeiço a tudo, de como deixar um pouco ainda melhor. Nos últimos anos, a gente tem visto várias pesquisas falarem, por exemplo, do aumento das mulheres e sentindo mais bonitas. Ao mesmo tempo, a gente também vê números maiores na pressão de se sentir mais bonitas. E assim, essas pessoas têm bastante poder. Se a gente pegar, por exemplo, a Ruda Akatã da Ruda Bure é a maior influenciadora de beleza do mundo. A gente está falando de só no segurança 50 milhões de seguidores. 50 milhões de seguidores é mais do que a base de seguidores do Lula e do Bolsonaro combinados. É mais do que a base do Trump e do Biden. É alguém que tem realmente uma audiência considerável. E aí a gente vem escutando alguns dados, de por exemplo, 70% dos adolescentes acreditando mais nos influenciadores do que em qualquer outra pessoa ou público que a presente nas suas vidas. Mais que os professores, até mais que os pais. Eu não estou vilanizando e demonizando a internet. Não gosto de fazer isso. Tem, inclusive, um livro muito interessante, chamado o Bure Shop Politics, que a gente vai colocar na descrição. De uma historiadora chamada Tiffany Gill, que fala um pouco sobre a importância da internet para expandir os tipos de beleza. Para que mais pessoas possam se sentir incluídas nesse universo da beleza de acordo com os seus diferentes corpos, diferentes etnias, diferentes panos de fundo, sócio culturais. A internet nos deu essa oportunidade de ver mais imagens de pessoas bonitas que se parecem com você, retomando que você estava falando sobre padrão. Expandir um pouco olhar dos padrões. Por exemplo, o papel da beleza online no fortalecimento da autoestima de pessoas LGBT é inegável. Então assim, de uma década para a outra, de repente, meninos podem usar maquiagem. Pessoas trans podem também ser exemplos de beleza. Enfim, é uma tentativa de desmontar alguns mecanismos de marginalização. Só que tudo isso tem um preço alto e um preço bastante alto. Você sabe que o Brasil é o terceiro país do mundo em gastos com cosméticos. Enquanto a gente teve um retrocesso de até três décadas na economia, na situação, no meu ambiente, o setor de beleza seiu crescendo no Brasil. As manchete são didáticas. Setor de cosméticos ignora crise, setor de cosméticos se consolida como gasto essencial. Gasto essencial. Que volta na introdução do episódio, beleza, não é? É um assunto simples e muito menos superficial. É essencial. Então essas duas coisas alinhadas, a beleza intensamente online. Esse mercado de cosméticos tão pulsante também são dois fatores que que produzem um efeito que a gente precisa prestar atenção.
que é esse aumento da comparação online. Quando mais a gente se compara com pessoas bonitas, mais insatisfeitos a gente se sente com nós mesmos. Mais desse trabalho da beleza a gente sente que a gente tem que fazer, ligando com o seu ponto da beleza neoliberal. - A internet vai ser muito perigosa. E sim, talvez tóxica ou intoxicante, nesse sentido, primeiro por que ela faz a gente perder uma noção de escala. Você vê cinco figuras esculturais no Instagram e já acha que todo mundo é assim. - Exato. - É isso que a rede vai te mostrar. E aí você já acha que está em dívida com os padrões de beleza do mundo. Só que como diz a nossa participante pesquisadora Camila Centra são rostos que já nascem produzidos como máscaras a serviço da indústria cultural e do consumo. Então a gente precisa fazer um esforço intencional mesmo de não tomar o pedaço pelo todo. Ou você entra num espiral imaginário enloquecedor. Já que você falou nela, para comentar algumas essas questões, a gente vai escutar Camila Centra. A Camila é pesquisadora de comportamento e cultura, especializada em cultura material e consumo com ênfase sem neupsi-canalítica pela USP. E ela também é a altura do livro, o Instagram está padrões anos rostos. - Bom, acho que não tem como começar um papo sobre procedimentos estéticos sem fazer um convite para nós mesmos, a gente deixar se olhar nesse espelho digital e deixar um pouco dos joelhos de valor de fora. Porque é bem fácil de nos corregar para um julgamento, para a futilidade, para entender tudo como um grande narcisismo, exacervado. Mas acho bem interessante como eles são grandes expressões, culturais dos valores do nosso tempo, principalmente dos valores do digital. É, com certeza, vem atravessando a todos nós, transformando fisicamente as pessoas e o nosso imaginário do que é belo mesmo, então, onde todos os padrões, a gente nunca teve tantos registros, nunca se registrou tanto, se viu tanto, circulou tantas imagens de corpos, de rostos, como a gente tem feito hoje. Portanto, a gente também nunca teve tanta material para a gente se comparar. Nosso referencial estético, como um todo ele foi mudado, claro que isso chega aos nossos corpos também. Segundo, acho que tem uma coisa que vem daí, também que há imagens, o valor da imagem, da representação, principalmente do efeito, hoje vale tanto quanto você ter as coisas de fato, ou você ser as coisas de fato. E isso chega aos nossos corpos também. Então, a gente tem visto aí diversos discursões sobre imagens digitais, que vão valer mais do que os próprios objetos em si, a gente está passando por isso de uma forma geral, em tudo o que tem corporeidade e materialidade. No crescimento do valor, da imagem, das representações das coisas. Então, isso chegou com certeza com muita força ao nosso cor também. Um outro ponto é que, com a cultura digital, a gente teve uma possibilidade menta de adição dessas imagens, que vai dar pra gente uma chance, da gente se testada, a gente se experimentar, a ver novas formas e novas formatos, por nosso corpo, por nossa matéria. Então, você tem uma coisa que a gente, como um sujeito contemporâneo, ama, essa é múltiplo, é ter múltiples possibilidades de ser, de existir, de se testar, de se investigar, e de se perceber de diversas maneiras diferentes. Então, a gente pode fazer isso com acesso de ferramentas na palma da nossa mão, é algo que nos convida muito. E, apesar disso, poder em muitos momentos ser um impulso que leva pra um exagero, que leva pra dos morfias, ou pode ter consequências mais negativas, eu acho que isso condua aí um grande potencial criativo. Pra nós, e que, se ele for bem circulado, bem direçado, acho que pode ter coisas muito incríveis, como algumas pressões artísticas joguei fazendo. Eu tive isso de uma forma muito clara, com a gente vai poder acessar versões potenciais a gente mesmo, que são um geral muito diferente do que você abre uma câmera frontal e você vem. Então, você é apresentado a uma versão entre muitas aspas melhor de você. E eu acho que é que a gente precisa investigar o que vai nos dar essa, noção de que essa versão seria melhor. Mas o que é curioso é que esse filtro, ele vem mostrar um rosto, por exemplo, que eu ainda não tenho, mas que eu poderia ter, porque essa imagem pode ser também agreditável fisicamente. Então, é aí que entram os procedimentos estéticos com muita força. A gente tem visto que se antes as pessoas iam no constróer, mostrando uma capa de revista, alguma coisa assim, onde elas vão nos constoares médicos pedindo um rosto igual do filtro. O que muda nesse paradigma é que a gente vai ficando insuficiente, não com relação ao comparativo com os outros, mas com a gente mesmo. Então, se eu já tenho esse grande potencial, eu to arrumando a ingerção de fazer ele acontecer. Pra mim, essa é uma grande mudança que a gente viu com a era digital. A gente vai ver que toda lógica de consumo ela sempre vai se basear na dinâmica do desejo e da falta. Se eu sinto que o que falta em mim, por exemplo, é aceitação social, é uma boa circulação estética pelas redes, talvez eu compreendo que o que falta em minha marrino plastia é esse um caminho mais curto que eu posso facilmente acessar. Então, digamos que é um caminho subjetivo que ele vai demandar menos investigação de nós mesmos. O que eu posso fazer pra placar essas faltas que eu sinto? O que que eu desejo que nesse caso eu literalmente posso encarnar em mim? Não é só que hoje existe um padrão de beleza, mas existe uma beleza pré-programada também. E a pergunta que a gente tem que se fazer é pré-programada atendendo aos interesses de quem. Então, nesse sentido eu vejo que alguns procedimentos e algumas coisas que a gente faz em nosso corpo não só não vão ser estéticos, como eles vão ser antistéticos, porque se eles vão gerar desarmonia, malestar, tanto físico, quanto subjetivo, psicológico, enfim, acho que aí tá um limite muito interessante pra gente repensar as nossas próprias numções de estética e do que a gente vem construindo com o ideal de beleza em diversos aspectos. Muito interessante esse trabalho da camíola, você pesquisa aquela fez. E o quanto faz a gente pensar sobre toda a questão da registrabilidade e do que é verdadeiro ou falso, esse papo de beleza natural também existe isso de beleza natural, francamente, às vezes, me parece uma grande falácia do marketing. Porque assim, a beleza é uma construção cultural. Se você corta o cabelo, já deixa de ser natural. Não existe um natural porque a gente não é um bicho, a gente é o que come, a gente é os remédios que a gente consome, os nossos hábitos, movimentos, exercícios, e isso não é natural, isso tudo é aprendido. Então, a gente vai ser essas roupas que a gente usa, ou a quantidade de protetor solar que você usa, que vai permitir que você tenha uma pele, que vai envelhecer, manchar mais ou menos, cair mais ou menos, não tem nada de natural nisso. Mas, dito isso, tem um ponto entre o natural e o artificial, que é realmente alguma coisa meio sinistra, que parece que está acontecendo. Quando a gente começa a ver aqueles sorrisos, bem petrificados, não só porque os dentes são falsos e parecem aquelas balinhas de mentex, mas porque tem alguma coisa de um sujeito que parece que só relaxa quando está travado, ou travá relaxado. Sei lá, é meio que esse investimento muito exagerado na tentativa de um ângulo certo, de um contorno hiperlaptado, um arranjo muito perfeito, que acaba às vezes trincando no que seria a efemeridade de um registro. E é esse perde à vida, porque vira um estato, é como se essa réplica imagética, saísse embotada, afetivamente embotada, isso parece um pouco triste, porque esse sujeito está renunciando a sua condição de sujeito, para desencarnar como objeto de decoração, o que há um tanto mórbido, simplesmente para a preceção e contemplação do outro. A lusta ótima, o cabelo tem pecado, o corpo tem forma, mas o conteúdo ficou ridículo, e ainda assim tem milhares de vios. Mas o que será que esses vios estão representando? Eu tendo a acreditar que estar feliz com a beleza do seu corpo não significa que você vai ser percebido como um corpo feliz, mesmo que seja um corpo lindo, porque tem alguma coisa sobre a apresentação desse corpo em si, e que vai sempre entrar junto em cena, junto com a maquiagem, com o figurino, com toda essa escultura, e aí tem alguma coisa entre ser, estar e parecer que a gente não tem controle. Talvez um pouco daquilo que a gente chama na psicanálise de objetuar, que é algo muito abstrato, porque é um objeto que simboliza a falta, é um objeto causa do desejo, e que pode ser tão sutil quanto um jeito de olhar, um jeito de se mexer, alguma coisa que não dá pra você forjar e manipular, e por mais que existam padrões e gostos e tendências de beleza, tem coisas que nos escapan e que nos capturam, e a gente não sabe dizer por quê, e elas vão ser mais interessantes do que aquilo que a gente já sabe que nos interessa, justamente porque elas nos colocam uma pergunta a respeito do nosso desejo. Então, o que que eu vejo nossa pessoa que é tão interessante e atraente? E que parece que só ela tem, e a gente volta exatamente para a questão dos padrões, porque o padrão compre um checklist, que é consciente, que é objetivo, que está nessa produtividade, mas a bafa isso que é engapturável, e que passa pela via inconsciente do nosso desejo. Lucas achei muito bom isso que você falou, e principalmente quando você trouxe essa imagem da estátua, você sabe que eu gosto bastante de trazer umas referências da cultura pop, das diferentes esquinas da internet para nossa conversa. Todo mundo gosta.
quando você traz essas referências, André, eu inclusive. Então vamos falar da maior estátua de beleza que a gente tem hoje na cultura ocidental, ou de pelo menos o pantheon, as cardaixas, que inclusive a camila analisa um pouco no livro dela. E é interessante porque as cardaixas são tidas como essas seis mulheres que mudaram a beleza para sempre. Esse é o discurso. Os livros da Quem Cardacha, inclusive, são interessantes, primeiro chama selfie e segundo chama selfies, mais de mim com selfies e néditas. O que é muito fascinante sobre as cardaixas? Você sabe como é a aparência delas, mesmo que você nunca tenha assistido um episódio da série delas que teve 14 anos, se eu não me engano? Ou mesmo sem ter visto seus vídeos no Instagram? Não é por acaso que elas são chamadas na imprensa como a família real norte-americana. A influência delas está hoje presente no aumento das cirurgias plásticas, no aumento de alguns produtos de beleza, na venda de revistas, produtos mediáticos, séries de TV, enfim, uma série de coisas. O contorno da Quem, os quadris da Caile, as curvas da Chloe, o regime de vitaminas da Courtney, o Fox Eye, ou olho de raposa de todas elas. E o que eu acho muito bom da gente pensar é como essa aspas transformação da beleza que elas causaram é um bígua. Tem um bígua quanto beleza real ou beleza construída. Um rosto que é meu, ou um rosto que é produzido como uma coisa que está fora, e estou colocando isso no mundo como um produto. A racialidade delas é uma discussão interessante, inclusive. Porque elas são ambígulas o suficiente para serem referência de beleza não branca, e ao mesmo tempo elas apresentam diversos códigos estéticos e comportamentos que são associados com a branquitude. Em uma foto aqui em cardaixa, não pode parecer pálida nos padrões californianas. Em outra foto ela pode aparecer com uma pele tão escura que ela é acusada de black fishing. Está passando por uma pessoa de cor. E claro, esse corpo chamado Slim Thick, que tem uma sentura bem pequenininha e um quadril bem largo, que tradicionalmente são proporções muito associadas a mulheres negras, e que inclusive faz um que muitas mulheres negras se identificem ou aspirem de alguma forma a beleza das cardaixas. Elas são acusadas assim de tudo que você quiser sobre a propriação de todas essas questões em relação a estar manipulando códigos estéticos ao favor delas. E a favor do seus próprios negócios pessoais, que elas também geram muito dinheiro, vem nem bastante coisa. Tem leg, tem top, tem calcinha, tem suteia, tem batom, tem enfim. A lista é enorme, inclusive atribui-se as cardaixas no crescimento dessa cirurgia que vem bombando tanto nos últimos anos que é o "but lift". Essa levantada no bombo, que é por muitos cirurgiões chamado de "Brazilian but lift", que é algo que inspira-se no corpo das brasileiras. Sendo bastante polêmico, tem um perfume de feminismo civilizatório em tudo isso. Existe sim uma inegável expansão dos padrões de beleza, mas com um rebote de colocar outros padrões no lugar dos antigos. E a monetização desses novos padrões, como tudo no capitalismo Tardio, beneficia apenas algumas mulheres. Essa diversificação dos padrões não tornou os padrões menos excludentes. É uma reconfiguração de padrões que se propõe liberdade, mas ela não necessariamente é. Tem um parágrafo que eu cruzei na internet de um livro da Tina Fey, que tem um resumo muito bom, que é o "Jing-Dia" esperado de toda mulher, ter olhos azuis de uma calcaziana, lábios de mulheres panola, o clássico nariz, uma pele sem pelos, como uma pele tradicionalmente asiática, um bronzeado californiano, um bumbum do Dennis Roge a Maicano, pernas longas como mulheres nórdicas, e de preferência, pés pequenos como das mulheres japonesas do Império, sem falar nos braços da Michelubama, enfim, uma série de coisas. E a única pessoa que consegue cumprir toda essa lista é exatamente aqui em Carlesche, e talvez as irmãs dela. Tudo isso, na minha opinião, mostra como a beleza na atualidade é paltada, principalmente essa beleza real, por uma certa transparência relativa, e um bem estar seletivo. Eu tenho tudo isso, mas eu juro de pé junto na entrevista, que é porque eu tenho uma bela dieta, que eu não fiz nenhum procedimento. Ou que eu fiz uma coisinha ali, uma coisinha aqui. E um bem estar seletivo no sentido de que você revela, apenas o que você quer, você prega essa beleza de dentro pra fora, e quando convém, de preferência com um cupom de desconto logo em seguida. É importante a gente pensar sobre isso, porque essa ambiguidade, esse discurso de beleza real, esse imperativo do amor próprio, povoando o mesmo mundo de cosméticos, influenciadoras de beleza, procedimentos estéticos, toda essa era farmacopornográfica do pressiado, produz o que uma psicóloga muito interessante, chamada Azadé Aalai, descreveu como biorecicness, ou anausa e a da beleza. É um trabalho muito interessante, em que ela reflete como tem um conjunto desconcertante de contradições, quando a gente está falando sobre a beleza, principalmente afetando as mulheres, que é um grande questionamento sobre esses padrões tão apresonadores de beleza, que tem que ser assim, que tem que ser assado, coexistindo com altas taxas de consumo disso tudo. E todas as implicações que isso gera, principalmente em pessoas mais jovens e principalmente mulheres mais jovens. Só que esse mesmo livro do biorecicness, ele é bom, porque ele termino não tão esperançoso, de que nem tudo está perdido e a gente está muito bem equipado para lutar contra essa cultura que vai nos adoecendo na nossa relação com a beleza. E que dá assim, para criar um mundo diferente, a gente só precisa conseguir elaborar e discutir quais caminho seguir. E não necessariamente cair nesse discurso fácil, que na verdade é só para vender mais champuna. Bom, André, agora você complexificou bastante aqui, por meu lado. Vou dizer que a representatividade da beleza na mídia de massa vem melhorando. Você falou isso de alguma forma. E isso também não exclua a presença de corpos supostamente e aparentemente mais perfeitos, porque se é para caber todo mundo, também vai ter que caber a barbe, por exemplo, com certeza. Voltando um pouco para a saúde, talvez de forma objetiva a gente tem que fazer uma crítica assim, quando a gente começa a pensar que essas intervenções vão prejudicar esse sujeito. Como saber isso, na época, existem técnicas tão novas que a gente nem sabe como que esses corpos modificados vão estar aqui alguns anos. E a gente sabe que existem médicos e médicos e um fetiche também por testar os limites dessas intervenções. E eu sinto que não é nem mais tanto o limite entre o natural e o artificial, como eram temporais de tentar parecer sutil e tudo mais. Cada vez mais, parece que o limite é entre o artificial e o trans humano, o que muitas pessoas podem chamar de absurdos, o que é bizarro, e até feio, e até horrível, né? E aí tem um giro muito curioso, porque na busca implacável, e sem limites, pela beleza, o sujeito para muitos. Se torna feio, a gente conhece exemplos assim, e que ainda sim também são meio estigantes, porque é quase uma berração, isso é meio que observar nosso alho esse sinto social aqui, e vir uma caricatura como estar nesse último editorial da élico com estética barbicor, esse excesso, esse volume hyperbólico, às vezes ironico, às vezes engraçado, às vezes triste, às vezes sexo, ou às vezes simplesmente desajetado e constrangedor. Mas aí cabe também a gente não fazer juízo, tem quem gosta, e se você não gosta, você não é obrigado a gostar. Mesmo que tenha muita gente que gosta, eu acho que para análise, é sempre interessante a gente refletir, sobre como a gente fala das coisas. Então, o que é um traço de beleza, ou o que é um defeito, ou uma falha, ou é uma imperfeição, é uma particularidade, o que seria uma personalidade estética, a forma como a gente vai falar da nossa beleza. Ou do incómodo, com a nossa beleza, vai dando esse contorno simbólico que a gente deve escutar, tanto do outro quanto de a gente mesmo. O que está vindo junto aí? De onde que vem essas palavras, falaram para você dessa forma, você ouviu nas redes sociais, você acredita em tudo o que te falam. O quanto desses pontos de incómodos são reais, ou são imaginários. Porque quando a gente pensa num transtorno de desmorfia corporal, o sujeito pode entrar num giro infinito de arrumar entre aspas uma coisa, e automaticamente já começar a sofrer por outra. Então, a gente vai ter que ver bem que arrumações são essas antes de sair comprando e consumindo essas transformações. Com certeza, porque esse empuxo a transformação é algo que a gente precisa escutar, porque tem alguma coisa que está por trás disso. Geralmente, num primeiro nível, é exatamente essa expectativa até relativamente aceitável de que tudo isso preencha a falta. Então, essas pessoas que. injetam 10, 15, 20, ML de ácido elurônico em alguma parte do rosto, é de darte quando tentar preencher a falta. Não é só harmonização, é idealização facial. Estou tentando colocar isso num lugar em que eu seja um pouco menos falho, em que eu seja um pouco mais aceitável. Só que, eu acho que você falou disso muito bem, esse processo, ele também nos aliena de alguma forma, quando ele é excessivo e de novos limites, são, de sujeito para sujeito, de corpo para corpo, e a alienação está inclusive no nome, alterações físicas, alteração. É uma ação alternativa, é um desvio de rota, é um desvio de olhar. Por isso que, acho muito bom e você me provocou bastante sobre isso desde o começo desse episódio, Lucas, que esse discurso não faça a epésimo, ou ficar só falando mal, ou ficar só criticando, como é absurdo as pessoas que fazem isso? Um, ele é muito raso, dois, ele não está funcionando. Porque vamos pegar um exemplo, um jovem que tem, uma inteligência visual, afiadíssima, treinada, pelo menos 10 anos para a escola da internet. Domina, iluminação e ângulo de câmera, é melhor que muito fotógrafo. Esse sujeito, ele é imúneo, o discurso não faça isso. A questão é quais conversas a gente pode ter para ir além disso. Como a gente pode falar das distorções, como a gente pode falar dos algoritmos, como a gente pode falar dos produtos que estão no rebote de tudo isso, ou mesmo essa palavra, né, procedimentos de onde a gente está procedendo e para onde a gente está tentando ir com esses procedimentos. Que tipo de vergonha, talvez, está muito difícil de sustentar que ideal não está sendo correspondido, que olhares do outro tão difícil de sustentar, que não dá mais para ser quem se é. Essa conversa de você não precisa disso, gente é um bandaid. Tem um bandaid muito ruim, que vai sair na primeira lavagem, porque a gente está lidando com uma superpopulação de imagens, é a superindustria do imaginário. Então assim, a ferida é muito mais funda. E aí, você passou por esse meme quando você estava falando, e eu queria retomar ele, que é aquele meme do Trava-na-beleza, sabe? É meio antigo, mas ele é muito bom para a gente aqui, porque parece que quanto mais implicado a gente está, nesse, eu tenho que ser assim, mais travada fica a nossa fantasia, mais travada está o nosso desejo, como se o desejo cobesse numa única imagem, ou só pudesse ser escutado, vivido, se estiver correspondendo a uma determinada imagem. E é por isso que, para esses sujeitos tão implicados, nessa vigilância do corpo e do rosto, a gente precisa operar uma certa clínica do distravamento, como é que a gente distrava a fantasia desses padrões que você trouxe ao longo do episódio, porque assim, aquele bom lembrete, corpo forte e gosa, mas corpo magro ou corpo gordo também gosa, corpo bonito e gosa, mas corpo feio também gosa, todo corpo gosa como cantar aletrux. Todo corpo tem água, lágrima, suorgoso, e se organizar todo mundo gosa. Quantas pessoas a gente não recebem na clínica com o transtorno de ansiedade em função do uso de anabolizante? Tá valendo a pena? A gente tem que entender, até se não existe uma espécie de maltrato ao próprio corpo, a própria saúde, como um tipo de masoquismo mesmo, uma vingança contra esse mesmo, por não estar entregando tudo que a gente espera, a gente. Então, é investigar e escutar. E até enxergar tem alguma coisa aí também que uma analista pode enxergar é curioso porque a beleza ela torna o desejo visível. Isso é muito irriquecedor, interessante. E esse tante também. E investigar os nossos desejos, entorno da beleza, não é para destruir a fantasia, mas entender melhor a serviço do quê, né, e de quem. E como que a gente, ao invés de preencher com a ácido todos esses buracos do narcisismo? Como que a gente pode sustentar esses furos nesse narcisismo? E dá conta de ter um corpo que é furado e que é finito? E ter algum tipo de escuta de cada história, de insatisfação, de cada corpo, de cada pedaço, de cada corpo tem para dizer. Porque, por exemplo, um sujeito que sofreu com exclusão social e bullying, a vida inteira, em função de alguma característica física, você não vai argumentar com essa pessoa aquela precisa ser desconstruída e desconstruir os discursos culturais e não dá bola porque os outros pensam aceitar-se mesmo que ela é perfeita como Deus a fez. Tudo isso é um progressismo tóxico. Como a gente disse no imperativo do alto amor, ninguém devia ser obrigado a se amar o tempo inteiro. É esse falo sobre quem é marginalizado e dá para a gente lembrar que beleza também pode ser de alguma forma uma rota de fuga, saca. Vamos pensar, por exemplo, numa criança queer. Ninguém protege essa criança geralmente porque só se protege e a criança de bem é a criança naturalmente heterosexual, dizem por aí. Daí a sociedade diz para essa criança que ela não pode andar assim, ela não pode gesticular, ela não pode falar assado, ela não pode brincar assim, ela não pode se vestir daquele jeito. Sino, ela vai sofrer bullying, ela vai apanhar, ela vai morrer a tena. Porque "cir queer" é feio. Só que algumas crianças queer tem a sorte e alguns privilégios e conseguem ser conduzidas a algum caminho que desemboca em descobrir que "feio e bonito" assim como masculino e feminino são construções. É a frase da Rupol, sabe? Todo mundo nasce no e o resto é drag. O resto é construção. E aí tem uma frase da "ivisero" e "cafilosofa queer" que pra mim é espetacular. Talvez uma das melhores que eu tenha lido na pesquisa para esse episódio. "A beleza não seria uma série de pôteses interrogação e pôteses não certezas. Simbólico, não imaginário. Eu acho essa frase uma das coisas mais lindas porque ela é sobre alargar. Ela é sobre interrogar no lugar de afirmar. E o mundo da beleza tem muitas exclamações. Faça todos esses passos de esquinquemquer, "M" "C", "Armonize-se". Tudo até meio sutil por o suco dessa sugestividade. Mas a cultura queer ela nos ajuda a envergar esses pontos de exclamação e colocar algumas curvas, trazer alguma estranheza para dentro da beleza. Eu tenho insistido em falar de autores da comunidade LGBTQIA+ porque realmente eu acho que é uma grande fonte de inspiração pra sociedade como um todo, inclusive pra própria comunidade, que de certa forma vem topando muitas opressões clássicas da beleza e sofrendo bastante com isso. A gente escuta muito disso na clínica. Autores como a "ivisero" e que podem nos ajudar a construir um mundo um pouco mais positivo, nesse momento tão sombrio do contemporâneo que está de alguma forma nos preparando, a gente está vivendo nessa, né? Isso passa profundamente por a gente interrogar. E aí eu volto nessa frase que pra mim tem muito a ver com tudo que a gente discutiu nesse episódio. A beleza não seria uma série de hipóteses e não de certezas. Quem disse que isso é bonito? Quem disse que é só desse jeito que se é bonito ou que se sente bonito? Não sei quem disse isso, André, mas com isso que você está dizendo agora eu sinto que dá pra encerrar por aqui, né? Pode ser? Pode ser. Vamos seguir pensando. E olhando pra esse espelho. Ou talvez desviando olhar do espelho pra olhar um pouco mais pro mundo. Tá ótimo. Vamos nessa. Até mais. Até a tchau. [Música]
Podcast Summary
Key Points:
O Brasil é um dos países que mais realiza cirurgias plásticas no mundo, com um aumento de 141% em procedimentos entre jovens de 13 a 18 anos nos últimos 10 anos.
Existe uma contradição entre o discurso da "Beleza Real" e a pressão social para usar filtros, fazer procedimentos estéticos e buscar um corpo idealizado.
O rosto é visto como uma "membrana" entre o eu e o outro, um cartão de visitas que reflete o sucesso e as escolhas do indivíduo, sendo moldado pela cultura.
O corpo, na psicanálise, é um "litoral" que nos dá limite, mas a obsessão em modificá-lo como "massa morfa" indica uma falha simbólica e uma dificuldade de integrar o real, o simbólico e o imaginário.
A beleza funciona como um "anteparo frente à morte", uma miragem reconfortante que evita a finitude e a fragilidade humana.
A necessidade constante de se olhar no espelho (ou nas telas) aponta para uma alienação e uma busca incessante por uma identidade estável, que é facilmente abalada por comentários e padrões irreais.
O conceito de "homo aestheticus" descreve um sujeito consumista e individualista, em busca perpétua de aperfeiçoamento estético, transformando a vida em um design ininterrupto.
A pressão estética é exercida por grupos sociais que se protegem através da uniformização, anulando a singularidade e reforçando preconceitos e exclusões.
Summary:
O episódio do podcast "Vibes e Análise" explora as contradições do ideal de beleza contemporâneo. Os apresentadores, Lucas e André, psicanalistas, partem de um paradoxo: apesar do discurso da "Beleza Real" e da crítica ao Photoshop, o Brasil é líder mundial em cirurgias plásticas, com um aumento expressivo entre jovens. Eles argumentam que a beleza não é superficial, mas um tema carregado de implicações culturais e psicológicas, conectado a dinâmicas de poder, classe, gênero e raça.
A análise se aprofunda na relação entre o sujeito e seu rosto e corpo. O rosto é descrito como uma "membrana" entre o eu e o outro, um cartão de visitas que a cultura molda e que, na era digital, se torna um outdoor de sucesso. O corpo, por sua vez, é um "litoral" que nos dá limite, mas a obsessão em modificá-lo revela uma falha simbólica: a dificuldade de integrar o real, o simbólico e o imaginário.
Os apresentadores discutem como a beleza serve como um "anteparo frente à morte", uma miragem que nos protege da finitude. A necessidade constante de se olhar no espelho (e nas telas com comentários) reflete uma alienação e uma busca por uma identidade estável, que é constantemente abalada. Eles introduzem o conceito de "homo aestheticus" para descrever o sujeito contemporâneo, que busca incessantemente o design do corpo e da vida. Por fim, apontam que a pressão estética é exercida por grupos que se protegem através da uniformização, criando um "microfacismo" que anula a diferença e reforça a exclusão, tornando o dilema entre resistir ou se entregar ainda mais complexo.
FAQs
O Brasil segue como um dos líderes em cirurgias plásticas, com aumento de 141% entre jovens de 13 a 18 anos em 10 anos, indicando uma contradição entre os discursos de aceitação e a pressão estética.
É um termo do filósofo Lipovetsky que descreve um novo sujeito cultural, consumista e individualista, que busca aperfeiçoar e editar o corpo e a vida continuamente, como parte de uma busca estética democrática e de massa.
O rosto é tratado como um cartão de visitas e outdoor pessoal, com destaque para simetria e perfeição, influenciado por redes sociais, filtros e aplicativos que geram obsessão por intervenções estéticas.
Lacan sugere que a beleza funciona como um anteparo ou barreira diante da morte, oferecendo um reconforto ilusório contra a finitude e a fragilidade humana.
Significa que o rosto não é inato, mas aprendido e moldado pela cultura e pelo outro, sendo uma membrana entre o eu e o outro que constitui nossa psique.
A exposição constante a câmeras e telas cria uma necessidade de reasseguramento da identidade, mas também pode levar a crises e transtornos como dismorfia corporal, devido à pressão por um ideal inatingível.
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