Dedo No Pulso: Análise Macroeconômica e Agronegócio 17/08 a 23/08/2026 com Antônio da Luz
62m 55s
O episódio do podcast "Dedo no Pulso" analisa o cenário macroeconômico brasileiro e internacional na semana de 17 a 23 de agosto de 2026. O economista-chefe da Ecoagro destaca que o IPCA de julho veio levemente acima do esperado, mas segue em trajetória temporária de alívio, com expectativa de reaceleração devido a fatores internos e à retomada do preço do petróleo. A atividade econômica mostra sinais claros de desaceleração, com serviços estagnados e varejo crescendo pouco, indicando um PIB fraco para o ano.
O principal estudo do episódio aborda o fluxo de capital estrangeiro na Bolsa Brasileira e seu impacto no câmbio. Após um forte ingresso de recursos no primeiro quadrimestre, houve reversão a partir de maio, com saídas expressivas, intensificadas pelo rebaixamento do Brasil pelo JP Morgan, que mudou sua recomendação de compra para neutro. Isso gerou uma fuga de capitais e pressão sobre o real, com o dólar voltando a subir.
O segundo estudo trata do risco de dominância fiscal. O economista explica que, tecnicamente, o Brasil não está em dominância fiscal, pois o teste empírico de Blanchard não se aplica à realidade atual, com dívida em reais e reservas cambiais. No entanto, o país sofre com um "prêmio fiscal" que eleva a taxa de juros neutra, por meio de três canais: política fiscal expansionista, prêmio a termo e crédito direcionado. O superávit primário necessário para estabilizar a dívida seria de quase 4% do PIB, muito distante do déficit atual, evidenciando o desafio fiscal que mantém os juros elevados.
o podcast da Ecoagro, análise
com sensibilidade, precisão e
visão estratégica dos movimentos
do agronegócio e da economia.
Toda semana, nosso economista
chefe Antônio D'Alus interpreta
os dados mais relevantes com
profundidade, didática e
realismo. Um conteúdo direto da
fonte com tudo que você precisa
saber sobre macroeconomia,
mercado agropecuário e o cenário
político-econômico. Porque para
antecipar tendências, é preciso
ter o dedo no pulso do mercado.
Ecoagro, o elo entre o agronegócio
e o mercado de capitais.
Olá, investidores. Olá, pessoal
do agronegócio. Que bom, que bom
tê-los conosco também nessa semana que vai
do dia 17 ao dia
23 de agosto de
2026. Sejam todos
muito bem-vindos ao Dedo no Pulso
Panorama Macroeconômico e o Agronegócio
que é um oferecimento da Ecoagro, a
maior segurizadora do agro do Brasil.
Pessoal, esta semana que
estamos, ela é um pouco mais
fraca no Brasil. Nós temos
o IBCBR, que é o principal indicador
que sai essa semana, o indicador de
atividade econômica do Banco Central.
Super importante, até porque nós
estamos num processo de desaceleração
temos que continuar monitorando
a atividade econômica brasileira,
mas também sai o IGP-10.
Além, é claro, do boletim Focus do Banco Central.
Lá nos Estados Unidos a agenda é um pouco mais cheia.
Lá nós temos a produção industrial
que é super importante, relevante,
vem crescendo a produção industrial
lá. Aliás, eu estou me planejando
para fazer um episódio
para falar da produção industrial americana.
Estados Unidos está se reindustrializando?
Será que aquela
fantasia, né,
alegoria que
os chineses fizeram
para retratar o projeto
de reindustrialização dos Estados Unidos,
colocando lá um
pessoal mais gordo,
com pouca mobilidade,
fazendo trabalhos industriais,
mostrando que não tem
como os Estados Unidos se industrializar.
Mas acontece que os Estados Unidos
estão se reindustrializando.
Só que não é a indústria
da manufatura, não é a indústria
que exige mão de obra
com braço forte,
e corpo magro, como o chinês,
para tocar essa indústria.
Não, é um outro tipo de indústria.
Eu tenho que fazer um episódio sobre isso.
Está aqui, olhando aqui a produção industrial
e tentando justificar o porquê
que ela é importante, me dei conta.
Tenho que fazer um episódio sobre isso.
Vou fazer, se der,
faço na semana que vem.
Vai ter as atas da reunião
do FONC, que é super importante,
pedidos iniciais e contínuos
de seguro-desemprego,
e também teremos os PIA+.
Quando eu falar sobre a produção industrial,
vocês vão se surpreender.
Os Estados Unidos estão se reindustrializando, sim,
mas é por causa de uma outra vertente.
É o crescimento da indústria
da tecnologia, da IA,
tem uma outra pegada, mas é
produção industrial do mesmo jeito.
Essa visão da indústria
manufatureira, com um mar de gente
trabalhando, isto é
século XX, isso não é século XXI.
E na China, falando nela,
nós vamos ter investimento estrangeiro direto.
Lembra que está saindo o dinheiro da China,
não está entrando para a construção
de negócios da
economia real. Taxa preferencial
de empréstimo do Banco Popular da China
sai essa semana, portanto os juros
lá na China serão divulgados
nessa semana. A nova taxa de juros
que hoje está em 3%.
E lá na zona do euro nós vamos ter
inflação nessa semana
que estamos. Pessoal, além dos
indicadores que estão sobre a mesa, que não são
poucos e nem menos importantes, afinal
de contas tivemos IPCA nessa semana,
nós tivemos também a
atividade econômica
nos serviços
e no comércio, tivemos
os resultados, então
não foi uma semana pouco importante, mas
eu trouxe dois estudos
complementares. Um deles
eu quero falar sobre câmbio,
porque o câmbio, ele teve uma
elevação importante nessa semana
e nós tivemos um gatilho
que foi a
recomendação do
JP Morgan rebaixando
as compras para o Brasil,
na Bolsa Brasileira, para
neutro. E isto não só
teve um efeito muito forte na
Bolsa, mas também no câmbio. E isto
pode ser
um gatilho cambial. Vou
falar disso. E outra coisa que eu
quero falar e que trouxe aqui em forma
de estudos é sobre
um termo que
está na ata e que tem assombrado
o mercado, tem assombrado
muita gente, que são os
problemas fiscais.
O Banco Central,
o Copom,
ele tem trazido, desde a época
do Roberto Campos Neto, não por causa
do Roberto Campos Neto, mas pela situação
fiscal que começava a se
deteriorar, nós começamos
a discutir com
mais gravidade, mais intensidade
nas atas do Copom,
seja lá do tempo
do Roberto Campos Neto, seja agora
na gestão de Gabriel Galipo,
quando nós temos os membros
do Copom indicados pelo atual
governo, a presença
da preocupação fiscal, ela
tem sido uma constante.
E muitas pessoas dali
fazem um pulo para
a dominância fiscal.
Então eu vou trazer para vocês
exatamente o que foi dito
na ata e eu quero trazer
uma discussão técnica
sobre dominância
fiscal. Porque dominância fiscal
não é uma opinião.
Ah, eu acho que está, eu acho
que não está. Não, não, tem elementos.
Isso é objetivo.
Então nós vamos trazer este debate.
Para cá, vou trazer não só
a teoria, mas vou trazer também
as evidências e os dados
e linkar com o que está
escrito na ata.
Porque, olha, eu vou dizer um negócio. Na minha
opinião, o que é dito na ata
sobre fiscal deveria ter muito
mais repercussão na imprensa.
Inclusive na imprensa
especializada. E eu não vejo isso
acontecer. O que me causa
uma certa estranheza,
inclusive uma certa
preocupação. Acho que
deveríamos falar mais sobre esse assunto.
Então eu trouxe aqui
sobre este tema. Nós vamos
falar sobre risco de dominância fiscal
e aquilo que está na ata
em forma de estudos. Agora,
antes, eu quero trazer o dado
mais importante monetário
que saiu essa semana, que foi o IPCA.
Afinal de contas, o IPCA teve um
crescimento um pouquinho acima do consenso.
O consenso estava em 003,
veio 007. E em
12 meses, ele agora acumula
uma alta de 4,44.
Então, ele voltou
a estar abaixo do teto
da meta. Mas muito,
muito longe
da meta de inflação,
que é 3%. Não é
4,63. E agora
nós voltamos a ficar
4,44 temporariamente,
porque o próprio
boletim Focus do Banco Central
e as próprias estimativas
do Copom apontam
para uma inflação na casa de 5%
ao final
de 2020.
De 2026. Então, essa inflação
atende a voltar
a acelerar, a reacelerar
pelas forças próprias
da inflação, mas também
por conta da retomada do preço
do petróleo no mercado internacional.
Que isso não entrou na conta
da inflação ainda. O que nós estamos
vendo na inflação
é o refresco da queda.
Mas a volta da elevação
do preço, a volta do petróleo
acima de 80 dólares,
isso nós não vimos. Nós estamos
refletindo o petróleo indo para
70 e não voltando para 85,
86 dólares o barril.
Então, além dos problemas
internos, ainda temos uma retomada
do preço do petróleo
que deve trazer mais
algum combustível
para o IPCA. Então,
não se iluda, tá?
Isso aqui é temporário, a gente deve voltar
até alta no IPCA. E o segmento
que mais contribuiu para esse número ser
baixo foi justamente o setor
de alimentos e bebidas, que contribuiu
com uma deflação
no mês de julho de
0,67. Já tinha sido
deflação de 0,24
lá no mês de junho, agora
0,67 de deflação
no mês de
julho. O grupo
alimentação e bebidas puxando
a inflação para baixo. Agora,
o boletim Fox, que
da semana passada ficou em 5,02
para o final de 2026,
desacelerando
essa inflação para 27.
Continua acelerando. Agora, a projeção
é 4,20. Estava
4,21. Aliás, 4,22.
Estava 4,21, agora subiu para
4,22. E a Selic
permanece em 13,75
ao final desse ano e
12% ao final
do ano que vem, indo para
se este número acontecer
para o sexto ano
de Selic de dois dígitos.
Sexto ano. Como é que pode o pessoal
não se dar conta dos porquês
que nós estamos
com Selic tão alta, né?
Fazer a relação com as coisas. Isso eu acho
engraçado. Parece que às vezes
há uma tolerância com
determinadas figuras políticas,
né? Porque é incrível
como é que pode nós
termos de um lado
um gasto público enorme,
de um lado crédito
direcionado sendo jogado
ao vento no mercado
para estimular a economia,
seja via gasto, seja via
estímulos de consumo,
seja via crédito direcionado
E aí nós temos uma inflação resiliente, do outro lado, e uma Selic de dois dígitos no quinto ano consecutivo.
Será que é tão difícil se dar conta que uma coisa é efeito da outra?
E para que possamos ter um olhar melhor sobre o problema?
Inclusive nós vimos, seguramente vocês viram, uma famosa jornalista brasileira fazendo lá o seu trabalho de passapanismo,
onde ela trazia lá, não, a inflação está forte, mas não é a sensação de carestia,
meu Deus do céu, além da explicação ser de uma pobreza técnica, de chorar ajoelhado,
é também um serviço para a informação das pessoas, é uma lástima, mas enfim, assim é a vida.
Agora eu quero falar da atividade econômica agora no Brasil, porque a pesquisa mensal de serviços
veio com o crescimento.
O crescimento de zero em relação ao mês imediatamente anterior, junho fechou no zero e maio tinha sido 0,2 negativo.
Então não tivemos evolução no mês.
Agora em 12 meses a PMS, ela se manteve no mesmo nível do mês passado, 2,6.
Então ela já tinha caído no mês passado e se manteve num nível baixo, 2,6 é o crescimento dos serviços.
E o comércio, onde a gente olha as vendas no varejo, tiveram um crescimento de 0,5% no mês de junho,
um pouquinho acima da expectativa que era 0,3, e em 12 meses acumula um crescimento de 1,6%.
Olha gente, vai ser muito, mas muito difícil o PIB dos serviços crescer acima de 2% este ano, vai ser muito difícil.
Aí como a indústria performa. Reclamando o 0,7, olha, fica difícil o crescimento econômico nesse ano.
Vamos crescer muito pouco.
E olha, e crescer já vai ser um desafio, não dá para reclamar muito não.
E agora pessoal, eu queria trazer o primeiro estudo do nosso episódio de hoje.
Eu quero falar sobre câmbio.
Porque o que acontece?
Neste episódio. Eu quero trazer um olhar sobre o fluxo de capital estrangeiro que é registrado na Bolsa Brasileira
e a relação que isso tem com a taxa de câmbio.
Agora, eu vou ter que deixar de lado, tá?
Investimento estrangeiro direto, transações correntes, balança comercial, como já fiz em outros episódios.
Eu quero focar só no fluxo de capital porque é o que interessa para esta semana.
E essas são histórias para outros episódios.
O foco hoje. O foco hoje é o capital do portfólio, aquele capital que entra pela porta da Bolsa, compra ação, compra título e pode ir embora na mesma velocidade que ele chega.
E por que isso importa?
Diferente do caso das transações correntes, diferente do investimento estrangeiro direto, diferente daquilo que é mais estrutural.
Por que importa eu olhar para esse capital mais volátil?
Porque em 2026, esse capital foi responsável por uma das mais impressionantes apreciações do real.
E depois, pela reversão que colocou o dólar de volta acima de R$ 5,00.
E eu quero contar essa história com dados reais, tanto da B3 quanto do Banco Central.
E quero trazer esse contexto porque a oscilação da entrada e saída de capital esse ano é uma coisa absurda.
E isso denota um grau de incerteza do mercado assustador.
Ora entra muito dinheiro, ora sai muito dinheiro.
E eu quero trazer esse assunto.
Mas primeiro vamos então trazer uma contextualização.
O que é esse fluxo?
Então, primeiro vamos criar aqui um alinhamento conceitual.
Quando a gente fala em fluxo de estrangeiros na B3, nós estamos falando do que a Bolsa publica mensalmente.
Quanto os investidores não residentes no Brasil compraram de ações e derivativos no mercado brasileiro?
Quanto estes estrangeiros?
Quanto estes estrangeiros compraram de ações e derivativos no mercado brasileiro?
Quanto estes estrangeiros venderam?
E qual foi o saldo líquido?
Bom, se o saldo líquido foi positivo, eu vou dizer que tivemos entrada de capital estrangeiro.
Porque o estrangeiro comprou mais do que vendeu.
Agora, se o saldo é negativo, eu vou ver saída de capital estrangeiro.
Porque ele vendeu mais do que comprou.
E por que isso mexe no câmbio?
Bem simples.
Quando um fundo, digamos que esteja lá em Nova York.
Ou em Londres ou em Singapura, decide comprar ações brasileiras.
Ele precisa primeiro converter dólar em real.
Porque a nossa moeda é real.
Então, isso aumenta a demanda por reais.
Porque o mercado vai querer comprar reais.
E vai ofertar dólares no nosso mercado.
Consequentemente, ele pressiona a taxa de câmbio para baixo.
É aquilo que nós chamamos de o dólar caiu.
Na verdade, não é o dólar que caiu.
É a taxa de câmbio que caiu.
Quando ele sai, quando o investidor sai, o especulador sai da bolsa.
Ele vende as ações.
E ao vender as ações, ele converte o real de volta para dólar.
E aí, o que acontece?
Aumenta a oferta de reais no mercado.
E diminui a oferta de dólares no mercado.
Aumenta a demanda por dólares no mercado.
Faz o movimento inverso.
Aí, a taxa de câmbio sobe.
E a oferta. E demanda de divisas.
Isto é o básico da macroeconomia.
Então, trazida aqui essa básica e introdutória contextualização,
eu quero trazer aqui um pouquinho do histórico.
Para que nós possamos entender o quanto estes movimentos impactam na taxa de câmbio.
Gente, é muito verdadeira aquela frase.
Que a taxa de câmbio serve para quebrar. Os economistas.
Isso é muito verdadeiro.
Agora, não dá para achar que dólar, taxa de câmbio, é um movimento aleatório.
Porque ele não é.
Ele tem seus fundamentos.
O problema é que ele tem diversos fundamentos.
E, às vezes, uma coisa está mais forte do que a outra.
É isso que dificulta a nossa vida.
Mas não significa que ele seja um passeio aleatório.
Que ele seja algo randomizado.
Não tem nada disso.
E, para te provar, eu vou trazer aqui uma série. De ciclos.
A B3 tem dados sobre o saldo anual de estrangeiros desde antes de 2016.
Então, olhando para os últimos 10 anos, você vê ciclos claros.
A cada ciclo tem uma história macroeconômica por trás.
Vamos lá.
2016 e 2017.
O que eu tinha?
Lembra a grande crise econômica do Brasil?
A maior recessão da história brasileira aconteceu nos anos de 2015 e 2016.
Só que, em 2016. Em 2016, nós tivemos o impeachment.
Nós tivemos um novo governo.
Que assumiu já em agosto do ano de 2026.
Mas, mesmo assim, trouxe uma outra tendência para o mercado.
Entre 2016 e 2017. Ou melhor, respectivamente.
Em 2016 e 2017, entraram 19 bilhões e 39 bilhões.
Ou seja, no ano de 2016. Líquido no Brasil de 19 bilhões de dólares.
E em 2017, 39 bilhões de dólares.
O Brasil vivia uma janela de otimismo pós-impeachment.
Com uma expectativa de reformas e uma Selic ainda elevada.
Mas com tendência de queda.
Já no ano de 2018 e 2019, nós tivemos uma saída líquida.
Por quê?
Uma saída em 2018. De 4,8 bilhões e em 2019, de 6,5 bilhões de dólares.
Não foi uma saída tão grande.
Mas foi saída.
Por que isso aconteceu?
Incerteza eleitoral.
A incerteza eleitoral de 2018 espantou um pouco o capital externo.
Não foi muito.
Porque 4,8 bilhões e 6,5 bilhões negativos não é o fim do mundo.
Mas é saída.
Já em 2020, nós fechamos praticamente no zero.
Dada a incerteza global.
700 milhões positivos foi o resultado.
Pandemia, o mundo tinha parado.
Enfim, complicado.
Aí veio o super ciclo de 2021, 22 e 23.
Três anos seguidos de entrada forte de capital estrangeiro.
Por quê?
Porque nós estávamos fazendo em 2021, 22 e 23
uma política equilibrada do ponto de vista econômico.
E ajustando as finanças.
E dando força para a lei do teto.
E caminhando para o superávit primário que aconteceu em 2022.
Depois de um longo período que começou lá em 2014 com déficits primários.
Em 2022, nós voltamos a fazer superávit.
Mas isso não aconteceu da noite para o dia.
Isso foi acontecendo ao longo do tempo.
E em 2022, nós tivemos o maior fluxo da história até hoje.
116 milhões.
19,8 bilhões de dólares
Aliás, 119,8 bilhões de reais em posse de estrangeiros entrou na B3.
Isto aconteceu por causa do boom de commodities, em primeiro lugar.
Lembra que as commodities bombaram.
Quem é do agro, inclusive, lembra, né?
Nesse ciclo 21, 22, 23, chegamos a ver soja nos portos acima de 200 reais.
Além do. e também petróleo, enfim, as commodities metálicas, energéticas, tudo subiu.
A Selic estava subindo, mas o risco Brasil estava caindo.
E o estrangeiro colocou dinheiro pesado no Brasil no ano de 2022.
Foi o maior fluxo estrangeiro da história.
Já em 2024, quando tem o primeiro ano, quando entra em vigor o arcabouço fiscal,
porque ele foi aprovado em abril de 23,
mas ele passa a vigorar a partir do orçamento de 24,
ou seja, a partir de. 1º de janeiro de 24.
E em abril de 2024, o governo já flexibiliza as já frouxas metas do arcabouço.
Então foi um ano de pesadelo fiscal.
Nós tivemos uma saída líquida de 24 bilhões de dólares.
Aliás, de reais de estrangeiros.
O mercado penalizou o Brasil pela expansão dos gastos, pelo risco da dívida pública
e pela deterioração das expectativas de inflação.
Que desencoraram totalmente no ano de 2024.
Por causa dessa nova diretriz fiscal no Brasil.
O dólar passou de R$ 6,20 e terminamos o ano de 2024 com a taxa de câmbio em R$ 6,07.
Recorde histórico para o final de um ano.
E em 2025, nós tivemos uma retomada.
R$ 26,90.
E em 2026, com dados acumulados até 11 de agosto, nós temos R$ 29 bilhões entrando.
Com uma história inteira cheia de reviravoltas no ano de 2026.
E é isso que eu quero detalhar.
Quem olha só esse número pensa, não, mas peraí.
Se eu tive R$ 26,90 em 2025 e R$ 29 bilhões,
agora em 2026 e o ano não acabou,
estamos aqui com os dados até 11 de agosto,
significa que 2026 está melhor.
E está, de fato.
Agora é um ano cheio de reviravoltas.
E eu vou trazer aqui essas reviravoltas à sua memória.
O ano de 2026, eu vou dividir em três fases,
porque elas foram bem distintas para o fluxo de estrangeiro.
Primeiro, a fase do grande boom,
que foi de janeiro a abril deste ano.
Janeiro foi histórico.
Entrou R$ 26,5 bilhões,
de estrangeiros em um único mês.
Récord mensal de toda a série.
Já fevereiro, entrou mais 15,4 bilhões.
E em março, entrou mais 12.
E abril, trouxe mais 3,2 bilhões positivos.
Então faz as contas comigo.
Quando eu somo o que entrou janeiro, fevereiro, março e abril,
o Brasil acumulou uma entrada de R$ 57 bilhões
de estrangeiros na Bolsa Brasileira.
Ou seja, reais esses que foram demandados no mercado por estrangeiros.
Eles tiveram que vender dólar.
Isto faz com que a taxa de câmbio caia,
porque eu oferto mais dólar e demando mais reais.
Logo, o real se valoriza, se aprecia,
a taxa de câmbio cai.
E foi isso que aconteceu mesmo.
O que explica esse volume?
Por que entrou tanto dinheiro?
Basicamente, três forças.
A primeira, o diferencial de juros.
Nós estávamos com uma Selic de 15 na iminência de começar.
A reduzir para 14,75.
Os Fed Funds lá nos Estados Unidos estavam em 4,5.
O diferencial, mais de 10 pontos percentuais.
Como nós sabemos, isto chama-se Carry Trade.
O cara pega dinheiro lá fora e aplica aqui dentro.
O investidor toma um recurso mais barato lá,
traz para o Brasil, aplica no mercado de renda fixa
ou em ações que pagam dividendos gordos,
embolsa a diferença.
Em quatro meses de 2026, esse Carry Trade rendeu 11% em. Em dólar para o estrangeiro que fez isso.
Combinando com juros do CDI de aproximadamente 4,9% no período,
com uma apreciação cambial de 5,7% lá na Petax,
nós estamos vivendo uma situação muito difícil de resistir.
Segunda, a queda do risco percebido.
O Prêmio de Risco Soberano do Brasil,
pedido pelo CDS de cinco anos,
caiu de 230 pontos base para 170 pontos base,
entre dezembro de 24 e abril de 26.
Menos risco percebido é igual a mais capital disposto a entrar.
Terceiro, o momentum do Ibovespa,
porque o índice saiu de 120 mil pontos
e bateu em 199 mil pontos em abril de 26.
O estrangeiro entra numa bolsa que sobe,
que paga dividendos e que oferece spread de juros elevados.
Com tudo isso, o dólar foi. O dólar não, a taxa de crédito.
A taxa de câmbio foi derretendo, derretendo,
e em 10 de maio deste ano,
atingiu a mínima de 4,89.
Em cinco meses de 2026, de janeiro a maio,
o dólar saiu de 5,34 lá no início do ano
para 4,90 praticamente.
Uma queda de aproximadamente 8%
se contarmos desde o pico histórico de 6,07 lá atrás,
a apreciação acumulada em 17%.
Em 17 meses foi de 19%.
Então foi um baita de uma valorização do real.
Só que depois nós entramos na fase 2, maio e junho.
Então veja, entra muito. Fase 1, entra muito dinheiro estrangeiro,
a taxa de câmbio derrete.
Aí vem a fase 2, maio e junho.
E aí, como quase sempre no Carry Trade,
chegou a tempestade.
Em maio de 26, o saldo virou.
Nós tivemos uma saída de 13,3 bilhões.
A maior saída mensal do ano.
Em junho, tivemos mais 7 bilhões negativos.
Por quê?
Por conta de uma convergência de fatores.
Primeiro, realização de lucros.
Com cerca de 11% de retorno em dólar em quatro meses,
era natural que fechasse posição.
Lógico.
E ainda fecha posição,
pega esses 11% em dólar,
mais a variação da taxa de câmbio,
que ele bota no bolso.
No final do dia, está botando 20% no bolso.
O Carry Trade não dura para sempre.
E com a taxa de câmbio,
quando o retorno acumulado fica alto,
a saída faz parte do jogo.
Segundo, dados americanos mais fortes.
Veio um payroll e um CPI lá nos Estados Unidos
acima do que era esperado,
reduzindo as apostas de cortes do FED.
E com os FED funds permanecendo elevados por mais tempo,
o diferencial de juros se comprime.
Aí o Carry Trade fica menos atraente.
Terceiro, notícias fiscais domésticas.
Revisões nos gastos e empréstimos.
Revisões e incertezas sobre o arcabouço fiscal
voltaram a assombrar e incomodar o mercado.
O prêmio de risco voltou a subir e o dólar respondeu.
De 4,90 foi para cima de 5,10 em junho.
E aí vem a fase 3.
A fase de muita instabilidade.
De julho e agosto.
Porque julho trouxe uma recuperação parcial.
Entrou 4,3 bilhões no mercado.
Mas aí vem uma resposta ao ajuste de preços.
Com um dólar.
Uma taxa de câmbio a 5,11.
O Carry Trade voltou a ficar atraente para novos investidores.
Entrou 4 bi.
Só que em agosto, porém, até o dia 11,
nós temos uma saída de quase 12 bilhões.
Em 11 dias.
Uma reversão violenta.
O mercado global continua nervoso.
E o saldo acumulado em 2026,
que chegou a ser 57 bilhões em abril,
agora está em 20.
29 bilhões.
E aí, o que eu quero chamar a atenção de vocês.
Lá em 2024, quero lembrar.
Por que o câmbio passou de 6?
Porque eu tive mais saída do que entrada.
Mais saída do que entrada.
E foi uma saída bem significativa.
Foi 24 bilhões.
Agora eu estou vendo um valor positivo de 29.
Ok.
Mas nós já tivemos a ter 57.
Ou 7.
Ou seja, nós temos aqui 28 bilhões que já saíram.
Metade do dinheiro já foi, meus amigos.
Metade já foi.
Então, de maio para cá.
Então, será que a outra metade não vai até o final do ano?
Se ela for, ah, bom, aí pode esperar um câmbio próximo de 6 ou que saiba até acima de 6.
Esses 29 bilhões positivos é o que garante a taxa de câmbio na projeção que o mercado está trabalhando hoje.
Que é na casa de 5,3 bilhões.
5,3 bilhões no final do ano.
Agora, se esses 29 bilhões forem embora, pode botar na conta e ficar negativo.
Claro, não basta só ir embora.
Tem que ficar negativo.
Pode, à medida que ele vai indo embora e vai chegando no zero, nós vamos indo em direção a 6.
No momento que fica negativo, bom, aí nós consolidamos um câmbio acima de 6.
Só que esses 29 bilhões, eles entram e saem muito rápido.
Dos 57, sobraram 29.
Já foram 28.
Então, atenção.
Atenção, lógico, mas eu não estou dizendo que só vai acontecer.
Eu estou aqui compartilhando com vocês o que nós temos que observar,
o que pode fazer esse movimento.
E aí vem um ponto importante, que foi um gatilho, um trigger importante,
que foi o JP Morgan, à medida que ele rebaixou o Brasil, agora, recentemente.
E aí o que aconteceu? Qual foi o rebaixamento?
Ele rebaixou a Bolsa Brasileira de compra para neutro.
E aí trouxe uma baita de uma virada.
O JP Morgan, que é um dos maiores bancos de investimentos do mundo,
ele mudou a sua recomendação.
Então, isto trouxe essa mudança.
Fique de fora por enquanto.
Isso pode parecer uma coisa lateral, mas não é.
Quando o JP Morgan muda de posição,
centenas de fundos ao redor do mundo,
que usam os relatórios do banco como referência obrigatória,
são obrigados a rebalancear as características.
E o efeito disso foi imediato.
Os números do dia 11 de agosto são impressionantes.
O Ibovespa caiu 2,5%, fechando a 167.874 pontos.
Em termos de valor de mercado, em apenas um único pregão,
foram destruídos bilhões de reais.
O dólar, naquele dia, subiu quase 1%, fechando a 5,16%.
Com o volume de negócios na B3 subindo também,
atingindo 23 bilhões no dia, muito acima da média recente.
Mas o dado mais revelador é o seguinte.
Nós tivemos 4,72 bilhões de capital estrangeiros
saindo da B3 em um único dia.
Um único dia.
Saiu quase 5 bi.
Esse foi o maior fluxo diário negativo desde abril de 2021.
Ou seja, em mais de cinco anos,
já tinha se visto tanto dinheiro estrangeiro
sair da bolsa brasileira em um único pregão.
E não parou por aí.
Nos sete pregões consecutivos, a partir do dia do rebaixamento,
o Ibovespa perdeu 279 bilhões em valor de mercado.
O equivalente a aproximadamente 54 bilhões de dólares.
Para ter uma ideia de escala,
é como se a terceira maior empresa do Brasil
simplesmente desaparecesse do mapa em uma semana.
E por que o JP Morgan fez isso?
O banco listou quatro fundamentos para o rebaixamento.
Primeiro,
o ciclo de cortes da Selic.
O mercado esperava mais cortes de juros no Brasil em 2026,
o que sustentaria o preço das ações.
O JP Morgan concluiu que o cupom vai cortar mais 0,25 ponto percentual em setembro
e depois vai pausar até o segundo trimestre de 2027.
Juros altos por mais tempo reduzem o apetite por ações.
Óbvio.
O segundo é o risco eleitoral.
As eleições presidenciais são agora em outubro.
E o JP Morgan lembrou que, historicamente,
os ativos brasileiros têm desempenho pior nos seis meses
anteriores a uma eleição.
E o risco político ainda não estava devidamente embutido nos preços.
O terceiro fator é a desaceleração econômica
e a deterioração do crédito.
Que, aliás, quem está aqui no Pulse toda semana
sabe muito bem do que o JP Morgan está falando,
que a gente traz isso o tempo todo.
A desaceleração econômica e a deterioração do crédito
é fundamental nessa conta.
Além disso, eles trouxeram os dados do PMI Industrial de julho,
mostrando,
contração,
o índice caiu de 50,8% em junho para 47% em julho,
uma queda enorme,
pior leitura em cinco meses.
E também, o quarto,
são as pressões fiscais e a inflação acima da meta.
Então, o IPCA projetado para 2026 está em torno de 5,11%,
muito acima da meta de 3%.
O resultado primário do governo deve ser deficitário
em cerca de 0,9% do PIB.
E o banco também reduziu o seu alvo,
alvo para o Ibovespa, de 190 mil pontos para 185.
E o que isso nos ensina?
Isso nos ensina que o JP Morgan é um exemplo perfeito
do que nós chamamos de gatilho institucional.
Um único relatório de uma única instituição
tem o poder de reorganizar o fluxo de capital em mercados emergentes.
Por quê?
Porque nós não somos grau de investimento,
nós somos grau especulativo,
porque nós cuidamos das finanças públicas
de um jeito que não nos dá grau de investimento.
E o Brasil, ao tomar este perfil,
nós viramos um eletrocardiograma.
Entra dinheiro, sai dinheiro, taxa de câmbio reverte.
Mas o importante é que nós entendermos
que estes efeitos podem trazer variações bruscas
da taxa de câmbio.
E nós temos que estar preparados, sim,
para uma virada na taxa de câmbio.
Estou dizendo que vai virar?
Não, não estou dizendo que vai virar.
Estou dizendo que, se virar,
nós não podemos ser pegos de surpresa.
Nós não podemos ver acontecer e ficar sabendo depois.
O último dado sobre a parte econômica brasileira
é o sentimento do consumidor,
que melhorou 53,38% no mês de agosto,
o que sugere uma melhoria da atividade nos próximos meses.
Antes de falar sobre a ata do Copom
e as questões sobre a taxa de câmbio,
as questões fiscais,
eu quero matar os Estados Unidos.
Porque nos Estados Unidos nós tivemos uma queda
nas vendas do varejo de 0,58%,
que assustou o mercado,
trazendo uma queda importante,
mas os dados em 12 meses ainda estão maravilhosos.
Crescimento de 5,01%.
E o saldo dos pedidos contínuos por seguro-desemprego
teve uma queda em relação à semana passada,
mas ainda na casa do 1,8 milhão de postos
de pedidos por seguro-desemprego.
Falando do lado monetário americano,
nós tivemos o CPI,
a inflação ao nível do consumidor deles,
com um crescimento de 0,07%,
em linha com as expectativas,
mas o índice em 12 meses,
ainda que tenha recuado um pouco,
acumula uma alta de 3,30%,
para uma meta de 2,5%.
E o núcleo dessa inflação ficou em 2,47%,
cedeu um pouquinho.
E o IPP, o PPI deles,
o Índice de Presa ao Produtor,
teve deflação em julho,
ficando em 12 meses em 4,66%,
que é um valor absurdamente elevado.
Agora, pessoal, eu quero falar
sobre o outro estudo que eu preparei,
que é sobre o risco de dominância fiscal
e a taxa de juros.
A taxa de juros neutra.
Porque na terça-feira passada,
o Banco Central, no dia 11,
publicou a ata da reunião de agosto do Copom.
E seis dias antes,
o comitê tinha cortado a Selic
em 0,25 ponto percentual,
levando a taxa para 14% ao ano,
como nós já discutimos na semana passada.
E você deveria esperar
que a ata explicasse o corte, lógico.
E ela faz o contrário.
Ela explica por que os juros
vão ficar altos.
Altos por mais tempo
do que o mercado imaginava.
É interessantíssima essa ata do Copom.
Ela não se presta a explicar
o porquê do corte,
mas sim a importância da manutenção.
Ela não disse explicitamente
que vai manter,
mas ela disse o tempo todo
da importância de manter.
E tem o parágrafo,
o sétimo parágrafo,
que eu quero ler,
ipsilíteres aqui,
como a gente sempre faz.
O Copom diz que
o afrouxamento do esforço de reformas
e de disciplina fiscal,
o aumento do crédito direcionado
e a incerteza sobre a estabilização
da dívida pública
tem potencial de elevar
a taxa de juros neutra da economia.
Então, gente,
quando eu estou dizendo aqui
no Dedo no Pulso
que a falta de reformas,
a falta de disciplina fiscal
e o aumento do crédito direcionado
combinado com a falta
da capacidade de estabilizar
a dívida pública,
isto é responsável
pelos juros mais altos,
eu não estou falando
somente o meu pensamento.
Eu estou trazendo aqui
o pensamento de quem decide,
que é o Copom.
Então não interessa
se você gosta ou não gosta
da sentença.
O que interessa
é que essa sentença está sendo dada.
E essa frase, ela não é nova.
Ela aparece na comunicação
do Banco Central
o tempo todo.
Mas é a frase mais importante,
esse documento.
E quase ninguém comenta,
porque, por um lado,
ela é técnica demais
para uma manchete
e política demais
para um relatório de banco.
E a imprensa do passapanismo,
ela não vai pegar este trecho
para esmiuçar.
Porque sempre é bom
deixar uma porta de saída
para encontrar soluções
heterodoxas
e magistrais
para o fato do juros estar alto.
Mas traduzindo aqui,
voltando ao nosso ponto,
o Banco Central está dizendo
que a política fiscal do governo
aumentou o juro de equilíbrio
da economia.
Não o juro de hoje,
o juro que vai ser necessário
mesmo depois que a inflação
convergir.
O piso é disso que se trata
a taxa de juro neutra.
Não é nem o juro de expansão
nem de contração.
É o juro da velocidade de cruzeiro.
Depois que eu fiz o ajuste,
qual é o juro que eu preciso?
que eu permaneço, permanece mais alto do que poderia
conta do problema fiscal.
E eu quero responder três perguntas.
O Brasil está em dominância fiscal?
Essa é a primeira pergunta que eu quero responder aqui, porque eu ouço
muito sobre isso. Segundo,
a política fiscal está mesmo
impedindo a Selic de cair?
E a terceira, e se está,
o que exatamente
teria que mudar? E eu aviso
desde já, a resposta que eu vou
dar não é o que o
pessoal do, muitas vezes, o pessoal do
mercado repete no automático.
Muito menos,
muito menos, o que o ministro da Fazenda
falou sobre
o assunto quando ele se manifestou publicamente
e muito menos o que ele gosta de ouvir.
E eu vou começar respondendo
a primeira. Mas para isso, eu preciso
dizer, explicar o que é dominância
fiscal de verdade. Porque o termo
virou um bordão, muita gente fala
sobre o tema, mas poucos
estudaram profundamente do que isso
se trata. Então vamos lá. Nem todo mundo
está aqui no dedo ou no pulso, né gente?
Toda vez que a dívida sobe,
alguém aparece dizendo que o Brasil está em
dominância fiscal. Mas na maioria das
vezes, a pessoa nem sabe o que ela está
dizendo. Essa ideia da
dominância fiscal, ela nasceu
em 1981
no artigos do Thomas Sargent
e do Neil Wallace
com um título que era
irônico, que traduzido
livremente por mim
quer dizer o seguinte. Alguma
desagradável aritmética
monetarista.
Então, ou aritmética
monetarista desagradável.
O raciocínio é o seguinte.
Imagina dois jogadores.
De um lado tem a autoridade fiscal.
De outro lado, a autoridade
monetária. Os dois principais
pés de uma política econômica.
Alguém tem que jogar primeiro.
Se o Banco Central joga primeiro,
ele fixa a inflação
e o tesouro se ajusta.
Gerando superávites necessários
para pagar a conta.
É o mundo normal. É o regime
de metas. Quando
o Brasil adere ao regime
de metas, é isto
que se espera. Uma política
monetária e uma política
fiscal apontando
para o mesmo lugar. As duas
convergindo.
Então, neste caso
quando eu vou trabalhar
num regime de metas de inflação
o Banco Central
joga primeiro. Ele fixa
a inflação. Olha,
vou entregar uma inflação de três.
E o tesouro se ajusta.
Eu vou fazer superávit.
Primário, o necessário
para fazer um esforço aqui
do meu lado, para que a gente
entregue esses 3%.
Agora, vamos inverter.
O tesouro joga primeiro.
Ele decide os déficits
que ele quer rodar. Ele diz
vou rodar com 0,5%, 1%
de déficit primário
em relação ao PIB todo ano.
O que acontece? O Banco Central
fica com o resíduo. Ou seja,
se o tesouro joga
primeiro e ele joga déficit,
o Banco Central
com esse resíduo vai ter
que subir os juros.
Para quê? Para compensar
o efeito fiscal.
Então, nesse mundo, quando o Banco Central
sobe os juros
para combater a inflação,
ele aumenta o custo da dívida.
O que aumenta
o déficit. O que aumenta
a dívida. O que exige
mais financiamento
monetário lá na frente.
E o aperto de hoje,
vira inflação.
Amanhã, a política
monetária inverte o sinal.
Isso, Lipper,
lá em 1991,
formalizou com dois
adjetivos que eu acho bem úteis
para explicar aqui.
Ele falou, política fiscal
ativa e
política fiscal passiva.
A ativa
é quem manda. Passiva
é quem se acomoda. Dominância
fiscal é o regime
que o fiscal é ativo
e o monetário
é passivo.
Daqui é que vem a ideia
de que muita gente tira
que nós estamos em dominância
fiscal. Só que o Lipper, ele não
fica só aqui. Nem ele
e nem outros autores.
Agora, sim, este
é o início de tudo.
John Cochrane, ele pegou
essa mesma linha e levou
as últimas consequências no livro dele
lá de 2023, que falava
sobre a teoria fiscal do nível
de preços. E a tese central dele
é a seguinte. O nível de preços
é o que iguala o valor
real da dívida
pública ao valor
presente dos superávites
primários futuros. Ou seja,
se o mercado deixa
de acreditar nos superávites
futuros, o ajuste
vem por onde? Pelo denominador.
Ou seja, pela inflação.
E note uma coisa muito
importante nessa versão moderna.
Não precisa haver
emissão de moeda. Não precisa
haver senhoriagem
na moeda. Não precisa
haver hiperinflação.
Basta que
a expectativa de que
a conta não fecha, pra nós
termos o ajuste.
Então, guardem
bem essa distinção, porque
ela vai ser decisiva ali pra frente.
E o Brasil, vamos responder
o Brasil está em dominância
fiscal? Eu digo que não.
Na minha opinião, não.
Os dados mostram que não.
E, bom,
mas isso é a minha opinião, não.
Existe um teste
empírico, simples,
pra saber se um país está
em dominância fiscal ou não está.
É o teste que o Blanchard, o Oliver
Blanchard, propôs lá em
2004, e justamente
num texto que ele
num paper dele, falando
do Brasil, que
falava sobre
a dominância fiscal
e a inflação, e as metas de
inflação, lições para o Brasil.
Traduzindo, tá? Ele estava
analisando o Brasil de 2002
e 2003.
Então, veja, dois anos antes do paper.
E o teste é esse. Quando o Banco Central
sobe juros, o câmbio
aprecia ou deprecia?
Vamos lá. Num regime
normal, juro maior
atrai capital e o real
se valoriza.
E o câmbio cai.
Num regime de dominância
fiscal, o juro maior
aumenta a probabilidade
percebida de calote.
E o investidor foge.
O câmbio dispara.
E a inflação sobe.
O sinal se inverte.
Blanchard mostrou que em
2002, o Brasil estava exatamente
nessa situação. E a razão
era a composição da
dívida. Uma fatia enorme
da dívida era indexada
ao dólar. Cada centavo
de desvalorização engorda
a dívida em reais. Mas esse Brasil,
gente, não existe mais.
A dívida imobiliária federal
hoje é essencialmente em reais.
Nós não temos uma dívida
pública relevante externa.
Pelo contrário, em termos
líquidos, nós somos credores
dada as nossas reservas.
Lembra que em 2002 o Brasil não tinha
reserva cambial. Ainda.
Nós ainda vivíamos dos dólares
emprestados pelo FMI.
Então, gente, vamos lá. Eu não posso
desconsiderar isso
e sair falando em dominância fiscal.
Esse Brasil não
está mais aqui. A dívida
imobiliária federal hoje é em reais.
Com prazo
curto, médio,
na mão de investidores
domésticos, a maioria, e o
país é credor externo líquido
em moeda forte por causa das reservas.
O canal que o Blanchard
identificou, ele está fechado.
Então eu não posso
pegar o paper lá de 2004
que olhava para o Brasil de 2 e 3
e trazer para hoje
de maneira linear, porque
não é mais o mesmo
Brasil. Foi a maior conquista
estrutural da economia brasileira dos últimos
20 anos. E ninguém fala dela porque
a conquista é silenciosa na audiência.
E olhem o cenário de referência
do próprio Copom nessa ata de
agosto, câmbio de 5 e 10.
É o patamar
do Copom. No começo do ano
estava acima de 5 e 10.
O real valorizou
quase 6% no acumulado de junho.
E com a Selic no teto
do ciclo, se estivéssemos
em dominância fiscal, isso seria
impossível? Como é
que iria valorizar o real
se nós estivéssemos
com dominância fiscal? Então
a minha resposta é essa. Eu quero
ser claro. O Brasil não
está em dominância fiscal
no sentido técnico. Quem diz
que está, está errado.
Ou está usando o termo
como retórica e não
no significado técnico
dele. O problema
que não estar em dominância fiscal
não significa que está bom.
Mas é importante responder. Não
estamos em dominância fiscal.
As evidências empíricas
deixam claro. O que Blanchard
falou de Brasil e dominância
fiscal servia para aquele momento.
Não para esse. E o que aconteceu
com o cenário do câmbio
a valorização do câmbio
nesse período, prova
que nós não tínhamos, que não
estamos em dominância fiscal.
E quando nós revisamos lá
tanto a teoria do
Cochrane como a do Sargent
e do Wallace, fica muito
claro que a teoria deles
não se aplica
aos dados que nós estamos vendo hoje.
Quando a gente bota os dados na equação deles
não apita dominância
fiscal. Mas não quer dizer que está bem.
Porque existe uma zona intermediária
entre estar tudo normal
e a dominância fiscal. E é nela
que o Brasil está.
E isto é um. prêmio fiscal e não uma
dominância fiscal.
E ele opera, esse prêmio fiscal
opera por três canais e
todos estão descritos na
ata que o Copom publicou.
Sabe por quê? Porque o Copom
é técnico. Ele se baseia em
teoria econômica e não
em grito de
político, em bumbo
de presidente. Ele é
técnico e que bom que é e
tomara que continue. Todos esses
textos que eu citei, pode ter
certeza que o Banco Central conhece
de cor. Por isto
que ele traz três
canais na ata.
Então presta muito atenção,
não estamos em dominância fiscal,
mas estamos em prêmio fiscal.
O primeiro canal
é a taxa neutra,
que é a taxa que nem de
expansão e nem de contração. Uma
política fiscal que estimula
consumo numa economia com
desemprego de 5,8%,
que é um plano de emprego para padrões brasileiros,
e com salários crescendo
acima da produtividade,
como o próprio Banco Central
registra na ata
que o Brasil está subindo salário
acima da produtividade, que está com
desemprego lá embaixo. E ainda assim o governo
tem uma política fiscal que
estimula consumo.
Que é um erro. A ata
fala disso. Então, como
o próprio Banco Central está registrando
a ata, isso empurra a demanda
agregada para cima
do produto potencial.
Gerando o famoso hiato
do produto. Para neutralizar isso,
o juro de equilíbrio
tem que ser mais alto. Não é
o que o Banco Central perdeu o controle.
É que o controle ficou
mais caro, porque o fiscal
está jogando primeiro.
O fiscal joga
e a política
monetária joga depois
e equilibra. Este
é o ponto. Este é o canal número
um. O canal número dois,
que também está citado na
ata, é o canal
do prêmio a termo.
A ata diz que a percepção
sobre a sustentabilidade
da dívida afeta
o prêmio embutido
na curva de juros.
E é o canal que o produtor
sente na pele, sem saber
o nome. Mas ele sente.
Porque você pode ter corte
de selic e mesmo
assim ver uma NTNB
lá de 2035
pagando um juro real de 7%
Ou seja,
o que acontece com o prêmio
a termo? Que diabos é isso?
A ponta curta
cai e a ponta longa
não obedece.
E é a ponta longa
que precifica investimento,
que ancora
o valuation,
que define o custo
de um projeto de
investimentos,
seja ele qual for. Então,
o prêmio da curva a termo
é outro ponto que está na ata.
E terceiro canal de transmissão
de acordo com a ata. E esse é o mais
desconfortável para o nosso público.
Crédito direcionado
não responde a selic.
Quando uma fatia grande
de crédito está fora do alcance
da política monetária, que no Brasil
é cerca de 40% de todo crédito
é crédito direcionado
que pode botar selic em 30%
em 2%, que não vai fazer
diferença significativa
porque esse crédito
é inelástico, porque o governo determina
o juros, se não está encerrado.
Quando eu tenho 40% do crédito
nessa condição, o Banco Central
precisa apertar mais
o pedaço que sobrou,
os 60%, para
ter o mesmo efeito.
Então, imagina assim, uma planta hidráulica
de uma cidade. Imagina que nós somos gestores
de uma
empresa de saneamento. E é uma
cidade que é plana,
só que tem um determinado
bairro que fica no
alto de uma colina, numa parte
mais alta. Para eu fazer chegar
água com pressão para os moradores
desse bairro mais alto,
eu preciso dar uma pressão maior
na água, na estação
maior do que
precisaria para
chegar a água com pressão na
parte plana da cidade.
Então, eu faço toda
a parte plana ter mais
pressão do que precisaria para
a água chegar com pressão
lá na parte mais alta. É mais
ou menos isso que nós temos aqui.
A política fiscal
faz com que tenhamos uma colina.
Nós não temos uma economia
uma economia
plana para que
o Banco Central
faça o movimento Selic e
todo o crédito se ajustar. Nós não
conseguimos por conta
desse canal de transmissão
que é o crédito direcionado.
Mas por que eu disse que isso daqui é desconfortável?
Porque plano safra, gente,
é crédito direcionado. Isto,
atrapalha a condição da política
monetária. Um dos motivos
do Brasil ter Selic alta
é o crédito direcionado. E o plano safra
tem a ver com isso. Ele é o maior?
Não, não é o maior. O maior é o imobiliário.
E depois tem o crédito direcionado
para empresas via BNDES.
Mas ele existe.
Ele é importante. E o produtor
na parcela equalizada
ele vai pagar a conta
de tudo ou mais. Porque o capital de giro
no mercado livre, ele vai ficar bem
mais caro. E a
aí no final das contas, tu tá pegando
um dinheiro controlado barato,
mas ele não é o suficiente. Aí tu
tem que pegar o dinheiro
no mercado livre caríssimo.
Quando tu faz o mix, pode ter certeza
que se não tivesse crédito direcionado,
o juros seria mais barato
do que nós temos hoje. E aí
eu quero avançar. Porque tem
uma conta que o pessoal não gosta
muito de fazer. E eu vou aos
números agora. E eu peço um minuto de paciência
porque essa é uma parte que decide
o entendimento e o nosso debate.
A dívida bruta do governo
geral, ela fechou em 82%
do PIB, nas contas
de contabilidade
criativa do governo.
Nós temos 10,8
trilhões de dívida. Subiu 0,9%
só em junho. 3,3
pontos percentuais só no
primeiro semestre. E se eu pegar
desde que o presidente Lula assumiu
em janeiro de 23, tava em
71,4. Tá 81,9.
Ou seja, subiu
10,5 pontos percentuais.
Mas o dado que eu quero
destacar aqui é a decomposição
que o Banco Central publicou.
No primeiro semestre, os juros
nominais sozinhos
acrescentaram
4,3 pontos de PIB
aliás, pontos
de PIB à dívida, na dívida líquida.
O déficit primário acrescentou
0,6. O crescimento
nominal do PIB devolveu
2,2. Então vamos de novo.
Os juros pesaram 7
vezes mais do que o déficit primário.
Que é o que
o Dario Durigan alegou.
Esse é o melhor argumento
de quem defende que juros altos
é a causa e não a consequência
da dívida. Então
foi a defesa
equivocada
do Dario Durigan. Acontece
que mesmo que isso pareça
razoável, isso tá errado.
A conclusão não segue
isto. Nós temos uma outra
aritmética que resolve.
A dívida se estabelece
quando o superávit
primário, presta atenção, presta atenção nisso aqui.
A dívida se estabelece
quando o superávit primário
iguala o produto
da dívida pela
diferença entre juros real
e crescimento real. Esta é a equação.
Então vamos botar números
agora na equação. Com a dívida líquida
de 68,5%,
dívida líquida, não é a bruta. O juros real
implícito de 7,5%
e um crescimento de 2%
ao ano, o superávit
primário necessário
pra congelar a relação,
ele fica em 3,7%
do PIB. 3,7%
do PIB. Nós temos que contar a fase do superávit
primário. Quase 4%.
O Brasil tá rodando com um déficit
de 1,19% no consolidado
de 12 meses.
O buraco entre onde estamos
e onde a dívida para
de crescer é quase 5 pontos
percentuais do PIB. Em dinheiros de
hoje, é algo como 640
bilhões por ano de economia.
Só pra nós termos uma dimensão
entre 2003 e 2008,
o país sustentou
o resultado primário estrutural
perto de 13,5% do PIB.
Nós fazíamos superávit primário
de 13,5% do PIB. E não era ficção
científica, não era contabilidade criativa como
hoje, mas foi feito com um boom
de commodities, com a dívida bruta na
casa de 55% e com
uma diferença entre juros e crescimento
muito mais amigável. As três
condições evaporaram,
sumiram. E aqui que a resposta
à pergunta central, ela
fica mais clara. Sim,
o fiscal está impedindo
a Selic de cair mais rápido,
mas não por dominância
fiscal, por prêmio de risco,
por taxa neutra
e por prêmio
a termo. A distinção
não é preciosismo
acadêmico, pelo amor de
Deus, porque a receita muda
por completo. Em dominância
fiscal, cortar juros
reduziria a inflação. No
regime em que estamos, cortar
juros com expectativas aonde
elas estão, aumentaria
a inflação.
Então, não é verdade
que o Brasil está em dominância fiscal,
pelo menos não ainda. E assim
como também não é verdade que
baixar juros vai resolver
o problema fiscal brasileiro.
Não, os juros no Brasil
são a febre.
Eles são, aliás, eles são o remédio
para a febre, a febre e a inflação.
O fiscal desequilibrado, que gera
era esses desequilíbrios todos que eu mencionei
ele é a infecção.
Então, quem quer entender a economia pela teoria econômica,
pela ciência, por tudo que a gente conhece até hoje
e as evidências empíricas,
não acredite nem em quem está falando em dominância fiscal
para fostigar o governo
e nem em quem está dizendo que o problema do governo
são os juros, que é o caso do próprio ministro da Fazenda,
o próprio argumento do governo.
Os dois polos não estão falando o que diz a teoria econômica.
Então, pessoal, eu já me alonguei demais,
mas são dois estudos bastante densos do ponto de vista teórico.
Falar de câmbio nunca é fácil,
mas é importante trazer para vocês essa movimentação cambial
que está acontecendo,
o gatilho mais forte que foi apertado pelo JP Morgan,
mas ele já foi apertado num contexto que já estava havendo saída de câmbio forte
e um ponto que eu esqueci de falar, me lembrei agora.
Existe uma correlação entre saída e entrada de capital estrangeiro
e a taxa de câmbio no Brasil.
E esta correlação é óbvia, que é a inversa.
Entra dinheiro, cai câmbio, sai dinheiro, sobe câmbio,
mas a maior correlação não é no mês,
é com uma defasagem de um mês.
Então, se está saindo mais dinheiro,
se saiu muito dinheiro no mês passado
e está saindo muito dinheiro esse mês,
nós devemos ter o efeito mais forte no câmbio,
tudo mais constante, a partir do mês que vem.
E quando nós olhamos para o que está acontecendo no fiscal,
eu fico satisfeito por aqui
de trazer o conteúdo mais rico que a ata trouxe,
o pensamento genuíno, técnico,
que o Copom está expressando
e explicar aqui sobre a teoria econômica,
mostrando para vocês a realidade do que está pensando o Copom,
que é alinhado com o que pensa qualquer economista sério no Brasil.
Pessoal, foi isso então que eu preparei para esta semana.
Eu desejo a todos uma excelente semana e até semana que vem.
E aí, você gostou desse podcast?
Se gostou, considere compartilhar este episódio
com alguma pessoa que irá se beneficiar deste conteúdo
e nos ajude a alcançar mais pessoas.
O roteiro é o link na descrição do vídeo.
A primeira apresentação deste episódio
foi do economista-chefe da Ecoagro, Antônio Dalluz,
a produção do Agro Resenha e a edição do Sr. A.
Saiba mais sobre a Ecoagro em www.ecoagro.agr.br
Ecoagro, o elo entre o agronegócio e o mercado de capitais.
Podcast Summary
Key Points:
O IPCA de julho veio acima do consenso (0,07%), acumulando 4,44% em 12 meses, mas ainda abaixo do teto da meta; projeções indicam reaceleração para cerca de 5% até o fim de 202
A atividade econômica brasileira mostra desaceleração
O fluxo de capital estrangeiro na B3 teve um ciclo de forte entrada no início de 2026 (R$ 57 bilhões até abril), seguido de saídas expressivas a partir de maio, com o rebaixamento do Brasil pelo JP Morgan atuando como gatilho para uma reversão cambial.
O Brasil não está em dominância fiscal no sentido técnico, mas enfrenta um "prêmio fiscal" que mantém a taxa de juros neutra elevada, por meio de três canais: política fiscal expansionista, prêmio a termo na curva de juros e crédito direcionado.
A dívida pública bruta subiu para cerca de 82% do PIB, e o superávit primário necessário para estabilizá-la seria de aproximadamente 3,7% do PIB, muito distante do déficit atual.
Summary:
O episódio do podcast "Dedo no Pulso" analisa o cenário macroeconômico brasileiro e internacional na semana de 17 a 23 de agosto de 2026. O economista-chefe da Ecoagro destaca que o IPCA de julho veio levemente acima do esperado, mas segue em trajetória temporária de alívio, com expectativa de reaceleração devido a fatores internos e à retomada do preço do petróleo. A atividade econômica mostra sinais claros de desaceleração, com serviços estagnados e varejo crescendo pouco, indicando um PIB fraco para o ano.
O principal estudo do episódio aborda o fluxo de capital estrangeiro na Bolsa Brasileira e seu impacto no câmbio. Após um forte ingresso de recursos no primeiro quadrimestre, houve reversão a partir de maio, com saídas expressivas, intensificadas pelo rebaixamento do Brasil pelo JP Morgan, que mudou sua recomendação de compra para neutro. Isso gerou uma fuga de capitais e pressão sobre o real, com o dólar voltando a subir.
O segundo estudo trata do risco de dominância fiscal. O economista explica que, tecnicamente, o Brasil não está em dominância fiscal, pois o teste empírico de Blanchard não se aplica à realidade atual, com dívida em reais e reservas cambiais. No entanto, o país sofre com um "prêmio fiscal" que eleva a taxa de juros neutra, por meio de três canais: política fiscal expansionista, prêmio a termo e crédito direcionado. O superávit primário necessário para estabilizar a dívida seria de quase 4% do PIB, muito distante do déficit atual, evidenciando o desafio fiscal que mantém os juros elevados.
FAQs
Dominância fiscal é um regime em que a política fiscal ativa força a política monetária a ser passiva, invertendo os efeitos dos juros. Tecnicamente, o Brasil não está em dominância fiscal, pois o teste de Blanchard não se aplica mais, mas o país opera com um prêmio fiscal elevado.
O JP Morgan rebaixou o Brasil de compra para neutro devido a quatro fatores: ciclo de cortes da Selic mais limitado, risco eleitoral, desaceleração econômica e deterioração do crédito, além de pressões fiscais e inflação acima da meta.
Quando estrangeiros compram ativos brasileiros, há maior demanda por reais, pressionando a taxa de câmbio para baixo. Quando vendem, o movimento é inverso, elevando a taxa. A correlação é mais forte com defasagem de um mês.
O IPCA de julho veio com alta de 0,07%, acumulando 4,44% em 12 meses, abaixo do teto da meta, mas ainda distante da meta central de 3%. A inflação deve voltar a acelerar, com projeções do Focus em torno de 5% para o final de 2026.
A ata afirma que o afrouxamento de reformas, a falta de disciplina fiscal e o aumento do crédito direcionado têm potencial de elevar a taxa de juros neutra. Isso significa que o fiscal está elevando o juro de equilíbrio da economia, mantendo a Selic alta.
O crédito direcionado, que representa cerca de 40% do crédito total, não responde à Selic. Isso obriga o Banco Central a apertar mais o restante do crédito para obter o mesmo efeito, contribuindo para juros mais altos no mercado livre.
Chat with AI
Loading...
Pro features
Go deeper with this episode
Unlock creator-grade tools that turn any transcript into show notes and subtitle files.