Go back

CULTO AO AUTOCONTROLE

70m 14s

CULTO AO AUTOCONTROLE

O texto critica a ideologia contemporânea do autocontrole e da otimização pessoal, que promete que a felicidade depende exclusivamente do esforço individual. Essa premissa, difundida por gurus motivacionais e pela psicologia popular, ignora que os desejos humanos são contraditórios e que o autocontrole não é um traço de personalidade infinito, mas um recurso limitado que varia em diferentes áreas da vida. A tese da inteligência emocional, de que podemos gerenciar sentimentos de forma eficaz, é questionada, pois o sujeito é "castrado" e não tem controle total sobre seus afetos. A cultura do trabalho neoliberal substituiu o controle externo pelo autocontrole e pela vergonha, pressionando o indivíduo a ser sua "melhor versão" sem considerar contextos estruturais. A discussão sobre dopamina é trazida para mostrar que a busca por prazer imediato não é o único motor da motivação; a dopamina também nos impulsiona a esforços de longo prazo. No entanto, o excesso de estímulos pode levar à compulsão. Como reação, surgem discursos de aceitação dos limites e de valorização do "suficiente", em oposição à positividade tóxica. Em suma, a ideia de que podemos e devemos controlar tudo em nós mesmos é uma promessa falha e opressora.

Transcription

10849 Words, 61831 Characters

Portuguese
estudar mais, trabalhar melhor, fazer dieta, parar de fumar, praticar algum exercício físico, de preferência todos os dias. Le 5 livros, não 10 livros, não 20 livros. Bom, pelo menos 1 livro. Dormir, acordar nos horários estipulados, meditar, ver os amigos, pensar duas vezes antes de agir, pensar até antes de falar. Parece cansativo. No tempo que a gente habita, o que não faltam são receitas e roteiros da rotina ideal, de como você pode e deve controlar sua atenção, seu apetite, sua saúde mental, sua finança, sua vida sexual. Enfim, paira no ar essa hipóteses e de que se você não é feliz, é porque você não está se esforçando suficiente. E assim que se faz, a mússida oculta ao autocontrole. Você não controla o que acontece, mas você controla como você se sente de antes do que acontece. Será mesmo? O grande tratado inteligência emocional do psicólogo Daniel Goldman está completando 30 anos, com uma história de sucesso de milhões de exemplares vendidos no mundo todo. A tese de que a gente tem duas mentes, uma racional e uma emocional, influenciou o mundo dos negócios, da educação, do desenvolvimento pessoal. Mas o quanto será que essa premissa de abre aspas gerenciar os sentimentos de forma eficaz? Ainda nos ajuda a lidar com os desafios psíquicos que a gente enfrenta hoje em dia. No meio de tantas idealizações do imperativo do alto desempenho, no qual a gente supostamente tem que ser a nossa melhor versão. A internet está cheia de gente se questionando de uma espécie de oposto complementar. Diz atenção, falta de foco, falta de motivação e claro, a procrastinação. A arte de adiações estaré a fazer eventos. E de condenar o sujeito contemporâneo ao mundo dos pensamentos que a gente não consegue transformar em ações. Tudo isso parece, muitas vezes, um protesto inconsciente, uma forma de sabotar toda essa ideologia do otimise tudo na sua vida, principalmente você mesmo. Será que é sempre uma questão de força de vontade? A lógica do "eu desejo" consigo é estimulante, inspiradora, mas também é uma promessa falha e insuficiente. Até porque enquanto bom sujeitos neuróticos a gente, um, não sabe exatamente tudo que a gente quer e dois, a gente deseja coisas contraditórias ao mesmo tempo. Desejos e afetos não são tão simples ilinear aires quanto um bem de consumo ou uma mensagem publicitária. E se você ainda não conseguiu algo que você deseja, não é simplesmente por falta de autocontrole ou porque você não está desejando direito. É antes de tudo porque você é um sujeito castrado. Oi, eu sou André Alves e um sujeito castrado. Eu sou Lucas Lidke e esse é o segundo episódio da nova temporada do Vibes Análise. Nós pode que a gente se desafia a analisar as vibes submersas no inconsciente coletivo. O Lucas e eu somos psicanalistas e pesquisadores e as nossas análises estão no perfil a Roba Float Vibes. A gente também tem uma newsletter que você pode assinar na plataforma Substack. Esse episódio conta com o apoio da drugaria São Paulo e drugaria Spacheco, bandeiras do grupo DPSP que se dedica com o cuidado com a saúde e o bem-estar e que entenda em que saúde mental também é uma parte essencial da qualidade de vida. Ah, e a gente também tem agora um grupo de trocas e novidades rolando lá no Telegram. Se já faz parte, é só procurar Float Vibes no Telegram. E se você quer manter essa iniciativa do nosso podcast no ar, pode contribuir através da plataforma apoia-se e ter alguns benefícios com essa contribuição. Todos esses links estão aqui na descrição do episódio. Então, bora lá, André, abre o jogo aí pra gente, você tem um bom autocontrole ou você se acham sujeito meio descontrolado. É muito bom como você já construiu essa pergunta, Lucas, porque dentro dela já tem muitas crenças da relação que a gente tem estabelecido com esse autocontrole. A primeira premissa é de que autocontrole é uma espécie de traço de personalidade ou traço identitário até. Você é uma pessoa controlada ou você é um sujeito descontrolado. Como se o autocontrole não fosse, na verdade, um recurso que a gente tem e é um recurso que não é necessariamente infinito. E que talvez vai estar mais ou menos presente em diferentes áreas ou campos das nossas vidas. Não vou fugir da pergunta. Mas por exemplo, quando a gente está num campo dos exercícios físicos, eu acho que eu sou uma pessoa bastante autocontrolada. Agora, quando a gente vai para um campo mais do prazer, por exemplo, assistir filmes e séries, eu diria que eu perco bastante o controle e às vezes eu me pego 12h30 amanhã assistindo um negócio que eu nem sei porque estou assistindo. E para mim, isso também tem a ver com o que eu estava falando antes que o autocontrole não é um recurso infinito. E que cada um de nós vai conseguir ter um determinado limite para um assunto específico. Eu não topo muito essa ideia de que a gente tem que ser hiper disciplinado, até que a gente consiga ser hiper disciplinado em todos os campos da nossa vida. Geralmente, pelo menos na clínica, a gente vê isso com bastante clareza e nitidez, quando a gente vai nessa hipótese do controle total, isso geralmente história. E você, Lucas, qual é a tua relação com este tema? Olha como muitos que estão escutando esse episódio hoje, acho eu, eu gostaria também de ter mais autocontrole. Até porque essa é uma das grandes aspirações do nosso tempo. O nosso tempo é controlar as suas emoções, é a promessa de muitos coltes e gurus e profissionais de saúde mental, de que as nossas emoções são ferramentas, são ferramentas pessoais, e a gente tem que ter condições de aprender a usar elas ao nosso favor, como muito exercício de observação, de autoconhecimento, e não permitir que as emoções negativas nos dominem. Então, o que você falou de estourar, a gente tem que aprender a fazer alguma coisa com a raiva ao invés de estourar. Ou a inveja que a gente sente de alguém, a gente deveria transformar a força de vontade. Ou se você tem uma paixão muito grande por alguém que te rejeita, você tem que conseguir evitar esse sofrimento. A ansiedade deve ser um gás a mais para você realizar tudo que você sempre sonhou se ser humano conseguir se controlar tanto essas emoções, não existiria tanto sofrimento no mundo, e a gente viveria em um dado de alegria para as eras realizações, não é acontece. A gente não vive assim tempo todo, ninguém arrobou. Então, tem alguma coisa dessa expectativa de poder conscientemente controlar as nossas ações e os nossos sentimentos, que é no mínimo algo opressor e que tem de afracaçar, porque também considera que a gente já tem um tipo muito rígido de abafamento das pulsões, que é feito de forma inconsciente. Pelo super eu. Que é o princípio da realidade também. A gente aprende ou vai aprendendo, espera-se que consiga aprender, que a gente tem que renunciar a satisfação de muitos desses impulsos para conseguir conviver coletivamente. Então, tem um nível de autocontrole que já é a condição básica dos nossos dias. Exato que é já uma condição civilizatória, de poder fazer parte da cultura e da sociedade, que vai nos estimulando cada vez mais a realizar mais feitos e sentir mais motivado. Eu acho que a gente podia começar esse episódio investigando um pouco desse terreno do motivacional, essa pregação motivacional, as fórmulas, os conteúdos e que talvez até esse episódio tenha um pouco disso também, porque não. E ainda que para um número cada vez maior de pessoas a gente vê que esse tipo de abordagem ingenuamente motivacional até, oppressivamente, motivacional sobre nossa mente, sobre o comportamento humano, virou às vezes um motivo de piada. Isso para algumas pessoas, para muita gente ainda é algo bem inspiracional e talvez sempre seja. Ainda pode ser muito útil, pode ser interessante, mas não numa onda de pregação e de alienação radical. E esse papinho motivacional a gente sabe que é bem antagonico com o campo que a gente mais atua aqui na psycanálise. Mas assim, não é porque a gente é psycanalista, que a gente só vai pensar e estudar e respirar psycanálise. Então vamos abrir um pouco a cabeça nesse sentido e investigar essas ideologias, essas abordagens. E apesar de a gente ter um pouco de rânso com essa questão da motivação interna e individual, ela continua sendo uma coisa muito importante. E vai se conectar também com a psycanálise em alguns sentidos. Agora, o que a gente pode pensar meio que históricamente é que ali por usando 50 e 70 tem uma disseminação da psicologia popular e do viés da autoajuda, que aí começa a se difundir esses conceitos de mindset, mentalidade, de crianças limitantes, não apegada bem comportamental. E aí, com os anos 2000, com a internet, essas frases motivacionais vão se fortalecendo esteticamente, inclusive, mediaticamente no formato de rede. E isso vai sendo ir perçaturado, vai acontecendo a exaustão, essas imagens inspiracionais que vão ficando muito caturais, até mais deprimentes do que estimulantes, mais enganadoras do que esclarecedoras. E aí, a gente tem essa consagração do sujeito "cold", que é muito a partir de uma demanda por desenvolvimento pessoal no mundo corporativo, numa lógica perfeitamente neoliberal, que é esse pensamento que diz que o grande poder não está em Deus, não está na igreja, no acaso no destino, ou no governo, ou nem na sua empresa. Está em você, está no sujeito. O sujeito é a sua própria salvação e a sua própria desgraça, tudo cabe a você. E aí, você precisa mesmo evoluir, se aprimorar, sair da sua zona de conforto. Só que assim, a gente sabe que dos últimos anos para cá, tem circulado melhor em alguns cantos, talvez mais críticos da cultura, mais letrados, essa noção de que a positividade também pode ser tóxica, de que isso, de se esforçar e pensar positivo, pode resolver tudo, ignora problemas e questões que são do contexto, que são estruturais, e que a gente está pressionando as pessoas individualmente ao seu máximo. Determinando que elas têm que conseguir superar suas dificuldades sozinhas, já que as instituições falharam. E aí vem essa competição também, a competição não só entre os indivíduos, mas competir consigo mesmo. O velho bom torne-se a sua melhor versão. Como se a gente já não tivesse afundando impressão por performance e por perfeição, concupa, com autocobrança, como se a gente já não tivesse perdido num salão de espelhos, radicalmente narcisista, com foco no eu futuro, não tanto no eu presente, no resultado, no processo, enfim. Tem muitos de dobramentos aí. Eu até fico pensando, André, será que você que é do campo dos filmes aí, em esta cultura? Será que mesmo depois de um filme como a substância, ainda que com todo o respeito, a importância do filme ainda estou aqui? Mas com esse filme a substância, será que a gente vai continuar vendo tanto esloga e tanta campanha de academia, de curso, de marca de beleza, dizendo seja a sua melhor versão? Olha que pergunta boa, eu vou te confessar que a forma como, pelo menos grande parte da minha bolha internética, recebeu o filme e todos os memes que eu vi e as críticas, enfim, toda a conversa sobre o filme, apesar de provocar muitas pessoas a olhar para tudo isso com horror, porque é um filme de horror. Acabou desagrando nesse mar de ironia compulsiva da internet de muita gente brincar com eu tomaria sim a substância. Como se, na verdade, a grande tragédia da Elizabeth Sparkle, a personagem vivida pela Demi Moore, não tivesse sido topar essa mentalidade, mas sim fazer o uso errado da substância. E que na minha visão é um símbolo muito poderoso de como a gente vem, inclusive desenvolver uma relação muito perigosa, com a substância para dobrar a posta nesse caminho da hiperotimização. Então, eu não sei se vai seguir circulando na cultura, com esse discurso, Lucas, do seja a sua melhor versão, mas talvez o que eu acho que a gente está fazendo é, na verdade, pulindo um pouco melhor e talvez convocando outras frases e outras imagens para meio que seguir dizendo e acreditando na mesma coisa. Não é muito otimista, né? Mas a gente já falou disso em um episódio, mas eu tenho pensado muito nessa dupla Elizabeth Sparkle e Brian Johnson, o cara lá do documentário da Netflix, não morra. Que é o apsido da hiperotimização, de você pode, a ciência está ao seu favor, a substâncias estão ao seu favor, está tudo aí disponível, desde que você tenha dinheiro para pagar e tempo para investir, para assim você lapidar as suas melhores características. Eu achei muito boa essa sua história que você foi fazendo, Lucas, de como essa psicologia da motivação foi se instalando no inconsciente coletivo. E eu fiquei pensando em um outro aspecto disso, que é como a cultura do trabalho e os ambientes corporativos também contribuíram para isso. Essa passagem que a gente foi fazendo cada vez mais intensa do controle externo para o alto controle. Como essa lógica bastante presente e muito arregada de empresas, passou a ser principalmente numa cultura da autonomia de que os colaboradores não precisavam mais ser controlados por um contrato, mas sim por um laço moral de confiança e comprometimento o muto. Sabe aquele discurso presente em algumas empresas de não importa a hora que você entra no trabalho, o que você sai do trabalho? O importante é que você entregue o que você tem que entregar. O que a gente sabe depois de um tempo consumindo ou bebendo esse suco, é que na verdade, não importa o que horas você entra e sai, o que importa que você trabalha o tempo todo. Mas o que está atrás dessa conversa toda, ou embaixo, ou na entrelinha? É uma troca do vigiário punir para o alto controlar e motivar em vergonhar. Que se você não consegue cultivar essa disciplina e manter-se motivado a ponto de entregar excelência, o tempo todo, você deveria ter vergonha. Ou seja, você não vai ser punido e culpado. Você vai ser envergonhado. Mas eu não estou disposto também a só bater na motivação. Não de forma comum. Até porque a gente fala disso em alguns lugares. Lucas tem um traço muito presente no Brasil, inclusive, que essa espécie de otimismo crônico, que muitas vezes correga para uma positividade tóxica, mas que em muitos casos é tudo que muita gente tem. No salvo também. Exato. Nos condena. Sabe essa cultura do bom dia no Brasil? Todo dia na Maria Braga e uma série de tiktokers e pessoas no Instagram vão nos dar uma mensagem do dia para ver se a gente consegue vencer as batalhas. Até de fé também. Tem alguma coisa que está relacionada. É bom. Beleza. Está tudo na conta do indivíduo. É tudo que a gente tem, mas pelo menos alguma coisa boa pode sair disso aí. Você falou também dessa reação ou de uma espécie de tomada de consciência que a gente vem entendendo nos últimos anos. De que não dá também para só topar esse discurso totalizante. E a gente vê algumas falas se produzindo que são um pouco mais novas, esse espírito de eu fiz o que deu. De tendias que entregar o mínimo já é o seu máximo. Sim. De que não vai dar para necessariamente ser melhor, mas vai dar para ser talvez o suficiente. E aí eu achei muito interessante você citar a substância, porque eu estava pensando antes da gente começar a gravar. No discurso da Demi Mour, no Globo de Oro, em que ela fala sobre como pessoalmente ela experimentou tantos anos desse discurso de você não é o suficiente ou já era para você. E ela dropa uma frase de feito, que você gasta tanto tempo se preocupando com atingir as medidas, mas se você deixar de lado afitamétrica, talvez você consiga ser mais feliz. Não é exatamente isso que ela disse, mas eu estou trazendo o que eu lembro. Que para mim é uma passagem do tempo que mostra para a gente que alguma coisa está tentando virar. Ou as pessoas estão tentando encontrar algum tipo de alívio, aceitação, nos limites, nas pequenas vitórias e esse é um discurso que gera interesse, que desperta interesse e não só uma motivação desmedida e um pouco alinada e alinante para não dizer psiquicamente mas a grande. Faz sentido? É, faz sentido, andré. Tem uma complexidade para conseguir navegar o que são as nossas obrigações, os ideais que a gente tem sobre a gente, ou que colocam na gente, e o que nos dá a realização, ou prazer, ou alívio. E eu penso que não tem como abrir esse tema do autocontrool, sem entrar nessa história da dopamina, sobre a cultura da dopamina. Ou seja, sobre ciência, mas também sobre o que a gente faz da ciência e o que a ciência faz com a gente. Porque, só para retomar um pouco o que o sociólogo, o brunulatur diz, ou dizia, a ciência não é uma atividade neutra. Ela é uma prática social que está culturalmente situada. Então, longe de mim, aqui, cê, anteciência, antiváxico, qualquer loucura negacionista, antidopamina, vou ficar com isso assim. Mas, o ponto aqui é que sempre que a gente escuta um discurso científico, a gente tem que lembrar que ainda assim tem um discurso. Porque alguém usa um termo científico para falar alguma coisa. E tem uma palavra científica no meio, ali uma substância, a negócio que a gente tem que aceitar tudo que nos falam. Primeiro, acho que vale a se alerta. E a gente vem acompanhando esse interesse crescente, uma visibilidade maior para a neurociência. Nos últimos anos, em vários efeitos disso. Entre eles, um grande hype para toda essa história da dopamina. E aí tem uma certa edula a tria que a gente tem que olhar com a atenção antes de sair falando e reproduzindo um monte de bobagem ou de simplificações que são meio tolas. Então, assim, eu não sou neurocientista, existem muitos podcastes aí de neurociência, muito legais para a gente escutar. mas indo pelo básico para pensar nesse tema do autocontrole, para começar a dopamina é um neurotransponador. Então, é uma substância que vai nos ajudar a escolher e decidir o que fazer, ou ainda ajudar o nosso cérebro a escolher. E a gente é quem nessa cena, a gente é o sujeito por trás, observando a gente mesmo, tomado esses ones. E aí qual é o nosso senso de agência nisso? Isso é bem mais complexo. Mas o importante para a gente lembrar é que a dopamina não é exatamente apenas sobre buscar o prazer mais fácil e imediato possível, do tipo pegar o celular e ficar em merso num trânsil e entretenimento, ou distração, ou até tédio. Essa é uma visão muito reducionista da dopamina que vem circulando por aí. Porque a dopamina vai nos ajudar na realidade a decidir o que fazer, mesmo que isso exige mais esforço da gente. Como por exemplo, sair para fazer uma corrida na rua, você sair para correr, fazer um exercício, é porque você enxerga o valor nesses forços. Mas para a percepção de valor, a gente vai ter que se forçar um pouco antes para o nosso cérebro aprender na experiência, o valor que isso tem. E aí aumentar a nossa disposição, a nossa capacidade de manter uma certa constância. Então, ela vai nos dar a motivação para a gente, olha o tema da motivação aí voltando. Então, não é exatamente só apenas sobre prazer, mas sobre motivação. Porque se a gente pega aquele experimento bem clássico do ratinho que você bloqueia a dopamina nele, ele não vai mais fazer o esforço de apertar o botão lá, ou gerar uma novela, para conseguir o alimento que tem mais açúcar. Ele vai no que é menos porzeroso mesmo. Ele vai no que é mais fácil de alcançar. Então, a dopamina em si, a não é só nossa amiga ou inimiga. A questão é mais multifacetada do que isso, porque existe um sistema de recompensas do cérebro que é mais complexo do que picos de dopamina. No nação dopamina, por exemplo, a Ana Lemp, que vai explorar muito bem essa ideia de que a gente vive num mundo tão ípere estimulante que o excesso de prazer tem nos levado a compulsão e também a depressão. Em a dependência e aos vícios, e aí a gente pode começar a traçar um paralelo muito interessante, com prazer e goso, pensando na psicanálise. Porque o que se fala mais hoje em dia é que a cultura atual superestima o prazer imediato, o festo fudo, as notificações, e subestima as recompensas a longo prazo. E aí o que a gente teria que fazer é um detox de dopamina. Só que o cérebro não funciona como um sistema de acumulo e limpeza de dopamina. Não é exatamente isso, ou não é só isso. Então, a dopamina foi sequestrada por uma ideologia. Porque o papinho de dopamina frequentemente cai num lugar muito acusatório de que se você não é produtivo, ou se você não está conseguindo mudar de vida, é porque você está viciado em prazer esfáceis. E aí a gente faz o quê? A gente culpa a beleza, o indivíduo. Esses dias eu fiquei olhando um funcionário de limpeza de rua da prefeitura aqui do Rio, sentado na pedra e dor-poder, numa pausa de trabalho, vendo o porno sol. Mas na verdade ele não estava contemplando por do sol numa ar, curtindo a calabelleza, aquela paz, o silêncio daquele momento. Ele estava absurto, jogando o jogo do tigrinho celular. Que imagem em Lucas, que imagem. Está tudo aí, né? Por o suco de Brasil, 2025, nessa cena. E aí você pensa, o cara já tem um trabalho precário, ganhando uma miséria de 1.200 reais. E você ainda quer que ele copia-se mesmo por não ter autocontrole de conseguir se manter longe daquele vício, que não só dá algum prazer, mas também uma esperança pra ele de fazer uma grana mais, no mês. Então olha como a pregação do autocontrole pode ser moralista, e excluir fatores sociais, econômicos, ou mesmo simbólicos. E esses são fatores que vão influenciar muito mais a nossa motivação e o nosso bem-estar, do que só a tal da dopamina. [Música] Muito bom, Lucas. Quando a gente estava falando sobre autocontrole, tem uma espécie de duplo, dessa função que é autocrítica. E parece que essa motivação só consegue se manter constante desde que autocrítica seja bastante intensa e frequente. Pra ir te deixando na linha, te mantendo motivado. Não come besteira, não fica preguiçoso, não deixa de fazer o que você deveria fazer. O Adam Phillips é aquele psicanalista britânico que você sabe que eu gosto bastante. Tem uma hipótese muito interessante sobre essa autocrítica virulenta e predatória que se tornou um dos nossos maiores prazeres. Porque a gente fala muitas vezes sobre esse tempo do gozo, como se a troca tivesse sido simples. O lugar do nosso superégono nos dizer "faça isso do contrário, você deve se sentir culpado, pra ser já feliz e goze ao máximo tudo que você puder e o tempo todo". Mas como se o superégono fosse mais uma instância que está. Bom, a serviço de uma autocrítica. O Phillips vai construir uma hipótese bastante masochista, de como essa instância psíquica retira um prazer muito sádico desse jogo. Como se a gente vive esse espécie de cindro me distocoumo do superégo. A gente está continuamente ainda aqui inconscientemente, meio que multilando o nosso próprio caráter. Porque essa instância psíquica está nos dizendo "tempo inteiro que a gente deveria abandonar isso ou fazer aquilo ou seguir por essa direção". E isso parte de um presuposto que não é tão positivo, afirmativo, cheio de amor quanto as mídias sociais gostaram que a gente acredita-se. Pelo contrário, existe um alto nível de violência interna que as vezes é bastante implacável. E que nos diz, você não sabe nada. Porque você está tentando fazer uma coisa que você não deveria estar fazendo. O que você deve fazer é isso aqui. A tirania do superégo, o Phillips vai dizer, acaba fazendo uma redução da nossa complexidade. Como se a gente só pudesse viver segundo uma única interpretação, que muitas vezes é bem limitante. E a gente vai se convencendo que o imperativo motivador está nos direcionando para o único caminho possível, ou melhor, para o caminho do bem. Porque o caminho do mal seria não seguir a motivação e se entregar a priguiça absoluta, a inutilidade total. Sim, como se isso fosse a nossa natureza humana, como se a gente fésse que lutar contra a nossa natureza humana que é relaxada demais. Exato. Priguiçosa demais. Controu de vai para aí mesmo, que vai para um aspecto de fiscalização, de monitoramento, de vigilância, e como a gente tem todo um aparato tecnológico, hoje que nos convoca cada vez mais a ocupar esse lugar super egoico e implacável com a gente mesmo. Em busca de um eu ideal que está para sempre perdido porque nunca existiu. E a ironia é que tudo isso cristaliza um senso de si é o reduzido. E aí, o super ego está a favor de cortando tudo que não faz parte desse aspas senso de si. Antes que a gente tenha a chance de pensar um pouco melhor no processo dinâmico que é construir o nosso self. A gente topa essas imposições sem se dar conta de como é redutivo demais. Como se o super ego sozinho como instância e psíquica soubesse a verdade sobre nós mesmos. Para onde a gente vai nessa linha de pensamento, para um endeusamento dessa instância psíquica dentro de nós, a ponto da gente começar a gostar do jeito que a autocrítica nos faz sofrer. Porque para tudo isso funcionar, a gente precisa, partido do presuposto, que todo dia a gente vai viver pelo menos uma quantidade suficiente de auto-disapontamento. Todo dia a gente vai falhar e com essas falhas a gente vai ter que conseguir se criticar o suficiente para no dia seguinte levantar e fazer melhor. No manualise é muito interessante a gente questionar esse sistema porque no manualise o que a gente está fazendo exatamente tentar oferecer novas interpretações e fugir um pouco desses dogmas do super ego. É como se o manualise fosse uma espécie de rebelião silenciosa contra o império da autocrítica. Porque a gente vai furando aos poucos, construindo aos poucos novas interpretações que vão dissaturando essas certezas tão sádicas do super ego. Porque pensa, se tem uma instância dentro de nós que tira prazer exatamente de nos punir, é um jogo de sadismo muito elaborado. A questão é que, como diz o Philips, a gente estrai prazer dessa autocrítica e se tem uma coisa que, como analistas a gente sabe, é que as pessoas são muito boas em defender suas formas mais distorcidas de obter prazer. Por isso que não adianta dizer pra alguém que é crítico demais, relaxa, não seja tão duro com você mesmo. Porque essa é uma maneira muito frontal e bastante ingênua da gente atacar um mecanismo sádico, um mecanismo que tem muito prazer. Claro, a nossa intenção jamais é eliminar totalmente autocrítica porque a gente precisa de um pouco de autocrítica para nos manter menos maniecos. Pra gente não cultivar a creência de que a gente controla tudo e todos. Mas um trabalho, minimamente implicado na saúde mental, é a gente tornar autocrítica mais imaginativa e menos. raiz, mas no campo da furuição e menos no campo da punição. É, André, tem um caminho interessante que você está viso numbrando aí, mas dando os passos para trás, a gente não perder também um pouco do fio da meada do controle. O controle é tão necessário e útil porque ele vai estabelecer os limites. Isso com certeza é bem importante. Tem a ver com regulação, com moderação, com contensão dessa maninha que você falou, onde evitar os exageros, a impossividade. Mas, até onde será que isso é algum tipo de educação e regulação que é necessário que nos torna, supostamente pessoas melhores, queremos ser pessoas melhores. E onde que começa a inibição ou a repressão dos impulsos de uma forma que, claro, puxa para neurotização. Só que a questão é até onde essa neurotização é necessária ou pode se tornar, digamos, castradora demais com a gente mesmo, ou até onde isso é bom ou não para o sujeito. Para aquele sujeito, para aquele impulso, para aquele momento. Então tem muita singularidade para a gente investigar e não ficar nessa dichotomia muito simplista de autocontrole ou descontrole porque é tudo muito dinâmico. O dinamismo é a chave do entendimento de tudo isso porque é o que está na metáforo do Freud, do cavalo e do cavaleiro, que representam as instâncias psíquicas. Então o cavalo como o ídio, o cavaleiro como o ego e o sujeito em si é tanto o cavaleiro quanto o cavalo. O cavaleiro, enquanto essa parte racional e consciente, está tentando administrar ali porções inconscientes do ídio, que são representadas pelo cavalo. Mas ele não faz isso de forma a imobilizar completamente o cavalo. Ele precisa do cavalo, mas ele também não pode perder a rédia da situação. Ele usa a força do cavalo para se movimentar e chegar onde ele deseja. Então não é sobre um controle absoluto, mas algum tipo de domínio. E aí tem uma noção de ritmo, de velocidade, de direção, de ajustes finos que a gente tem que fazer ao longo do percurso, por isso que são forças dinâmicas. O cavalo, o cavaleiro, forma a humanidade, que tem que ter dentro de si alguma harmonia, alguma dança, não pode ser só conflito. Não pode ser uma disputa de poder entre as duas partes. A gente luta contra alguns hábitos, a gente luta contra alguns impulso, a gente luta contra alguns desejos também, mas até onde? Em nome do quê que a gente faz tudo isso? E aí, num certo sentido, pode ser mais interessante a gente pensar na busca por aceitação do que busca por controle. Tem até a história da terapia de aceitação, que é uma abordagem psicológica de ajudar as pessoas a aceitarem suas experiências internas, seus pensamentos, suas emoções, a invés de ficar lutando só contra elas. E de entender que eventos mentais não são verdades absolutos, que é criar esse distanciamento com o que você está pensando ou sentindo um espaço que gera consciência. Então, ao invés de eu sou um fracasso, é aprender a perceber, eu estou tendo o pensamento de que eu sou um fracasso. Eu estou percebendo que eu estou tendo um pensamento, dando um pouco mais de espaço para ter alguma margem de escolha e de transitoriedade nisso e não sofrer com essa identificação tão radical e imaginaria com as nossas sentimentas, porque eles passam, eles até podem estar aqui de novo, de novo. Eles nos perturbando, mas eles passam também. E aí, para isso, a gente tem que conseguir desenvolver um tipo de atenção que se dentro do possível consigo observar tudo isso e observar, se observando para então tomar decisões. Eu gosto de pensar no processo analítico como essa. Aqui eu estou fazendo uma grande mistureba entre o Inicot e o André Grim, mas para a gente pensar no processo analítico, comecei o lugar terceiro que a gente constrói em que a gente consegue observar as dinâmicas que estão se desenvolvendo dentro da nossa mente e como isso impacta as nossas ações, as nossas relações, mas é um lugar para a gente poder observar e pensar e não um lugar para a gente ser tomado e agir. E senti também, de novo, voltando para neurociência e a gente tem que lembrar e pensar que se tem alguém aí que acha que neurociência e psicanaliza são campos de estudo, opostos, tem realmente muito para estudar e se atualizar, porque tem coisas muito alinhadas. E se a gente pega para analisar como a gente toma decisões, que aí tem, enfim, uma parte no cérebro que é essa bem atrás da testa aqui na frente e que as decisões são tomadas tanto de forma racional como emocional. A própria neurociência defende que emocional é racional não são opostos, que são complementos e que um lado trabalha junto com outro. Ontem nada daquela história de lado do cérebro, direito esquerdo, nem fume entrar nisso porque é uma bobagem. Uma leitura mais emocional, ela valia como que a gente vai se sentir diante de uma decisão, ou como que o outro vai sentir tem mais a vez também com desejo. E aí, existe um lado mais racional também que é sobre como ideias e ações tão encadadas numa lógica que nos faz compreender que as nossas ações têm consequências. Então, o ponto aqui é que a gente faz uso dos nossos afetos e desejos para gerar raciocínios e a gente também raciocina para tentar entender e realizar os nossos desejos. E aí, o autocontrole seria, então, rebaixar e reprimir emoções que estão indo contra decisões racionais que você está tomando ou tentando tomar de certa forma assim, na gente faz isso. Mas tem um risco também, porque tem um cuidado aí para onde que vão essas emoções reprimidas. Elas desaparecem de boa, elas vão para inconsciente e se elas nunca mais forem olhadas, reconhecidas, elaboradas, elas vão sumir, ou vão virar um sintoma. O problema é quando a gente se engana que a gente vai ganhar em tudo, que a gente não vai perder nada, que essa eficiência máxima custa o mínimo, mas toda escolha tem um custo, tem uma renúncia, tem alguma coisa que a gente vai ter que olhar também, nem que seja em outro momento, em outro contexto. Muito bom, e é exatamente por isso que quando a gente pensa em uma perspectiva de uma psicanálise mais social, é muito ingeno quando a gente pensa que a gente vai conseguir lidar com a grande crise de sentido do contemporâneo, apenas e muitas aspas nesse apenas diminuindo o volume de horas que as pessoas trabalham, porque toda a ação tem uma reação e a gente sabe que períodos estendidos de perfoco vão ser seguidos necessariamente por períodos de exaustão em que o sujeito não consegue fazer muita coisa. Então no adianta, a gente colocar as pessoas durante cinco dias numa sacra e cognitivo da hiperprodução e do super desempenho e achar que em dois dias elas vão estar recuperadas. Não há final de semana, não há droga balada, curtição, maratona de série ou viagem perfeita, ou mesmo 48 horas no sofá, capaz de fazer o sujeito se recuperar. É, porque aí tem uma fadiga mental também que o nosso cérebro vai sendo disposto e aí não tem como pensar em autocontrole. É claro que você vai reagir mal emocionalmente do tipo espludir de raiva se você tiver operando sempre no limite, se você tiver com a privação de sono, por exemplo. Ou não tem como você falar em força de vontade se você está com o seu sistema de dopamina todo usado, quem sofre ou já sofreu. Não vale de uma depressão, de um quadro depressivo, sabe o que significa isso? Você fica na cama? Não é por falta de vontade ou por falta de Deus. Então tem uma hidratria da mente aí que a gente tem que questionar se ela não está, se sobrepondo, de fato, aos nossos sentimentos. Tem uma coisa, Lucas, que eu observo bastante quando a gente está lidando com casos de burn out, que é como esse super desempenho e que muitas vezes tem que ser muito autocontrolado, porque o sujeito do burn out está o tempo inteiro operando nesse limite para conseguir entregar ao máximo, vai ter conseguir entregar ao mínimo para se próprio, dedicar tudo ao trabalho se derramar inteiramente no trabalho. E aí surge uma formação sintomática, vou colocar aqui entre algumas aspas, de um alto nível de procrastinação nesse sujeito. Ou seja, vai se formando um prazer em adiar, em deixar para depois e não fazer agora. Claro, é um prazer muito gososo porque vai fazer o sujeito experimentar uma boa quantidade de dor ou de despraseir, mas é uma satisfação substitutiva bastante obsessiva, vale a gente colocar uma nota de roda pé aqui, mas uma espécie de defesa evitativa mesmo. Já que eu não controlo nada na minha vida, já que eu estou me sentindo tão controlado na minha vida em tantos campos, a procrastinação como um espaço mental em que eu posso evitar e adiar. Mas da tão errado, já era tanto sofrimento, totalmente, dá para a gente falar um episódio inteiro sobre como a procrastinação chega na clínica num lugar muito dolorido e muito paralisante. E aí fica essa pergunta, a procrastinação é falta de autocontrole, é falta de disciplina, até pode ser, é falta de motivação, mas pode ser também muitas outras coisas. Tem toda uma discussão. sobre a procrastinação que é não ser necessariamente uma questão de preguiça, uma questão de mal administração do tempo, mas também sobre essa idealização a respeito dos nossos feitos. Então, a gente não faz para não ter que se haver com os resultados. E aí dá para jogar a história do perfeccionismo. Essa não começa a fazer porque a expectativa de realização está muito alta ou de autoestima, tanto de baixo autoestima que é você não faz porque você acha que vai falhar, não quer enfrentar esse fracaso, ou mesmo de autoestima meio delirante, que é, "bom, tenho medo de me colocar, fazendo e colocar a prova, e ver que não ia fazer tão bem assim, que não ia ser tão rápido assim como achei que ia ser, e não era tão fácil assim, tem o medo do fracaso, mas também tem o medo dessas reações, porque você vai aumentando seu nível de desigência, e aí você tem metas ainda maiores para atingir. Então, o que é imaginário, isso tudo? O mesmo o que é narcísico? Tudo isso pode ser explorado subjetivamente. Porque claro que tem as fatoras objetivos, em todas as recomendações assim de. Então, você tem quebrar a matarefa complexa, nem tarefas menores, ou você tem que conseguir só dar o primeiro passo e você pode fazer uma contagem regressiva para sair da inércia ou identificar os horários do dia que você é mais produtivo, estudar o ambiente, os estímulos externos, tudo isso não vier as mais cognitivo e comportamental, sim, pode ser muito eficaz, ao mesmo você colocar um prêmio para o cumprimento da sua tarefa, um primo extra, porque o prêmio que já existe, ou ele está muito distante, obstrata, não está sendo operativo, suficiente. Então, tudo isso é muito válido, mas é um fenômeno mais complexo, que gera seu fimento, e que gera perdas reais do tipo você perdeu seu emprego, e também perdas simbólicas, e essas a gente pode explorar num campo mais. Subjetivo, que são fatores externos e internos que têm que ser pesquisados e elaborados para a gente tratar esses casos. Acho bom esse ângulo da procrastinação na chave da prefeição, Lucas, porque para mim está muito ligado a um fenômeno muito presente e atual, que é a idealização compulsiva. Claro que todo mundo precisa de expectativas do contrário, não tem vida possível, a gente precisa de fantasia, e aí, juntando com o lacá, esse é o grande paradoxo do nosso desejo. É a gente querer algo, se dá conta de que esse algo não vem do jeito exato que a gente espera, se contentar com que a gente tem versos que a gente esperava, mas seguir em busca de algo. Um dia que a gente se enrosca no contemporâneo, na inalcançabilidade das expectativas, nesses ideais muito inatingíveis, nessa posição muito paradoxal de que a gente está muito genósimo, numa era tão mediatizada que os nossos ideais circulam numa velocidade elucinante, porque a gente fica mesmo alucinado. Por um lado, esses ideais hiper saturados circulam nas nossas telas e nas palmas das nossas mãos, dando a impressão de que eles são alcançáveis, e por outro lado, como a imagem nos trai, antes mesmo da gente conseguir formar o nosso ideal, a cultura já está nos dizendo que a gente não vai chegar tão longe quanto aquele ideal. Então é melhor nem tentar, porque vai passar vergonha. E aí tudo que ainda nem é sólido se desmanja nas telas, e o sujeito paralisa, e é exatamente aí que está grande parte dos relatos de procrastinação, no tempo atual, e que tem essas perdas simbólicas e perdas materiais das quais você está falando. A gente não precisa nem então longe quanto perdeu emprego. Eu quero aprender a cozinhar, mas antes de entender onde eu quero chegar e onde eu posso chegar, eu já compreendo que eu não vou conseguir ser instantaneamente o MasterChef. Eu quero começar a correr, mas os corpos trincados e a vida da influenciadora de wellness que corre tudo de anapraia, arre melhor nem tentar, melhor nem começar. Ou eu sei que eu gostaria, mas eu não consigo. O que que eu estou propondo aqui? Que a gente possa pensar na procrastinação com uma espécie de condição, em que a gente está duente de ideal. Os nossos ideais muito ambiciosos, muito inatíngíveis, muito saturados, estão nos aduescendo. Isso é muito mais sério do que a gente pode imaginar, porque vai produzindo uma paralisia no sujeito. Um ideal que, no lugar de incentivar o sujeito de fazer uma dupla com a fantasia estimular o desejo entra como um congelamento da possibilidade, uma inviabilização do possível. E isso vai alimentando um descontentamento e uma insaciabilidade tão crônica que o sujeito contemporâneo vira uma máquina de reclamação e insatisfação. Porque tem isso, né? A queixa de quem procurar a China é um lance muito impressionante, reclama sem parar. Porque o excesso de ideais não deixa o sujeito andar paralisa ao cavalo que a gente falou lá atrás, ou a imagem que você trouxe. E aí não consegue experimentar, não consegue começar, não consegue progredir. Pelo contrário, fica preso. E aí vem essa lamúria, uma espécie de pedido do socorro. Mitira dessa prisão de ideais, ou mitira dessa sentença de autocontrole que, na verdade, não está conseguindo produzir muita coisa na minha vida. Quer dizer, está produzindo, está produzindo paralisia. Parece que, em uma espécie de pedido, nós escutamos o Tiago Gimbarães, que é roteirista, produtor de vídeos, e você, talvez, conhece ele como hora Tiago, um canal onde ele fala sobre cultura pop e comportamento. Eu vejo essa lógica de produtividade e de performance, também, como uma exacebação mesmo da crise capitalista, um sistema que se alimenta de crises, que coloca, no todos nós, uma lógica quase que militarista de produtividade. Da gente continuar produzindo constantemente da gente ter esse tipo de disciplina, que remete bastante a uma lógica militarista, onde a gente tem que estar sempre produzido. Enteiro, a gente tem que ser esse cidadão produtivo e consumista. A gente tem que estar produzindo, a gente tem que estar consumindo. Muitas vezes ela aparece com o verniz de natureza, um verniz de mindfulness, espiritualista, mas quando você vai removendo esse verniz, é uma lógica militarista, uma lógica produtiva. O de gente tem que estar sempre produzido. Essa coisa do autocontrole é interessante para mim, porque tem algumas obras que estão saindo meus últimos tempos que colocam em crise essa ideia do autocontrole. Um aqui, eu me lembro agora, é o próprio filme "A Substância", que é uma boa parte da trama, uma parte de uma premissa de um suposto autocontrole da personagem. Então ela precisa usar essa substância para poder ser jovem, bonita, e ter espaço no indústria, mas essa substância precisa ser administrada com harmonia, com equilíbrio, com um autocontrole que a personagem não consegue ter. Porque é um autocontrole que é inatengível. Esse equilíbrio não é um horizonte atingível, não é um horizonte possível. A substância vem como um produto que a gente consome, no caso ela compra uma substância, tem uma marca, tem um rótulo, é um produto da indústria, que demanda um autocontrole. Ela tem que fazer esse controle sozinha, ela sozinha, então que usar esse produto de um jeito que seja controlável, que seja administrava, que seja harmonico, que seja equilibrado, não contexto onde ela está lidando com um angúcho, que não é um angúcho interna, necessariamente. É um angúcho de aproporcionada pela indústria do interesse de um entendimento. É um angúcho de aproporcionado pela sociedade patriarcal. Ela é um angúcho de aproporcionado pela dinâmicas de gênero, que são potencializadas, impulsionadas dentro de um entendimento. Como que esse autocontrole é algo atingível, não é, e o filme trabalha com essa ideia. Ele expande essa ideia do autocontrole como algo que não é possível, quando a gente está lidando com questões que não são meramente individuais. Uma outra obra que eu estou me lembrando agora é a série Ruptura, que está na segura temporada agora, e a premissa da série é um procedimento cirúrgico que os personagens fazem, onde o resultado desse procedimento é que tem uma separação entre a sua persona, que trabalha e a sua persona que descança, que vive a sua vida fora do trabalho. Então, no momento em que você entra na firma, você não lembra da sua vida do lado de fora, no momento em que você sai da firma, você não sabe o que aconteceu dentro da firma. E existe um pretensio equilíbrio entre essas duas facentes aí na sua vida, e uma grande parte da série, né? A série aborda várias questões, mas uma grande parte da série envolve, é se vão dizer assim, vazamento entre essas duas personas, uma vai entrando na outra de alguma forma, e existe uma discussão sobre as autonomias de cada uma dessas pessoas, mas também parte dessa ideia de um equilíbrio que não é atingível, essa harmonia que não existe. A gente pode fazer uma leitura dessa harmonia como harmonia do capitalismo. Então, quando a gente entra num trabalho, independente do modo, do formato de trabalho, se é um contrato formal de trabalho, onde você tem sua carteira assinada, e trabalha numa quantidade de horas por dia, seja, num formato de prejução de serviço ou alguma outra configuração, demanda-se que o equilíbrio seja atingido para a sua vida pessoa. a álbum e a sua vida profissional. Existe esse discurso que vem empacotado em cartas de Instagram, que vem empacotado em letras bonitas, em livros motivacionais, que a gente precisa administrar nossa vida, que é o burn out de surge, por exemplo, em situações de exploração trabalhista, é algo que precisa ser admirado internamente. É um equilíbrio que você precisa ter. Você não pode trabalhar demais e estragar sua saúde, porque se você estragar sua saúde, como é que você vai trabalhar? Então é um ciclo que não se fecha, parece que o ciclo se fecha, mas é um paradoxo, é um completo paradoxo. O nosso descanso, ele tem que ser produtivo, o nosso descanso tem que ser produtivo para que a gente esteja disposto no dia seguinte. Então o autocontrole, é a narrativa do autocontrole, é uma narrativa de exploração, é uma narrativa que internaliza essas questões, que internaliza dinâmicas, exploradoras no trabalho, que internaliza o nosso lugar, as nossas patologias sociais, em algo que é administrado sozinho. Autocontrole, você sozinho, controla, você sozinho, encontra o equilíbrio, um equilíbrio que não é atingível, porque a gente está falando de dinâmicas, de desigualdade, de dinâmicas desiguais, de dinâmicas de exploração. Como é que eu sozinho, vou lidar com uma situação onde tem uma dinâmica exploratória, onde eu estou sendo explorado, mas eu vejo esse autocontrole como uma dinâmica exploratória, como uma grande injustiça, a pessoa comum que precisa trabalhar, que precisa sustentar, e que sofre com as angústias psíquicas dessa exploração, de você não ter tempo, de você ter o seu sono reduzido, de você não ter tempo de viver em comunidade, de viver com sua família, de você não ter tempo de sair com seus amigos, de você não ter tempo de dinheiro para viver as outras partes da sua vida que não são trabalho. E é isso, a doer é essa gente, a gente vai se isolando de tudo de todos e a gente internaliza todos os nossos problemas como algo que a gente sozinho resolve e ainda mais, que a gente sozinho resolve através do consumo, resolve comprando um floral, resolve pagando um plano de saúde que vai cobrir a disposibilidade, fazer algum tratamento, resolve fazendo os que quer, resolve comprando um livro motivacional, coloca todas as nossas angústias no prisma desse autocontrole que é atingido através, não é atingido, supostamente atingido através do consumo, então a dinâmica é meio essa. E eu acho que isso na cultura pop está muito refletido na figura do escolhido, do aerói que tudo resolve, do aeronsozinho que se destaca na frente da multidão, do aerói que precisa fazer um grande treinamento, se privar de um monte de coisa para poder atingir o status de aerói, que passa anos treinando, que medita, que fica recluso da sociedade, da sua comunidade, porque precisa treinar para ser o melhor aerói que tem, o melhor, o aerói que vai atingir o seu potencial completo, o supersadinho ou o guerreiro Jedi, Sánor, muitos desses aeróis da cultura pop que moldam nosso conceito de gerói, que é o conceito de gerói burguês, porque está ligado a essa narrativa do aerói romântico burguês, que é o aerói que tudo resolve sozinho, e o aerói que sozinho, romântico burguês, o aerói que ele vive sozinho, mas douros do mundo, ele é uma metonímia do mundo, ele vive as douros do mundo, e ele resolve sozinho, mas douros do mundo ou não resolvem, no caso da narrativa romântica burguês, muitos desses aeróis tiravam a própria vida, então só isso, já coloca em cheque uma série de questões aí que a gente precisa pensar sobre o que são as douros do mundo, e por que todas essas douros não cabem em uma pessoa só? A primeira coisa que o Thiago pegou e que me interessou demais, Lucas, é essa ideia de vernis, porque eu fiquei pensando em como o vernis é esse produto que protege em beleza superfícies, madeira, piso, móveis, essa película protetora, e aí juntando com o que eu falei antes sobre ideais, eu pense que o autocontrole também está nesse campo do vernis demais, de um vernis de alta produtividade, desempenho, melhor versão que acabam sendo intoxicantes e que acabam inclusive corroendo a nossa matéria subjetiva, enfim, nos corroendo. No vídeo que o Thiago fez sobre produtividade na era da Inteligência Artificial, um vídeo muito bom, inclusive para vários temas que a gente já falou aqui no Vibes Análise, ele fala desse sentimento de otimismo moderado ou de um realismo meio derrotista que muitos de nós temos tido em relação à tecnologia, e como muita gente vai usar ferramentas de Inteligência Artificial como uma forma de auto aperfeiçoamento, para escrever o melhor e meio, para saber qual tem que ser a melhor rotina, como tem que ser as mensagens, para se comunicar com outras pessoas, só que tudo isso chega antes do questionamento, promove uma paralisia na nossa forma de pensar e eu acho que o autocontrole está exatamente colocado nesse campo, a gente está tão obcecado pela ideia de que a gente tem que atingir a versão mais correta, ou mais produtiva, ou mais implicada, que a gente esquece de se perguntar se "perai eu realmente quero fazer isso", eu consigo fazer isso, é possível, é interessante quando a gente está falando de uma clínica mais no campo da obsessão, você sabe, é muito difícil a gente furar todos esses dogmas para conseguir chegar numa zona um pouco menos controlada e apertada para conseguir pensar em "bom, mas o que é interessante para você?" Para além de tudo isso, que te disseram que você deveria ser, que você repete todos os dias que deveria fazer, essa desintegração entre o pensar e agir, que eu fica totalmente no campo do pensar e não se consegue agir, ou escorrega totalmente para o campo do agir sem conseguir pensar. Legal, André, você colocou um cenário interessante aí sobre o contemporâneo, mas eu também queria trazer um tema aqui que não tem como falar de autocontrole, sem voltar para a gressa antiga. Lá vamos nós, que é essa história dos estoicos e dos stoicismo, que entrou a num hype muito forte esse ano no passado, que é o stoicismo, essa escola, uma doutrina filosófica, lá da gressa antiga que surgiu por volta de 300 antes de Cristo. Então, isso não é a gressa clássica, é gressa elenística que é menos sobre o social, política e mais focado no indivíduo. O que explica porque isso é tão atraente hoje em dia? E é sobre essa suposta arte de aprender a viver. Obviamente, como a gente poderia imaginar, tudo isso foi criado por homens, e alguns nomes que a gente conhece por aí, o Marco Aurelio, Epiteto, Cênica e a origem do stoicismo está em comunidade com o que a gente não tem controle, que foi quando o senão, que era um comerciante muito rícolar, não afragou e perdeu tudo e ficou numa ilha. E aí o que os históricos vão defender é que a gente não pode controlar a maioria dos eventos externos, mas a gente pode controlar as nossas reações a eles. Legal, mas será que pode mesmo? A ilhas corna. Isso também linha com essa bordagem de que o segredo por uma vida boa é aceitar o que não pode ser mudado e focar no que está ao nosso alcance. Certo, mas como diferenciar isso? É basicamente impossível se não colocando a mão na massa e às vezes quebrando a cara. Para a psicanálise, tem um pouco a ver com a castração, como a gente já falou, com o edipo, não, você não vai poder tudo. Não vai poder ter tudo. Se tornar adulto, é entender que você não vai ser para sempre uma criança que chora e tem todas as suas necessidades e desejos atendidos, chorar não vai adiantar. Então, é aprender a lidar com as frustrações, com os limites, com as faltas, com o real, toda essa turma aí não pode ser excluída dessa conversa, ainda que geralmente é, porque o que a gente vê também muito nessa lógica dos históricos hoje é o empurso ao narcisismo, o alto dominio, em busca da produtividade, deficiência, nessa potéase do poder do indivíduo, e com todo esse poder também a responsabilidade e os créditos pelo seu sucesso ou a culpa pelo seu fracasso. Alguns postos que eles fizeram estão reverberando, sendo compartilhados hoje em dia, com muita força, aí a darem-se no caldo cultural que a gente tem hoje, do tipo não desperdício seu tempo. Agir agora, não deixe pra manhã, vamos aprimorar a nossa disciplina, resistência, perseverança, banho de gelo, trabalho enquanto eles dormem. Chega, chega, chega, por favor, chega. O que começa a ficar uma coisa meio fria e calculista, e aí um rebote disso também é o que a gente vê na sua onda hoje de veneração ao emocionado, o sujeito que é emocionado sim, que às vezes é impossível, que é meio louco, meio enconsecuente, mas que ele nunca vai ser apático, nunca vai ser desafetado. Mas por os históricos, a paixão ou patos é um desvio, são emoções que são entendo. e que nos tiram do nosso rumo, nas nossas metas. E aí abre o impasse para a gente pensar que é onde que entra o desejo na relação com a disciplina. A disciplina é sobre fazer alguma coisa que você não deseja, a massa, e que precisa, jogos como uma pergunta mesmo, porque as distrações, elas não são controláveis, elas vão acontecer. Mas como a gente vai reagir diante dessas tentações desses desvios do nosso foco? Ainda mais uma cultura de desfes de atenção, como a gente chamou nosso episódio do ano passado. Então, é sobre dizer não, é sobre recusar coisas que parece interessantes que são pras herosas, mas que estão no meio do nosso caminho, é o que estão ali na hora errada, no lugar errado. E fica difícil mesmo decidir o que é melhor a se fazer quando existem tantas opções disponíveis. Então, você pode se tornar um novo masterchef, você pode se tornar um novo corredor olímpico, você pode se tornar muita coisa, na verdade, você não pode, mas a gente vai acreditando que pode. E essas muitas opções também promovem uma tyrania da escolha, uma ilusão que é construída, que é o paradoxo da escolha, até é as lá do Barry Schwartz. Então, ao invés de aumentar a satisfação, o excesso de escolhas vai nos levando a rependimento, a sensação de fracasso, a madúvida, será que é o caminho certo? Poderia ter feito uma escolha melhor, as expectativas sobre a escolha perfeita, o método perfeito, e leva a insatisfação mesmo quando a decisão final é boa, quando a gente tem um resultado bom. Então, tem algo meio para a doxalde que a gente pode, inclusive, ficar mais tranquilo quando a gente não tem tanto dessa sensação de liberdade e de poder. Por isso que o primeiro dia de férias pode ser tão angustiante, se você não planejou o que você ia fazer, o que é a maldita vertigem da liberdade. Eu queria colocar um ingrediente ou um elemento, Lucas Nisso, que você está buscando lá dos gregos e dos romanos, que é juntar o estoisismo com oomo estéticos, aquela ideia do lipovético, dessa super estetização do mundo, porque a gente está falando de um estoisismo que ele é meio a estética, como se diz no TikTok. Aqui é o termo inglês mesmo, a estética, mas que vai se dizendo a estética, que como uma forma de falar que é tudo muito imageticamente bonito, sedutor, uma imagem, ou uma série de imagens que é especialmente reproduzida por homens. Achei muito bom você falar sobre como tudo isso foi criado por muitos homens, porque hoje em dia vem circulando na cultura um estoisismo muito estetetizado e que é bastante masculino. O que acho mais irônico é que o estoisismo na raiz era sobre uma vida mais simples, menos presa, por exemplo, aos bens materiais, mas esse estoisismo super estético, geralmente é um banquete de objetos de desejo. A banheira de gelo não é qualquer banheira de gelo, o mate da yoga não é qualquer mate da yoga, a praia em que se está correndo não é qualquer praia. É esse é um ponto dos estóxicos que é interessante mesmo, que é um certo minimalismo ou essencialismo de cortar os excessos, das coisas que não tem uma função essencial na sua vida, só que afinal o que é essencial, sobre qual ótica, como se chegam entendimento sobre o que é essencial e negociável pra você? É essencial, desde que eu tenho uma efone 19 pra filmar o essencial, mas enfim. Eu fico pensando que esse movimento ele destaca três coisas pra nós, Lucas, primeiro como a gente vê é uma certa glorificação da disciplina, como se tivesse essa hipótese colocada na cultura de que se você não é feliz é porque você não se for suficiente, não tem motivação suficiente como a gente já falou, e você não segue o Mindset correto. E eu sei que a gente já passou por isso, mas o segundo ponto, na minha opinião, essa ideia de Mindset, essa palavra tão curiosa que a gente importou de que você pode citar a sua mente, controlar a sua mente, fazer-la agido o jeito correto e doutriná-la consistentemente. O terceiro ponto é que grande parte desses homens que a gente vê reproduzindo esse estoisismo tão estético, está sozinho, tem algo bastante solitário nesse estilo de vida tão certinho, correto, hábitos atômicos. Parece que não tem muito espaço pra confusão do outro. Eu estava pensando bem sobre isso também de como tem uma armadilha na essa busca obstinada por autocontrole, que é até meio parecida com a história do autoconhecimento, que é de você se perder do outro, porque o outro vira um obstáculo pra você atingir as suas metas, que você estabeleceu com você mesmo, na sua jornada de autooprimoramento. A diferença da alteridade pode ser lida com uma ameaça para o reinado supremo do eu, o reinado sobre si, sobre a sua vida, é óbvio que você namora alguém que fuma, se você quer parar de fumar, vai tornar as coisas mais difíceis. Mas essa eginização de não quero ninguém na minha vida que me distanci, homem atrapalhe das meus objetivos, é um isolamento tipicamente contemporâneo, que pode ser muito mortífero pro sujeito, porque tem uma arrogância aí também, de você achar que você sabe tudo o que te faz bem, o que te faz mal, como se não existissem ambivalências e contradições. E aí, a gente caminha pra uma falência política que está embutida na história toda, porque uma parte muito indissociável do estoisismo é essa espécie, ou pelo menos como circula na cultura, aceita que assim, não tenta mudar as coisas, muda só a você mesmo, e aí você vai lidar com quem importa, cuida do seu. Ou seja, é mais uma posta muito severa no individualismo, numa cultura narsínica mesmo, não adianta tentar mudar tudo isso, foca só em controlar o que você sente, e a gente sabe controlar o que você sente, dá bastante trabalho, e isso vai ocupar o sujeito. É, tem um tipo assim de autocontrole, uma intensidade de autocontrole que parece que transforma as pessoas também em pessoas, como perdendo a palavra, muito chatas, ou hipercontroladoras que não se permitem experimentar coisas diferentes, ocupar posições diferentes, sem falar em cometer erros, não quer dizer que as vezes não são erros, que é boa história do ato falho que na verdade é um ato certo, então pessoas muito normais, normopatas, um excesso de adaptação, tem alguma coisa aí sobre o segredo de um bom autocontrole, então, se abrir mão um pouco do controle, que não é um dos controles total, mas não alimentar também essa guerra contra esse mesmo, sem falar na guerra contra o mundo, e aí os homens também reenam nesse campo. Mas Lucas, eu achei excelente, você fala essa palavra, chato, porque chato tem uma interpretação possível que é de achatamento mesmo. E a gente está fazendo toda essa conversa, esse conjunto de laborações sobre autocontrole, e aí como é que a gente pensa no autocontrole como uma tentativa de autocontrole, de que só existe um jeito correto de viver, só existe um ideal de sucesso possível, só existe uma rotina de manhãs milagrosas com hábitos atômicos que você deve seguir, e tudo que foge dessa norma usando outra palavra muito rica que você trouxe para cá, produz um estreitamento da nossa subjetividade e da nossa capacidade inventiva, da nossa criatividade, de inclusive enxergar outras possibilidades. Sabe aquela coisa que a gente está bastante no campo dos esportes hoje, que é também curioso, mas quando sei lá um treinador, um professor de educação física diz para você, "Olha, hoje não está a fim de fazer esse exercício, vai fazer outro, vai experimentar outra coisa, isso vai ser interessante para o seu corpo, vai fazer com que todas as maravilhosas conexões que existem dentro do nosso sistema psicosomático se reinventem, e a gente desenvolva fibras musculares ou mesmo fôlego numa outra direção." É, crie, né? Exato, vá pro lugar da criação e não só da produção. E a mente é isso, como é que a gente expande a nossa capacidade de pensar, explora outras possibilidades de pensar, e não só vai afinando as nossas formas de controlar? E até porque tudo vai ser deslocado para algum lugar. Então, essas emoções negativas, como é que a gente pode receber elas, ao invés de achar que a gente vai conseguir determinar quais que tem que ficar, quais que tem que embora, numa postura bem compulsória, até porque, atravessar uma emoção difícil é, geralmente, a melhor forma de fazer ela passar. E aí, claro, com muito trabalho, coragem a gente pode identificar o efeito de algumas emoções na nossa saúde física, mental. E sim, fazer movimentos que priorizem aquelas que nos levam para onde a gente quer chegar, que ultivar emoções que combina com a gente, com a nossa história, com o pessoal que a gente quer ser. Mas aí não é sobre controle. É também sobre compreensão em uma certa aceitação, sem desespero. Até porque a gente ainda vai sentir muita coisa que a gente não queria estar sentindo. E se a gente for se culpar, a cada vez que só acontece, não queria estar ocupando essa pele. Vamos deixar aqui. Vamos. Até mais. Até. Tchau. (upbeat music)

Podcast Summary

Key Points:

  1. O discurso de autocontrole e otimização pessoal (ser a sua melhor versão) é uma ideologia opressiva e muitas vezes inatingível, que ignora as complexidades do desejo humano e as condições estruturais.
  2. A promessa de que é possível gerenciar emoções racionalmente, como pregam a inteligência emocional e a autoajuda, é falha, pois desejos e afetos são contraditórios e nem sempre conscientes.
  3. A cultura da dopamina é frequentemente mal interpretada
  4. A pressão por autocontrole total leva à vergonha e à autocobrança, enquanto movimentos como "entregue o mínimo" e "seja suficiente" surgem como uma reação contra essa idealização.

Summary:

O texto critica a ideologia contemporânea do autocontrole e da otimização pessoal, que promete que a felicidade depende exclusivamente do esforço individual. Essa premissa, difundida por gurus motivacionais e pela psicologia popular, ignora que os desejos humanos são contraditórios e que o autocontrole não é um traço de personalidade infinito, mas um recurso limitado que varia em diferentes áreas da vida. A tese da inteligência emocional, de que podemos gerenciar sentimentos de forma eficaz, é questionada, pois o sujeito é "castrado" e não tem controle total sobre seus afetos.

A cultura do trabalho neoliberal substituiu o controle externo pelo autocontrole e pela vergonha, pressionando o indivíduo a ser sua "melhor versão" sem considerar contextos estruturais. A discussão sobre dopamina é trazida para mostrar que a busca por prazer imediato não é o único motor da motivação; a dopamina também nos impulsiona a esforços de longo prazo. No entanto, o excesso de estímulos pode levar à compulsão.

Como reação, surgem discursos de aceitação dos limites e de valorização do "suficiente", em oposição à positividade tóxica. Em suma, a ideia de que podemos e devemos controlar tudo em nós mesmos é uma promessa falha e opressora.

FAQs

O sujeito castrado é aquele que não consegue tudo o que deseja não por falta de autocontrole, mas porque desejos e afetos são complexos, contraditórios e nem sempre conscientes, sendo uma condição humana normal.

Eles criticam a ideia de que autocontrole é um traço de personalidade fixo, defendendo que é um recurso limitado, variável em diferentes áreas da vida, e que a busca por controle total pode ser opressiva e levar ao sofrimento.

A dopamina não é apenas sobre prazer imediato, mas também sobre motivação para esforços de longo prazo. A visão simplista de 'detox de dopamina' é criticada, pois o sistema de recompensa cerebral é mais complexo.

É a ideia de que pensar positivo e se esforçar individualmente pode resolver tudo, ignorando problemas estruturais e contextuais, pressionando as pessoas a superarem dificuldades sozinhas.

O filme é visto como uma crítica à hiperotimização, mas memes na internet mostram que muitos ainda romantizam o uso da 'substância' para buscar a melhor versão de si, refletindo a persistência dessa mentalidade.

Esse discurso é criticado por promover uma competição consigo mesmo, focando no eu futuro e no resultado, ignorando o sofrimento presente e as limitações humanas, além de ser uma promessa falha e insuficiente.

Chat with AI

Loading...

Pro features

Go deeper with this episode

Unlock creator-grade tools that turn any transcript into show notes and subtitle files.