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Comer, rezar, gentrificar

from Prato Cheio

51m 43s

Comer, rezar, gentrificar

O episódio explora a gentrificação em São Bento do Sapucaí, um município do Brasil, onde o turismo de experiência, especialmente gastronômico, está transformando a realidade local. A chegada de investidores com alto poder aquisitivo e o crescimento de boas-vindas como "Toscana Brasileira" levam a um aumento significativo nos preços de imóveis e na construção de casas com estética europeia. Moradores tradicionais, como Antônio Galo e José Pinto Fernandes, relatam que suas casas, terras e formas de vida estão sendo substituídas, com um aumento de custos e perda de acesso ao território. A prática de consumo de alimentos exóticos, como azeite e vinho, é apresentada como uma ferramenta de segregação social, afastando os habitantes originais. A natureza, a cultura e os hábitos locais são cada vez mais ameaçados por um modelo turístico que prioriza aparência e conveniência. O foco central é a crítica à ideia de autenticidade: o que realmente importa não é o que é consumido, mas o sabor da convivência com a comunidade, o que se sente no lugar. A análise mostra que o turismo de experiência, embora atraente, está deslocando a identidade local, substituindo tradições por modelos mercantilizados. A reflexão final questiona se a cidade pode realmente se tornar como Campos do Jordão, uma cidade de turismo de elite, sem perder sua essência. A mensagem é clara: o verdadeiro valor reside na conexão humana e na preservação da história e da cultura local, não em uma "experiência" comercializada.

Transcription

7160 Words, 40250 Characters

Portuguese
A gente passa o dia visitando os principais pontos turísticos, tira fotos, selfies, anda pra cá, anda pra lá, dá e volta pro telco, usada, o Airbnb, toma um banho, passa por fume, e agora é hora de jantar. A gente sai e chega uma rosinha cheia de restaurantes, luzes baixas, varais de lâmpadas ou letreiros piscantes. Se for frio, aquecedores agás e mantinhas mas cadeiras. Se for quente, cadeiras de praia, drink, cocos e imagens de peixes. Existe a possibilidade de tirarmos umas fotos atrás de cenários temáticos, onde cabe rosto, que salga um personagem famoso pra pausar ao lado também. Pra ajudar a escolher o que comeu ou onde ir, na calçada vamos ter pessoas quase puxando a gente pra dentro dos estabelecimentos. Elas seguram extensos cardápios com opções variadas. E se não tiver contento, não é preciso andar muito pra olhar o próximo, talvez um cinco passos. Mas o menu vai ser bem parecido com anterior, ainda que a próxima pessoa tentar nos puxar pra dentro, diga que ali é a melhor comida da região. Já sabem de estamos? Eu aposto que sim. Se você respondeu algum lugar da Thailand, da Itália, da Argentina ou outro país, você acertou. E se pensou em um lugar aqui no Brasil, praia da Pípa, real da Juda, morro de São Paulo, gramado ou campos do Jordão? Também tá certo. É que muitos lugares repetem um modelo de ocupação. Atrai em seus visitantes porque são maravilhosos e médicos ou vistos como exóticos. Até que são tomados por uma fórmula mágica, que na visão de alguns da certo faz ganhar escala. Virou moda de uns tempos pra cá, um tal de turismo de experiência, que desvalorizar a autenticidade e encontrar ponto ao turismo de massos. Só que quando vê aquilo que antes atraia não existe mais, é substituído. A alma do lugar vai embora, as pessoas, a cultura, os hábitos, os bichos vão embora. Fica o cenário. Qual é a diferença? Qual é o tipo de experiência que se busca e que o mercado tanto corre pra oferecer? Essa é a segunda garota que me pare, pergunta se pode orar por mim. A primeira eu perguntei onde a gente estava exatamente e ela disse. Eu não sei, eu só sei que aqui é campos do Jordão, eu estou aqui apenas evangelizando. Vem cá, vamos andar pelo centro de Capivari, um dos bairros e principais pontos turísticos dessa cidade conhecida como Suíça Brasileira. No fim de 2024, eu peguei um carro e fui pra Serra da Mantequeira gravar esse episódio, mais precisamente a São Bento do Sapocaí, que é a vizinha de campos do Jordão, Santo Antônio do Penhal e São Francisco Xavier. Faz uns quinze anos que conhecem São Bento e foi onde ouvi por alguns meses durante o período da pandemia. Desde lá, visito regularmente a região, ou na medida do possível, porque os preços foram ficando impraticáveis. Aproveitei a primeira noite de gravação pra dar um pulo em campos do Jordão, jantar e ver o movimento. Eu passo por Aspen Mall, Geneva Plaza e Paris Station. Edificações brancas e marroms que fazem parecer que eu estou na Europa. E muitas luzes nos telhados, nas árvores, nas varandas, nas portas em tudo. Luz é realmente o que não falta. E não é só porque é período natalino não. Ali sempre tem uma cara de natal. Até porque uma das principais atrações é o consumo. Tem um restaurante ao lado do outro. Passo por lousas pescantes ou não, que me dizem os cardápios. Para mediana de frango, para mediana de carne, anti-grelhado, frango-grelhado, triu de carne, struta-grelhada, moqueca, salmão-grelhado, bacalhado, talha-tele, fetutine, em oque fundi. A média para duas pessoas é uns 150 reais, 300 no caso da Paris Argentina. Parece bem exclusivo, né? Chique no mínimo. Eis que folhei um cardápio e me deparo com um logo conhecido por aqui. O s da sadia Versão Especial, carne utilizada para o preparo da picanha suína, acompanhada pelo risoto de parmesão. Eu sou Luís Acuélio e você está no prato cheio, o adqueste de o joio trigo. Este é o segundo de uma dupla de episódios que surge a partir de reflexões sobre a relação entre comida e a gentrificação. Se você desconhece essa palavra, surgiram na sequência voltar no primeiro em que João Pérez fala sobre esse conceito que surge no urbanismo na Inglaterra e sua relação com uma gastronomia. Mas você pode começar por aqui mesmo e entender primeiro como isso acontece na prática. Porque é assim que moradores de diversos lugares no mundo conhecem esse processo, vivendo na pele. Por hora, vamos lembrar que gentrificação é o processo de exclusão e consequente expulsão dos antigos moradores de um lugar, especialmente os de menor poder adquisitiva, partir de uma valorização mercadológica, impulsionada pelo abandono estatal e por novas formas de ocupação. Na origem a gentrificação é tratada no meio urbano, mas aqui a gente vai falar sobre a zona rural também. E sobre como a comida acaba sendo transformada e utilizada como ferramenta de segregação e de diferenciação social, ainda que se utiliza de ingredientes espaços e práticas tradicionais. Antônio Pinto do Santo Subrinho nasceu e mora há 64 anos em São Bento do Sapucaí, onde é conhecido como Antônio Galo. Ele vive no bairro do Paião Grande, onde fica a principal atração turística de São Bento, a pedra do Baú. São Antônio gosta de conversar. Muita gente para no ponto que ele tem no Paião para prossear ou comprar alguma coisa. Um mel, uma das peças de madeira que ele faz, ou as cartalistas que cultivo. Tudo. Se eu não tenho uma facinho, uma cebolinha lá tendo. Procur o senhor então, obrigado. As conversas que tive diversas vezes com ele foram a faculha para esse roteiro. Ao longo dos últimos cinco anos eu vi um pedaço das mudanças de São Bento, conversei com bastante gente, vi o pessoal nativo se mudando, os preços aumentando, casa faltando, a cidade crescendo. Esse processo é longo e antigo. Antes de eu chegar por ali, o que não me faz menos participante dele. Sou também uma parte, um dentinho de engrenagem dessa tal de gentrificação. Eu e uma série de coisas que parecem bem inofensivas, tipo o Azeite. Perguntei para o seu Antônio, quem é esse novo turista que chega agora em São Bento? Um investimento. São pessoas que tem bastante dinheiro e vem em investe aqui, às vezes não é nem para retorno de dinheiro, para investir em dinheiro aqui. E aí faz uns negócios meio fora do padrão daqui. Muita gente comprou o terreno ou alugou o caso em São Bento e adjacências durante a pandemia. E isso virou uma alternativa de renda para algumas pessoas, além de um negócio para outros. O número de construções aumentou, assim como os preços. Se a quatro anos era possível alugar uma casa grande por 600 reais o mês, hoje em dia esse é o preço para passar um fim de semana. Se antes a conversa era como dono ou uma última pessoa que cuidava do lugar, agora é pelo Airbnb. E não foi só o Airbnb que surfou nessa onda. Uma coisa que nos chamou a atenção aqui no joio recentemente é o crescimento de um turismo gastronômico que tem feito o São Bento do Sapocaí, ser chamada de Toscana Brasileira. Um movimento de carros, especialmente os grandes, vem aumentando entre as cidades da região e os bairros atrás das comidas e da tal da experiência. Suíça, Toscana, engraçado que essas experiências buscam o autenticidade, mas sempre tem um cheiro de Europa. Azeite queijo, vim e cerveja, são os carros chefe. E se isso faz a boca salivar para alguns, outros engolem secos. Quando não é destruir as águas aqui, o turista vai para o outro lugar, o turista tem dinheiro, ele vai lá. E quem fica aqui, fica doente, fica com pome porque destruiu a terra, a terra não vai produzir mais porque destruiu a terra. Apelo menos duas marcas de azeite na região. Então, com muita história de Vimbra-Cai, e para entrar umas coisas, introduzir umas coisas que nunca existiu aqui, que o Oliveira não é do nosso Brasil, nunca existiu aqui, mas a gana por dinheiro está levando as pessoas a levar os outros arruínas, levar a nossa natureza arruína. E com o tanto de estrada, o lugar que não é projetado, com essas prentações, usando muito grotouco, destruindo as águas que vai para o sombento. O agricultor não é ele que está destruindo a terra dele porque, pelo menos é ou não, porque eu tenho amor na terra, como se fosse a minha mãe. Sãobento já passou por alguns ciclos. Teve um momento de cultivo do fumo, de banana, beterrabe e cenoura. Inclusive, existe um lavador de legumes nos módios daquele que abordamos no segundo episódio da sétima temporada do Prato Cheio. Ela chega em Sãobento, vindas do mesmo lugar que abastece piedade, a cidade de São Botardo em Minas Gerais, em Sãobento também teve turismo rural, a primeira vez que visitei existia um araz grande, tinha pesque pague. Também foi forte na região, o acampamento caiu ao grande, um entrengimento turístico fundado na década de 40, com o objetivo de conectar pessoas com a natureza. Muita gente em Sãobento trabalhou no acampamento. Venha as crianças da cidade, venha ir na Rossa, um parcial aqui, vinha a cavalo, vinha no orto, vinho da coisa, e aí o chotei em casa, tem arbo, tem arbo, já venha em Sãobento e venha. Menina, venha o placar, agora eu acho que tá vindo só pra ver a peda de baú. Esse é José Pinto Fernandes, conhecido como Simão. Ele foi uma das pessoas que se beneficiou com turismo, mas veio com olhos críticos a situação hoje. Diz que os preços das casas ficaram muito altos, e agora tá difícil de alugar. Antigamente era só ficar quatro pedaços de pau na terra e colocar um pedaço de plástico que tinha gente alugando, nas palavras de seu Simão. Mas colocando muito fácil, agora já compre com um pouquinho, agora já subiu muito ao Miguel. Além de alugar casas, ele produz e vem de morangos, trabalha com transporte de ortalistas pro seasa e ainda é sócio em uma padaria artesanal que abriu recentemente no Paião Grande. Ele me disse que sempre fala pros filhos que as coisas vão mudando e é preciso acompanhar, entre aspas nem que sejam se arrastando. Minha volta é falar um negócio assim antigo, que a gente tem que levar dinheiro do ebocho. Não pode levar no bocho, que se o ladão roubar um, isso ainda tem no outro. O empresário também se utiliza desse estratégia. Pode ver que eles nunca tenham o negócio só, num ramo só. E conforme vão crescendo, ampliam cada vez mais. Normalmente, o procetor imobiliário e o procetor financeiro. O último ciclo antes do turismo, se fortalecer, foi o da banana. Eu mesmo vivia ao lado de um bananau, o que me dava uma tristeza de lembrar, cada vez que me deparam em São Paulo com a dúzia da banana, custando quinhos e reais. Eu tenho o terreno plantado em banana. Ah, derruba banana, lá e faço uma casinha maior que esse. Está logo ela, e é onde é banana. Não vou mais ter banana, vou ter uma casa loucada ali. Também foram muitas as pessoas que venderam terrenos. Seu simão mesmo vender um tanto de terras. Deixou de trabalhar com banana, porque falta força de trabalho para o serviço pesado. Até para construir casa, que é o bundo momento, está faltando gente. Os empreendimentos imobiliários fazem das cervejarias, destaurantes, vinículas, empresas de azeites ou plataformas, como Airbnb, que são vistos com bons olhos, podem até oferecer melhores condições de trabalho ou maior remuneração para a população. O chamado desinvolvimento. Também oferecem laser de versão e conforto para quem gosta de viajar e experimentar comidas novas. E claro que todos queremos viver com conforto. Mas isso não quer dizer que a gente não possa olhar de maneira crítica, repensar a nossa forma de fazer, nosso impacto, porque sempre há camadas mais profundas. Eu não diria nunca que uma pessoa como seu antônio é preguiçosa. Seus filhos são todos trabalhadores em diferentes áreas. Mas a gente consegue entender o que ele está querendo dizer. As últimas vezes que eu fui pressão bem em tuantes dessa gravação, me deparei com a ordem de seu antônio seca, há anos na verdade que eu não ouvia, e hoje ele chama atenção para tudo o que parece fácil. Bom, o ganhar dinheiro turismo é, eu já trabalho um tempo, também com muito turismo. Estou vivendo minha resta de vida, assim, mas eu não entrego os pontos não. Além da chácaras que a Luga cuida de mais algumas casas de outras pessoas, como isso deixou de plantar. A gente está de segurar, porque é onde deve plantar um pé de coge, se você não tem mais nada, você tem um pé de coge para andar, você vai matar a sua vôme e com dinheiro, você não mata a vôme. A primeira vez que comito o Mate de árvore foi na ordem de seu antônio, ele também tem nirá, que é uma cebolinha japonesa que eu come na casa da minha família, além de milho não transgênico de diferentes variedades. Tem a maior taioba que eu já vi, tem mandioca, couve e abóbora, até xia ele tem, sempre guarda sementes para o próximo plantil, inclusive de um feijão que eu nunca tinha visto. O feijão do Espírito Santo é um grão branco com um desenho de uma pomba, com um cálice. A história desse feijão é o deixo para o canal de transmissão do Prato Cheio no Instagram. Aliás, deixa eu te fazer um convite rapidinho. Já conhece o nosso programa de membros, o sementeira, com uma contribuição pequena por mês, você tem desconto em produtos da nossa lojinha, em livros da nossa coleção. De quebra ajuda a financiar nossas investigações. É só entrar em www.joitrigo.com.br e ir na seção Contribua. Na academia, a pessoa se estudando a relação entre gentrificação e alimentação. E eu vou deixar um dossier publicado pela Faculdade latino-americana de Ciências Sociais do Equador na Fichatecnica do Episódio. Para essa pesquisa, eu li um dos artigos que relaciona a gourmetização com a gentrificação e aborda como esses imprendimentos do turismo e da gastronomia se tornam elementos centrais nas mudanças sociais e culturais dos lugares. Isso nem sempre quer dizer coisa boa. Valores estéticos conhecidos e validados pelas classes mais altas da sociedade, com capital financeiro e cultural, começam a tomar conta de lugares considerados inferiores. Isso atraie novas pessoas de fora que trazem consigos seus valores, demandas, desejos, hábitos de consumo e dinheiro. Um mercado imobiliário faz a festa, porque é o primeiro e o último ao se aproveitar. É que a gentrificação acontece em ondas e vai devastando o que há pela frente, abrindo espaço para novas ondas. E como seu antônio falou, pros pobres a amarealta passa rápido, ficam os altos preços. Depois de escutar o pessoal falando sobre esse aumento das construções e compras de terras, fomos até a prefeitura tragem um posicionamento. Falamos com a retusa parecida do Santos, que na época era secretária de infraestrutura segurança e mobilidade, ela deixou o cargo em 2025 e aqui principalmente a gente tem alguns registros antigos que a cidade ela alagava a interinha, que a gente tem as montanhas, é um vale, né? Então assim quem tem muito dinheiro constrói na montanha, quem não tem muito dinheiro constrói aqui, é diferente de São Paulo, né? Ela nos informou que realmente houve um aumento no número de moradores na região e de construções. A pandemia foi o ápice desse processo em diferentes lugares do Brasil e do mundo. Muita gente se mudou dos grandes centros ainda que por um período ou investiu em terras e imóveis. Segundo os centros de 2022, são bem-toutem quase 12 mil habitantes, fora a população flutuante. A cidade conta com um plano diretor, instrumento que orienta o desenvolvimento municipal e que é obrigatório por lei para as cidades com mais de 20 mil habitantes. Uma coisa que acontece em São Bento e eu já vi em vários outros lugares é a recorrência das coisas ditas particulares, uma placa diz propriedade particular nas cercas dos terrenos, outra diz rua particular, na estrada há uma lixeira particular e tem até cachoeira particular. Eu mesma já entrei numa discussão lá por causa disso e fui comentar com seu antônio na época. Uma coisa que a terra não é nossa, a água não é nossa, é nossa, mas não é meu. A água que nasce na minha improviedade e cai de milidade é não em mim, ela é de todos. A terra que eu tenho, por exemplo, tem um pedaço de terra, é minha porque eu tenho um título completo, mas não deveria, ela deveria ser de todo mundo, bem comum de todo mundo. Hoje em dia eu entendo melhor. outro lado sobre a cachoeira. É que esse novo aperfiú de turista tende a achar que pode tudo porque se enxerga ou com o dono ou como cliente. As pessoas que nasceram e trabalharam a vida toda na terra pensam diferente. Antigamente, o pessoal tinha um lugar de morar e outros lugares por onde circulavam. Fosse pra pegar comida, matere a prima, cuidar dos bichos ou de passagem. É que território não é só onde se mora, mas onde se vivem. Hoje esses lugares estão cercados e eles já não são mais bem-vindos. A gente pode achar que é inofensivo, mas foram construídas casas com muitas partes de vidro. O que causa a morte de passarinhos além de descharacterizar o bairro. Casas que imitam outros lugares que trazem material de fora, de ferro ou até container, são insolamentos térmicos. E lembra das luzes que eu descrevila em campos do Jordão? Como passar dos anos, o Paiol foi ficando iluminado. Os pontinhos de luz nas montanhas aumentaram em quantidade e potência. Porque tem os bichos de dia, tem os bichos de noturno e precisam alimentar e precisam liberar a natureza. É isso aí. A pessoa respeita o que existe no lugar, mas vem gente aqui que está botando muita luz nas casas, estão botando muito vidro nas casas também, que é uma beleza, é uma maravilha. Você pode sair dentro da sua casa, você está vendo a Paiol, mas você tem que ver que é que custo que você está vivendo essa vida boa. As casas de sementônio são todas com as casas do lugar, muita madeira, pedra, cores básicas, tudo muito aconchegante, mas as vezes não é suficiente para pessoas da cidade. Elas querem trazer com ela seu jeito de viver. Me lembre de uma casa que eu quis muito ao lugar, ela custava uns 600 reais e tinha um quintal enorme. Era uma casa simples, bem de rossa, paredeinha branca, um dia eu passei lá na frente e o senhorzinho que tinha o estado estava fazendo uma segunda parede de tijorinhas à vista, mudando as janelas e pouco tempo depois ela foi morada. Tudo isso com um aumento de 100 reais no preço do aluguel. Segundo seu antonio, campos do Jordão vazou, transbordou e espirrou em São Bento. E esse rai o europeisador está traindo gente que não está nem um pouco interessada no tomate de árvore, no bloco de carnaval de Zé Pereira, nas festas de São Gonçalo, no Congado, nas esculturas de seu ditinho, na carne de lata que é comida tradicional e nas várias nuances que contam a história daquela região. Campos do Jordão mesmo nem sempre pareceu uma cidade xenográfica. Foi distrito de São Bento do Sapucai até 1933, quando se tornou o município. Seu antonio conta que quando criança e a como pai comerciante para lá, era todo muito simples, mas tinha importantes hospitais, porque antes da segunda guerra foi um polo de referência no tratamento da tuberculose. Eles vendiam alimentos para esses hospitais que atraíram pessoas e geraram empregos na região. Com a descoberta da Penicilina, a ideia de cidade terapêutica por causa do clima foi perdendo espaço na saúde e ganhando no laser. A Suíça brasileira em placou e vendeu. Ao poucos ou nem tão lentamente assim, a roça deixa de ser roça. A urbanidade vem sendo trazida a montanha cima e, diferentemente do que diz o senso comum, nem sempre ela representa conforto e avanço. Tanto que muita gente foi embora. Em São Bento de sem moradores antigos, 80 foram embora segundo me disseram seu semano e seu antonio. Uma parte deles para a cidade grande, como são José dos Campos. Pudera, ali no Paiol, quem não tem carros e lasca, principalmente com as estradas mestidas do jeito que ficaram com um tráfico de caminhões carregados de materiais de construção e o alto fluxo de carros. Antigamente, tinha uma vampra a levar o pessoal proposto de saúde, mas isso parou. Não se trata de um acaso do destino, mas um símbolo dos processos de gentrificação. É que, num lugar abandonado pelo poder público, para algumas pessoas torna assim sustentava viver, um ótimo negócio para que venham novas pessoas, aquelas que podem arcar com o novo padrão de vida. Eis que, de repente, o poder público se interessa novamente, recentemente as ruas do Paiol se encheram de postes de luz. E os moradores começaram a receber cobranças de PTO, que é uma imposto pago por proprietários de móveis em zona urbana. Há também o risco de asfaltarem a outra entrada para o bairro, que encorta a caminho para quem vem de campos do Jordão, o que deixa os moradores temerosos. Como o bairro é um beco, todo mundo sabe quem entra e quem sai. Caso ája livre passagem, cria-se uma rota de fuga, que já causou insegurança e medo no passado. Comprou uma casinha lá na cidade, já vai comprar num lugarzinho meio ruim, meio de risco, porque uma prioridade boa no instrumento, o carquecer de uma cidade, é claro, não é coisa para nós que somos aqui. Essa coisa de não é para nós daqui, eu ouvi algumas vezes. Eu volto a falar sobre isso no último bloco. Mas antes vamos para um passeio de fuzca, depois de intervalo. Se você gosta dos temas que escuta aqui, vai adorar os produtos da nossa lojinha. Para te ajudar a se organizar neste ano, criamos um calendário exclusivo que tem como tema, música, sobre comida e ilustrações lindíssimas. Também tem pano de prato, camiseta e acobegue. Tudo em loja, ponto joyotrigo.com.br, vai dar uma olhada quando acabar aqui. Um dos dois anos atrás, seu raimundo já tinha me levado para dar esse mesmo passeio. Varos trechos eram de estrada de terra naquela época, e foi uma grande aventura porque o fuzcaparou, patinou, mas passou em trechos tomados por lama onde achei que nem caminhanete passaria. Agora, boa parte do caminho foi calçado, como falam por lá. Aqui, começa a gravar aqui, a minha terra, a minha raiza aqui, e a fazenda. A imundo dornizete de Oliveira nasceu nessa fazenda por onde a gente passava. Seu pai também nasceu lá. Seu avô trabalhava nessa fazenda e foi entre aspas vendido junto nas palavras de seu raimundo. Quando a propriedade foi vendida para uma família importante na cidade. Todos têm a história de vida centrada no trabalho com a terra, no entanto, nenhum teve ou tem terra. E ele comprou terra depois? Não, não tem terra, não. Nem o Joãozinho. Não, nós somos sem terra. Nós somos sem terra, não tem terra. Trabalhamos em terra dos outros. Joãozinho é irmão de seu raimundo. Ambos trabalham em ortas, na estrada que vai do centro de São Bento, pro bairro do Paiô Grande. Regina de Oliveira, de quem você ouviu a voz no passeio de fuzca, trabalha com o marido dela, que é o seu raimundo. Os três venda em verduras legumes lá mesmo. Fornecem também para restaurantes da região e tem bancas na feira da cidade que acontece todo sábado. A terra da plantação é arrendada. E lá eles construíram uma casa para o pai que gastava duas horas caminhando de Bengala pelas estradas de terra para ir até a vendinha. Naquela época, não existia um grande interesse ou alto fluxo de carros para essas bandas. Eu perguntei o que ele pensa, quando vê tanta mudança e tanta gente de fora com terra ali. Hoje mudou muito, né? Hoje o povo já não veio muito das prontas, né? Um milho mesmo, né? Isso milho, né? O povo veio mais do pastorista chegar e deu seus vistas, a cuidar de chacra. Quanto salário que vai plantar? Aqui vai correr vistas. Eu ganhei seu salário, cheio final do meio, tem o dinheiro para receber. E igual a nós, a faferinha, a ferinha nossa, não dá aquele dinheiro, mas é pingadinho. Toda semana tem. E assim, nós vamos, tem muita terra hoje perdida. Mas nós não tem terra. Eu dei uma insistida sabendo que vem tanta gente de fora e compra tanta terra. Perguntei o que ele pensa sobre? Não, não penso nada. Hoje não. Você não vai te ver, você não ia virar ali em outra coisa, né? Fazer para produzir, né? De plantar. Sim. É gostoso plantar. Está muito bom hoje. Hoje é melhor que o tempo passado, que nós sofimos aqui. Naquela época não tinha nem estrada, hoje tem estrada, tem ruizinho. Ai que beleza de pinhoiro, eu tenho muito a fazenda, não tenho pinhoiro, você é riqueza, tem uma época de dar os pinhão, riqueza, vanóipos, bichos, pincôme, né? Eu penso assim, não tem muito o que falar sobre a fartura de terra nem o turista, porque tem que ter o turista, né? Uma coisa que seu raimundo sente falta é dos pastos de gado. Ele chamou a atenção para isso umas duas vezes ao longo do passeio. Pode ser que o pasto não é que está. Não está por esse nem gado. é de coisa diferente. O sal e pápas ficam bonitas. Antigamente não, né, de fazer a terra proogredir. Você pode ouvir sobre a mudança na criação de animais para pecuar industrial nos próximos episódios. Fica ligado na programação do Pratocheio. A conversa com seu raimundo nos ajuda a pensar que não é o caso de tacar pedra no turismo. Mas porque é que a estrada calçada só chegou agora que não há mais ninguém de São Bem to habitando o bairro. Em recurso estadual investimos mais de 12 milhões de reais. Enquanto o pai de seu raimundo levava duas horas caminhando de bengala para chegar na vinginha, a estrada era de terra. Atendemos praticamente todos os bairros do município no programa Velhos Caminhos novas Estradas. Não é apenas uma rua ou uma obra. É um investimento em qualidade de vida e no futuro de São Bem dos Apucai. Hoje, com o orgulho, entregamos uma cidade mais estruturada, mais acolhedora e pronta para novos desafios. Porque construí-se. Qual será o futuro de São Bem to do Sapucai? A gente ficou se perguntando se seria virar a nova campos do Jardão. Fica essa pergunta para um tanto de gente. E geral, acho que não, porque a cultura popular de São Bem to é muito forte. De qualquer forma, a construção da Toscana Brasileira está a todo vapor. Seria uma interligação de São Bem to com o campo do Jardão. A gente até desenvolveu um projeto, né, para uma melhoria de uma rota aqui, que seria uma rota dos vingos. A gente está guardando para não estar liberar. Essa é a retusa. Antiga a secretária de infraestrutura que você já ouviu no primeiro bloco. Ela está falando da pavementação e estruturação da via que conecta São Bem to do Sapucai com campos do Jardão. A estrada municipal José Té Autônio Silva, que curiosamente é um endereço de duas vinícolas. A Vila Santa Maria e a Raízes do Baú. A gente ainda está guardando essa liberação do Governo, porque é uma obra de milhões. Pra pavementar tudo, pra pavementar, fazer drenagem, fazer espontes, que espontes empricárias. E o fluco só aumentou. O programa "Rotas do Vinho de São Paulo" foi lançado pelo Governo do Estado em agosto de 2024 pra fomentar o enoturismo. A nota de lançamento no site da secretaria do turismo diz que o chamado "turismo da experiência" está nos planos de nove em cada dez viajantes brasileiros, segundo uma pesquisa. Tem um texto publicado no site da vinícula Santa Maria, que diz o seguinte, "Abre aspas". A Vila Santa Maria, inclusive, tem importante protagonismo no programa. É que a sócia proprietária, selha, pinote, carbonare, uma das principais lideranças femininas do Agro Paulista e presidente da Câmara Setorial de Viticultura do Vinhos e Derivados do Estado de São Paulo é uma das co-organizadoras do programa. Fecha aspas. Celha Carbonare também foi eleita presidente do Conselho Municipal de Turismo de São Bento em março de 2024. Além de ser membro da Câmara Federal do Ministério da Agricultura e da Organização Mundial do Enoturismo. Eu fui até a tal vinícula, uma extensa propriedade com muitas e muitas vagas pra carros, um carregador de bateria para os elétricos e uma arquitetura baseada em concreto e ferro. Esprementei o amosto em cinco tempos que conta com couver, salada, entrada, prato principal e sobremesa pelo valor de 250 reais. O passeio guiado pela propriedade custa mais 20 reais e eu não fiz porque estava chovendo. Deu uma volta pelos campos gramados até as barreiras. Passei por um riozinho ornamental onde vergonhazamente ou não. Eu limpei minhas galotias enlameadas antes de pisar no cimento queimado do restaurante. Também não tomei o vinho, porque eu estava dirigindo. Aliás, essa é uma questão pra vinícula, ter um lugar dos visitantes que estão de carro, mas querem beber. Eles têm no seu horizonte a construção de um hotel pra acomodar aqueles que atualmente ficam em arbiembis no entorno ou em campos do jardão. Será o primeiro hotel de São Bento do Sapucaí? Para essa viagem de apuração, eu fui sozinha. Na verdade, como cachorro, o suria. Você pode achar até um pouco estranho, e talvez já esteja enjoado da minha voz. Mas eu ficava mandando áudios para mim mesmo, ao longo dos dias, para registrar os momentos e vou tocar um trecho aqui. E aí, lugar mais quesito do meu preto, tenho umas estruturas de metal, aí com umas mesas separadas, acho que para grupos, nos assassinamentos tem coisa para carrelar elétrico, o abastecê, aí lá dentro tem uma loja como um azeites e outras coisas, azeite da olhique, azeite de outro lugar, chapéu de pália, é uma coisa meio xígma e obrega, e bolsa de couro, geleia. A minha sensação é de não estar confortável, um lugar onde não é legal e gostoso. Eu não achei, não sei também, você porque o dia tava meio cinza. Sai de lá, como um gosto amargo na boca. Não porque a comida tivesse ruim, mas a minha visita, a vinícula, aconteceu depois da longa conversa que eu tive com seu antônio. Depois de ir ao casamento do subrinho de seu raimundo e conhecer toda a sua família. Depois de tomar um caudo de cana como Gilson, uma cerveja no Bosco, de prozear na feira da cidade, um dia antes do passeio de Fusca, que me levaria um almoço com toda a família na casa de dona Maria de Lourdes, o mãe de seu raimundo. Eu fiquei pensando, "Será que essas pessoas que se atraem pelo chamado turismo de experiência, que entram em seus carros com o ar condicionado, e vão de vinícula, vinícula, de cervejaria que jaria, se elas tivessem a oportunidade de passear de Fusca, sentar a mesa com Joãozinho e dona Maria, prozear na horta de seu antônio, será que elas ainda irão preferir o almoço de 250 reais na vinícula?" Eu vou fechar o bloco com uma música cantada pela dopla João Marcio e Marly, irmãos de seu raimundo. É um trecho de meu país de Zezé de Camargo e Luciano. O Joi e o Prato Cheio são mantidos com o apoio de organizações da sociedade, que atuam na promoção da alimentação adequada e saudável. Oak Foundation, Fundação Ford, Vital Stretches, A CT promoção da saúde, Instituto Ibirapitanga, Instituto Clima e Sociedade, e Fundação Harish Bol, são apoiadores regulares dos nossos projetos. O caminho de São Bento, desde São Paulo, passa pela cidade de Santo Antônio do Penhal. Naí deu-tava muito apertada para fazer xixi, e parei num restaurante onde já tinha um moçado em algum momento por um preço bom, no sistema self-service. Até pensei em Almussá, mas quando eu entrei lá, tava tudo diferente. A ambientação tinha uma outra cara, mas refinada, e o sistema agora é a la carte. Pidi para usar o banheiro, e para a minha surpresa uma pessoa com um sotaque estrangeiro me respondeu que o banheiro era pago. Sai de lá e olhei a placa, los gringos. Na casa vizinha, uma placa dizia a padaria francesa. Apertei a bichiga e entrei de volta no carro. Resolvi seguir mais um pouco, até um lugar que é parado obrigatória para mim quando vou para lá. A barraca da temoia, que Gilson toca junto com seus irmãos. O zeio banheiro, que tem livre acesso com sabonete, papel e tudo limpinho. E aproveitei para tomar um caudo de cana com limão Ceciliano enquanto papiava com Gilson. Muita gente para ali, para comprar o carro chefe da casa, a temoia. Mas também para comer uma pamunha, ou tomar um cafésinho, feitos no fogão alênia, ou então um caudo de cana, moído numa máquina simples. Gilson e seus irmãos fazem uma função bonita ali, que é de apresentar alimentos. Eles vendem frutas comum, tipo banana, manga, tomate. Também produtos nativos, como opinião. E o Gilson sempre tem umas coisas diferentes e exóticas para região. Tipo o pitai, a temoia, couve e chinesa, castanha portuguesa. E eu acho que é muito importante isso, as pessoas experimentar, né? Que às vezes, nas feiras, nos mercados, né, você não tenha na correria, né? Que você vai outro lugar, e você não tenha, não tenha assim a oportunidade de experimentar uma fluta que você não conhece, total. Gilson conta que começaram a plantar, porque estão ali na estrada e conforme foram aumentando os clientes, eles foram pedindo. E nessas de apresentar coisas diferentes, acabam fomentando também produtos nativos da região, e falando da própria região. Sempre tem isso que você falou, sempre tem a surpresa dos clientes, mas como que, às vezes, produziu-se aqui, se eu não ia te perguntar assim, eu sou surpresa com capacidade da aqui produzi, e é uma esposa nossa, que sempre se resumem isso, aqui é muito bom, né? A água, o crime, né? O solo, né? O solo, a água e o crime, que é propósito para esses produtos, né? É importante, sempre referencial, o princípio de tudo e aqueles que vieram antes. E eu vou dar um salto da barraca do Gil, som em Santo Antônio do Penhau, para o bairro do quilombo em São Bento do Sapucaí. Fiquei lá hospedada dessa vez, e foi onde o conversei com benedito Silva Santos, conhecido como Ditinho Joanna. Porque se acabar com essa origem, se começar a desdeixar da nossa história, nós vamos se empobrecendo na cultura. E a intenção nossa, a pessoa tem o recurso para viver, mas sempre mantém essa riqueza, porque a riqueza da cultura é que dá sentido em tudo da vida nossa. Ditinho tem 79 anos, a 50 trabalha com esculturas, com as quais já circulou em exposições e apareceu na televisão. Mas seu ateliê e sua casa se mantiveram no bairro do quilombo, onde nasceu e cresceu como Lavrador. Meu povo é de minas gerais, exer escravos, viveram aqui na São Maiverga Cidade, tem mais 200 anos. A minha bizarrota, na seu que no bairro, viviam 115 anos. Tando essa é uma família bem realizada aqui no quilombo. A história de seu Ditinho com o Intali é importante aqui para nossa história. Em 1974, eu achei uma raiz, essa raiz, que eu achei de uma forma de um bicho. E eu falei para a mãe judaio de pinir aquela raiz. Ela falou que a natureza era do jeito que ela era. Daí eu falei para ela, então vamos deixar essa raiz de lado e eu vou precisar de maneira e começar a trabalhar na madeira. A minha mãe perguntou o que você quer fazer com a madeira. Eu falei a minha vontade de registrar em povo na madeira. É uma história desse pouco que viveu e não tiveram a oportunidade de registrar sua história. Tem gente que aparece de longe atrás da obra que ficou mais famosa, a bota do homem do campo. O esqueleto é velho. Ela já fez a caminhada dela. E não, então fazendo a nossa. E quanto mais você vai vivendo, você vai desgastando ela, mas vai enriquecer na história que você faz. Então o sentido do trabalho é registrar o homem que trabalhou no campo. Hoje a gente aqui ela peça grande, é uma família fazendo vinho manual. Toda vinícula deve a esse começo. Antigamente, no sul ainda existe. Eles fazem manual. E esse manual está chegando às máquinas. A pessoa vai perdendo então esse galejo de trabalhar manual. As pessoas do campo fazem de um lageiro, um sistema de captação de água de chuva ou um espaço para fogueira. Não tiram a pedra para usar concreto ou outro material de fora no lugar. Fazem uma leitura do ambiente, do material, do contexto e trabalham com aquilo. A gentrificação chega com suas verdades para empurrar o ambiente, sua estética, suas maneiras e principalmente sua escala. Chama de artesanato, o íma de geladeira que lega um símbolo para representar um lugar e faz uma reprodução em série. Tipo a estátua da liberdade, o Cristo redentor, a Torriéifel. Eu conversei sobre isso como ditinho. A arte, ela, por que que ela é arte? Se você pegar uma bota dessa, já fica muita bota. É 50 anos. Uma não é igual a outra, porque ela é manual. E quando se faz em máquina, você faz quase igual. A gente nunca é aqui romantizar o trabalho no campo, negar a tecnologia que tem inclusive fomentado o trabalho da agricultura familiar. Acredito que nem seu detinho queira. A questão é a tal da escala e a perda da selações na simples reprodução. Eu fiquei pensando que Campos do Jordão se tornou o próprio íma de geladeira. Eu tenho uma bota de 79. Já me prestei essa bota para copiar ela, para me interstar comigo mesmo. Eu não consigo copiar. Cada um é uma. Ela é a madeira diferente. Você não vai contar quantas batidas você vai dar, ela fica. Então, que nem nós. Eu posso parecer que você pode parecer com uma outra pessoa. O homem vive tentando janeizar, pastorizar e importar modelos copiados. Cria cenários, transforma tudo em produto. No episódio anterior, vimos como dênde e foi transformado em óleo de palma, que não tem seu sabor, sua cor e textura. Contidianamente, vemos lugares, pautas e discursos sendo appropriados e batizados ao bel prazer. Como sempre fizeram os colonizadores há mais de 500 anos. Mas ele tem de respeitar que um dilo vai dar valor porque é do velho que se surgiu novo. Todas coisas. Não estou acabando falar do vinho. Vai no vinho, você vê você tem vinho de primeira qualidade. Não é feito a marque. Perguntei pro seu ditinho, se são bem, tu rumo para ser a nova campos do Jordão. Ele acha que não. Mas são bem, tu é mais rico do que campo na cultura. Sou garanto, você. Agora, eles também têm, eles estão fazendo a cultura desde o jeito deles. Mas igual a nós, vocês não têm. A diferença entre eles e nós ficou muito explíseis, ta o longo das entrevistas desse episódio. Quando falamos sobre campos do Jordão e sobre esses entreendimentos todos. Enículo, hotel, vocês são rentes caros, as casas. Quando perguntei o que as pessoas do lugar achavam, a resposta foi o Nânimi. Não é pra nós. Ditinho, depois da longa conversa, me fez uma pergunta. É que eu estou ser menina. Eu disse que achava que não havia certo ou errado. E foi aí que ele me deu um banho. Será que o homem estava lendo a minha mente? Para a gente saber que está certo, é só você conviver no lugar, se você sentir um sabor, sabor vem de uma sabedoria. Se você sentir sabor no lugar ou da convivência com o povo, está certo. Se não sentir o bem, se não sentir o sabor, então. Que vai mandar o sabor. Lembra que eu falei do Gusto Amargo na boca quando saí da Vinícola? Eu comentei isso com ele. E foi aí que eu confirmei que Ditinho estava lendo a minha mente. Para em cadeiras a parte, ele imaginou o mesmo que eu. É. Você imaginou um antóngalo com uma Vinícola manual. Para vender Vinícola, começar. Não é diferente? Ou se seria seu Ditinho Juana? O mundo seria muito diferente se a gente convivesse mais com antanos galos, raí mundos, reginas e marias. Elas e eles estão por aí. E nós onde estamos, de que forma e o que estamos buscando? Aqui, a gente atratou de São Bento dessas pessoas por uma questão de afeto e proximidade, ou melhor de sabor. Mas como eu falei lá no começo, os processos de gentrificação acontecem no mundo inteiro. E você pode ver que eles têm o mesmo gosto plástico. O azeite, a cerveja, o restaurante e todos nós podemos ser os vilões e também as vítimas. Lembra que a gentrificação acontece em ondas? A pressão é tão forte que a cada tempo fica insustentável para alguém. E chega um novo ciclo com novos ocupantes de maior poder oxidivo. Agora os que centrificam são os maus e velhos mercados financeiros e mercados homobiliários, que associados com o poder público são os verdadeiros gentrificadores. Só que isso não tira importância da gente se implicar nisso tudo, ou é sóladeira baixo. Encerro com o som do vídeo que recebi pelo WhatsApp de uma festa de São Gonçalo. Pesquisas, gravações e o roteiro desse episódio foram feitos por mim, Luisa Coelho, também produtor executiva do Prato Chei. Quero agradecer a família de seu raimundo pela colhida e conversas e a Felipe Sabrina pelas conversas e contribuições sobre o tema. A equipe do podcast também é composta por João Pérez e Maíra Matias. Vitro Oliveira é responsável pela trilha sonora e edição de som. A divulgação fica a cargo de Amanda Flora e Brenda Vidal. A equipe de arte é formada por Denise Matsumoto, Clara Borges e João Brózio. Este episódio foi gravado no trampolínio Estúdio. É muito sábado, é muito sábado, é muito sábado, é muito sábado.

Podcast Summary

Key Points:

  1. O turismo de experiência, com foco em gastronomia e cenários temáticos, está transformando áreas rurais como São Bento do Sapucaí, gerando aumento de preços e deslocamento de moradores tradicionais.
  2. A gentrificação se manifesta por meio de investimentos imobiliários, empresas de turismo e mercados de alimentos com foco em produtos "exóticos" ou europeizados, substituindo práticas locais e culturais.
  3. Moradores originais, como Antônio Galo e José Pinto Fernandes, relatam aumento de custos, perda de terras e dificuldade de alugar imóveis, refletindo um processo de exclusão social e econômica.
  4. A inserção de elementos de "estética europeia", como azeite, vinho e casas com vidro, cria uma falsa autenticidade, distanciando-se da cultura local e dos sabores tradicionais.
  5. O turismo afeta a natureza e o meio ambiente, com aumento de construção, iluminação excessiva e desmatamento, prejudicando fauna e biodiversidade.
  6. A cultura local, como a tradição de cultivo de milho, feijão de Espírito Santo e esculturas de Ditinho, é ameaçada pela substituição de valores e práticas por modelos comerciais.
  7. A crítica ao turismo de experiência surge da reflexão sobre o que realmente é "sabor": o sentimento de convivência com a comunidade, não apenas o consumo de produtos.
  8. O processo de gentrificação ocorre em ondas, substituindo os antigos moradores e transformando locais com histórias profundas em espaços mercantilizados e desumanizados.

Summary:

O episódio explora a gentrificação em São Bento do Sapucaí, um município do Brasil, onde o turismo de experiência, especialmente gastronômico, está transformando a realidade local. A chegada de investidores com alto poder aquisitivo e o crescimento de boas-vindas como "Toscana Brasileira" levam a um aumento significativo nos preços de imóveis e na construção de casas com estética europeia. Moradores tradicionais, como Antônio Galo e José Pinto Fernandes, relatam que suas casas, terras e formas de vida estão sendo substituídas, com um aumento de custos e perda de acesso ao território.

A prática de consumo de alimentos exóticos, como azeite e vinho, é apresentada como uma ferramenta de segregação social, afastando os habitantes originais. A natureza, a cultura e os hábitos locais são cada vez mais ameaçados por um modelo turístico que prioriza aparência e conveniência. O foco central é a crítica à ideia de autenticidade: o que realmente importa não é o que é consumido, mas o sabor da convivência com a comunidade, o que se sente no lugar.

A análise mostra que o turismo de experiência, embora atraente, está deslocando a identidade local, substituindo tradições por modelos mercantilizados. A reflexão final questiona se a cidade pode realmente se tornar como Campos do Jordão, uma cidade de turismo de elite, sem perder sua essência. A mensagem é clara: o verdadeiro valor reside na conexão humana e na preservação da história e da cultura local, não em uma "experiência" comercializada.

FAQs

A gentrificação é o processo de valorização de um lugar que leva à expulsão de moradores de baixa renda. Em áreas rurais, isso altera a cultura, a agricultura e os hábitos locais, substituindo tradições por modelos comerciais e de consumo que não são autênticos.

Esse nome é dado por um turismo gastronômico que imita experiências europeias, como auses de azeite, vinhos e cervejas, mas que não reflete a realidade local. O movimento é uma forma de valorização mercadológica que distorce a autenticidade local.

O turismo de experiência atrai pessoas com dinheiro para experimentar 'ferramentas' europeias, como vinícolas e restaurantes. Isso desloca a cultura local e diminui a presença de moradores tradicionais, que deixam o lugar por falta de condições de moradia.

O turismo tradicional envolve convivência com a cultura local, como comer feiras ou comer alimentos do campo. O turismo de experiência foca em imitar estilos estrangeiros, muitas vezes sem valorizar o que é autêntico ou tradicional no local.

A construção de casas com vidro, luzes excessivas e estradas novas altera o ambiente natural, prejudicando animais como passarinhos e desrespeitando o equilíbrio ecológico que já existia no lugar.

Aumento dos preços das casas, dificuldade de aluguel e a transformação do bairro em um espaço de consumo e turismo levam os moradores a migrarem para áreas urbanas com melhores condições de vida.

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