Clarisse, natural de Varjota, no sertão do Ceará, teve uma infância marcada por trabalho árduo na roça e violências. Aos 12 anos, foi impedida de estudar pelo padrasto, que a obrigava a trabalhar. Com 14 anos, sofreu abuso sexual e agressões, mas encontrou acolhimento em uma professora que a incentivou a denunciar. Apesar de diversas interrupções nos estudos, Clarisse sempre sentiu falta da escola, onde se sentia segura e valorizada. Já adulta, mudou-se para o Rio de Janeiro e, após dois anos sem estudar, matriculou-se na EJA. Atualmente, cursa o segundo ano do ensino médio no NEJA, conciliando trabalho e estudo. Ela acorda cedo, enfrenta longas jornadas e trânsito, mas mantém a determinação de não desistir. Clarisse alimenta o sonho de ser jornalista e encontra na leitura e na escrita, especialmente na poesia, uma forma de expressão e resistência. Sua trajetória, marcada por dificuldades e recomeços, é compartilhada por muitos alunos da EJA, que veem na educação uma chance de transformar suas vidas. O episódio integra o podcast "Histórico Escolar", produzido pela UFF em parceria com a Rádio Tertúlia e a UERJ, como parte do Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da EJA.
Nem todo o recomeço começa do zero. Às vezes, nasce do fundo de um mador sem nome, de um sonho antigo que resistiu ao tempo. Tive um dia, eu me lembro que eu botei a mesma chila preta, a minha mãe tinha feito uma roupa linda para mim, minha amigustura. Ela tinha feito um sorteio, uma blusinha, eu peguei a roupa, eu peguei a mesma chila, eu botei a minha chila preta com pinc, e botei nas costas. Quando eu bote o pezinho fora da porta, meu padraste veio. Tu vai pra onde? Eu falei "Papai, eu vou pro colégio, vou pro escola". Ele falou "Pode tirar bolsinha das costas, pode guardar no chila e trabalhar". "Lá vou eu, tinei". "Ah, meu material, fui guardar lá dentro, revolutada, desesperada, com vontade de chorar, mas não podia chorar, porque se chorar assim ele rebrigava, com certeza rebrigava, nem. Tidei meu chilinho, guardei, fui peguei um facão grande, e fui calhar cana para dar para ir ao gado comer, porque era pra gente ter o leite da fazenda para vender". Era assim. Eu nunca esqueci aquela cena, que eu tinha 12 anos de idade. Foi muito sofouco. Eu não tive fãs, e a adolescência, eu não tive nada. Foi dobesso por trabalho. Eu não posso perder mais de tempo, não posso perder mais energia, posso perder mais a hora, porque a hora é essa, se eu não correr atrás agora, eu vou correr cómbio. Eu sou o Francisco Clarisse, sou o Zabressan, sou o Soutena, sou o Sialal, e hoje eu moro no Rio. Gosto de ser chamada como Clarisse. Hoje é dia de Clarisse, mulher no Edestina, poeta, setaneja, trabalhadora, a história dela é feita de idas e vindas, e de muitos cadernos reabertos. Podi que este histórico escolar. Aqui você ouve histórias de vida de quem está acostumado a escutar você, que dá aula na educação de jovens e adultos. Produção, Universidade Federal Fuminense UF, em passaria com a Rádio Tertúlia, e é Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o Erde, com uso de recursos públicos para ações no âmbito do Pacto Nacional pela superação do analfabetismo e qualificação da Íja. [Música] Clarisse nasceu na pequena cidade de Vajota, o sertão no Sialal. Vajota tem um 18 mil habitantes, fica quase 300 quilômetros de fortaleza. O município é conhecido por um fenômeno que os moradores se lembram com alegria e festa. O açú de Araras sangrando. Sangrar por aqui não é dor, é fatura, é quando a água do açú de entre tanto mais tanto que transboda por cima da parede de concreto e desce em cascata, como se o açúde não conbece mais dentro de si. [Música] Esse momento é sinal de chuva boa, de terra amolhada e de segurança para quem depende da água no sertão. [Música] A água do açúde que se chama oficialmente açúde público Paulo Sarazate e riga plantações, dá de bebê aos animais, garante feijão, milho, mandioca. [Música] Quando falta, o sertão endurece, quando sobra, transboda, esperança, quando arar a sangra, todo mundo corre para ver, tirar foto e agradecer. [Música] [Música] A maior parte de Vajota é rural, de manhecedo, o cheiro de café forte se mistura ao som dos galos e ao barulho das enxadas batendo na terra. É nessa paisagem semi-árida que a Clarisse passou a infância. Uma criança com oito anos ela já tem que saber várias coisas né, porque eu não participei jardim e não tive jardim. Essa coisa toda cresce, essa coisa de três aninhos, tá lá na cresca, quatro aninhos, tá abscando um papel, eu não tive nada a dizer. Então, se eu tive acesso a um lápis e um caderno com oito anodidade. Eu tinha oito anodidade quando fui pro colégio a primeira vez, e não era nem colégio era uma casa mesmo familiar, onde fui eu, a minha irmã. E mais outros crianças da vez em ança, então a partir daí foi aonde eu aprendi as primeiras letras, aprendi a fazer as primeiras desenhas, sem não demorei muito, fui super inteligente, muito rápida, aprendi de ler com facilidade né. E adaptei rápido ao lápis e o caderno, entendeu mais na casa da amiga da minha mãe, não diretamente no colégio. E daí daí pra cá eu tinha passeio um tempo apaestado, né, fui criada pelo meu padrasto, passei um tempo apaestado, a gente não tinha casa própria pra morar. Então a gente morava em outras casas tipo, a casa de fazenda, essas coisas toda. A Clarice entrou na escola em Varjota aos nove anos, mas aos doze a vida na rosa chamou ela de volta. Ela foi morar em uma fazenda e entre tantas mudanças passou por várias escolas. Eu só ia de casa muito cedo pra ir, estava no mato, na pé, muita dificuldade, não tinha, assim, a gente não tinha material escolaira, muito difícil, minha mãe é muito humilde, ela comprava, assim, é uma borracha lápis. Mas o que a minha mãe queria era botar a gente pro colégio, eu tinha minha irmã ela desistiu, né, ela desistiu e eu continuei. Um dia, a tia da Clarice recebeu uma carta de uma pessoa que ela gostava, um namorado algo assim. E ela sentou, quando ela sentou eu estava sentada numa cadeira, ela sentou bem assim do meu lado e lendo aquela carta. Aí eu comecei a olhar pra carta, foi ali, hoje me bateu a maior sensação que eu nunca esqueci. Eu olhei pra carta assim pro lado e minha tia estava lendo se quer nem sabia que eu sabia ler, né, ela não sabia. Aí eu comecei a olhar pra carta dela e comecei a tia, essa palavra que é assim, essa outra palavra é assim, comecei, ela falou "para, Jaro, você está lendo a minha carta", ela falou "Ah, Clarice, eu já sabia ler, ela sabe ler". Então foi aonde a professora começou a me passar mais coisas e eu comecei a fazer mais triste, reduções, aprendendo, foi ali a maior sensação que eu tive de realmente conseguir ler uma carta sozinha, ler um texto sozinha. Aí foi aonde a melhor coisa que eu lembro foi aonde eu aprendi ali, foi aonde foi a minha descoberta junto com a minha tia e lendo o segredo da minha outra tia que era uma carta de namorada. Clarice nasceu em uma família grande com oito irmãos e come a história de muita gente, todo mundo tinha que trabalhar para ajudar em casa. Era muito dificuldade, né, a gente trabalhava na rossa, eu trabalhava na rossa, eu tinha que trabalhar com o levejão plantar milho, essa coisa toda, eu tinha uma hora criança, né. Então a câmera difícil, a gente ia morar no bato fazendo a descer, eu não tinha o colégio e eu deixei trabalhar muito, já estava morta. Eu tinha ido morar na pitombeira, passei anos morando lá sem ter acesso ao colégio, então quando eu retordei de volta para a escola foi aos meus 14 anos. O padraço da Clarice sofreia de alcoholismo e ela conta que ele obrigava a ela e a irmã trabalhar na rossa. A minha mãe coitada, ela sem saber o que fazer, ela não quis acreditar, ela não quis acreditar naquilo que eu falei, né. Que meu padraço estava abusando de mim, que meu padraço estava, né, me acediando, aquela coisa toda, ela era mocinha, né, formando ainda, então ele fez tudo aquilo comigo. Além da violência sexual, a Clarice também contou de sofrido agressões físicas e fone a escola que ela encontrou um lugar seguro e uma professora que ouviu atentamente a história dela. A minha professora perguntou, Clarice, se uma pessoa muito calada, você aconteceu alguma coisa sem que você quira conversar com alguém, eu falei "tém professora", ela falou "nossa, já foi violitada, tal, ela me levou na secretaria, falei para ela, falei "fanoza, o meu padraço", ele tirou a minha roupa, ele faz isso comigo, então foi na escola que eu comecei a falar a minha vida, foi na escola que eu cheguei para a minha professora, falei para ela. Então foi aonde ela chegou, procurou o conselho, e o conselho foi até a escola e me entrevistaram várias vezes. Apesar de todo o colimento que a Clarice recebeu na escola, ela ainda enfrentou muitas dificuldades para continuar estudando. Porque eu gosto da escola, então a escola me fazia falta, eu queria estar no meio da toma, a escola me fazia bem, e eu queria estar ali, mas eu tinha vergonha pela minha idade, com o sono muito sério. Não tenho, eu era uma pessoa inteligente, aí parei, aí fui mais 2 anos, ali era uma boa pessoa.
Agora eu vou voltar na sexta série. Foi só quando a Clarice decidiu se mudar pro Rio de Janeiro, que apesar de todas as idas e vindas, ela finalmente conseguiu retomar os estudos. O que não quer dizer que tudo foi fácil depois disso? Vou ter na sexta série, concluir a sexta série. Aí estudei mais outro pouquinho, concluir a sétima. Aí viajei pra cá. Eu já estava em 25 anos. Tinha 7 macérias concluídas. Foi uma pena, estou com a sétima. Aí vim pra cá. Passei mais 2 anos, fora da escola. Mais 2. Tinha deixado todo o documentário da escola, a declaração, Tinha deixado tudo lá, tinha largado tudo pra lá. Aí chega em um Rio por incentivo da graça, uma colega me falou "Tá nesse?" "Tá eu estou estudando, falei ou não, eu vim pra cá pra trabalhar." Apenas trabalhar em uma cidade grande não era suficiente pra Clarice. Com muito custo, ela finalmente conseguiu se matricular na Íja. Então agora eu estou retornando de novo. Sai de casa todo dia, sim. Coro a 4.30, sai de casa de 5.00 da manhã. Trabalho até 2.30, 4.00 da tarde. No quebra-ma, pra 20.00 a.C. E chega aqui em 7.00 horas. Já trazado, devido em garrafamento, mas estou aqui. Estou fazendo já o segundo ano, já no ensino médio aqui no Neja. Que por sinal, é um projeto bom, um programa bom. Mas é assim, pra pessoas que abandonaram e que tiveram dificuldade. As tentativas da Clarice fazem parte da história dela, mas são parecidas com as de muitos outros estudantes que querem e não desistem de voltar a estudar. Não tem batalha vencida, tem persistência. E aí que aêja se transforma no espaço em que cada um deles pode dizer pra si mesmo. Ainda da tempo, e ter apoio nessa jornada. Eu estou tentando, estou tentando. Já fiquei desempregada, já fiquei fazendo bico, já fiquei "Eu não passado, fiquei desempregada". Ficava verendo o torrejo na rua, fazendo bico, fazendo o patino, falei, "Não vou largar o colégio". Fiquei sempre onde pagar o galo, agora na casa do luto, mas eu falei. Aconteço o que acontecer dessa vez eu não vou parar. Contanto gosto pela leitura e pela escrita, a Clarice faz aêja, a educação de jovens e adultos, com o sonho do jornalismo na cabeça, pra continuar escrevendo a história dela, e é de muita gente. Porque eu me sinto uma pessoa que gosta de muito de informar, de dar informação, de começar. Eu procuro a melhor forma de me expressar. Mesmo não sabendo, não tendo um ex-ciudio, eu treino a medo pra isso, eu procuro a melhor forma. Entendeu? Aí é muito bom, eu vejo os outros trabalhos na ícome de análise, é muito bom. A vida da Clarice de tantos que cursam aêja é de persistências e de esperança. Esperança de que a vida transbóde com a educação, igual que nem a sangria do açúdio araros. Mas assim, sabe o que eu sou mais um empenho? É fazer poesia minhas, não sei. Daqui pra frente, daqui pra trás, não. Daqui pra frente. Eu mostro minhas poesia, assim, pra minha professor. Eu me negocio criar poesia, eu vejo os outros, e em cima da do outro eu quero copiar a minha, não, tá errado, tá certo, tá errado. E quando eu tô em casa, se que final de semana, aqui não tem aula, eu pego meu caderninho, a língua televisão, ficula escrevendo, escrevendo, meus cadernos são tudo rabiscados. [Música] Você acabou de ouvir um episódio do Podcast, histórico escolar, que integra o conjunto de materiais do curso Juventudes na Íja, voltado a professores da educação de jovens e adultos. Este Podcast foi produzido pela Universidade Federal Fluminense em passaria com a produtor a Rádio Tertúria e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A concepção e coordenação da temporada contou com Anna Carina Brenner, Paulo Carrano, Rafael Willer, e Eleonal do Julião, além de Anelismo Moreira e Beatriz Pasqualino pela Rádio Tertúria. Este episódio tem a apresentação, produção, pesquise roteiro de Anelismo Moreira, direção criativa, edição, montagem e sonorização de Beatriz Pasqualino, que colabora no desenho de som junto de Anelismo Moreira. Rafael Garcia fez apoio de loucoção e também participa da produção do Podcast. E tudo o que você ouviu aqui com a voz da Clarice foi gravado em 2014 e faz parte do material de acervo do documentário fora de série, produzido pelo observatório jovem do Rio de Janeiro, que é vinculado a UF. Este material foi produzido com recursos públicos descentralizados pela Secretaria de Educação Continuada, alfabetização de jovens e adultos, diversidade e inclusão, secádio, ministério da Educação, para a Universidade Federal Fluminense. Por meio do tema de transferência direta, é a rede número um quatro três men a sete de 2024. A iniciativa integra as ações de formação de professores para a docência na eja, desenvolvidas no âmbito do pacto nacional pela superação do Anel Fabitismo e qualificação da eja, instituído pelo Decreto número 12-048 de 5 de junho de 2024.
Podcast Summary
Key Points:
Clarisse começou a estudar aos 8 anos, mas foi forçada a trabalhar na roça pelo padrasto a partir dos 12, abandonando a escola.
Aos 14 anos, sofreu abuso sexual e agressões do padrasto; encontrou apoio em uma professora, que a ajudou a denunciar.
Após várias interrupções nos estudos, mudou-se para o Rio de Janeiro e, aos 25 anos, retomou a educação na EJA (Educação de Jovens e Adultos).
Hoje, cursa o ensino médio no NEJA, mantendo o sonho de se tornar jornalista e expressando-se por meio da poesia.
A história de Clarisse reflete a persistência de muitos estudantes da EJA, que veem na educação uma esperança de transformação.
Summary:
Clarisse, natural de Varjota, no sertão do Ceará, teve uma infância marcada por trabalho árduo na roça e violências. Aos 12 anos, foi impedida de estudar pelo padrasto, que a obrigava a trabalhar. Com 14 anos, sofreu abuso sexual e agressões, mas encontrou acolhimento em uma professora que a incentivou a denunciar.
Apesar de diversas interrupções nos estudos, Clarisse sempre sentiu falta da escola, onde se sentia segura e valorizada. Já adulta, mudou-se para o Rio de Janeiro e, após dois anos sem estudar, matriculou-se na EJA. Atualmente, cursa o segundo ano do ensino médio no NEJA, conciliando trabalho e estudo.
Ela acorda cedo, enfrenta longas jornadas e trânsito, mas mantém a determinação de não desistir. Clarisse alimenta o sonho de ser jornalista e encontra na leitura e na escrita, especialmente na poesia, uma forma de expressão e resistência. Sua trajetória, marcada por dificuldades e recomeços, é compartilhada por muitos alunos da EJA, que veem na educação uma chance de transformar suas vidas.
O episódio integra o podcast "Histórico Escolar", produzido pela UFF em parceria com a Rádio Tertúlia e a UERJ, como parte do Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da EJA.
FAQs
Clarisse é uma mulher nordestina, poeta, sertaneja e trabalhadora. Atualmente, ela mora no Rio de Janeiro.
Ela entrou na escola aos oito anos, em uma casa familiar onde aprendeu as primeiras letras e a ler com facilidade, sendo muito rápida e inteligente.
Aos 12 anos, seu padrasto a obrigou a trabalhar na roça, impedindo-a de ir à escola. Ela teve que guardar o material escolar e pegar um facão para cortar cana.
Ela leu uma carta de amor de sua tia sem que a tia soubesse que ela sabia ler, o que foi uma grande descoberta e sensação para Clarisse.
Ela sofreu violência sexual e agressões físicas do padrasto, que também era alcoólatra.
Uma professora percebeu que ela estava calada e a ouviu. Clarisse contou sobre o abuso, e a professora a levou à secretaria, acionando o conselho tutelar.
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