O episódio da Rádio Escafandro apresenta uma profunda investigação sobre o desastre da barragem do Corrego do Feijão em Brumadinho, em 2015, que matou mais de 200 pessoas e transformou a vida da comunidade. A repórter Gabriela Maier descreve o impacto imediato: o silêncio absoluto, o cheiro forte de minério e a visão de corpos retirados da lama, que provocou um profundo sofrimento emocional. A cobertura revela como as famílias foram afetadas, com o crescimento populacional devido ao pagamento de indenizações mensais pela Vale, que alterou o consumo, o trânsito e o padrão de vida. No entanto, o dinheiro gerou críticas, pois muitas pessoas usam o benefício para viver, enquanto outras se sentem traídas por um sistema que valoriza o lucro acima da vida. A reportagem também evidencia a negligência da empresa, com relatos de vazamentos detectados meses antes do rompimento, e o indiciamento da cúpula da Vale por homicídio doloso. Ao final, o episódio reflete sobre o modelo de desenvolvimento que prioriza a exploração econômica em detrimento da dignidade humana, levantando a necessidade de um novo paradigma ambiental e ético na mineração. A produção do podcast depende de apoio coletivo, fortalecendo o jornalismo independente e a possibilidade de contar histórias de impacto social.
Este pode caçar uma produção da rádio guarda chuva, jornalismo para quem gosta de ouvir.
Oi, seja bem-vindo, seja bem-vindo.
Eu sou o Tomás K.Averine, e antes de começar o episódio de hoje, eu tenho uma informação importante.
Desde o fim do mês passado, existe uma campanha de financiamento coletivo para permitir que o trabalho da Rádio Escafandro vá adiante.
Eu achei que seria uma boa fazer um levantamento do que afinal é esse trabalho.
Desde fevereiro foram produzidos 14 episódios, cada um com cerca de uma hora de duração.
Para isso, foram entrevistadas 53 pessoas, o que rendeu mais de 80 horas de gravação.
Foram 4 viagens para fora de São Paulo, 140 páginas de roteiro e aproximadamente 50 horas de edição.
Vamos combinar que não é pouca coisa. Principalmente porque sou agora, depois de quase um ano de trabalho, o valor das contribuições está sendo suficiente para pagar os custos superacionais.
O que é ótimo, mas não é suficiente.
Mas enfim, tudo isso para dizer que a continuidade desse trabalho depende da sua ajuda.
Para fazer isso, é só acessar a página da nossa campanha no site do Qatar-C, que é uma plataforma de financiamento coletivo.
O endereço é www.catarse.me/escafandro, e ali você pode escolher o valor com qual vai contribuir.
Com 5 reais, já dá para participar.
E de quebra, você ganha acesso a uma área exclusiva para as sinantes com entrevistas completas.
Já tem muita coisa legal que não cobe nos episódios por lá.
Por fim, se você quiser contribuir com valores mais altos, dê em livros autografados como recompensa.
Mas o mais importante é que assim você fortalece o jornalismo independente, e permite que eu continuante trazer histórias como essa que você vai ouvir agora.
Quando chegou no quarto dia de cobertura, eu pedi para inverter com a mayara.
Falei "maiara", você pode um dia inverter comigo, eu não aguento mais o vecorpo, saindo da lama assim.
Essa é a repórteria apresentadora da Rádio Band News FM, Gabriela Maier.
Então, eu inverti com a mayara e fui para a cidade, ela foi pro córrego do feijão.
Só que chegou na cidade, eu fui fazer o quê? Em terro.
Velório. Família procurando, gente.
No começo do ano, ela mergulhou numa cobertura jornalística das mais difíceis.
Foi enviada a cidade mineira de brumadinho, logo depois do rompimento da barragem da mineradora Vale, na mina do córrego do feijão.
E aí, se não tem menos pesado, foi tão impactante quanto?
Sabe? Só que o que aconteceu? Quando eu cheguei na cidade, eu ouvi passarinho.
E foi só aí que eu me dei conta que na lama não tinha barulho de nada.
Era um silêncio absoluto, porque tudo tinha morrido. Os bichos tinham morrido.
Os passarinhos tinham fugido. E aí foi o primeiro dia que eu senti o baque.
Na hora que eu ouviu passarinho, eu comecei a chorar.
E eu estava num lugar que era um centro de apoio para as famílias.
Então era onde as famílias iam se cadastrar e onde dizem que estavam procurando pessoas.
E aí um psicólogo voluntário que estava lá para atender as famílias.
Veio me perguntar se eu precisava, se eu queria falar.
Era uma hora bem cedo. Então ainda não tinha muitas famílias ali.
E aí eu me senti à vontade, porque eu fiquei numa posição também na hora que ele veio conversar comigo.
Mas eu acho que você não está aqui para mim atender. Eu sou jornalista, estou aqui trabalhando.
E ele falou mais o Éco. Você está trabalhando, mas eu também pactado.
Porque não tem como não sentir uma situação dessa, né?
Nossa, caiu tudo. E que é isso? Você é certamente lembra da tragédia.
O corrido é no dia 25 de janeiro.
Quem está acontecendo?
Como é que aconteceu?
Em questão distante, 12 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério de ferro misturado à lama
formaram uma avalanche que engoliu tudo pelo caminho.
O refetório dos trabalhadores da mina, máquinas, caminhões, carros, casas, animais e vegetação.
Mais de 200 pessoas foram mortas em questão de instantes.
O trajeto que a lama percorreu foi um trajeto de 10 km da mina do corrego do feijão, onde ficava barragem, até o rio para o peba.
E a paisagem era muito impactante.
Só tinha lama, não tinha mais uma construção, uma estrutura, uma nada que tinha ele no meio.
Onde eu fiquei, era exatamente na altura de onde ficava o complexo administrativo da Vale,
que ficou completamente embaixo da lama. Então o refetório, a parte de oficinas,
alguns laboratórios, tudo isso que tinha gente trabalhando naquele momento, estava embaixo da lama.
E a lama chegou em alguns pontos, chegou a 16 metros de altura, ou seja, você não vier nada, só a lama.
Eu sou Tomás, que é Verine, e o décimo terceiro episódio de Escafandro já começou.
E ele vai ser dividido em duas partes. Nesse bloco, a Gabriela vai contada a primeira reportagem
que fez por lá, e do impacto inicial que o rompimento causou nos moradores locais.
No segundo bloco, a gente vai voltar com ela brumadinho seis meses depois,
para falar de como está sendo a recuperação dessa cidade, que continua profundamente abalada.
Você também vai ouvir alguns relatos de moradores locais, bombeiros e ex-funcionários da Vale.
Esses áudios foram colhidos pela Gabriela Maier, para essas duas células de reportagens especiais sobre o desastre.
Elas foram ao ar pela Bande News FM, que gentemente deixou que a gente usa esse material no episódio de hoje.
O rompimento da barragem foi numa sexta, e no sábado, a Bande resolveu enviar duas repórteras de São Paulo,
a Maiara Bastianelo e a Gabriela Maier.
Elas chegaram na Belo Horizonte no domingo, e começaram a trabalhar em brumadinho na manhã de segundo,
junto a duas equipes mineiras da Rádio.
E a Lama, ela fez um caminho que dividiu no meio, destruiu a passagem da parte urbana de brumadinho,
para algumas partes mais rurais, como córrega do feijão, que é a parte mais próxima da barragem.
Para você passar, você tinha que dar uma volta gigantesca, que normalmente é uma estradinha que você demora 20 minutos,
são 13 km de distância, você demorava duas horas.
Então eu e mais um repórter da Bande de News de Belo Horizonte, iamos todos os dias de manhã pro córrega do feijão,
e a Maiara, que era outra repórter de São Paulo, mais um outro repórter de Belo Horizonte,
e um para a parte urbana de brumadinho.
A Gabriela passou a maior parte da cobertura, próxima a um quartel general montado por os bombeiros para receber os corpos.
Então o que eu fiquei vendo todos os dias na cobertura eram corpos retirados da Lama,
foi uma cobertura muito difícil de fazer.
Você vê que você ia ficar nisso lugar, que você ia estar comendo tão próximamente assim.
Eu não sabia nem quando eu já estava lá, nos primeiros dias era tudo muito solto, a gente pava em qualquer lugar ali.
Então alguns generalistas abusaram muito dos espaços ali, e fizeram imagens na minha avaliação totalmente necessárias.
Então os bombeiros começaram a perceber que puxa aqui os generalistas com direto onde os corpos não chegam,
onde fazem imagens que expõem os corpos e de alguma forma expõem as famílias também.
Enfim, não vamos permitir mais que vocês fiquem aqui.
Só que os primeiros dias era tudo muito solto, e eu, no primeiro dia, eu estava ao vivo.
Eu me lembre, inclusive, que eu estava vivo com um goixá, um Ricardo Goixá.
E na hora que eu estava no ar eu falei, olha, o primeiro helicóptero do dia estava voltando com um corpo.
E aí a aeronave pousou no fundo do campo de futebol, eu eu fiquei do outro lado,
justamente porque eu não queria ver o corpo de perto.
Só que eu fiquei ao lado de um caminhão, que o caminhão estava totalmente fechado,
e nos primeiros dias era um caminhão pequenininho, que era o caminhão do VML,
e estava sem identificação.
E eu estava na porta do caminhão, e o corpo passou na minha frente.
E eu estava ao vivo no ar, e eu parei de falar no ar.
Eu fiquei tão impactada na hora que eu parei, ficam silêncio no ar.
E aí eu expliquei o que tinha acontecido, me desculpei, e eu ainda estava ouvindo,
mas acho que as pessoas também entendem um pouco isso, porque você não está preparado para essa situação.
Tanto que na volta eu precisei de apoio, assim, de apoio psicológico, inclusive,
porque as cenas foram muito marcantes, eu fiquei sonhando com a lama muitos dias, muitos dias.
O que eu senti muito, que foi uma coisa que aconteceu comigo e com as pessoas,
é de você ficar imaginando como foram as mortes, sabe?
Então nas conversas, muitas pessoas falavam disso.
Tipo assim, será que eles viram que a lama estava vindo?
Será que nem deu tempo de ver?
Ah, meu marido, eu sei que estava dentro do refeitório.
Será que ele viu que já estava acontecendo alguma coisa?
Será que deu tempo? Será que ele simplesmente morreu e nem viu?
Isso, acho que dá um tom muito de terror, porque é a terrorizante você pensar nisso.
Então eram muitos elementos que contribuíam para que aquela memória ficasse tão viva, assim.
E aí, quando eu voltei, eu fiquei pensando muito naquelas pessoas,
porque se pra mim tinha sido uma coisa tão impactante, eu que não tinha vínculo com as pessoas,
eu que não vivia ali, eu que não tive a vida atravessada pela lama, sem imagina pras pessoas que estão ali.
E é uma transformação completa da paisagem, da dinâmica de vida.
Então eu me lembro que um dos tantas pessoas que eu entrevistei em um morador era o seu Sebastian.
Ele morava no limite da lama, assim, a casa dele foi a última antes da lama,
porque a casa dele ficava no alto, então a lama não chegou.
E ele viu a lama descendo, porque tinha um monte.
na casa dele, assim, um morrinho e tinha um copinzeiro na ponta do morro, e ele estava sentado no
copinzeiro fumando o cigarinho de parelha dele, que fuma-se muito o cigarro de Pariminas, né,
e ele falou que estava olhando assim e de repente ficou um silêncio. E o silêncio era a lama descendo.
Depois desse silêncio veio a onda de Shok, em seguida mais silêncio. Esse, tão intenso, que
foi um dos fatores que mais marcaram a Gabriela em toda a cobertura. Era um silêncio que parecia
se multiplicar em brumadinha, nos pássaros, nos animais da mata, e também na cidade, nas pessoas pelas
ruas. Quem já foi a cidade do interior, talvez já tenha se deparado com uma figura muito frequente
em todas as cidades do interior que eu já frequentei, que são meio que os guardadores de esquina,
assim, então só aqueles grupos de pessoas que ficam nas esquinas encostadas nos postes, conversando,
vendo a vida passar. E tinha, no corrego do feijão, as pessoas. O corrego do feijão vai horrorar o de
brumadinho que fica acolado na barragem. Na época do rompimento, ele tinha cerca de 600 habitantes.
Era um grupo de pessoas que ficavam sentados ali em muretinhas sentados nas esquinas, ou em penas
esquinas encostados nos postes. Eles não falavam. Logo depois, o rompimento da barragem. Eles só
estavam ali vendo as coisas, mas ninguém conversava. Era um silêncio de pessoas e de vida total assim,
não tinha vida, né? Além desses, a Gabriela me falou ainda sobre um outro tipo de silêncio.
Tinha muita gente procurando respostas e não tinha respostas. E algumas respostas não existiam,
porque elas ainda não existiam, porque não se sabia mesmo, o que tinha acontecido,
onde as pessoas estavam. Mas tinha algumas respostas que não eram dadas. Essa ausência de respostas
se tornava ainda mais revoltante para o sobreviventes diante dos indícios de negligencia da empresa.
Eu conversei com um funcionário que foi um dos funcionários que foi chamado na ocasião em que
se detectou um vazamento na barragem. E você trabalhava lá, né? Quase, quase os 8 anos.
Esse é o ex-operador e ex-mantenendor mecânico da Vale, Fernando Henrique Barbosa com ele.
O que você fazia? Bombava, lama, barragem e mexina azuzina. E você mesmo já tinha visto a barragem
em passando? O vazamento igual ia, foi a primeira vez. Esse vazamento tá falando, foi a 6.000.
6,7 meses atrás antes do roupimento. Esse relato gravado pela Gabriela foi repetido pelo Fernando
no começo de julho. Durante uma audiência da CPI da barragem de brumadinho. Foi chamado.
Foi volta de 22 e 30. Me pegou um carro via radio, telefone de casa, fui passei.
Aí mandaram o Rodrigim buscar. Mandou aí buscar meu pai aqui brumadinho de carro.
Seu pai trabalhava na barragem diretamente. No atual momento, ele estava trabalhando olhando
em estrutura de mina. Mas a equincia a barragem na pombra da mão. Era referência em tudo lá.
A buscou o pai para pedir opinião dele, entendeu? A Cristina mandou buscar ele, você tem a ideia.
A responsável de ter que dar barragem. Segundo Fernando, quando o pai dele chegou,
boa parte dos chefes deles estava na mina. O alano que era o gerente geral que morreu,
estava lá de madougada. O Lucio Medanho era o dinheiro que ter que responsável da mina.
Diante dos responsáveis pela operação, o pai do Fernando teria sido bastante claro.
E mesmo falou, o que? Esse equita, quando é nada, esse equipe, vai estourar agora com nós,
daqui a semana, daqui o mês. Esse aqui já era barragem cabuno. É conselto, mas não.
O que ninguém ouvi hoje? Não, eu o gerente lá falou que gerava muito emprego,
porque é contratar a empresa lá de emergência lá, especializar. O pai falou que ele não tem jeito,
mas ninguém segura, não. Barragem mesmo. Eu começou a vasar embaixo em terceiro banho,
tinha no ser mais quanto para cima. Segundo o Fernando Coelho, os procedimentos de resposta a
esse tipo de ocorrência são claros. Mas nenhum deles aconteceu. Ela tinha que ter parado tudo na hora.
Entendeu? Tem de estar tudo tirado pelo sol da área e não foi feito. E nesse seis meses, desde o que aconteceu esse vazamento,
teve mais algum sinal, mais algum alerta? Não, aí após esse vazamento, o que acontece?
Exolar a área da barragem, nesse pego você a sava, cercar com a aluno e todo o tamanho,
o lugar que estava vazando, arrumar a empreiteira do dia para noite, que nunca vi isso, tudo a licitação.
Aí ficarmeixando uma semana lá, de noite, tinha gerado, ninguém sabe quem preteira que é,
o que que fez. Ela sumiu da grama lá, ninguém sabe o que que fez, não.
Entendi. E como é que está a sua vida nesse seis meses depois do movimento?
A vida virou do a vez, né? Pede de meu pai, pede a apreia, o pai do Fernando, o Lava Coelho,
foi morto pelo desastre que tentou impedir. Os amigos, lá foi mais de 150 amigos que eu pedi.
Porque a gente, querendo ou não, a gente fica mais tempo no serviço, quem casa?
Acunhecia pai do um, filho do outro, a mãe, o pessoal que eu passei o turmo, foi 7 pessoas, 6 morreu.
Eu peguei na mão, um despedi, falei já, a situação das plantas, dos barragos,
fui embora e as morrer. Ficou só um vivo, o codinho. E quando a responsabilização assumia responsabilidade?
É, não quer assumir, né? A CP é minha, lá era só fazer a cariação que a Cristina constrei,
gerente lá, e eu ia sentindo por cento de voar, cara, fui lá só.
A sessão da CPI em que o Fernando falou, deveria ter sido uma acariação.
Quando dois deboentes, conversões distintas, ficam frente a frente.
Mas os quatro gerentes da Vale, entre eles a engenheram a Cristina Maleiros, conseguiram na justiça o direito de não comparecer.
Esquecigar a Bascop com desabagado, hein? Porque a Vale pagou-se a devolgada mais caro do Brasil, que eu fiquei sabendo,
pra conseguirgar a Bascop. Era só olhar no meu olho assim, a gente já afreia de fico, entendeu?
Aí falou que ia ficar constrangido, constrangido aí, eu que pediu o pai, que pediu meus amigos.
E o que que você faz algum plano pra sua vida, você espera alguma coisa,
eu tenho alguma coisa que tá na sua cabeça agora que você gostaria de fazer.
Nada. Eu tô parado agora em ter vontade de viajar, não tem nada.
Fica dentro de casa ali, tem bom na rua, ele resolveu alguma coisa, hein?
Não tem vontade de papar, não tem nada? Eu perdi o gosto das coisas.
Vamos ver se com o tempo volta, né?
Você tá afastado do trabalho.
Eu tô afastado até o tubo, porque vou ver se me libera, aí eu para certar comigo, me calma.
Na Vale, eu não volto, mano, nunca sabia de volta, também, mas não, sabe?
Que membros uniforme tudo, óbito fora.
Eu entrei em contato com a Vale, enviei todos os pontos, levantados pro Fernando,
e pedi que a empresa se posicionasse.
Que eles não me responderam até o fechamento desse episódio.
Demetuação mais justiça, é isso.
Eu diria que é uma nova violência, né?
O rombimento foi algo de extrema violência, e aí você negar a informação nesse momento,
é uma coisa de violência também, muito grande.
Então eram as famílias sendo violentadas de novo.
[Música]
Além de todos esses silêncios, a Gabriela me falou dos cheiros.
[Música]
A lama tinha um cheiro, né, de ferro, muito forte, não é lama, é rejeito de minério, é.
Um cheiro de decomposição muito grande, porque você não basta aquela lama, tinha gente, tinha animais.
E ficou um cheiro muito marcante.
Teve um dia aqui em São Paulo que eu estava passando numa rua e estava um cheiro de ferro,
assim, de minério de ferro.
E na hora, me veio uma sensação muito ruim, porque foi uma sensação parecida com que eu tinha vivido um hidromadinho.
[Música]
Por fim, ela me falou de um incômodo que tinha feito com as limitações do nosso querido jornalismo.
Algumas coisas são difíceis de você passar, de você contar sem ser violenta de novo.
Então, é uma cobertura difícil, porque você está impactado, porque você tem que escolher muito bem as palavras
para ser objetivo e para não ser violento, é difícil fazer isso.
Eu acho que assim, antes de ser jornalista, eu sou uma pessoa.
E é impossível você estar nesse contexto humano, de tanta deshumanização, e não se impactar como pessoa.
É impossível. Não tem como você não se indignar com algumas posições, com as negligencias que foram se comprovando depois,
mas não é a sua função.
Então, a primeira, ela até tem o dúvida de ser uma essa função, sabe?
Mas, assim, acho que a primeira coisa vem isso, que é o sentimento humano.
Mas, no segundo momento, você se pergunta, bom, mas até onde eu posso ir aqui com a minha indignação,
até onde eu posso ir com essa tristeza que eu estou sentindo junto com essas pessoas.
Até onde eu posso falar disso no ar, achar esse tom, o tom em que você traz o aspecto humano para a cobertura,
mas não faz da tragédia a história, sabe? Da tragédia individual, a história, porque a história não é a tragédia individual.
Ela é, também, as tragédias individuais, a história de cada pessoa, mas a história que você estaria para contar não é essa.
É uma tragédia coletiva.
Agora, é importante trazer o aspecto individual para que você denome para as histórias coletivas, para a tragédia coletiva,
até porque, quem está ouvindo, talvez, não entenda muito bem, a dimensão da tragédia coletiva, enquanto ela não houve histórias individuais.
É na hora que ela ouve as histórias individuais que ela fala assim "puxa, são pessoas".
[Música]
Durante essa primeira cobertura, a Gabriela passou seis dias praticamente nos mesmos lugares,
fazendo algo que quase ninguém por ali vai disposto a fazer, escutando.
Estava todo mundo numa situação de desespero.
Os outros familiares estavam lá, estavam todos atrás de informações dos seus. emesqueridos, dos seus amigos, dos seus parentes.
Os repórteres no geral são muito objetivos, eles chegam,
pegam a informação do que você pegar, pronto.
E o meu jeito de construir as minhas reportagens não é esse.
Então, eu sinto para ouvir a história da pessoa.
Então, as pessoas começaram a me procurar para me falar coisas.
As não queriam nada demais, ela só queria falar com alguém.
Iram, às vezes, eu estava sentada lá anotando coisas,
olhando algum documento e aí as alguém chegava e começava a conversar e contar
o que estava sentindo e como estava busca e que tinham encontrado, não tinham encontrado.
Então, uma coisa muito marcante para mim da cobertura foi que algumas pessoas
viraram minhas amigas.
Essas amizades, muitas vezes, começavam com uma entrevista, mas nem sempre.
Todo mundo queria entrevistar esse menino.
E no primeiro dia, eu também queria entrevistá-lo.
Porque no dia do rompimento da barragem, ele salvou uma pessoa da lama.
Ele salvou uma mulher, que estava na lama e ele entrou na lama e tirou ela e ela está a viva.
Além disso, como boa parte dos demais moradores de brumadinho,
ele tinha perdido um familiar para a lama, um irmão.
E aí eu fui e falei com ele, hoje, eu queria falar com você e tal, não sei o quê.
E aí, ele falou assim, "Ah, depois eu falo com você agora, eu não vou falar."
E aí, no primeiro dia, eu fui meio que brincando com ele, eu falava, "Ah, depois, aí não esquece de mim,
não sei o quê, só que eu percebi que ele não queria me dar entrevista."
E aí chegou a hora que eu sentei do lado dele no dia seguinte, já.
E eu comecei a conversar com ele sobre alguma coisa que estava acontecendo lá na hora,
eu não me lembro que era.
E aí, ele falou assim, "Ah, não, mas eu não quero falar assim, não, eu não quero te entrevistar,
eu já entendi que você não quer me dar entrevista."
E aí, acho que a partir daí, ele se sentiu a vontade.
Assim, ele vinha e sentava e conversava comigo.
E aí, uma situação com ele, que me marcou muito, foi que, quando ele enterrou o irmão dele,
no dia seguinte, ele ficou meio de vigilha no cemitério.
Ele estava sentado na moreta do cemitério, vendo essa cultura do irmão.
E arrumando o arranjo de flores.
Porque cada vez que pousava, eu subi um helicóptero, o arranjo de flores.
Com um vento, que era muito forte, o arranjo de flores saia.
E cair numa cova que estava aberta do lado, porque começaram a abrir várias covas,
já preparando os espaços, pras pessoas que seriam encontradas.
Ele descia do muro, pulava dentro da cova, pegava o arranjo de flore,
colocava de novo na sepultura do irmão.
E ele estava sentado lá, e eu passei a notando um negócio no meu bloquinho,
e eu não vi que ele estava sentado lá.
Aí, ele gritou, "gabri ela!"
Aí, eu olhei, e falei, "Ah, cê tá aí!"
Aí, ele falou, "Tô!"
Aí, eu falei, "Ah, eu tenho que ir lá procurar umas coisas, tá?
Falar com umas pessoas?" Aí, ele falou assim, "Ah, mas sei daqui um pouco comigo,
porque quando tem gente conversando comigo, parece que tá tudo bem."
E você entrou escloira no final, né?
Eu não entrevistei, ele, no final.
Esse eu não entrevistei.
A gabriela se voluntaria oopra aí, abrumadinho.
E eu preguntei pra ela se ela se arrependeu disso em algum momento.
Nem um pouco.
Termina aqui o primeiro bloco do décimo terceiro episódio de Escafandro.
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Além de apresentador de reporter, a gabriela Meyer tem dois podcasts que eu também recomendo.
O Elas com Elas tem uma pegada bem feminista e o Poenestante, que é sobre literatura.
O Poenestante, aliás, é parceiro do Escafandro na Rádio Guarda-chuva.
Uma espécie de pool de podcasts que conta ainda com finitude.
Nele, ajulhando adentas e o renanço que vicios, que também são jornalistas,
falam sobre o nosso inevitável fim.
Sim, é um podcast sobre morte.
Mas eles fazem isso de forma sensível, informativa e sempre que possível leve.
Foi numa reunião para falar sobre o nosso futuro na podosfera,
que a gabriela me contou dessa primeira série de reportagens sobre o burmadinho
e que voltaria a cidade seis meses depois.
O que ela encontrou nesse retorno?
Você escuta agora.
Foi muito surpreendente porque eu não sabia muito bem o que eu ia encontrar,
mas em nenhum momento eu imaginei que eu encontraria o que eu encontrei,
que foi uma cidade basicamente pautada no dinheiro.
Por que esse é o momento em que as famílias estão começando a receber indenizações?
Esse é o momento em que todos os moradores de burmadinho estão recebendo
um alcino emergencial da Vale.
Cada adulto recebe um salário mínimo por mês,
cada adolescente recebe meio salário mínimo por mês
e cada criança recebe um quarto de salário mínimo por mês.
Então todas as pessoas,
os mais de 40 mil moradores de burmadinho,
recebem esse dinheiro todos os meses,
é um pagamento que vai estar dezembro.
Então isso mudou completamente a dinâmica da cidade,
mudou a dinâmica de consumo, mudou a dinâmica social,
alguns pequenos comerços de coisas mais do dia a dia fecharam,
em compensação civilógica de eletrônico, por exemplo, bombando.
Por que isso começa a fechar?
As pessoas estão consumindo outras coisas, então, por exemplo,
todas as pessoas com quem eu conversei,
tinham um celular de última geração.
Todas, algumas pessoas que moravam em bairros mil pobres,
mas todas tinham um celular de última geração.
Então muitas mulheres colocando silicone,
muita gente comprocarro.
Então a cidade tem um trânsito de cidade grande
e não tem uma estrutura para ter tanto carro na rua.
Então, nos horários de pico, você demora uns 40 minutos
para ir da entrada da cidade até o centro.
São dois quilômetros e meio.
Tem até uma senhora, eu estava em um comércio
conversando com o comerciante e ele estava descrevendo isso.
Ele não é de lá, eu assino.
Você é morador daqui faz tempo?
Desde 2017.
E como é que foram esses últimos seis meses aqui na cidade?
Mudou muita coisa?
Mudou, principalmente, o que eu ocorreu.
A gente tinha muito amigo, tinha muito conhecido.
E nas ruas, a cidade está mais cheia.
Muito movimentada a população dobrou.
A população daqui, você é andando e tropeçando.
Então, a gente que você não sabe, tem.
O fluxo de carro, por exemplo,
está de seis horas, você não consegue entrar,
muitas vezes você não consegue sair em garrafamento.
Blomadinho, em garrafamento.
Olha aqui, olha minhas mãos.
Você quando vai com uma banha à noite, escorre a lama.
Filas nos lugares.
Nem se fala, as latériques, né?
O latério, por exemplo, você antes de abrir,
já estão nas filas.
Super filas, e eu dito tudo.
E aí, a senhora que estava comprando no comércio dele
entra na conversa.
Cidade suja, muito movimentada,
entrada e saída dentro de bromadinho em causa.
E fora que o conso de vida da cidade cresceu demais.
O que você comprava, deias reais,
você compra de 1819.
Você percebe uma coisa aqui.
Quando esse ponto de taxa ficava sem um taxa,
qualquer hora do tio da noite aqui.
Você não consegue um taxa.
Antes tinha.
Ficava 15 e 20 taxas aqui.
Aquele taxa está acabando de chegar.
Coloca no seu relógio.
Quanto tempo ele vai ficar ali?
Não fica 10 minutos.
Eu cheguei até várias vezes ouvido depoimento no caso deles.
Eu não supo chegar pela manhã,
estava 10 horas, não tinha feito uma corrida.
E hoje, não param.
Então, eu não quero mais andar a pé.
Eu tenho condição e onda de taxa.
Tem taxa de vida.
Assim, pelo que vocês observam,
conversam com as pessoas.
Esse dinheiro é o cavar de cavar dentro.
O pessoal está guardando na gastando.
Estão gastando.
Estão gastando.
Tem que gastar, né?
As tem pessoas que eu conheço muito as pessoas
que estão utilizando.
Pratatamento tentário,
coisas que não teriam condições.
Para reforma de suas casas.
E tem os jovens.
Deus adolescentes que também recebem isso.
É, esbanjando mesmo, né?
Mas, dinheiro é de que os jovens ficam ali.
Vou para a moda, vou caindo na moda.
Quanto tempo, não é?
Nem cinto.
Não está saindo.
A população de brumadinho realmente cresceu após o desastre da Vale.
O que parece um contracenso.
Afinal, porque alguém vai querer viver numa terra arrasada
pela lama, pela dor e pelo luto.
A resposta é essa aí que já deve estar na ponta da sua língua.
Pelo dinheiro.
A população cresceu 10% em quatro meses.
Por dois motivos.
Um é o dinheiro que a Vale está pagando para os moradores.
Porque eles estabeleceram alguns critérios para fazer esse pagamento.
Um deles, por exemplo, é você ter títulos de leitouro.
No município de brumadinho.
E algumas pessoas voltaram para receber essa grana.
Mas além disso, veio começar a ver muita gente de fora.
Vira, estou falando como se eu ainda tivesse lá.
Mas começou a ir para lá, muita gente de fora, para trabalhar.
Porque os postos de trabalho que eram abertos e que são abertos ainda em brumadinho,
muitas vagas são vagas com salários mais baixos.
Que a população já não topa mais ocupar.
Ou por essa questão de terça renda extra.
Ou por uma questão também de limitações de saúde mental.
Desde o rompimento, o município vive uma epidemia de doenças mentais.
Você tem um crescimento de 60% no consumo de ansiolíticos
e 30% no consumo de antidepressivos.
As tentativas de sua sítio também aumentaram.
Foi num 39 só no primeiro semestre.
Um aumento de limitação.
de 23% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Então tem também a sua limitação.
No máximo 2% das vagas mensais abertas em brumadinho hoje são ocupadas por brumadinhas.
O resto a gente fora.
Você pergunta para as pessoas, o que você acha que vai acontecer?
Qual é a sua expectativa, quais são as suas perspectivas?
As pessoas não sabem dizer o que vai acontecer.
Porque a verdade é que todo mundo está muito angustiado,
que em dezembro é a última parcela e depois.
Os valores que vão parar de ser pagos dizem respeito a uma compensação mensal para todos os moradores.
Paralalamente a isso as famílias que perderam pessoas já têm indenizações definidas.
E cada vida tem seu preço.
O pai de alguém que morreu na tragédia vai receber 500 mil reais.
A mãe de alguém que morreu na tragédia vai receber 500 mil reais.
O filho 500 mil reais, o irmão 150 mil reais.
Além disso, os funcionários que sobreviveram receberam a opção de firmar cordos de estabilidade.
O de receber dinheiro o valor proporcional a esse tempo em que não poderiam ser desligados.
Todos com que eu goversei diziam que ia optar por essa opção de receber tudo e acabou o vínculo.
A inveja ficar três anos com estabilidade recebendo esses salários.
E poder ficar mais tendo um emprego, quer dizer, não é que depois três anos ela vai ser uma datimbora?
É que a relação com a varia nesse momento na cidade é uma relação muito dúvida, né?
Porque, por um lado, as pessoas querem o emprego, querem o dinheiro, que é a mineradora movimenta ali.
Por outro lado, para quem perdeu alguém, é um sentimento de indignação muito grande.
Ainda mais, porque as negligencias têm se comprovado, né?
Se teve um senhor com quem eu coversei, que não quis gravar a entrevista comigo.
Esse senhor me disse assim, foi a ganância que nos trouxe até aqui.
E a ganância que vai fechar a nossa caixão, ele falou.
Porque no ano que vem, quando não tiver mais esse dinheiro, vai ficar um vazio duplo, que a gente não vai ter as pessoas e não vai ter o dinheiro.
Agora, você acha que a empresa ou o poder público teriam que ter feito isso de uma outra maneira para não acontecer esse tipo de feito?
Eu fiquei muito tempo pensando sobre esse dinheiro e como as pessoas estão usando esse dinheiro.
E eu, olhando assim, veja, é quase uma traição com as pessoas que perderam amigos e parentes.
Você usa esse dinheiro para resolver a sua vida, sabe? Eu vi um pouco dessa forma, assim.
O que você está falando de resolver a vida, tipo. De resolver um problema, de pagar uma dívida, de comprar uma casa, de investir em uma coisa sabeduradora.
Não, eu acho que esse dinheiro é para gastar.
Todo mundo fala da origem do dinheiro.
Então, muita gente trata desse dinheiro como uma coisa meio suja.
O dinheiro veio da morte de mais de 200 pessoas.
As pessoas estão colocando esse dinheiro em coisas, estão queimando o dinheiro.
Quase isso. Essa é uma interpretação muito pessoal.
Muito subjetiva.
Mas eu senti muito isso, assim. Até das famílias, quando você vai conversar com elas, elas falam e contam a história e quando você chega no assunto o dinheiro,
claramente é um incómodo.
Por que as pessoas trocariam esse dinheiro pelas pessoas de volta, entendeu?
Agora, essa percepção sua, não é uma percepção das pessoas de cidade, porque você já me falou, por que. Não.
Existe as pessoas que estão gastando dinheiro ostensivamente, elas são. Algumas pessoas com que eu conversei, que tinham perdido familiares ou amigos, se ressentiam.
"Ah, olha como esse pessoa está caçando dinheiro, vê se pode pegar esse dinheiro e colocar se de cônio,
pegar esse dinheiro e dar tablet para as crianças."
Várias pessoas com que eu conversei isso, foi curioso, porque foi um depoimento espontâneo, no meio da conversa falava assim.
Se eu já fui na biqueira, e aí eu falava "Não, não fui na biqueira", e eles falavam "Tem fila agora, na biqueira, de dia e de noite".
A biqueira é onde você compra a droga, né, no caso, pra quem não sabe, é uma biqueira.
As pessoas agora cozinha o menos, porque elas pedem comida, ou elas comem fora, coisa que elas não faziam, elas dão gorgeta nos lugares.
No lugar que foi fazer a unha, a menina que fez minha unha comentou assim, antes, ninguém dava gorgeta.
Quando dava, era sei lá, gente muito rica que dava gorgeta, dava no máximo 5 reais.
Ela falou agora, as pessoas abrem a carteira, e pega uma nota que tiver a gente dão, tipo elas dão 20 reais como se fosse em dois.
O custo de vida, na cidade, aumentou, então, assim, muita gente que está recebendo as indenizações,
quer aproveitar pra se estabelecer as suas milhas, né, quer comprar uma casa.
E aí, as casas que antes, casas grandes, que antes custavam 250 mil, 300 mil reais, hoje custam 500 mil.
Que é o valor da indenização.
Estava contra a sua teoria da queima do dinheiro?
Não, a minha teoria da queima do dinheiro é pra as pessoas que não são as suas milhares, sabe?
O que eu senti um pouco era que ao mesmo tempo que os familiares se ressentem das pessoas que estão gastando dinheiro dessa forma,
pra essas pessoas, é quase como se fosse uma traição com os familiares, usar esse dinheiro pra algo mais duradouro.
É muito curioso ver a relação das pessoas com a Vale, porque a Vale era um motivo de orgulho muito grande pra essa região.
Aqui a Gabrela está falando com o conhecimento que vai além do jornalístico.
Ela tem família em Minas, passava férias em BH e costumava visitar a Burma Dinha.
Eu me lembro dos que eles chamavam os Camisas Verde, que era o pessoal da Vale, que o informe é verde, né?
Que saía do trabalho e ia fazer Rapialer, de Camisa, de Craschar, porque era um orgulho você dizer estatos, você dizer que você trabalhava pra Vale.
E hoje é isso que eu falei de a hora às vezes, é uma coisa dupe.
E se é só um desabafo pra aliviar meu coração, me sinto ator do lado com tanta destruição, onde há ganância do homem, que até hoje predomina.
Fizeram da minha terra grande cenário de guerra, que você nem imagina.
Que a gente nunca viu isso aqui, esse é o segurança da mina do Corrego do Fejão, ao Tamar Eu Ferreira.
No momento, tudo estou afastado, mas o trabalho é lá já 25 anos.
E não tava lá no dia?
Por pouco não, mas foi quase.
E por que que você não tava lá no dia? O que já aconteceu alguma coisa?
Na verdade, o meu turno, já um bom tempo, por opção Minho, eu preferi trabalhar no dia.
Só que assim, por eu morar próximo, né, se faltava alguém no período de urno,
quando o chefe ligava pra mim, já tava parado que não portou.
Durante todo esse tempo, eu nunca falei um "não" pra ele.
Já peguei o serviço dela, a manhã foi no outro dia.
Eu peguei em 9 da manhã, fui até no outro dia, meio dia.
Por incrível que pareça, e esse dia eu falei "não".
E ele se irritou, falou "né, o que tinha em falar?"
Eu me lembro que eu fui bem claro, por aí. E eu falei "cara, hoje você me pagou um milhão de reais, eu não vou ir".
E se eu tivesse falado sim, eu não taria que conversa com você.
Nossa, acredito que foi aí.
Um milagre de Deus, porque se eu tivesse ido com certeza. Você perdeu pessoas próximas a você?
Perdi. Perdi meu irmão, perdi meu cunhada. E assim. Eve pessoas ali, e durante 25 anos, eu dei gondida e boatar todo dia.
Eu via entrando o vissaninho. Se você trabalha 12 horas a 25 anos no local,
acaba que o pessoal lá do serviço se torna mais popular com você do que o pessoal de casa.
Então, eu perdi pessoas aqui dentro da comunidade, que eu praticamente arregui no colo, Moça.
Eu perdi gente aqui, cheguei aqui, entra pra dentro da minha casa, abri a geladinha.
E ela pro gão faz de café.
Isso é uma coisa sem. Sem noção, cara, sem. Entendeu? Sem lógica, sem. E o que você tem em vontade de fazer hoje?
Olha, Moça, a primeira resposta que eu quero te dar ao seguinte, naquela minha não volta nem a passei.
Nem a passei. Eu não tenho mais intenção de ficar com a comunidade,
em respeito do meu local de serviço, e eu não tenho estrutura psicológica nenhuma de volta lá,
porque eu tomei um choque tão grande, que até meu sentimento morreu.
Não tinha sentimento nada. Pra me fazer a coisa mais natural do mundo, a coisa mais normal do mundo que aconteceu.
Só que, no decorrer do tempo, eu voltei a trabalhar, inclusive cheguei a trabalhar, se não me fala a minha memória,
um riso, um riso e meio, aí que a realidade veio à tona.
Então, eu fui afastado, estou tomando os remédios, fazendo os tratamentos,
mas já tem na minha mente que podia err nenhum, no outro trabalhar.
Pode cantar mais um trechinho, algum outro que você goste.
Olha, tenho um ali, que deu título de dia marcado, de todas as reportagens,
um meu fiquei de bobeira, um tubarão de gravata, falando tanto.
a besteira. Ele esqueceu de dizer que a joia brasileira destruiu vilas cidade, causou
do caos o saudade em gente, trabalha a dira.
Que me aparece um cidadão que vai lá e abra a boca no mundo lá e nós não podemos
ser punidos. Quem pode você? E eu? Só que o cara ele esquece de falar de o que
ele chama de joia, cara. Matou muita gente boa, velho. Matou muita gente do bem.
E os que sobreviveram não estão vivo também, não. A metade nossa está vivo, a outra metade eles tiraram.
Eu pedi para a Gabriela a mim fazer um painel de como estava a situação de brumadinho
seis meses depois do desastre. Tem mais ou menos 20 pessoas ainda desaparecidas, mais
de 20 pessoas desaparecidas. E os bombeiros estão trabalhando direto. Eles não pararam
esses seis meses de trabalhar. E hoje o trabalho deles é o quê? Eles trabalham com máquinas,
porque a lama engresseu. E eles vão fazendo um trabalho que os bombeiros me explicaram o nome
que eles usam. Esse é um trabalho de dobras na lama. A escavadeira, ela tira a lama.
Cada vez que ela pega ali e joga com uma água, ela joga, fica um bombeiro daqui
olhando, visualizando, e tem que ficar alguma coisa. Aí faz uma doura. Depois o caminhão
é o bêbio. Esse é o capitão Tosate do corpo de bombeiros de minas gerais. Demorado também.
E a gente está focando nesse local que no dia do rumpimento da barragem, cinco pessoas estavam
na parede da barragem trabalhando, fazendo trabalho de sondagem. E essa, assim, uma foi encontrada
viva aqui, mas o mesmo está com a máquina. Ela veio por cima e não e sobreviveu. Ele
foi fraturo em uma perna. O material que eles estavam trabalhando, nós encontramos várias
partes deles, nessa parte aqui embaixo. Então como eles estavam e aí através de relato
dessa pessoa, ela falou que havia mais quatro, duas estavam dentro de uma foda de rânger
branca e outras duas operando a sonda. Nós encontramos várias partes da sonda aqui. Então
são próximas, pode ser que eles estejam aqui também. E como é que o trabalho foi mudando
nesse seis meses? O que? Quais foram as etapas? No início era de resgate, que havia
possibilidade de pessoas vivas. Então primeiro a gente preparava pessoas vivas. Com o passar
dos dias essa possibilidade inúil, então nós começamos a recuperar pessoas que já seguiam
pessoas mortas. O início aqui estava muito, muito, muito, muito. Então não tinha como entrar
com o maquinário, era um trabalho também manuals. Bombeiros tinham que daitar e castejando
na lama para procurar mesmo, só no visual. E a por um tempo que o terreno foi secando,
nós começamos a entrar com o maquinário. E a expectativa é de que o trabalho continue
e até ser encontrado. Sim. Nós vamos. Hoje a previsão é até
identificar as antiguas. Nós não temos previsão de ser rar os trabalhos. O objetivo é
encontrar as antiguas. E você, você me falou um número de pessoas que estão trabalhando
agora, 100 e? Cê tem 31 bombeiros, milisários de minas, mas 3 de matubroço e 2 de aparelho.
Hoje está mais ou menos 200 maquinas. E fica milhões, escavadeiras e carregadeiras.
Você acha que nesse tempo, no corpo de bombeiros, essa foi a situação mais difícil
que muito já trabalhou. Outras situações foram tanto quanto.
Com certeza, essa foi a mais difícil, porque eu enfrentei na carreira. Essa é a situação
mais complexa do que os bombesos, muitas minhas gerais. Com certeza. No caú vai ser uma
tragédia com tantas vítimas, que envolviam tantos recursos, tantos órgãos envolvidos,
é a maior com a certeza do corpo de bombesos militares de minhas gerais.
Alama chegou ao rio para o pé. Ela percorreu um percurso de 10 quilômetros até o rio.
E esse rio era responsável pelo abacessimento de 40% da região metropolitana de Belo Horizonte.
E ele não pode ser usado mais por esse abacessimento. Hoje, a copaza, que cuida dessa distribuição
de água, usa outros sistemas hídricos para fazer essa distribuição. E o que eles
dizem é que vai dar, que quando o para o pé pode voltar a ser usado, que até lá tem
abacessimento garantido. Mas no primeiro momento, eles mesmos tinham questionado se dariam
não, porque no primeiro momento eles falaram que esse abacessimento vai dar para um ano.
No momento que eles falaram, isso foi lá para abrir o maio. Um ano vai dar em abrir o
maio do ano que vem, e o para o pé ainda não vai poder ser usado.
Quando você vai poder ser usado? Não tem uma previsão. Por exemplo, eu estive agora
na volta dos seis meses em Jua Tuba. Jua Tuba é um unicípio vizinho, tá 40 quilômetros
de brumadinho. A Gabriela foi até lá junto com uma equipe que monitora a água do rio.
Eles recolhem água três vezes por dia para medir como é que tá, medir metais pesados. A água
tem uma concentração grande de metais pesados. A preocupação maior é o chum, tá uma
concentração acima do permitido, e o chum tem consequências para os humanos e para os animais.
Acurta o médio longo prazo. Ele viveu da barragem também?
Exato. Eu achava que era uma barragem de milhares de ferro.
É minério de ferro, só que a verdade que tem um monte de coisa misturada ali, ninguém
sabe exatamente o que tem no fundo da barragem. Sem contar que não é só a barragem, a lama
foi levando tudo no caminho. Então, a lama, se você for pensar, a lama tem esgoto, a lama
tem muita coisa. E aí tem alguns moradores no entorno que moram ali na beira do rio.
E a gente foi andando ali caminhando e todas as casas estavam vazias.
Ah, tem não? Peixar aqui. Acho que é pra ele que é o telefone.
Tá com cara de vazia. Algumas casas claramente com cara de abandonadas, totalmente descuidadas,
comportões que você via, que não eram abertos há muito tempo, com cadiados enferrujados,
lugares em que tinham faixa, se diziam "vendo peixe", "vendo peixe".
É, botar a banca de peixe aqui, criando tudo, com dia.
Escrita bem na frente da casa, aqui.
Vendo peixe, tá vendo? O pessoal faz isso aqui.
E aí pescava e vendido, mas. Então, esse aí não tem vídeo pra ficar aqui, não é?
E aí, na hora que a gente já tava desistindo e indo embora, a gente entrou um carro numa garagem.
O Amadeus e a Cleusa eram um casal que tava chegando, a Cleusa, inclusive,
me comprimentou assim, com o braço curtinho, né? Ela não esticou o braço.
Ela falou, "Ah, desculpa, não esticou o braço, é que eu acabei de colocar silicone e não posso esticar o braço" e tal.
E aí eles me convidaram pra entrar e eu comecei a conversar com o Amadeus e o Amadeus contando.
É uma bem história de pescador, muito. Tem que eu pegar a 3, bisteça aqui, de 20 quilos, 18 altas mais dos bichinhos.
Nossa, de que antes esse. Não é? É, é que tem uns filhotinhos de 5 quilos, 6 quilos aí.
Foi pega aqui nos fundos, ó.
Não tem mais.
Não, agora do jeito que tá o Rio não tá pega, não, nem potendo pescar.
Os menides que tá a polição da Rádio, mas os menides tá comendo peixinho, não sei.
Eles calculam que existe uma contaminação num raio de. numa distância, né?
De um quilômetro da Margem do Rio, que é a contaminação, não é só de solo, é de lençal freático.
E isso pra eles é muito grave, porque você não tem como limpar o lençal freático.
A pesca e a comercialização de peixão proibidas em Joatuba.
Mas conversa vai, conversa vem.
Eu devido ter guardado uma traíra que eu pesquei ontem, conti ontem.
Só que o menino viu que o Ronaldão ficou doido. Não paredua dar aqui pra nós tomar caixaça.
E já pegou ela, já limpoer, guardou na geladeira, tá? Ligo na geladeira, guardado.
Mas você não fica com receio de comer?
Ah, e descaduência não vem na hora?
Não, vai ser bem mal hora, vem.
Desculpe, vem depois de 50 anos.
Eu to com 6, 56, mas 50 não vou ir mais 50, né? Então, não tem nada a ver com medo, não vale a Deus.
No fim da nossa entrevista,
eu perguntei pra Gabriela o que ela tinha guardado de tudo aquilo.
Como ela viu o caso de Burmadinho, num contexto mais amplo?
O que ficou pra mim, mais forte do que nunca,
é que a gente precisa repensar nosso modelo de desenvolvimento.
Porque a gente tá escolhendo um desenvolvimento
que prioriza o dinheiro, acima de tudo, sem uma compra partida.
Porque, na verdade, as empresas se sentem num papel de ofertando alguma coisa,
ali de oferecendo alguma coisa de oferecendo uma compra partida,
porque elas geram emprego, porque elas geram renda,
porque elas fazem economia local girar.
Eu não acho que a mineração tem que ser criminalizada.
A mineração, ela é importante, inclusive, pra gente ter coisas do nosso dia a dia.
Tem objetos do nosso dia a dia que dependem da mineração.
Mas aquele limite eu vou levar o custo da mineração,
porque a mineração, como toda a atividade econômica, ela tem um impacto.
E nesse caso, a gente tá fazendo um cálculo de costumano que não pode acontecer.
Você não pode colocar na ponta do lápis quando custa uma vida,
que depois você vai indelizar.
E tudo indica que isso aconteceu de forma deliberada.
Nesse caso, de Mariana e Burmadinho, não é?
Nesse caso de Burmadinho, o restaurante dos funcionários era no pé da barragem.
Assim, ou você confia muito que aquilo não vai estourar,
ou você, de fato, tá negligenciando aquelas pessoas, aquelas vidas?
No dia 2.
Depois de setembro, quando estava terminando a edição desse episódio, o relatório final
da CPI de Brumadinho, na Assembleia de Minas, pediu o indiciamento da Cúpula da Vale
por homicídio doloroso e eventual, que é quando se assume o risco de que mortes aconteçam.
As penas para esse tipo de crime prevém reclusão de seis a vinte anos.
Agora, o relatório vai à votação na comissão.
Termina aqui o décimo terceiro episódio de Escafândaro.
A trilha sonora original é do Paulo Gama, a amixagem de som do Victor Coroa.
Eu sou Tomás Kiaverini e concebi produzir e editer esse podcast.
[MÚSICA DE FUNDO]
Podcast Summary
Key Points:
O episódio apresenta a cobertura jornalística da repórter Gabriela Maier sobre o desastre da barragem do Corrego do Feijão em Brumadinho, com foco no impacto humano e nas consequências sociais e ambientais.
A tragédia causou a morte de mais de 200 pessoas e transformou a paisagem e a vida da cidade, com a lama se espalhando por 10 km e deixando um silêncio absoluto e um cheiro forte de minério de ferro.
Há um profundo vínculo emocional entre o jornalismo e o público, com a produção do podcast dependendo de apoio coletivo para garantir a continuidade do trabalho independente.
A cidade entrou em um novo ciclo de vida com o pagamento de indenizações mensais pela Vale, o que provocou um crescimento populacional de 10%, aumento no consumo e na mobilidade urbana.
A comunidade enfrenta desafios emocionais e psicológicos, com aumento de doenças mentais e críticas à forma como o dinheiro da indenização é usado, muitas vezes como deslocamento de valores humanos.
A cobertura demonstra a dificuldade de reportar uma tragédia sem se tornar violenta, exigindo um equilíbrio entre objetividade e sensibilidade emocional.
A empresa Vale foi acusada de negligência, com relatos de vazamento detectado há meses e de decisões que ignoraram riscos, levando à indiciamento da cúpula por homicídio doloso.
O episódio conclui com uma reflexão sobre o modelo de desenvolvimento que prioriza o dinheiro acima da vida humana, exigindo uma reavaliação ética e ambiental da mineração.
Summary:
O episódio da Rádio Escafandro apresenta uma profunda investigação sobre o desastre da barragem do Corrego do Feijão em Brumadinho, em 2015, que matou mais de 200 pessoas e transformou a vida da comunidade. A repórter Gabriela Maier descreve o impacto imediato: o silêncio absoluto, o cheiro forte de minério e a visão de corpos retirados da lama, que provocou um profundo sofrimento emocional. A cobertura revela como as famílias foram afetadas, com o crescimento populacional devido ao pagamento de indenizações mensais pela Vale, que alterou o consumo, o trânsito e o padrão de vida.
No entanto, o dinheiro gerou críticas, pois muitas pessoas usam o benefício para viver, enquanto outras se sentem traídas por um sistema que valoriza o lucro acima da vida. A reportagem também evidencia a negligência da empresa, com relatos de vazamentos detectados meses antes do rompimento, e o indiciamento da cúpula da Vale por homicídio doloso. Ao final, o episódio reflete sobre o modelo de desenvolvimento que prioriza a exploração econômica em detrimento da dignidade humana, levantando a necessidade de um novo paradigma ambiental e ético na mineração.
A produção do podcast depende de apoio coletivo, fortalecendo o jornalismo independente e a possibilidade de contar histórias de impacto social.
FAQs
A Rádio Escafandro é uma rádio independente que produz conteúdo jornalístico com foco em reportagens profundas e humanas. Seu objetivo é denunciar injustiças, promover o jornalismo crítico e fortalecer a voz do povo em questões sociais e ambientais.
O trabalho da Rádio Escafandro é financiado por uma campanha de financiamento coletivo via plataforma Qatar-C. O público pode contribuir com valores a partir de 5 reais, e com isso, ganha acesso a conteúdo exclusivo, como entrevistas completas.
A cobertura sobre o desastre em Brumadinho é fundamental porque revela as condições de segurança, as negligências da empresa Vale e o impacto humano profundo na comunidade, mostrando a destruição de vidas e a fragilidade do modelo de desenvolvimento baseado na mineração.
Gabriela descreveu um silêncio absoluto e a ausência de vida após o rompimento, com animais e aves fugindo, e um primeiro momento de choque emocional ao ouvir passarinhos, o que marcou profundamente a sensação de perda e desespero nas famílias.
A população cresceu significativamente devido ao pagamento de indenizações mensais pela Vale, o que mudou o consumo, o trânsito e a dinâmica social, mas também gerou preocupações sobre a corrupção do dinheiro e o desespero psicológico entre os sobreviventes.
Muitas pessoas se sentem traídas porque o dinheiro, proveniente da morte de mais de 200 pessoas, é usado para resolver problemas pessoais, como comprar casas ou comodidades, o que desencadeia sentimentos de indignação por falta de empatia com os familiares que morreram.
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