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Borba Gato: a história do Brasil que as estátuas contam

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Borba Gato: a história do Brasil que as estátuas contam

O incêndio da estátua de Borba Gato, em São Paulo, reacendeu o debate nacional sobre monumentos que homenageiam figuras históricas controversas. O ato, realizado por manifestantes do grupo Revolução Periférica, teve como alvo a representação dos bandeirantes, que no Brasil colonial atuavam na escravização de indígenas e negros. A historiadora Lilia Schwarcz explica que a imagem heroica dos bandeirantes foi construída artificialmente no final do século XIX, pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que silenciou a violência desses "exércitos mercenários". Esse mito foi reforçado pelo modernismo paulistano, como no Monumento às Bandeiras, de Brecheret, que naturaliza hierarquias raciais. O movimento global de questionamento de monumentos racistas, como a estátua de Roosevelt em Nova York, ecoa no Brasil. Schwarcz defende que a gestão da memória nacional deve ser politizada, com opções como remover estátuas para museus com novas legendas, criar contramonumentos ou instalar placas críticas. Ela critica a historiografia oficial, colonial e masculina, e aponta a necessidade de incluir protagonistas silenciados, como indígenas e africanos. O poder público, embora reaja com vigilância, começa a debater mudanças, como a renomeação do Minhocão para homenagear João Goulart. O episódio evidencia que monumentos não são neutros e que sua contestação é parte essencial da construção de uma memória nacional mais plural e justa.

Transcription

4178 Words, 25023 Characters

Portuguese
O Incêndio da Estátua de Borba Gato e o Debate Nacional Quando a gente vive numa cidade, a gente costuma passar pelos monumentos sem se dar conta do significado deles. Eles acabam virando só mais uma coisa na paisagem. Isso pode ser para sempre assim, ou alguma outra coisa pode te fazer olhar pra eles. Pessoa 2 Manifestantes incendiaram a estátua em homenagem ao Bandeirante Borba gato, na zona sul da cidade de São Paulo. Segundo testemunhas, cerca de 15 manifestantes desceram de um caminhão, colocaram pneus ao redor do monumento e atearam fogo. Pessoa 3 Esse foi o último protesto contra. Estátua do Borba gato aconteceu no sábado. Pessoa 1 Os bombeiros conseguiram controlar o fogo rapidamente e um grupo chamado revolução periférica assumiu a autoria do incêndio. A polícia começou a investigar e na manhã de domingo, a polícia civil prendeu. Pessoa 2 Um dos. Pessoa 1 Suspeitos pelo ato, o homem seria o. Pessoa 2 Motorista do caminhão. Pessoa 1 Que levou parte do grupo E os pneus que foram queimados? Pessoa 2 A justiça deu Liberdade provisória para ele. As investigações continuam para identificar e. Pessoa 1 Localizar os outros autores. Pessoa 3 Ontem, o prefeito. Feito de São Paulo. Ricardo Nunes disse que um empresário se prontificou a pagar a reforma da estátua, mas não quis dizer o nome dele. O prefeito chamou o ato de vandalismo. Pessoa 1 Se você não conhece São Paulo, deixa eu te dar uma ideia. A estátua do Borba gato tem 13 m de altura. Contando com o pedestal, ela mostra um homem de barba, com chapéu e uma arma enorme na mão. A imagem é assinada pelo artista Júlio guerra e foi inaugurada em 1962. Pessoa 3 Muita gente diz que a estátua é feia. Mas o principal motivo de críticas é o fato de o Borba Gato ter sido um Bandeirante, uma pessoa que no Brasil colonial, explorava o interior do país e ajudava a escravizar negros e indígenas a vários relatos de brutalidade envolvendo essas figuras. Pessoa 1 É por causa desse passado que o Borba gato tem sido alvo de protestos. Em 2020, enquanto manifestações antirracistas pelo mundo derrubavam monumentos, a prefeitura de São Paulo ficou com medo que o mesmo acontecesse na cidade. Botou a estátua sobre vigilância 20. 4 horas prevendo problemas, a prefeitura de São Paulo colocou grades para que ninguém tenha acesso à estátua e também uma viatura da guarda civil metropolitana enquanto durar a onda de protestos. Pessoa 3 Antes disso, em 2016, já tinham jogado tinta na imagem. Pessoa 2 A estátua do Borba. Pessoa 1 Gato, em Santo Amaro, e o monumento. Pessoa 2 As. Pessoa 1 Bandeiras no Parque Ibirapuera. Pessoa 2 Amanheceram cobertos de tinta. Pessoa 1 Colorida, o Monumento às Bandeiras é uma escultura enorme de 50 m que retrata mais de 20 pessoas e homenageia os. Bandeirantes o. Pessoa 3 Movimento que questiona a presença de algumas estátuas em ruas e praças é mundial. Pessoa 2 O museu de história natural de Nova Iorque anunciou que vai retirar a estátua do ex presidente americano fiel do Roosevelt da entrada principal da instituição, em um momento de intensa campanha nacional contra os monumentos históricos considerados racistas. Pessoa 1 Como a gente disse, o Borba gato virou alvo porque homenageia um Bandeirantes. Essas figuras foram promovidas como heróis nacionais, parte importante da formação do Brasil. Até hoje tem quem defenda que retirar as estátuas e apagar um pouco a nossa história. Pessoa 3 Quem questiona o Borba gato e outros monumentos como esse diz que não dá para manter no meio da cidade uma homenagem a um grupo que atuava na manutenção da escravidão e na perseguição aos indígenas. Lilia Schwarcz Explica Quem Foram os Bandeirantes e Borba Gato Para entender como os Bandeirantes foram vendidos como heróis e que história os monumentos nas cidades brasileiras contam, o café de hoje conversa com a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Professora, pra gente começar, você pode explicar quem foram os Bandeirantes e dentro desse grupo, quem foi o Borba gato? Pessoa 2 Bom, os Bandeirantes começaram a aparecer na história do Brasil no século 18, no contexto da mineração, e ganharam um certo renome por conta da ideia de que foram eles que desbravaram as nossas Fronteiras, ou seja, puxaram a linha das nossas Fronteiras. Eu me referi ao século 18 porque eles também apareceram no contexto da mineração, né? Borba gato, por exemplo, também. Então, para além de pessoas que queriam desbravar. As Fronteiras numa perspetiva mais romântica, eles também foram pessoas que iam atrás do ouro, das pedras preciosas, enfim, e acabavam acumulando muito poder. Por outro lado, eles também ganhavam muito dinheiro como uma espécie de exército mercenário. Ou seja, eles aprezavam escravizados e aprezavam indígenas também. Então, são figuras muito ambivalentes na nossa história e que foram transformadas em heróis, sobretudo no final do século 19 para o começo do século 20. Pessoa 1 Você citou como eles. Priisionavam indígenas e escravizados, quais são os relatos de brutalidades cometidas por eles que a gente tem notícia? Pessoa 2 Olha, são muitos os relatos, né? Ou seja, os indígenas eram usados ao mesmo tempo como uma mão de obra a ser abusada, né? Ou seja, eles carregavam comida, tomavam conta dos mantimentos, como eram escravizados também, né? Ou seja, é equivocada a ideia de que só os africanos, né? A população, as pessoas africanas que vieram daquele continente, que foram escravizados no Brasil. Os indígenas foram escravizados também e foram escravizados pelos Bandeirantes, né? Que os mantinham na base da do chicote, muitas vezes na base de um trabalho absolutamente forçado. A mesma coisa acontecia com os escravizados encontrados, né? Eles eram aprisionados, eram levados em Correntes, eram ser viciados. Portanto, se sabe muito bem como era um tratamento muito, muito duro, muito, muito violento, né? Que eles empregavam para com essas populações. Como o Mito dos Bandeirantes Heróis Foi Construído no Brasil Você já citou que essa imagem dos Bandeirantes como heróis foi construído um momento específico. A minha dúvida é em que momento isso aconteceu? Acontece. Pessoa 2 Num momento muito, muito delicado, né? Eu estou falando aqui do final do Império, do começo da República, quando é criado um instituto histórico geográfico de São Paulo. O que que faziam os institutos, né? Eles construíam modelos, construíam identidades. Até aquele contexto. O instituto mais conhecido era o instituto histórico geográfico brasileiro, que foi fundado no Rio de Janeiro, que logo tomou. Democracia, ideia de brasileiro já o instituto histórico e geográfico de São Paulo passou a construir uma história que fosse eminentemente Paulista. Ora, nós sabemos que a história de São Paulo é uma data da chegada do café. Antes disso, São Paulo era um lugar de passagem de tropeiros, um lugar de partida, não um lugar de chegada. E o que faz o instituto histórico geográfico de São Paulo produz. Cria essa figura do Bandeirante, cria imageticamente e também textualmente, textualmente, de que forma obliterando toda a violência que fazia parte, estruturava as bandeiras e as Monções também quando atravessavam rios. Também silencia acerca desse papel mercenários dos Bandeirantes, ou seja, que eram aprezadores de indígenas e de escravizados, fugidos. E constrói, de fato fala apenas desse caráter Romano. Antico dos Bandeirantes, o pedaço da história do Brasil num percurso turístico em São Paulo. O roteiro, que passa por algumas cidades Paulistas, relembra as expedições dos Bandeirantes. No período colonial, data dessa época também a construção energética do Bandeirante, essa figura com grandes botas, com uma roupa que mais parece uma armadura medieval, grandes chapéus. Olha, se nós formos imaginar, essas pessoas andavam pelas selvas brasileiras num calor danado em geral, né? Primeiro, não andariam de botas e, sobretudo, não andariam com aqueles chapelões, né? Porque ficariam presos nas florestas. Então foi no século 19, no final do 19, no começo do 20. Sobretudo em São Paulo, que se construiu essa ideia do Bandeirante. E por que São Paulo? Maurício? Porque ele ficaria associado a um certo, muitas aspas, caráter de São Paulo, né? São Paulo também que queria se apresentar como um estado desbravador, um estado progressista aqui à frente. Então, era necessário construir um símbolo, um emblema que fosse compatível com essa autoprojeção Paulistana. Pessoa 1 Em São Paulo tem outro estátua, além do Borba gato, que costuma ser alvo de protestos, que é o monumento as bandeiras, feito pelo escultor modernista Victor Brecheret. Pessoa 2 Foram vários casos. Em 2013, durante um protesto de indígenas, os manifestantes jogaram tinta vermelha e pintaram a frase Bandeirantes assassinos. Pessoa 1 Qual que é o papel dos modernistas na construção desse mito dos Bandeirantes? O Papel do Modernismo na Perpetuação do Mito Bandeirante É um papel bastante destacado porque São Paulo vai construir de forma crescente uma série de projeções sobre o seu passado. Projeções que vão enaltecer o passado, engrandecer esse passado. Como eu estava explicando Maurício, o instituto histórico constrói essa ideia, essa projeção, né, alegórica dos Paulistas, por sobre a imagem do Bandeirantes e o modernismo paulistano, também vai, de alguma forma, beber nessa fonte, famoso Monumento às Bandeiras do brecherê. Ele fala muito desse tipo de encadeamento, né? Desse tipo de argumentação. Se a gente for observar bem o monumento do brecherê. O que nós podemos ver lá? O nome é monumento das bandeiras, mas os Paulistas já apelidaram de ou monumento do puxa puxa ou monumento do empurra empurra. É um monumento grandioso à frente. Quem está uma pessoa branca, ele parece muito como um guerreiro medieval. Ele está à frente no seu cavalo, a essa relação de masculinidade, né? Do homem que domina a fera, um cavalo muito constante, seguido de alguns soldados até e depois de pessoas que carregam o peso. Daquela canoa, quem é que carrega os indígenas? Monumentos, o que são? São estátuas que habitam as nossas cidades e que ficam normalizadas na paisagem. Normalizadas em que sentido? Há um momento que nós não conseguimos mais vê Los de tanto que eles estão imiscuidos na paisagem. E o que é que nós não vemos? Para Almas que estão presentes nesses monumentos. Então, nesse caso, o que é que brecherer fazia nessa nesse monumento que tem uma grande beleza estética? Eu não vou negar. Ele naturalizava estruturas hierárquicas de poder, os brancos à frente e atrás dos indígenas que carregam harmoniosamente prazerosamente. O que? Um peso descomunal. Então é possível ler. Esses monumentos a partir de uma contra memória, de um contra monumento, ou seja, tentar estranhar o que está de alguma forma imuscuido na paisagem. Pessoa 1 A forma como a gente trata esses monumentos no espaço público se reflete também na forma como essas figuras são tratadas no ensino da história. Pessoa 2 Ah, totalmente, né. Se nós formos formos olhar no ensino da história, vão aparecer essas imagens elevatórios dos Bandeirantes. Eles estão sempre à frente, como no monumento das bandeiras, né? Eles estão sempre levando para. Progresso levando a evolução. São eles que simbolizam a Liberdade por oposição às outras populações, que aparecem subordinadas e sempre carregando pesos ou, de alguma maneira, numa situação hierarquicamente inferior àquela dos Bandeirantes que lideram as cenas. O Que os Monumentos Revelam Sobre a Historiografia Brasileira Então, nos nossos livros didáticos é bastante comum aparecerem não só as imagens como os textos não é que enaltecem. Olha, o que significa dizer Maurício, por exemplo, que os Bandeirantes foram. Os nossos grandes Desbravadores e que ampliaram as nossas Fronteiras. Significa falar de um lado de Liberdade, claro. Ou seja, a Liberdade de construir as nossas Fronteiras. Mas significa não falar, né? A história é isso. História é feita de um movimento, de lembrar um pouquinho e esquecer muito. E o que é que nos livros didáticos é sistematicamente esquecido o lugar das populações que foram submetidas aos Bandeirantes. Então eu estou me referindo mais uma vez às populações indígenas, em grande parte, mas também às populações africanas. Pessoa 1 O que os monumentos que o Brasil escolhe para exibir no espaço público revelam sobre o país? Que história eles contam? E minha outra dúvida é, o que que um questionamento de agora diz sobre os nossos tempos? Pessoa 2 Bom. Bom, que história eles contam, Maurício, eles contam uma história profundamente colonial, né? Ou seja, é impressionante como os nossos monumentos estão muito atrelados a um passado colonial, como se esse fosse o único destino e a única história importante. Eles estão muito vinculados a uma história europeia. Boa parte dos nossos monumentos, nomes de ruas, nomes de avenidas são vinculadas a uma população branca e europeia e são monumentos também. Profundamente masculinos. Essa é o perfil da nossa historiografia oficial. Historiografia colonial, muito europeia e muito masculina. E uma historiografia muito violenta, né? Ou seja, é impressionante como nós vendemos essa ideia da Harmonia de um povo pacífico que é muito difícil de acreditar, sabendo como todos nós sabemos, que o Brasil foi o último país a abolir AA escravidão mercantil no mundo. Tendo feito isso depois, Estados Unidos, Porto Rico e Cuba. Então, essa foi uma grande vergonha nacional. E como é que diante de um país que durante 4 séculos manteve a linguagem da escravidão e um país que constituiu um dia muito breve, o 13/05/88 da abolição, mas talvez o dia também mais longo, porque as condições dadas naquele momento se perpetuam, como é que esse país pode falar de um passado harmônico, pacífico e amistoso? Esse era um passado violento, cujo o legado está presente até. É os dias de hoje. É essa história que nós contamos dos nossos livros didáticos. O que que está mudando agora é porque finalmente nós podemos ler uma história, a contrapelo. E o que que significa ler a história do Brasil? A contrapelo ler a história desses outros protagonistas, outros outros e outros protagonistas da nossa história, que foram as populações africanas, as populações indígenas, as populações quilombolas, as populações ribeirinhas, as mulheres. As populações LGBTQI mais que foram também mantidas muito silenciosas e isso tem um respaldo imediato nos nossos monumentos, ou seja, os monumentos refletem e produzem a nossa imaginação histórica, que é uma imaginação muito colonial. Como Lidar com Monumentos Controversos e a Gestão da Memória Tem uns críticos que sempre dizem que retirar esses monumentos seria uma forma de revisionismo histórico. Você já explicou como essa imagem dos Bandeirantes como heróis foi construída historicamente em um momento específico? Levando isso em conta, como é que se vê essas críticas? Pessoa 2 Bom. Essa é uma questão absolutamente polêmica, né? Eu acho que não há uma posição derradeira em relação a elas. Vários países resolveram traumas nacionais de maneiras muito interessantes, buscando de alguma forma fazer monumentos que são monumentos para refletir. Não são monumentos que exaltam uma ou outra personalidade, são muito mais monumentos feitos para que a gente possa pensar sobre esses momentos, né? Ou seja, não são monumentos que fazem parte de uma história nacional. Eles não constroem, eles não homenageiam, sobretudo, momentos traumáticos da nossa história. No que que eu estou me referindo à história da escravidão de um lado e de outro lado também a história do verdadeiro genocídio que se praticou em relação às populações indígenas. Que que podemos fazer diante disso? Temos muitas formas de fazê lo, né? Nesse sábado, em São Paulo, um grupo em específico tomou uma medida que foi uma medida política e de grande impacto, ou seja, fazer com que a população brasileira. Prestasse atenção no que é a estátua do Borba gato? A estátua, nós sabemos, foi danificada, mas a estrutura se manteve. Ela pode ser construída. Essa é uma possibilidade, sobretudo quando nós nos referimos. Há monumentos muito traumáticos. Outras possibilidades existem também, ou seja, construir contra monumentos que ficarão lado a lado com esses monumentos, criar legendas que tensionem o que são esses monumentos, produzir como foi feito justamente no monumento, as bandeiras. E quem fez isso foi o artista indígena, o baniwa, produzir iluminações por sobre esses monumentos. Ou seja, há muitas maneiras de lidar com isso. Em alguns países, esses monumentos estão. Saindo dos seus lugares originais e indo parar em museus com novas legendas, os belgas. Pessoa 3 Estão mandando para o? Pessoa 2 Museu tudo o que? Pessoa 1 Lembra o rei. Pessoa 2 Leopoldo, segundo autor dos genocídios de nativos durante. Pessoa 1 A colonização do Congo. Pessoa 2 O que não podemos fazer mesmo, Maurício, é continuar não prestando atenção nessas estátuas que ferem os sentimentos de uma parte muito grande da população brasileira. O que a gente precisa fazer é politizar. Politizar essas imagens, né? Todo monumento nasce para ser contestado. Isso é bem importante. Não há monumentos que não seja contestado, porque de alguma maneira ele diz respeito a um momento específico. Mas existem monumentos e monumentos. Monumentos que falam de traumas nacionais, esses sim merecem uma atenção ainda maior, porque é preciso que a gente faça uma gestão da memória nacional. As Respostas do Poder Público aos Protestos e a Mudança de Nomes A gente tem visto nos últimos tempos vários protestos contra monumentos fora do Brasil e aqui também aqui no nosso país. Como é que se avalia as respostas que o poder público tem dado a esses protestos vindos da sociedade? Pessoa 2 Ele está começando a aparecer, né? Eu me referia a essa produção que o baniu a fez muitas bandeiras. Ela não apareceu tanto justamente porque foi durante a pandemia, num momento muito severo da pandemia, né? Então muito pouca gente viu ou o próprio monumento do Bárbara. Bagato já foi pintado, já colocaram uma máscara nele, já já fizeram de tudo um pouco. Acho que nós enfim estamos tomando o pé nessa discussão. Eu lembro também de artistas que estão trabalhando com esse mesmo temática, né? O Jaime Lauriano, por exemplo, tem uma série que se chama Bandeirantes um e Bandeirantes 2, em que ele faz esculturas que são construídas a partir de balas, né? De balas não balas doces, mas balas para agredir. Existe muita caricatura por sobre esses monumentos. Que nós estamos falando, temos que fazer mais, temos que fazer muito mais e, sobretudo, acho que é hora da população brasileira prestar atenção. Quantas vezes a gente não atravessa estradas, Viadutos, com o nome de ditadores nacionais? Esses nomes continuam aí, Maurício, e qual o problema? Nós tivemos uma comissão nacional da verdade, que julgou essas pessoas, porque é que nós vamos manter esses nomes? Hora de mudar os nomes das nossas avenidas, hora de incluir mais nomes, hora de fazer uma política. Crítica muito mais plural. E o nome do elevado Costa e Silva, o nosso conhecido Minhocão vai mudar. Vai mudar para elevado presidente João Goulart. Projeto de lei retira o nome do presidente da ditadura militar, Arthur da Costa e Silva, e o substitui pelo do presidente deposto pelos militares, João Goulart. E a mesma coisa nós vamos ter que fazer no que se refere à gestão dos nossos monumentos. Como nós vamos fazer? Faz parte desse desafio da sociedade civil. Eu dei aqui várias possibilidades, vai ser preciso que nós pensemos caso a caso. Essa primavera dos monumentos começou com o Edward couston, que era na verdade, ele aparecia naquele momento. Todo mundo pode observar como um grande Lorde do parlamento inglês o que ele era e o que é que não aparecia lá, não aparecia, justamente que ele era, na verdade, ganhou a vida como um grande traficante de escravizada. Né? De mão de obra escravizada. No caso do coston, ele acabou no Rio, né? E depois foi retirado e removido para um museu. Manifestantes do movimento black Lives Matter, vidas negras importam derrubaram o monumento erguido em 1895 no centro da cidade. E o levaram pelas ruas até o Porto e depois jogaram no Rio. O importante desses gestos é que eles são eventos políticos. Eles não são fatos, são eventos porque a ele se aloca uma significação cultural e simbólica muito grande. Isso vai fazer o que vai fazer com que a sociedade brasileira se posicionem e se posicionem em relação ao que a essa aparente neutralidade da nossa historiografia e a essa imagem que não corresponde à realidade de uma história, de um passado. Pacífico e tranquilo. Nosso passado foi muito violento e é preciso que a gente preste atenção de que maneira o nosso presente está lotado de passado. Destaques do Dia: Vacinação, Fundão Eleitoral e Bolsonaro A gente já volta com o que mais você precisa saber hoje? Pessoa 1 Pelo menos 9 capitais tiveram que suspender a aplicação da primeira dose da vacina contra COVID-19 por falta de imunizante. As cidades afetadas foram, Rio de Janeiro, Vitória, Salvador, João Pessoa, Maceió, Natal, Belém, Florianópolis e Campo Grande. O ministro da saúde, Marcelo Queiroga, disse ontem que não há estoque de vacinas parado. Ele criticou estados e municípios por elaborarem regras próprias de vacinação. O governador de São Paulo, João Dória, tinha dito mais cedo nas redes sociais que o Ministério da saúde tem 16000000 de doses paradas. O tocando. Disse que é vergonhosa essa falta de gestão. Queiroga atribui a suposta lentidão a burocracia. Ele disse que, quando as vacinas chegam ao aeroporto, elas precisam passar por controles da Anvisa e da receita federal. Queiroga afirmou que a distribuição de doses vai ser normalizada até quarta-feira, com A Entrega de 12000000 de vacinas. Ontem, o ministro falou à folha sobre a possibilidade de reduzir o intervalo entre a primeira e a segunda dose da vacina da Pfizer, o que pode ser importante no combate à variante Delta. Segundo ele, é muito provável que isso seja feito, em vez de esperar 3 meses, quem tomou ou. Vai tomar a vacina? Deve receber a segunda aplicação no intervalo de 21 dias. O tempo é o previsto na bula do imunizante, mas o Ministério da saúde tinha ampliado o prazo para que o maior número de pessoas recebesse a primeira dose. Segundo Queiroga, na época, não havia certeza sobre quantas vacinas seriam enviadas pela Pfizer neste ano, mas agora, segurança nas entregas ele ressaltou que a palavra final sobre o assunto vai ser dada pela coordenação do programa nacional de imunização. Pessoa 3 O presidente Jair Bolsonaro sinalizou ontem que vai aceitar uma quantia próxima a 4 bilhões de reais para o Fundão eleitoral e vetar apenas 2 bilhões de reais do total que tinha sido aprovado pelo Congresso. Em conversa com apoiadores, um grupo parabenizou o presidente por ter anunciado que vetaria os 5,7 bilhões que o Congresso quer destinar o financiamento de campanhas. Pessoa 2 Deixa claro uma coisa para ser vetado, o excesso do. Pessoa 1 Que a lei garante, tá certo, quase 4 bilhões. Pessoa 2 Mais o fundo, o Eça de 2. Pessoa 1 Bilhões vai ser vetado? Pessoa 2 Se eu vetar? Pessoa 1 O que está na lei? Eu estou em curso em crime de responsabilidade. Espero não apanhar do. Pessoa 2 Pessoal, e como serve? Pessoa 3 Né? Na semana passada, em uma rede social, Bolsonaro escreveu que IA vetar o aumento do fundo. Antes, ele tinha indicado que aceitaria uma correção pela inflação, mas o valor aprovado pelo Congresso é quase o triplo da eleição anterior. Apesar do que disse aos apoiadores, não está claro como Bolsonaro poderia barrar só uma. A parte do total que já foi aprovado pelo legislativo. Segundo técnicos ouvidos pela folha, o presidente só poderia vetar ou sancionar todo o montante. Para cumprir a promessa dele, o presidente teria que cancelar os 5,7 bilhões e devolver a lei de diretrizes orçamentárias com valor menor para o Congresso, que precisaria aprovar qualquer alteração. Também ontem, o presidente deu uma entrevista à rádio Arapuã FM, de João Pessoa. Na conversa, ele foi questionado sobre a. Ação com o vice dele, o general Hamilton Mourão, e a escolha da chapa para a eleição de 2022. Bolsonaro disse que Mourão faz o trabalho dele, mas que às vezes atrapalha um pouco e comparou o vice a um cunhado que tem que ser aturado e não pode ser mandado embora. Agradecimentos e Créditos Finais do Café da Manhã Mourão costuma dar declarações que desagradam o presidente. Na semana passada, ele disse que o eleitorado de Bolsonaro pode ficar confuso com a aproximação do presidente com o centrão. Pessoa 1 Esse foi o café da manhã, o podcast mais importante do seu dia, uma parceria entre a folha, o Spotify. Segue o café da manhã aí no seu aplicativo, que assim você não perde nenhum episódio. Pessoa 3 Eu sou o marge flores. Pessoa 1 E eu sou Maurício Meirelles. Pessoa 3 O roteiro teve participação de Ângela boldrini, a produção é de Jessica mais, Laila mouallem e Victor lacombe e a edição de som é da Natália Silva. Pessoa 1 Esse episódio usou áudios de TV Gazeta, TV Cultura, Band, AFPTV Brasil, UOL, EF Brasil. Pessoa 3 Até amanhã até.

Podcast Summary

Key Points:

  1. Manifestantes incendiaram a estátua do bandeirante Borba Gato em São Paulo, em protesto contra a homenagem a figuras ligadas à escravidão e violência contra indígenas e negros.
  2. A estátua, de 13 metros, foi alvo de críticas por representar um bandeirante, grupo que atuava na exploração e escravização durante o período colonial brasileiro.
  3. A historiadora Lilia Schwarcz explica que os bandeirantes foram transformados em heróis no final do século XIX e início do XX, especialmente pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que omitiu sua violência.
  4. O Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, também é criticado por naturalizar hierarquias raciais, com figuras brancas à frente e indígenas subordinados.
  5. O debate sobre monumentos controversos é global
  6. O poder público tem reagido com vigilância e reformas, mas há propostas para renomear espaços públicos, como o Elevado Costa e Silva (Minhocão) para João Goulart.

Summary:

O incêndio da estátua de Borba Gato, em São Paulo, reacendeu o debate nacional sobre monumentos que homenageiam figuras históricas controversas. O ato, realizado por manifestantes do grupo Revolução Periférica, teve como alvo a representação dos bandeirantes, que no Brasil colonial atuavam na escravização de indígenas e negros. A historiadora Lilia Schwarcz explica que a imagem heroica dos bandeirantes foi construída artificialmente no final do século XIX, pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que silenciou a violência desses "exércitos mercenários". Esse mito foi reforçado pelo modernismo paulistano, como no Monumento às Bandeiras, de Brecheret, que naturaliza hierarquias raciais.

O movimento global de questionamento de monumentos racistas, como a estátua de Roosevelt em Nova York, ecoa no Brasil. Schwarcz defende que a gestão da memória nacional deve ser politizada, com opções como remover estátuas para museus com novas legendas, criar contramonumentos ou instalar placas críticas. Ela critica a historiografia oficial, colonial e masculina, e aponta a necessidade de incluir protagonistas silenciados, como indígenas e africanos. O poder público, embora reaja com vigilância, começa a debater mudanças, como a renomeação do Minhocão para homenagear João Goulart. O episódio evidencia que monumentos não são neutros e que sua contestação é parte essencial da construção de uma memória nacional mais plural e justa.

FAQs

Borba Gato foi um bandeirante do século XVIII, atuando como explorador, minerador e caçador de escravizados, incluindo indígenas. Ele fazia parte do grupo que aprisionava e escravizava pessoas, sendo uma figura ambivalente na história brasileira.

A estátua foi criticada por homenagear um bandeirante associado à escravidão e violência contra indígenas e negros. Em 2020, houve medo de derrubada durante protestos antirracistas globais, e em 2021, manifestantes incendiaram a estátua como ato político.

O mito foi construído no final do século XIX e início do XX pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que silenciou a violência das bandeiras e promoveu uma imagem romantizada de desbravadores. Isso foi reforçado pelo modernismo paulistano, como no Monumento às Bandeiras.

Um contramonumento é uma intervenção crítica que questiona ou contextualiza monumentos existentes, como iluminações artísticas ou legendas. No Brasil, exemplos incluem a iluminação do Monumento às Bandeiras pelo artista Denilson Baniwa, que tensiona a narrativa colonial.

A prefeitura de São Paulo reforçou a vigilância com grades e guardas, e o prefeito Ricardo Nunes classificou o ato como vandalismo. Um empresário anônimo se ofereceu para pagar a reforma da estátua, enquanto as investigações continuam.

Schwarcz defende que monumentos que celebram traumas nacionais, como escravidão e genocídio indígena, devem ser politizados, não removidos, mas contextualizados. Isso pode incluir contramonumentos, legendas críticas ou transferência para museus, promovendo uma gestão crítica da memória.

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