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As duas frentes da guerra comercial de Trump

30m 15s

As duas frentes da guerra comercial de Trump

O episódio aborda as múltiplas frentes da ofensiva comercial de Donald Trump, focando no Canadá e no Irã. No caso canadense, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos canadenses, levando a uma retaliação direta de Ottawa, que sobretaxou 700 produtos americanos. A analista Cristina Pesequilo explica que, apesar da dependência canadense dos EUA, a postura firme é necessária, mas gera custos para ambos os lados, especialmente em um cenário de inflação e queda na popularidade de Trump. Já no Irã, os EUA anunciaram sanções econômicas massivas, mirando países que negociam com Teerã, como China e Rússia, que resistem à pressão. A estratégia americana é vista como frágil e improvisada, com riscos de escalada militar e efeitos globais. Por fim, discute-se o Brasil, que, sob Lula, busca negociação diplomática com Trump, evitando confronto direto, mas defendendo sua soberania. Pesequilo conclui que o Brasil deve manter uma postura de negociação e cooperação, sem submissão, para proteger seus interesses econômicos. O episódio destaca a imprevisibilidade de Trump e as consequências de suas políticas para a economia global e o cenário político americano.

Transcription

4490 Words, 26273 Characters

Portuguese
Speaker 1Já conhece o empréstimo com garantia de veículo do Banco BV? Com ele, você tem o dinheiro que precisa para organizar sua vida financeira. Acesse bv.com.br.
Speaker 2Na segunda-feira, o assunto começou uma série de episódios sobre temas relevantes para a eleição brasileira. A gente começou tratando das relações internacionais e, como não poderia deixar de ser, falamos da ofensiva comercial dos Estados Unidos sobre o Brasil. Acontece que a gestão de Donald Trump não tem apenas o Brasil como alvo. O ataque é global. As armas são várias. Tarifassos, ameaças, ofensas.
Speaker 3Eles são escondidos, eles são pessoas doentes. Eles são pessoas violentas, viciadas. Eles estão levando você em alguma forma. O que eu gostaria de ver é o Canadá ser nosso 51º estado. Eu fui salvado por Deus para tornar a América grande de novo.
Speaker 2Quando a equipe do assunto conversou com especialistas em Relações Internacionais, uma frase chamou a nossa atenção.
Speaker 4Deixa eu te dizer uma coisa que parece assustador.
Speaker 2Este é o professor Leonardo Trevisan.
Speaker 4Esse não é o momento mais difícil?
Speaker 2Trevisan falava um pouco do passado, quando o mundo teve que lidar com duas guerras mundiais e décadas de guerra fria e corrida armamentista. Mas alerta também para um futuro no qual a mais poderosa potência econômica e militar do planeta age de modo imprevisível e cria uma imprensa. A instabilidade na qual o aliado de hoje é o inimigo de amanhã. E que estão sob o risco de levarem até um multimato imposto pelo homem que comanda essa potência.
Speaker 5Besson disse que Trump está telefonando para líderes mundiais para pedir que cortem relações comerciais com o Irã. Chegou a hora de esses líderes escolherem entre os Estados Unidos e o Irã, afirmou o secretário.
Speaker 6Segundo ele, cada país tem uma proposta.
Speaker 5Segundo ele, cada país tem uma proposta. Segundo ele, cada país tem uma proposta. O país vai ter um prazo para tomar medidas. Caso contrário, enfrentarão consequências.
Speaker 2Desta vez, a ameaça de Trump tem como pano de fundo o conflito no Golfo Pérsico. E a estratégia é escalar a guerra pela via econômica.
Speaker 5Donald Trump chamou o dia de dia D. Sem conseguir encerrar a guerra e declarar vitória, a ofensiva desta vez é econômica. O secretário do Tesouro, Scott Bassant, anunciou a operação Paralel. O ministro da Economia do Irã disse que o país está totalmente preparado.
Speaker 7Ele afirmou que o governo tem as próprias ferramentas e sabe como jogar o jogo. E disse que nem a China, nem a Rússia, os dois principais parceiros comerciais do Irã, aceitaram essas sanções americanas, prevendo que outros países também vão resistir. Mas os americanos não descartam também a via militar.
Speaker 8E Donald Trump afirmou que está considerando um ataque maciço contra o Irã. Segundo ele, a ação seria mais intensa do que todas as operações realizadas até agora.
Speaker 2Esta é uma guerra que os Estados Unidos travam do outro lado. Mas há outra que está bem perto dos americanos. O inimigo, entre aspas, fica do lado norte da maior fronteira terrestre do planeta. Um adversário com quem os americanos têm uma relação pacificada há mais de dois séculos.
Speaker 9Os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% sobre produtos do Canadá. Essa taxação tinha sido adiada em três dias, enquanto os dois países estavam em negociação. Estados Unidos e Canadá não conseguiram fechar um acordo. Uma autoridade de Canadá A autoridade do governo Trump afirmou que as tarifas incidem sobre 20 bilhões de dólares em produtos canadenses.
Speaker 2O conflito comercial entre Estados Unidos e Canadá começou a tomar corpo em 20 de julho. Naquela data, Donald Trump impôs tarifa de 50% sobre os produtos canadenses. O Canadá primeiro tentou a diplomacia. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, até falou que as conversas avançaram. Os americanos disseram o mesmo. Mas, no fim, as coisas emperraram. E, na noite, na noite de 21 de agosto, o acordo desandou de vez. A meia-noite 1 de 22 de agosto, entrou em vigor a tarifa de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares em produtos canadenses. Carney não ficou quieto. Afirmou que o Canadá foi atacado e prometeu retaliação. Dólar por dólar.
Speaker 10O governo canadense vai impor
Speaker 11sobre taxas de 15, 25, ou 50% a mais de 700 produtos americanos importados, avaliados em 20 bilhões de dólares. Depois que as negociações entre Estados Unidos e Canadá falharam, o presidente americano anunciou tarifas de 50% a produtos canadenses, além de outras tarifas específicas para veículos, autopeças e aço produzidos no país vizinho.
Speaker 2As vésperas das eleições de meio de mandato, que serão realizadas em novembro, e diante de um recorde de reações, de rejeição nas mais recentes pesquisas de opinião nos Estados Unidos, Donald Trump age na contramão do que recomendam todas as cartilhas de guerra e abre várias frentes de combate em sua ofensiva comercial.
Speaker 12Os Estados Unidos estão irreconhecíveis no que diz respeito ao improviso, à falta de planejamento, à falta de estratégia. Todas essas possibilidades que têm sido levantadas pelo governo americano de novas sanções econômicas, de um ataque econômico de grandes proporções, me parece, me parece muito frágil. É inacreditável. A gente está falando de um governo americano sem projetos, sem planos, sem estratégia e que vai ali improvisando de acordo com os acontecimentos.
Speaker 2Da redação do G1, eu sou Nath Zaneri e o assunto hoje é Canadá-Irã. As duas frentes de ofensiva de Trump. Neste episódio, eu converso com Cristina Pesequilo, doutora em ciência política pela USP, professora de relações internacionais da Unifesp e analista da rádio CBN. Quarta-feira, 26 de agosto. Cristina, eu quero começar a nossa conversa falando da impressionante reação canadense ao tarifácio do Trump. O senso comum diz que o Canadá é o lado mais fraco dessa história. E a sua reação, portanto, leva a gente a pensar que um contra-ataque pode ser muito nocivo para a economia canadense, que é muito dependente dos Estados Unidos. Só para dar um dado aqui, 70% das exportações canadenses vão para os Estados Unidos. E o primeiro-ministro, o Mark Carney, ele está enfrentando os Estados Unidos naquela base do olho por olho, dente por dente. Ou seja, tudo que os Estados Unidos sobretaxou, o Canadá vai sobretaxar também dos produtos americanos. Então eu queria uma análise tua para tentar entender se esse caminho escolhido pelo Canadá contra esse bullying de Trump é o caminho que vai na direção certa.
Speaker 13Eu acredito, Natuza, que o Canadá está caminhando sim na direção certa, embora vão existir custos para o Canadá por conta dessa dependência econômica que existe há muitos anos e é um fato que foi concretizado, com a criação do NAFTA, ainda nos anos 90, o NAFTA que o próprio Trump reformou, fazendo uma nova negociação com o Canadá e o México, para justamente favorecer mais os Estados Unidos no seu primeiro mandato, é algo que, ainda assim, o Canadá precisa enfrentar.
Speaker 14É um NAFTA melhorado. O Donald Trump inventou um novo nome, vai se chamar o SMCA, não soa nada com nada, não é NAFTA, um nome facilzinho de dizer, assim como era o outro, mas é basicamente, exatamente a mesma coisa, com algumas melhorias. Quando ele falava, durante a campanha, que queria acabar com o NAFTA, ele queria dizer que ele fez o grande acordo entre os três países. O acordo é diferente do NAFTA. É uma cota de exportação de laticínios aqui dos Estados Unidos para o Canadá, laticínios, aves e ovos. Os Estados Unidos conseguiram que o Canadá abrisse um pouco mais o mercado desses três produtos para os produtos americanos, que tinha uma cota muito limitada, e aí o Canadá topou criar novas
Speaker 13cotas. O Canadá, na verdade, ele vem se preparando nos últimos anos, eu diria, desde o primeiro governo Trump, para enfrentar esse tipo de bullying, como você falou. Ou seja, buscando alternativas fora da relação comercial com os Estados Unidos e com o próprio México para justamente reduzir a sua dependência. Nós estamos falando de países como a China, a própria Índia, a União Europeia, com os quais o Canadá tem feito novos acordos. Agora, o Canadá não só está repalhando os Estados Unidos, como ele está fazendo essa repaliação com medidas internas para justamente mitigar o efeito para aqueles setores que seriam mais afetados e perderiam mais mercado. Só que nós estamos num momento em que existem exageros na pauta do Trump, exageros feitos até para reafirmar sua autoridade em casa. Então, Se existem custos para o Canadá, também vão existir. de custos para os Estados Unidos.
Speaker 15700 produtos americanos, que somam um total de 20 bilhões de dólares, serão sobretaxados pelo Canadá a partir agora do dia 8 de setembro. Ferramentas e materiais de construção, tarifas de 15%. 25%, por exemplo, eletrodoméstico, laticínio. E aí, os 50, a tarifa mais alta para itens como aço, alumínio, smartphones, roupas. Cerca de 70% dos produtos que o Canadá exporta vão para os Estados Unidos. E o Canadá é o segundo maior parceiro econômico dos americanos. Trump fez uma nova provocação nas redes sociais. Dessa vez, ele sugere mudar o nome do Lago Ontário, que fica na fronteira entre os países, para Lago América. Os ministros canadenses que anunciaram a retaliação disseram que não vão se dobrar e nem assinar a acordo comercial ruim para o Canadá.
Speaker 2Eu queria entender um pouco mais desse custo para os Estados Unidos, porque Trump vai dobrando a aposta e eu não sei o quanto ele mede de consequência. Que tipo de consequência pode ter para o mercado americano esse contra-ataque canadense?
Speaker 13É muito interessante, Natuzzi, todos que nos escutam, que esse contra-ataque canadense afeta justamente aquilo que preocupa mais o Trump e seus aliados perto de um eleitorado. O que é justamente o custo de vida. Nós temos hoje um Estados Unidos que está enfrentando uma inflação crescente de bens, de serviços, mas também de produtos básicos para o dia a dia. E há, nesse sentido, uma importância muito grande do Canadá no fornecimento de alguns desses bens. O Trump não mede muito as consequências dos seus atos. Ele tem um padrão que a gente conhece de empresa. Então, ele é um outsider, ele é uma pessoa que sempre viveu fora da política e na economia, nos seus negócios, ele sempre esteve acostumado a fazer esse tipo de pressão, a jogar muito mais forte com aqueles que ele considera fracos, esperando que esses que ele considera fracos recuem. E o que ele está observando é que na política externa, na presidência, isso não se aplica. Então, são países que ele negocia que são países soberanos, que têm interesses, que precisam, que precisam prestar contas também sobre a sua população. Então, o custo para o Trump é um custo não só de perder o apoio do eleitor, ou seja, ele já está com a popularidade muito ruim.
Speaker 16A aprovação de Donald Trump atingiu o menor nível desde o início da guerra no Irã. Essa é uma pesquisa Reuters/Ipsos. A desaprovação bateu em 65% contra aqueles que aprovam, que são 33%. Desde o final de janeiro do ano passado, seis dias depois da posse segundo o mandato de Trump, a desaprovação ao presidente vem vindo sempre maior do que o percentual dos que aprovam. E agora atinge o seu ápice. Essa pesquisa também quis saber o que os americanos pensam sobre os ataques dos Estados Unidos ao Irã. Uma ampla maioria, 63%, diz desaprovar.
Speaker 13Mas ele parece achar que ele vai chegar no limite e os outros vão recuar. Isso não tem acontecido. São estados soberanos que resistem. Então, a gente fica naquela expectativa de novamente esses dois países, Estados Unidos e Canadá, tentarem chegar a algum acordo antes do ultimato canadense, que é oito de setembro, para essas tarifas entrarem em vigor. Não seria novidade para o Trump, porque ele vem e vai em algumas decisões, tanto que a mídia americana muitas vezes diz que ele é covarde. Aquela ideia do taco, né, do Trump always chickens out, né? Trump sempre dá para trás.
Speaker 17A oposição deu esse apelido por causa das idas e vindas do presidente nas tarifas comerciais contra outros países. Isso fez o apelido viralizar, virou meme e trend nas redes. Trump se irritou quando uma repórter perguntou sobre isso, negou que estivesse amarelando e disse que era só negociação.
Speaker 13E esse custo também da falta de credibilidade, o custo de você colocar no cidadão americano o peso de decisões que não necessariamente ele escolheu quando ele votou para presidente em 2024. Muito pelo contrário, ele votou contra o preço alto, contra a inflação, e ele está se deparando com todo esse cenário novamente.
Speaker 2Só me ajuda aqui a refrescar a minha memória. De todos os países sobretaxados pelo Trump, quem dobrou a aposta foram China e Canadá, só que com China chegou um acordo, foi isso? Ou foi somente o Canadá? Agora a minha memória... Deu, entrou em parafuso.
Speaker 13Não, tá beleza, Natuza. China também entrou em rota de colisão com os Estados Unidos, né? E a China é um país que, diferente do Canadá, tem um poder de resistência maior. E até vem fazendo alianças com o Canadá para aumentar o poder de resistência do Canadá. Houve uma concessão da China em alguns setores na última visita do Trump à China, ainda nesse ano, ou seja, abrir mercados para algumas commodities americanas para entrar na China, principalmente carne bovina, grãos. Mas a China também tem a capacidade de dizer para os Estados Unidos: "Olha, eu não vou vender mais para você suas terras árabes, seus minerais críticos que você precisa se você continuar me depalhando, seja no campo da tecnologia ou seja no campo desse comércio do dia a dia, que é o que a gente está vendo com o Canadá."
Speaker 2Por que o acordo entre Estados Unidos e Canadá fracassou se há um mutualismo ali, né? Se um precisa do outro?
Speaker 13O que acontece na política internacional hoje é que essa noção de interdependência, de que você vai ter custos para todos e não benefícios, nesse caso, de dois países pararem de conversar, levantarem da mesa, nem sempre se aplica, né? A gente está vendo aí uma lógica, que é uma lógica um pouco mais agressiva, no sentido de fazer o outro recuar e o Trump, ele não tem tido sucesso e o Canadá tem um outro fato, também, que a gente tem que considerar. Ele pode também estar querendo colocar mais pressão no Trump para que o Trump volte numa situação diferente para a mesa de negociação, ou seja, assim como o Trump aposta, o Canadá também aposta, porque muitos dos Estados americanos que serão afetados com o maior aumento de inflação e custo de vida são Estados republicanos e isso pode afetar as perspectivas dos aliados de Trump nas eleições de meio de mandato de tentarem se eleger e, com isso, o Trump coloque em xeque o controle da Câmara e do Senado, que é algo que ele realmente não gostaria de perder.
Speaker 2Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Cristina.
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Speaker 2Bom, eu quero então ir contigo para uma outra região do globo, que é a região do Golfo Pérsico, mas eu quero falar do Golfo do ponto de vista comercial, porque o Departamento do Tesouro americano disse que sancionou cerca de 60 pessoas, entidades e embarcações ligadas ao governo iraniano que atuam na área de energia nuclear, também está, sobretudo, focando na economia, porque anunciaram na segunda-feira uma leva de sanções que podem mexer com o custo das coisas por lá, inclusive ameaçando países que realizam transações econômicas com o regime iraniano. Eu quero te pedir para explicar do que se trata essa nova ofensiva, e analisar quais são os limites desse poder unilateral que Washington ainda tenta impor por lá.
Speaker 13A gente tem aqui, Natuz, uma situação muito curiosa, que é o Trump tentando separar a geopolítica da geoeconomia. Então ele diz, olha, os ataques ao Irã, essa operação militar em si, nós já vencemos, o Ormuz está funcionando plenamente, que a gente sabe que não é bem verdade, mas aí ele coloca esse elemento geoeconômico. Dizendo, olha, nós vamos apertar não mais só o Irã com essas sanções econômicas, mas nós vamos também apertar aqueles que ajudam o Irã a sobreviver economicamente. E de quem que a gente está falando aqui? O principal parceiro comercial do Irã é a China. E a China já avisou que ela não vai ceder a essas pressões unilaterais dos Estados Unidos, e que ela vai continuar fazendo negócios com o Irã, por conta da sua necessidade de acesso a bens energéticos. Ou seja, a Irã vende petróleo para a China, isso vai continuar acontecendo. A China também vai continuar importando esse produto. Então a gente vai ter a manutenção dessa relação bilateral. E acontece também de afetar outros países, que são até alguns aliados dos Estados Unidos, como Emirados Árabes Unidos, Turquia, Afeganistão, que é um país com o qual os Estados Unidos tentam se reaproximar, apesar do governo do Talibã. A gente tem a situação muito... Muito difícil no Iraque também.
Speaker 6Em essência, vai ser a adoção de sanções contra todos os países que têm negócios com o Irã, sem exceções. Mas Besson se recusou a dizer quais países. O Tesouro Americano mapeou cada elo, cada facilitador e cada rede que o Irã usou para contrabandear petróleo e driblar as sanções. As sanções atingem uma rede de empresas que apoiam a frota de navios fantasma do Irã, que operam nos Emirados Árabes Unidos, Hong Kong, China, Singapura, Suíça e na Europa como um todo. Os maiores parceiros comerciais do Irã são a China, os Emirados Árabes, a Turquia, o Iraque e a Rússia. O secretário do Tesouro disse que esta é a maior ofensiva financeira já mobilizada contra um adversário.
Speaker 13Então essa guerra geoeconômica, ela aparentemente não vai ter sucesso mais uma vez. Por quê? Porque mesmo você sancionando 60 empresas, continuam existindo outras. Outras empresas que não serão sancionadas. E isso também no momento de não querer desagradar a China, à medida que os Estados Unidos e a China têm uma reunião de cúpula prevista para setembro entre Trump e Xi, seria uma sequência daquela reunião do início do ano. Então a gente vê aí um quadro geoeconômico que não necessariamente ele vai ter os resultados que o Trump espera. E aí vem a questão do unilateralismo, né? Qual o limite? Aqui eu acho que a gente pode separar. Não há limite para Trump, para os Estados Unidos, tomarem decisões unilaterais. Que é o que a gente tem visto desde que ele tomou posse no seu segundo mandato. Porém, existem limites para a efetividade do unilateralismo. Ou seja, ele pode decidir, ele pode tomar as ações, mas não necessariamente o resultado vai ser aquele que ele espera. E aí vem mais uma questão. No mundo de hoje, não há como você... separar geopolítica de geoeconomia. Então são medidas que visam estrangular o regime iraniano, mas que mexem não só com a geoeconomia, mas de novo com a reafirmação e reconfiguração de alianças no Oriente Médio, que nós temos assistido e que tem se acelerado.
Speaker 2O Irã também teve o seu momento olho por olho, dente por dente, porque prometeu que vai retaliar e vai cortar o escoamento de petróleo via o Estreito de Hormuz. Se os vizinhos... da região do Golfo cooperarem com as sanções de Donald Trump. E aí eu te pergunto, qual é o risco real de um efeito dominó global?
Speaker 13O dominó e a escalada, eles estão em andamento cada vez mais rápido. Cada crise, a gente vê o risco aumentando. Então, por exemplo, quando o tema Ucrânia acabou se sobrepondo ao tema Irã. Nós tivemos alguns ataques de drones e isso levou a um tensionamento, entre o Irã e a Ucrânia, que poderia, de repente, tornar todo aquele sistema eurasiano, ou seja, você juntar uma guerra no Irã com uma guerra na Ucrânia, de repente trazendo a Rússia, que também é um país que não deixou nunca de apoiar o Irã, para esse tabuleiro que vinha sendo Estados Unidos, Israel e Irã. Então, o risco sempre ocorre para o Irã. Quanto mais a guerra se prolongar, seja ela política, seja ela econômica, é mais interessante. O Irã, ele... Tem uma resistência que vem de uma visão de soberania, mas também de uma visão civilizacional. O Trump prometeu destruir a civilização iraniana e se surpreende com essa resistência, com esse orgulho iraniano que vem cada dia mais se renovando.
Speaker 18Donald Trump voltou a fazer ameaças, escreveu na rede social dele que se o Irã não fizer um acordo, uma civilização inteira morrerá. Foi mais um dos posts ameaçadores. Ele também diz que, com a mudança, completa do regime, talvez algo revolucionário possa acontecer e que a gente vai descobrir.
Speaker 13Por outro lado, o Trump, a cada ultimato que não se realiza, a cada fracasso político que acontece, ele tem um custo maior. Ou seja, para ele é interessante que a situação se resolva. E ela acaba não se resolvendo. Mas eu tenho, sim, receio dessa escalada e dessa meio-guerra total.
Speaker 2Cristine, tem uma preocupação no horizonte. Porque imagina... O cenário em que, fazendo tudo isso, fazendo bullying com uma porção de nações, o Trump consegue vitória na Câmara, consegue vitória no Senado. Aí ele vai ficar mais imparável do que nunca, né?
Speaker 13Vai, vai ficar, Natuza. Mas eu acho que, no caso da política americana, o que a gente tem observado são sempre alternâncias no poder. Quando o Trump estava no seu primeiro mandato, esses dois primeiros anos, de 2017 a 2020, em 2019, ele bateu muito pesado. Não tão pesado no mundo quanto ele está batendo agora, mas você tinha alguns sinais de insatisfação do eleitorado. E ele acabou, naquele momento, perdendo a Câmara. A gente, obviamente, não vai fazer nenhuma previsão maluca aqui, até porque falta muito para a eleição. Mas, quando você pensa em termos de eleição distrital, é um risco, sim, o Trump perder a Câmara. O Senado, eu ainda acho que os republicanos, eles têm uma chance de manter. Só que isso também pode mudar. Então, o Trump meio que, ele está esquecendo algumas lições dele do primeiro mandato, desse risco de perder a maioria na Câmara e no Senado. E você perder a Câmara, de repente, significa para os republicanos ter que enfrentar um presidente na Casa Branca com processo de impeachment. Os democratas já tentaram fazer isso duas vezes no outro mandato dele, até quando ele já tinha saído da presidência. Então, o jogo político americano, ele viraria.
Speaker 2Eu queria terminar a nossa conversa voltando para o tema do início dela. Mas, não olhando profundamente para o Canadá desta vez, olhando aqui para o Brasil. A gente também sofre o bullying do Trump. Eu queria que você avaliasse o mais recente acontecimento, o contato de Lula e de Trump. Mas, para te perguntar se essa firmeza na reação canadense pode servir de espelho para outros aliados comerciais, em particular, o Brasil. Lembrando que o Brasil já começou a acionar os botões da reciprocidade, mas é sempre aconselhado a não fazê-lo, porque a rebordosa pode ser muito grande. O que dá para dizer sobre o Brasil?
Speaker 13O Brasil é um caso interessante, Natuza, quem nos escuta. Porque o Brasil hoje está passando por um processo eleitoral. O governo Lula, que é o presidente do Brasil, o governo Lula está com todos os olhos voltados para ele. E nós temos, principalmente, uma parte dos candidatos que desafiam Lula à presidência, críticas muito pesadas de que Lula não estaria sentando na mesa de negociação com os Estados Unidos. O que não é verdade. O Brasil está sentando na mesa de negociação com os Estados Unidos, está sentando corretamente, trazendo argumentos técnicos.
Speaker 19O presidente Lula conversou por telefone com o presidente dos Estados Unidos Donald Trump por cerca de uma hora e vinte minutos.
Speaker 20E segundo a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, o presidente Lula pediu negociações sobre o tarifácio. Ele argumentou que o novo tarifácio é aquele que nasceu a partir de investigações do escritório do representante comercial dos Estados Unidos. Segundo o presidente Lula, as alegações dessa investigação, por exemplo, desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, PIX, etanol, importações de produtos com trabalho forçado, segundo o presidente Lula falou ao presidente Donald Trump, são infundadas. O presidente Lula defendeu a negociação sobre as tarifas, argumentando que elas prejudicam tanto o Brasil quanto os Estados Unidos. O presidente Donald Trump concordou com a necessidade de preservar os vínculos comerciais fortes entre os dois países.
Speaker 13Agora, é uma conjuntura eleitoral e todo mundo tem interesse nessa conjuntura. Isso, na minha visão, afasta, de repente, um cenário de maior agressividade contra os Estados Unidos. No modelo Canadá, se a gente puder usar o Canadá como modelo, acho que ele acaba se tornando um pouco isso. Mas, de fato, o Brasil não pode ceder nas negociações comerciais, porque, na prática, se a gente for pensar sem contexto eleitoral, sem essas nuvens que eu falo de cortinas de fumaça, o que o Brasil está fazendo é totalmente correto. Porque, na verdade, o Brasil, hoje, é um país extremamente importante para os Estados Unidos, em certos setores, principalmente setores de commodities. Lembrando que existe, sim, uma lista de exceções nas quais constam produtos que os Estados Unidos precisam que o Brasil continue vendendo para eles, para não agravar ainda mais a situação do consumidor americano, ainda mais agravar a perda de popularidade de Trump. Então, em síntese, o Brasil tem feito correto o Itamaraty e todos os órgãos técnicos do governo brasileiro também, o governo Lula reafirmando a sua soberania. Há uma conversa olho no olho, só que existem interesses que não são só econômicos, lógicas que não são só econômicas, do lado dos Estados Unidos. Eu acho que o Brasil não pode fazer nada diferente agora, por conta desse contexto. Negociação e cooperação é, primeiro, olho no olho, mas é um momento onde nunca vai existir plena harmonia nunca vai existir plena concordância e se, de repente, um ceder demais para o outro, não é necessário. negociação e nem cooperação. É apenas submissão. E o Brasil não pode, não precisa e não deve ser um país submisso em nenhuma negociação, nenhuma negociação com os Estados Unidos. Cristina,
Speaker 2muito obrigada pela conversa. Foi um prazer te receber aqui. É sempre
Speaker 13um prazer, Natúlio.
Speaker 2Este foi o assunto podcast diário no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granema. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
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Podcast Summary

Key Points:

  1. A ofensiva comercial de Donald Trump contra vários países, incluindo Canadá e Irã, é o tema central do episódio.
  2. O Canadá retaliou com tarifas de até 50% sobre produtos americanos, em uma postura de "olho por olho", apesar da dependência econômica dos EUA.
  3. Os EUA impuseram sanções econômicas ao Irã e ameaçam escalar para ações militares, mas enfrentam resistência de parceiros como China e Rússia.
  4. A popularidade de Trump está em queda, com desaprovação recorde, e suas ações podem afetar as eleições de meio de mandato.
  5. O Brasil, sob Lula, busca negociação com os EUA, defendendo seus interesses sem ceder à pressão, em meio a um contexto eleitoral.

Summary:

O episódio aborda as múltiplas frentes da ofensiva comercial de Donald Trump, focando no Canadá e no Irã. No caso canadense, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos canadenses, levando a uma retaliação direta de Ottawa, que sobretaxou 700 produtos americanos. A analista Cristina Pesequilo explica que, apesar da dependência canadense dos EUA, a postura firme é necessária, mas gera custos para ambos os lados, especialmente em um cenário de inflação e queda na popularidade de Trump.

Já no Irã, os EUA anunciaram sanções econômicas massivas, mirando países que negociam com Teerã, como China e Rússia, que resistem à pressão. A estratégia americana é vista como frágil e improvisada, com riscos de escalada militar e efeitos globais. Por fim, discute-se o Brasil, que, sob Lula, busca negociação diplomática com Trump, evitando confronto direto, mas defendendo sua soberania.

Pesequilo conclui que o Brasil deve manter uma postura de negociação e cooperação, sem submissão, para proteger seus interesses econômicos. O episódio destaca a imprevisibilidade de Trump e as consequências de suas políticas para a economia global e o cenário político americano.

FAQs

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Os EUA impuseram uma tarifa de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares em produtos canadenses, incluindo veículos, autopeças e aço.

O Canadá respondeu com retaliação dólar por dólar, impondo tarifas de 15%, 25% ou 50% sobre mais de 700 produtos americanos, avaliados em 20 bilhões de dólares.

Os principais parceiros comerciais do Irã são a China, os Emirados Árabes Unidos, a Turquia, o Iraque e a Rússia.

Os EUA impuseram sanções econômicas contra cerca de 60 pessoas, entidades e embarcações ligadas ao governo iraniano, ameaçando países que realizam transações com o Irã.

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