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A interferência (cada vez mais explícita) dos EUA na eleição brasileira

31m 48s

A interferência (cada vez mais explícita) dos EUA na eleição brasileira

A transcrição revela que os Estados Unidos enviaram ao Brasil, durante negociações para reverter tarifas, um documento com 52 exigências. Entre elas, a mais polêmica pedia garantia de que "dissidentes políticos" pudessem disputar as eleições de 2026. A expressão, típica de regimes autoritários, foi interpretada como referência a Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. O governo brasileiro rejeitou a exigência, reafirmando que questões políticas e judiciais não são negociáveis. A diplomacia brasileira classificou o pedido como interferência indevida e lembrou que Bolsonaro perdeu os direitos políticos por decisão judicial transitada em julgado. A análise do professor Oliver Stuenkel, da FGV, indica que o governo Trump utiliza tarifas e sanções como ferramentas de pressão política, adotando um "intervencionismo partidário" na América Latina. A designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, além de sanções contra ministros do STF, seriam gestos para favorecer Flávio Bolsonaro. A investigação sobre a Rockbridge Network, ligada a J.D. Vance, levanta suspeitas de apoio financeiro estrangeiro à campanha. Stuenkel pondera que, mesmo com Flávio eleito, o alinhamento total com Washington seria limitado por interesses econômicos brasileiros, especialmente com a China. O episódio evidencia uma nova normalidade nas relações internacionais, marcada por interferências explícitas e ameaças retóricas.

Transcription

4544 Words, 27920 Characters

Portuguese
Speaker 1Lista de exigências é uma expressão que a gente costuma ouvir em situações de sequestro, chantagem, negociações, supressão. Uma lista com 52 itens e, entre eles, uma exigência para que dissidentes políticos, exatamente essa expressão, dissidentes políticos, possam disputar a eleição.
Speaker 2Essa expressão dissidentes é uma expressão, de um modo geral, usada em países comunistas. Dissidentes são aqueles que discordam de ditaduras internas e são presos, como é no caso da Rússia, por exemplo, houve muitos dissidentes presos. Essa exigência constava de um documento enviado
Speaker 1pelos Estados Unidos ao Brasil no contexto das negociações para reverter o tarifácio. E essa informação foi revelada somente agora.
Speaker 3Informação trazida pelo jornal Estado de São Paulo, a Globo News também confirmou, com fontes na Diplomacia, que sim. Desde o ano passado, quando Donald Trump enviou aquela carta endereçada ao presidente Lula e que fazia menção, nas palavras dele, à caça às bruxas, numa referência ao processo ao qual o ex-presidente Jair Bolsonaro respondeu no Supremo Tribunal Federal e pelo qual ele foi condenado por crimes como tentativa de golpe de Estado, desde aquele momento integrante do governo. E eu estou falando do itinerário. do Palácio do Planalto, também do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, vinham dizendo o seguinte, que havia componentes para além das questões comerciais. Até porque um dos pontos colocados por Donald Trump fazia referência a um déficit comercial dos Estados Unidos com o Brasil. Quando, na verdade, ao contrário, os Estados Unidos têm déficit nessa relação comercial. Então, os integrantes do governo vinham dizendo que havia, sim, elementos políticos.
Speaker 1No ato, a diplomacia brasileira rejeitou... o pedido e disse que questões políticas, judiciais e de soberania não estariam na mesa de negociação.
Speaker 4Não existe essa figura no Brasil, um dissidente ou alguém que seja contra o governo Lula e que, por isso, esteja proibido de disputar a eleição. Então, primeiro, o questionamento para o governo americano é o seguinte, que dissidente é esse? Será que eles estavam se referindo a Jair Bolsonaro, o ex-presidente da República? Será que eles foram condenados na ação penal do golpe e, por isso, perderam os seus direitos políticos? Aí não se trata de um dissidente político. Aí se trata de um político que foi condenado, com trânsito em julgado, está cumprindo pena e, neste caso, a legislação brasileira não permite que ele seja candidato. Ele não pode nem votar, nem ser votado. É o que prevê a nossa legislação.
Speaker 1Mas esse é apenas um capítulo dessa história toda. Uma retórica que começou lá atrás, pouco antes do julgamento da tentativa de golpe aqui no Brasil.
Speaker 5Do nada, Donald Trump deu ao Brasil o pior tratamento entre todos os países atingidos pela guerra comercial que ele deflagrou. 50% sobre todas as nossas exportações para os americanos. Numa carta dirigida ao presidente Lula, Trump abriu atacando o processo em que Bolsonaro é réu no Supremo. O presidente americano já tinha dito que esse julgamento... O julgamento era uma caça às bruxas.
Speaker 1Depois, vieram as sanções contra ministros do Supremo.
Speaker 6Estados Unidos sancionam o ministro do STF, Alexandre de Moraes, com a Lei Magnitsky, que é usada para punir estrangeiros por parte do governo norte-americano.
Speaker 1E teve mais: o governo americano classificou as facções criminosas, PCC e Comando Vermelho, como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas.
Speaker 7O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas. O governo Trump cita o envolvimento das facções contra o governo americano como organizações terroristas.
Speaker 8o aval para o novo embaixador americano assumir o cargo em Brasília. Só que o governo brasileiro diz que essa justificativa é falsa e que os Estados Unidos anunciaram o nome do indicado antes do processo diplomático normal.
Speaker 1E lembra do tarifácio contra os produtos brasileiros? Aquele que a Suprema Corte americana derrubou? Pois é, teve um outro depois desse. O governo dos
Speaker 9Estados Unidos propôs um novo tarifácio de 25% sobre produtos brasileiros. A medida veio depois de uma investigação concluir que o Brasil aplica práticas comerciais consideradas injustas.
Speaker 1E na terça-feira, durante a melancólica sessão do Supremo Tribunal Federal, mais uma página desse livro de interferências foi escrita. O ministro Flávio Dino, durante a sessão, verbalizou isso.
Speaker 10Está aqui. Band, Estados Unidos prepara o rascunho de possíveis novas sanções amorais. 247. Estados Unidos pode retomar sanções contra morais após sessão do STF. Dessa sessão. Jovem Pan. Estados Unidos avalia uma nova rodada de sanções contra o ministro do STF. E isso aqui é uma ingerência indevida?
Speaker 1Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é a interferência explícita dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Neste episódio, eu converso com Oliver Stunk, professor de Relações Internacionais da FGV e pesquisador do Carnegie Endowment. Sexta-feira, 18 de setembro. Bom, Oliver, o governo Trump mandou ao Brasil uma lista com 52 exigências durante as negociações para derrubar o tarifácio. E aí o que chama mais atenção nessa história é a garantia de que dissidentes políticos, e essa expressão foi usada, participassem das eleições de 2026. E o Brasil, claro, rejeitou essa e outras propostas, porque essa não era, a única. O que os Estados Unidos estavam pedindo na prática? Como é que a gente faz a interpretação desse texto?
Speaker 11Bom, o governo Trump, quando anunciou as tarifas, já havia mencionado temas como esses, que não têm relação nenhuma com questões comerciais. Então isso, em primeiro lugar, mostra claramente que o governo Trump utiliza tarifas para atingir metas em áreas não relacionadas ao comércio. Utiliza tarifas, como ferramenta política, mas também esse documento explicita claramente o desejo por parte dos Estados Unidos de interferir em assuntos internos no Brasil, ou seja, de utilizar as tarifas como uma ameaça. E faz uma premissa de que há dissidentes políticos no Brasil, sendo que o termo dissidentes implica o regime autoritário. A gente fala de dissidentes políticos, em regimes não democráticos e isso também explica porque a resposta brasileira justamente tem sido rejeitar essa premissa e dizer que houve um processo formal, democrático, que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas mostra claramente não apenas o pronunciamento do presidente, mas também como isso de fato ocorreu na prática durante as
Speaker 12negociações. Eu acho que essa revelação deixa muito claro, o objetivo final daquela interferência, daquela ameaça do tarifasso 1.0, de todo o processo que vem sendo costurado desde fevereiro de 2025 por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo lá nos Estados Unidos. Parecia que era somente sobre o julgamento de Jair Bolsonaro, de impedir que ele fosse julgado e condenado. Agora a gente está sabendo que a intenção era mais ambiciosa. Não era somente interferir, no julgamento, impedir a condenação, mas também devolver Jair Bolsonaro, todo o campo, todo o grupo ao processo eleitoral.
Speaker 1É curioso porque eu falava com uma fonte da diplomacia brasileira que dizia que esse documento, essa lista com 52 exigências, foi entregue pela equipe técnica americana à equipe técnica brasileira, que repassou esse documento ao ministro Mauro Vieira, que sequer aceitou que esse documento estivesse sobre a mesa de negociações. E aí nas reuniões posteriores, tanto de Mauro Vieira com os seus interlocutores americanos, tanto quanto na reunião de Lula com Trump, nos encontros em que eles estiveram, esse documento não foi mais citado, saiu de cena. Só que de lá pra cá, muitos gestos começaram a ser interpretados pelo lado brasileiro como gestos de interferência nas eleições e no processo político. O governo americano não está de acordo com todas as regras da política interna aqui no Brasil. Até onde o governo estrangeiro, até onde os Estados Unidos podem ir ao colocar o processo eleitoral de um país amigo na mesa de negociação,
Speaker 11de uma negociação que nada tem a ver com isso, de uma negociação comercial? O atual governo americano enxerga a América Latina como parte integral de sua zona de influência. A partir dessa constatação, o governo americano está fazendo, tentando fazer, e uma das questões chave é pressionar outros países para adotarem políticas alinhadas com os interesses dos Estados Unidos. Isso tem muito a ver com, por exemplo, da influência chinesa em algumas áreas-chave. Isso também tem a ver com o desejo de lidar, acima de tudo, com governos ideologicamente aliados com Washington. O termo utilizado aqui em Washington é de partisan interventionism, ou seja, intervencionismo partidário. É a tentativa de Washington de dar apoio a candidatos e políticos aliados ideologicamente e dificultar a vida de políticos que não possuem esse alinhamento.
Speaker 13Nesse documento, o Donald Trump disparou uma série de críticas para governos que ele vê como não alinhados, e aí também ele teceu alguns elogios a alguns líderes de direita, sobretudo aqui na América Latina. O presidente americano também elogiou a cooperação com países da América Latina, e aí em destaque a Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, El Salvador, Peru e Venezuela. Todos países governados por líderes alinhados aos Estados Unidos. O Trump diz que considera mudar o status de falha ao combate ao narcotráfico se esses governos, sobretudo o governo da Bolívia, de Rodrigo Paz e de Abelardo de la Esprela na Colômbia, demonstrarem um progresso.
Speaker 11A gente viu isso em vários instantes, por exemplo, antes das eleições legislativas, no fim do ano passado, quando o Trump fez um pronunciamento nas redes sociais condicionando o apoio financeiro dos Estados Unidos a um bom resultado para o partido de Javier Milley.
Speaker 14O Trump fala que está apoiando, a Argentina vai oficializar o apoio, a Milley para a eleição, acontecem eleições legislativas na Argentina, mas aparentemente, pelo jeito como o Trump está falando, ele está tratando como se fosse eleição presidencial, porque ele fala assim, ele pode ganhar ou ele pode não ganhar, mas seria importante que ele ganhasse, porque do outro lado o adversário dele, que eu acho que eu sei quem é, é de esquerda radical, e foi o que botou a Argentina no buraco pelos últimos 20 anos, mas nós vamos ajudar. Se ganhar o outro lado, essa ajuda pode não durar tanto tempo.
Speaker 11Eu estava na Argentina naquele momento e deu para sentir que a moeda argentina estava bastante frágil e que esse apoio de Trump provavelmente teve algum impacto para ajudar a melhorar o resultado do atual presidente argentino. Da mesma forma, tivemos ameaças por parte de Trump antes das eleições em Honduras, dizendo que se o meu candidato preferido, o Asfura, não for eleito, a relação passará por uma grave crise que para o eleitorado hondureno, um país bastante dependente dos Estados Unidos, possivelmente também teve um impacto. Ou seja, o que estamos vendo? No caso brasileiro, faz parte de um projeto que aplica a toda a América Latina, que não é só sobre o Brasil. É pouco comum que isso ocorra de forma tão explícita. O que é novo é de quão explícito a forma como essas ameaças são articuladas, muito explícita em escrito, mas também existe uma percepção aqui em Washington de que o governo Trump tenta algumas coisas e vê o que cola. Por exemplo, pressiona o Peru atualmente para que exclua atores chineses do controle de um porto estratégico, pressiona o Panamá para expulsar empresas chinesas que operam os portos no canal de Panamá e, da mesma forma, pressiona o Brasil a fazer certas mudanças na política interna, mas ciente de que nem tudo vai colar. Ou seja, também é uma percepção de que o Brasil, sendo um país maior, não necessariamente aceitará todas as demandas, mesmo sendo ameaçado.
Speaker 1Depois eu quero até ouvir de você, já que a gente, a gente está num processo eleitoral, como tenderia a agir um eventual governo Bolsonaro. Mas antes, eu quero falar de um outro documento. Ontem nós tomamos conhecimento que o governo dos Estados Unidos enviou ao Legislativo um documento em que lista países produtores de drogas, em particular cocaína, e que prejudicam os Estados Unidos. Então, produtores ou países por onde passam drogas, ilícitas que chegam até o território americano. Há vários países listados, o Brasil não está listado. E aí também tem uma segunda lista, que é a lista de países que falharam de forma demonstrada na visão do governo americano nesse documento e cita outra quantidade de países e o Brasil também não está listado. Só que o Brasil é citado no seguinte contexto. O Brasil é apontado pelo governo americano como tendo falhado no combate ao Comando Vermelho, e ao PCC. E o governo brasileiro, por seu turno, rebateu, dizendo que Washington ignora as operações contra as facções e os pedidos de cooperação, porque o Brasil fez vários pedidos de cooperação com os Estados Unidos para combater essas facções criminosas. Isso é estranho para o governo brasileiro, Oliver. Por que se o Brasil não está nas listas formais enviadas ao Congresso, mas está citado no documento como tendo falhado, por que isso apareceu? Por que isso apareceu assim, meio solto? Eu queria entender isso contigo e entender também se isso é uma forma de ajudar a candidatura mais alinhada à Casa Branca, a candidatura de Flávio Bolsonaro, por tocar em pontos como o crime organizado brasileiro, que entrou com força na agenda de Trump e que também entra com força na agenda de Flávio Bolsonaro.
Speaker 11Bom, em primeiro lugar, fazer esse tipo de movimentação por parte, do governo Trump, também tem a ver com as eleições de meu mandato, que vão ocorrer aqui nos Estados Unidos em novembro. Há uma avaliação na Casa Branca de que a percepção pública americana no âmbito da economia, da inflação, é muito ruim. Um dos poucos assuntos onde a avaliação não é ruim é no combate contra a imigração ilegal e também no combate contra o crime. Então, toda essa articulação também é direcionada ao eleitorado, ao eleitor americano, e não necessariamente só se trata de uma movimentação que precisa ser lida só como uma política externa americana. A ênfase na temática da segurança no combate contra o crime organizado também é utilizada para fortalecer países alinhados na América Latina que já cooperam com os Estados Unidos e enfatizar essa temática na relação com o Brasil, que claramente é um tema que pode beneficiar eleitoralmente a campanha, a campanha de Flávio Bolsonaro. Existe a percepção aqui de que as tarifas aplicadas contra produtos brasileiros não têm fortalecido a campanha de Flávio Bolsonaro. Pelo contrário, é comum ouvir integrantes do governo Trump que questionam essa política, dizem que isso produziu um nacionalismo anti-americano nos Estados Unidos, pode ter beneficiado ao presidente Lula, enquanto a maior ênfase, inclusive, é a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações. Terroristas podem ajudar a ampliar a visibilidade dessa pauta nas eleições do Brasil.
Speaker 15O promotor do Ministério Público de São Paulo, Lincoln Gaquia, diz que o assunto muda da esfera de segurança pública e passa a ser um assunto de defesa nacional dos Estados Unidos.
Speaker 16Passando a ser um assunto de defesa, quem vai tratar disso é a CIA e são os militares. Não é mais um assunto que seria tratado internamente pelo FBI e pela DEA, como a gente vem tratando. Isso vai causar um problema porque essas informações, estando sob a guarda da CIA, elas passam a ser secretas ou confidenciais. E aí a gente não tem acesso a esse nível de documento.
Speaker 11Vale lembrar que a designação em reuniões fechadas é criticada, inclusive pela CIA, por exemplo, que não considera que essa designação ajuda na cooperação que já existe, aliás, existe uma ampla cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil no combate contra os cartéis e que esses dois grupos, acima de tudo, exportam para o mercado europeu. Ou seja, que não são atores-chave na hora de combater o fluxo de drogas chegando no mercado americano.
Speaker 1Os Estados Unidos estão tentando ajudar a eleger Flávio Bolsonaro a partir dessas interferências. E desses sinais, porque acredita que com Flávio Bolsonaro no poder, Trump consegue o que, basicamente, do Brasil? Tudo, uma parte dessa lista de 52 exigências, o que a Casa Branca considera mais fácil de conseguir com Flávio do que com Lula?
Speaker 11Bom, em primeiro lugar, o apoio a governos ideologicamente aliados ocorre em parte por questões eleitorais internas. Ou seja, a ideia de que nós apoiamos as nossas causas, nossas pautas, para além das nossas fronteiras, é visto por parte da base trumpista como algo positivo. Ou seja, não é apenas para usar a linguagem do governo americano, não apenas combater o comunismo dentro dos Estados Unidos, mas também combatê-lo lá fora. Narcoterroristas, ou seja, esse tipo de linguagem é comum e ela é direcionada ao eleitor interno. Então, a vitória de um candidato alinhado com Trump, por si só, é visto aqui internamente como algo positivo para o governo Trump, sem pensar no que isso significa na prática. Porque é evidente que, se Flávio Bolsonaro for eleito presidente, não haverá um alinhamento completo com Washington, porque existem realidades econômicas. O Brasil hoje possui amplas relações comerciais, estratégicas com a China. O agro do Brasil quer preservar essa relação comercial que o Brasil possui com a China. privado do Brasil quer preservar os ganhos obtidos com a ratificação e implementação do Acordo Comercial do Mercosul com a União Europeia. Ou seja, haverá, sem dúvida, haveria, se o Flávio for eleito, um alinhamento, em certos casos, o maior alinhamento, como o combate contra o crime organizado nos termos de Washington. Provavelmente, o Brasil faria parte da aliança do escudo das Américas. Além disso, um alinhamento retórico, certamente, um apoio brasileiro a certas pautas lideradas pelos Estados Unidos em âmbitos multilaterais.
Speaker 1Terras raras também, porque o próprio candidato já disse isso, Flávio Bolsonaro, tornando os Estados Unidos, que querem do Brasil, que o Brasil envie terra rara para os Estados Unidos. E isso significa um avanço tecnológico para que o Brasil possa avançar nesse campo econômico. Mas o que eu estou entendendo que você está dizendo é o seguinte, é que... Mesmo com Flávio Bolsonaro, se eleito for, não será fácil um alinhamento total, porque o setor privado brasileiro resistiria, isso?
Speaker 11Exatamente. Em 2019, quando o Jair Bolsonaro, o presidente, fez sua primeira viagem à Casa Branca, o presidente brasileiro perguntou a Donald Trump o que pode ser feito, o que o Brasil pode fazer para ampliar a relação bilateral com os Estados Unidos. E uma das questões-chave que Donald Trump respondeu à época foi que ele gostaria que o Brasil tirasse, a empresa chinesa Huawei de telecomunicação, como fornecedora na construção da rede 5G do Brasil. E o presidente brasileiro voltou ao Brasil e discutiu esse assunto, que foi uma discussão pública ampla até na época no Brasil. E no final, o governo brasileiro não atendeu a essa demanda, porque a Huawei é um parceiro de Doníssima Data e todas as empresas de telecomunicação à época rejeitaram essa movimentação. Então, também é um exemplo de como um presidente que gostaria de alinhar completamente o país aos Estados Unidos pode não conseguir fazê-lo. Então, me parece que em algumas áreas, sim, haveria um maior alinhamento. Certamente, aumenta a possibilidade de ações da CIA ou de outros grupos em território brasileiro, provavelmente com a anuência do governo, mas mesmo assim é uma atuação mais presente, no combate contra cartéis, etc. Mas, certamente, enfrentaria também bastante pressão, porque o que, no fundo, os Estados Unidos querem não é só aumentar a cooperação com os Estados Unidos, mas, acima de tudo, querem que o Brasil se afaste de outras grandes potências, acima de tudo, a China, mas também se afaste dos europeus. E isso é algo muito difícil de conseguir, porque o setor privado brasileiro, obviamente, sabe das muitas oportunidades econômicas que existem nessas regiões do mundo e não quer apenas depender do mercado americano, que é um mercado imprevisível devido à política tarifária imprevisível do presidente americano.
Speaker 1Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Oliver.
Speaker 17Dizem que brasileiro já nasce sustentável.
Speaker 11E nisso a Globo é especialista.
Speaker 18Brasileiro que é brasileiro faz do limão. Brasileiro que é brasileiro faz do limão. Brasileiro que é brasileiro faz do limão. Brasileiro que é brasileiro faz do limão. Brasileiro que é brasileiro faz do limão. Brasileiro que é brasileiro faz do limão. Brasileiro que é brasileiro faz do limão. Brasileiro que é brasileiro faz do limão.
Speaker 11E a Globo também faz da água ousada, água tratada e reutilizada.
Speaker 17E no Brasil todo mundo diz, pode entrar, mas não repara não.
Speaker 11Aqui na Globo pode reparar sim.
Speaker 17A gente repete cenários porque ser sustentável é uma escolha nossa. Globo, fazer diferença todo dia.
Speaker 1Eu queria entender um outro ponto, né? Colegas da imprensa começaram a trazer depois do julgamento, no Supremo, na verdade exceção, porque nem julgamento houve, na terça-feira, que os Estados Unidos estão considerando novas sanções, dessa vez contra os ministros que se colocaram ali na defesa, digamos assim, de Alexandre de Moraes, além do próprio Alexandre de Moraes. O que você está ouvindo por aí a respeito disso, Oliver?
Speaker 11Bom, ainda não houve um pronunciamento oficial, mas dá para sentir sim que aumenta a pronúncia. A probabilidade de uma nova rodada de sanções individuais contra alguns dos integrantes do STF.
Speaker 19É que o governo americano tem como prioridade, o Departamento de Estado tem como prioridade eleger o Flávio Bolsonaro, acho que isso é zero de dúvida. A questão toda é, daqui até o dia 25 de outubro, nas eleições, no segundo turno, o que eles farão? Eduardo Bolsonaro, que já foi anunciado como possível ministro das Relações Exteriores do próximo governo, já disse que ele pediu formalmente ao governo americano a volta da eleição. O que a gente está vendo é, através do Eduardo Bolsonaro, o governo americano tenta sim interferir na eleição brasileira. Eu acho que eles só não estão interferindo mais porque eles temem um efeito rebote.
Speaker 11Não sabemos se isso de fato ocorrerá, mas há uma percepção de que essa discussão pode favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro. No contexto disso, uma resposta por parte dos Estados Unidos, obviamente, elevaria possivelmente a visibilidade dessa temática na discussão pública brasileira. Mas agora, nessa reta ao final, antes do primeiro turno, a visibilidade do Brasil certamente aumentou e, a partir da experiência argentina e hondurenha, existe aqui bastante confiança em que possíveis atuações por parte dos Estados Unidos podem ajudar a favorecer o candidato preferido também no Brasil.
Speaker 1Oliver, o Partido dos Trabalhadores pediu que a Polícia Federal e que a Procuradoria Geral da República e o próprio Tribunal Superior Eleitoral investiguem um possível apoio da Rockbridge Network, que é uma rede fundada pelo vice-presidente americano J.D. Vance à candidatura de Flávio Bolsonaro. E uma das supostas evidências seria um documento revelado pelo jornalista Guilherme Amado indicando uma proposta de parceria entre eles envolvendo terras raras. Se ficar comprovado algum tipo de apoio financeiro ou interferência estrangeira na campanha, de Flávio Bolsonaro, nesses termos, via essa rede, a Rockbridge Network, qual é o tamanho do problema?
Speaker 11Atores fora do país não podem apoiar campanhas no Brasil, não podem receber apoio de atores estrangeiros, sobretudo apoio financeiro direto para as campanhas. É preciso aguardar, obviamente, o que vai acontecer, se haverá uma investigação. Tudo isso requer um olhar muito cuidadoso sobre os detalhes e se, de fato, houve essa participação. A gente não teve, no caso argentino e hondureno, ou colombiano até, onde também houve um apoio explícito por parte do presidente ao candidato vencedor, evidências desse tipo de interferência. O que eu vi até agora foi que existe na Casa Branca uma percepção de que a estratégia americana em relação à Argentina, colombiana e hondurena tem sido, entre aspas, suficiente para garantir que os candidatos preferidos fossem vitoriosos. Então, nesses três casos, não temos evidência de que houvesse alguma interferência maior, mais explícita, além da pressão no âmbito público.
Speaker 1Basicamente, o que eu compreendo que você nos conta é uma coisa é o apoio do governo ou o apoio pessoal de um integrante do governo como vice-presidente da República, ou Marco Rubio, ou o próprio Trump, com ações do governo, com declarações. A outra coisa é o financiamento. O financiamento de uma campanha de um candidato aqui no Brasil com dinheiro vindo de lá de fora. Porque essa Rockbridge justamente arrecada fundos para ajudar em projetos de interesse dessa rede. O que você está dizendo é que este aparato financeiro não se tem prova de que aconteceu de fato no Brasil e nas outras campanhas em que os Estados Unidos fizeram intervenção há evidências de que se fez intervenção por meio desse aporte financeiro para ajudar os candidatos a serem interessados.
Speaker 11Exatamente. Inclusive, a pressão pública ocorreu também fora da América Latina. Ou seja, J.D. Vance esteve pouco antes das eleições no ano passado na Alemanha e deixou muito claro a preferência do governo americano dentro da Alemanha dando apoio ao partido AFD, da extrema-direita. Esse tipo de atuação tornou-se comum no governo Trump. Trump que pressiona países mundo afora. Às vezes funciona, às vezes é muito contraproducente. Como no caso da Austrália e do Canadá, onde essa pressão sortiu o efeito contrário. Onde os candidatos alinhados com Trump sofreram eleitoralmente porque esses países chegaram, os eleitores se sentiram ameaçados. Perceberam que a integridade, a soberania desse país estava sob ameaça. Então, essa tem sido a estratégia dominante por enquanto. Eu não quero dizer que... Isso é garantia que o governo americano não esteja utilizando outras estratégias do futuro. Esse tipo de pressão pública é uma coisa, mas um financiamento direto seria uma outra categoria com, inclusive, possíveis implicações que aí seria uma questão da justiça eleitoral brasileira que representaria uma violação do direito brasileiro. Mas apenas a pressão tornou-se algo comum, não quero dizer normal nas relações internacionais. O passado, aquilo não estava ocorrendo com tanta frequência assim, mas no governo Trump é o novo normal e, portanto... é de se esperar que haverá outros pronunciamentos e possivelmente ameaças retóricas por parte de Washington entre agora e o primeiro turno, sem dúvida.
Speaker 1De fato, você tem razão, é o novo normal, mas não dá para isso ser normalizado, nem aqui no Brasil e nem em nenhum outro lugar do mundo. É gravíssimo quando um governo interfere nas eleições de outro país. A gente está em 2026, isso acontecia no passado, mas admitir isso agora, ver isso acontecendo, torna tudo muito escandaloso, não é, Oliver?
Speaker 11Sem dúvida, e vale sempre destacar, algumas pessoas ao ouvir isto dizem mas em 2022 o governo Biden não deu apoio ao candidato Lula à época, mas foi algo bastante diferente, porque à época o governo dos Estados Unidos pediu aos generais brasileiros que respeitassem o resultado, sinalizando de que uma violação do direito ou a não aceitação dos militares do resultado levaria a possíveis sanções por parte dos Estados Unidos. Mas isso não se pode comparar com o apoio explícito a um candidato. A época que o governo Biden fez foi tentar reduzir o risco de uma ruptura democrática no Brasil, mas se à época o candidato Jair Bolsonaro tivesse vencido as eleições, os Estados Unidos teriam, obviamente, aceito esse resultado e não havia, nesse sentido, uma intervenção partidária. O que acontece agora é muito diferente. É um apoio explícito por parte dos Estados Unidos a candidatos ideologicamente alinhados ao pensamento trumpista.
Speaker 1Oliver, muito obrigada pelas explicações, bom trabalho para você.
Speaker 11Obrigado.
Speaker 1Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Graneman. Colaboraram neste episódio Viviane Matheus e Patrícia Cunha. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto. Legenda Adriana Zanotto

Podcast Summary

Key Points:

  1. Documento enviado pelos EUA ao Brasil com 52 exigências incluía pedido para que "dissidentes políticos" pudessem disputar as eleições de 2026.
  2. A diplomacia brasileira rejeitou a exigência, afirmando que não existe essa figura no Brasil e que questões políticas, judiciais e de soberania não entram na mesa de negociação.
  3. O termo "dissidentes políticos" remete a regimes autoritários e pode ser uma referência indireta a Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe e com direitos políticos cassados.
  4. A revelação expõe um objetivo mais amplo dos EUA
  5. O governo Trump usa tarifas e sanções como ferramentas políticas, adotando um "intervencionismo partidário" em toda a América Latina.
  6. Os EUA designaram PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, o que pode beneficiar eleitoralmente Flávio Bolsonaro.
  7. A Rockbridge Network, ligada ao vice-presidente J.D. Vance, é investigada por possível apoio à campanha de Flávio Bolsonaro.
  8. Especialistas apontam que, mesmo com Flávio eleito, o alinhamento total com Washington seria limitado por interesses econômicos brasileiros, especialmente com a China.

Summary:

A transcrição revela que os Estados Unidos enviaram ao Brasil, durante negociações para reverter tarifas, um documento com 52 exigências. Entre elas, a mais polêmica pedia garantia de que "dissidentes políticos" pudessem disputar as eleições de 2026. A expressão, típica de regimes autoritários, foi interpretada como referência a Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. O governo brasileiro rejeitou a exigência, reafirmando que questões políticas e judiciais não são negociáveis. A diplomacia brasileira classificou o pedido como interferência indevida e lembrou que Bolsonaro perdeu os direitos políticos por decisão judicial transitada em julgado.

A análise do professor Oliver Stuenkel, da FGV, indica que o governo Trump utiliza tarifas e sanções como ferramentas de pressão política, adotando um "intervencionismo partidário" na América Latina. A designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, além de sanções contra ministros do STF, seriam gestos para favorecer Flávio Bolsonaro. A investigação sobre a Rockbridge Network, ligada a J.D. Vance, levanta suspeitas de apoio financeiro estrangeiro à campanha. Stuenkel pondera que, mesmo com Flávio eleito, o alinhamento total com Washington seria limitado por interesses econômicos brasileiros, especialmente com a China. O episódio evidencia uma nova normalidade nas relações internacionais, marcada por interferências explícitas e ameaças retóricas.

FAQs

Era um documento com 52 demandas apresentado durante negociações para reverter tarifas, incluindo uma exigência para que dissidentes políticos pudessem disputar eleições.

Porque o termo é normalmente usado em regimes autoritários, não em democracias, e implica que o Brasil teria presos políticos, o que o governo brasileiro rejeita.

A diplomacia brasileira rejeitou o pedido, afirmando que questões políticas, judiciais e de soberania não devem estar na mesa de negociação comercial.

Há questionamentos se referiam a Jair Bolsonaro, que foi condenado e perdeu direitos políticos, mas ele não é um dissidente, e sim um político condenado pela Justiça.

É a tentativa dos Estados Unidos de apoiar candidatos ideologicamente alinhados e dificultar a vida de políticos não alinhados em outros países.

Segundo a análise, buscam eleger Flávio Bolsonaro para obter maior alinhamento em temas como combate ao crime organizado e afastamento do Brasil de potências como a China.

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