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A Corte de Luanda, parte II: O chefe

60m 11s

A Corte de Luanda, parte II: O chefe

Este episódio do podcast traça o perfil de José Eduardo dos Santos, que governou Angola durante 38 anos, desde 1979 até 2017. A narrativa começa com as celebrações do seu aniversário, destacando o culto de personalidade e a imagem de "arquiteto da paz" que ele cultivou. O episódio percorre momentos-chave do seu regime, como a queda do Muro de Berlim, que o levou a abandonar o marxismo-leninismo e a abrir a economia ao mercado, e os Acordos de Bicesse, que antecederam as eleições de 1992. A rejeição dos resultados pela UNITA levou ao massacre do Dia das Bruxas e à retoma da guerra civil, que só terminou com a morte de Jonas Savimbi em 2002. A partir daí, José Eduardo dos Santos consolidou o poder, mas o episódio também aborda a repressão a ativistas, a corrupção sistémica e o enriquecimento da sua família, incluindo a filha Isabel dos Santos. A sua saída do poder em 2017, a escolha de João Lourenço como sucessor e a subsequente rutura entre ambos são analisadas, bem como o seu exílio em Barcelona. Apesar das críticas, muitos angolanos ainda o veem com nostalgia, lembrando a estabilidade e a paz, enquanto o país enfrenta uma profunda crise económica e social. O episódio termina com a sua morte, deixando um legado ambíguo de paz e autoritarismo.

Transcription

7655 Words, 42967 Characters

Portuguese
Agradeço também ao movimento espontâneo por ter organizado essa festa. Estamos no início de setembro de 2012, festa de aniversário de José Eduardo Santos, 70 anos. No dia 31 foram realizadas as eleições gerais e agora estão a ser anunciados os resultados. O MPLA acaba de vencer as terceiras eleições em Angola com 71,8% dos votos. Os aniversários do presidente são, por esta altura, acontecimentos de importância nacional. Feliz aniversário, camarada, presidente José Eduardo dos Santos, arquiteto da paz. O senhor está aqui no meu coração. Que são imensas as qualidades que possui. Que Deus continue a lhe abençoar rico e poderosamente. Porque é uma pessoa muito calma, serena e culta. Uma pessoa extremamente humanista. Em 2017, aos 75 anos, houve futebol, música e festa. Agradeço também por terem preparado um bolo para festejar esse aniversário e que podem contar comigo. A filha, Isabel dos Santos, sempre presente. Homenageia ao pai e o pai da nação. Amamos muito, muito o nosso pai. É um homem extraordinário, um homem inteligente, um homem calmo. Um homem sempre com bom conselho. O Estádio da Glória, em Luanda, palco da festa, pertence à África do Sul. A AFA, a Academia de Futebol de Angola, fundada a 28 de agosto de 2013, no dia de aniversário de José Eduardo dos Santos. Há sempre desporto, banquetes e música, com nomes sonantes como Matias da Maza. É um privilégio, sobretudo. Ter feito dueto com o camarada presidente. Angola, sobretudo Luanda, para para celebrar o pai da nação, o arquiteto da paz. No tempo de José Eduardo dos Santos, toda a cidade parava, havia festas por todo o lado, havia torneios internacionais de futebol. Havia jantares, comemorativos, concertos, etc. Ou seja, era um dia especial, só faltava mesmo ser freado, como disseram. Esta é a voz de Dulce Neto, a editora executiva do Observador. E isto revela bem o culto da personalidade, um certo endeusamento da figura de José Eduardo dos Santos. Mas no passado, com o ex-presidente da República, olha, era passeatas, era. Criavam, assim, um barraco para ser pombos e bebê, tinha que houver maratonas, e por aí fora. Era dia de festa, para Luanda toda, Angola. Mas era feriado? Não era feriado. Poderia ser um dia normal, mas um dia de alegria para todo o mundo, para todos os ambulantes. José Teixeira é motorista da Cubinga, uma plataforma eletrónica de transporte de passageiros e entrega de comida, conversou com a Dulce Neto em Luanda. A história que também queremos contar passa-se a 28 de agosto de 1982. O presidente faz 40 anos. Recebe como presente um quadro, uma caricatura. É conhecida como a maca do quadro. Maca, em Angola, significa confusão, problema, a maca do quadro. É considerada como a primeira purga. E a maca do quadro é a maca do quadro. o que faz com que muitos dos analistas digam que ele é um homem que sabe ler os sinais do mundo, eu diria que ele é um homem que sabe ler a alma dos homens também, porque sabe como eles são vaidosos e gostam do poder e por isso depois os compra, mas isso será para mais à frente. Ele consegue, ele vai-se afirmando como um subtil mestre da política e da geopolítica, não é? E quando ele vê que o muro de Berlim vai cair. Ele percebeu que o modelo que tinha falido com a queda do muro de Berlim e que ele percebeu que o modelo que tinha falido com a queda do muro de Berlim e que o MPLA tinha que se adaptar aos novos tempos e que tinha que criar novas articulações porque é para destruir a economia, criar um país de pobres. Esta é a voz de Mikhail Gorbachev no dia de Natal de 1991. O líder da União Soviética demitia-se e acabava a URSS. Eu deixo o meu posto com preocupação, mas com esperança, com fé em você, a sua sabedoria e a sua força de espírito. O marxismo-leninismo vai para a gaveta, começa a entrar em força o dinheiro do petróleo, isto numa Angola ainda em guerra com a UNITA a perder força. Estão reunidas aqui as condições para abrir o caminho para a paz, para os acordos de Bissés? Sim, eu acho que sim, porque aberta a economia ao mercado depois da queda do muro de Berlim, podíamos dizer adeus marxismo, viva o capitalismo, ainda que mascarado de socialismo africano, como lhe chamava José Eduardo. Ele tira razões a Washington para o combater na guerrilha, não é? Na balança dos negócios, o petróleo do MPLA pesava mais do que os diamantes da UNITA. E despedidas as tropas de Cuba, do outro lado também, o contingente sul-africano de apoio a Savimbi se retirava, estava pronto para enterrar o Partido Único e experimentar o multipartidarismo. Por isso vemos aqui que José Eduardo Santos também dá esse passo, não é? E temos o acordo de paz depois em Bissés, não é? Sim, assinado o acordo de paz em Bissés perante a Troika, Portugal, Estados Unidos e a antiga União Soviética, a 31 de maio de 1991, ele em 1992 está pronto, para apagar Partido do Trabalho do MPLA, popular do nome do país, e a Assembleia do Povo passou à Assembleia Nacional, e vai a eleições em 1992. E aí consegue derrotar a UNITA nessas eleições. De minha qualidade de representante especial do secretário-geral das Nações Unidas, certificar. Esta é a voz de Margaret Anstey. Era diplomata. Ele é diplomata britânica, chefe da 2ª Missão de Verificação da ONU para a Angola, a UNAVM-2. As eleições realizadas nos dias 29 e 30 de setembro de 1992 podem ser consideradas como tendo sido, de uma forma geral, livres e justas. Ele consegue derrotar a UNITA, tem uma postura completamente diferente da do Savimbi, mas ele vence com 49,57%, e as regras acordadas pediam uma segunda volta. E houve segunda volta? Não houve segunda volta, porque o Savimbi não aceitou o resultado, e começa a guerra, recomeça a guerra, e dentro de Luanda viveu-se o horror. São chamadas, é aquela chamada, o massacre do dia das bruxas. São três dias tremendos, de que toda a gente ainda fala, imenso em Angola. E qual. Qual é, novamente, deixa-me fazer-te esta pergunta, Dulceneto, qual é, novamente, aí o papel de José Eduardo dos Santos nesse massacre do dia das bruxas, nesse retomar da guerra civil em Angola? Porque há quem diga que ele colocou travões, outros defendem que a ordem para uma repressão violenta veio dele, não é? Sim, aqueles que defendem, que têm uma visão de José Eduardo dos Santos como o arquiteto da paz, como ele gostava de se auto-intitular, e libam completamente, e libam completamente desta carnificina. Dizem que, tal como no maio de 77, ele não queria derramamento de sangue de todo. Outros dizem que não. Outros dizem até que terá sido José Eduardo dos Santos num ato maquiavélico que empurra o Savimbi, sabendo que o Savimbi era intempestivo e violento e agressivo, impulsivo para esta guerra. E a verdade é que. Nestes três dias, a UNITA é completamente decapitada. Voltei para plantar nos campos com meus irmãos Com meus irmãos E ver de novo o meu povo a viver em paz O futuro é agora, o futuro é Angola Dulce, vamos aqui fazer um ponto de situação. Agora, José Eduardo dos Santos sai vitorioso do 27 de maio de 77, cimenta o poder tanto no MPLA como no país, assina o acordo de paz, vence as eleições em 92 e consegue uma vitória estrondosa quando a televisão mostra o corpo caído de Jonas Savimbi, cravejado de balas. Conseguiu a paz, ou seja, isto também tem várias leituras, não é? Mas, em 2002, José Eduardo dos Santos fica livre para, de facto, reconstruir o país. Tinha os petrodólares e já não tinha nenhum inimigo. E com esse capital político, com a morte de Jonas Savimbi, ele tem argumentos e consegue argumentos para se manter no poder sem eleições. Exatamente. Primeiro, ele teve sempre aqui dois argumentos. Primeiro, estava sem guerra e depois havia que reconstruir o país. Aliás, o grande lema era Angola começa agora. É a paz. Esta palavra simples, com apenas. três letras, é a essência da vida para nós, os angolanos, que aprendemos ao longo de quatro décadas o valor que a mesma encerra. A 13 de abril de 2002, José Eduardo dos Santos anunciava na televisão que vinha aí a paz. Amanhã terá lugar a assinatura formal da ata do Luena, que nos vai permitir dizer com grande alegria que a guerra em Angola acabou e a paz chegou para sempre. Depois de alcançada a paz. E ele começa a cultivar esta imagem de arquiteto da paz. Ele faz muito o culto da personalidade. José Eduardo dos Santos faz muito o culto da personalidade. O que não deixa de ser curioso em alguém que é tão reservado, não é? Faz parte do esquema do poder. E começa a ser mais visível, Dulce, aquela faceta que atribuem, a José Eduardo dos Santos, de não admitir quem lhe faça sombra. Nesta altura, isso torna-se palpável? Sim. Dentro do partido, ele cala aqueles que o opõem comprando-os. Era o que eu há pouco dizia, não é? Ou seja, ele tem dinheiro. Ele tem o petróleo, ele tem os petrodólares, não é? E ele, assim, conseguiu convencer muita gente da UNITA a ficar serena. Alguns até passarem-se para o MPLA. Porque chama pessoas da UNITA para o regime, não é? Também chama pessoas da UNITA para o regime. Dulce Neto, vou aproveitar essa deixa porque há um episódio ali, mais ou menos no ano 2000, que pode ser importante para perceber as estratégias de poder de José Eduardo dos Santos. E começa numa conversa que ele terá tido com Fidel Castro. Conta-nos lá essa história. Ele disse a Fidel Castro que estava cansado e que queria sair José Eduardo dos Santos disse isto várias vezes ao longo dos seus 38 anos do poder. Tanto que quando ele disse que saía em 2017, muitas pessoas com quem eu falei na altura me diziam espera lá, vamos lá ver se sai mesmo ou se não sai, mas como veremos mais à frente, dessa vez ele saiu. E curiosamente, em 2001, ele disse que ia se retirar da política ativa dali a dois anos e a notícia foi recebida com ceticismo mas ele fez com que outros se perfilassem à Associação para depois os aniquilar politicamente. Filomeno Vieira Lopes, que é um economista angolano, professor universitário secretário, muito conhecido, líder também do Bloco Democrático, ele diz que ele usou a tática do Golungo Alto, que é uma tática do Kwanzaa Norte, que ele diz que quando queremos atravessar um rio, nós não sabemos muito bem onde é que está o jacaré, então vamos lançando pedras aqui e ali e quando ele levantar a cabeça, a gente sabe onde é que ele está e passa do outro lado. E foi muito isto o que aconteceu internamente no MPLA. Ou seja, ele ia ameaçando que ia sair para ver quem é que punha o braço no ar a dizer estou aqui, estou disponível. E depois o aniquilava, não é? E foi isso que ele fez a João Lourenço. Os militantes do MPLA e o povo angolano em geral guardarão para sempre na sua memória a imagem do estadista que, entre outros feitos, trouxe a tão almejada paz definitiva, o perdão e a reconciliação nacional entre irmãos. Antes dos desavindos. Esta é a voz de João Lourenço no 6º Congresso do MPLA em setembro de 2018. Durante muitos anos, João Lourenço esteve afastado por decisão de José Eduardo dos Santos. Aqui, depois de assumir a presidência do partido, vingou-se. Os males a corrigir e não só, mas sobretudo a combater, são a corrupção, o nepotismo, a bajulação e a impunidade. Esta imagem do paladino da paz desgastou-se muito nos últimos anos do governo do José Eduardo dos Santos. Temos todos na memória a repressão aos jovens ativistas que foram presos. Há muitos outros episódios. Marcolino Mouco contava-me dos corpos de outros dois que encabeçavam uma manifestação e que foram atirados aos crocodilos, alguns desaparecimentos. Há muitos episódios que levam algumas pessoas a mostrar o lado menos simpático. E até dizem que mais sanguinário de José Eduardo dos Santos. A verdade é que ele, a partir de 2012, endurece muito o seu caráter. Há o caso de um rapper que é brutalmente agredido com barras de ferro e catanas. Em novembro de 2013, há um opositor da política de José Eduardo dos Santos que é assassinado quando está a colar um cartaz anti-governo. Rafael Marques fez uma grande investigação onde ele denunciou a política de José Eduardo dos Santos, denunciou os esquadrões da morte. José Eduardo dos Santos presidiu. É uma guerra que levou milhões e milhões de vidas e uma guerra que não tinha sentido. E depois dessa guerra tivemos esquadrões da morte em Angola. Eu reportei, fiz um relatório sobre as execuções sumárias. Qual foi a resposta de José Eduardo dos Santos, um homem magnânimo? Claro que há sempre aqueles que o defendem e que dizem ladrão sim, assassino e sanguinário não. Eram os homens à volta dele que faziam isto, não era ele e ele não sabia. David Mendes, que é conhecido como o advogado dos pobres e é o presidente da Associação Mãos Livres, deputado independente pela UNITA na Assembleia, que foi durante muitos anos um opositor de José Eduardo dos Santos, denunciando os seus casos de corrupção, tem, por exemplo, essa postura, acha que ele é um homem da paz. Mas, será que ele mandava fazer? Ou as pessoas, para agradá-lo, assim agiam? Ou sentiam, não, epá, esse está a incomodar o chefe, vamos dar um jeito? O mesmo Mário Pinto Andrade, mas Mário Pinto Andrade é do burro político do MPLA, mas ele diz sempre que o maior legado do ex-presidente é a paz. Falaste em corrupção e a corrupção é um problema central na questão de Angola. É um assunto incontornável do reinado de José Eduardo dos Santos, não é? Há quatro décadas que a imprensa nacional e estrangeira denunciava casos e expunha práticas de corrupção, Angola tem sido mesmo um dos países mais corruptos do mundo, a julgar pelos rankings da Transparency International, os últimos dados anunciados em janeiro deste ano apresentaram uma melhoria considerável, teve 26 pontos em 100 na escala da transparência e, na verdade, é um assunto que não é muito bom. Nos últimos três anos, desde que João Lourenço foi eleito, que se tornou na bandeira da governação e que veio abalar José Eduardo dos Santos. E a grande pergunta que toda a gente faz é até que ponto é José Eduardo dos Santos que está no topo dessa pirâmide da corrupção em Angola? É inevitável, é inevitável. Rafael Marques tem uma frase muito interessante, diz que ele institucionalizou o SAC. Ou seja, que ele institucionalizou a corrupção. Que era a altura da candonga, como se dizia, para ficar os seus ovos, bens alimentares, que eram o que as pessoas mais procuravam, bens essenciais, calçado, roupas. E isto foi tendo um crescendo. Mas estamos a falar dos Eduardo dos Santos. De institucionalização estou a falar, quer dizer, como é que tínhamos um modelo que tinha o nome de sociedade. Por várias frases, por várias ações, não só pelo exemplo, mas também por várias coisas que ele dizia. Ele dizia que nenhum angolano pode viver só do seu salário, por exemplo, e falou sempre muito da acumulação primitiva de capitais. Ele queria criar uma classe, ele queria criar uma burguesia forte, ele queria criar uma classe empresarial angolana forte e tinha dinheiro para lhes dar. Ele quis criar uma. Uma classe empresarial, uma classe de ricos. Este é Justino Pinto de Andrade, ex-membro do MPLA e atual líder do Bloco Democrático. Eles lhe falavam que era preciso criar uma burguesia, usavam a expressão burguesia. Mas José Eduardo dos Santos, apesar de o foco estar muito em Isabel dos Santos e nos generais, não se conhece grande fortuna e grandes negócios a José Eduardo dos Santos, mas fala-se muito da ligação dos filhos. E de outros testes de ferro que ele poderia ter, não se pode apontar nenhum caso de corrupção diretamente a José Eduardo dos Santos. Houve aquele caso do Angola Gate, aliás, ainda antes da paz já há casos de sacos azuis que são relatados, por isso houve aqui alguns casos. Mas José Eduardo dos Santos é o rosto também, não é? É o topo, porque é ele que cria o sistema, é ele que permite o sistema, é ele que alimenta o sistema, porque isso está na base do seu poder também. E é um sistema onde muita gente vai buscar dinheiro, não é? É sistémico, ou seja, muitos dos opositores ao que João Lourenço agora está a fazer e que dizem que João Lourenço está a fazer uma justiça seletiva apontando as armas, entre aspas, à família dos Santos e aos seus amigos, dizem precisamente isto, é que isto era um sistema. A corrupção é sistémica. E vive muito do facto de Angola ser um Estado partidário, ou seja, de ter um Partido Estado, que é o MPLA. Era um modelo soviético e era um modelo que gerava todo tipo de esquemas de corrupção. Por isso, não foi apenas José Eduardo dos Santos, foi muita gente. Alguns dizem mesmo, como é o caso de Adalberto da Costa Júnior, o líder da UNITA, com quem eu falei em Luanda, que se é para prender toda a gente, então não havia governo. E aqui quem roubou mais? Quem roubou menos? E eu sou daqueles que acham que se for para prender toda a gente, vai todo mundo para a cadeia. Não sobra ninguém na governação. Não sobra rigorosamente ninguém. Mas recentemente o nome do ex-presidente José Eduardo dos Santos surge pela primeira vez num despacho judicial. Sim, o Procurador-Geral da República, quando determinou o arresto dos bens da filha Isabel e do Gerro, refere várias vezes que o ex-presidente José Eduardo dos Santos, que foi o ex-presidente de Angola, autorizou o desvio de cerca de 115 milhões de dólares do erário público e favoreceu a filha no comércio de diamantes. Portanto, eu não sou daqueles que olham para esta questão e dizem, não, aqui tem uma tora exclusiva e, portanto, os males disto tudo foram os José Eduardo dos Santos que roubou sozinho. Não, não é verdade. Esse é o objetivo estratégico para onde nos querem conduzir. Perante isto, eu perguntei-lhe porque é que o João Lourenço teve de fazer isto. Simples, para elibar a sua mão disto tudo. E para dizer, o MPLA não é corrupto, porque ele está a fazer a defesa do seu partido. E todo mundo em Angola sabe o quanto aquilo foi uma prática coletiva. Mas José Eduardo dos Santos é atingido não só pelo ataque que é feito aos filhos, mas também pelo desgaste da imagem que é feita, não é? Só a simples expressão usada pelo presidente João Lourenço, maribondos, é terrível, não é? Não é? Quando nos pusemos a combater a corrupção em Angola, tínhamos noção de que precisávamos de ter muita coragem. Sabíamos que estávamos a mexer no ninho do marimbondo. Isto é de tal forma que já fora do poder, em 2017, José Eduardo dos Santos convocou uma conferência de imprensa na sua fundação em Miramar. Para se explicar. Para se explicar, para dizer que não tinha deixado os cofres vazios, como o João Lourenço estava a dizer. Que não deixou. Enchei os cofres do Estado. vazios, quando na segunda quizena do mês de setembro de 2017, fiz a entrega das minhas funções ao novo Presidente da República. Nessa altura, mais de 15 mil milhões de dólares o Estado tinha nas contas do BNA, o Banco Nacional de Angola. Porque, na verdade, José Eduardo dos Santos está a ser apontado como o causador, antes da Covid, agora é muito a Covid também, mas como o causador da situação depauperada em que Angola está, que está numa profunda, profunda crise económica. Deixa-me pegar já nisso, Dulce Neto, para te fazer aqui uma pergunta que tinha preparada para te fazer, que é, José Eduardo dos Santos falha, do ponto de vista político, ao criar e a ajudar a criar um país com assimetrias gigantescas, em que a pobreza é atroz, em que o povo vive numa pobreza atroz, e há uma classe que vive numa riqueza das Arábias, diria eu, e José Eduardo dos Santos é um dos rostos e um dos culpados dessa situação. É interessante que tu me faças essa pergunta, porque eu estou-me a lembrar de alguém, de José Eduardo dos Santos não precisou nunca de ser um ditador como o Idi Amin, não precisou de pendurar as cabeças dos seus inimigos na praça pública, nos candeeiros, não precisou de o fazer, foi um ditador subtil, conseguiu dominar, conseguiu ser o senhor absoluto, chamam-lhe o Luís XIV, sem precisar de mostrar sangue. Filomeno Vieira Lopes diz que não é seguro que não haja sangue, ele diz que um dia os historiadores, pedirão, mostrarão a faceta completa dele, mas Rafael Marques diz uma coisa muito interessante, que é, em Angola, a corrupção mata. Um homem que mata o seu povo pela corrupção, pela incúria, pela incompetência e pela repressão, não pode ser um homem magnânimo. Quando José Eduardo dos Santos sai do poder, os relatórios do desenvolvimento humano da ONU, do Banco Mundial ou da Unicef, mostravam uma realidade terrível, 40% dos quase 25 milhões de angolanos viviam abaixo do limiar de pobreza, com menos de 1,7 euros por dia, Angola tinha uma das maiores taxas de mortalidade infantil do mundo, em cada mil crianças, 157 morriam antes dos 5 anos, a esperança de vida não passava dos 56 anos, mais de um terço da população sem água potável, 60% não tinham saneamento básico, ou seja, José Eduardo dos Santos, que diz, vamos reconstruir Angola, que tem tudo para reconstruir Angola, acaba por desbaratar os recursos todos de Angola, sem fazer. Ele reconstrói alguma coisa, ele fez algumas coisas, algumas estradas, algumas infraestruturas, mas até isso é uma mágoa para os angolanos, porque foram obras mal feitas, não fiscalizadas, por causa da corrupção, e muitas estão estragadas. E quando é que José Eduardo dos Santos percebe que tem de sair? É quando o preço do petróleo começa a cair e a doença, por outro lado, se torna mais pública? Começa-se a falar mais do cancro dele nos últimos anos, mas na verdade há um telegrama na Wikileaks que fala já do cancro muito para trás. Por isso. O que eu acho que é mais determinante do que a doença, aqui, é que a fonte do poder dele diminuiu, ou secou, não é? A partir de 2014, com a grande crise de 2014, José Eduardo dos Santos deixou de ter a renda para dar à sua rede clientelar, por isso deixou de ter tanto apoio. Por outro lado, a população começou a passar mal, e por isso começou. Começou a haver mais contestação. Os jovens ganham uma força que não tinham antes. Culpados da miséria no país, não é só um, mas o principal, não é segredo, chama-se Zé Duque, do comunismo conformismo, de marioneta ao sur, para todo poderes que intervencionam e morto vai com o sur. E agora a pergunta das pessoas, ficar calado, tem estado a resolver o problema? Esses anos todos que nós estamos a falar de saque, o silêncio salvou as crianças? A quem é que o silêncio salvou? És um pedaço de ferro, frio e inanimado, teu coração se tens algum, bate do lado contrário. Anuncio, que não volta a candidatar-me, mas o posto deu-te saudades antes de saltares. José é do Murphy, o nosso ator mais bravo, ao invés do Nobel era pelo Oscar, que deverias ter implorado. A voz é de Rafael Marques, a canção é de Luati Beirão. Saudáveis amizades, devia medir melhor as palavras, mas agora é tarde, o desespero fez com que me tornasse. As redes sociais dão-lhe. Dão-lhes uma dimensão e uma capacidade de luta que eles também não tinham. E José Eduardo Santos começa a ser contestado muito nas ruas, mas eu iria dizer, o despudor com que os filhos se apropriam ou usam o erário público, torna-se por demais evidente e começa a chocar, inclusive, muitas pessoas, dentro do MPLA. O MPLA não. Muitas pessoas dentro do MPLA não gostavam dos filhos de José Eduardo Santos. Por isso, digamos que ele sai quando vê que já está a perder poder. E o partido tem uma importância crucial aí. A força do MPLA, que nós aqui todos achávamos que o MPLA era José Eduardo Santos, é nesse momento que o partido mostra que o MPLA não é só José Eduardo Santos, não é? Não. Porque o MPLA percebe, dizem alguns analistas, e estou-me a lembrar do Cédric Carvalho, que é um dos reviews, os reviews é como se chama aqueles ativistas, os 15 mais 2, que foram presos, tiveram em greve de fome, onde estava o Atibeirão, que houve aquele movimento todo internacional para os libertar. Ele diz que José Eduardo dos Santos foi sacrificado pelo partido, ou seja, o partido percebe que, tem que fazer alguma coisa para sobreviver. E que, à boa maneira russa, arranja um bote expiatório. Sacrificaram altos quadros do PCFE russo, tal como aqui estão a sacrificar altos quadros do partido. Essas pessoas que estão a ser, digamos, alvos de processos judiciais, realmente são altos quadros. Mas isso tudo é sobrevivência do partido. As pessoas dentro do partido sabem que é preciso excluir alguns, sacrificar alguns, e o próprio João Leite também acho que vai dizer que não importa, nem que tivemos que sacrificar alguns, terão de ser sacrificados. E o que está a acontecer? Mas isso tudo só para uma coisa, sobrevivência do grupo. José Eduardo dos Santos não é nenhum inocente, mas o partido teve aqui um papel também, de alguma forma, preponderante, ou seja, o poder dele dentro do partido diminuiu. De facto, isso parece-me muito óbvio. E José Eduardo dos Santos sai de Angola em 2013. E José Eduardo dos Santos sai de Angola em 2019 e nunca mais voltou a Luanda. Não, ele sai de Angola muito zangado. Sabemos que ele estava muito doente, ele estava mais debilitado. Faz um bocadinho de confusão como é que um homem que se mantém no poder durante 38 anos, que é um jogador exímio, Pepe Tela chama-lhe um xadrezista, há outros que lhe chamam um planificador, mas que ele é um jogador exímio, é um estratega que sabe ler os textos, e sabe ler os homens, como é que ele vai escolher um sucessor que depois o põe em causa? Ou seja, há quem diga que ele bebeu do mesmo veneno. Ele não sabia o que João Lourenço era. Ele enganou-se em relação a João Lourenço. Uns dizem isso, outros dizem que não, que ele não teve alternativa. Mas a verdade é que ele comete aqui, Reginaldo Silva, que é um destacado jornalista angolano e agora está na. e foi o fundador do Sindicato de Jornalistas Angolanos e é um sobrevivente do 27 de maio de 1977, ele diz que ele comete aqui a sua última derrota. E ele não estava à espera, aliás, ninguém estava à espera que João Lourenço fizesse isto. Quando se toma a decisão de João Lourenço, ele de facto ou não avaliou bem o que é que seria de João Lourenço, ou houve qualquer coisa ali que falhou, porque João Lourenço, em termos de mudança, desta mudança que nós estamos a viver, surpreendeu-nos a todos, devo confessar. Eu próprio, que tenho uma relação jornalística com João Lourenço já tem muitos anos, nunca admiti que João Lourenço pudesse fazer uma rotura tão direta e tão rápida, sobretudo. E é aí que eu digo que ele perdeu a batalha, porque o sucessor que ele pensava que era o homem que iria, de facto, manter a sua presença, mesmo ele estando fora do poder, não cumpriu o que ele pensava que ele ia cumprir. Eduardo dos Santos não regressa a Angola porque tem medo? Tem medo de ser humilhado? Ele sai zangado e sai zangado e recusa o avião que João Lourenço lhe oferece e é teimoso e vem num avião da TAP. Há quem diga que foi uma birra, há quem diga que é porque ele teme pela sua segurança, embora fosse estranho, porque era o avião dos seus generais que o poderia levar. Portanto, não vem num avião angolano, vem num avião português. Ele vem num avião da TAP, ele vem num avião da TAP, não é? Faz escala em Portugal e vai para Barcelona e nunca mais regressou à Angola. Vai regressar ou não? Ele tem imunidade até 2022, não é? João Lourenço já deu indicação de que poderá eventualmente ir atrás dele, entre aspas. Curiosamente, em Angola não se sente uma animosidade com José Eduardo dos Santos. Quer num candongueiro, num dos carros do candongueiro onde eu andei, ou num mais evoluído Lexus de ar-condicionado e vidros fumados, quer num restaurante no Epixana, ou um moceca, comer uns pinchos em qualquer lado. As pessoas não querem mal a José Eduardo dos Santos. Muitos dizem que ele pode voltar, este é o seu país, e ele deve poder morrer tranquilamente em Angola. Eles têm mais animosidade para com Isabel dos Santos. É muito bom. É muito bom. Há muita pressão. Abre os jornais a Eduardo, fecha os jornais a Eduardo, vai para as ruas a Eduardo. É um dia. Ah, ele vê tudo. Mas pode ser recomendado também a não ver, não é? E acha que isso está. Não sei, pode ser, é uma probabilidade. Porque se põe-se na cabeça das pessoas que eles são os culpados. Esta é a voz de David Mendes, é presidente da Associação Mãos Livres. Quer dizer, quer as elites dizem outra coisa, que é se João Lourenço, que é o presidente da Associação Mãos Livres, se João Lourenço leva até ao fim esta guerra, entre aspas, a José Eduardo dos Santos, o que é que lhe vai acontecer a ele? Se ele um dia sair do poder, o que é que lhe vai acontecer? Também tem que se auto-exilar, porque ele também fez parte do mesmo sistema. Aliás, ele próprio disse isso numa conferência de imprensa. Por isso, não se nota em Angola, quer nas altas esferas, quer nos mosseques, esta animosidade para com José Eduardo dos Santos. Pelo contrário, as pessoas dizem que ele pode voltar. Há pouco, Dulce Neto, falaste nessa capacidade de antecipação e de leitura das jogadas por José Eduardo dos Santos. Esse homem que esteve 38 anos agarrado ao poder, hoje já não quer saber do poder, ou ainda continua agarrado ao poder? Paulo Inglês, que é um sociólogo angolano, diz que José Eduardo dos Santos não era extravagante. Que a extravagância dele. Era mandar em Angola. Que era quase uma obsessão, o poder. Há um ex-ministro dele que fala comigo, e que esteve ligado à UNITA e ao Savimbi, e que tem aquela expressão que nós conhecemos muito, que diz que o poder é afrodisíaco, mas também cansa. José Eduardo dos Santos, na verdade, quis manter um certo poder indireto. Porque ele larga o poder, porque a presidência mas ele quer continuar como presidente do MPLA. E ele tinha legitimidade para o fazer. E aí é que se vê a força do MPLA. Ele podia ter continuado como presidente do MPLA há mais algum tempo, mas o partido disse que não, que havia uma tradição entre a presidência do partido é a presidência do país, cá está o tal partido-estado, e não permite que isso aconteça. Mas ele ainda tenta uma série de coisas. Tenta ser presidente em mérito. Ter uma série de imunidades e uma série de regalias que depois a Assembleia Nacional não lhe dá. Aliás, é muito curioso que Mário Pinto Andrade, que é do Biro Político do MPLA, diz mesmo presidente em mérito. Mas que fantuxada é essa? Durante muito tempo em sua vida Eu vou viver Por outro lado, naquela idade e durante aquele período que eu vivi no Congo e depois fui para a União Soviética fazer meus estudos, não tive nenhuma namorada, nem tive nenhuma amante, nem congolesa, nem angolana, de nenhuma outra nacionalidade qualquer. Nessa altura eu não pensava em ter namorada, nem arranjar filhos, nem casamento. Tinha outras preocupações. Portanto, não pude ter nascido qualquer filho. Esta é a voz de José Eduardo dos Santos a desmentir a paternidade de uma mulher numa rara declaração sobre a vida privada à TPA. Recorremos mais uma vez a Justino Pinto de Andrade, ex-militante do MPLA e atual líder do Bloco Democrático, porque é importante falar de mulheres e de filhos. Os filhos dos políticos viraram todos empresários. As mulheres dos políticos viraram todos empresários. Os filhos dos políticos também viraram todas empresárias, e todos de sucesso. Porquê? Porque era a lógica do MPLA de preservação do poder. O poder económico está connosco e, portanto, o poder político também está sempre connosco. José Eduardo dos Santos teve várias mulheres, algumas que se conhecem, são sobretudo quatro as que são mais referidas, mas há mais, há mais histórias. A vida sentimental de José Eduardo dos Santos nunca foi linear. Ele era um homem muito bonito, dizem que ele era um homem muito bonito, muito elegante e fazia muito sucesso junto com as mulheres. Há quem diga que ele era um sedutor, há quem diga que ele era mais seduzido do que sedutor, porque ele era meio xoxombo. Xoxombo, Dulce. Sim, xoxombo quer dizer sem graça, introvertido, apagado, bem educado. Tímido. Talvez sim, talvez por aí, mas é uma expressão que é muito utilizada lá. Aliás, há uma anedota que é contada, que me foi contada pela Margarida, Margarida Paredes, que foi uma amiga do casal, e ela conta que na altura até diziam que ele parecia o selo do povoamento, porque ele tinha tido uma mulher branca, Tatiana, depois uma mulher mestiça, Maria Luisa Abrantes, Miluxa, mãe da Txizé e do Coriandu, e depois uma mulher negra, que é a Ana Paula dos Santos, e os seus quatro filhos. Que é a atual mulher. Mas vamos regressar aqui. Não se pode dizer que seja a atual mulher, porque formalmente e oficialmente eles continuam casados, de facto, mas de facto não estão a viver juntos. Não estão juntos. Não. Ele está em Barcelona e a Ana Paula dos Santos faz a sua vida em Holanda. Deixa-me regressar então aqui à Tatiana Kokanova, a primeira mulher russa. Beneficiou, podemos dizer que beneficiou, do facto de José Eduardo dos Santos ter estado tanto tempo no poder? É curioso, porque eu falei com uma vizinha dela, em que o marido dava boleio, à Tatiana, na altura em que ele já era presidente, mas eles já estavam separados, e ela fazia questão de dizer: "ele pode ser presidente, mas eu sou engenheira, como quem diz, eu autossustento-me". A verdade é que quando eles separaram, José Eduardo dos Santos deixou uma pensão, quer à filha, quer à mulher, ex-mulher, neste caso, e nós vemos que Tatiana depois entra nos negócios com Isabel dos Santos, numa empresa chamada Taís, que é muito curioso, porque são as. diz-se que são as iniciais de Tatiana e as iniciais de Isabel, que esteve envolvida nos negócios dos diamantes. Isabel, já sabemos, está sob investigação por tudo o que aconteceu nos últimos anos em Angola e pela forma como terá beneficiado o facto do pai ser o presidente. Deixa-me avançar aqui na história para o outro filho, o segundo filho, que é? Zenú, ou Filomeno dos Santos. Filomeno é filho de Filomeno dos Santos, conhecida como Necas, que mais ou menos na mesma altura da Miluxa. Que é a mãe de Zizé Coriandu. Sim, Maria Luísa Abrantes, conhecida como Miluxa, que é uma figura muito curiosa, que nunca deixou, na verdade, José Eduardo dos Santos, acompanhou ao longo da vida, e mesmo nestes momentos muito complicados, ela tem vindo várias vezes a público, saindo em sua. em sua defesa. Miluxa foi durante muito tempo presidente da Agência Nacional de Investimento Privado, da ANIP. Ela esteve nos Estados Unidos com os filhos. Há quem diga que durante muito tempo ela nem dizia que os filhos eram filhos de José Eduardo dos Santos, mas quando volta dos Estados Unidos e vê que os outros filhos de José Eduardo dos Santos estavam a ter algumas benesses, que então ela começa a assumir que os filhos eram de. de José Eduardo dos Santos também, esta mulher foi também considerada uma das 50 mulheres de negócios mais influentes de África. E os filhos? Tizé e Coriandu. Os filhos de Tizé, cujo nome é Velvitcha, que vem daquela planta fantástica do deserto do Namib. Tizé é política. Ela diz que ia aos acampamentos do MPLA aos 5 anos. Ela vem, chega à deputada, depois é suspensa, faz vários episódios muito curiosos. Tizé teve vários negócios e tem. Ela é acionista da Semba Comunicações, que é uma produtora fundada pelo irmão mais novo, o José Eduardo Paulino dos Santos, conhecido como Coriandu, que é um artista que curiosamente é o único que veio no meio desta confusão toda depois do Luanda Leaks dizer que ninguém escolhe a família onde nasce. E ela é acionista maioritária da Diamantifra de Oro. Aliás, ela até tem 30% de uma empresa portuguesa, a Central de Frutas do Peinho, na região do Cadaval, e que estava a ser investigada pelo Ministério Público Português por suspeitas de branqueamento de capitais. O que é que ela ganhou com o José Eduardo dos Santos? Ganhou muito, porque através da Semba ela teve uma série de contratos públicos para campanhas de marketing e sobretudo para a gestão da TPA, que é a Televisão Pública de Angola. O Macangola do Rafael Marques estimava que só em 2016 ela tinha recebido cerca de 87 milhões de euros entregues pelo Estado. E a de Oro recebeu nesse mesmo ano uma licença de prospeção inserida num consórcio e que foi dada por decreto presidencial. Já aqui falámos de quatro, mas publicamente há pelo menos mais cinco filhos, Dulce. Exatamente. Que sejam do conhecimento público, há mais cinco filhos. Embora se diga que ele tem muitos mais filhos, além destes que são do conhecimento público. E a quem, aliás, ele também dá bens e também dá rendas. Dulce, vamos então ao filho que se segue. É José Avelino Gurgel dos Santos, também conhecido como Joês, que é nascido da relação com Maria Bernarda Gurgel. Ele é conhecido como o empresário dos plásticos, porque a sua empresa a Neosol tem 80% e uma grande companhia angolana, Angoplaste, que tinha uma série de benefícios. Outorgados por decreto presidencial. Este filho tem aqui duas coisas que eu acho muito interessantes. Uma, ele é noivo da filha de João Lourenço. E sabemos que as relações entre os dois clãs não são as melhores neste momento, mas a verdade é que Joês tem um noivado com Cristina Lourenço. O outro aspecto curioso é que, durante muito tempo, Joês não foi assumido por José Eduardo dos Santos. Quem o criou foi Paulo Cassoma, um homem muito importante também no regime angolano, grande amigo de José Eduardo dos Santos, que casou com Dadinha, com Bernarda Gurgel, e que criou o filho, este filho de José Eduardo dos Santos, até ele ter mais ou menos 11, 12 anos, e depois terá sido Ana Paula dos Santos, que obrigou José Eduardo dos Santos a reconhecê-lo. Só mais um pormenor sobre este filho, é que José Eduardo dos Santos era um homem da música e os filhos dele vários. Eles tiveram esta costela, digamos assim. E Joês toca numa banda de rock chamada Trinity Nova. Ele é baterista neste grupo, onde o irmão dele, o Danilo, é baixista. Danilo já faz parte dos quatro filhos que José Eduardo dos Santos tem com a atual mulher, Ana Paula Santos. Exatamente. Danilo tornou-se conhecido com a polémica do relógio dos 500 mil euros. Ele estava a participar num leilão de artigos de luxo para ajudar a luta contra a sida e foi muito criticado. Ele depois pede desculpa e explica que não foi nada. Um relógio que foi uma coleção de pintura, que na verdade depois se percebe que é de fotografia. Danilo tem vários negócios. O mais conhecido é o facto de ele ser acionista maioritário do Banco Postal de Angola, que foi constituído em setembro de 2016, onde os outros irmãos de filhos de Ana Paula dos Santos e José Eduardo dos Santos também têm ações. Mas João Lourenço revogou o Banco Nacional de Angola, com João Lourenço revogou a licença do Banco Postal de Angola. Já agora, deixa-me dizer o nome dos outros três filhos. É a Josiane dos Santos, que é cantora numa banda. Que se chama Black Fofas. O Eduardo dos Santos e o Huston dos Santos. Dulce Neto, podemos então afirmar com algum grau de segurança que todas estas pessoas beneficiaram do facto de José Eduardo dos Santos ter estado 38 anos na presidência em Angola. Todos dizem que José Eduardo dos Santos era um homem de família e ele cuidou muito bem da sua família. E cuidou muito bem dos seus filhos. Todos estudaram fora, ou quase todos estudaram fora, e quase todos tiveram negócios ou têm negócios. Mas, curiosamente, José Eduardo dos Santos não cuidou só bem da sua família. Ele também cuidou bem de uma outra família que lhe permitiu ter o poder, o MPLA. Dulce Neto, começamos esta conversa por Barcelona, onde hoje, depois de 38 anos no poder, José Eduardo dos Santos está praticamente sozinho. Sim, sozinho com os seus guardas em Barcelona, como esteve quase sempre. Mas, é curioso que ele tem alimentado, ou alguém por ele, a sua página oficial do Facebook, que se chama GES Patriota. Ele queria ser recordado como um patriota, onde ele põe momentos do seu passado glorioso. Mas, atenção, a história ainda não acabou. José Eduardo dos Santos ainda tem muito poder, tem muito dinheiro. E, na sua perspectiva, dinheiro é poder. E ele ainda tem muitos apoiantes dentro de Angola. Por isso, eu diria que a história ainda não acabou. Não sabemos o que é que vai acontecer ou não. E, se João Lourenço perde esta batalha da economia em Angola, as pessoas estão a passar fome em Angola, e começa a haver, aquilo que se costuma chamar, a síndrome da cebola do Egito. As pessoas começam a dizer, e tu ouves muito isto na rua, ele podia roubar, mas com ele nós tínhamos pão na mesa. As pessoas chegavam-me a dizer, quando não havia comida, ele dava ordens aos filhos, que mandavam vir barcos cheios de comida, e punham comida nos armazéns. Por isso, eles estão convencidos. José Eduardo dos Santos dava-lhes mais comida do que João Lourenço lhes dá comida. Por isso, eu diria que a história ainda não acabou, mas que José Eduardo dos Santos, neste momento, é um homem só, e há uma certeza que ele pode ter, é que Angola já não é dele. José Eduardo dos Santos saiu da presidência em 2017 e goza de cinco anos de imunidade. Questionado pela Deutsche Welle sobre a possibilidade do antigo presidente vir a ser investigado, João Lourenço diz que essa é uma decisão do Poder Judicial e não do Poder Político. No próximo episódio, a vida de Isabel dos Santos, aquela que poderá ser a mulher mais rica de África. O meu pai foi a pessoa que me ensinou a ler. Para mim, ela é uma grande fonte de inspiração. Há uma coisa que ela, na vida, sempre fez. Ela sempre fez o que o pai lhe pediu. Não, não foi. Não foi escolhida pelo meu pai. Eu devo confessar, eu sempre vi em Isabel dos Santos a cara do pai. Com até parceiros como o Américo Amorim ou a SONAI, eles escolhem-na não só pelas suas capacidades pessoais e empresariais. Sabem que, ou percentiam que, sendo filha de quem é, poderiam ter o caminho facilitado. Nós somos do MPLA. Eu acho que disso não há dúvida, não é? Todas as consequências que puderam vir daí, são apenas da sua inteira responsabilidade. Estes são alguns dos sons que vamos ouvir no terceiro episódio. A cara do pai, dedicado a Isabel dos Santos. São muitos os sons e as músicas que usámos neste segundo episódio. Desde logo, os sons das entrevistas feitas por Dulce Neto em Luanda. No início, ouvimos uma canção cantada por Omissi, letra de Luís Panta e produção musical de DJ Bruno Eiji. Uma canção de homenagem ao patrono da AFA, à Academia de Futebol de Angola, José Eduardo dos Santos. Ouvimos também sons retirados da TV Zimbo e da Platino Line e da TPA. Há sons históricos da queda do muro de Berlim, retirados do YouTube, e ainda o hino da União Soviética, cantado pelo coro do Exército Vermelho. Também ouvimos a canção O Futuro é Agora e um xerto da BBC que dá conta da morte de Jonas Savino. Há sons também retirados do YouTube, do canal do MPLA e de João Lourenço na visita oficial a Lisboa. Há mais músicas neste segundo episódio. O kamikaze angolano do iconoclasta Luatio Beirão e detalhes de Roberto Carlos. Há dois pequenos xertos das bandas Trinity Nova com Karma e Black Fofas com Os Meus Olhos Choram. E claro, Balô Mequeno de Bonga que nos acompanha no YouTube. Acompanhe em todos os episódios. A sonorização é da Beatriz Martel Garcia e do Diogo Casinha. Este é um podcast da Rádio Observador que está disponível no site e nas plataformas habituais de podcast. Eu sou o Ricardo Conceição.

Podcast Summary

Key Points:

  1. O episódio aborda a vida e o legado de José Eduardo dos Santos, presidente de Angola por 38 anos, desde a sua ascensão ao poder até à sua morte.
  2. Destaca o culto de personalidade em torno do presidente, com celebrações de aniversário organizadas pelo movimento espontâneo, incluindo festas, futebol e música.
  3. Relata a transição do marxismo-leninismo para o capitalismo após a queda do Muro de Berlim, a abertura económica e a assinatura dos Acordos de Bicesse em 199
  4. Menciona as eleições de 1992, a rejeição dos resultados pela UNITA, o massacre do Dia das Bruxas e a retoma da guerra civil.
  5. Descreve a morte de Jonas Savimbi em 2002, que permitiu a paz e a reconstrução do país, mas também o endurecimento do regime e a repressão a opositores.
  6. Aborda a corrupção sistémica durante o seu reinado, com casos como o Angola Gate, os Luanda Leaks e a investigação à filha Isabel dos Santos.
  7. Explora a vida pessoal do presidente, incluindo as suas múltiplas relações e filhos, muitos dos quais beneficiaram de negócios ligados ao Estado.
  8. Conclui com a saída de José Eduardo dos Santos do poder em 2017, o seu exílio em Barcelona e a sua morte, deixando um legado controverso entre paz e autoritarismo.

Summary:

Este episódio do podcast traça o perfil de José Eduardo dos Santos, que governou Angola durante 38 anos, desde 1979 até 2017. A narrativa começa com as celebrações do seu aniversário, destacando o culto de personalidade e a imagem de "arquiteto da paz" que ele cultivou. O episódio percorre momentos-chave do seu regime, como a queda do Muro de Berlim, que o levou a abandonar o marxismo-leninismo e a abrir a economia ao mercado, e os Acordos de Bicesse, que antecederam as eleições de 1992.

A rejeição dos resultados pela UNITA levou ao massacre do Dia das Bruxas e à retoma da guerra civil, que só terminou com a morte de Jonas Savimbi em 2002. A partir daí, José Eduardo dos Santos consolidou o poder, mas o episódio também aborda a repressão a ativistas, a corrupção sistémica e o enriquecimento da sua família, incluindo a filha Isabel dos Santos. A sua saída do poder em 2017, a escolha de João Lourenço como sucessor e a subsequente rutura entre ambos são analisadas, bem como o seu exílio em Barcelona.

Apesar das críticas, muitos angolanos ainda o veem com nostalgia, lembrando a estabilidade e a paz, enquanto o país enfrenta uma profunda crise económica e social. O episódio termina com a sua morte, deixando um legado ambíguo de paz e autoritarismo.

FAQs

José Eduardo dos Santos foi o presidente de Angola por 38 anos, de 1979 a 2017. Ele também foi presidente do MPLA e é conhecido como o 'arquiteto da paz' por ter liderado o país durante a guerra civil.

O aniversário de José Eduardo dos Santos, em 28 de agosto, era um dia de festa nacional, com eventos como futebol, música, banquetes e concertos em Luanda e em todo o país, embora não fosse feriado oficial.

A 'maca do quadro' foi uma controvérsia em 1982, quando José Eduardo dos Santos recebeu uma caricatura de presente em seu aniversário de 40 anos. Em Angola, 'maca' significa confusão ou problema, e o episódio é considerado a primeira purga política.

Após a queda do Muro de Berlim, José Eduardo dos Santos adaptou o MPLA aos novos tempos, abrindo a economia ao mercado e abandonando o marxismo-leninismo. Isso culminou nos Acordos de Bicesse em 1991 e nas primeiras eleições multipartidárias em 1992.

Ele usou uma combinação de estratégias, incluindo a distribuição de renda do petróleo para sustentar uma rede clientelar, neutralizar oponentes comprando-os ou isolando-os, e cultivando um culto à personalidade como 'arquiteto da paz'.

As críticas incluem corrupção sistêmica, repressão a opositores, esquadrões da morte, e a criação de enormes desigualdades sociais, com muitos angolanos vivendo na pobreza extrema enquanto a elite enriquecia.

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