O episódio do podcast "A Corte de Luanda" narra a trajetória de José Eduardo dos Santos, desde seu nascimento em 1942, num contexto de extrema pobreza no bairro do Sambizanga, em Luanda, até sua ascensão à presidência de Angola em 1979. Sua infância foi marcada pela rigidez paterna e pela influência da irmã Isabel, que mais tarde daria nome à sua filha. Após estudar no Liceu Salvador Correia, ele se envolveu na luta política clandestina e, em 1961, fugiu para o Congo, onde integrou o MPLA. Enviado à União Soviética, formou-se em Engenharia de Petróleos e casou-se com Tatiana Kukanova, após anos de espera devido a restrições políticas. De volta a Angola, ocupou cargos importantes, como Ministro das Relações Exteriores, e tornou-se um dos "delfins" de Agostinho Neto. Sua personalidade reservada e ambígua foi crucial para sua escolha como sucessor, após a morte de Neto, sendo visto como um candidato de compromisso. O episódio destaca sua habilidade em navegar entre facções, como no conturbado 27 de maio de 1977, e sua capacidade de construir um império pessoal e familiar, baseado em petrodólares, sem que sua fortuna fosse rastreada. A narrativa termina com a promessa de explorar, no próximo episódio, como ele exerceu o poder, consolidando sua imagem de "arquiteto de paz" enquanto criava um sistema de corrupção e desigualdade.
O som não é o melhor.
É retirado de um vídeo publicado na internet em 2013.
José Eduardo dos Santos surpreende a mulher
na festa de aniversário de Ana Paula, a 17 de outubro.
Pega na viola e ao microfone canta-lhe
Alma, Coração e Vida.
Mas há aqui um promenor.
José Eduardo dos Santos omite o verso
Eu que não tenho fortuna.
A canção é um clássico dos anos 60 de Lindomar Castilho.
José Eduardo dos Santos é um homem muito inteligente.
Ele consegue construir um império pessoal e um império familiar,
digamos assim, assente neste estado de petrodólares,
mas não se lhe conhece a fortuna.
Isto está tão bem feito que,
quando vamos à procura da fortuna de José Eduardo dos Santos,
nós não a encontramos.
E, por isso, seria muito estranho que ele, mesmo a cantar,
tivesse dito outra coisa, não é?
Tivesse dito eu que não tenho fortuna.
Seria demasiado.
Eu penso que ele aí estaria a dar muito o flanco.
Esta é a voz de Dulce Neto,
a editora executiva do Observador.
Mas é curioso como, até nestes pequenos pormenores,
nós vemos o homem cuidadoso,
aquilo a que Pepe Tela chama de xadrezista,
mas, sem dúvida, um homem muito, muito inteligente.
Bem-vindos à Corte de Luanda.
Este é um podcast da Rádio Observador.
Em quatro episódios,
vamos contar as histórias de algumas das personagens centrais
dos últimos 50 anos de Angola.
José Eduardo dos Santos,
a filha, Isabel dos Santos,
e o atual presidente, João Lourenço.
Os dois primeiros episódios são dedicados ao homem
que liderou Angola durante 38 anos,
José Eduardo dos Santos.
Como chegou à presidência?
Como exerceu esse poder?
Neste primeiro episódio,
vamos até 1979,
o ano em que assume a presidência da República.
É uma história repleta de pormenores,
alguns pouco conhecidos.
Vamos ficar a saber, por exemplo,
que José Eduardo dos Santos
foi presidente do MPLA
em dois momentos diferentes.
E vamos ainda perceber
como começou a construir a rede de poder.
Sim, então, mas ele pensou que tinha que criar
uma classe de ricos,
porque, na lógica,
era essa classe de ricos que defendia os interesses nacionais
para serem os parceiros dos serencheiros nos investimentos.
Nem que fossem apenas investimentos
sem porem lá capital nenhum,
é só darem o nome.
Justino Pinto de Andrade saiu do MPLA
ainda antes da independência de Angola, em 1975.
Hoje é o líder do partido Bloco Democrático.
Justino Pinto de Andrade foi entrevistado por Dulce Neto em Angola.
Para esta série,
recolhemos e cruzamos informação.
Conversámos com muitas pessoas.
89 pessoas, para ser exato.
Poucos aceitaram gravar.
Analisámos também documentos,
entrevistas, dados,
para conseguir chegar às histórias
que vamos contar nestes quatro episódios.
Eu sou o Ricardo de Conceição,
sou editor executivo do Observador.
Primeiro episódio:
O Viajante.
O Viajante.
O Viajante.
O Viajante.
O Viajante.
O Viajante.
O Viajante.
Bem-vinda, Dulce Neto.
Obrigada.
Vamos, se calhar, começar pelo fim desta história.
José Eduardo dos Santos é hoje, dirias, um homem isolado num exílio confortável.
Em Barcelona.
José Eduardo dos Santos é uma figura misteriosa.
Foi sempre.
E continua a ser.
Por isso, continua a ser muito difícil perceber exatamente o que é que se passa com ele.
Eu lembro-me que o escritor angolano José Eduardo Agualuza diz que ele é uma figura
opaca.
Ele é muito discreto, mas mais do que discreto, há até um sociólogo angolano, Paulo Inglês,
que tem uma imagem muito curiosa sobre ele.
Ele diz que ele é uma caixa de vidro embaciada, por isso, é muito difícil ler José Eduardo
dos Santos.
E sempre foi.
Por isso, agora que ele está em Barcelona, é muito difícil perceber o que é que se
passa com ele, mas é inevitável aquela imagem de um general no seu labirinto, não é, sozinho,
numa mansão de 6 milhões de euros, num bairro da elite de Barcelona, que se chama Pedralbes,
não é?
Pedras Brancas.
Sim.
Pedras Brancas.
Um bairro em Catalão.
E o que me dizem em Luanda é que ele está muito isolado.
Tem os seguranças, tem alguns fiéis que ainda o visitam, um ou dois dos seus generais,
pelo que me disseram, ainda o visitam em Barcelona, e receberá muito de vez em quando
a visita de uma das duas filhas.
Nossos pais nos diziam que ele viveu aqui no bairro de Samzanga, mas nós com 40 e tal anos queremos saber onde é que ele viveu, a casa em que ele viveu, isso tudo nós queremos saber, mas nunca ninguém conseguiu nos dizer porque não, viveu aqui no bairro de Samzanga, os pais foram fulano, não sei o que foram fulano, nunca ninguém conseguiu nos dizer isso.
Nem o senhor, que vive cá há tantos anos, não conheceu nem o pai, nem a mãe dele, porque o que dizem é que eles iam vender ali no mercado de São Paulo, engraçado, não é? Pensava que é que os mais velhos saberiam.
Para contarmos a história deste homem temos de regressar a uma Luanda dos anos 40, a este bairro onde estamos agora, o bairro do Samzanga. Dulce Neto, que bairro é este?
O bairro da Samzanga.
O bairro da Samzanga é um dos grandes bairros de Luanda, é um museque que fica próximo do mercado de São Paulo, onde a mãe de José Eduardo dos Santos, que era quintandeira, ou seja, que vendia fruta, trabalhava onde ela ia vender os seus produtos, não é?
É curioso que as pessoas que vivem no Samzanga, os mais velhos. Os mais velhos, como eles dizem, não se recordam dos pais de José Eduardo dos Santos, nem de José Eduardo dos Santos. Eles dizem mesmo que é impossível que ele tenha nascido ali.
José Eduardo dos Santos ia sempre a este bairro, o do Samzanga, jogar. Ele ia jogar futebol.
Ele gostava muito de jogar a bola, não era?
Ele gostava muito de jogar a bola e eles contaram-me que ele ia lá, que na véspera dele ir o bairro ficava logo todo cercado.
Ele quando vinha aqui ele se achava de tropa para segurar, para guardar. Quando ele vinha para jogar aqui, aqui ninguém se mexe muito, tudo fica cheio de tropa.
Então com quem é que ele jogava?
Jogava com os amigos dele, todos os amigos deles.
Com os amigos dele do partido.
Não era com as pessoas do bairro?
Não, não. Ele para vir aqui tem que ser muito acompanhado. Antes dele vir, isso que tem que ser cercado, dorme já tropa cercado.
Perante tudo isto, há dúvidas sobre o local onde cresceu nos primeiros anos, José Eduardo dos Santos.
Temos, pelo menos, algum grau de certeza sobre o local onde nasceu?
Não, há uma controvérsia sobre o sítio onde ele nasceu.
Há quem diga que, na verdade, ele é um imigrante de São Tomé e Príncipe, que há uns anos houve uma polémica em que a oposição, inclusive, terá mostrado uma cédula de nascimento que depois foi dito que era falsa, que dizia que ele teria nascido em São Tomé e Príncipe.
Porquê? Porque agora põe-se a questão. É angolano ou é santomês?
Esta é a voz de Jonas Savimbi, o líder da UNITA no comício.
A Angola não pode ser governada pelos angolanos, tem de ser pelos estrangeiros.
Desta vez, tem de acabar.
A biografia oficial dele diz que nasceu em Luanda, ponto.
E até sobre o nome, há algumas dúvidas ou pelo menos algum mistério envolvido no nome de José Eduardo Santos?
Durante algum tempo não se soube que ele era da família dos Vandunan, uma família muito importante em Angola.
Um jornalista angolano explicou-me que ele pertencia à parte mais pobre, ao ramo mais pobre da família.
Ele até usou uma expressão muito interessante, dizia que eram os Vandunan do quintal por oposição aos Vandunan de dentro de casa.
E José Eduardo Santos ter-se-á sentido ostracizado por parte da família mais, da parte mais rica da família
e por isso, como bom stalinista, teria apagado o apelido do seu nome.
Porém, quando o pai morreu e se tornou público que o avô se chamava Avelino Francisco Pereira dos Santos,
Vandunan, ficou claro que ele pertencia à família e nessa altura José Eduardo até terá comentado para um amigo
então pensavam que eu não tinha família, pois eu então, eu também sou Vandunan, não é?
Temos a certeza absoluta, porém, que nasceu num contexto de pobreza.
Sim, ele nasceu numa circunstância de extrema pobreza.
O pai, Eduardo Avelino dos Santos Vandunan, tinha sido imigrante em São Tomé
e quando regressou a Luanda com a mulher, Jacinta José Paulino,
ficaram a morar numa casa de adobe com os dois primeiros filhos, Isabel e Avelino,
uma casa que acabou destruída por uma chuva torrencial.
E então eles ergueram uma de chapa e foi aí que o futuro inquilino do Palácio da Cidade Alta
nasceu a 28 de agosto de 1942 e ele veio alegrar o casal, porque o casal perdera há pouco tempo uma filha.
Portanto, contou o irmão mais velho do José Eduardo dos Santos, Avelino, ao Jornal da Angola há algum tempo
e foi muito curioso porque coube a Avelino dar o nome, escolher o nome para aquele bebê,
era um bebê débil, ele diz que ele era um bebê débil
e ele contou a um historiador angolano, ao Patrício Batsikama, que ninguém contava que ele fosse viver
e então ele, como já era crescido, chamou-lhe viajante, viajante no sentido de alguém que apenas
vem e vai embora.
E como foi a infância nesse ambiente, ainda sob o domínio colonial português?
O irmão contava que o pai, o pai era calceteiro da Câmara de Luanda e a mãe era quintandeira,
vendia do mercado de São Paulo, que é um mercado que ainda hoje se impõe muito frenético na paisagem do bairro
saiam muito cedo de casa, diz que o pai era muito estrito e que tinha um feitiço complicado
acordava às 5 da manhã e mais ninguém podia ficar na cama e que lhes incutiu uma educação muito rígida
ele diz que no bairro ou na rua eles tinham que respeitar as pessoas e que essa rigidez moldou o caráter dele
mas quem cuidou muito de José Eduardo dos Santos, como os pais saiam muito cedo, ele ficou à guarda da irmã Isabel
tinha uma força muito grande em José Eduardo dos Santos, tanto quando ele tem a primeira filha
ele resolve homenagear a irmã dando o nome à primeira filha, à Isabel dos Santos
e ele acaba por entrar depois no Liceu Salvador Correia, estamos a falar dos anos 50
que é tido como uma espécie de liceu mais reservado às elites de Luanda dessa época
mas ele consegue entrar nesse liceu
é verdade, ele antes de entrar no liceu, ele frequenta a escola primária do bairro
e depois ele vai para a missão evangélica, porque os dois avôs dele eram pastores metodistas
e ele chega a fazer parte do grupo de jovens dessa igreja
não eram católicos
ele não era católico
e ele depois, mas há um episódio muito curioso da entrada dele no Salvador Correia
que o irmão dele conta e que podíamos ver aqui já uma das características de José Eduardo dos Santos
que os seus adversários dizem é que ele é muito dissimulado
mas também já o esquema angolano de conseguir as coisas
o irmão conta que isto era o liceu das elites
e que o prazo para ele se inscrever, depois de feita a quarta classe, terminava naquele dia
mas ele não tinha o certificado pronto
e o irmão pediu-lhe então para ele usar a saliva para simular um choro e um desespero
e assim convencer a funcionária a ser flexível
umas lágrimas falsas
e pelos vistos resultou, não é?
resultou, mas os problemas não acabaram aí
depois ainda faltava o dinheiro para pagar as propinas
e o Avelino pediu isenção para o irmão e não conseguiu
mas ele não desistiu
ele conta que fez duas mesinhas de cabeceira
e um beliche para oferecer aos dois chefes da administração central
e isso resultou
ou seja, pagou com mobília a entrada do irmão no liceu
ele foi um dos primeiros negros a frequentar aquela escola nos anos 50
e é nesse. nesse liceu que o viajante
assim lhe chamavam o irmão, não é?
José Eduardo dos Santos
se torna também um atleta
é verdade
temos um político português
o Miguel Anacureta Correia
que foi contemporâneo dele nesse liceu
e que se lembra dele muito reservado
e que as pessoas o conheciam fundamentalmente do futebol
acho que ele era um excelente interior esquerdo
e é aí no liceu que ele desperta para a vida política?
é durante o liceu que ele começa
a entrar
a juntar-se com um grupo de amigos
ao fundo do quintal
o Avelino, o irmão Avelino também conta isso
e onde eles começam
a sua luta política na clandestinidade
claro, não é?
e onde ele começa a desenvolver
uma veia musical
digamos assim
porque ele começa a cantar
canções que nós chamaríamos
de intervenção
ou seja, canções de cariz político
Caputo Mangolé é uma canção
contra os colonos portugueses em Angola
Caputo Mangolé é uma canção contra os colonos portugueses em Angola
que diz mais ou menos isto
os portugueses estão a matá-los
foi o irmão que lhe ofereceu a primeira viola
uma viola que foi feita
que foi feita por ele
e ele revelou-se como cantor e compositor
nos quimbandas do ritmo
e depois no conjunto
Nesagi
que significa trovoada
e sempre
isso é muito curioso
porque tendo ele essa personalidade
fechada, reservada
de que já falaste
torna-se cantor
e escreve, ou pelo menos são-lhe atribuídas
algumas letras importantes
dessas canções de protesto e de intervenção
sim, é verdade
dizem que ele é o autor
de uma canção muito popular em Angola
que é Caputo Mangolé
mas que também são dele
alguns trechos e alguns arranjos
do hino do MPLA
criado ainda antes de 1900
e 63
Na manhã de 4 de fevereiro
os erros quebrarão as sargemas
para vencer o colonialismo
e criar uma angora renovada
Ele é claramente um apaixonado por música
e por cantores brasileiros
e não só
ao longo da história
teve aqui vários anos
vários episódios de fã
de alguns nomes importantes da música
Sim, sim, ele era fã incondicional
da brasileira Roberta Miranda
que disse numa entrevista
ela é que disse isto numa entrevista
que uma vez foi acordada às 3 horas da manhã
por um telefonema do presidente
que queria a sua opinião sobre a política
e o povo locais
aliás, ele depois convida a próximo casamento
com a Ana Paula dos Santos
ele continuou a escrever e interpretar
canções de intervenção na República Democrática
do Congo, ou então Zaire
na altura ainda ali o Polo de Ville
onde ele dava aulas de português
aos refugiados angolanos
e formou um grupo, um clube de futebol
o Negola Livre
e mantinha a banda Nesagi
e depois mesmo quando ele vai
para a União Soviética estudar
ele lança um disco com 4 canções suas
e foi muito curioso
quando ele fez 72 anos
o filho, Koryandu
e o cantor angolano Matias Damasio
ofereceram-lhe um CD
que era um disco de música
que reeditava essas canções revolucionárias
como uma que se chamava
Doutor Neto
Já falaste aí das canções revolucionárias
da Roberta Miranda
mas também sabemos
e é público que José Eduardo
é um grande fã de Roberto Carlos
e até de Sil
que cantou em Luanda
Ele foi a um jantar de angariação de fundos para a Fundação Luini, que era da então Primeira Dama, isto em 1998,
e até ofereceu um livro de fotografias de Angola, depois de o ver dançar com Ana Paula dos Santos.
Ninguém sabe quanto custou esse concerto.
Não é conhecido, mas todos sabemos que o cachê de Sil não é propriamente muito baixinho.
Vamos, Dulce Neto, regressar ainda aqui ao quintal, porque tu deste um salto aqui muito grande no tempo
e queria voltar ao quintal de casa, onde ele começa a ter essa consciência política,
numa Angola e numa Luanda, ainda nos anos 50, finais dos anos 50, ainda sob domínio português.
Como é que vai parar o Congo? Conta-nos lá essa parte da história.
Segundo o irmão, que morreu no ano passado,
o irmão alistou-se no MPLA em 1956, quando o movimento surgiu,
e a 7 de novembro de 1961, ele abandonou Angola com medo da PIDE.
Saí clandestinamente de Angola para o Congo e o Polo de Vila,
onde pouco tempo depois recebi o cartão de membro do MPLA,
nos escritórios deste movimento de libertação nacional,
na cidade de Leopoldo Vila, hoje, em Kinshasa.
O irmão lembra-se perfeitamente que se estava a preparar para ser operado a uma hernia
e que José Eduardo, que nada comunicou aos pais, apareceu com um amigo para se despedirem.
E ele foi, e ele diz que lhe ofereceu algumas roupas, algum calçado, e que lhe desejou boa sorte,
e que ele foi. E que nunca mais, e que só muito mais tarde é que voltou a ter notícias, digo eu, do irmão.
E ele nem se apercebeu.
Não se apercebeu que o irmão, em 1962, integrou a guerrilha do MPLA,
o Exército Popular de Libertação de Angola, a EPLA.
Portanto, ele vai para o Congo, onde fica na clandestinidade.
Falaste aí da PIDE, ele estava debaixo da atenção da PIDE? Há registros?
Não muito, não muito. Isso nota-se como ele sempre foi esta figura subterrânea,
esta figura calada.
Calada e discreta, que não dava muito nas vistas.
Eu até dizia que ela era daquelas pessoas que você podia estar a procurar onde é que está o chefe.
Não está. Porque não era de exposição. Muito discreto. Muito sereno.
Esta é a voz de David Mendes. É presidente da Associação Angolana Mãos Livres e deputado independente eleito pela UNITA.
Nos ficheiros que eu consultei na Torre do Tombo, vê-se que a 28 de fevereiro de 1966,
a PIDE solicita alguma informação ao serviço de ficheiros sobre José Eduardo Santos.
Se houve alguma resposta ou não, isso não consta nos documentos da PIDE DGS.
O nome dele só aparece em listas de angolanos que então estudavam na União Soviética.
Então vou já aproveitar esse ponto.
Já a partir do Congo, é já na clandestinidade que recebe esse prémio,
não sei se posso usar a palavra prémio, de ir estudar para a União Soviética.
Não é bem um prémio, não é? O MPLA mandava os seus quadros estudar para a União Soviética.
Mas é um reconhecimento, pelo menos.
E para o Bloco de Leste para os preparar, não é? Para os preparar.
Em 1963, ele consegue uma bolsa para estudar na antiga União Soviética.
E com outros jovens angolanos, ele apanha um avião da Air France até ao. Gana, faz escala em Bamako e em Lagos, depois muda para um avião soviético que o leva a Moscovo,
ainda passa por Casablanca e por Belgrado, e depois aí em Moscovo eles são distribuídos por várias cidades
e José Eduardo segue para Baku, a grande cidade costeira do Mar Cáspio e centro de treino ideológico.
E é em Baku que conhece Tatiana Kukanova.
Exatamente. Ele licenciou-se em 1969 em Engenharia de Minas, segundo os documentos da PIT,
ou Engenharia de Petróleos, eu penso que aqui é só uma questão de nomenclatura,
no Instituto de Petróleo e Gás de Baku, e já nessa altura liderava a secção dos estudantes angolanos na União Soviética.
E eu gosto de o imaginar nesta capital do Azerbaijão, talvez com o crachá da JMP lá ao peito,
que era um emblema de liga leve, dourado, tinha um fundo azul e um facho vermelho,
e aí ele conhece a Tatiana Kukanova, ela por si só uma personagem, ela era campeã de xadrez,
ela estudava geologia, russa, sim, e ele queria muito casar com aquela russa loira, mas ele teve de esperar seis,
sete anos para conseguir casar com ela.
Explica-nos lá essa história, porque é importante para percebermos também como tudo se desenrola a seguir.
Aqui, como em muitos outros momentos da vida do ex-presidente angolano, as versões variam muito, não é?
Uns, como uma amiga de Tatiana, com quem eu falei sobre reserva de identidade,
dizem que a dificuldade veio do racismo do meio em que vivia, da sua família e dos seus pais.
Ninguém via com bons olhos que uma branca se casasse,
com um negro.
Outros, como Margarida Paredes, que é uma investigadora portuguesa e antiga guerrilheira do MPLA,
amiga do casal, diz que a família se deve ter oposto porque a sociedade soviética era profundamente racista,
e eles esperaram seis anos por uma autorização do casamento,
porque o MPLA tinha como política não permitir o casamento dos camaradas com mulheres estrangeiras.
Isto é a visão da investigadora Margarida Paredes.
Mas a filha, Isabel dos Santos, atribui a responsabilidade da demora ao KGB.
Ela disse isso numa entrevista ao Financial Times.
Já com Tatiana Kukanova, depois de terminados os estudos na União Soviética, o que é que acontece a José Eduardo Santos?
Há aqui um pormenor que é muito importante e que há quem, como Justino Pinto de Andrade,
justifique a sua permanência no poder.
Há várias qualidades ou há várias características de José Eduardo Santos.
José Eduardo Santos, que permitem explicar que ele tenha sido o senhor absoluto de Angola durante 38 anos.
E esta é uma delas.
Esta é uma delas.
Justino Pinto de Andrade, que foi do MPLA, é um dissidente do MPLA e hoje é dirigente do Bloco Democrático,
lembra isto.
Ele, quando acabam os estudos de engenharia, ele faz durante um ano um curso militar de telecomunicações.
Ainda na União Soviética.
E os russos gostaram tanto, ficaram tão agradados com as suas atividades,
que lhe deram um prémio, agora sim, uma medalha chamada Patrice Lumumba.
E ele daí segue para Brazzaville, no Congo.
Para o Congo.
No Congo.
Ele só volta a pisar Angola em 1970.
Por isso, ele sai em 1961, quando começa a guerra colonial, na verdade, não é?
E ele só volta em 1970.
E o irmão, Avelino, diz que quando ele. Quando ele regressou, que não entrou logo em casa dos pais, que chegou de madrugada e que foi dormir para o jardim,
que não bateu à porta e que quando acordaram e ele estava ali e ficaram muito. Foi uma alegria, uma alegria enorme.
Ficaram espantados porque ele trazia com ele uma mulher branca, Tatiana Kukanova.
Depois disto, o MPLA colocam em cabinda e colocam em cabinda como o quê?
Como operador do Centro Principal de Comunicações da Frente Norte.
E depois, como responsável adjunto dos serviços de telecomunicações na segunda região político-militar do MPLA,
de cujas finanças ele depois vai cuidar mais tarde.
Ou seja, José Eduardo Santos é um homem das comunicações, é um homem da segurança.
E isto é uma característica muito importante.
Não lhe conhecemos nenhum currículo no mundo do petróleo, a não ser o uso dos petrodólares,
mas a experiência dele e a prática dele é nas comunicações, de facto, é nas comunicações.
E estamos a falar do enclave de cabinda aqui já em anos 70, é nessa altura que estamos.
Anos 70, sim, estamos nos anos 70.
Deixa-me só fazer-te aqui uma pergunta por curiosidade.
Ele falava com a Tatiana Kukanova em português, em francês, sabe-se?
Ele fala russo.
Segundo a amiga Margarida Paredes do casal, a investigadora que falou com o observador,
do Oeste Portuguesa, que ensinou a Tatiana a falar português já no Congo.
Porque em 1974 ele volta a Brazzaville e aí ele vai representar o partido.
E aqui nós já vemos uma ascensão de José Eduardo Santos dentro do partido.
Em novembro de 1974 foi eleito membro da direção do MPLA.
Nesse mesmo ano ele é eleito para o Comitê Central e para o Biorro Político do MPLA
e fica a coordenar o setor político e diplomático.
Isto é muito importante.
Porque José Eduardo Santos vai movimentar-se muito bem nos palcos internacionais, ele mais tarde vem a ser o que nós chamamos de Ministro dos Negócios Estrangeiros. Por isso, ele aos 32 anos já é um alto dirigente do movimento.
E vai acumulando poder já dentro do. Bem, eram tantos bichos a partilhar com eles as paredes, com o telhado de coma em Brazzaville, que ela não deixou de protestar, como contou mais tarde a uma amiga angolana que falou com o observador.
Entretanto, estávamos aqui em 74, 25 de abril em Portugal, precipitam-se as independências nas colónias portuguesas em África. José Eduardo Santos regressa a Luanda quando?
José Eduardo Santos só regressa a Luanda em junho de 1975.
Portanto, alguns meses ainda antes da independência, que foi a 11 de novembro de 1975.
O Comitê Central do Movimento Popular de Libertação de Angola, MPLA, proclama, solenemente, perante a África e o mundo, a independência de Angola.
Eles ficam aí a viver numa moradia com quintal e com recheio espartano.
Na rua que hoje se chama Comandante Stone, no conhecido bairro de Alvalade.
Dulcenete, tu estiveste em Luanda, agora recentemente, e foste lá bater à porta.
Fui. É uma casa branca, com arcadas. Curiosamente, mesmo ao lado da casa do ex-primeiro-ministro que José Eduardo Santos humilhou publicamente, o Marcolino Mouco.
E eu fui bater à porta para ver quem é que estava lá a viver.
Estava lá alguém?
Estava.
Uma jovem, que depois foi chamar um outro senhor e que disseram que não podiam responder a nenhuma pergunta.
Mas os guardas das casas vizinhas dizem que aquela casa é agora de Isabel dos Santos.
Da filha de José Eduardo dos Santos, que viveu com o pai e com a mãe, nesse bairro, nessa casa, não é?
Sim, sim. Eu falei com alguns vizinhos e alguns amigos dessa altura, que contaram que eles, nesta altura, tinham uma vida modesta também.
Até contam um episódio de que tiveram que ir buscar umas bolachas e uns bolos à loja dos diplomatas.
Isto é a altura em que havia muita falta de alimentos, não é?
E havia a loja do povo, havia a loja dos diplomatas e há uma vizinha que vai à loja dos diplomatas buscar umas bolachas porque o aniversário da Isabel dos Santos tinha uns baldes de gelado do baleizão.
Ela recorda-se bem disso. A vida deles era muito modesta. José Eduardo dos Santos só compra um carro algum tempo depois e graças a um esquema engendrado por Tatiana.
A Margarida Paredes conta este episódio que é, e depois de os brancos portugueses terem saído, não havia comida, conta Margarida Paredes.
E Margarida recebia todas as semanas um caixote que a mãe lhe mandava de Lisboa pela TAP. Mandava-lhe queijo, bacalhau.
Duas garrafas de vinho. E ela distribuía aquilo pelos amigos. A Tatiana sabia sempre quando é que o caixote dela chegava e pedia-lhe o vinho.
Ela só queria o vinho, não era para o beber, era para servirem como moeda de troca.
É por isso que Rafael Marques diz que é nesta altura que começa o que se chama a candonga.
Quem arranjasse uma grade de cervejas nessa altura, diz a Margarida Paredes, e o vinho, então tinha um grande valor.
Então, a Tatiana arranjou um esquema de trocar as garrafas de vinho por um carro e há uma outra amiga.
Uma amiga que também conta que a primeira vez que ouviu falar em dólares foi exatamente com a Tatiana.
Há quem diga que o jeito para o negócio de Isabel dos Santos terá, e para os esquemas, terá surgido com a mãe.
Vamos só parar aqui um pouco a conversa para dar um salto até à atualidade.
Hoje, a vida de Tatiana Cocanova será bem diferente. Para já, viverá em Londres e até o nome mudou.
Chama-se Tatiana Sirgivna Regan.
Tatiana continua misteriosa.
Não se consegue encontrar uma única fotografia dela na internet.
O nome de Tatiana surge agora também envolvido em algumas suspeitas de crimes de branqueamento de capitais, por exemplo, em Portugal.
Segundo o Correio da Manhã, há uma suspeita que estará a ser investigada e que estará relacionada com transferências,
de dinheiro do estrangeiro para o Banco BIC em Portugal, banco que tinha como principal acionista a filha, Isabel dos Santos.
Estamos a falar de transferências de cerca de 10 milhões de euros, feitas sobretudo em 2012.
Estas transferências estarão nesta altura a ser investigadas.
Ela adquiriu, ela comprou as cadeiras do episcopado e queria que esta amiga as vendesse em dólares.
A essa altura que ele vai a ministro, não é?
Ele depois vai a ministro das relações exteriores.
Sim, ele depois vai a ministro das relações exteriores do MPLA, assume a coordenação do Departamento de Relações Exteriores do MPLA
e ele visita várias capitais africanas e acumula também com o Departamento de Saúde.
Isto vai ser muito importante para ele, esta experiência internacional para o futuro.
E aí a vida da família foi melhorando um bocadinho.
Só uma coisa é que não mudava, é que ele continuava mudando.
Muito, muito pouco sociável.
As pessoas descrevem-no como uma figura quase exprovida de afetos, com exceção para a filha.
Com exceção para a Isabel dos Santos, com quem ele gostava muito de passear de mão dada.
O arquiteto da paz como está?
Então, como eu prometi há bocado, esta vai ser a última pergunta que eu vou responder, que é sobre o meu pai.
O meu pai está preocupado, o meu pai acredita que em Angola tem que vencer a verdade.
Eu falei com ele hoje e. O que ele me disse foi. A luta continua.
Muita coragem.
Esta é a Isabel dos Santos, num direto feito no Instagram no início de 2020.
José Eduardo Santos nunca teve uma ligação forte a ninguém.
Talvez só a Isabel dos Santos, aos filhos e a ele próprio.
Não se pode dizer. Ele é uma figura muito ambígua, mesmo dentro das aulas do MPLA.
Sim, ele era um ministro importante.
Ele era um ministro importante de Agostinho Neto.
Ele depois é ministro do Plano, que é a segunda figura do governo.
Mas não se lhe conheciam fações.
Na verdade, não se lhe conheciam opiniões.
E isso é um traço que permanece com ele até hoje.
Ele falava pouco, dava muito poucas entrevistas.
Todos os discursos eram trabalhados.
Muito pouca espontaneidade.
E isso permite que os outros se enganem sobre ele.
Porque nunca sabia bem o que é que ele pensava.
Exatamente.
E isso perdurou ao longo da vida, como vamos perceber.
Ele era um delfim do Agostinho Neto.
Repara, havia muito poucos quadros formados do MPLA.
E ele era um quadro formado.
Tinha estas relações muito boas com a Rússia.
Era um homem calado.
Não se lhe conhecia o que pensava.
Era um dos delfins de Agostinho Neto, de facto.
Mas José Eduardo Santos fica mais próximo de Agostinho Neto.
A partir da independência do 11 de novembro de 1975, como tu referias.
Ele é primeiro-ministro das Relações Exteriores
da então República Popular de Angola.
E como tal, ele obteve o reconhecimento internacional do governo
e a entrada do país na ONU em 1976.
E ele depois é nomeado vice-primeiro-ministro
de 1977 a 1978.
E ocupou a seguir um cargo importantíssimo,
o tal que eu estava a referir há pouco,
o de ministro do Plano.
Isto no governo.
Mas no partido, ele também ascendia.
Ele ascendia a secretário do Comitê Central
para a Educação, Cultura e Desportos,
para a Reconstrução Nacional
e para o Desenvolvimento Económico e Planificação.
Por isso, já estava numa escala ascendente.
O rudo golpe sofrido pelo povo inteiro,
com o desaparecimento físico do nosso querido Guia,
fundador da Nação e do MPLA Partido do Trabalho,
o camarada presidente, doutor António Agostinho Neto,
provocou uma dor profissional
que permanecerá em cada momento da nossa vida
de povo soberano e independente.
Como é que José Eduardo dos Santos,
pouco tempo depois,
poucos anos depois, de 1975,
chega à presidência
e chega àquele papel preponderante
na liderança do MPLA?
Por várias circunstâncias.
Agostinho Neto morre subitamente em agosto de 1979
e, na verdade, o MPLA,
quando anuncia no seu aerograma urgente
número 522, que José Eduardo dos Santos
sucedia Agostinho Neto na direção do Partido do País
e das FAPLA, na verdade,
dá a ideia de que seria uma escolha provisória
até encontrarem um novo líder,
mas, como se viu, o transitório quase se transformou.
Juro respeitar e fazer cumprir a lei constitucional as leis que regem e regerão a vida nacional.
Por que ele, quando havia figuras mais emblemáticas, e também aqui as explicações divergem, há pessoas como Rafael Marques, o conhecido jornalista e ativista, o rosto anticorrupção de Angola e que foi fundador da organização não governamental, o falou.
Ele diz que mais de metade dos quadros do MPLA tinha sido dizimada no 27 de maio de 1977. Por isso não havia muito por onde escolher e havia que encontrar um nome que não acirrasse mais os ânimos e como ele era muito calado e pouco sabia das suas verdadeiras opiniões, ele servia. Por outro lado, ele tinha boas relações com os soviéticos, não era do UAMBO e não era nem mulato nem branco.
A profundidade com que analisava e ajudava a solução dos diferentes problemas.
Fez com que, em todos os momentos difíceis do movimento, a sua participação tivesse decisiva influência.
Este é Lúcio Lara, em setembro de 1979, na tomada de posse de José Eduardo Santos.
Sabe-se, por exemplo, que Lúcio Lara estava auto-excluído por não ser negro e também Lopo do Nascimento, que foi o primeiro ministro.
Após a independência, diz que eles foram aconselhados por dois países amigos, o Congo e a Argélia, a não escolherem nem militares nem mestiços.
Naquela altura, ele era um candidato de compromisso.
Vale a pena ouvir aqui, Filomeno Vieira Lopes é dirigente do Bloco Democrático e conheceu José Eduardo Santos em 1975.
Ele quase que é postular para depois as outras correntes terem tempo de fazerem as suas estratégias e tomarem o poder.
Mas ele foi mais, foi mais esperto.
De qualquer maneira, penso que também houve ali uma mãozinha da União Soviética, não é?
Ou seja, José Eduardo Santos encaixava no perfil necessário naquele momento, daí ter sido uma transição tranquila, pacífica, dentro do MPLA.
Sim.
Sim, o ex-primeiro-ministro Marcolino Mouco diz que ele era o Delfim do Agostinho Neto, o ministro do plano mais relevante do governo,
já que não havia primeiro-ministro nessa altura.
E o facto de ele ser muito introvertido e não saber o que ele pensava, permitia que os outros pensassem que o poderiam manipular de alguma maneira.
E sabemos, por exemplo, o que é que a UNITA pensava dele, ou não?
Sim, o Joana Chavimbi não tinha uma grande opinião.
Sobre ele. Eu não respeito o Santos de forma nenhuma.
Aliás, várias pessoas o subestimaram, mas Joana Chavimbi, o líder da UNITA, qualificava-o à CIA nesta altura.
Dizia que ele era fraco, passageiro e inofensivo.
A história, como se sabe, provou o contrário.
Não podia estar mais enganado.
Adelce, parece que estás aí a descrever aquilo a que chamamos um lobo na pele de cordeiro.
Sim, é verdade.
Mas há aqui uma outra qualidade que ele tinha e que tem a ver com as fações existentes dentro do EPLA,
com o problema do 27 de maio de 1977, onde José Eduardo dos Santos tem uma posição, um papel muito ambíguo.
Fazemos aqui mais uma breve paragem, porque importa explicar rapidamente o que foi o 27 de maio,
de 1977.
Uma tentativa de golpe de Estado que tinha à cabeça Nito Alves, o então ministro da Administração Interna de Angola,
e José Vandunam, o irmão da ministra portuguesa da Justiça, Francisca Vandunam.
Tinham sido acusados de fraccionismo e foram afastados do MPLA.
Nito Alves e os apoiantes alegavam que o partido se estava a afastar da União Soviética.
Nesse momento, o partido foi afastado da União Soviética.
Nesse final de maio de 1977, apoiantes de Nito Alves invadiram a cadeia de Luanda
para libertar companheiros detidos e tomaram ainda a Rádio Nacional.
Com o apoio de tropas cubanas, Agostinho Neto, então presidente, esmagou a revolta de forma muito violenta.
Os nitistas, os apoiantes de Nito Alves, foram perseguidos,
torturados e mortos.
A Amnistia Internacional aponta para 30 mil mortos entre apoiantes e não apoiantes de Nito Alves
na sequência de uma verdadeira purga.
Os corpos de José Vandunam e da mulher, Cita Valls, e também de outros apoiantes da revolta,
nunca foram entregues às famílias, nem foram sequer emitidas as certidões de óbito.
Este é um dos mais violentos episódios da história recente de Angola.
Voltamos agora à conversa com o Adulce Neto para tentar perceber qual foi o papel de José Eduardo dos Santos no 27 de maio.
A questão é tudo menos pacífica.
Agostinho Neto nomeou antes da matança José Eduardo para fazer o inquérito sobre Nito Alves.
Havia ou não havia fracionismo no MPLA?
Não havia fracionismo no MPLA do relatório que nunca foi oficialmente. No relatório que nunca foi oficialmente apresentado, só se conheceu uma palavra, inconclusivo.
Um antigo membro do MPLA, que esteve preso e foi torturado sob as ordens de José Eduardo dos Santos
e falou com o observador com reserva de identidade,
ele está convencido que o inquérito foi mesmo entregue ao bureau político,
mas nunca se sabe de que lado é que José Eduardo estava.
Ele era um político florentino, com um arsenal de técnicas e ambiguidades,
que parecia estar com todos, mas não estava com ninguém, a não ser consigo próprio.
Justino Pinto de Andrade, quando conversou com o observador em Luanda,
traz aqui uma outra leitura, vai para trás, vai para 1972,
e diz que quando José Eduardo veio da União Soviética e desceu para o Congo,
não estava muito agradado com aquilo que encontrou.
Ele era adjunto do Lúcio Lara em Brazzaville,
e Lúcio Lara tinha uma série de contestatários,
porque era Lúcio Lara que dava as bolsas de estudo,
que determinava quem é que ia estudar para o estrangeiro.
E segundo Justino Pinto de Andrade,
havia pessoas que queriam ir para o estrangeiro tendo apenas a quarta classe,
pensando que iam conseguir ter um grau universitário,
e o Lúcio Lara não queria isso,
queria que pelo menos as pessoas tivessem o liceu ou parte do liceu feito.
E faz parte do próprio regime colonialista,
eram os mestiços, os mulatos ou os brancos que conseguiam estudar mais,
e por isso ele mandava mais brancos e mais mulatos para fora, na verdade.
Então ele tinha aqui uma oposição por parte de alguns contestatários,
e eles quando estavam no Congo, eles prendem o Lara no quarto banho,
e o papel do José Eduardo aí foi muito enigmático contra o Justino Pinto de Andrade.
É um papel enigmático, e porquê?
Porque quando o grupo de contestatários ao Lara impõe,
a saída do Lara, da direção,
então o José Eduardo não agiu com a presteza que seria em princípio expectável.
O que o Justino Pinto de Andrade me contou é que ele estava,
que o avisaram de que ele estava a ser sequestrado pelos companheiros,
e que lhe disseram para ele comunicar ao presidente Neto que estava na Tanzânia,
aquilo que estava a acontecer em Brazzaville.
Olha, o José Eduardo subiu para o lado.
Não agiu com a presteza que seria expectável naquela altura.
Significa que ele, em princípio, devia estar em parte também de acordo
com algumas das reivindicações feitas pelos contestatários.
O que é que aconteceu?
Estes depois apresentaram as suas reivindicações ao Neto,
mas Neto afastou liminarmente a limpeza, digamos, entre aspas, da direção, não é?
Segundo, que a própria Maria Eugênia Neto,
que era branca, tinha que ser afastada,
porque eles não queriam uma primeira-dama branca numa Angola independente.
Que o Lúcio Lara também fosse afastado mais à ruta.
E o Neto, então, reage, diz ao camarada,
diz, não me revejo numa organização com esta cultura.
Até usou a expressão, pelos vistos, isto agora já é UPA também.
Que era a União das Populações de Angola, que esteve na origem da FNLA,
o outro movimento de libertação de Angola.
E que está no horizonte também da guerra, não é?
Da guerra colonial e da independência.
Isto já parece a UPA, já não é o MPLA.
O MPLA tinha um slogan, que era um só povo, uma só nação,
não há raças, não há tribos, não é?
Este grupo de comandantes, liderado pelo monstro imortal,
como é conhecido, não gostou nada do que ouviu.
E então o Neto disse assim, eu abandono a direção, escolho outro presidente.
E a resposta deles foi, ok, já temos outro.
Por isso é que Justino Pinto Andrade diz que José Eduardo Santos foi presidente do MPLA por duas vezes.
Eu tenho dito que José Eduardo foi presidente do MPLA duas vezes.
Dessa vez, porque ele sentou-se na cadeira
Durante aquele curto período
De demissão
Eu tenho dito
Não, o José Eduardo
Era a segunda presidência dele
Porque ele foi presidente do MPLA durante um momento
Daqueles revoltosos, quando o Neto bateu
Com a porta
O indivíduo que eles puseram na cadeira
Foi o José Eduardo, e o José Eduardo sentou
Figuradamente
Isso não deixa de ser
Curioso, Dulce
Que ele terá sido presidente pelo menos duas vezes
Do MPLA, mas aqui foi no momento
Foi, foi um momento
Porque o Neto depois deu-lhes a volta
Mas ele sentou-se por pouco tempo
Entre aspas, na cadeira
O que é que aconteceu, porque esta ligação
Ao
27 de maio
É que alguns destes indivíduos
Que fizeram isto
Ao Lara, e que puseram
O José Eduardo dos Santos
Por pouco tempo como presidente do MPLA
Deram depois corpo ao 27 de maio
Deixa-me só dizer
Ainda um aspecto
Que é por isso que algumas pessoas
Dizem que José Eduardo dos Santos
Partilhava algumas ideias
Dos notistas, mas outras dizem que não
De todo, Margarida Paredes, por exemplo
Diz que não, de todo
A verdade é que quando ele assume
O poder, ele consegue
Fazer a ponte entre as duas fações
António Monteiro, diplomata português
Se alienta muito isso
É que ele tinha essa característica
Ele faz a ponte entre as duas fações
E ele até recupera alguns dos homens
E consegue integrá-los
Sim
Neste primeiro episódio
Percorremos quase de forma cronológica
O caminho de José Eduardo dos Santos
Até à presidência da República
No próximo episódio
Vamos tentar perceber
Como exerceu esse poder
O governo angolano diz
O líder rebelde Jonas Savimbi
Uma figura clave
Em uma das guerras mais longas da África
Que morreu
O futuro é agora
O futuro é agora
Esta palavra simples
Com apenas três letras
É a essência da vida
Para nós, os angolanos
É a paz
E ele começa a cultivar
Esta imagem
De arquiteto de paz
Amamos muito, muito
Nosso pai
É um homem extraordinário
Um homem inteligente
Um homem calmo
Ele quis criar
Uma classe empresarial
Uma classe de ricos
Um homem
Que mata o seu povo
Pela corrupção
Pela incúria
Pela incompetência
José Eduardo dos Santos
É o rosto
Porque é ele que cria o sistema
É ele que permite o sistema
É ele que alimenta o sistema
Se for para prender toda a gente
Vai todo mundo para a cadeia
Não sobra ninguém na governação
Estes são alguns dos homens
Alguns dos sons que vamos ouvir
No próximo episódio
O segundo
O chefe
Neste primeiro episódio
Usámos sons das entrevistas
Feitas por Dulce Neto
Em Luanda
E também vários registros de arquivo
Que estão disponíveis na internet
Nem todos os sons
Estão nas melhores condições
Mas a importância do conteúdo
Levou-nos a usá-los
Ouvimos sons da televisão angolana TPA
E também do MPLA
E há sons do 27 de maio
De 77
Estes que ouvimos aqui
Foram registados pela televisão francesa
A TFAN
As músicas deste primeiro episódio
São de Lindo Mar Castilho
Alma, Coração e Vida
Que ouvimos na abertura
Também ouvimos Muxima
Dos Negola Ritmos
Do Duor Negro
Escutámos Nijimba
E do disco Angola, a Vitória é Certa
Usámos
3 sons da televisão
3 canções
Caputa Mongolé
O Hino do MPLA
E Doutor Neto
E depois temos também
O Balumequeno de Bunga
É esta canção que estamos a ouvir em fundo
E que nos vai acompanhar em todos os episódios
E há ainda um som retirado da conta pública
De Isabel dos Santos
No Instagram
A sonorização é da Beatriz Martel Garcia
Do Diogo Casinha
E do Bernardo Almeida
A Corte de Luanda é um podcast da Rádio Observador
Está disponível no site do Mundo de Música
E nas plataformas habituais
Eu sou o Ricardo Conceição
Podcast Summary
Key Points:
José Eduardo dos Santos, ex-presidente de Angola, é retratado como uma figura misteriosa e discreta, vivendo atualmente em exílio em Barcelona.
O podcast "A Corte de Luanda" explora sua vida, desde a infância pobre em Luanda até a presidência, destacando sua ascensão política no MPLA.
Há controvérsias sobre seu local de nascimento e nome, incluindo ligações à família Vandunan e supostas origens em São Tomé e Príncipe.
Ele estudou na União Soviética, onde conheceu Tatiana Kukanova, e teve papel ambíguo em eventos como o 27 de maio de 197
Sua inteligência e discrição permitiram-lhe consolidar poder por 38 anos, criando uma elite rica e usando petrodólares, sem que sua fortuna pessoal fosse identificada.
Summary:
O episódio do podcast "A Corte de Luanda" narra a trajetória de José Eduardo dos Santos, desde seu nascimento em 1942, num contexto de extrema pobreza no bairro do Sambizanga, em Luanda, até sua ascensão à presidência de Angola em 1979. Sua infância foi marcada pela rigidez paterna e pela influência da irmã Isabel, que mais tarde daria nome à sua filha. Após estudar no Liceu Salvador Correia, ele se envolveu na luta política clandestina e, em 1961, fugiu para o Congo, onde integrou o MPLA.
Enviado à União Soviética, formou-se em Engenharia de Petróleos e casou-se com Tatiana Kukanova, após anos de espera devido a restrições políticas. De volta a Angola, ocupou cargos importantes, como Ministro das Relações Exteriores, e tornou-se um dos "delfins" de Agostinho Neto. Sua personalidade reservada e ambígua foi crucial para sua escolha como sucessor, após a morte de Neto, sendo visto como um candidato de compromisso.
O episódio destaca sua habilidade em navegar entre facções, como no conturbado 27 de maio de 1977, e sua capacidade de construir um império pessoal e familiar, baseado em petrodólares, sem que sua fortuna fosse rastreada. A narrativa termina com a promessa de explorar, no próximo episódio, como ele exerceu o poder, consolidando sua imagem de "arquiteto de paz" enquanto criava um sistema de corrupção e desigualdade.
FAQs
José Eduardo dos Santos foi o presidente de Angola durante 38 anos, de 1979 a 2017. Ele liderou o país e o MPLA, sendo descrito como uma figura misteriosa e discreta.
A biografia oficial diz que ele nasceu em Luanda, Angola, em 28 de agosto de 1942, numa família pobre. Há controvérsias sobre o local, com algumas alegações de que teria nascido em São Tomé e Príncipe.
Ele era apaixonado por música, tocava viola e cantava. Foi autor de canções de intervenção, como 'Caputo Mangolé', e até lançou um disco com suas próprias canções enquanto estudava na União Soviética.
Ele chegou à presidência após a morte de Agostinho Neto em 1979, sendo escolhido como uma solução de compromisso. Era visto como um quadro formado, com boas relações com a União Soviética e sem opiniões conhecidas.
Foi uma tentativa de golpe de Estado liderada por Nito Alves, esmagada violentamente por Agostinho Neto com apoio cubano. José Eduardo dos Santos teve um papel ambíguo, tendo feito um inquérito sobre o fracionismo que nunca foi conclusivo.
Tatiana Kukanova foi a primeira esposa de José Eduardo dos Santos, uma russa que ele conheceu na União Soviética. Ela foi importante nos primeiros anos, usando esquemas de troca para conseguir bens, e é mãe de Isabel dos Santos.
Chat with AI
Loading...
Pro features
Go deeper with this episode
Unlock creator-grade tools that turn any transcript into show notes and subtitle files.