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6. A cor dos faraós

from projeto Querino

59m 56s

6. A cor dos faraós

O episódio aborda a história da resistência escrava no Brasil, destacando o "Tratado do Engenho de Santana" de 1817, onde os escravizados exigiram direitos trabalhistas e culturais, como dias de folga, liberdade de brincar e a possibilidade de eleições para gestores. Esse documento é visto como um dos primeiros tratados trabalhistas no país, simbolizando a luta por autonomia e a manutenção de práticas religiosas como forma de resistência. O Terreiro Matama Tomessineto, fundado em 1885, é um testemunho vivo dessa resistência, com raízes em quilombos e tradições africanas. A história do Brasil está marcada pela exploração e justificativa teológica da escravidão por parte da Igreja Católica, que promoveu narrativas como a "maldição de Can", distorcendo a Bíblia e perpetuando o racismo. Hoje, as religiões de matriz africana sofrem perseguição sistemática, especialmente por grupos evangélicos, que usam preconceitos raciais e mitos distorcidos. No entanto, muitos negros se unem às igrejas evangélicas por escolha, baseada em apoio comunitário e esperança. A perseguição não é apenas uma questão religiosa, mas uma violação das liberdades democráticas, pois ataca o direito de expressão e a identidade afro-brasileira. A história revela que a resistência afro-brasileira é sustentada pela memória ancestral, pela cultura e pela persistência de práticas espirituais, mesmo diante de séculos de opressão. O episódio conclui reforçando a necessidade de combater o racismo e a intolerância, reconhecendo que a liberdade religiosa é um direito fundamental e que a resistência continua sendo a lógica de sobrevivência do povo negro no Brasil.

Transcription

8194 Words, 47541 Characters

Portuguese
Em 1789, mais de 30 anos antes da independência do Brasil, os escravizados de um ingênio no sul da Bahia mataram o mestre de açúcar. Eu até falei sobre essa função no episódio passado, basicamente era o responsável por supervisionar a parte do beneficiamento do açúcar, da transformação do melasso em açúcar refinado. Depois de matar o mestre de açúcar, os escravizados foram até o dono do engenho e apresentaram um documento. A gente já falou disso também, mas era muito raro que qualquer pessoa soubesse ler e escrever no Brasil naquela época, menos ainda pessoas escravizadas por causa das proibições e interdições, mas não era impossível. E os trabalhadores escreveram assim, "Meu Senhor, nós queremos paz e não queremos guerra. Se o meu Senhor quiser paz, há de ser nessa conformidade." Ou seja, a paz teria que ser nos termos deles. Daí eles fizeram uma série de exigências por melhores condições de trabalho, queriam ter livre tanto as sextas-feiras quanto sábados para que pudessem cultivar as próprias rosas, e diziam que não aceitavam os feitores atuais do engenho. Feitore era uma outra função, né, era o supervisor geral de toda a operação. Os trabalhadores exigiam que fosse feita uma eleição para escolher os novos feitores, e eles terminavam assim o documento. Poderemos brincar, folgar e cantar em todos os tempos que quisermos, sem que nos empessam e nem que seja preciso pedir licença. E se brincar e cantar tem mais significado do que parece, e daqui a pouco a gente chega lá. Isso tudo foi no engenho de Santana que ficava em Ileos no Sul da Bahia. E por causa disso, o documento ficou conhecido como o tratado do engenho de Santana. Olha só, o Terreiro Matama Tomesoneto, ele é fundado em 1885 em uma localidade que fica no Azona Rural da cidade de Ileos, em um engenho de Santana, onde houve uma revolução escrava que se constitui um documento, dizem, né, que é o primeiro tratado trabalhista aí entre patrão e empregados, onde esses escravos eles pontuaram nessa carta, algumas das suas reivindicações. O dono do engenho acabou pedindo ajuda para o juiz do distrito que enviou mais de 80 homens armados para conter a revolta. Aí lá pela época da Guerra da Independência, a fazenda já estava na mão de outro senhor e teve uma outra revolta dos escravizados do engenho de Santana. Os trabalhadores mantiveram um controle por mais três anos, só em 24 que as autoridades conseguiram retomar um engenho e os revoltosos montaram quilombos nas matas ali por perto. E foi a partir dos remanescentes desses quilombos que nasceu esse Terreiro que a gente viu um pouco lá em Léus. Aqui também minha mãe é a sala da consulta dela onde ela recebe os clientes dela também. Aí aqui é a Camarinha, onde recolhe o suje de santo, aqui o quarto dos tata das macotas. Aí nós temos aqui a cara. O meu nome é Gilmari Rodrigi Santos, esse é o nome que eu fui batizado na igreja católica, mas eu faço parte também da religião do Candomblé, sou membro do Terreiro, matama Tomessineto, o qual eu recebi o nome de Tata Luanda em Cossi, eu sou Tata Cambondo aqui do Terreiro, matama Tomessineto, na cidade de Léus, no estado da Bahia, no sul da Bahia. O Terreiro, matama Tomessineto, é referência na cidade, por ser um dos terresos mais elhos, então quando acontece algum tipo de casos desse, de intolerância religiosa, de respeito, essas pessoas procuram a gente naturalmente, e nós tivemos vários casos aqui em Léus. Um desses casos acabou sendo com parentes dele. O meu tio, que é casado com ambia ler Neusira, filha de santo da minha avó, boa parte desses meus primos, que não é daqui da comunidade, boa parte deles são evangelicos. E a mãe desses primos, a mãe com sanguínea deles, é uma ialorixá, é uma mãe de santo. E aí o meu tio faleceu, ele não era iniciado, mas ele ajudava a Neusira, né, em Bialei, nas abrigações e tudo. E aí a gente foi para o funeral dele, chegou lá, tinha muitos evangelicos lá, pessoal da igreja, dos filhos, tudo. Quando chegou no saputamento, um encosto, né, o algum de Neusira em Bialei, que era a esporta de meu tio, pegou, manifestou nela, na hora de arrear o caixão na cova, o algum virou, pegou ela. A gente deixada Neusira se manifestou nela, queria se despedido marido da Neusira, que tinha falecido. E aí esses evangelicos começou tentando pegar o algum, sai, satanai, sai, se eu ia botir, ele tá repalentido, ok, gerou aquela confusão. E esse tipo de confusão tem acontecido cada vez mais no Brasil. A gente volta falando de um pastor evangelico, que foi atuado por intolerância religiosa em novego a sul, na baixa da Fulminesse, depois de gravar um vídeo mostrando que destruiu mais insagradas. Integrantes da rede de aticulação da caminhada dos terreiros fizeram protestos já tarde no Recife. A manifestação foi contra um pastor evangelico, que divulgou um vídeo nas redes sociais com agressões às religiões de matrizes africanas. O Bahia meio-dia regional começa falando sobre uma denúncia de intolerância religiosa aqui em vitória da conquista, uma mãe de santo acusa um pastor evangelico de agressão e intolerância. O caso foi parar na polícia. Nos últimos anos, os casos de intolerância religiosa, o mesmo de terrorismo contra religiões de matriz africana, tem aumentado, tem escalado. Quando a gente vê esse tipo de caso hoje em dia, tem um grupo bem específico que costuma estar por trás, um grupo de bíblia na mão. Segundo testemunhas, dois homens que estavam naquele ponto de ônibus do outro lado da rua começaram, então, a ofender o grupo que preferiu não reagir às provocações. Eles estavam bem vestidos com bíblias na mão. Aí, a primeira pergunta que eu faço para o senhor nesse sentido é, existe liberdade religiosa no Brasil hoje? Depende para quem? Este é o Ivanir do Santos, que é professor pesquisador e ativista na luta contra a intolerância religiosa. E ele também é Babalaú. O processo de entender liberdade religiosa no Brasil, temos que entender o processo histórico do país, né? E ele nós temos um país que, Durante a Colônia e o Império, a Igreja Católica fez parte do Estado. E está aqui uma questão bem importante. É innegável que, boa parte dos ataques à religião de matriz africana hoje sejam cometidos por alguns evangélicos, principalmente os Nell Pentecostais. E a gente vai tratar disso em detalhes com toda a complexidade que o assunto exige. Mas se a gente pegar a história do Brasil, todos os anos, desde a colonização passando pelo Império e a República, na maior parte desses anos, desses séculos, teve um outro grupo promovendo esses ataques. Esse período não tinha para ninguém. Ah, não sei a Igreja Católica, ou as manifestações naquele primeiro momento dos escravizados. E também dos indígenas não tinham liberdade, que tinha a conversão a catáquese, né, forçada desses grupos. A Igreja Católica foi a principal sócia de Portugal na empreitada da colonização, na empreitada da escravidão, da exploração de mentes e corpos negros por mais de três séculos, do genocídio desse povo, a principal sócia. E durante todos esses anos, a Igreja Católica foi a principal responsável por perseguir qualquer manifestação religiosa que não fosse aducatolicismo. A Igreja Católica desenvolveu uma justificativa ideológica e teológica para barbarie que foi a escravidão. Algumas dessas ideias permanecem até hoje. E dão base não só para a intolerância religiosa para o terrorismo contra religiões de matriz africana, mas dão base para o próprio racismo. Eu sou o Thiago Rogero e este apodquest do projeto querinho produzido pela Rádio Novelo. Em episódio 6, a Corra dos Faraos. Até onde se sabe, a primeira viagem de tráfico negrero descravisados foi lá por volta de 1.440. Quando um português, a mando da coroa portuguesa, foi até a região do Rio do Oro no continente africano para comprar azeite e pele de leão marinho. Daí esse português se coestrou 12 africanos e levou para o Portugal. Os três anos depois teve o primeiro "lei-lão descravizados" em Portugal. E aí já eram mais de 200 pessoas, entre elas crianças. E é sempre bom lembrar que não foi nesse momento que a escravidão começou, que ela foi inventada. A escravidão já existia e há muito tempo. Tinha escravizado na agressa antiga, por exemplo. A própria palavra escravo e fica mais fácil quando a gente pensa nela em inglês, "slave", "vendo latim", "slavos", que é uma referência aos "eslavos", que por muito tempo foram escravizados. E o povo eslavo é branco. É que havia muitos motivos pra se escravisar uma pessoa. Podia ser como resultado de uma guerra, por exemplo, ou por dívida. Mas não se escravisava alguém só por ser de determinada raça, muito menos só por ser negro. Até porque essa ideia de quem é negro e quem não é, é uma ideia criada depois. Justamente pra justificar essa nova forma de escravidão que surge a partir do momento em que Portugal começa a expandir o seu império. Uma forma mercantil em que a pessoa escravizada se transforma em mercadoria e na mais alíosa e lucrativa mercadoria de todas. Quem começa com isso é Portugal, Portugal e a igreja católica. Porque a igreja é quem dá autorização pra isso. A igreja deu subsídio moral e ideológico pra que a coroa portuguesa escravizar-se os africanos. Pouco depois desse primeiro leilão descravizado, o Papa publicou uma bula que os historiadores chamam de. "A carta reja do imperialismo português." E lá ele autorizava a escravisação dos africanos. A desculpa era a escravidão serviria pra salvar a alma deles. Porque quem sequestrava estaria convertendo aquelas pessoas pro cristianismo. Mas eu queria que a gente tentasse pensar no continente africano antes de tudo isso. Bom, meu nome é Fernando Tomás, sou professora de história da África, da Universidade Federal de Judi fora. Pensar o português africano antes do tráfico transatlânico, pensou em diversidade. Porque era um povo diferente, não era uma hora irmãos. Sabe? Esse papel é nossa, era os irmãos. A ideia de África não existia. Essa ideia de África era custida pelos europeus. Que exatamente com esse contato, ao longo do tráfico descravizado, depois com colonialismo, que assim definiu outro, como continente africano. Mas esse desidade se achou africano e não, cara, era bacongo. O outro era vibundo, sei lá, o outro era maco, a maconde e alçá. Nós temos culturagens, estamos falando de um continente com mais de 30 milhões de quilômetros de padrátis. É um continente com as dimensões de gigantesca, que hoje tem cerca de 2000 povos. Mesmo sabendo da complexidade que é tentar pensar em definir uma religiosidade no continente tão diverso, com povos tão distintos, eu perguntei pra Fernando se haveria elementos em comum entre boa parte dessas diferentes culturas. Primeira coisa, Thiago, a gente tem a loção de que é muito da nossa sociedade separar a sagrada profunda. E eu não sei nem se o termo religião daria conta pra pensar nessas práticas espirituais do continente africano das sociedades africanas. Mas acho que o primeiro ponto a pensar é que, em nova separação, o cotidiano, ele tá mergulhado em espiritualidade. Pensando na linha de desertosara pra baixo, é muito comum cultos ancestrais na grande maioria das sociedades africanos, assim. O culto auxâncias traz. Eu estou falando de sociedades em que o pertencimento histórico, o pertencimento num território tem a ver que as suas eranças na relação de parenteja, as suas eranças na linhaje, ou seja, é quem na verdade cuidou de você, é quem trouxe você pro mundo, é quem na verdade um dia ele vai ser uma esvelha e um dia ele vai ser ancestral. E era uma relação não só com quem veio antes, mas com o território também. Tem um caso, era um jornalista conhecido no topo a independência de Moçambique, enfim, que não tem o digno topo na concepção dele e interromna o cemitério da cidade. Passaram se 20 anos, ele teve a ver ser vários problemas, inclusive profissionais. Ele procurou todos os médios, né, desde cuidado físico, né, e ao médico, enfim, mas outras coisas acontecendo que não te explica sério. E aí ele procurou um curandê. E aí o curandê disse pra ele "eu, seu pai quer falar com você, você precisa jogar os oráculos pra você saber o que seu pai quer falar com você". Aí ele não, ele não acreditou, né, "eu sou homem da ciência, vou pensar nisso". O que ele descobriu, o pai dele tinha sido interrado no cemitério da cidade e ele queria ser interrado na terra onde estava os avós, onde passaram os ancestrais dele. E aí ele faz uma ação desossada, transporta tudo para e ambani, lá para a terra, onde estava os ancestrais. E aí teve todo um ritual, enfim, né, após o ritual, a vida dele voltou a normalidade, entendeu? E tudo voltou a normalidade. Tem uma palavra de origem banto, calunga, e ela quer dizer um monte de coisa, um significado bem comum é o de morte, além. Daí eu já tinha lido que, pra muitos povos africanos que foram escravizados, atravessia pelo mar aqueles dias todos no porão de um navio negreiro, aquilo era encarado como uma morte mesmo. Porque o mar era chamado de calunga grande, mas eu entendi errado. A morte e muitas sociedades africando da simbolismo outra coisa, a morte não é um problema, sabe? A morte não é obscura, a morte é simplesmente uma passagem nessa existência, o mundo vive, depende do mundo de mortos e vice-versa, sabe? Porque o mundo de mortos não é dar sentido, sabe? Ele é dar sentido pra mim existência, a morte é só simboliza uma passagem, que é pra ir pra esse outro mundo. A travessia no navio negreiro não era morte, a travessia era algo pior. Porque, na verdade, corta seu eixo com seu território, o mar simboliza esse tempo de ida que não tem volta. E esse mar é o que corta a sua relação com a sua limagem, com o seu território de onde você veio. E corta a sua relação com a sua história. Porque ainda que você deve, as suas necessidades contigo, a relação não é mesmo do lugar em que você vive, o que você largou hoje, sabe? Esse divido que tem toda uma relação de coletividade, ele passa a ser individualizado. E eu acho que esse individualização é quando esses jundidos são comprados na costa e eles atravessam. Quando eles atravessam, eles estão a entrar em emergindo em uma outra cultura e em uma outra posição social. Ele passa em mercadoria, ele passa a ser escravo, a morte da cidade do processo e no processo de travessia. Mas é uma morte que ela é feita a partir do deserraizamento. Essa morte da travessia é muito maior do que a morte física. Oi, aqui é o Thiago Rogero. E eu estou aqui pra te contar uma novidade. O Projeto Quirino, podcast produzido pela Rádio Novelo que lançamos em 2022, acaba de virar livro. Se você já ouviu o podcast, vai encontrar muita coisa nova no livro que é pela editora Fósforo. Eu passei mais de um ano escrevendo e pesquisando novas informações. Se você nunca ouviu o podcast, o livro também é pra você. O Projeto Quirino, um olhar afro-centrado sobre a história do Brasil, já está a venda nas livrarias e no site Fósforoeditora.com.br. E sabe quem também participava do tráfico negreiro? A igreja. Em 1558, tinham mais de 10 mil pessoas escravizadas trabalhando em cítios e fazendas dos jesuitas em Angola. Daí começaram umas críticas dentro da própria igreja, não a escravidão, mas a participação deles no tráfico. E o padre responsável pela missão respondeu que seria impossível sustentar a operação sem o tráfico negreiro. Pensando aqui no Brasil agora, a igreja ganhava por cada escravizado que fosse batizado. E era lei, todo escravizado deveria ser batizado. E a igreja já tinha tentado justificar a escravidão com aquela desculpa de salvar almas. Pra manter de pé o regime escravocrata, a coisa foi ficando ainda mais complexa. A igreja criou toda uma justificativa ideológica e teológica. Tinha, por exemplo, a ideia de que os africanos deveriam ser escravizados porque eles teriam sido amaldiçoados. E havia toda uma pedagogia da escravidão, a igreja pregava que os senhores tinham nascido pra serem senhores. E os escravizados pra serem escravizados. Um dos principais nomes dessa pedagogia era o padre Antônio Vieira, que até hoje dá nome a uma porção de coisa no Brasil. Eu já murei numa rua, Antônio Vieira, por exemplo. Ele dizia que o trabalho no engenho era a cruz e que não há trabalho nem gênero de vida no mundo mais parecido com a paixão de Cristo, do que o trabalho escravo nos engenhos. A religião católica não era só oficial, era a única permitida. Manifestações religiosas que não fossem católicas eram classificadas como heresia, feitiçaria, coisa do demônio. Aí vem a independência, o Brasil se separou da coroa portuguesa, mas estava lá na Constituição de 24 que durou até o fim do Império. A religião católica postólica romana continuará a ser a religião do Império e tinha mais esse trecho. Todas as outras religiões serão permitidas e eu chamo a atenção para isso com seu culto doméstico ou particular em casa para isso destinada. Mas essa casa não poderia parecer um templo do lado de fora e a Constituição também dizia que. ninguém pode ser perseguido por religião uma vez que respeite a do estado e não ofenda a moral pública. E você sabe o que sempre foi uma ofensa moral pública no Brasil, né? Qualquer traço de africanidade como as religiões de matriz africana. Embora carrega em elementos seculares e até milenares, as religiões de matriz africana que nós conhecemos hoje são relativamente recentes. A partida segunda metade do século 19. E são várias, né? Tem as mais conhecidas, candomblé, embanda, mas também tem o tambor de mina e o terecor no maranhão. O chango e o chambá em Pernambuque alagoas, a cabula no Espírito Santo, o Batuque no Rio Grande do Sul, o Babasue, no Pará. Aqui em Banda no Rio, em São Paulo, o homologo em Minas, no Rio, em São Paulo. São religiões que nasceram aqui no Brasil, com elementos de diferentes sociedades e culturas africanas, mas que nasceram no Brasil. São afro-brasileiras. E não é que não havia essa religiosidade aqui antes do século 19. Apesar da religião oficial imposta pelo Estado, pessoas negras nunca deixaram de professar a própria fé. E tinha muito senhor que no interior das fazendas permitia isso pra não provocar uma revolta. Lembra do tratado do engenho de Santana, com desgravisados exigiram poder brincar, folgar e cantar sempre de licença? Isso podia tanto significar o puri simples laser quanto religiosidade também. Chamar de brincadeira era uma forma de proteger esses ritos religiosos, uma forma de resistência. Com passar dos anos, até por causa do número cada vez maior de pessoas negras que estavam conquistando a própria liberdade, foram surgindo mais casas mais terreiros. Daí, olha esse caso de 1849 em Porto Alegre no Rio Grande do Sul. Uma mulher negra fez um requerimento para o chefe de polícia. Ela fez um pedido. E quem vai contar aqui é o historiador e professor Paulo Moreira. Então ela se apresenta por delegado de uma determinada maneira, se apresentando como Maria José, Prietaforra, Rainha Jinga. Nação Angola, compreendomínio sobre as outras nações da costa da África. E ela reclama de que ela tinha uma licença para brincar com as pessoas da sua nação. E ela pedia então que essa licença ela fosse renovada. E aí é interessante, por uma forma como ela se apresenta, e como ela tenta disfarçar aquela manifestação coletiva, aquela manifestação comunitária, como brincadeiras. E aí a polícia fica toda resabiada, porque evidentemente mesmo ela sendo forra a presença dessa mulher e a liderança que ela tinha, essa comunitária, atemorizava aquela sociedade branca de uma forma que essa sociedade, durante muito tempo, ficou pensando se renovaria a sua licença. A licença tinha sido caçada. E aí então num determinado momento a licença dela é renovada desde que a manifestações, as festas, os brinquedos, fossem feitas, extra-muros da cidade, ou naquilo que se chamava na época da varsia de Porto Alegre. Lembra do nome que ela usou quando fez o requerimento para o chefe de polícia? Quando ela se apresenta como rainha, a ginga não é uma coisa fortuita na coisa por acaso, ela certamente escolheu aquilo ali. Talvez ali nesse momento ela estivesse dando uma intimada no delegado, como se ela estivesse dizendo, olha, veja bem com o que você está falando, eu sou rainha a ginga, eu sou uma mulher que representa várias nações da costa da África, a rainha a ginga como a gente sabe, uma mulher que realmente existiu, se trata de Nizinga Bunt, uma mulher que viveu ali de 1572 a 1663, nunca pisou no Brasil, foi uma rainha no reino do Dongo e reino de Matamba, uma pessoa extremamente importante. Nos anos em que ela esteve no poder, a rainha Zinga conseguiu barrar o avanço de Portugal sobre o reino dela. E essa presença da rainha, nessa região Congongola, marcou tanto a memória dessas pessoas que foram trazidas compulsoriamente para o Brasil, que rainha a ginga se tornou uma distinção, a se tornou um elemento de prestígio, quando Maria José ela diz que ela é rainha a ginga, ela estava chamando pra si uma certa realiza, mas também uma representatividade ligada à sua ancestralidade. Ancestralidade. No Rio Grande do Sul, você é com o Brasil, de uma forma geral, a gente tem uma série de territórios negros. E nesses territórios, eles têm uma série de festividades que dialogam nessa memória da África. E aí, nessas manifestações, atualmente, nesses territórios negros, a gente ainda tem a presença da rainha Zinga e do Reicongo. E tu tem a rainha Zinga Reicongo dentro das irmãdades, isso que a gente chama de africatolicismo. As irmãdades negras dentro da igreja católica. As irmãdades negras é considerada a primeira forma de associativismo negros que surgem no Brasil. Este é o historiador e professor Petrônio Dumínguez. Nosso setivismo negros foram as formas encontradas pela população negra de adaptação a esse novo continente, as américas. Essa população desenvolveu várias formas e várias estratégias de resistência. As irmãdades negras, elas remontam ao período colonial, criadas e inicialmente a iniciativa dessa população escravizada que buscou seu espaço na igreja católica. Um lugar em que essa população escravizada pudesse professar sua fé. A igreja tolerava e até fomentava o surgimento dessas irmãdades negras que precisavam de autorização para funcionar. Do ponto de vista da igreja, não deixava de ser uma forma de controle e de categorização. Isso é pelo lado da igreja católica, porque do ponto de vista, dois escravizados, as irmãdades negros era um espaço de resistência. Era um espaço em que eles se sentiam fortalecido, se sentiam unidos e fortes em função dessa união coletiva. Porque é um espaço em que você iria não só ter um espaço de culto, um espaço em que você professar sua fé, um espaço para você poder fazer sua presse e você fictuar o seu santo. Mas também era um espaço em que você encontrar os seus irmãos, seus irmãos de curro. Era um espaço em que essa população de colseunia se fortalecida por de vista da sua identidade e era um espaço em que também se articulava a cluta pela conquista da liberdade. Então as irmãdades negras foram responsáveis por comprar muitas alforrias. As irmãdades também construíram igrejas, porque os negros, mesmos que eram livres, não eram bem aceitos nas igrejas dos blancos. Os africanos e seus descendentes acabaram criando um catolicismo popular, muito permeado pelo sincretismo, pela mistura de elementos com as religiões de matrises indígena e africana. E houve muitos casos de seguidores de religiões de matrisa africana que também faziam parte de irmãdades católicas, e não só de seguidores, mas também de líderes dessas religiões. A manha ninha, uma das mais importantes mais de santo da nossa história que nasceu em 1869 em Salvador, fez parte de duas irmãdades católicas. E além da compra de alforrias, as irmãdades garantiam também uma boa morte, um interro digno, com direita funeral, missa, quando João Cândido, o amirante negro, foi julgado pela marinha do Brasil por se revoltar contra os castigos corporais na revolta da Shibata, ele e os outros marinheiros que sobreviveram os que não foram assassinados pela marinha, eles foram defendidos por advogados contratados pela irmãdade do rio. Isso tudo foi já na república, né? Porque depois da abolição e da república, as irmãdades continuaram a existir. Assim como continuou, a perseguição das religiões de matrisa africana. É interessante observar que a Aboleção Cidade, 88, a República veio em 89 e, em 90, nasce primeiro, qual de criminal. Aqui de novo, o Babalaô, Ivania do Santos. O que ele está contando é que em 1890, depois do golpe que derrubou o império e instituiu a República, o governo provisório publicou um decreto que tornou o Brasil pela primeira vez um estado laico. Ao menos na teoria, mas ainda naquele ano veio o código penal e o código penal colocou como crime a saúde pública, a prática do Espiritismo, da magia e dos seus sorte legios, além do uso de talismãs e de cartomancias. De maneira geral, tudo que não fosse uma religião cristã entrava nessa categoria aí. Na história do país, vocês têm sempre um grupo religioso que é perseguido pelo Estado, na colônia no interio e no início da República, aqui que durou para depois da República, tanto que esses objetos sagrados hoje, que estão no museu da República, e eu costumo dizer que a maior prova concreta de como o Estado o republicano nos tratou até hoje. No começo do século passado, a própria imprensa comemorava os ataques da polícia aos cultos de matriz africana. Os jornais chamavam de limpeza. A polícia se viu do Rio tinha uma delegacia só pra lidar com esse tipo de caso. Durante décadas, a polícia aprendia objetos religiosos e por outras tantas décadas e até muito recentemente, essas peças sagradas eram expostas num museu de magia negra, esse era o nome. Até que a campanha-liberte nosso sagrado conseguiu que todo o material fosse transferido pra o museu da República, em 2020. Os últimos 30 anos, o Estado deixou ele diretamente de perseguir. E aí, hoje, os Naopé até costaz. Essa peção vem desses grupos, mas com a omissão do Estado. E aí, a gente chega a este momento atual. No interior de São Paulo, uma mãe chegou a perder a guarda da filha de 12 anos, depois de denúncias de maus tratos e abuso, num ritual de iniciação ao candomblea. A decisão levou em consideração a acusações feitas pela voa materna da criança que não foram comprovadas. O executivo e também boa parte ao juiz ser seu mente. Gente do combate sistemático que é feito contra o escutizáfio brasileiro, sistemático. E a coisa escalou até o ponto que agora tá acontecendo isso aqui. Traficantes estão impedindo o terreiro de um bando e candomblea de funcionar. Os espaços são invadidos e depredados pelos bandidos. Neste muro, a inscrição Jesus é dono deste lugar. E como chegou a absurdo de você ter todas as nossas noqueimadas, sacerdote sendo assassinado, tráfico de droga e evangelizada, que é uma coisa que nunca se pensou. E tem que expulsar e que obriga as pessoas a destruir o seu próprio sagrado. E tudo isso é um silêncio. Então eu não tenho dúvidos se fosse contra outro grupo ou se agiria mais rápido. Então essa liberdade pra nós não que existiu. Nessa perseguição recente as elejões de matriz africana, especialmente nos casos em que os ataques foram promovidos por evangelicos, tem uma coisa que pega demais pra mim. A quantidade de gente negra que tá nas igrejas evangelicas. Aliás, dizer "evangelicos" é uma forma de generalizar. São muitas denominações diferentes e daqui a pouco a gente vai falar sobre elas. Inclusive, muitas pessoas dessas religiões preferem usar o termo cristãos. Mas como o IBGE usa evangelicos, a gente vai manter essa denominação aqui só pra ficar mais simples já que em cristãos entram também os católicos, enfim. E pensando nos evangelicos, a maioria é negra. Preitos e pardos, 59%, segundo uma pesquisa de 2020, do data folha. É mais do que a proporção geral de negros na população brasileira, que fica ali entre 54 e 56%. E tem um pastor negro, o nome dele é Marco da Videolivera. Bom, deixa ele se apresentar. Eu sou o Marco da Videolivera, sou pastor da denominação batista, sou pastor da nossa igreja brasileira e igreja batista. Ele escreveu o livro "A religião mais negra do Brasil, porque os negros fazem opção pelo pentecostalismo". Porque na verdade, a gente pensar dos negros e negros religiosos, eles estão nas igrejas evangelicas. É óbvio que a maioria é católica. Mas quando eu falo que a religião mais negra do Brasil é a igreja evangelica, eu não estou falando de simplesmente crentes nominais, ou católicos nominais. Ah, eu estou católico. Nunca vou a igreja, não partido de absolutamente nada, mas sou católico. Na igreja evangelica não é isso. Não é nesse sentido que eu falo que a religião mais negra do Brasil é a igreja evangelica. O começo das igrejas evangelicas no Brasil foi no século 19. Primeiro com que é conhecido como protestantismo de emigração. Os anglicanos ingleses e luteranos alemães que vieram ali na primeira metade do século. Depois teve o protestantismo de missão, que eram missionários vindos principalmente dos Estados Unidos, presbiterianos, metodistas, batistas. Essa leva acabou vindo gente dos sudos Estados Unidos, inclusive. Os suescravistas, dos confederados que queriam a todo custo manter a escravidão, mas que perderam a guerra civil. Daí muitos deles e eram para no Brasil. E essas todas são as chamadas igrejas históricas dentro das evangelicas. Aí lá nos Estados Unidos também surgiu a igreja Pentecostal. Pentecostas era uma fecha da coleta. Então as pessoas se reuniram de diversas nacionalidades, inclusive em vários africanos e tal. Para as pessoas se reuniram para esta festa. Quando Jesus Cristo terminou a sua missão e foi torturado e prostificado, ele ressuscitou e ele prometeu de símbolos ao Espírito Santo. E a chegada do Espírito Santo aconteceu nesse dia de Pentecostes. E qual foi a evidência disso? Tem que as pessoas começaram a falar nas suas línguas, mas cada um entendia na sua própria língua. Os Pentecostais surgem com essa compreensão de que eles precisam revisitar esse dia e acontece aquela glossolália, a que eles são no glossolália, aquele falar em línguas e tudo mais, é como se fosse um retorno a esse dia. E o mito fundador da igreja Pentecostal envolve um homem negro, o William Simor, no começo do século 20. A história era assim. O Simor, que era filho de as escravizados, estava frequentando a escola bíblica metodista de um pastor, um homem branco. E esse pastor branco. Ele era muito racista, ele não deixava negros estudarem. A empregada dele pediu para que o iransemo estudasse. Ele pode estudar, mas ele vai ficar pelo lado de fora, no corredor, na janela. Ele não vai ficar junto com os brancos. Ele não vai ficar pelo lado de fora, é estudando, ele fez o tempo todo o seminar negros no corredor. E aí aconteceu essa glossolália, essa experiência do Pentecostal na sala de aula, entre os alunos, que começaram a orar, e começaram a falar em outras línguas e terem manifestações com o corpo, aquela coisa toda. Isso também quando esse é o iransemo. O iransemo então foi para a Rua Azusa, encontrou uma igreja metodista africana, abandonada. Ele começou os cultos dele, interracial inclusive. começou com o nir musica negra, e muita utilização do corpo. É um mito fundante, assim, porque ferreu o mundo todo. Que as pessoas iam lá para ver que estava acontecendo. Daí no fim dos anos 70, aqui no Brasil, quando a ditadura estava em crise, a economia estava em crise, surgiram as igrejas neopentecostais. E tudo isso ligada a um contexto geral de impobrecimento da população de crescimento desordenado das idades, de falta de oportunidades? Nas igrejas evangélicas, ah, redes de apoio, de comunhão, de ajuda. E é aquele igreja lá que muitas vezes não tirou tempo para os escondes, se protege. É o lugar onde as crianças são atendidas, onde a mãe sola a vez deixa a criança para que ela possa trabalhar. Essa é essa básica que chega. Onde o estado não quis chegar, a igreja chegou. E ela ajuda, de fato, muita gente. Ninguém se considera extremamente feliz, ralando a vida toda, não conseguindo absolutamente nada, passando dificuldades o tempo todo, não. Aí vem a igreja neopentecostal com uma teologia que surgiu nos Estados Unidos, a teologia da prosperidade. Isso dá um poderamento tremendo as pessoas que estão nas comunidades. O cara entende que ele não precisa ser pobre à vida inteira, que Deus não quer ir pobre daquele jeito, não quer ir passando dificuldades. Além de todos esses espaços que a igreja evangélica de fato ocupa, algo que a gente nunca pode esquecer é a agência das pessoas. Não pode achar que é por desconhecimento, por inocência que as pessoas negras estão nessas igrejas. é por opção também, por escolha, por considerar que faz bem para elas, para a vida delas, pros familiares, não dá para ser fiscal da fé alheia. E também não dá para ficar só nesse discurso de "ah, é uma população que foi abandonada pelo estado?" A proporção de evangelicos com ensino superior, por exemplo, é quase igual a dos católicos. Agência. As pessoas escolhem o que elas consideram que é melhor para elas. E o marco da via acredita que uma outra razão para o sucesso das igrejas Pentecostais e Mel Pentecostais, entre os negros brasileiros, está na africanidade. Pentecostalismo valoriza a utilização do corpo. Essa experiência se tomado pelo Espírito Santo, isso para mim é muito africane. E está muito próximo das eles onde matas africanas. O trânsito rapaz, eu me repito todo no falo espuaixo fantástico. E olha o que que o babala oiva nir de isso sobre isso. Incorporar o Espírito Santo, sem africanidade, vai incorporar o Espírito Santo, falar ali no estranho. Qual é a diferença do cara receber o Espírito Santo e o outro receber o cabulco ou receber o orixar? É trânsito, a incorporação, isso é africano. Essa dá espiritualidade africana. Não é todo mundo, claro, que reconhece essa africanidade. Isso tem um motivo. E aí eu lembro do meu pai, a paz. Tocava muito pandeiro. E para você ver como é que a coisa era forte na minha cabeça, porque a minha denominação, a minha igreja, de certa forma, demonizava a cultura brasileira. Então eu não aprendi toca pandeiro, o meu pai que tocava muito, podia ter aprendido, e eu não aprendi nada disso porque a igreja dizia mesmo que nas entrelinhas, que aquilo não era de Deus. Tem dois mitos de duas maldições que são espalhados até hoje por alguns pastores. Um deles é o da maldição de can. O can era um dos filhos de Noé, aquele Noé, da Arca. Depois de Lúvio, ouve de Lúvio, Noé, ele bebe, pebe lá seu vinho lá, e aí o can, tinha can, sem jaffé. E aí can, ver anodeis de Noé. Está na Bíblia. O Noé acabou dormindo pelado, o can, que era um dos filhos, passou, viu e chamou os outros dois irmãos para ver. Os dois não entraram na pilha do irmão e foram andando de costas sem olhar para o pai e cobriram Noé. Quando Noé acordou e descobriu o que o filho mais novo tinha feito, a maldiçoou não o can, mas o filho dele o cana. Daí tem pastor até hoje, e pastor famoso, pastor político, que diz que os povos africanos foram escravizados por causa da maldição de can. Tem um texto que eu gosto do teólogo e pesquisador Glauber Henrique Correa Rocha, que ele diz que na própria Bíblia, dos quatro filhos de can, três são descritos pelos gêneses como os ancestrais dos povos africanos. Sabe o único filho de can, que não é ancestral dos africanos, justamente o cana. Ainda sobre esse mito tem um quadro mega famoso chamado "A Redenção de can". É uma pintura de 1895, quando o Brasil, depois de ter sido forçado a acabar com a escravidão, estava querendo eliminar a parcela negra da população. Daí esse quadro mostra quatro pessoas. Da esquerda para a direita, a primeira é uma senhora negra de pele retinta, lenço na cabeça. Ela está olhando para cima com a mão aberta e parece que está agradecendo aos céus. Do lado dela está uma moça mais jovem, daí você consegue ver que teve uma misigenação ali, porque ela é uma mulher negra de pele clara. Do lado da moça está um homem branco, e ele tem um sorriso meio debochado, meio orgulhoso, e está olhando para o bebê que está no colo da moça. Um bebê branco provavelmente o filho do casal. A senhora negra da ponta está agradecendo pelo branqueamento da decenência dela, lembra do nome do quadro, a Redenção de can. E tem a outra maldição. Um dia eu estava num seminário, jovem seminarista, se eu estrinta mais ou menos, eu era o único preto no meio deles, e eu estava fazendo a paresta. E aí eu perguntei eles com a maldição de can. E todos em couro responderam a cor preta. Eu olhei para eles, assim, absurdo, né? Não estou acreditando que eu estou num seminário perdiando, estou com o filho de negocio deles. Ai, eu perguntei-se, gente, vamos ler o texto de novo. Você conhece a história dos irmãos Caim Abel? O Caim matou o irmão da Italana Bíblia, que Deus colocou nele uma marca. Não tem nada falando que a tal da marca seria a cor negra ou a pele negra, nada. E essa interpretação tem que ser esporgada, porque é uma interpretação extremamente racista, extremamente maldosa, não tem nada a ver com texto, e me chama muita atenção que essa coisa ainda esteja de alguma forma impregnada também na igreja evangelica. E tem um motivo para existir em essas duas interpretações erradas da Bíblia. Não foram erros acidentais, ambos foram conscientes. E a origem disso está na igreja católica. Naquela tentativa que eu falei mais cedo, de tentar justificar a escravidão, de tentar justificar a exploração de um povo, como se fosse uma ordem divina e não uma escolha humana, uma deturpação que foi sendo passada diante mesmo para outras religiões, e que infelizmente se mantém até hoje. E eu já, nesse praticamente 30 anos, estou no meio evangelico falando contra o racismo da igreja, já foi espizinhado de todos os dias que você possa imaginar. Um dia só eu não conselho de pastões e sendo que eu estava cheio de demônios e queria dividir a igreja. Quando eu terminei e ouvindo aquilo tudo, aquela violência toda, naquele momento, rapaz de sentir mesmo, Deus falou no meu coração isso que eu quero que você faça. Eu quero que você continue falando contra o racismo na igreja, porque o racismo é pecado. Tira a possibilidade do outro ser a imagem semelhança de Deus, como inclusive a Bíblia diz, tira a possibilidade do outro ser, existir ter sua propriedade, é pecado, pecado. E é sempre bom destacar que não são todos os evangelicos que são racistas. Ou enfim, todos os pentecostais, ou né, o pentecostais, é claro que não são todos. Obviamente há muitos evangelicos que discordam disso, que combateem isso. E a gente precisa lembrar que os evangelicos também sofrem preconceito. E uma boa parte desse preconceito da fundada justamente em todos aqueles elementos que, como a gente ouviu a pouco, remetem a africanidade, como o tranzi, como se falarem línguas, fosse algo risível, como se fosse algo primitivo, a gente ouviu essa história, é preconceito por simples, preconceito contra uma religião majoritariamente negra, é uma violência que se retroalimenta. E também é importante destacar que tem gente de outras religiões que também ataca as de matriz africana, gente que também é racista. O que no mínimo cruza os braços que se cala diante do racismo, o que é tão baixo quanto? A sociedade precisa entender que o ataque agrega uns de matriz africana é uma ataque democracia e as liberdades. Só isso eu quero que pessoas pensam. Porque hoje somos nós, que eu sempre digo, né, vendo a bomba fogueira, né, para uns outros. Entre os católicos tem um grupo ultra conservador no Rio de Janeiro, que recentemente impediu a realização de uma missa histórica do dia da consciência negra, porque tinha a tabaque na celebração. Depois de a igreja passar séculos, lucrando com a escravidão, foi só em 1839 que um papa pela primeira vez condenou o regime escravocrata. Do outro lado da moeda é inegável que alguns avanços sociais dos últimos anos no Brasil foram graças a movimentos que surgiram dentro da igreja católica, como, por exemplo, os pré-vestibulares comunitários que garantiram a entrada de muita gente negra nas socudades. Assim como tem muito projeto social de igrejas evangélicas, literalmente salvando vidas de pessoas negras. Nem tanto ao céu, nem tanto ao enfermo. Mas é difícil demais entender que em qualquer religião haja pessoas racistas. Ainda mais num país em que mais da metade da população é negra. Entre os muitos evangélicos progressistas e anti-racistas que existem, o que eu acho que você deve conhecer é o pastor Henrique Vieira. Ele é o autor de livro, já declamou em música do emissida. Eu entrevistei ele pro vidas negras, que é o podcast. que eu fiz antes desse aqui. E eu não esqueço de algo que ele me disse nessa entrevista. Ele me contou que a primeira igreja protestante do Brasil era negra, nasceu no Recife. Quem criou ela foi o Agostinho José Pereira, o Divino Mestre. Foi um líder, rebelde, um líder popular, um líder da população negra do Lixi, e que era cristão. Este é o historiador e professor Marcos Joaquim Maciel de Carvalho. O primeiro documento que ele encontrou sobre o Divino Mestre relatava a prisão dele. Em meio a revolução pra hiera, que foi uma revolta que aconteceu por causa de uma briga política entre liberais e conservadores no fim dos anos 1840. E o Divino Mestre foi preso sobre uma legação. Suspeição de estar em Estuflano é revolta escada, com a mobilização de negros, entre negros e tal. E aí a defesa deles ela é não, que ela é só um líder no carano, ela é um líder religioso, no Brasil tem liberdade religiosa. Mas a atualidade acha assim que ele por trás disso é uma só um líder religioso ali. Quando ele foi preso, foi com ele mais 16 pessoas. E alguns quiserem ser preso com ele, porque não queria deixar o Divino Mestre que é um dos nomes de texto. Divino Mestre, não queriam deixar ele e sozinho pra cadeia, queria acompanhar ele no infortunio dele. Desexês foram esses que foram presos junto com ele. Mas está na documentação que o Divino Mestre tinha uns 300 seguidores, 300 fiéis. Quando o Divino Mestre se considera um verdadeiro cristão do Estão Totodós, é assim que ele se percebe. Ele dizia que as imagens dos santos não tinham valores espiritual, e que os católicos não compria os mandamentos. E que ele estava em contato constante com Deus. Ele se acha o verdadeiro portador da fé cristã. Então isso incomoda em dobro, porque ele está confrontando um dos grandes pilares do Estado. Porque é igreja, porque é ver nessa época união e igreja Estado. Mas aos olhos das autoridades daquela época, essa nende longe era a maior ameaça representada pelo Divino Mestre. Eu errei, rapaz eu fico imaginando, apenda aquela época no Recife. O cara a Fabetezão do Negro, claro que isso é rebelde, pode, a Fabetezá Negro. Não se está entregando um instrumento a essa população escapizada, poderosíssima. E você lembra, e a gente já falou sobre isso, da quantidade de impedimentos que havia como leis, por exemplo, para que pessoas negras pudessem aprender a ler e a escrever. Isso tudo que o Divino Mestre estava fazendo foi uns 40 anos antes da bolição. E ele então foi capturado, porque ele representava uma grande ameaça, porque ele estava a Fabetezão do Negro, em Niga, na Estado do Recife, e defendiu um cristiano próprio. Não era o católico. No julgamento, a esposa dele contou que ela viu Deus num sonho. E é o desempagador pergunta, se ele era branco preto, e ela responde que ele era acabo clado. E é o escararri, né, um riso, provavelmente com certo travo, de nervosismo, porque esse cara tá o Fabetezão 300 nigos, a maior parte deles são mulheres. É muito interessante, também, como é que eles lidam com essa questão cromática. Morem, tomado, isso a gente tentar evitar as perspectivas contemporâneas e pensar nas perspectivas da época como estratégia de resistência e sobrevivência, o significado do uso dessas expressões. Esse vê o Senhor num sonho, vincula o Pentecostaleiro. Eu coxaria pra ir com os Pentecostais mesmo, por um cristianismo que não é o católico, que tem elementos e tradições que se misturam com elementos e tradições africana. E o mais próximo disso, um meio entendimento, o cristianismo negro americano. Pessoal também recebe espírito, a pessoa tem som. Antes de se tornar o divino mestre, o Agustinho José Pereira nasceu livre no Recife em 1799. A mãe dele tinha sido escravizada. E tem instrumento rapés de dado com a retade que é o ABC. Se naquela época você aprendia a ler e escrever isso mesmo a ABCDF. Não encontrei essa documentação de divino mestre, mas não tinha encontrado ABC. Muitos anos depois o Marcos encontrou o ABC. É o primeiro documento que a gente tem escrito por um negro contra o racismo. É a favor da revolução, não é? Eu não conheço o outro na história brasileira anterior. Porque o ABC é fascinante. Então se você tem um verso revolucionário, conclamando a revolução, é um texto em favor do Orbulho da Corso Morena. Ele diz que é a cor dos faraões, é a cor de Jesus, é a cor daquelas pessoas que fizeram os dois impérios. O ABC também cita a revolução do Aití. A revolta descravizada que libertou a ilha da colonização francesa e criou um novo país. O primeiro país das Américas a abolir a escravidão. A integrador ABC você pode ler lá no site do querino, www.projetoquerino.com.br. O divino Mestre acabou solto, mas não se sabe o que aconteceu com ele depois. E toda essa história de resistência dele me fez pensar de novo nas religiões de matriz africana. Quando a gente vê todas essas notícias de que traficantes se expulsaram o povo de santo das comunidades, é óbvio que isso deve ser combatido, que não pode ser normalizado, não pode ser romantizado, mas tem uma outra coisa também. E aqui de novo o Babala-Oi Vanir do Santos. A resistência sempre é a lógica da resistência negra no Brasil. É isso por isso que vai sobreviver. Por que você acha que a decisão nos todos perseguida pela igreja católica mais 30 anos, depois perseguida pelo Estado pela república. A parada república. E agora eu acho que a gente vai acabar, não vai acabar com isso. Como eu chegar na igreja católica, eu quero ver o cara lá. O ministro da Cala é o caristère. É quando a noite você vai não bantar o cara, é o oga. É assim que soube-vêu, entendeu? E aí? O projeto querino é apoiado pelo Instituto Ibiraptanga, o podcast produzido pela rádio novelo. O nosso site projetokirino.com.br reunitou as informações sobre o projeto e conteúdo adicional. O site foi desenvolvido pela AE e eu te convido a conferir também todo o material do projeto querino que está sendo publicado pela revista Piauí, nas bancas e no site da revista. Este episódio teve pesquisa de Gilberto por Cidônio, Rafael Domingos Oliveira e Angélica Paulo, que também fez a produção. A edição é do Lucas Mendes, a sonorização da Julha Matos e a finalização da Pipoca Sound. A checagem é do Gilberto por Cidônio e a música original do Victor Rodrigues Gias. Estratégia de promoção, distribuição e conteúdo digital o Bia Ribeiro. A identidade visual é do Draco Imagem. Os transcritores das entrevistas foram Guilherme Povoas e Rodolfo Viana. A loucoção foi gravada no estúdio da Pipoca Sound com trabalhos técnicos do Luis Rodrigues. Consultoria em roteiro de Mariana Jaspe, Paula Escarpin e Flora Tomson Devô, com revisão de Natalha Silva. Consultoria história e naelópis dos santos. Produção executiva Guilherme Alpendre. A execução financeira do projeto é do Espíz, instituto sincronicidade para a interação social. Idealização, reportagem, roteiro, apresentação e coordenação teago rogero. Este episódio usou áudios de TV Globo, TV Brasil e SBT. Até o próximo. [MÚSICA DE FUNDO]

Podcast Summary

Key Points:

  1. Em 1817, escravizados no engenho de Santana, na Bahia, comandaram uma revolta, exigindo direitos como dias de folga, liberdade de brincar e cantar, e a escolha democrática de novos gestores, resultando no conhecido "Tratado do Engenho de Santana".
  2. O documento é considerado um dos primeiros tratados trabalhistas no Brasil, demonstrando a resistência escrava e a reivindicação de autonomia, com a inclusão de práticas religiosas como forma de defesa cultural e espiritual.
  3. O Terreiro Matama Tomessineto, fundado em 1885, surgiu a partir dos remanescentes de quilombos e é um importante centro de expressão afro-brasileira, com forte ligação à tradição candomblé e aos valores de ancestralidade.
  4. A história da escravidão no Brasil está profundamente ligada à justificativa teológica da Igreja Católica, que promoveu a ideia de que os africanos eram "malditos", justificando sua escravidão e perpetuando o racismo por meio de narrativas bíblicas distorcidas.
  5. As religiões de matriz africana, como o candomblé, desenvolveram-se como espécies de resistência, mantendo memórias africanas e culturas, mesmo sob perseguição por parte do Estado e da Igreja Católica.
  6. Hoje, há um aumento significativo de ataques contra religiões de matriz africana, especialmente por grupos evangélicos, com base em preconceitos raciais e no uso de mitos distorcidos da Bíblia.
  7. A presença de negros nas igrejas evangélicas é grande, mas muitos desses negros são autênticos seguidores que escolhem essas comunidades por razões de pertencimento, apoio e esperança, não apenas por necessidade de subsistência.
  8. O Brasil ainda enfrenta uma política de perseguição sistemática contra expressões afro-brasileiras, com a violência, o silêncio institucional e a deslegitimação de tradições africanas sendo mantidas por décadas.

Summary:

O episódio aborda a história da resistência escrava no Brasil, destacando o "Tratado do Engenho de Santana" de 1817, onde os escravizados exigiram direitos trabalhistas e culturais, como dias de folga, liberdade de brincar e a possibilidade de eleições para gestores. Esse documento é visto como um dos primeiros tratados trabalhistas no país, simbolizando a luta por autonomia e a manutenção de práticas religiosas como forma de resistência. O Terreiro Matama Tomessineto, fundado em 1885, é um testemunho vivo dessa resistência, com raízes em quilombos e tradições africanas.

A história do Brasil está marcada pela exploração e justificativa teológica da escravidão por parte da Igreja Católica, que promoveu narrativas como a "maldição de Can", distorcendo a Bíblia e perpetuando o racismo. Hoje, as religiões de matriz africana sofrem perseguição sistemática, especialmente por grupos evangélicos, que usam preconceitos raciais e mitos distorcidos. No entanto, muitos negros se unem às igrejas evangélicas por escolha, baseada em apoio comunitário e esperança.

A perseguição não é apenas uma questão religiosa, mas uma violação das liberdades democráticas, pois ataca o direito de expressão e a identidade afro-brasileira. A história revela que a resistência afro-brasileira é sustentada pela memória ancestral, pela cultura e pela persistência de práticas espirituais, mesmo diante de séculos de opressão. O episódio conclui reforçando a necessidade de combater o racismo e a intolerância, reconhecendo que a liberdade religiosa é um direito fundamental e que a resistência continua sendo a lógica de sobrevivência do povo negro no Brasil.

FAQs

É um documento escrito por escravizados em 1789 no engenho de Santana, na Bahia, que exige condições melhores de trabalho, como dias de folga e a possibilidade de brincar e cantar sem autorização.

Eles escreveram para exigir melhores condições de trabalho, incluindo liberdade para cultivar suas próprias roças, e para garantir direitos como brincadeira, cantar e festas sem autorização.

É considerado o primeiro tratado trabalhista entre patrões e escravizados no Brasil, marcando um momento de resistência e reivindicação de direitos pelos escravizados.

É um terreiro de Candomblé fundado em 1885 em Ileos, na Bahia, que surgiu a partir dos remanescentes de quilombos e é referência na região por sua tradição religiosa e cultural.

A igreja católica foi uma parceira da coroa portuguesa na escravidão, justificando a prática como forma de salvar almas e desenvolvendo teorias que perpetuam o racismo e a exploração.

Essas religiões são historicamente vistas como ameaças pela igreja católica e pelo Estado, que as consideram heresia, e essa perseguição se intensificou com a ideia de que são 'primitivas' ou 'de origem africana'.

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