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#77 O tráfico transatlântico de escravizados (sécs. XV-XIX)

from Falando de História

39m 38s

#77 O tráfico transatlântico de escravizados (sécs. XV-XIX)

O episódio 77 do Podcast Falando História aborda o tráfico transatlântico de escravos, um fenômeno de grande dimensão histórica e humano. A conversa é liderada pela professora Analucia Araújo, especialista em história social e cultural da escravidão, que detalha as raízes do tráfico, começando no final do século XV com a expansão europeia e o comércio de cana de açúcar nas Américas. O tráfico foi racializado, com foco direto na África Ocidental e Centro Ocidental, marcando o nascimento do racismo anti-africano. Os agentes locais em África desempenharam papéis importantes, estabelecendo relações comerciais e trocando objetos simbólicos, como espadas, que revelam a complexidade dos intercâmbios culturais. O impacto local foi devastador: despopulação masculina, aumento da violência e guerras. O processo de abolição foi gradual, impulsionado por revoltas escravas, pressões internacionais (como a proibição do tráfico pela Inglaterra em 1807) e mudanças econômicas. A memória da escravidão evoluiu ao longo do tempo: inicialmente vivida pelos ex-escravizados, depois reafirmada publicamente a partir dos anos 90, especialmente com o debate sobre justiça social e descolonização. A reparação histórica, ainda em debate, inclui reconhecimento simbólico (desculpas oficiais, monumentos) e demandas econômicas não atendidas, com países como Portugal e Espanha ainda atrasados. O episódio reforça a importância desse tema na consciência contemporânea e recomenda leitura de livros como "O Navio Negreiro" e "A Caldeira", além de citar o site Slayvoidens.org para acessar dados sobre os números do tráfico. A reflexão sobre memória e reparação mostra que a escravidão continua relevante nos dias atuais, exigindo reconhecimento e ação.

Transcription

5237 Words, 32020 Characters

Portuguese
[Música] Olá a todos e bem-vindos ao episódio 77 do Podcast Falando História. Eu sou Roger Littis, e como está, como sempre, Paul M. Diaz. Olá! E esta semana temos um episódio especial, não é sim, Paul? Sim, por que este episódio sai originalmente a 26 de fevereiro de 2024? Fevereiro é como sabemos como um burado com o mês da consciência negra, e é uma data que aliás temos sempre assim na lado do nosso Podcast, com episódios diferentes, centrando sempre que possíveis de nós solhar. Se ídimos trazer, então, aqui um tema muito central, e que já teníamos planeado há muito tempo, que é o do tráfico transatlântico descravizados. Mas para isso, decidimos então trazer uma convidada muito especial. Exatamente, temos conosco a profissora Analucia Araújo, profissora na Howard University, nos Estados Unidos da América, uma universidade criada no século XIX, que é muito interessante, porque faz parte das chamadas universidades historicamente negras, porque, num país segregado como era um Estados Unidos da América, desenvolveram sim instituições de ensinos especialmente estinadas à comunidade afroamericana. É doutorada em história e em história da arte, e especialista em história social e cultural das histórias gravaturas e da própria memória e do impacto de escravatura até os nossos dias. Bom, tem uma produção realmente muito extensa na esta área, com mais de uma designer de livros publicados, sobre, por exemplo, a memória das gravaturas e as políticas de reparação histórica, é claro, a pessoa ideal para nos falar de todos os estemas. E por isso, agradecemos muito à profissora Analucia Araújo por estar aqui hoje conosco no nosso podcast para nos vir falar de este tema tão importante, que é Tom Marcante Aliás, que é o tráfico transatlântico descravizados. Preparamos aqui um pequeno guião, claro, que vai permitir desenvolvermos esta nossa conversa, mas começamos, enfim, lá para trás, mesmo pelo início, como uma pergunta muito simples, enfim, como é que começou este tráfico transatlântico? Obrigada. É uma pergunta difícil, porque envolve séculos de história, de tráfico, de descravizados, que começou bem antes, então, do comércio transatlântico. Já nesse período, que era o final do século XV, foi um período em que os cativos que vinham do Império Otomano e do estado de Marrocos através das vías transarianas, esses cativos começaram a ficar, o preço desses cativos começou a ficar muito caro. E enquanto o caso portugal e a Espanha se lançaram, essas expedições de expansão marítima, chegaram, então, no caso portugal, chegou primeiro nas costas da África ocidental e seguida nas costas da África Centro ocidental. E a partir desse contato, claro que os europeus já estavam em contato com o continente africana através do Mediterrâneo, desde a antiguidade, mas é a partir desses primeiros encontros que acontece no século XV e em seguida, a partir da chegada dos Espanhóis nas Américas e também dos portugueses, e do desenvolvimento, então, do comércio da economia açucareira de plantações de cana de açúcar, é que o comércio de transatlântico de africanos escravizados vai tomar as proporções que tomou a partir do final do século XVVI. Então, o processo que se faz de uma maneira gradual, a partir de uma necessidade de tecativos que já existia antes, mas agora fica mais acentuada com a chegada das Américas no cenário dessa expansão marítima. E para termos um pouco uma ideia de dimensão deste tráfico, mas ao menos em termos numericos quando as pessoas escravizadas é que foram transportadas para as Américas. Essa é uma questão também que, hoje em dia, se tem uma ideia mais clara em termos dos números, embora tenha sido um debate que continuou durante muitos anos, hoje em dia existe as estatísticas desse comércio, estão nessa base de dados que se chama "Islaive Voidens", que está na internet, que todo mundo pode acessar. E, segundo as estimativas, em torno de 12 milhões de cativos foram embarcados nos portos africanos, enquanto aproximadamente 10 milhões chegaram vivos nas Américas. Então, do número de cativos embarcados, 12 milhões e em torno de 10 milhões que chegaram vivos nas Américas. Agora, desses números é importante ter uma dimensão que é a seguinte. Esses são só os números das pessoas que foram embarcadas, muitos morriam antes de serem embarcados, quando eram transportados até a costa, outros morriam durante o período de espera. E além disso, temos que considerar que 10 ou 12 milhões de pessoas hoje, em relação à população do clobo hoje, é um número enorme. Mas na época, considerando um tráfico que foi feito durante mais de três séculos, esse número era ainda mais significativo. Sim, são números realmente brutais. 10 milhões para se ter uma ideia, mais ou menos a população do Portugal inteiro. Sim, e estamos a falar de populações transportadas e condições, enfim, penso que todos os nossos ouvintes sabrão, não é, mas o navio negreiro não era proprimente um passei turístico, não era um propriimento, não é passageiros de qualquer viagem. Estamos a falar de condições em muitos casos de desumanas. Sim, é o exemplo da desumanização se a gente tomar como parâmetro esse comércio atlântico descravizado. E talvez um dos exemplos mais atrozes que se têm em termos de emigração forçada, porque é a emigração forçada transoceânica, a maior que aconteceu na história e em condições absurdas. E, neste caso, também falou inicialmente um pouco já do tráfico de escravos, que já existia, neste caso, no norte da África, o que é que então distinguem, o que é que diferencia o tráfico atlântico, do tráfico que já existia anteriormente, nesta outra região, enfim, mais à norte claro, e da dimensão diferente, mas como é que podemos realmente separar as águas? Sim, e existiam vários, não só para um norte da África, mas também direção océano e indica, são o tráfico que já existiam. Sim, claro. A diferença, no caso desse novo tráfico atlântico de escravizados que começa a aparecer no final do século XV, e principalmente a partir do final do século XVI, a diferença que esse tráfico agora, esse comercio, é racializado. Então, antigamente, no período que antecedeu esse comercio, as pessoas que eram escravizadas vinham de diferentes partes do mundo, eram pessoas que na época incluiam europeus e povos de diferentes continentes e regiões, mas o tráfico transatlântico de escravizados que começa com a chegada dos europeus nas américas, é um tráfico que tem como alvo as populações africanas, africanas da África ocidental e centro ocidental, que gradualmente começaram a ser identificadas como populações negras. Então, populações que eram identificadas pelas características físicas, que faziam diferente dos europeus, portugueses, solandeses, franceses e inglês. Então, é a racialização e o nascimento do racismo anti-Africano que emerge durante esse período. E importa também lembrar qual é exatamente o papel dos agentes locais neste processo de escravização. Sim, o papel dos agentes locais é difícil de generalizar porque, em cada sociedade africana, estamos falando de quilômetros e quilômetros da costa ocidental da África e da costa centro ocidental também. Então, no caso da região onde os portugueses tiveram um papel central no processo de escravização que é na África Centro Ocidental, é claro que existiam agentes locais que estavam trabalhando, capturando cativos geralmente saídos de guerras locais, mas na África Centro Ocidental os portugueses tiveram um papel central, inclusive como agentes, porque nessa área também participaram de razias, capturaram gente, transportaram gente, e eram também os intermediários. Então, nessas áreas onde os portugueses estiveram colonizando o continente, já estabeleceram colôneas como Bengele e Iluanda, nessas áreas, os agentes europeus portugueses, eram figuras importantes. Em outros lugares, não se tratava exatamente disso. Por exemplo, no norte do Rio Congo, onde fica essa região da costa de Luangu, os portugueses estavam presentes ali desde o final do século XV, mas nunca dominaram aquela região. Então, de maneira geral, sejam os portugueses nessa área, outros europeus, como os franceses, ingleses, holandeses, ou então, na costa do ouro, que é na região de Ghana dos dias de hoje, nessas áreas, os reinos locais, estados locais, quando eles tinham estados formados, tinham seus próprios agentes que estabeleciam as regras do jogo em relação ao comércio de escravos. Estabeleciam, por exemplo, o pagamento de tributos, de taxas, de impostos, eram eles que autorizavam esses europeus, a estabelecer, por exemplo, fortalezas, castelos, e outras estruturas para poder vender escravizados. Então, isso dependia também da região da qual estamos falando. E é muito interessante porque, infelizmente, temos muito facilmente homógenia, um territorio que, na realidade, é muito diverso, quando estamos a falar destas regiões, estamos a falar de diversos reinos, como acabou de dizer. E, portanto, já com estruturas até bastante envolvidas ao contrário, lá está, do que às vezes, se pensa que não, são sociedades completamente coastribais, sem qualquer poder, tipo de poder organizado, quando, isso não corresponde de toda a realidade, foi uma imagem também que se foi construindo com base nesta ideia racializada, do que é o próprio continente africano. Mas é realmente muito interessante ver também como estes agentes locais, quando falamos de agentes locais, portanto, agentes africanos, ou os agentes portugueses acabam, não é, por se interligar com estes reinos. Estou a lembrar, por causa do seu último livro, que depois faleremos, recomendaramos, claro, no final, que se sintiola de gifte, e que trata, precisamente, como é que os objetos, objetos materiais, têm também um papel de relevo neste comercio transatlântico, nesta ligação que se faz com estes reinos locais, tanto, onde estes objetos, do qual poderá explicar um pouco melhor, têm uma dimensão simbólica muito forte, e servem de bom te ligação para garantir esta comercialização estráfico. É, exatamente, exatamente. E nesse caso, claro, estes agentes europeus, que estavam entrando em contato com os agentes locais, é, claro, que em alguns lugares existiam sociedades organizadas em termos de ter um estado com exército, com classe de nobres escravos, inclusive, no caso, tudo da umé, na África Ocidental, e outros lugares estes estados não existiam. Então, nós temos essas duas questões, mas nos dois casos, quando os europeus chegavam a começar esse tipo de comercio, eles entendiam e começavam a se interessar pelos gostos e interesses que estes agentes locais tinham. Então, de um lado, eles pagavam tributos para estes agentes locais, em termos de mercadorias que, na época, poderiam ser consideradas como moedas, mercadorias, como, por exemplo, alco, ferro, tecidos, fumo, todos estes itens eram usados para comprar cativas. E uma porção extra desses itens era dada, geralmente, a estes agentes locais, em termos de presentes, que eram considerados como os presentes, mas, na verdade, presentes no sentido de taxas, de tributos. Mas, além disso, esses europeus também traziam com eles objetos que eram manufaturados, que eram objetos fabricadas na Europa, que respondiam aos gostos locais que, ao passar muito tempo na costa, eles iam aprendendo que estes africanos gostavam, e os africanos tinham pedidos bem particulares em relação a que tipo de produtos eles gostariam de ter, seja para consumo próprio, seja para consumo mais estenso. Neste caso, no último livro que publicou o The Gift, trata um caso muito particular e muito interessante, que eu acho que poderia apenas os nossos ouvintes condicerem, que é o caso de uma espada, não é? Uma espada que, enfim, está também ligada não só com os portugueses, mas também com a própria colonização, ou melhor com o tráfico francês. Sim, esse trata de um objeto que, localmente, existia já na área da costa de Luangu, no norte do Rio Congo, que se chama, localmente, em decongo, se chama Kimpaba, que é um tipo de arma de uma espada ceremonial, que era usada, geralmente, pelo rei, e em seguida também passa a ser utilizada por um dos agentes desses rei, que eram entre aspas o ministro do Comércio. E, no caso, o que os franceses fazem no final do século XVIII, é um processo que a gente vem em outras áreas da África Ocidental, e nessa área da costa do Luangu também mais tarde, no século XIX, é que os franceses vão dar de presente para um desses agentes locais, uma Kimpaba, que foi criada e foi manufaturada fabricada na França, uma Kimpaba, uma espada de prata, com uma inscrição, com uma dedicatória para esse agente local. Então, nesse caso, eles utilizam, em Preston, então, poderíamos dizer assim, o formato de um objeto que era utilizado localmente, mas criam esse objeto na Europa com um metal nobre, como a prata, e ainda por cima colocam uma dedicatória escrita em francês, com o nome desse agente, para dar a esse agente, como presente em agradecimento a partir do final do conflito que houve entre os franceses, e nessa região da costa. Mas o que é interessante é que a partir daí, nós vamos ver uma proliferação, principalmente, no século XIX, de objetos parecidos com aquele, que também foram fabricados por outras nações europeias, inclusive, os portugueses que passam a presentar os agentes locais, com essas Kimpabas, que na verdade, Bimpaba, que era o plural de Kimpaba, aos agentes locais. E é também sempre uma perspectiva interessante e diferente, esta das materialidades e da sua relação com os acontecimentos históricos. Mas, já que falamos de movimentação do objeto e, sobretudo, movimentação de pessoas, de muitos milhões de pessoas, a minha pergunta é no fundo, qual acaba por ser o impacto local deste tráfico, na costa ocidental africana? Os impactos são múltiplos e os historiadores divergiram no passado e, relação a questão do impacto. Podemos considerar que o impacto foi diferente, ou não é exatamente igual da na África ocidental, que é, por exemplo, na África Centro Cidental. Mas o que acontece aqui é que um dos impactos é uma aceleração da violência e nessas sociedades. Essas sociedades são desprovidas, por exemplo, de sua população masculina, porque a maioria daqueles que eram embarcados nos navios para as Américas eram homens, então as mulheres, geralmente, ficavam, eram mantidas localmente para um outro tráfico, que o tráfico, como um humano, e também eram mantidas para trabalhar na agricultura localmente. Então, a despopulação, a perda da população masculina, é um dos elementos, o aumento da violência, a aceleração das guerras, que vão se intensificar com esse comercio de africanos escravizados, e, principalmente, também, o aumento da insegurança, porque nesse processo, principalmente, a partir do século XVIII, quando o comercio vai se acelerar, e existe todo mundo, que seja independentemente do sexo, independentemente da classe social, de uma certa maneira, estava exposta a ser capturado e transportado para as Américas. - Ofimente que, do impacto local, porque solharemos o impacto do outro lado do Atlântico, basta olhar, por exemplo, pro Brasil para perceber como a economia do Brasil esteve intimamente ligada com este tráfico de escravizados, uma ligação muito próxima, que acaba por se estabelecer entre o Brasil e a Corte Africana, sobretudo a região da Angola, o qual se viu, perfeitamente, durante a período da restoração, é meados dos séculos aceto, quando os holandeses capturam temporariamente, não é luanda e acorou portuguesa, está muito preocupada naquele momento, porque o Brasil depende econômicamente, portanto, podemos ver, também, com esse impacto local, por causa desta sangria, não é de pessoas, e depois, claro, que vai criar novas economias baseado nesse trabalho forçado, nesse trabalho de escravos. mas realmente ele acha, falando de Brasil, que lembra-me também. também que o Brasil também é construído à base desse trabalho escravo, como eu acabei de dizer, o que também vai gerar claros de teleções sociais e revoltas escravos. E revoltas escravos até se tem bastante estudados nos últimos anos, nas últimas décadas, qual é realmente o papel e até a dimensão destas revoltas escravos. Mesmo em Santo Métio, era um impacto bastante central, penso que já no século 16, se a memória não me falha, e depois, enfim, temos, claro, essa dimensão no Brasil, que os caravos até que voltam esse fogem criam os quilomos, temos o famoso quilomo dos Palmares, quando pensamos nesta revoltas escravos, o que sabemos sobre elas? Sabemos bastante coisa, eu acho que nos dias de hoje, acho que existe cada vez mais interesse, existe no caso do Brasil, eu acho que é importante a menção à Santo Métio, que é um precursor do que vamos ver no Brasil e seguida no século 17 com o quilombo dos Palmares, que é um quilombo que dura durante praticamente um século. Então, não se trata de uma revolta no sentido que não foi uma rebelião temporária, mas a formação de comunidades escravizados fugitivos. Depois, temos outras revoltas, algumas delas que foram abortadas, principalmente em regiões, por exemplo, na Bahia, é um exemplo desse tipo de revolta em 1835, uma série de mini revoltas durante as primeiras décadas do século 19, e geralmente em lugares onde havia uma grande concentração de pessoas nascidas na África, e onde esses nascidos na África escravizados formavam a maioria da população. Então, isso, no caso do Brasil, em 1835, uma revolta que tem lugar na Bahia, conhecida como a revolta dos Males, porque Males era o nome que era andado para aqueles africanos que eram os humanos. Mas, além disso, houve outras revoltas importantes, mas que estavam em diálogo com o que aconteceu no Brasil, duas revoltas, por exemplo, uma, na Jamaica, na segunda metade do século 18, uma outra na região que era dominada pelos holandeses, na América do Sul também, na Colônia holandesa, do Suriname, ainda temos outras revoltas que acontece, por exemplo, em Cuba e, claro, a revolta mais importante, a única que a gente caracteriza com o tendo sucedido, que a revolta em Sandomeng que levou a bolição da escravidão em Sandomeng e a independência da França, que levou a criação do IT. Entrompemos por um bocadinho nosso episódio para deixar um apelógio de nossos ouvintes. Não é assim, Roger. Sim, o podcast falando história é um projeto independento, como todos sabem, e por isso os nossos ouvintes quiserem apoiar-nos e contribuir para a madroteção deste nosso podcast podem fazê-lo através da plataforma patreon em patreon.com/falanestória. E, claro, deixamos este link na descrição do episódio. Não podem encontrar toda a informação necessária para fazer parte da nossa comunidade. E agora, regresamos ao episódio. E já que abordamos as origens deste trafic transatlântico, também os processos, como se desenrolavam no fundo, mas já final, como é que se acaba por abolir em um só escravização da fricanos, mas também o próprio trafic transatlântico. É um processo que demorou mais praticamente um século que começa na realidade com o fato dessas revoltas, por exemplo, das quais a gente estava falando. Essas revoltas geralmente em períodos onde começavam a ter revolto principalmente na América do Norte, isso levava a pressões para abolir o trafico, porque havia uma consciência que essa concentração grande de pessoas nascidas na África poderia levar a revolta. Então, esse processo é um processo que começa no final do século XVIII e com pressões internacionais a partir, principalmente de 1807, quando a Inglaterra abole o trafico. Mas já nesse período, existia um processo que se chama a Bolição Gradual da Escravatura, que começa, por exemplo, no Norte dos Estados Unidos, com a passagem de leis de legislação que libertava os nascidos, os filhos das escravizadas. E isso é um processo que era chamado a processo de abolição gradual. Essas leis se caro conhecidas no mundo Luzofno, como o leis do ventri livre, ocorreram no Norte dos Estados Unidos, ocorreram em seguida na América Latina, muito mais tarde no Brasil, então isso foi parte do processo legal. E, de outro lado, esse processo de abolição da escravatura e do trafico também se dava no outro terreno, que era o terreno da própria luta dos escravizados. Quando fugiam, quando se rebelavam, se autoemansipavam. Então, é um processo duplo levado pelos escravizados e eles mesmos. E, a partir de um certo momento, com a poe também da população branca das América e da Europa, que vai começar a entender a escravatura e o próprio começo de escravizados, como atrocidades humanas que precisavam terminar. Então, é na combinação desses elementos que o trafico finalmente abolido. E também, claro, havia considerações econômicas e tem todo o matésio sobre o fato da Eric Williams, o historiador que escreveu sobre a abolhação da escravidão, do caribibritânico que indicava que essa abolição também foi influenciar por motivações econômicas no período em que a escravidão já não era tão lucrativa. Claro, claro. Observemos um pouco, não é todo este fenômeno, e realmente hoje em dia ainda temos a questão da escravatura bem presente, até porque temos uma memória, enfim, viva e que vai sendo a vivada e bem, sobre esse processo. E, neste caso, como a professor Ana Lucia já trabalhou bastante a questão da memória e como é que essa memória se fixa, eu penso que seria interessante realmente refletir mos um pouco sobre como a escravatura tem sido vista nas últimas décadas. Como é que estas políticas da memória maior ao menor grau, não é como o país que estivermos a falar, mas como é que estas questões realmente sigam aos nossos dias, e como é que de forma até polêmica não é que são recordadas? Sim. É também da mesma maneira que o trafico e a abolição da escravidão e do trafico foi um processo gradual, a maneira como essas atrocidades são lembradas, faria também com o tempo. No primeiro momento, essa memória é fixada, como memória coletiva, porque as pessoas que lembravam o período da escravatura eram os próprios antigos escravizados nas sociedades onde eles ainda viveram durante muitos anos, até, em alguns casos, no caso do Brasil, até o começo do século 20. Então, existia desse primeiro período, inclusive nos Estados Unidos, uma memória que era muito fixada em relação à questão da abolição. Então era a abolição da escravatura que era comemorada no espaço público através de festivals, muitas vezes através de uma acertadora ação das figuras que aboliram a escravidão, no caso do Brasil, a princesa Isabel, no caso dos Estados Unidos, o presidente Lincoln. Isso aí foi um período inicial. Depois, acho que existem outras camadas que vão se acrescentando com o passado tempo e varia muito de lugar para lugar, que são um certo esquecimento que vai se instalando, a namentida em que os antigos escravizados morrem, não estão mais lá para contar história, e essa memória de uma certa maneira é uma memória de segunda mão. Mas, a partir dos anos, principalmente a partir da segunda guerra mundial, essas questões começam a reemergir, porque, em todas as sociedades americanas onde existiu a escravatura, o racismo que discriminava pessoas que eram classificadas, que são classificadas como pessoas negras, continuava muito forte isso com indicadores econômicos da exclusão dessas pessoas. E por isso essa memória vai começar a reemergir no espaço público a partir da segunda metade do século 20, mas, principalmente a partir dos anos 90, com o final da guerra fria. Então, e daí já é no período onde aconteceu a descolonização da África, a descolonização do Caribe, e isso aí dá um impulso para a emergência de uma memória pública, principalmente em que esses atores sociais que se identificam como negros e como pessoas que são descendentes de colonizados e descravizados, que começam a pedir, por exemplo, que a sua história, que a história dessas atrocidades seja reconhecida no espaço público. Pede, então, para que se construa monumentos, memoriais, para lembrar os sante passados. E, claro, isso é uma dimensão que começa a ficar visível a partir dos anos 90. Mas que nos últimos 20 anos se acelerou bastante, inclusive em países como Portugal, onde essa questão era raramente discutida, e onde hoje esse passado passa de uma maneira muito, muito lenta a ocupar o espaço público. E uma das formas sobre as quais este debate acaba buscar um pouco ao grande público, é através de uma ferramenta que é o cinema, há bastantes filmes sobre este tema. Lembram-me de um que já havia há bastantes anos, na verdade, há um fome dos anos 90, o amistado que não filma que marca bastante. - Até os dois anos graves, que ganhou hoje. - Exatamente. - Mas recente, sim. - Sim, sim. A televisão, nesse caso, no caso da memória pública, a televisão e o cinema, tem um papel muito importante. Eu lembro aqui daquele do romance e também da série televisiva, do Alex Ralei Raízes, que foi veiculado nos anos 70, teve muito sucesso no Brasil, no Brasil também, além de raízes, as telenovelas, como escravizar a hora, que é totalmente distorcida, mas, enfim, começa a ver a partir desse tipo de produção televisual, tem um impacto no público, por exemplo, no caso de raízes, quando eu fiz pesquisa de campo na República do Benin, há uns 20 anos atrás, eu me lembro que as pessoas que eu entrevistei estavam falando a experiência dos seus antepassados, e mencionavam quinta quinta da série Raleizes, porque era a partir dessa série televisiva que eles faziam a mediação, em relação ao próprio passado dos ancestrais que foram escravizados. Então, teve uma importância muito grande, já a partir dos anos 70, no Brasil também, filmes como "Gangazumba", "Zumbi", "Quilombo", não é zumbi o nome do filme, mas, enfim, esses filmes do "Kaka Jagas", nos anos 70 e nos anos 80, também foram importantes. E, claro, ultimamente, amistado foi o próprio filme Lincoln, 12 anos escravo, que agora não lembro se esse é exatamente o título em inglês, mas, enfim, é uma proliferação a cada ano, tem novos filmes tratando dessa questão, impulsionando e renovando essa memória pública. E, neste caso, falamos da questão da memória, também, destas políticas públicas, e coloca-se também hoje em dia uma questão que está cerca de vez mais debatida. Em Portugal, tem surgido na esfera pública, mas, talvez, não, com o debate que merece que é a questão da reparação históricas, e aliás, a pessoa na Lucia Rúgesa já publicou várias obras, dedicada precisamente a estas questões, o que é que se entende por esta reparação histórica? E, neste caso, porque hoje em dia, 2024 é um debate importante? É, é uma pergunta complexa, porque a questão da reparação histórica tem várias dimensões e tem uma dimensão que é de reconhecer esses erros que foram cometidos no passado, essas atrocidades, e oferecer medidas para remediar o que aconteceu no passado. E, claro, que o problema das atrocidades como a escravidão e comércio de africanos escravizados é que ocorreram durante um período bastante longo, mais de três séculos, e nunca ouve reparação para aqueles que foram escravizados. Quando a escravidão foi abolida nos diferentes lugares, na diferentes partes das américas, geralmente foram os proprietários de escravos que receberam indelizações da parte dos governos. Então, essa, essa, essa reparação nunca aconteceu na época, quando a escravidão foi abolida, e além disso, depois disso, essas populações de origem africana, populações negras nas américas, continuam na maioria dos casos sendo excluídas socialmente e econômicamente. Então, do ponto de vista econômico, essas reparações teriam que ter atido o lugar, já no período da polição, e haviam pedidos. E havia pedidos para que fossem tomadas medidas para remediar o que tinha sido feito no século dos anteriores. Então, essa é uma dimensão econômica e material que, apesar dos pedidos de reparação, nunca, esses pedidos nunca foram atendidos. De outro lado, tem toda uma dimensão simbólica, e eu acho que hoje em dia, a maioria das vezes que se falem em reparação histórica, se fala de uma dimensão simbólica. O primeiro elemento dessa reparação é de ordem simbólica, é reconhecer que essas atrocidades foram cometidas, por exemplo, pedidos oficiais de desculpas também, da parte dos estados, que é algo que também não aconteceu, é certo recentemente, no caso da Holanda, em que o rei da Holanda fez um pedido de desculpas oficial, e além disso, claro, os elementos que a gente já mencionou, por exemplo, a construção de monumentos, construção de memoriais, que reconheçam no espaço público, as atrocidades que foram cometidas. E isso tem acontecido em alguns países, como, por exemplo, o Brasil, tem acontecido aqui nos Estados Unidos, a criação de museus, de exposições, mas em muitos países ainda essa questão fica muito a desejar, é o caso de Portugal, por exemplo, onde, caso de Lisboa, onde existe um projeto de memorial, as vítimas da escravatura que até hoje não saiu do papel, e, por exemplo, a Espanha também está muito atrás nesse processo, que os outros países, como a França, a Holanda, até a Inglaterra, esse debate tem acontecido também, e algumas medidas já foram tomadas. Também, eu menciono aqui outro tipo de medida, que é a questão da educação de tornar obrigatório, por exemplo, ensino da história dessas atrocidades, que tem sido uma dimensão dessa, desse pedido de reparação histórica, no sentido simbólico. E, realmente, como se deve ter percebido ao longo desse episódio, a todo o interesse em relembrar o processo de escravização e o próprio trafico atuático, é um tema que, como se percebo, é bastante atual. E, por posse de isso, acabamos também por recomendar os livros da processora analuciar o uso, um já que referimos da Geft, "How Objects of Prestige" shape de atuático slave trade in colonialism, foi publicado precisamente neste ano de 2004, e outro que sai um bocadinho mais para a frente em outubro deste ano, que humanes enxácoles, a Natuantic Resusive slavery, este mais focado, como se percebem, neste trafico transatlantico. E aliás, esperemos que venha a ser publicada em Portugal, infelizmente, não está nenhum publicado neste momento, mas o humanes enxácoles vamos tentar mover os nossos conhecimentos para que isso aconteça, não é simpólico. Foi uma visão realmente muito panurámica sobre a escravatura, claro que haveria muito mais de dizer, e estou certo que aliás teremos mais episódios no futuro, porque muitas destas questões podem ser muito bem desenvolvidas, para conhecermos melhor o que foi este fenômeno, e por causa disso, claro, agradecemos à pessoa analuciar o uso, muito obrigado por estar estado aqui conosco neste nosso episódio, que marca, como dissemos no início, também esta lembrança deste mês da consciência negra, sem endo este episódio em febreiro. Muito obrigado, persona. Muito obrigado. Obrigada, obrigada. Estamos mesmo a terminar este nosso episódio, mas queremos também deixar aos não-sovintes algumas sugestões de leitura em português. Por isso voltamos a recomendar um livro que já aqui trouxemos, de Marcas Bédica, o navio negreiro, uma história humana, publicada pela Sídia de Emergência em 2023, e uma segunda sugestão de Arlinho de Menó, a Caldeira, escravos e traficantes no Império Português, o comércio negreiro português no Atlântico durante os séculos 15 a 19, publicado pela esfera dos livros em 2013, e um livro que como se percebe o título aborda este comércio a partir da perspectiva português. E também referir um site que foi mencionado neste episódio e também já o recomendamos no trocasião, que é o Slayvoides.org, que apresenta lá está estes nomes brutais do trafico transatlântico, que foram referidos neste episódio. E pronto, é tudo neste nosso episódio 77 do Podcast Falando História, como sempre agradecemos aos nossos patrões, que realmente contribuem decisivamente para a menudeção deste nosso projeto de divulgação histórica, e já sabem se querem juntar a nossa comunidade, é só seguir o link que deixamos que é patreon.com/falandhistória. O email está sempre aberto, falando história pode que esta roba gima do.com e a edição já sabe, é de Marco António. Até a próxima! Até a próxima! Falando História! [MÚSICA DE FUNDO]

Podcast Summary

Key Points:

  1. O tráfico transatlântico de escravos começou no final do século XV e se intensificou com a expansão marítima e o desenvolvimento da economia açucareira nas Américas.
  2. O tráfico foi racializado, com escravos africanos da África Ocidental e Centro Ocidental sendo identificados como negros, o que acelerou a construção do racismo anti-africano.
  3. Agentes locais em África, como reis e governos locais, tinham papéis centrais no comércio, estabelecendo regras, cobrando tributos e autorizando a construção de fortalezas.
  4. Objetos materiais, como espadas de prata oferecidas pelos franceses, serviram como símbolos de troca, fortalecendo relações comerciais e revelando a complexidade do contato entre europeus e africanos.
  5. O impacto local na África foi profundo
  6. A abolição foi gradual, impulsionada por revoltas escravas, pressões internacionais e mudanças econômicas, sendo o Brasil um exemplo central dessa ligação histórica.
  7. A memória da escravatura evoluiu ao longo do tempo, passando do conhecimento direto dos ex-escravizados para a reafirmação pública após a Segunda Guerra Mundial.
  8. A reparação histórica é um tema atual, envolvendo reconhecimento simbólico (como desculpas oficiais, monumentos) e demandas econômicas ainda não atendidas, especialmente em países como Portugal e Espanha.

Summary:

O episódio 77 do Podcast Falando História aborda o tráfico transatlântico de escravos, um fenômeno de grande dimensão histórica e humano. A conversa é liderada pela professora Analucia Araújo, especialista em história social e cultural da escravidão, que detalha as raízes do tráfico, começando no final do século XV com a expansão europeia e o comércio de cana de açúcar nas Américas. O tráfico foi racializado, com foco direto na África Ocidental e Centro Ocidental, marcando o nascimento do racismo anti-africano.

Os agentes locais em África desempenharam papéis importantes, estabelecendo relações comerciais e trocando objetos simbólicos, como espadas, que revelam a complexidade dos intercâmbios culturais. O impacto local foi devastador: despopulação masculina, aumento da violência e guerras. O processo de abolição foi gradual, impulsionado por revoltas escravas, pressões internacionais (como a proibição do tráfico pela Inglaterra em 1807) e mudanças econômicas.

A memória da escravidão evoluiu ao longo do tempo: inicialmente vivida pelos ex-escravizados, depois reafirmada publicamente a partir dos anos 90, especialmente com o debate sobre justiça social e descolonização. A reparação histórica, ainda em debate, inclui reconhecimento simbólico (desculpas oficiais, monumentos) e demandas econômicas não atendidas, com países como Portugal e Espanha ainda atrasados. org para acessar dados sobre os números do tráfico.

A reflexão sobre memória e reparação mostra que a escravidão continua relevante nos dias atuais, exigindo reconhecimento e ação.

FAQs

O tráfico transatlântico de escravizados foi um comércio de escravos africanos transportados para as Américas entre o final do século XV e o século XIX. Foi racializado, com foco na África ocidental e centro ocidental, e envolveu condições desumanas, viagens com altas taxas de morte e o desenvolvimento de uma estrutura de racismo anti-africano.

Estimativas indicam que cerca de 12 milhões de africanos foram embarcados nos portos africanos e aproximadamente 10 milhões chegaram vivos nas Américas. No entanto, muitos morreram durante o transporte, e os números refletem um desastre humano de escala massiva.

O tráfico transatlântico foi racializado, focando exclusivamente em populações africanas da África ocidental e centro ocidental, enquanto o tráfico anterior na África do norte envolvia pessoas de diferentes origens, incluindo europeus e povos de outros continentes.

O tráfico provocou a despopulação masculina, aumento da violência e guerras, e maior insegurança nas comunidades africanas. A perda de população masculina também afetou as estruturas sociais locais e a economia regional.

No Brasil, destacam-se o quilombo dos Palmares, uma comunidade fugida que durou cerca de um século, e a revolta dos Malês em 1835. Revoltas semelhantes ocorreram na Jamaica, no Suriname e na Cuba, com a revolta de São Domingos sendo fundamental para a abolição da escravidão na França.

Inicialmente, a memória foi conservada pelas comunidades afrodescendentes, com comemorações oficiais como a abolição da escravidão. A partir da segunda metade do século XX, especialmente nos anos 1990, a memória começou a ser reafirmada publicamente, com monumentos, museus e obras de arte.

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