Go back

#129 - Dinâmicas violentas de casal

47m 20s

#129 - Dinâmicas violentas de casal

Neste episódio do "Cartas de Interapelta", Alexandre Coimbra-Marau e Dani, um casal de terapeutas, discutem as dinâmicas violentas nas relações amorosas. Eles explicam que, no século XXI, há um movimento cultural para nomear violências antes silenciadas por frases como "é um sapo que você tem que engolir". No entanto, termos como "relacionamento tóxico" podem criar um distanciamento, colocando a violência como algo do outro, o que impede a autorreflexão. Em vez disso, eles propõem enxergar a violência como uma dinâmica relacional, onde ambos os parceiros podem coparticipar, mesmo sem intenção consciente. A violência psicológica é destacada como a mais frequente e sutil, manifestando-se em controle do corpo, castigos de silêncio, humilhação e medo. O medo é apresentado como um indicador preciso de violência, diferenciando-o do temor comum de perder o amor. Os terapeutas enfatizam a importância de nomear a condição de vítima sem se vitimizar, empoderando a pessoa para agir. Eles também alertam para o desgaste profissional de quem escuta essas histórias, recomendando autocuidado. Por fim, a terapia de casal é vista como um espaço para revelar e enfrentar essas violências, mas exige sensibilidade e consciência dos efeitos das falas e intervenções.

Transcription

5534 Words, 31615 Characters

Portuguese
[Música] Olá, aqui é Chande. Eu estou muito feliz em apresentar essa temporada do Cartas de Interapelta, que fale especialmente sobre relacionamentos amorosos. Vamos explorar os temas que levam os casais aterapia com a nossa parceria latín, essa marca brasileira, pionera no ramo de perfumaria de ambiente, se inspirada na biodiversidade do nosso país. Hava a timpra móvem momentos de pausa, respiro e reconexão através de produtos que despertam os sentidos, perfumes, cuidado com corpo e rosto, aromatização de ambientes, velas tradicionais e especiais, como a vela hitus que ao derretê se transforma em olho de massagem. Perfeita para momentos a dois. Com forte compromisso com o meio ambiente, a avatinha oferece produtos veganos, livres de CO2 e sem testes em animais. Nessa temporada, os ouvintes do Cartas de Interapelta a usarem o cumpon no site avatim.com.br ganham. Além de 15% de descontam qualquer produto, também o meu primeiro livro Cartas de Interapelta para seus momentos de crise enquanto durarem os stocks. Garante então a sua experiência avatim em uma das lojas espalhadas pelo país ou através do site avatim.com.br. Avatim seu refúgio de boas recessões. [Música] As cartas são a escrita que a alma faz sem rodeis para as perguntas que nos inquietam para aquilo que nos atravessa, para a vida que tem urgência incertida. Em palavras faladas, as cartas são o sopro que nos conecta por um instante. Abre esse enveloppe, ele é para você. Eu sou Alexandre Coimbra-Marau e vai começar mais um episódio do Cartas de Interapelta. [Música] Olá, Olá, minha gente querida. Todo mundo bem vindo aqui para essa conversa. Mais um Cartas de um casal de terapeltas. Muito prazer se você está vindo pela primeira vez. Seja muito bem vindo, bem vindo, bem vinda aqui. Lugar é seu, é uma mesa que orredonda com umas cadeirinhas vazias exatamente bem postas para você se sentar. Eu sou o chande, eu sou a Dani. E nós somos um casal que atende casais. Às vezes atende separatamente, que é o mais comum, às vezes, a gente se juntava para atender isso antes da pandemia. A gente fazia muito isso. Durante a pandemia, a gente fez um projeto de atender casais em um grupo terapêutico, que a gente chamou de reconstruindo nosso casamento. E hoje a gente está fazendo um monte de coisa e entre elas, esse pode-queste, essa temporada desse pode-queste, que foi uma ideia da Dani, eu amei, e a meio tanto que falei, vamos fazer uma temporada inteira. Esse já é o nome, episódio dessa temporada. Se você ainda não escutou os outros, corre lá para você escutar porque tem carta, tem histórias de casais, e tem essas conversas que nós dois gostamos de trocar sempre na nossa vida privada, e aqui na nossa vida pública, na nossa vida profissional, na nossa vida pessoal, aqui é um converseiro constante, que se retualiza porque a gente vai mudando, e a gente vai se reencaixando as mudanças um do outro. E hoje a gente quer conversar sobre dinâmicas violentas de casal. Esse é um tema importante, porque nós estamos neste século em que estamos destapando em todos os pontos das culturas e das sociedades ocidentais, as histórias violentas que não recebiam exatamente esse nome. Um dos nomes que as histórias violentas tinham, por exemplo, é esse é um sapo que você tem que engolir, porque a vida é assim mesmo. Ruim com ele, pior sem ele, a gente tinha frases que silenciavam as relações violentas, as situações violentas, os ambientes tóxicos, e devolviam a pessoa que normalmente estava ali numa condição de vítima, tentando nomear aquele incômodo, aquele mal-estar, a gente devolvia essa pessoa para a cena violenta, mais silenciada, a gente como cultura. E o século 21 é esse, portanto, o ambiente frutífero para esse episódio acontecer, junto com milhares de outras manifestações culturais, nomeando violências de toda sorte. O casamento não é uma exceção, o casamento é um lugar em que as dinâmicas violentas têm muita condição de aparecer, porque aqui a gente envolve duas características de uma relação conjugal, intimidade e co-habitação. Nem sempre tem co-habitação, mas intimidade é muito presente nas relações conjugais. E a soma dessas duas entidades pode acender faíscas que promovem cenas violentas. Vamos falar sobre isso, amor. Eu acho muito necessário. E eu acho bom a gente pensar junto com vocês que estão escutando sobre esse termo dinâmicas violentas no casamento, no casal, porque eu acho que a gente tem outras formas de falar disso que me parece que ajudam menos. Do que eu estou falando? Um termo muito comum, por exemplo, que a gente tem escutado muito, é relacionamento tóxico. Nossa, você está em um relacionamento tóxico. Essa é uma pessoa tóxica. De uma pessoa tóxica, de um relacionamento tóxico, você tem que se afastar. Quando a gente fala de violência e de um autor de violência, a gente também está falando, geralmente, daquela pessoa que recebe um olhar de estranhamento daqueles que não se pensam violentos. Da maioria de nós que não se vê como capaz de autor de uma explícita violência. Então, a gente olha para aquela pessoa autora de uma violência como um outro, e a gente resolve esse problema, olhando para o outro lado, se afastando dessa cena e dizendo a violência não faz parte do que eu vivo, não faz parte de mim, não faz parte da minha relação. Então, eu acho que quando a gente fala de dinâmicas violentas, ao mesmo tempo, a gente assume o compromisso de se haver com a nossa própria participação de dinâmicas violentas. E ao mesmo tempo, a gente coloca a violência nesse lugar entre eu e o outro e é mais possível, de a gente tratada a violência como uma dinâmica, como se entoma, como um comportamento que pode ser cuidado, que pode ser transformado, que pode ser enfrentado, que pode ser nomeado. Eu acho que quando a gente localiza a violência uma pessoa, ela produz geralmente esse movimento de "é só eu me afastar disso" que eu estou me protegendo. E eu acho que essa nomeação, ela nos implica a partir de um outro lugar. Nossa, excelente. Porque eu vou continuar tão bem dito que eu não tenho nada a acrescentar a essa ideia. Eu vou continuar essa trilha que você está propondo porque ela está reafirmando um paradigma. A facilidade que a gente tem de encontrar bodes espiatórios para as dinâmicas que a gente coparticita é muito grande. O Iung tem aquela frase, "Enquanto você não entender como você é regido pelo seu inconsciente, você vai chamar tudo o que acontece com você como destino". Essa necessidade de se autocomplicar nas dinâmicas mais sombrias que são cotidianas na vida, essa nomeação de "eu faço parte disso". Isso é muito importante de a gente se alientar, embora a maioria das situações que a gente acolhe, como terapelta, pede que a gente antes ajude a pessoa a nomear a condição dela de vítima de uma violência e aceitar que os faz parte da vida dela. Porque a violência é uma. ela é uma condição que vai estruturando a narrativa do casal de uma maneira, tal que existem, por exemplo, as teus violências perfeitas, que a Marelena Chauí fala, que a vítima quase agradece ao oente violento pela violência que ela sofre. Eu, por exemplo, acho que vários discursos conservadores que estão voltando a acontecer na sociedade brasileira, incluem violências perfeitas, que estão sendo colocadas como uma virtude, por exemplo a sub-imissão da mulher, a um homem, como uma virtude daquele casamento. Para mim, isso é um tipo de violência perfeito. Então, quando a gente recebe casais com dinâmicas violentas, é muito mais comum que a gente precisa ajudar a pessoa que está sendo vítima de violência a nomear aquilo, que é diferente, é muito diferente de se victimizar. Acho que ainda tem muita confusão entre essas duas coisas, porque nomear a condição de vítima é o contrário de victimizar e dar poder para ela ter agenciamento sobre a própria vida. Mas sem dúvida, o processo de elaboração de uma dinâmica violenta de casal passa por assumir como eu, no meu lugar, ainda que de vítima, posso ajudar a sustentar essa violência. Eu posso ajudar a perpetuar essa violência, ou eu posso deixar de perceber efeitos dessa violência em mim ou em outros, por exemplo, nos filhos. Então, essa linha que você está seguindo, é importante para a gente sair dessa dicotomia, a pessoa amar, a pessoa boa, a pessoa que é sombria, a pessoa que é por aluz. E isso, por exemplo, quando a gente está seguindo com homens, uma coisa que você, na gente, conversa sobre os atendimentos, mas sobre a cultura de uma forma geral, olhar dessa forma ainda, alimenta uma ideia predominante entre muitos homens de que, mas nem todo homem. Apesar da gente ter todas as evidências de que existe um motivo de gênero fortíssimo, em uma maioria dos casos de genômicas violentes. Quando um homem vem numa conversa sobre uma violência, ou sobre uma condição estrutural violenta, às vezes a mulher está comentando sobre um conceito, que não necessariamente tem a ver com que aquele casal está vivendo naquele momento. Mas esse homem se defende, vem com o nento do homem. Eu acho que é importante se a gente usar isso aqui como exemplo de uma defesa para não se implicar no que pode acontecer dentro dessa relação. Violento é o outro. Aquela violência pior que aparece no jornal, que aparece na história da cabra, essa é que é violenta. Esse é o homem violento. Então é interessante porque a violência, ela tem essa capacidade de produzir esse tipo de defesa, um violento nunca vou ser eu. Então quando a gente coloca a violência na dinâmica, a gente está convidando os dois a se repensar ainda que a gente possa pontuar uma cena aqui, você foi violento aqui, você foi violenta independente do gênero, mas você está exemplificando como uma ação pode ser violenta contra um outro. Então isso é, por exemplo, no grupo de homens, a amoura acontece muito, que os homens chegam com a seguinte pergunta, mas quando é que a minha dor é validada? Se eu sou só a entidade violenta, essa pergunta é muito comum e veja, uma coisa não excluia a outra, nós portamos dores e podemos fazer dessas dores a base inclusive para comportamentos violentes. Dores não tratadas, dores não visibilizadas, não acolhidas e não cuidadas, podem se transformar em ações violentes, e sem que eu me aperceba, sem que eu não mei isso, né? E muito frequentemente eu vá para uma outra frase muito defensiva que não foi minha intenção, né? As maiores violências humanas não estão envolvidas com uma intenção prévia, e é disso que a gente está falando aqui quando a gente fala de dinâmicas violentes, né? Porque não é que eu estou maquinando prévia a mente, eu vou violentar aquela pessoa e aí eu organizo uma cena de maneira perversa inclusive, a maioria das cenas violentes acontecem sem que eu me deconta e sem que tenha tido uma intenção clara de violentar, portanto o foco da escuta masculina que eu tenho inclusive defendido muito no grupo de homens e também na minha comunicação pública, o foco da escuta masculina para violência não é a intenção, é o efeito. Isso é uma coisa tão importante da gente falar, né gente? Quando a gente fala de violência, especialmente a gente precisa falar mais de dinâmicas violentes porque é o tipo de violência que não é óbvia, que não é explícita, mas que se traduz como violência porque produzem quem está sendo vítima uma sensação de humilhação vergonha e medo, né? Então quando você fala essa frase dos homens, né, a gente acha de uma coisa que pode servir como pergunta, né, como reflexão sobre esse mesmo, é assim, quando eu estou falando dessas dores existem momentos em que eu sinto medo, por exemplo, medo da minha companheira, né? O medo, ele é o termômetro da situação, é que a gente vive violência, é muito preciso, né? Às vezes não existe esse nome, eu nem penso sobre o que eu estou vivendo com essa parceira, com esse parceiro, como violência, mas eu sinto coisas como eu tenho medo de que ele descobre isso, eu tenho medo de falar sobre esse assunto, eu tenho medo da reação que essa pessoa vai ter quando descobri que tal coisa está acontecendo, né? Assim, o medo, ele muitas vezes está dizendo para a gente que aquilo que acontece naquele momento, me coloca em um lugar de muita vulnerabilidade. E é importante que a gente é diferenci-se tipos de medo, né? Porque uma coisa é diante de um conflito com o jogal, qualquer que ele seja, a gente temer perder aquele amor, esse é um medo mais universal, relacionado ao conflito com o jogal, outra coisa é um medo de ser atacado, ser atingido, de receber um tipo de dano, assim, real simbólico, psíquico, físico, sexual, né? É desse medo que a gente está falando nas relações violentes, né? Vamos falar um pouco mais de violência psicológica, que eu acho que é assim, talvez a forma mais universal da violência aparecer nos casais e mais difícil de ser nomeada, de ser identificada. Quer te fazer uma pergunta sobre isso? Porque eu gosto muito de discutar, que era abrir aqui um parentes, a gente tem horário do nosso café aqui em casa, cada um fica tendendo numa sala, num quarto, e a gente tem o horário do nosso café em que a gente usa esse horário para esvaziar, para escutar música, para mexer com planta, mas também às vezes a gente comenta, né? Nós aproveitamos esse privilégio de sermos colegas de profissão, guardamos esse gilo, então a gente comenta sobre momentos que a gente viveu na profissão com o outro, naquele dia, e eu gosto muito de discutar quanto você comenta a sua forma de intervir, porque eu acho que você reúne duas características que eu valorizo muito em qualquer terapelta de qualquer abordagem, que é você tem uma capacidade de discutar, um impacto da sua fala e não ficar enrigecida com o que você diz, então, você diz e presta atenção no impacto, no efeito dessa fala, né? Mas você tem muita consciência daquilo que precisa e nevitablemente você é trabalhado naquela sessão, aquilo que precisa ser dito, aquilo que precisa ficar, então você não se demove disso a despeito das resistências que possam aparecer no diálogo, né? Estou trazendo isso aqui porque quando a gente vai conversar sobre dinâmicas violentas, sutis, sobre violência psicológica, esse é o campo mais minado da psicoterapia de casal, porque quando a gente fala da violência visível, materializada através de um exame de corpo de delito, por exemplo, que é o tipo de prova que era mais comum no mundo direito, só aí existia uma violência e olha lá, né? A gente vem lutando como profissão para legitimar as outras violências que não tem provas físicas, né? A lei Maria da Pinha tem a ver com isso, todo o processo de construção de uma legilação sobre violência conjugal tem a ver com isso. Então acho que esse é um campo sensível, muito sensível, eu acho que você tem muita competência para escutar essas histórias. Vamos lembrar de algumas cenas assim mais típicas que a gente escuta, né? De violência psicológica, para quem está nos escutando de repente entender do que a gente está falando. Talvez esse nome não seja tão explícito, né? Para nomear cenas que podem ser muito cotidianas e terem muito próximos da experiência conjugal. Vou trazer uma, por exemplo, que é um casal de meiedade, estou falando aí por volta dos 60, 70 anos, e diante da aposentadoria dela, ela decide fazer uma inscrição num vestibular e ele não assume que não gostou dessa decisão dela e ele começa a elaborar planilhas para dizer o quanto o pagamento de uma universidade seria indesejado naquele momento para as contas do casal. Então ele começa a instilar culpa nela, por ela querer se recolocar profissionalmente. Detalhe é que ele já estava aposentado, tinha inclusive passado por um processo assim muito difícil de lida com a perda desse status profissional e não se reinventou. Então tinha muito de despeito, tinha de inveja, sabe? Na forma como ele está volhando para essa atitude dela. Se é um exemplo aqui que me veio. Eu acho que tem uma experiência ainda de muita gente do casamento com um espaço em que o outro começa a se sentir no direito, quase proprietário até do corpo do parceiro, da parceira. E quando é da parceira mais facilmente ainda são acionadas formas de ir controlando, controlando a forma do corpo, a expressão do corpo, a roupa que usa, a forma como se comporta aquilo que diz de tal maneira que isso vai se tornando uma coisa que às vezes não precisa nem cedita. Às vezes como olhar a parceira entende que aquela roupa, aquela risada, aquela frase que ela disse vai receber algum tipo de punição. E essa punição ela pode ser um castigo de silêncio, ela pode ser uma conversa que vai terminar em gritos e que vai terminar em ameaças de término, ameaças de vingança. Mas o castigo de silêncio acho que ainda é uma das coisas mais presentes na maior parte dos casais que tem que se haver com dificuldades de lidar com cenas como essa. E isso pode chegar em extremos, gente, que são invisíveis para a pessoa que está vivendo, porque eles vão acontecendo, eles vão escalonando e vão crescendo a partir de cenas muito prosaicas e que são normalizadas pela cultura. O si homem saudável, né, o cuidado com o tromecinto visto, me sinto desejado, eu sinto que ele me quer sobrar ele e eu sim. E aí essas cenas elas vão crescendo dentro do casal até o outro T, T, o delírio de controle sobre o corpo da parceira que pode chegar em extremos muito impressionantes assim. Eu atendi um casal que, na verdade eu atendi a mulher que a gente levou muito tempo de terapia até conseguir nomear o que ela vivia como violência, porque aquilo fazia parte de uma forma tão profunda de quem ela tinha se tornado, o melhor do qual longe ela se sentia de si mesma, na porque a violência psicológica ela tem essa capacidade de como se ela quebrasse as pernas da pessoa, ela sente que ela aquilo é tudo que ela pode ter da vida, ela merece aquilo que ela está vivendo e ela não se vê andando para fora da quela relação, ela não se sente capaz de de se enxergar pra além daquela relação. Então é primeiro você precisa ir restaurando às vezes a pele da pessoa, para ela voltar a se ver como uma pessoa e depois que esse processo vai avançando você consegue começar a falar da relação, né e essa era uma relação em que o parceiro ele pesava a mulher todos os dias, ele tinha esse nível de controle minucioso sobre o corpo que ele queria que ela tivesse, sobre as roupas que ele queria que ela tivesse, sobre o tipo de comida que ela tinha direito de comer para manter o corpo que ele queria que ela tivesse, né então essas micro violências do tipo eu vivo a ser colocar sucas no seu café, eu tomo seu café da sua mão e jogo no lixo, né então são coisas muito íntimas que dificilmente são compartilhadas para fora do casal. Quando a gente está falando de uma terapia de casal, a gente ainda tem mais chance dessas coisas aparecer e porque as vezes elas aparecem inclusive na conversa com a terapelta e o terapelta e aí a gente pode falar disso acontecendo presentificado ali naquele momento, né, olha como você está conversando sobre isso comigo agora, olha como a gente entrou nesse assunto e a sua parceira ficou com medo e ela ficou tentando interrompeu que eu estava dizendo porque ela tem medo de vocês por um dia aqui na sessão mas quando a gente não está podendo lidar com o casal, às vezes demora muito tempo até essas coisas serem percebidas, nomeadas, enfrentadas e eu quero só dizer uma coisa para vocês, gente, quando a gente vive isso como terapelta, isso é parte do nosso desgaste profissional que a gente precisa cuidar. Se você que está me escutando, escutando a dania que conta essa história, essas histórias, né, você se identificar com isso nesse lugar de terapelta, cuide de você porque a gente fica muito mal quando a gente escuta histórias violentas, né, a gente não tem uma membrana impermeável que fica indiferente essas histórias, elas nos tocam, algumas mais do que outras, algumas nos indignam, mais do que outras, algumas nos deixam em estado de ansiedade, às vezes a insônia tem a ver com alguma história que a gente está tratando, preocupação com uma pessoa, né, então cuide disso porque isso é parte a nossa humanidade precisa ser cuidada dentro dessa profissão, né, que a gente ama tanto e que a gente faz com tanta ética. Isso que você está trazendo, me lembra o Stephen Madigan que é um autor da nossa área da terapia de casal família dentro das práticas narrativas, uma pessoa do Canadá, que traz um conceito importante, sobretudo muito útil nesses momentos de dinâmicas violentas e a gente voltar para a ética do relacionamento, que a gente se fazia uma pergunta sobre qual é o fundamento ético desse relacionamento, porque implica os dois na construção de uma frase, de um texto que é protesta. e a gente se afastou dessa ética. Eu estou voltando nisso, porque adorei a sua fala sobre que a dinâmica violenta é a que a gente se afastou dessa ética. Eu estou voltando nisso porque adorei a sua fala sobre que a dinâmica violenta é a que a gente se afastou dessa ética. Eu adorei a sua fala sobre que a dinâmica violenta, às vezes, nos afastas da nossa própria pele, estou usando essa imagem como a ética, como sendo a pele do relacionamento. Como as dinâmicas violenta podem nos afastar dessa ética, então se fazia a pergunta para onde temos que voltar. Isso que aconteceu para onde a gente retorna. Isso se houver retorno. E também há cenas violentas e dinâmicas violentas que deterioram o relacionamento de uma tal maneira que o caminho dele é a istimção. É a separação. Mas em considerando que a violência faz parte do humano e ela se manifesta dentro dessa vida cheia de atravessamentos, angústias, às vezes a gente despeja uma angústia que está vindo de outro lugar, por exemplo, do trabalho, através de um ato violento em um relacionamento íntimo, que pode ser conjugal, com filho, com mãe. Então, assumindo que isso faz parte a pergunta da ética me ajuda a voltar. A pensar com eles, é uma das formas de voltar para onde queremos voltar, para além da nomeação de cenas violentas, vítima e agressor. Como casal, para onde queremos voltar, que pele é essa, que nós temos que voltar a habitar. E às vezes ela precisa ser construída mesmo. Às vezes a gente tem pessoas que já vêm de famílias de onde elas trazem modelos de relacionamento mais violentos, normalizados. E chegam no próprio casamento com esses modelos e os dois se vêm desamparados de referências. Como é que a gente constrói uma ética desse relacionamento a partir dessa consciência? Então, acho que conversar sobre isso é muito importante. Porque às vezes a gente tem que buscar novas referências possíveis. Mas isso não acontece antes da violência ganhar esse nome. Porque enquanto ela é assumida como o funcionamento normal de uma relação de casal, como uma coisa inevitável de fazer parte de uma relação, quando ainda tem alguém trazendo essa abordagem violenta para qualquer tipo de conflito. E acreditando que o outro é responsável por isso, eu só agia sim porque você me faz chegar no meu limite. A culpa é sua, deu ter explodido em cima de você. Mas você também me deixa louco. Então, eu acho que todas essas coisas nos levam de volta para a necessidade da gente que abraça a perspectiva da normalidade de isso acontecer ainda dentro das famílias. Eu acho que a violência das famílias ainda é o território mais camuflado, porque tem menos ferramenta de controle externo de suster assistido, de suster publicizado, que são coisas que ainda protegem outros espaços de relacionamento, por exemplo, no trabalho. É mais fácil coibir os padrões violentos dentro de relações de trabalho, porque eles estão mais expostos, eles estão mais para fora. E a gente está mais na frente na nomeação desse tipo de violência. Se a gente pensar em termos históricos, a violência contra a mulher e contra a criança ainda era legitimada, ela era legalizada, inclusive, há muito pouco tempo. Um marido tinha o direito de corrigir a mulher, os filhos, até muito pouco tempo. Então, eu acho que quando qualquer um de nós se vê visitado por esse tipo de voz que diz, eu agir, porque também o outro, a gente pode se perguntar se fosse o meu chefe, se fosse o meu professor, se fosse um outro tipo de relação, eu me permitiria me comportar dessa forma, eu me permitiria falar desse jeito. Aí você está falando interessante, porque você está falando quem é o gênero, até onde eu checo com cada gênero, num diálogo sobre violências. Qual o destino que esse diálogo tem? Nossa, adorei isso, que você fala que adorei. Porque eu acho que a gente assumiu isso como violência, inclusive, o que nos permite colocar isso em outro lugar dentro da relação, como nosso lugar de falha. Eu agir, sim, mas eu errei. Eu errei, a gente precisa cuidar disso. É muito diferente de eu agir, sim, mas foi porque você fez isso. Quando isso acontecer, a gente se permite chegar nesse lugar, tem que ter uma interdição e a gente tem que entender de que lugar essa interdição vem. E se cercar de pessoas que nos ajudem a construir interdições para certos comportamentos, para certas formas de falar, de se tratar em relação. E lembrarmos que todas as vezes em que a gente não meia uma violência vai rolar uma torta de clinão. Em qualquer espaço, na hora que a gente pontua uma piada violenta num grupo da família, vai rolar a torta de clinão. Na hora em que a gente pontua uma violência que aconteceu num casal, vai rolar um cômodo. E aí eu acho que tem um aprendizado de gênero muito diferente entre homens e mulheres sobre como lidar com incômodos emocionais, como lidar com situações em que eu fico mobilizado emocionalmente. Que meu corpo pode ficar tectonizado, que eu posso ter suor frio, que eu posso ter palpitação, que o coração pode acelerar, que o corpo se manifesta dizendo tamanho da importância daquela fala, e de como aquilo me envolve em qualquer das posições. Eu acho que tem um aprendizado cultural muito diferente entre homens e mulheres para lidar com isso. Porque nós homens somos ensinados a ficar um sós diante da mobilização emocional, a não pedimos ajuda, a não poder chorar, por exemplo, para externalizar uma desespero medo, uma tristeza. Então nós ficamos muito desamparados de antes desse tipo de cena e construímos ações que são máscaras. O agente físico não está acontecendo, a gente sai da cena e fala que pareça a dessa, o agente reage de forma violenta, parte pro ato. O aprendizado masculino por excelência é transformar o desejo da passagem ao ato em palavra. Acho que é nesse caminho que a gente está construindo essa conversa, mas eu sinto que a gente vou usar aqui um verbo, que a gente usou em outro episódio, embora ele seja um verbo usado entre mulheres, mas eu vou usar o de propósito aqui. Eu acho que nessas horas a gente precisa dou lá as emoções dos onis, sabe, acompanhar, de perto, o que eles estão sentindo e dar ferramentas, para eles não fugirem da cena e se implicarem com aquilo assumindo impacto emocional. Quase um letramento emocional e às vezes não é quase, é que as interaumes é literalmente. Então eu acho que isso também dificulta com versas vezes do casal e é por isso que eu acho que muitas vezes os casais chegam muito deteriorados para conversa na clínica, porque já tentaram muitas vezes fazer esse dinâmico e ela foi fracassada porque o diálogo não pode acontecer, de fato. E se a gente for muito honesto, a gente tem uma sociedade que ainda celebra, muito a violência masculina e muitos contextos. Acentei de como a gente educa os meninos, o tipo de brinquedo, o tipo de brincadeira que é incentivada, que é vetada. Isso ainda é muito presente. A gente ainda tem lojas de brinquedos divididas entre brinquedos de menina e brinquedos de menino. Tem uma percepção dos meninos muito tem, muito tem raidade, do que é aceitável, desejável, como parte do processo de socialização masculina. Os ídolos são os heróis, os heróis resolvem as coisas com violência, as brincadeiras de cuidar do todação designa das pruniverso feminino. Então a gente tem essa cizão acontecendo muito cedo ainda. E em 2025 as coisas ainda são muito contra-culturais quando elas fogen desse estereótipo. Então eu acho que a gente continua reproduzindo isso na criação de meninos. E isso se reflete nesses inúmeros desafios que a gente tem para construir relacionamentos entre nós como adultos, relacionamentos que a madureça ou nessa direção de conseguir tratar de todos os sentimentos difíceis que fazem parte deles, de uma forma resolutiva, mais respeitosa, cuidadosa. Acho que a gente já está podendo ir para o final, assim, encaminhando para o final do episódio. Essas considerações que você trouxe aí me levam a pensar que. A embora a gente tenha falado muito aqui de cenas violentas, de dinâmicas violentas entre casais heterofetivos, que a gente escuta com a mesma intensidade, cenas que reproduzem violências no interior de casais homofetivos, de homens e mulheres. Então para a gente também não imaginar de uma maneira romântica, quase fantasiausa de que o homem como loubo mal, e isso, em que não só o homem como loubo mal, mas há heteronormatividade como loubo mal, e de que os relacionamentos homofetivos estão isentos desse tipo de fenômeno, não estão isentos. Quem aqui já viveu violências dentro de relacionamentos homofetivos, vai concordar em silêncio com a gente aqui agora. Isso também, a Milha Lacombi, tem falado muito disso no reparação estérica, no podcast que ela tem com a Manuela e Quattate, ela assume muito a condição dela como mulher lesbica e fala, "Eu já fui muito violento". Nos meus relacionamentos, e também já fui violentada por outras mulheres. Então é interessante poder também escutar essas vozes, para a gente poder identificar o que de humano existe nisso. Tem algo que atravessa a socialização de gênero, mas tem algo que é do humano. Que é um aprendizado de lida com o poder, como é que a gente se coloca em situações de. Como é que a gente constrói relações de desigualdade de poder e de abuso de posições de poder? Esse poder pode ter a ver com poder simbólico, com poder econômico. A pessoa que ganha mais do que a outra pessoa, a pessoa que tem mais títulos do que a outra pessoa, a pessoa que tem mais força de diversas ordens, é como que isso faz parte da construção dessas genômicas violentas. Eu acho que a semetria de poder ainda é o grande desafio. Eu acho que essa é a palavra, essa é a frase, para a gente terminar esse episódio, a semetria de poder ainda é o grande desafio. Obrigado por ela. Obrigado por essa conversa. E para você que se sentiu em mobilização interna com essa conversa, acha que ela pode ajudar outras pessoas, outros casais, por verís essa conversa por aí, coloque no seu estório, Instagram, distribuem grupos de WhatsApp, comente com as pessoas na hora que você tiver lá, conversando com pessoas amigas do buteco, numa reunião em casa, o interesse do cartas de um terapêuta e nessa temporada do cartas de um casal de terapêutas é servir de amparo para nomear fenômenos da vida. Que muitas vezes a gente vai vivendo sem colocar a palavra na coisa. É, isso é um fenômeno muito complexo, se a gente só trouxer eles como tópico e ter umas das nossas conversas, eu acho que a gente vai caminhando junto dentro deles. É isso. Então, para vocês, um beijo enorme a gente se vê na semana que vem com mais um episódio do cartas de um casal de terapêutas. Um beijo. Beijo. Tchau, tchau. [Música] [Música] [Música] Este podcast é produzido por Abracie.digital. Edição de Samuel Gambini, artes de neissórios Costa, produção executiva de Thiago Queroze e Hugo Benchmall, apresentação, roteiro e seleção das cartas por mim, Alexandre Coimbra-Maral. E você que me escuta é a audiência que é o motivo desse podcast de si e a vontade dele continuar acontecendo todas as semanas. Muito obrigado. [Música]

Podcast Summary

Key Points:

  1. A temporada do podcast "Cartas de Interapelta" aborda relacionamentos amorosos, com patrocínio da marca Avatim, que oferece descontos e brindes aos ouvintes.
  2. O episódio discute "dinâmicas violentas" em casais, diferenciando-as de termos como "relacionamento tóxico", que tendem a rotular uma pessoa como vilã e evitar a autorreflexão.
  3. A violência é vista como uma dinâmica entre o casal, não como uma característica inata de um indivíduo, exigindo que ambos se impliquem no processo de transformação.
  4. A violência psicológica é destacada como a forma mais comum e difícil de nomear, incluindo controle do corpo, castigos de silêncio, humilhação e medo.
  5. O medo é apontado como um termômetro crucial para identificar violência, distinguindo-o do medo comum de perder o amor em conflitos.
  6. A terapia de casal é um espaço privilegiado para revelar essas violências sutis, mas também exige cuidado com o desgaste emocional dos terapeutas.

Summary:

Neste episódio do "Cartas de Interapelta", Alexandre Coimbra-Marau e Dani, um casal de terapeutas, discutem as dinâmicas violentas nas relações amorosas. Eles explicam que, no século XXI, há um movimento cultural para nomear violências antes silenciadas por frases como "é um sapo que você tem que engolir". No entanto, termos como "relacionamento tóxico" podem criar um distanciamento, colocando a violência como algo do outro, o que impede a autorreflexão.

Em vez disso, eles propõem enxergar a violência como uma dinâmica relacional, onde ambos os parceiros podem coparticipar, mesmo sem intenção consciente. A violência psicológica é destacada como a mais frequente e sutil, manifestando-se em controle do corpo, castigos de silêncio, humilhação e medo. O medo é apresentado como um indicador preciso de violência, diferenciando-o do temor comum de perder o amor.

Os terapeutas enfatizam a importância de nomear a condição de vítima sem se vitimizar, empoderando a pessoa para agir. Eles também alertam para o desgaste profissional de quem escuta essas histórias, recomendando autocuidado. Por fim, a terapia de casal é vista como um espaço para revelar e enfrentar essas violências, mas exige sensibilidade e consciência dos efeitos das falas e intervenções.

FAQs

Dinâmicas violentas são padrões de comportamento em que a violência ocorre de forma sutil e cotidiana, sem necessariamente intenção prévia, mas que produzem efeitos como humilhação, vergonha e medo na vítima. Elas envolvem a participação de ambos os parceiros e podem ser transformadas com cuidado e enfrentamento.

O termo 'tóxico' tende a localizar a violência em uma pessoa, levando ao afastamento e à negação da própria participação. Falar em 'dinâmicas violentas' implica ambos os parceiros e permite tratar a violência como um comportamento que pode ser cuidado e transformado.

A violência psicológica pode aparecer como controle excessivo, castigos de silêncio, ameaças, humilhações e manipulação. Um sinal importante é o medo da reação do parceiro ou da parceira, que funciona como um termômetro da situação.

Nomear a condição de vítima é reconhecer a violência sofrida, o que dá poder para a pessoa agir sobre a própria vida. Se vitimizar é ficar passivo diante da situação, sem buscar mudanças ou enfrentamento.

A vítima pode ajudar a sustentar a violência ao não perceber seus efeitos em si mesma ou em outros, como nos filhos, ou ao normalizar comportamentos abusivos. Assumir essa participação é parte do processo de elaboração e transformação.

Porque a maioria das cenas violentas ocorre sem intenção clara de violentar. Focar no efeito permite que os homens se impliquem nas dinâmicas violentas, reconhecendo o impacto de suas ações, em vez de se defenderem com 'não foi minha intenção'.

Chat with AI

Loading...

Pro features

Go deeper with this episode

Unlock creator-grade tools that turn any transcript into show notes and subtitle files.