#127 - O que acontece com o "nós" do casal depois dos filhos?
42m 25s
Neste episódio, Alexandre Coimbra-Amaral e Dani, terapeutas de casais e parceiros há 18 anos, discutem os desafios de conciliar a vida conjugal com a parentalidade. Eles começam reconhecendo o direito legítimo de casais optarem por não ter filhos, algo ainda estigmatizado. Ao abordar a chegada do primeiro filho, destacam a inevitabilidade das projeções parentais: cada pessoa idealiza o filho antes de conhecê-lo, e a verdadeira tarefa é "adotar" o filho real, que surge como um estranho íntimo, desafiando expectativas. Esse processo exige renovação constante, pois a relação parental é uma travessia, não um destino fixo. A chegada do filho também força o casal a confrontar diferenças de valores e culturas familiares que antes eram evitadas, transformando questões individuais em problemas compartilhados. Isso pode revelar incompatibilidades, levando a separações, mas mesmo após a separação, os pais precisam negociar parâmetros mínimos para criar os filhos. Não há garantias ou respostas certas; as escolhas exigem revisão contínua e, às vezes, compromissos para reduzir conflitos, como no exemplo de um casal que mudou o filho de escola para preservar a harmonia familiar. Com mais filhos, os desafios aumentam, incluindo a distribuição de tempo e atenção, e a necessidade de manter o espaço do casal. Por fim, enfatizam que a parentalidade transforma os parceiros, e o reencontro como casal só é possível assumindo essas mudanças, em vez de buscar as pessoas que eram antes. A conversa reforça a importância do diálogo e da flexibilidade para navegar essa jornada complexa e contínua.
[Música] Olá, que é o Chande. Eu estou muito feliz em apresentar essa temporada do Cartas de Interapelta, que fala especialmente sobre relacionamento amoroso. Vamos explorar os temas que levam os casais a terapia com a nossa parceira, já de longa data, a latinha, uma marca brasileira, pioneira no ramo de performaria de ambientes e inspirada na biodiversidade do nosso país. Nessa primavera, a avatina convida celebrar beleza de florecer através da fragrância Iris Rose, que unido a sura, sensibilidade frescor, em uma fragrância feminina e versátil, como a estação das flores. Aproveite para viver a primavera por inteiro. Nessa temporada, você, que é o 20 do Cartas de Interapelta, ao usar o cupom Cartas Avatim no site avatim.com.br, ganham, além de 15% de desconto em qualquer produto, também o livro Cartas de Interapelta para seus momentos de crise. O meu primeiro livro que eu lancei lá em 2020, enquanto durarem os stocks. Então, minha gente, o cupom é Cartas Avatim, tudo junto. Para você entrar e aproveitar essa promoção. Garanta sua experiência avatim em uma das lojas espalhadas pelo país, eu através do site avatim.com.br. Avatim, seu refúgio de boas sensações. As Cartas são a escrita que a alma faz sem rodeios para as perguntas que nos inquietam, para aquilo que nos atravessa, para a vida que tem urgência incertida. Em palavras faladas, as Cartas são o sopro que nos conecta por um instante. A abre-se em velópio, ele é para você, eu sou Alexandre Coimbra-Maral, e vai começar mais um episódio do Cartas de Interapelta. Olá, a gente querida, bem-vindos, bem-vindos. Bem-vindos a mais oucartas de um casal de Interapelta. Esse pode que este de montinho. Eu e Dani tamo aqui dando abraços em vocês de montinho. Todas as semanas a gente está se reunindo para falar ou de uma história ou das histórias de casais. Hoje eu convidei a Dani para a gente conversar sobre a difícil desafiadora para dizer o mínimo. A arte de conjugar uma vida de casal com o cuidado aos filhos. Como é que a gente percebe como terapêutas de casais e também como um casal que vive isso há 18 anos essa circunstança nas nossas vidas. O quais são os principais desafios? E o que é que a gente costuma apontar para as pessoas como um fluxo de trabalho psíquico que a gente possa fazer, que a gente também possa propô por casal para essa lida entre sermos um casal e sermos mãe, pai, mãe, pai, pai. Em qualquer configuração morando junto, moramos separado. Tendo entiado, não tenho entiado, tendo um casamento anterior, sendo a primeira experiência conjugal. É claro que isso vai aumentando as camadas de complexidade da construção de uma família. Mas quando nós recebemos casais para conversar conosco como terapêutas, esse é um tema muito recorrente. Não é, Dani. Conta aí o que você pensa a princípio para a gente começar essa conversa. Bom, eu quero começar antes da gente falar desses desafios de conjugar parentalidade e conjugalidade fazendo uma reverência, assim, um reconhecimento de uma condição que ainda é muito pouco legitimada na nossa cultura, que é o direito a um casal escolher não ter filhos. Eu acho que isso ainda é visto com olhos muito preconceituosos. É um sofrimento às vezes para alguns casais ter que sustentar isso como uma escolha. Às vezes é mais fácil dizer "não conseguimos ter do que não quisemos ter". Eu acho que esse é um direito legítimo, tão legítimo quanto é o escolho de ter filhos ou de criar os filhos que aparecem sem tanto planejamento. Mas é uma escolha e eu acho que essa configuração de família também merece ser reconhecida. Família não são só os casais com filhos. Então, partindo daqui, eu acho que a gente podia começar falando um pouco sobre a chegada do primeiro filho. Eu acho que é um marco com alguns desafios muito específicos que às vezes já estão integrados na chegada dos outros filhos. E aí, esse já zerou essa fase do videogame e passe pra próxima. A gente tem uma amiga que mora no carandá, que ela dizia sempre "não é que filho é igual videogame". Você vai zerando as fases e passa para o chefão mais difícil para o próximo a fase. A chegada do primeiro filho, pegando aí o fluxo da sua fala, a chegada do primeiro filho, eu acho que a primeira coisa que vivem, é a quantidade de projeções que o casal faz sobre o ofício da parentalidade, sobre o exercício da parentalidade. É a quantidade de promessas que eu me faço, que eu faço para o meu filho, que eu prometo a ele ou a ela, que vai ser muito diferente daquela parentalidade, que os meus pais tiveram comigo, eu quero fazer tudo diferente. E eu construo uma chegada para esse filho numa ambiência que me construiu mínimo de autonomia nessas decisões. Então, a chegada do primeiro filho, ela puxa muito essas perguntas. O quanto eu estou reproduzindo um modelo de parentalidade, uma cultura, o quanto eu estou repetindo isso sem uma consciência crítica maior. É lógico que se fazer essa pergunta já é um aspecto nixado. Mas quando você se abre para se perguntar sobre a existência, qual é a sua forma de viver a vida nas em todas as dimensões, essa pergunta vai aparecer com muita força na chegada do primeiro filho. E as projeções, eu acho que, a primeira a gente colocar para as pessoas que elas são inevitáveis, não existe forma de viver a parentalidade, sem que elas existam, não existe a neutralidade absoluta de uma pessoa que vai conseguir construir essa relação com o filho, a partir desse lugar em que vai ser um lugar de pura escuta de quem ele é, pura percepção de como ele se manifesta na vida, vai tudo misturado. Essa dimensão de estranhamento, que eu acho que é a marca mais profunda da parentalidade, essa dimensão de estranhamento, ela vem como se fosse com uma capa de projeção. Pra que a gente não tenha que se haver muito com o estranho que está no filho, a gente projeta o nosso desejo, é uma forma mais confortável para a gente lidar com esse encontro. Tem aquela fala superlinda do Sol Orumum, quando ele diz que todos os filhos são adotivos, inclusive os filhos biológicos querendo dizer que a gente sempre recebe o filho da nossa projeção, a gente sempre recebe o filho que a gente quer enxergar e em algum momento a gente tenha que adotar o filho que nos chegou, que não é o filho que a gente projetou. Eu acho essa ideia sensacional. E como agora estamos vivindo uma ideia, pensar com você é uma loucura, Daniel, porque você vai me danos uns sites, assim, do que eu tinha. [risos] Mas é. Só pra localizar as pessoas, a gente tá aproveitando esse papo pra matar saudade, porque o Jornal tá viajando muito, então a gente tá gravando. É, é morto. Tem que. Falto ou falar isso, né, que a gente fala isso. É que é uma conversa remota, a gente tá que se vendo por vídeo, batendo papo e conversando com vocês, tudo ao mesmo tempo. Sabe qual foi o site que você lhe deu quando você trouxe o solo, a moia noção do quanto a gente precisa adotar um filho, que essa ideia ele traz do Freud. E ele. ele dá uma nova roupagem para essa ideia, colocando uma ambivalência. O estranho íntimo, o encontro com estranho íntimo, é o que ele chama de parentalidade. Talvez a relação mais íntima que a gente vai desenvolver na existência, quem decide ter um filho por qualquer via de chegada desse filho à nossa vida. Então é muito íntimo, mas também é muito estranho porque o filho é essa autoridade que vai se mostrando, essa autoridade que vai dizendo, eu não sou a sua projeção, eu não sou o que você deseja, eu sou um outro. Então o estranhamento tem a ver com isso. E eu fiquei pensando que a chegada do primeiro filho, ela é uma espécie de primeiro capítulo de uma série que dura a vida inteira e que no final de cada capítulo, tem o filho dizendo assim, um plot twist. É só que tudo isso que você já fez, até aqui para me conhecer de verdade, para entender quem eu sou, para se relacionar comigo a partir de quem eu sou, não a partir de quem você deseja que eu seja. Isso já caducou no próximo capítulo você vai ver que eu já sou outra pessoa. Então eu acho que a gente renova os votos o tempo inteiro com essa relação estranha. Quantas vezes a gente precisa voltar para esse mesmo lugar que a gente apenas estraera no acimento do primeiro filho, quantas vezes a gente precisa renovar os votos com essa disposição para reconhecer aquele ser. É verdade. E como a gente precisa em algum momento, se a gente quiser diminuir a carga de peso emocional de sofrimento envolvida nessa relação, a gente precisa em algum momento fazer as bases com a ideia de que essa relação é um caminho, não é um lugar de chegada. Não vai chegar esse momento aonde eu já conheço essa pessoa, onde eu já sei como me relaciona com ela, onde eu já. E se desapegar dessa ideia e abraçar e conseguir curtir a viagem de alguma maneira. A viagem tem uns lugares de descanso, igual quando você vai subir a montanha e aí você vai falar e aqui a paisagem está bonita, vamos acampar e descansar aqui. Então tem esses platos, mas é uma travessia da vida inteira. E eu queria aproveitar isso que você está falando do estranhamento e da intimidade caminhando como uma dança sempre juntos para a gente pensar de que forme isso tudo que a gente está falando através ao casal. Porque eu acho que esses processos que a gente tem que fazer como filho que chega necessariamente impacta alguns acordos que funcionaram para o casal até ali. Primeiro que ainda mais na posma de hernidade a gente tem muitas vezes o casal sem filhos funcionando como um espaço de individualidade muito maior do que a maior parte das gerações anteriores. A gente tem, por exemplo, no centro dos urbanos aqueles casais que as vezes passam anos sem encontrando o sopra dormir e conversam esporádicamente sobre questões mais profundas, mais estruturais, mais relevantes e vão compartilhando uma convivência. E a chegada do filho traz uma urgência de que essas tarefas estejam na pauta do dia porque eu estou com essa pessoa agora se comprometendo comigo até esse ser que é o mundo compartilhado. Assim, ele é a concretude da nossa escolha de estar juntos e ela é a convocação da gente de dizer "Nomiar quais são os valores da nossa família?" "Quais são os valores fundamentais que vão definir as nossas práticas com essa criança?" "O que você traz da sua família e que eu trago da minha família que a gente quer escolher para construir a nossa família?" Então muitas vezes algumas coisas que a gente foi empurrando com a barriga, a família dele é assim, mas isso é lá com ele. A família dela é dello, é assim, mas isso é problema dele. E quando chega o filho, necessariamente isso passa a ser um problema nosso, porque essas duas famílias de origem são a família do filho. Então, a gente passa a ter que lidar com as vezes estranhamentos muito maiores com a cultura da família do outro, que a gente adió até aquele momento e que passam a estar presentes nas escolhas mais cotidianas que a gente vai fazer como um casal parental. A gente vai investir em segurança emocional nesse vínculo, a gente acredita que deixa o bebê chorar para ele construir independência aos três meses no berço, porque a minha mãe falou que a gente tem que dar chupeta, mas eu não quero dar chupeta. Então, assim, o casal que muitas vezes deixava a família do lado de fora, daquele funcionamento, se vem evadido por esse caldo das culturas das famílias de cada um de uma forma que se torna impossível não lidar com isso. Eu acho que é uma primeira coisa. A segunda coisa é que o filho personifica nós dois, inclusive, em características que às vezes eu não gosto de lidar no outro, e não gosto de lidar em mim mesmo. Então, como se be repente, junto com o bebê, a primeira bebê, abre-se uma rachadura para tudo o que estava na sombra, tudo o que a gente estava podendo não lidar até ali, vem de uma vez. Como se alguém fizesse assim, contar peito da sala de visita, aquela poeira toda que estava por baixo, vir uma nevoa na sala toda e a gente tem que olhar para aquilo. E quem faz isso é esse ser todo fofoço de formas arredondadas, cuja natureza, existe para deixar a gente fascinado. Então, junto com essa fascinação que o bebê nos traz, quando chega um bebê, porque pode chegar um filho com uma idade maior do que um bebê, independentemente como ele chega, ele chega trazendo essa pergunta. E isso que você está trazendo, amor, é tão forte na maioria de nós que vivemos esse tempo ir acelerado em que a gente tem conversado tão pouco. Eu sinto que o amor romântico mostra a sua cara nesse momento, que o amor romântico, ele traz uma fantasia muito mentirosa de que ele vai ser o responsável pela sustentação do cotidiano de um casamento. E aí a gente percebe nesse adivento da chegada do filho que são necessárias os exercícios assim, uma malhação de alógico e relacional muito mais forte para o cotidiano poder ser estabelecer. E é exatamente por isso que a gente tem visto tanta gente se separar depois da chegada do filho. Então, se consolidando essas incompatibilidades que não estavam, digamos, ou percebidas ou assumidas até a chegada do filho, eles ficam tão evidentes e tão impossíveis de ser suplantadas. Às vezes pode ser que falta diálogo, as vezes falta tolerância à essa alteridade, a esse atrito com o outro. Mas a gente acompanha também como terapêuta muitos casais que se dão conta e depois vão viver um sofrimento para além da separação de como a gente vai construir parâmetros mínimos para a criação desses seres aqui. E aí? Unir e o negro e sua limões. E tu é uma tarefa inescapável, gente, porque a separação não nos livro dessa tarefa. Vamos lembrar que não existe e espai, apesar de que tem alguns homens que têm essa fantasia, de que é possível se tornar a espai, e precisa que a justiça venha lá, e o cara pelo ori ele fala que "compõe-o não, né, tem espai". Então, essa separação, às vezes ela pode abaixar o volume do conflito, mas a necessidade de chegar a parâmetros mínimos comuns para essa parentalidade, para criação dessa criança, né, é um caminho único para você construir sal de mental, porque quando essas escolhas não se calçam,
conversam, tem muitos sofrimentos na parte dos filhos. E por parte do casal ou do escasal também, porque a gente vive durante a existência, depois que a gente tem filho, uma eternidade dessa pergunta, quais vão ser as melhores escolhas que nós vamos fazer, em benefício desta pessoa. E essa é uma pergunta sem uma resposta certa, é sempre uma posta. É isso que é mais desafiador. Todas as teorias que pretendem dar uma resposta certa para essa pergunta, a minha ouvir tão falhas, a minha ouvir tão construindo uma maquiagem de uma questão mais complexa, que a gente não trabalha com garantias, essa frase da velha, da velha e a conelha. E essa falta de garantia exige de nós que a gente reveja as escolhas do tempo inteiro. Porque é no milimétrico que você vai percebendo que aquilo que você supostamente acreditou que fosse ser o melhor, você estava dando o seu melhor, não deu certo porque o contexto não era mais adequado, ou o seu filho estava dizendo, mas isso não é para mim, ou existe essa dificuldade tão grande de quadruar padrões como uns entre os dois do casal, que às vezes você precisa fazer escolhas mais conservadoras do que as que você gostaria para diminuir um pouco o volume do conflito, e você poder ter uma existência minimamente impasse de antes desses escolhas. Eu me lembro de um casal que eu atendi, não tenho muito tempo à história, em que eles tinham decidido retirar o filho de uma determinada escola e colocar numa escola mais conservadora para os padrões deles, porque eles descobriram a partir da relação com essa escola, descobriram entre eles uma diferença muito grande de valores, de percepção do que era importante, do que não era importante, do que um bancava, do que o outro não bancava. E aí eles tomaram uma decisão que depois eles perceberam que todo mundo ficou melhor, porque eles colocaram o filho numa outra instruição em que essas perguntas não estavam tão postas, e todo mundo ficou melhor. O filho estava tendo o crise de ansiedade, as hipóteses, era que ele estava fazendo um sintoma familiar, apontando para essa organização familiar. E as crises acabaram, ele foi para uma outra escola e ele deixou de seu óspe atório desse confrito desse casal. Lembrei aqui dessa história, porque às vezes essas escolhas sobre o que é bom, o que é ótimo, elas começam como uma percepção muito individualista, que eu acho que é melhor para o meu filho, acontece que quando você está num casal, você precisa construir um nosso, nesse pequeno detalhes, que não são detalhes, vão longevisar uma experiência, por exemplo, de como vai ser a vivência cotidiana, como uma escola, como metodologia, o que vai acontecer com seu filho, e entre as coisas que ele vai ser colocado, não vai ser provocada, por aí vai. Sim. E às vezes é uma negociação que chega como nesse caso que você está contando num caminho do meio possível, mas às vezes existem outros arranjos possíveis. Então tem casais que decidem expandir as experiências de uma forma que eles se sintam representados no mundo que eles querem apresentar para aquele filho, a partir dessa complexidade e dessa diversidade de experiências. Então essa escola é mais liberal, mas eu quero que ele faça esse curso aqui, que eu acho que faz parte do meu mundo, que eu quero apresentar para ele, ou você escolhe isso, mas eu escolho aquilo, e nós dois sentimos que a gente está fazendo um caudo de experiências que nos inclui, que nos representa, que vai permitir a ele abrir o leque e entender que nós somos esse casal que tem toda esse repertório disponível, inclusive para ele negar tudo isso e dizer, "Oh, se as dois quentes isso daí, vai se ouvir." Nós sabemos na carne, e você sabemos na carne, porque a gente já está veio nessa estrada, nós temos três filhos grandes já e a gente já escutou isso dos três. Em momentos diferentes da vida, eles foram nos alertar de que nós estávamos com alguma questão para identificar o que eles gostariam, o que seria melhor para eles. A gente precisou abrir conversas muito profundas sobre isso entre nós dois e com eles também. E a gente viu eles fazendo isso, olhando o cardápio, lá que a gente tinha de mundo. "Oh, olha só, tem isso, tem isso, isso aqui é interessante, mas não para mim, isso daqui é uma bosta." Deixa eu ver, eu quero isso com aquilo, com aquilo outro, isso daqui que nenhum de vocês dois têm, eu vou buscar no mundo. Então, isso é muito legal de poder acontecer. Agora, eu acho que quando isso vai acontecendo, todas essas demandas que a gente está anumendo aqui e que às vezes vão aumentando de complexidade, de volume de trabalho, de volume de responsabilidade, quando é um casal que decide ter mais filhos e incluir as diferentes relações com cada um deles, entre cada um deles, a demanda por mais recurso de todas as ordens para dar conta de uma família. E aí, a gente tem outras questões que também são desafios do casal para conjugarem com os filhos que são, como a gente distribui o tempo, como a gente distribui a atenção, como a gente se reconhece como casal e vive momentos como casal que não sejam de pai e mãe também necessariamente. Então, a gente tem muitos casais que chegam às vezes nesse momento, vivendo crises, vivendo a necessidade de buscar ajuda para conseguir se reconectar nessas outras configurações que foram acontecendo da família. O que você acha importante? A gente fala sobre isso. Ah, eu estava querendo justamente fazer a volta, porque pensar sistêmicamente é pensar em círculo, ou em espiral, melhor dizendo. Então, a gente começou falando da chegada do primeiro filho e a transformação da identidade de cada um e do casal a partir da chegada do filho e eu fiquei que eu vou estar de voltar para o casal para fechar esse circuito, o que eu quero dizer com isso, como a parentalidade transforma as pessoas que precisam se reencontrar como casal. E a gente está cansado de ver como ter a peuta, uma situação em que as pessoas ficam querendo encontrar as pessoas anteriores a parentalidade, que para esse reencontro aconteceu preciso assumir quem é essa nova pessoa, tanto no meu corpo quanto no corpo do outro. Eu acho que esse é um trabalho que a gente vai muitas vezes conseguindo perceber exatamente por causa do cotidiano da criação dos filhos. E se você, em primeiro lugar, se aliena disso, por exemplo, um casal mais patriarcalizado, em que a mulher opera como cuidadora do lar e dos filhos e o homem como o ausente profedor. Esse casal fatalmente vai se disfazer, porque mesmo que continue casado, porque eles não vão integrar essas transformações do outro. E também vão ter muito pouco tempo cronológico e psicológico de percepção dessas transformações. Então é como se a gente estivesse presentificado aqui com outras pessoas, mas atuando na cabeça, no coração, no corpo, como se tivesse com as pessoas anteriores a parentalidade. Eu acho que os casais que conseguem se longevizar depois da chegada dos filhos, eles passam necessariamente por esse luto, integram esse luto com mais ou menos dificuldade, mas é um processo que que precisa ser encarado, que eu vou. inclusive legitimamente ter saudades de pedaços meus, que eu não consigo ver mais ou do outro e fazer junto com esse luto, porque faz parte todo o luto, a reconstrução dessa relação. E aí a gente tem visto as questões de gênero abundando no país hoje, sobretudo, determinado agitivo de classe, mas muitos casamentos entrando em crise por causa das questões de gênero ligadas à parentalidade. Eu deixo de admirar você como homem pela forma como você se envolve na criação dos nossos filhos, no cuidado dos nossos filhos e na percepção da minha esaustão. Isso tem um objetivo de gênero claro no Brasil. O quanto você consegue acolher a minha esaustão, se colocar como uma pessoa que ativamente se transforma para construir mais equidade nesse casamento, então eu percebo que a parentalidade faz esse fechamento desse círculo desse jeito. O que você acha? Com certeza, eu acho que sim, nos nossos tempos a gente não tem como fugir dessas questões. A gente, especialmente em relações heterofetivas, essa questão está muito colocada como uma urgência de transformação da identidade masculina. As mulheres não estão mais dispostas a assumirem toda a carga mental de terem que conciliar tantos papéis e ainda lidar com homens que ou se alienam desse processo, ou se aproximam dele ainda de uma forma muito pouco amadurecida dizendo que eu ajudo. Isso ainda é atônica. Não é o que não está nesse lugar, é uma porcentagem muito pequena dos casais, a maior parte dos homens que participam, ainda são homens que dizem para essa parceira e para a sociedade eu ajudo e recebem muito biscoito por fazer isso. Assim, quando ela me pede ou ajudo, quando ela precisa ou ajudo, eu não sei se é sredito, eu ajudaria. Porque ela se irrita, porque sempre que ela me pede ou ajudo, se ela tivesse pedido, inclusive eu ajudaria mais. Então tem uma centralização ainda do cuidado sobre a figura da mulher que está resaça desse lugar, que não tem mais interesse em permanecer nesse lugar, porque o preço é muito alto e o preço é alto no corpo, nesse corpo que seja a hora e nesse corpo que deprime, que tem ansiedade, que tem burnout, que tem burnout não só, profissional, mas burnout materno. E que isso afeta a forma como esse casal se encontra, inclusive na cama, porque essa actualidade é diretamente afetada por essas emoções que vão ser feitas. São as emoções que vão se colecionando ao longo dos dias e das semanas e que interferem na possibilidade de eu admirar a pessoa que está do meu lado, de eu respeitar a forma como se coloca, de eu desejar sexualmente a essa pessoa. Porque quando esse homem não se coloca numa posição horizontalizada, onde eu tenho tanta condição de assumir todas essas decisões, e por isso a gente pode dividir e não ajudar, eu divido as coisas com você, porque essa casa é minha, porque esses filhos são meus, porque essa escolha foi nossa, e não porque eu sou muito legal e até ajudo. Então quando isso acontece, essa horizontalidade se reflete no desejo, no tesão, e quando isso não acontece, muitas vezes esse homem entre um lugar mais infantilizado, essa mulher fica se sentindo só, e esse olhar assimétrico, essa divisão assimétrica de poder, ela dá muitos beose e muitas dimensões da relação. Para a gente já aí fechando aqui a nossa conversa, você está trazendo uma coisa muito central, que é a relação entre exaustão, admiração e sexualidade. Me parece que isso com a gula nessas três palavras, um tanto do sofrimento, conjugal depois da parentalidade, e que quem constrói essa dimensão que liga essas três palavras e constrói no sofrimento, para mim é o gênero. A forma como o casal vive as identidades de gênero, o que é ser homem e o que é ser mulher nesse casal. Por exemplo, de um casal heterofetivo. Mas olha, essas posições elas orientam tanto a organização emocional que a gente vê dentro dos casais, que às vezes esses modelos se reproduzem mesmo em casais. Pronto, você disse melhor o que eu ia continuar dizendo, se eu olhar melhor, poupir, que sei eu falar isso. Mas você falou melhor, está tudo certo. Eu acho que quando a gente pensa em gênero, muitas vezes as pessoas não entendem o que isso quer dizer, é como eu já entendi sem perceber até onde chega um homem, uma mulher dentro de uma relação, por exemplo, de casal. A gente pode pensar para todas as relações da vida, mas no casamento essas imagens que estão internalizadas, elas constrói em caminhos, elas constrói em uma biografia e constrói esse dever ser e dever fazer. Acontece que essas transformações, que nós já estamos vivendo na sociedade, já estão operativas dentro das pessoas e na hora em que a gente vai conviver, com habitar, criar um filho juntos, é que a gente pode atualizar, é que a gente pode se dar conta do quanto a gente já está transformado por esses questionamentos culturais. E aí é prestar atenção nos incomodos, nas indignações, nos sintomas, nos afastamentos, que isso é que vai dando para a gente e a mensagem de que alguma coisa está fora da ordem. Sim, porque eu acho que talvez uma das coisas mais importantes da gente não deixar de falar, é que quando a gente fala de questão de gênero, para além de ser homem e mulher que compõem esse casal, a gente está falando, por exemplo, que existe uma invisibilidade social dos papéis de cuidados, dos de cuidado, e da exaustão envolvida nos papéis de cuidado. A gente não tem o reconhecimento social no mesmo nível para as suas realizações profissionais e para as suas realizações no papel parental. Então, por exemplo, a gente pode estar falando de um casal de duas mulheres, mas uma delas é a mãe que gesta, e a outra é a mãe que não parou, não teve licença maternidade, não é um casal, por exemplo, que só a mãe que gesta amamentou, e a mãe que não gestou não amamenta. Ela também não teve que fazer uma desaceleração da vida profissional, e as vezes elas vivem essas sombras, de que o papel de cuidado é sentido como tendo menos valor, existe uma diminuição, as vezes da remuneração, trabalho. Isso se torna uma moeda de poder dentro do casal, tem muitas partes dessa história, que tem a ver com dilemas de todos os casais, e são parte dessa sombra que a gente ainda vive, e que precisa ser desconstruída, dessas hierarquias de importância, entre as funções, entre os papéis e os momentos que um casal vive, porque as vezes são fases que envolvem essas questões, e depois isso se inverte. Nossa, olha, vocês estão vendo que isso aqui daria uma temporada inteira falando sobre esse tema, eu quero te convidar a pulverizar esse episódio por aí, para todo mundo que você acha que possa se beneficiar por essa conversa, ou que está gestando um pouco.
o BB, eu ou que está esperando a chegada de um BB pela via da adoção, ou que já tem um filho e está vivendo uma crise com o Jugal, ou que está nessa atmosfera de refletir sobre o casal que ficou muito distante no cotidiano, da parentalidade, do exercício da parentalidade, por veriza aí, coloca no seu estórgio do Instagram, manda por grupo de WhatsApp, e eu vou te fazer um outro pedido, comenta aqui nos Spotify se você tivesse assistindo pelo Spotify, tem um lugar para os comentários, quanto mais gente comenta, eu descobri isso essa semana, vejo como eu sou cringe, já tem o podcast, eu não sei quantas semanas, 127 semanas, mas é só agora que eu descobri isso, quanto mais gente comenta, mais o algoritmo entende que este podcast está sendo escutado, então quanto mais vocês puderem comentar, ajuda a gente a ser escutado pelo resto de robô, estranho, chamado algoritmo, e a gente vai se despedindo por aqui, na semana que vem, a gente se vê com mais um episódio, um beijo amor da que a pouca estou de volta, beijo amor, gato pela alegria de bom, dessa, boa estadia, no calor aí para você, porque aqui a gente continua no frio. Ai eu estou em Joazer do Norte e fiz uma visita maravilhosa, a estátua do padricícer, e participei ali de um pedaço de uma peregrinação, se imagina, como se meu olhar antropológico ficou ali, sempre é pusizinha, se encantado, com tudo o que eu vivi. Então na gente na semana que vem, a gente vai estar por aqui, e mais um episódio desse podcast que está fazendo muita diferença para nós, e para vocês na conversa sobre essa decisão tão delicada que é construir uma conjugalidade. Semana que vem, mais um cartas de um casal de terapia, um beijo e até lá!
Podcast Summary
Key Points:
A chegada do primeiro filho marca uma transformação profunda na identidade do casal, trazendo à tona projeções e promessas sobre a parentalidade.
A parentalidade envolve o encontro com o "estranho íntimo" – o filho real, que difere das expectativas projetadas, exigindo constante renovação dos votos de reconhecimento.
O filho concretiza a união do casal, forçando a negociação de valores, culturas familiares e acordos antes adiados, o que pode gerar conflitos e, em alguns casos, separações.
Não há respostas certas na criação dos filhos; as escolhas exigem revisão contínua e, muitas vezes, compromissos entre os parceiros para reduzir atritos.
A separação não elimina a tarefa de construir parâmetros mínimos comuns para a parentalidade, essencial para o bem-estar dos filhos.
Com mais filhos, aumentam os desafios de distribuir tempo e atenção, além da necessidade de preservar o espaço do casal, que não se resume ao papel de pais.
A parentalidade transforma os indivíduos, e o reencontro como casal exige assumir essas mudanças em vez de buscar versões anteriores de si mesmos.
Há um reconhecimento inicial do direito legítimo de casais escolherem não ter filhos, uma condição ainda pouco aceita culturalmente.
Summary:
Neste episódio, Alexandre Coimbra-Amaral e Dani, terapeutas de casais e parceiros há 18 anos, discutem os desafios de conciliar a vida conjugal com a parentalidade. Eles começam reconhecendo o direito legítimo de casais optarem por não ter filhos, algo ainda estigmatizado. Ao abordar a chegada do primeiro filho, destacam a inevitabilidade das projeções parentais: cada pessoa idealiza o filho antes de conhecê-lo, e a verdadeira tarefa é "adotar" o filho real, que surge como um estranho íntimo, desafiando expectativas.
Esse processo exige renovação constante, pois a relação parental é uma travessia, não um destino fixo. A chegada do filho também força o casal a confrontar diferenças de valores e culturas familiares que antes eram evitadas, transformando questões individuais em problemas compartilhados. Isso pode revelar incompatibilidades, levando a separações, mas mesmo após a separação, os pais precisam negociar parâmetros mínimos para criar os filhos.
Não há garantias ou respostas certas; as escolhas exigem revisão contínua e, às vezes, compromissos para reduzir conflitos, como no exemplo de um casal que mudou o filho de escola para preservar a harmonia familiar. Com mais filhos, os desafios aumentam, incluindo a distribuição de tempo e atenção, e a necessidade de manter o espaço do casal. Por fim, enfatizam que a parentalidade transforma os parceiros, e o reencontro como casal só é possível assumindo essas mudanças, em vez de buscar as pessoas que eram antes.
A conversa reforça a importância do diálogo e da flexibilidade para navegar essa jornada complexa e contínua.
FAQs
Os principais desafios incluem lidar com as projeções sobre a parentalidade, negociar valores culturais das famílias de origem e manter a identidade do casal além dos papéis de pai e mãe. É um processo contínuo de adaptação e reencontro.
A chegada do primeiro filho traz à tona projeções e promessas sobre a parentalidade, além de forçar o casal a discutir valores e acordos que antes eram adiados. Isso pode evidenciar incompatibilidades e exigir um esforço maior para sustentar o cotidiano.
Significa reconhecer que todos os filhos são adotivos, pois recebemos o filho da nossa projeção e precisamos, em algum momento, adotar o filho real que nos chegou, que não corresponde às nossas expectativas.
Porque o filho é uma pessoa íntima, mas também estranha, que se mostra como um outro, diferente das nossas projeções. Essa relação exige renovação constante dos votos para reconhecer quem o filho realmente é.
O casal precisa negociar parâmetros mínimos comuns, mesmo após uma separação, para evitar sofrimento nos filhos. Isso envolve diálogo e, às vezes, escolhas conservadoras para reduzir conflitos.
Sim, é uma escolha legítima e merece reconhecimento, embora ainda seja vista com preconceito. Famílias podem existir sem filhos, e essa configuração deve ser respeitada.
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