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#01 - Vozes de Brumadinho

from Vozes de Brumadinho

10m 24s

#01 - Vozes de Brumadinho

O testemunho de Ribeiro Morais Reis, eletricista-geral da Vale, descreve a horrorífica experiência vivida no dia 25 de janeiro de 2019, quando a barragem de rejeitos na região de Brumadinho estourou. Ele relata ouvir um estrondo intenso, correr para a segurança e ver um grande volume de material descer, cobrindo áreas de 36 quilômetros. Apesar de ter sido treinado para situações de emergência, o colapso ocorreu de forma abrupta, contrariando as previsões de segurança. Ele afirma que todos os companheiros da área morreram, e que, por ter vivido na proximidade, conhecia a maioria dos mortos, o que intensificou o sofrimento emocional. Perdeu o celular e só conseguiu se comunicar com sua esposa depois de retornar ao local, relatando com dor a tragédia. O trauma continua presente, com o homem fazendo acompanhamento psicológico há um ano, sem conseguir esquecer o que viveu. Ele questiona o sentido da sobrevivência, acreditando que Deus o escolheu para uma missão divina, e não deseja mais trabalhar na área de mineração devido à dor e ao medo de retornar ao local do acidente. A história revela uma dor profunda e uma reflexão sobre a vida, a morte e o papel da sobrevivência em um desastre de grande escala.

Transcription

1610 Words, 8608 Characters

Portuguese
Nosso podcast Brumadinho, um ano depois, uma angústia sem fim, vai contar hoje a história do eletricista-geral do Ribeiro Morais Reis. Ele trabalhava 18 anos na Vale, naquele 25 de janeiro de 2019, ao meio de 28, a avalanche de rejeitos de minério de ferro que cobriu uma área de 36 quilômetros, passou a poucos de 1,5 metros dele. [MÚSICA DE FUNDO] [MÚSICA DE FUNDO] Geraldo, a gente que não montava lá, tem uma cena da jantelha de entender o que aconteceu. O barulho que você ouviu, parecia o quê? O barulho parece num estrundo, mas é bem forte, eu nunca tinha ouvido o barulho porque até no então, eu saí, porque eu fui ver o que barulho é isso, um barulho muito forte. [MÚSICA DE FUNDO] Não, muito mais forte, um barulho altão, porque a gente era acostumado a ver lá vagão, que nem caminhão, estourar a pneu, de caminhão, de foda e estrada, mas o barulho que deu foi muito forte. [MÚSICA DE FUNDO] E aí você saiu e viu o que cena? Assim que eu saio, eu estava na sala lá, assim que eu ouvi o barulho eu saí por lá de fora. No meu saí por lá de fora, já tinha um pessoal do lá de cima que estava correndo do estacionamento, gritando, corre a barragem, corre a barragem, só virei assim, via aquele mundão de trem vindo assim de cima, parecia simpoeira, é alto mesmo, uns 20 metros, um mínimo, já estava na área administrativa, já uns 4-6 metros de mim, mais ou menos. Eu só lhei, corri, não lembro de pensei mais nada, parecia isso que Deus quiser, eu corri para o lado da portaria, vou correr para lá, vou correr em sentido, balama, se eu que Deus corri, assim que eu passei a portaria, que eu fui olhar para trás mesmo, aonde cortava, já estava tudo tomado de lá, já estava passando, mas já onde cortava, levando tudo para trás. Em que momento você se deu conta do que tinha acontecido, você parou o raciocinou e entendeu, o que tinha acontecido e o tamanho do que tinha acontecido? Ó, agora a hora que eu fui entender o mesmo, o que aconteceu, que eu parei um cadinho assim, que eu raciocinei, a deus uns 20 minutos depois que eu fui passei a portaria, fiquei sem saber pronta que eu coi, eu fiquei assim, "Eu vou correr, eu vou subir nessa árvore, eu vou correr lá para baixo, eu vou entrar no meio do mato, porque eu estava com medo que a outra vai rar de estourar, se a estourar, se a outra vai rar, se a outra vai rar, porque a outra vai rar, aí eu corri lá para baixo, eu fui lá embaixo, que eu vi que ela não ia passar, que ela passou lá para o baixo, eu vi ela barulho dela passando para baixo, eu não vou voltar, assim eu voltei, aí que eu fui parei perto da portaria, eu parei lá uns minutinhos, aí que eu fui notar o que realmente aconteceu, eu fiquei meia esse inimelho de snotiado, morreu todo mundo, todo mundo morreu, que eu não vi que ninguém, entendeu, aí foi uma coisa mais triste, eu falei assim agora o que eu posso fazer, peguei, fui para o caminho seguro, lá passei Berana-Seca, eu fui lá para onde quero o ponto enquanto, uma coisa que pecur, que eu acho uma coisa mais errado, cheguei lá onde quero o ponto enquanto, tudo fechado, abandonado, quando a gente fez o treinamento de barragem, lá tinha água, estava tudo aberto, tinha telefone, tudo, você quiser esse, e no dia mesmo que aconteceu, tudo abandonado, não tinha nada, e eu estava no acelho, eu nunca vi uma acelho de tal maneira que eu estava, estava com muita acelho, cheguei lá, não tinha nada, se o considero os treinamentos que foram dados adequados para esse tipo de acidente, totalmente na adequada, porque uma, eles previam que era, ok, 10 minutos, 10 minutos para a acelente tocar, você tinha 10 minutos, você correi lá para onde encontro, golzinho o treinamento que a gente fez, isso foi falado, esse tempo, foi falado, que demoraria esse tempo, porque a não-historatora, que ali estourava um pouquinho, ali a descenar aos poucos, não foi, não foi isso que aconteceu, o descenamento foi tudo uma vez, e outra, a própria Cristina que deu o treinamento para a gente, ela falou que era totalmente seguro que a barragem tinha lalto, que era extremamente seguro, que a gente não precisava se preocupar, quem era Cristina, era responsável pela barragem lá, na feijão, ela que deu treinamento para a gente, no pai bem, e eu, tem então para mim, era 100% seguro, entendeu? E eu tinha, nossa, um que estava acontecendo, só depois que realmente, que aconteceu, que aí a gente foi ver o que estava sendo feito, que eles estavam fazendo para tampar a barragem lá, para não ficar saída lana. O senhor disse que todos os seus pertensos ficaram lá, o senhor não ficou conselular, portanto, quando é que o senhor conseguiu falar com a família, como é que estava a sua esposa, porque ela já já havia tecido informada do acidente, como é que foi esse primeiro contato? Ah, o seguinte, eu perdi meu celular lá na hora, no entanto, eu fui dado como morto, porque eles não conseguiram falar comigo, e aí, na hora que eu voltei, que eu passei na portaria, que eu fui lá para a área do ponto de encontro, já tinha um pessoal lá da Manserves, e um colega meu pedir, não, por favor, me dá uma pressa do seu telefone aí, para me ligar a minha esposa. Não eu leguei para ela, eu já leguei para ela falando assim, ó, a barragem que estourou, morreu, morreu, morreu, morreu, todo mundo, fiquei me desesperado, até falo, liga para a polícia aí, para o bombeiro, para eles vim rápido. Até então ela não sabia, ninguém sabia, entendeu? Dá até demorado um assim, da hora que estourou, até eu falar que a minha esposa não se 15 minutos. Como é que foi depois? Porque a gente passa por tudo isso, na hora que a gente está na adrenalina, correndo, buscando viver, e depois que a poera baixa e às vezes a gente começa a sentir as coisas, como é que foram os dias seguintes? Para mim foi muito doloroso, por quê? E eu conhecia, por exemplo, uns 80% do pessoal que faleceu, porque foi a maioria, foi lá da área do ministrativo, e eu conhecia, e eu te falo a gostei, se que tivesse acontecido um bom suponso, com 40 minutos antes eu tinha falecido, eu estava dentro da área do ministrativo, dentro do golpão, eu estaria morrido, e para mim foi muito difícil, porque toda hora no ano de sear, achou, achou fulano, achou ciclano, no entanto eu não conseguia ficar vendo a televisão mais, eu falei que a minha esposa, vamos sair daqui de brumadinho, por quê? Eu, se a gente fosse ali na rua, onde parar de perguntava como você sobreviveu, se fulano, estava vivo, você assistia a televisão, você veio lá, mãe, filho, chorando, perguntando se encontrar o filho dela com vida, eu já sabia que estava morto, porque eu estava lá, eu presenciei, eu via onde que o pessoal estava, não tinha como se salvar, você entendeu? Aí a gente ficava olhando aquilo, aquilo estava deixando muito triste, a batida eu peguei uns dias e fui sair, fui lá para casa da minha soga, fiquei lá uns dias, para ver se passava isso, aí depois eu fui na psicóloga, fui na psicóloga por aí, porque eu não estava aguentando. E agora um ano depois? Um ano, agora, eu estou na psicóloga até hoje, estou indo lá sempre, e agora é de 15 dias, falar com você, esquecer, não vou esquecer nunca, porque eu que eu passei, falar com você, um desejo para ninguém. Sou considera que teve uma segunda chance? Eu nasci de novo, que nem eu até falei que a minha esposa foi, eu acho, foi ontem, vai ter a missa agora de 25, eu falei que é meu ano de vida, meu primeiro ano de vida vai ser de 25, que eu renasci, porque do jeito que foi, aonde que eu estava, foi Deus mesmo, em sol. Isso já parou para pensar, se eu disse de 40 minutos antes, eu teria morrido, pouco sobreviveram, o seu já se perguntou, por que? Essa pergunta está me fazendo aí, eu já pensei a ela várias vezes, logo depois que aconteceu, eu mesmo, como se disse, eu sou católico, fui lá na igreja, eu parei assim, que era um tempão perguntante, a gente, qual foi a missão que Deus me deu para me deixar vivo? Sabe que tem alguma missão para mim, alguma coisa para me fazer, para me passar, alguma provação? Não sei, realmente eu não sei o que Deus espera de mim não. O seu voltaria para trabalhar na área de mineração? Hoje eu não sei, eu não vou falar aqui, eu não vou outro, porque eu não sei o que vai acontecer aqui para frente, mas eu não tenho vontade nenhuma. Então até eu estava trabalhando, voltei a trabalhar, eu não aguentei, porque eu ficava passando. Tô praticamente todo dia que eu ia trabalhar, eu tinha que passar lá onde cotava, eu não aguentei e eu pedi para sair. Porque foi muito triste, eu não aguantava, não ficava lá a venda onde eu fulando, se clantava, onde era a área, onde que tava. Ah, não, é difícil, mãe.

Podcast Summary

Key Points:

  1. O eletricista-geral Ribeiro Morais Reis testemunhou de perto o desastre da barragem em Brumadinho, ouvindo um barulho intenso que parecia um estrondo massivo.
  2. Ele foi obrigado a correr imediatamente após o estourar da barragem, percebendo um enorme volume de material em movimento que cobriu áreas de cerca de 36 km.
  3. Ainda que os treinamentos previam um descenamento gradual, o colapso ocorreu de forma repentina e total, desafiando a segurança que os funcionários estavam cientes.
  4. Morais Reis percebeu que todos os trabalhadores da área tinham morrido, pois não viu nenhum sobrevivente, o que gerou um profundo sofrimento emocional.
  5. Ele perdeu o celular na hora do acidente e só conseguiu se comunicar com a esposa após retornar ao local, relatando com tristeza a tragédia.
  6. O trauma persiste até hoje, com o homem continuando acompanhamento psicológico há um ano, não conseguindo esquecer o que vivenciou.
  7. Ele reflete sobre a missão divina que lhe foi atribuída para sobreviver, questionando o sentido do que aconteceu.
  8. Devido ao profundo impacto emocional, ele já não deseja retornar ao trabalho na área de mineração.

Summary:

O testemunho de Ribeiro Morais Reis, eletricista-geral da Vale, descreve a horrorífica experiência vivida no dia 25 de janeiro de 2019, quando a barragem de rejeitos na região de Brumadinho estourou. Ele relata ouvir um estrondo intenso, correr para a segurança e ver um grande volume de material descer, cobrindo áreas de 36 quilômetros. Apesar de ter sido treinado para situações de emergência, o colapso ocorreu de forma abrupta, contrariando as previsões de segurança.

Ele afirma que todos os companheiros da área morreram, e que, por ter vivido na proximidade, conhecia a maioria dos mortos, o que intensificou o sofrimento emocional. Perdeu o celular e só conseguiu se comunicar com sua esposa depois de retornar ao local, relatando com dor a tragédia. O trauma continua presente, com o homem fazendo acompanhamento psicológico há um ano, sem conseguir esquecer o que viveu.

Ele questiona o sentido da sobrevivência, acreditando que Deus o escolheu para uma missão divina, e não deseja mais trabalhar na área de mineração devido à dor e ao medo de retornar ao local do acidente. A história revela uma dor profunda e uma reflexão sobre a vida, a morte e o papel da sobrevivência em um desastre de grande escala.

FAQs

O barulho foi descrito como extremamente forte, semelhante a um estrondo poderoso, muito mais intenso que os barulhos comuns, como pneus estourando em caminhões.

Após correr para longe da área, ele percebeu que a barragem havia estourado e que todos os trabalhadores haviam morrido, sentindo-se profundamente triste ao ver que ninguém sobrevivera.

O treinamento previa um descenamento gradual, mas na realidade a barragem estourou de forma abrupta, sem aviso prévio, o que contradizia a segurança que os especialistas haviam garantido.

Ele foi ao ponto de encontro e pediu a um colega que ligasse para a esposa, informando que a barragem havia estourado e que todos haviam morrido.

Ele se sentiu profundamente triste, pois conhecia a maioria das vítimas e não conseguia assistir à televisão ou ver pessoas vivas, já que sabia que muitas pessoas haviam morrido no local.

Não, ele não tem vontade de voltar ao trabalho, pois o local continua sendo muito doloroso e ele não consegue lidar com a lembrança do que aconteceu.

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