Neste episódio do podcast "Cruzamentos Literários", a jornalista Isabel Lucas entrevista a escritora moçambicana Paulina Chiziane, focando-se na sua obra "Niketche: Uma História de Poligamia". Chiziane, a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, explica que o livro surgiu a partir de uma cena real de conflito entre mulheres, evoluindo para uma narrativa que desafia tabus ao abordar abertamente o desejo sexual feminino e criticar a poligamia. A autora descreve a escrita como um ato de negociação da sua identidade como mulher, moçambicana e africana, destacando temas como o papel da mulher na sociedade e os efeitos da colonização. Ela enfatiza a influência da tradição oral na sua prosa poética, um traço marcante da literatura moçambicana, e discute os desafios de traduzir conceitos culturais específicos para o português. A conversa também aborda a diversidade étnica e cultural de Moçambique, incluindo as diferenças entre sistemas matrilineares e patrilineares, e reflete sobre os conflitos internos e o longo processo de pacificação do país após décadas da independência. Chiziane mantém uma visão esperançosa, encarando estas tensões como parte natural da construção de uma nação jovem.
[Música] Começa agora cruzamentos literários, uma parceria entre um Instituto Camões, a Fundação do Benquian e a Associação Oceanos, que integra a Programação Cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia. [Música] Olá, bem-vindos ao Cruzamentos Literários. Eu sou Isabel Lucas, jornalista e um dos curadores desta série Podcasts na qual, duas vezes por mês, conversamos com o escritor de língua portuguesa para conhecer mais sobre a sua obra e o modo como pensa o mundo e a literatura. Hoje vamos receber a escritora Mesa Bicanha Paulina Xian, autor entre outros dos livros Balada de Amor ao Vento, Ventes do Apocalypse, o VII-Juramento, o alegre canto da perdiz, o Niketch, uma história de poligamiha, vencedor do prêmio José Cavarinha, e um exemplo do modo como escritora cruza oralidade e prosa poética para falar dos grandes temas da sua obra. O papel da mulher na sociedade Mesa Bicanha, os efeitos da colonização ou a forma como guerra colonial, dizimou um país que mais de 40 anos depois da independência ainda não se pacificou. A Lina foi ainda a primeira mulher em Mesa Bicanha a publicar um romance, aconteceu em 1990 com Balada de Amor ao Vento. O último livro, foi em 2017, chamas o canto dos escravizados. Natural de manja-caza, na província de gaza, Paulina Xian cresceu nos segurbios de Maputo entre culturas muito distintas, falando das línguas "sope" e "ronga", aprendeu português na escola de uma missão católica. Nos ventude, integrou a freilinho, a frente de libertação nacional, mas uma certa desilusão com a política foi a lopitar pela escrita a tempo inteiro. Começou para publicar contra na imprensa de Mesa Bicanha no início dos anos 80, até que vieram os livros. Em Niketch, publicado em 2002, escreveu as culturas são fronteiras invisíveis construindo a fortaleza do mundo. Ela fala da diferenciação dos papéis, da função do amor, do poder, do masculino e do feminino, não retrata a brangente de costumos, escrito a partir do doméstico, mas comum, com sentido universal. Antes da conversa com a Paulina, convido-vos entrar primeiro no ambiente deste livro, com a ajuda da escritora brasileira Veronica Stiger. Ela, que ao longo desta conversa, irá dar voz às palavras escritas por Paulina Tisiana. Niketch, a dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação, uma dança que mexe, que aquece, que imobiliza o corpo e faz a alma voar. As raparigas aparecem de tangas e missandas, movem o corpo com o arte, saudando despertar de todas as primavérias. Ao primeiro toque do tambor, cada um sorri, celebrando um mistério da vida ao sabor do Niketch. Os velhos recordam o amor que passou, a paixão que se viveu e se perdeu. As mulheres desamadas reencontram no espaço, príncipe encantado com quem cavalgam de mãos dadas no dorso da lua. Nos jovens, desperta a urxência de amar, porque o Niketch é sensualidade perfeita, raínea de toda sensualidade. Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes, suspiros de quem desperta de um sonho bom. Olá, Paulina. Obrigada por estar aqui. Olá. Muito obrigado. Paulina, no outro dia, quando conversávamos o telefone sobre este livro, este Niketch, disse que era um livro muito maluco. Por que que é um livro maluco? É, porque deixa a realidade, acho que nunca ninguém ouzo dizer. Isso, para mim, deixa-me confessar uma coisa. Foi a traição do doctor Zéferino Coelho. Porque eu disse, olha, do doctor Zéferino. Eu fiz essa versão, mas ainda não está limpa. Eu disse aquelas palavras que uma mulher, bem educada, não pode dizer, então, por sessido um tempo, eu vou fazer a limpeza. Eu disse, "Nana, não, Paulina, por favor, manda me cá." Como não tem tempo agora? Eu vou vendo o que fez que não está bem. Então, eu lhe vi, e passado o mês, ele disse, "O livro já foi impresso." Ele disse, "Não, do doctor Zéferino, eu não podia." Ele disse, "Não, aquilo que querias cortar é o verdadeiro coração do livro." E digo isto com muita gratidão, porque, de fato, eu sou um pouco moralista, acho que isso tem também, haver com a minha idade. E há umas coisas que, de vez em quando a gente corta, para não ficar marra, etc., mas, na verdade, o livro ficou muito melhor, com a força que tem, e um pouco de loucura, é assim que eu posso descrever, ou que sepamente. Essa loucura que se refere, tem a ver com, certamente com esse modo, como o livro nasceu, mas também, há algo que eu não usaria, não é, Paulina. Porque o que está ali naquele livro, como refriu, é uma certa verdade. Muitas vezes não é evita. Queremos falar um bocadinho desse interdito que eu usou tocar? Onde os interditos é falar de sexo, de uma forma aberta, o desejo sexual de uma mulher, o direito sexual que ela tem, então, embora se fala dos direitos sexuais da mulher, na vida moderna, para muitas tradições, sobretudo, a tradição sambicana, cultura sambicana, é tá bom. E então eu rompi com o tá bom. E depois, também tem a questão das diferentes itnias. A gente fala disso no país, mas não é politicamente correto falar ou as palavras, o coloquei no livro. Esse livro, esse livro mesmo. É isso. A Paulina, essas palavras para quem leu o livro, consegue perceber o que passa, e a maneira como elas estão descritas, para quem não leu é um convite essa leitura, mas já falamos um bocadinho que, como é que esse livro apareceu, que eu coloquei essa, mas o que é que estive na jende desse livro? Ou seja, o que é que é feio partir para a escrita de Nikketshe? Foi um acontecimento. Eu estava sentada na varanda da minha casa, no segundo andar, e virada para a estrada, claro. E de repente, eu vejo duas mulheres meio embriagadas que vinham talvez de um bar. Pararam numa casa em frente a minha, e bateram a porta. Da li saiu uma senhora, combebe, muito pequeno. E as duas embriagadas começaram a gritar. Olha, vemos para te informar que o teu marido já dormiu conosco. Enquanto tu estava gravida, ele estava conosco, e nos dizia muitas coisas sobre a sua relação sexual. Tu é menos gostosa que nós as duas. Eu achei aquilo muito estranho e fiquei a tentar. Então veio a secessão, uma sucessão de palavrões, que as duas bebadas diziam para a pobre senhora. E eu, pessoalmente, por sentir que, pronto, a senhora estava a ser agredida no seu recinto, eu liguei para o marido, que é meu vizinho. E eu disse, olha, a sua casa está a ser assaltada. Estou a ver aqui da minha varanda. E ele diz, "Ah, vou já, vou já correr." Então ele vem a correr e encontrar esse cenário. O mais interessante foi, o senhor, quando percebeu que estava acontecendo, deu passo de gerrataguarda e desapareceu. Quem se ocorreu, a mulher dele, e a criança, foram outros vizinhos. Fiquei muito zangada com esse senhor durante um bom tempo. E quando, por mim, estava a escrever aqueles palavrões, que aquelas loucas diziam, estava a descrever aquele momento que tanto me incomodou. E, de seguida, o livro foi crescendo. Mas a gênero, se foi mesmo essa, uma briga de rua, de duas mulheres bem badais contra uma dona de casa. Estamos a falar da história que deu origem à história de Rami. Rami é na redora do livro, é a primeira mulher de Tony. E ela, Rami, decide conhecer cada uma das outras quatro mulheres com quem partilha. E a cada uma, com a partilha, uma certa. uma amor, não é. Para ela, era um amor mais ou menos incestionável. E acaba por estabelecer com elas uma espécie de pacto que desafiou as perceitos do sistema poligámico. Este é, mais ou menos, de uma maneira muito simplificada aquilo que vamos encontrar aqui, como ponto de partida. E eu queria juntar isto a umas palavras que eu me lembro que a Paulina disse, numa escurrente descrita, na pova do Verzinha, há uns anos, que o olhar de um escritor é uma espécie de olhar de um caçador. Ou seja, ele capta uma imagem, uma história, e vai viver com ela como um caçador com a sua presa até transformar numa história. É mais ou menos isto que aconteceu. Foi exatamente isso que aconteceu. Aquela história ficou presa em mim. Portanto. está sem querer, mas ela se prendeu e tornou-se no livro que é. Paulina, e quando este livro é apresentado e quando se fala da sua escrita, ele aparece como um livro simbólico, um romance simbólico da literatura, enquanto uma espécie de ato de resistência, no caso, uma resistência que é política e que tem a ver com o empoderamento da mulher, também em Sambique, mais genéricamente em África. Como é que vê este olhar sobre a sua literatura, rever-se nestas palavras? Para mim, a literatura e este livro de uma forma concreta, é uma espécie de negociação de identidade. A minha identidade como Moçambicana, como Africana, a minha identidade feminina, sou mulher e eu existo, e tenho o meu mundo e os meus confritos. Então, a partir desse livro eu abordo várias questões ligadas a condição da mulher, no sistema cultural, e vou assim negociando mesmo a minha identidade feminina. "Vou à rua e canto insordina a canção do desencanto. As mulheres são um mundo de encanto e de silêncio. Dizem que elas falam muito, pode ser verdade, dizem que elas falam demais, talvez. Mas elas falam de coisas futeis de insignificâncias. E elas sabem guardar bem no fundo delas o seu verdadeiro mundo. As mulheres são um mundo de silêncio e de segredo. A linguagem do ventre é a mais expressiva porque se pode ler na multiplicação da vida. A linguagem das mãos e dos braços é também visível, segurando um receio nascido, segurando um boquete flores no tido casamento, segurando uma coroa de anotúrios na hora do funeral do seu amor. E a linguagem do coração, a ausente muralha de diamante, silêncio de sepultura, a ausência impenetravel. E a linguagem dá, se a pudesse falar, que mensagem nos diria. De certeza ela cantaria belos poemas de dor e de saudade. Cantaria cantigas de amor e de abandono, da violência, de violação, da castração, da manipulação. Ela nos diria porque choraram lágrimas de sangue em cada ciclo. Dir nosia a história da primeira vez, um leito no pcial na mata, embaixo dos cajuíros, no banco de trás do carro no gabinete do senhor direitoura Beira-Mar, nos lugares mais incríveis do planeta. E nesse modo de identificar sua identidade, que passam da redundância, a Paulina foi a primeira mulher em um sambique a publicar um romance. Isso tem a ver também com esta luta, né? Quer dizer alguma coisa de sobre o papel das mulheres, Sambique? Ou ser a primeira mulher, e eu acho que foi um acontecimento feliz. Eu nem sequer percebia que estava a fazer um romance, e nem sequer percebi que era o primeiro romance. E eu fui andando e foi muito agradável descobrir, acho que cinco anos mais tarde, que eu tinha sido a primeira e disse, eu, né? Acredito. Então, foi um acontecimento, nada programado. Como sempre disse, eu muitas vezes evito dizer que sou romassista, ou seja, o que for. Eu escrevo que não acontece quanto a história, e pronto. Os outros já que mais tarde se acelbraram que eu tinha feito o romance, e eu fiquei feliz depois disso. [risos] Sem essa consciência de escrever um romance, isso leva a tradição também, que é a tradição oral, que vem que está por trás da sua maneira de contar as histórias, na Paulina gosta mais de se rever como uma contadora de histórias, como uma escritura. Como é que passa dessa oralidade para as cripto? Ou seja, como é que se dá essa transformação? Quando escreve, tenha em mente alguma espécie de música, de tuada, que depois se torna nesse silêncio, que é o silêncio da escrita? Eu acho que tenho, sim, porque eu sou produto de várias culturas. E a minha cultura é oral, essa história. Eu estou com a cultura escrita. Eu acho que apenas para 30% da população sambicada, porque se a gente sai e dá uns passos para o interior, pois as onais rurais, a oralidade continua. Mesmo aquelas pessoas que já fizeram o grande esnivel, de formação acadêmica, de vez em quando, deu por elas, às vezes brigo. Eu digo, vocês, temos que sair da tradição oral. A maior parte de nossos contatos, dos nossos contratos, das nossas convivências, é tudo oral. Isso, depois de que a gente diz, é verdade, temos que escrever, para formalizar, temos que fazer um contrato. Portanto, com isso, eu quero dizer que a oralidade faz parte de qualquer africano. E isso não é crime. Para mim, até muito bom. Eu gosto muito da oralidade, porque a oralidade, para mim, é direta e fala de uma forma muito clara, transmitem com muito mais clareza, aquilo que eu tenho para dizer. Enquanto que o mundo escrito, para mim, é um pouco complicado. Conheço escritores muito bons que escrevem. Absolutamente bem, uma linguagem do mundo descrita com todas as regras. Eu sinto que falta um pouco do toque da alma africana, já experimentei, mesmo, se eu escrever assim, com toda a liberdade, misturando escrita e oralidade, e lavou construindo a mim na literatura. É uma literatura que também, nessa passagem de oralidade, para a escrita, nessa fronteira, acontece uma espécie de tradução. Infelizmente, é uma tradução mal feita. Muito mal feita, porque as nossas línguas são como são, e há expressões que nós, de ser menti, podemos traduzir. Vou dar um exemplo. Quando falo, por exemplo, da flora, vou falar das flores, as flores mostramecanas, de um nome da cultura mostramecana, e não existem na língua portuguesa. As frutas mostramecanas são frutas tropicales, que algumas das quais só existem neste meio. Como é que é as volumeares? Eu ainda me lembro do exercício que eu fiz, o causador de uma fruta chamada "massala". As crianças adoram comer massala. É uma fruta redonda, é uma fruta, parece uma bola, é uma esfera. Mas é quase do tamanho do um coco. Fiz a minha narrativa e falava da massala. E no fim, eu tinha que fazer a tradução. A tradução foi. Uma sala é uma fruta redonda esferica, que parece um coco, mas não é um coco. É uma montanha de palavras para tentar descrever uma realidade das frutas tropicales. Esse é o nosso conflito. De facto, quando eu escrevo na língua portuguesa, algumas vezes estou a tentar fazer a tradução de uma cultura para outra. E as coisas se perdem, há muitos valores que se perdem, porque eu jogo que uma língua, e não tenho certeza, uma língua sempre carrega consigo, uma cultura. Então, quando a gente faz a tradução, muitas coisas se perdem. Por exemplo, quando se fala do amor, tanto em ranga como em shop, nós dizemos assim, na currassa, um gof, um gof, um gof, isso é. Eu amuti muito, muito, muito. Agora, em português, diz apenas eu te amo profundamente, mas falta este toque do muito, muito, muito. Então, é um conflito. Mas, olha, a gente vai superando, usando esta técnica aquela, tentando traduzir, e as coisas lá vão sendo. A Paulina, para explicar precisamente a diferença, toda a diferença cultural que existe naquele país, mesmo em termos de raça, aquelas mulheres, aquelas cinco mulheres, são a hora de um das diversos cítios no Sandbic, a patência de culturas diferentes, que encaram o amor, também de manárias diferentes. O processo da escrita deste livro, como é que foi este? Como é que chegou a forma do livro para poder conterto tudo isto que ele tem? Eu tenho a grande sorte de circular em todo o país, já vivi em quase todas as provincias. É importante dizer que nós émos Sandbic, temos dois sistemas, um, que é madrilinear, e o outro que é patrilinear. Então, eu, sendo de gás, do Supro no Sandbic, sou da cultura,
e fui viver no norte, na cultura matrilinear. E pronto, antes de eu fazer essa viagem, essa migração para viver, na cultura matrilinear, eu sempre lia, que eu não sabia que tinha duas grandes culturas, mas eu não conseguia perceber quais eram as grandes marcas das culturas tanto matrilinear como o matrilinear. Então, a minha vivência com os povos do norte de Mesa Bique deu-me alguma informação sobre como é que se constrói a vida, como as pessoas se relacionam, e também foi um exercício para desconstruir como pouco os preconceitos que os povos do sol têm, pelos povos do norte, e os povos do norte também têm sobre os povos do sol. Somos um país uno, somos diferentes, somos iguais, estamos no mesmo país, e então precisamos de vez em quando, de fazer este diálogo entre as diferentes culturas. Vou dar só um exemplo daquilo que é o sistema matrêrcal. O centro da vida é mulher, e tudo vira a volta dela. E, por exemplo, no sistema matrêrcal de onde eu venho, assim como também o sistema matrêrcal europeu, o sexo é olhado como o lugar do pecado. É por isso que, então, a criança, quando a cabalha de necessita, tem que ser batizada para ficar purificada, porque, nasceu do pecado que é o sexo da mulher. Na região matrêrguenária, o sexo é o lugar do sagrado, isto é. Eles dizem, sobretudo, nos rítios de inserção, mulher, cuidar do teu corpo, porque dentro de ti, residen as sementes da eternidade. A primeira vez que eu ouvir esta afirmação, eu fiquei meio louca, eu decidi hoje o céu, o que eu estou ouvido? Sim, é real. Eu perguntei as pessoas e nos me explicaram. Aliás, perguntaram, Paulina, "Donde é que tu veis?" Dei uma resposta de ser, "O seja, clara, onde é que tu veis?" "Ah, nasci do sexo da minha mãe." Então, o lugar do necimento, o lugar da gestação, desde o princípio do mundo, está no corpo de uma mulher. Então, o sexo é sagrado. Eu tenho que dar muitas graças a esta informação que me transformou, porque a cultura europeia, algumas culturas nossas, africanas, patras e caras. A cultura também eslamizada veio se introduzir neste povo, com a sua maneira de ver o mundo, e fez-me tão bem a mim saber que é final. Dentro do meu país, existe um espaço onde as mulheres têm lugar. Então, é esse lugar da mulher que eu reivindico. E acordei-te a que, quando o livro começou a circular na região sul, as mulheres do sul desangaram-se muito comigo e disseram, "Paulina, tu é do sul, mas quando escreve-se aquilo que tem o livro, coloca o norte como melhor que o sul." Mas pronto, depois de muitas conversas, esse de algo se estabelece e começamos a identificar monos, uns às outras, como sendo filhos de mesmo país, somos diferentes. Claro, a diversidade é que faz a nossa unidade. E o ia precisamente perguntar isso, falou de uma unidade, passados mais de 40 anos sobre a independência, o Mousambique continua a viver numa espécie de tensão. O que que faz essa unidade de um país que ainda não se pacificou, Paulina? A pacificação é um processo que vai levar o seu tempo. Eu tenho um filho que vai fazer este mês 44 anos de idade. Eu quando eu olho para meu filho, eu digo, "Que criança meu Deus, essa criança ainda não cresce?" Com isso eu quero dizer o seguinte, 40 anos, na idade de um país, é quase nada. Talvez 400 anos. Eu não estou muito desanimada com estes conflitos que nós temos, embora seja difícil de suportar, são conflitos internos sim que vão nos levar ao conhecimento muito e a consolidação da nossa existência. Porque afinal, o regime colonial quando chegou imposto, nós tínhamos as nossas diferenças e não tivemos tempo de resolver, porque estávamos todo e soube o regime colonial português. O regime colonial já foi, ficamos nós com os nossos conflitos. Então precisamos de dialogar e às vezes grutar para encontrar o equilíbrio. Eu vejo as coisas dessa maneira. Há países que são livres há muitos séculos e continuam com conflitos. Agora, 40 anos, idade de meu filho, não é nada, é muito pouco. É claro que temos que ir resolvendo as nossas diferenças, mas reconhecendo também a história de um povo, leva séculos e milênios. Preciso de um espaço para repousar o meu ser. Preciso de um peraço de terra. Mas onde está minha terra? Na terra do meu marido? Não, não sou de lá. Ele diz-me que não sou de lá. E se os espíritos da sua família não me quiserem lá, pode expulsar-me de lá. O meu cordão umbilical foi enterrado na terra onde nasci, mas a tradição também diz que não sou de lá. Na terra do meu marido sou estrangeira, na terra dos meus pais sou passageira. Não sou de lugar nenhum. Não tenho registro, não mapa da vida não tem um nome. Use este nome de casada que me pode ser retirada a qualquer momento, por empréstimo. Usei o nome paterno que me foi retirado. Era empréstimo, a minha alma e a minha morada. Mas onde vive a minha alma? Uma mulher sozinha é um grande poeira no espaço que o vento varre para cá e para lá na purificação do mundo. Uma sombra sem sol, nem sol, nem nome. Não, não sou nada. Não existe em parte nenhuma. Achan que eu devo abraçar a poligami aí e pôr-me aos gritos de urras, vivas e salves, só para preservar o nome empréstado? Achan que devo dizer sim a poligami é só para preservar este pedaço de chão onde repousam os meus pais? Não, não vou fazer isso. Tenho os braços presos para aplaudir e a garganta seca para gritar. Não, não posso, não sei. Não tenho vontade nenhuma. Este livro foi publicado em 2002, passaram quase 20 anos. O que mudou no papel da mulher na sociedade no Sambiqueira Paulina? Eu sou muito suspeita para dizer o que possa ter mudado, mas há muitas coisas que mudaram. Vou dar um exemplo. Quando em 2002, o livro saiu, aqui alguns acadêmicos mais conservadores olharam para o livro e disseram, a Paulina está a introduzir os seus feminismos na literatura Sambicana e ficaram perto. Mas o livro foi andando, o livro está vivo cada dia mais forte. Quando eu me espanto, quando hoje, alguns desses acadêmicos são os três ou quatro, já falam do livro com os seus estudantes com uma visão diferente. É um livro que marcou uma época, que marcou uma geração e que continuou a marcar gerações. Os seus homens que vieram ter comigo e disseram, Paulina, quem é justiça? Esse livro não podia ter este fim. Um homem com 5 mulheres que depois vai viver em casa da mãe, a Paulina não tem pena deste homem, porque para alguns homens aqui, entre nós, o fim tem que ser o homem sempre de sair se bem. Parece ser a primeira vez em que um escrito em que o homem fica a perder, para o caos do seu mal comportamento. Então as pessoas vinham, depois falavam comigo, algumas sangar, vão ser outras ali, mas é um livro que gerou muito debate sobre essas questões culturais, que são tradicionais, questões de gênero, várias coisas. Mas o mudou bastante no papel de mulher, ou seja, as mulheres. Como é que, neste momento, o sistema Pauli Gamii, que continua como descreva aqui? Sendo que isto não é um documento, é um romance. Este é um romance. Essa é uma boa pergunta.
A poligamiha tem todas as vantagens para um homem, então não há de ser fácil. A poligamiha é deixada de estiros, com uma garvante. Moçambi que é este país que está em guerras permanentes desde o período antriurante pendência e quem morra todos os dias em todas as guerras são homens. Esse é visível quando se vai às anarrural é possível haver que há muitas mulheres sozinhas e assim o sistema poligamiha continua, porque tem a explicação a muitas mulheres e poucos homens. E então o homem que vê que por ventura está por ali ou serve a todas ou elas lutam para que ele descerva. Este é uma realidade que nós não podemos deixar do olhar a um déficitomés. E nesse momento com essas tensões que estamos a ter, encabdelgado, há um grande recordamento de jovens para a guerra. Muitos que vão e não voltam mais. Então é uma realidade de um país de conflitos. E nos países que tiveram muitas guerras como nosso a este problema da poligamiha que os homens aproveitam. Porque de facto há mais mulheres do biomes. Oso seja, é um sistema que se alimenta de uma das grandes feridas de Moçambi que neste caso não é que é a devastação causada pela guerra, para as várias guerras e que traquemosado na guerra, para entender. Esse sistema dá-lo de uma maneira mais vista sul do que norte. Não é no livro e isso vem muito bem descrito. E na maneira como que a mulher vive o seu corpo, é outro dos temas também políticos aqui no livro. O corpo visto também como uma espécie de arma entre aspas. E eu lembro de um momento de vista em que a Paulina, por causa de outro livro, dizia que não houve uma arma mais fulmina antes do que a mulher. Sendo ela tão frágil e tão melhada por tantas sociedades, ela continua a ser esta arma fulmante. Deus meu, por que me fizesse um mulher? Mulher é aquela que tem a língua de serpente, por isso carrega nas costas o peso do mundo. Mulher é fél, é a misteriosa criadora de todos os malhas do universo. Mulher é aquela que faz falta, mas não faz falta nenhuma. Por isso, quando morre, as pessoas entornam duas lágrimas e apenas suspiram, repose em paz queridinha. Repose as suas dores e o teu cansaço no regaço da terra. Dorme em paz. Mulher é o eterno problema e não há como solucioná-lo. Ela é um projeto imperfeito. Toda ela é feita de curvas, não tem sequer uma linha reta, não se indireita. É surrealista? Não. É a mistrata? Também não. É gótica isso sim. Tem arcos, a boba das ojivas. Ela é mole, ela é fraca, ela é tem mosa com uma gota de água que tanto bate até que fura. Mulher fala muito e fala demais. Por isso, ela é silêncio, é sepultura, vivendo no poço fundo, no abismo sem fim. Fejam só. Ela é agulosa com milona. Mal foi criada, brilha boa, que pediu a gorda maçã e uma boa mandioca para o seu forne fugão. Vesse mesmo que tem carisma de cozinheira. Por isso, Deus mostrou-lhe o culo logo depois da criação. Ela é imperfeita, daí a permanente busca de uma forma concreta. Com perucas, rendas, cedas, modas, sapatos de salto alto, pintados, massagens, combatões e joias. Mal aprende a respirar ar puro, corre para os ritos de iniciação para atatuar o corpinteiro e adquiridos escamas de peixe e fugir a forma escorregadia do peixe barba. Aprende a lugar genitais em cada dia como quem ordem as tetas de uma vaca para ganhar a forma de lula, de povo, de bico, de perú e transformar-se em uma terrível canibal. Na mulher, o sangue não acaba, é mensurto ação, parto, agressão e espinhos no coração. Ainda assim, da sangue para salvar os molibundos e fabrica o sangue dos filhos, dos netos, dos bisnetos e tetra netos que andem na ser qualquer dia. A mulher é rija como um monte de feno e chora por da caa aquela palha. Continua. Sobretudo, quando você fala do norte do país, no sistema material, as mulheres têm um chiro que se acredita, as mulheres não falam alto. Por exemplo, vou dar um exemplo de uma colégia com quem eu trabalhei na Asembesia. "Paulina, sabe de uma coisa?" Meu marido fala muito. Esse fim de semana falou sem parar. "Sabe o que vou fazer, Paulina?" "Eu vou fechar a boca e eu vou lhe obrigar a fazer esse sexo até perder a voz." "Cusas destes?" E eu perguntei, mas como ela diz, "É simples. Nós nos retos de iniciação aprendemos como dar vigor ao corpo feminino para reventar o vigor de um homem." Vou te estotar dizer. Na próxima semana, o meu marido durante o fim de semana não vai falar, porque eu vou lhe castigar. São segredos, que eu não conheço, não tive acesso, porque não é minha cultura, mas aquelas mulheres são terribas, são poderosas. Elas sabem o que fazem. Oso, é sempre o dramento da mulher. Também é uma coisa tão antiga quanto os abusos de que elas são alvos. Tendo sido a nossa história, sofrido o grande apagamento da noite comunial, nós não sabemos que ensuamos. Nos últimos tempos, eu, de vez em quando, fico a fazer leituras, a tentar perceber o que é a mulher, os princípios do mundo. Digo o princípio do mundo a partir do momento em que eu tenho acesso a alguma informação. Primeiro, as mulheres de hoje, em Sambic, ainda não conquistaram o lugar e o papel das mulheres do passado africano. Nós temos grandes mulheres que entraram na história universal. A primeira das quais é a Clio Patral. A Inha do Egipto, branca com outras exusões, não entre essa raça. Ela é africana. E na história do mundo, não houve mulher como ela, que o lugar da mulher em África era outro antes da colonização. Portanto, a Europa vem, coloniza-nos com as suas ideologias e porque nós não temos acesso a grandes informações, pensamos que a emança passar no empoderamento da mulher, é alguma coisa que começa hoje. Isso não é verdade. É preciso ver o caso da Libia também. Cada vez, tinham exército que o família não poderoso. Donde a que vinha? Vinha da sua tradição. Nós perdemos a tradição por causa das influências, das religiões e dos sistemas coluniais, mas alguns países africanos mantiveram. E cabe a nós africanas, resgatar esses valores. Aqui neste país, nós tivemos uma mulher que atingiu o nível de Primeira Ministra, que é a Luisa Diogo. Tudo bem? É excelente para o território no Samicano, mas para o continente africano. Nós temos mulheres de dimensão, universal e dimensão, em temporal. Estava a falar da colonização. A colonização trouxe muita coisa. Hoje estamos a falar do posso colonialismo e o que que representa nas sociedades africanas, sobretudo, mas também, no caso, a língua portuguesa. A Ubra-Zil tem histórias diferentes. Eu sei que a Paulina já fez este tipo de paralelismo entre o período de posso colonização no Brasil e posso colonização. Em Samic, o que é que há diferente e o que é que há de igual, além da língua? Porque a colonização trouxe uma língua comum, mas com as diferenças depois de cada tradição e cada geografia, também, desincutiu e cada experiência, de fala, também, desincutiu. Mas o que é que há de comum e diferente entre estas duas realidades separadas pela tlântico? Neste caso, não é o Atlântico, é o índico e dá um continente e só depois é que há o Atlântico. Eu acho que é uma conversão muito longa. Há muitas coisas comuns entre Moçambique e Brasil e há também muitas diferenças. A história comum é que, por exemplo, os aflo de senentes são filhos da África, que estão num território que não nos pertencem, vivem e lutam por seus direitos, de existir.
que é final é seu porque eles é que construíram também os seus braços também construíram aquele continente. A realidade de África ou de Moçambique é diferente. Nós lutamos contra o colonialismo, o colonialismo já se foi, continuamos no nosso solo africano. Então nós estamos mais acentes na Terra. Temos o nosso lugar de pertence do afalar dos africanos, dos Moçambicanos africanos de todo o continente. Agora os afrodecendentes pelos por muitos direitos, um dos quais o lugar de pertence. Eles têm que se sentir brasileiros e brasileiras. Então esses são alguns aspectos que nos aproximam e que nos diferenciam. E há uma realidade também que eu constatei no Brasil. O Brasil durante muito tempo os afrodecendentes tão conheciam a história da África. E o Brasil é um pedaço da África, da música, cultura, culinária, quase tudo o que eles têm. Foi trazido dos países africanos e eles não conheciam. Este comanço de Kit-Ket, as mulheres e de falando de raça, as minhas são olhadas de modo diferente em relação, em função da cor da sua pele, quanto mais clara, melhor na escala social. E eu lembro-me de o alegre que, de perdiz, há uma família negra em que a mãe preferiu o filho menos escuro. Como é que as coisas estão neste momento em relação a este cor de pele, como é que tal racismo, como é que a Paulina vê estas nuantes, porque as poeiros e os seus livros, como é que olha esta realidade? Esses são as pétus de que a sociedade tem medo de falar. Não são análises permitidas. Eu que sou um pouco usada de vez em quando falo dessas coisas. Mas, como é que, por dizer que o preconceito da cor veio com a colonização e em pregüence nós. Então, eu quero dizer, durante séculos, o mais branco foi visto como o mais inteligente, o mais poderoso, o senhor de mundo, depois de seguiram os mistiços, depois os negros de pele clara, clara, quase de brancos, eram vistos como próximos de brancos. Portanto, isto é um preconceito que nos foi trazido pelos sistemas que nos invadiram. Mas também é preciso reconhecer que em algumas esculturas nossas um bom homem ou uma boa mulher tem que ser devidamente escura. Existem. É mesmo aqui no interior do Moussambique, se um filho vai buscar uma mulher de pele mais clara, esta mulher vai sofrer a rejeição, porque é uma mulher clara, uma mulher clara, uma mulher fraca. Enfim, aquela lista de loucuras que cada povo tem inventa. Portanto, é o que eu posso dizer, são sequelas do colher de alígico e é algo que nós internamente temos que lutar por construir e superar para que tenhamos uma sociedade mais equilibrada. Paulina, primeiro eu sou uma mulher e tudo o que é de mulher tem que ser menor. Segundo, eu venho de lugar nenhum isto é, aqueles Moussambicanos que tiveram um estatuto elevado, de formação, etc., vieram dos assimilados, meus pais, não eram assimilados, eu fazia parte, ela fazia parte da resistência e isso, de certa maneira, contribuiu para que o meu trabalho dentro do país não fosse visto como um trabalho que tivesse algum valor. São várias carelas que eu tive que enfrentar, porque a medida que produzia um livro e outro livro, um tema e outro tema as pessoas ficavam escandalizadas. Ah não, Paulina, isso não se escreve. Por exemplo, um dos livros que eu fiz foi entrevistar uma curandeira. O regime colonial português, assim como algumas religiões dentro deste país acham que o curandeiro é igual a diabo. Então, entrevistar uma curandeira significa entrevistar o diabo e eu estou a escrever o diabolico. Era uma vez um amigo meu que sonhou com uma mulher nua, essa mulher era eu. Ficou de tal maneira transtornado que reuniu toda a família para participar um infortunio, invocou todos os espiritos, cumpriu rituales protetores, gastou rios de dinheiro apelando fantasmas contra minha sombra e a minha sorte, porque julgava que eu o emfeite estava. Você eu desespero foi tal, que ao volante do seu carro, eu vou descrever uma curva na avenida da marginal que brou a muralha e capotou no mar, escapou por um trice. Mas tarde confesso, o sony eit nua porque te desejava tanto e tu simplesmente não me ligarvas nenhuma. No des de mulher é pensão, mal de são, proteção. Há muitos relatos de mulheres nuas acompanhando os guerreiros na hora do combate. Dizem que durante a guerra civil, os comandos feróseis armados até os dentes levavam sempre uma mulher nua com missangas na cintura frente do pelotão. Ela avançava de estêmida e exibia-se. O inimigo via a cobardávase, desmoraliza-se porque ver uma mulher nua antes do grande combate significa derrota e morte, o fim do mundo. Na suas manifestações, os naparamas levam sempre uma mulher nua frente, seu escudo e proteção. Mulher é uma audição mesmo vestida. Os caçadores de grandes férias en derrumpem a marcha para grande caçada quando eles bateam em fortúneo de ciclosar com uma mulher dirigindo seu trabalho. Mulher é também bençam. O grande tocador de timbila só se inspira e transmiga até o além quando a mulher se senta do seu lado com a deusa, com luz inspiradora. Muitos desportistas recebem a bença da mulher nua na partida para uma importante partida de futebol. As mulheres dançam nuas no lugares condido no dia do funeral para buminar a morte. Em belê-le, é dança de mulheres nuas para atrair a chuva. Dançar nua ao lado de um morimbundo atraia a morte. A palina cresceu com as línguas "sope" e "ronga". Não sei se estou a dizer bem. Depois aprendeu a língua portuguesa, escrevem português. Como é que se deu esse processo? Como é que depois se vê escrever numa língua que não é a sua língua mãe no fundo? Não é? É uma língua que chegou pela escola. Ou seja, se sempre se senta que poderia escrever outra língua que não português? A nossa história colonial determinou aquilo que nós somos hoje. O sistema de assimilação não permitia que se falasse outra língua que não fosse português. Eu ainda me lembro daqueles requerimentos que os pretos tinham que assinar, a dizer que renunciavam toda a cultura, as crianças. Eu poderia muito bem tentar escrever numa outra língua que não seja a língua portuguesa. Mas o sistema foi monitor dessa forma. Eu uso português como a minha língua e não como a língua portugal. Daí que escrevo um português que não é porque é se escrever. É um português, sei de liberdade, na palina. A pouco uma palavra que muitas vezes aparece também como interdito. Eu queria falar da maneira como, neste momento, essas palavras têm um peso. Tem um peso que começa a ser gestionado. Apetitem, vem de se calhar das vias da universidade e chegam depois à sociedade. Que são os interditos na língua, as palavras que nas expressões e as palavras que contem em uma ferida histórica. Como é que olha para esta equidade na língua em este momento? No sobre isso, eu não posso dizer muito porque tudo o que significa ter cuidados na língua, às vezes, traz consigo as provisões das pessoas que estão interessadas em exercer o seu poder, exercer a sua autoridade sobre a liberdade alheia. Bem, você franca, eu não ligo nenhuma a essas coisas. Eu escrevo aquilo que eu quero como eu quero e digo as palavras como "como".
Como assim? É assim que eu tenho estado a lidar com a nitratura. E não estou muito preocupada com as palavras correctas, politicamente correctas. Se estivesse a trabalhar, talvez, numa instituição onde isso fosse obrigatório, talvez tivesse que assumir, mas não sei, não sei, não estou preocupada com o sinal. Uma coisa que se diz muito, não sei até que o ponto é que há verdade ou não, é que os países que falam e que escrevem em português conhecem muito pouco a literatura uns dos outros. Conhecem-se muito pouco. A Paulina acha isso, senti isso. Portugal tinha esse mal a literatura de Monsambique, Portugal tinha esse mal a literatura de Brasil, o Brasil tinha esse mal a literatura portuguesa. Conhecemos nos mesmos mal. Não sei, mas pode ser que há alguma razão nessa afimação, porque eu me recordo de a prioridade de pendência, do princípio dos anos 90, eu tenho mais informações. Conheço um pouco mais de Brasil, mas a comunicação com a Santo-me, com a Angola, com o Brasil, vai reduzindo cada vez mais e piorou agora com esta questão do Covid-19. Como é que Monsambique está a viver este período? Eu sei que não de uma maneira tão dramática, quando Portugal e o Brasil, por exemplo, mas como é que estão a ser estes tempos por aí, Paulina? Os casos estão a aumentar e parece que a situação tem uma tendência para um certo agrafamento africado sul, abriu as fronteiras depois volto a fechar, porque os números subiram. Aqui é Monsambique, cada vez mais em feções a nível de comunidade e a nível de contáculos de familiares, coisa que antes não acontecia, então não é uma situação confortável. Os nossos números comparados, claro, como Portugal, como o Brasil, ainda são pequenos, mas, segundo dizem, o calor também tem a sua influência, quanto maior o que for o calor. O parece que o vírus fica um pouco mais enfraquecido, mas a situação está a progredir negativa a 20. Um pouco de assunto e voltando à sua resposta anterior, falava de antes chegavam-o, mas autores que agora não se seguam, que autores é que a Paulina tem como referência, ou seja, foram alguns autores que fizeram crescer escritora? Sei lá. Eu não sei dizer que aos 13 anos ou 12, comecei a ler flabela e espanca. E mais tarde, comecei a ler o Vinicius de Murais e fui lendo e fui aprendendo a gostar de ler a partir da escola. E a pessoa que me marcou, de facto, na literatura portuguesa, foi a florebela espanca do Brasil, que me marcou mais, foi Jorge Amado e Vinicius de Murais. Agora, dos africanos, comecei a conhecer depois da independência, porque não havia comunicação do tanto período colonial com outros países de expressão portuguesa em África. Então comecei a conhecer os papetelas e conhece essa gente maravilhosa, essa turma angular, não. Os nomes são tantos que, se eu descer alguns dos outros vão se zanar comigo, o mais jovem deles que conhece meu amigo é onde há que. Então comecei a conhecer esses muitos depois da independência. Da Guiné-Bissau sei muito pouco. A memória que me fica de São Tomé é áldo, mas é interessante. Duz tempos para cá também estou um pouco retirada desses grandes movimentos. De vez em quando é bom fazer uma pausa e repulsar. Paulini, continuo a escrever o que dá o impulso da escrita. Eu agora estou a fazer uns descanso. Paulina, muito obrigada por esta conversa. Ficaríamos aqui muito mais tempo para conversar. Paulina, não sei como é que está aí o tempo. O tempo está bom. Está fresquíssimo hoje depois da chuva. Ouvans passaram os ovans passaram os em fundo. Foi o primeiro podcast cruzamento literários. O próximo será com o escritor português Mario Carvalho e o conduzido pelo jornalista brasileiro. Mas não é o da Costa Pinto. Obrigada. Cruzamentos literários. Uma parceria entre o Instituto Camões, a Fundação Gumbé Quinhand e a Associação Oceanos, que integra a Programação Cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia.
Podcast Summary
Key Points:
O podcast "Cruzamentos Literários" apresenta a escritora moçambicana Paulina Chiziane, pioneira na publicação de romances em Moçambique.
A conversa centra-se no seu livro "Niketche
Chiziane discute a importância da oralidade na sua escrita, o processo de tradução cultural entre línguas moçambicanas e o português, e a negociação da identidade moçambicana e feminina através da literatura.
A escritora reflete sobre a diversidade cultural e os sistemas matrilineares vs. patrilineares em Moçambique, bem como os desafios de unificação e pacificação do país mais de 40 anos após a independência.
Summary:
Neste episódio do podcast "Cruzamentos Literários", a jornalista Isabel Lucas entrevista a escritora moçambicana Paulina Chiziane, focando-se na sua obra "Niketche: Uma História de Poligamia". Chiziane, a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, explica que o livro surgiu a partir de uma cena real de conflito entre mulheres, evoluindo para uma narrativa que desafia tabus ao abordar abertamente o desejo sexual feminino e criticar a poligamia. A autora descreve a escrita como um ato de negociação da sua identidade como mulher, moçambicana e africana, destacando temas como o papel da mulher na sociedade e os efeitos da colonização.
Ela enfatiza a influência da tradição oral na sua prosa poética, um traço marcante da literatura moçambicana, e discute os desafios de traduzir conceitos culturais específicos para o português. A conversa também aborda a diversidade étnica e cultural de Moçambique, incluindo as diferenças entre sistemas matrilineares e patrilineares, e reflete sobre os conflitos internos e o longo processo de pacificação do país após décadas da independência. Chiziane mantém uma visão esperançosa, encarando estas tensões como parte natural da construção de uma nação jovem.
FAQs
Paulina Chiziane é uma escritora moçambicana, a primeira mulher do país a publicar um romance. A sua obra cruza oralidade e prosa poética para abordar temas como o papel da mulher, os efeitos da colonização e a guerra colonial.
'Niketch' é um romance que explora a poligamia através da história de Rami, a primeira esposa que estabelece um pacto com as outras mulheres do marido. O livro aborda o desejo sexual feminino e desafia tabus culturais.
A autora afirma que a oralidade é parte fundamental da cultura africana e da sua escrita. Ela mistura a narrativa oral com a escrita para transmitir a 'alma africana', embora reconheça que algumas nuances se perdem na 'tradução' entre culturas.
A história surgiu após a autora presenciar uma briga de rua entre duas mulheres embriagadas e uma esposa traída. Essa cena ficou 'presa' nela e evoluiu para uma narrativa sobre poligamia e relações de poder.
Ela considera a literatura uma 'negociação de identidade', abordando a condição da mulher em sistemas culturais. Através da escrita, reivindica o lugar da mulher e questiona preconceitos, especialmente no contexto moçambicano e africano.
O livro explora as diferenças entre os sistemas matrilinear (norte de Moçambique, onde o sexo é visto como sagrado) e patrilinear (sul, com influências europeias e islâmicas). A autora destaca como estas culturas coexistem no país.
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