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01 - João Paulo Borges Coelho

50m 24s

01 - João Paulo Borges Coelho

O episódio do podcast "Cruzamentos Literários" apresenta uma entrevista com o escritor e historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho. A conversa inicia-se com uma reflexão sobre o significado da língua portuguesa em Moçambique, destacando seu duplo papel: foi uma língua imposta colonialmente, mas também foi adotada pelo movimento de libertação como língua de unidade nacional, dado o país abrigar diversas línguas locais. Para o autor, pessoalmente, o português é parte estruturante de sua identidade. Coelho explica como sua formação acadêmica em História e seu trabalho de campo em regiões remotas de Moçambique o levaram à literatura, permitindo-lhe captar sensibilidades que a historiografia tradicional não abarcava. Seu primeiro romance, "As Duas Sombras do Rio" (2003), nasceu de anotações de diário durante essa pesquisa. O cerne da discussão é seu romance mais recente, "O Museu da Revolução" (2021). O título refere-se a um museu real, criado pós-independência para narrar a luta de libertação, mas que acabou fechado. O livro usa essa metáfora para questionar criticamente as narrativas históricas oficiais e a dificuldade de lidar com a memória coletiva. A trama, complexa e com múltiplas vozes, parte do encontro do narrador com um ex-trabalhador migrante (os "magermanes" que foram para a Alemanha Socialista) durante um protesto em frente ao museu. A obra explora trânsitos internacionais de moçambicanos, combate estereótipos sobre o país e propõe, através da ficção, a criação de arquivos imaginários que deem voz a histórias pessoais e sofrimentos anônimos muitas vezes silenciados pela "dor pública" oficial.

Transcription

6299 Words, 36154 Characters

Portuguese
Começa agora o podcast Cruzamentos Literários, uma parceria entre Instituto Camões em Brasília e a Associação Oceanos. Olá, eu sou o Mano da Costa Pinto, jornalista brasileiro e um dos curadores da série de podcast Cruzamentos Literários, na qual conversamos com escritores de língua portuguesa para saber como pensam o mundo, a literatura e um especial universo do nosso idioma. Cruzamentos literários apresentam cada mês um novo episódio que vai ao ar às quinta as feiras. Em 2021, Cruzamentos Literários contou com 18 escritores de diferentes países de língua portuguesa. Entre eles, a Moção Micana, Paulina Xeane, a portuguesa de Aimila, Pereira de Almeida, o Angolano Wondjac, o Timorense Luis Cardoso e os brasileiros no Mjafi Tamar Vieira Junior. Quando disse, entre outros autores que participaram da edição de 2021. E no programa de hoje, temos a presença do escritor Moção Bicano João Paulo Borges Coelho, primeiro escritor convidado do Cruzamentos Literários em 2022. Já aproveito para deixar o convite por segundo episódio que irá ao ar em fevereiro e treinar a jornalista Isabel Lucas, dialogando com a escritora brasileira Andréa Defueco. Vamos então ao convidado desta edição. João Paulo Borges Coelho nasceu no Porto em 1955 e cresceu em Moção Bic. escritor e historiador, João Paulo insina a história contemporânea de Moção Bic e a Fica Austrál da Universidade Eduardo Mondlani. Seu primeiro livro, as duas sombras do Rio, foi lançado em 2003 e aí eles somaram-se muitos outros como as visitas do Dr. Valdez, Prêmio José Craverinha de 2005, o oido Herzog, Prêmio Leia de 2009 e obras como Água ou Cidade dos Espérios. Sua obra mais recente é o romance "O Museu da Revolução", lançado em 2021 um romance ligado às realidades passadas, presentes e aos possíveis futuros de seu país Moção Bic. João Paulo Borges Coelho é um prazer terlo aqui no Cruzamentos Literários, esse podcast em que nós trazemos a visão de mundo dos escritores de língua portuguesa, a partir de sua obra, de seu ponto de vista cultural e histórico. Eu gostaria de começar, lhe perguntando antes de entrar na sua trajetória, em particular, na sua obra em especial, gostaria de lhe perguntar o que significa a língua portuguesa num país como Moção Bic. Eu falo do Brasil e a língua portuguesa tem todo um significado pro Brasil, que é diferente de Portugal, que é diferente de Cabveres, de Morrow ou Angola. Eu gostaria de saber do seu ponto de vista qual é o significado da língua portuguesa em Moção Bic. Boa tarde, ao bom dia, o prazer é meu estar aqui, pelo convite, passando a sua pergunta, eu podia reagir duas maneiras diferentes. Uma tal vez o que significa o português de Moção Bic é outra, o que significa o português para mim, que são tal vez duas dimensões diferentes. O português, para um sanito, portanto tem um significado importantíssimo, mas do Rio. Foi a língua colonial, foi uma língua imposta, mas foi também a língua da libertação, porque a luta pela independência, o movimento nacionalista escolheu o português como uma língua de ponto. Isso corresponde também à própria história do país, porque o país de alguma maneira, isto pode parecer para a dodoção, o país nasce com a ocupação colonial, com a definição das fronteras. E essa definição das fronteras, que foi negociada pelo Portugal colonial, com os países no meadoamento com a Inglaterra, significa um corte de grandes nações que existiam no território que é hoje Moção Bic. Portanto, esse corte significa que agrupo no mesmo território línguas nacionales diferentes. Então a opção pelo português, no movimento nacionalista, significa a opção para uma língua que servisse de ponto e que não significa a escolha de uma língua nacional, entre treinamento de outras. Portanto, a língua portuguesa foi também liberada nesse contexto, digamos assim, portanto, é uma língua da libertação. Hoje é a língua oficial, a cada vez mais gente que fala português e há inclusive um movimento, pessoas que só falam português, sobretudo nos passos urbano, pessoas que cresceram no contexto da língua portuguesa em casa. A questão da língua portuguesa em Moção Bic é complexa e dava para grandes debates, mas é diferente, por exemplo, da dimensão da minha relação com a língua portuguesa. Portanto, a língua portuguesa é minha língua e a língua não é uma coisa mais profunda pensou eu do que o Moção. A língua não é uma opção, a língua estrutura, a nossa própria condição e a nossa própria identidade. Então nesse sentido, digamos que eu sou a língua portuguesa, nesse sentido, e também, grande medida, tenho uma cultura até a litrar a área que foi forjada no coteste da língua portuguesa. Eu não sei se ficou claro, a esta distinção, digamos, é mais debatível e mais complexa, a questão da língua portuguesa, em Moção Bic como um todo, do que a língua portuguesa nunca diz respeito a minha própria identidade. Perfeito. Então, falando então da sua relação com a língua portuguesa, você tem um traço, talvez singular na sua biografia, você nasceu em Portugal e foi para Moção Bic ainda criança e tem nacionalidade de Moção Bicada, não? Sim, sim. Quer dizer, é um traço singular, mas é comum a muita outra gente que viveu como eu já não sou novo, dentro de uma parte da vida no quadro colonial. Portanto, a minha mãe, no Sambicana, no sentido de que nasceu em Moção Bic, nasceu no norte do Moção Bic, filha de um pai português que, no princípio do século XX migou para o norte do Moção Bic e do mamãe com a ascendência Mauritiana. E, portanto, ela nasceu no Ibo, numa ilha do norte do Moção Bic, tal como a mãe dela e a Vodela e a Bisa Vodela, nós conseguimos traçar até finales dos séculos oito do partanho de a minha mãe. O meu pai não, o meu pai é português, e vem para Moção Bic, já no final dos anos 50, do século passado. Ele vem, a minha mãe foi para Portugal com oito anos de idade, o pai dela sempre quer altura de entrar na escola, enviava aos filhos e, portanto, de a também antes da primeira guerra ela foi enviada para Portugal. Depois casou lá na sua irmã minha, na seu eu e em de a também regressamos a Moção Bic. Portanto, quer a terra dela e para o meu pai era uma novidade. Portanto, é esse precursor que liga aos territórios que no produz ligamos assim. É um trânsito entre países e dentro da mesma língua que vai se projetar em sua obra, sobretudo, no museu da revolução, sobre o qual nós já falaremos daqui a pouco, que é um livro, propriamente entrancito, é um livro que revela um aspecto muito cosmopolita que supreende quem tem uma ideia estereotipada de Moção Bic. Mas já falaremos já do museu da revolução antes, eu gostaria de dizer e perguntar a você como a sua formação, como historiador, incidiu sobre a sua obra literária. E aí a possibilidade é a oportunidade para você compartilhar conosco um pouco dos começo dos inícios da sua obra literária. É uma questão ser no tranemente simples e complexa, né? Do ponto de vista acadêmico, eu segui um percurso como historiador, formei aqui na Universidade da Imaputo, depois doutora na Inglaterra, final dos anos 80, princípio dos anos 90, do certo passado, e, digamos, e comecei a trabalhar na academia, mas simultaneamente vivíamos um tempo especial, o tempo de construção do país, depois da entendência, com muita interação, digamos, com o campo, né? E eu tinha inclinações literais, todos temos quando são jovens que escrever poemas, ler muito a literatura, etc. Portanto, não era um campo que me fosse estranho, mas como se eu também perceber que só através da. digamos, da história, no grande alcanço, que não dava conta de sensibilidades que eu gostava de captar e de exprimir. Digamos que ainda estávamos muito no princípio daquilo que se chama hoje a micro-história, que é uma história que faz descendo na escala a quais até encontré a realidade. E desde aí que me interessa muito do ponto de vista artístico, estas fronteras, o que não significa que seja, não é tentativa de dizer do termineiro aquilo que não é capaz de dizer na história, é de fato trabalhar num campo distinto e com uma postura distinta. Como você estreou na literatura? Olha, eu comecei a fazer um trabalho acadêmico de campo numa zona muito remota de um sabíquio, na zona do Zumba, que é, digamos, onde se encontram as âmbias, os embabois e um sabíquio. Tem três países, a entrada do Rio Zabese, como sabe, Fenda Angola, a travessa Afarquia, entrei-me o sabíquio. E eu estava a fazer ou fazendo, como vocês dizem, o Jornal, o trabalho do campo e eu via interagia com desenas de pessoas, com centenas de histórias distinta, todas as aulas interessantes. Então foi uma espécie de anotações de diário, que depois se foram encadiando e ganhando vida própria, até se transformar em um romance, digamos, do imediato Pós Guerra Civil, e que tentava, de facto, perceber o que se passava naquela zona. E isso, em portanto, digamos, o gatilho imediato foi como a vida sobrenatural naquela região, tinha um lugar ao lado da vida ordinaria de todos os dias, e sem grandes insanações, como se fosse uma coisa normal. Então foi um pouco dar conta desse espanto que me levou ao primeiro livro. E hoje você já publicou quantos livros? Quantas obras de ficção? Assim, de repente, uma boa dúzia, pelo menos de uma dúzia, entre romaste e contos. Perfeito. Vamos então agora ao mais recente deles que é o museu da revolução. Começando pela pergunta que já está contida no título, o que é o museu da revolução, que não é apenas o título do seu romance. Também se refere ao museu propriamente dito. O que é este museu da revolução? O museu da revolução foi um museu que foi construído depois da independência com apoio da norte-curiano, a técnica em termos museológicos e em que visava a retratar, digamos, a saga "aluta" de libertação e a saga de libertação e da construção nacional. Mas foi um museu sempre teve uma existência discreta, haverá muitas razões a meu fértil, que talvez por ser demasiado fechado do ponto de vista interpretativo, demasiado digigido de cima para baixo, e que acabou por não só por ser privatizado, como por ser encerrado. E só é um modo complexo, é porque o, digamos, a lutar "mada" que levou a independência do país, foi conduzida por uma frente ampla de várias movimentos que se folgam a integrante, para formar a frente de libertação de me saber. Depois da independência, dois anos depois da independência, essa frente transformou-se num partido e criou-se um regime de um partido único. E, portanto, ficou sempre esta ambienoidade se o museu, de facto, era o museu nacional da libertação, mas depois do partido único, quando mudou a regime e se criou um ambiente democrático com vários partidos, esse partido revindou como museu começou a propriedade e portanto, ele foi privatizado. Depois, portanto, já nesses tempos neoliberais que nós vivemos há uns anos que ele encerrou, não encerrou aparentemente de uma forma definitiva, embora isso nunca tenha sido reconhecido há muitos anos para mané-se fechado. Então, digamos, esse foi o tema que desincadiu o livro, há uma espécie de uma leitura ironica, de alguma maneira, disso, mas há também o questionamento da dificuldade que hoje temos de relatar a nossa própria memória. Portanto, esse é um vago eltereno do livro "Sem Mofo". Por toda parte, por baixo de uma capa fina de normalidade, sentia-se o vazio dos desaparecidos e dos massacrados. E em cada curva da estrada, nas pequenas aldeias, nos alpendres e terreiros, nas filas dos fontanários, nos pequenos mercados, nos carreiros que ligam os lugares, nas machampas e nas margens dos riachos. Em todas essas paisagens e sualeiras, havia pequenas multidões de sobreviventes virando a cabeça e acenando a nossa passagem, disse. Pequeno de sofrimentos, milhões deles, anônimos, mantidos privados por uma espécie de pudor das próprias vítimas, como se há muito tivessem concluído que a sua dor não merecia chegar tão alto quanto a dor pública e a preguada. Embalado pelas suas próprias palavras e com a veia filosófica que por vezes lhe latejava, DJ concluia que tal como as histórias simbólicas de heroismo, que de resto se vão diluindo numa retórica repetitiva e celebratória, até sobrar tão pouco. Também estes pequenos sofrimentos privados deveriam ser tornados públicos, certi-vogados, partilhados e valorados por todos. A Metáfora do Luzel Fechado e de um romance que de alguma maneira escreve a história, criando uma outra, enfim, uma outra, outros arquivos históricos, que são arquivos imaginários, é muito interessante, né? Há uma espécie de espelhamento ironico realmente, entre o Museu Fechado, que era um museu que tinha uma determinada leitura da história moçambicana e um romance que tem título de museu e que, portanto, criar arquivos imaginários dessa história, que, no entanto, são arquivos imaginários ou fixionais, mas que se relaciona com a história real de moçambique, feirindo mais, talvez, mais verdade, a ficção e a museu da revolução romanezco do que eu, a museu da revolução real, ou aquele que está aí, resiste fisicamente. Há uma atenção, já se estabelece no título e que se desdobram em númeras ironias dentro desse romance, que aliás é o romance sobre moçambique, que começa no Japão, né? Exato, é que há dois, havia talvez dois propósitos. Quando escreve nós não temos os propósitos muitos exclossidos, né? Mas voltando atrás no texto há talvez dois propósitos, um delo é, de facto, o de relativizar o peso dessa história que nós não conseguimos discutir. O outro é dar uma ideia um pouco contra a ideia instalada, de que um sabia que sendo um país tripeférico não é um país marginal, é um país que os mupulita. Os mupulita no sentido não só das elites, mas no sentido papo-lar, ou seja, desde finais do século 19, que há uma migração em massa de trabalhadores para os países post-ritórios visinhos, né? Que aliás é abordada no livro e há também uma migração depois da independência para a Alemanha Socialista, o Femismo era para a formação, mas de facto era a mão dobra exportada, né? Que era equivalente, digamos, que retoma uma tradição colonial de exportar trabalhadores para trabalhar nas minas dorses latifricanos, né? E antes disso havia também muitas outras experiências com a presença de soldados uns sabicanos em Angola e de soldados angolanos, e nós sabemos porque a teoria colonial era essa, né? E até destacamentos importantes de soldados uns sabicanos em Macau e em Timor, né? Portanto, esta ideia do sabicano quieto dentro do seu reencal, né? É uma ideia que se prócoga combater aqui com esta com estes trânsitos, de facto. E com os preconceitos, né? que são as histórias, porque nós muitas vezes fazemos uma abstração e destinamos ao retrato do país, como se as pessoas fossem todas iguais, e eu tenho um cadeste à obsessão da luta pela diversidade. E pelos precursos e individuais que são, eles, de facto, criam a mudança e o movimento. Jopá, o que você mencionou essas personagens dos moçambicanos que vão trabalhar na Alemanha Socialista, isso acaba recebendo um nome, são os mais germãs, é assim que se fala. Sim, a recuperação é um facto curioso, o prefixo, o má implica um pró-galdo nas línguas banto, por tanto, são os germanos, os mais germanos, são aqueles que são alemães, e é um termo curiosamente recuperado de um contexto diferente, que me sabia que no quadro da primeira guerra foi invadido por uma força alemã que, no norte do país, designavam-me de mais germanos. E, portanto, é um termo que foi recuperado, mesmo termo, mas vai ser usado num contexto diferente, mas sempre ligando a Alemanha, né? Deve-se a vez a Alemanha comunista, né? No princípio era a Alemanha Imperial, né? Do bismarque do Marshall, Foreign Letoff, Foreign Back, foi o que entrou em San Diego. Conheci DJ numa manhã cinzenta que dediquei a visitar o Museu da Revolução. Preparávame para observar os expositores do primeiro andar, onde se dá conta da resistência ao colonialismo, quando se inti crescerem os rumores de uma manifestação de protesto no jardim 28 de maio, do outro lado da rua. Notara, já chegada, uma pequena concentração de madermães, os trabalhadores imigrantes que haviam prestado o serviço na velha alemanha socialista, e agora há muito regressados, continuavam a reivindicar uma parte dos seus salários, que diziam estar retida pelo governo. Acheitavam cartazes e bandeiras, e por um momento parecia que os dias festivos do nosso próprio socialismo estavam de regresso. A certa altura houve dois estampidos e desci para entrada do Museu a fim de espreitar o que aconteceu lá fora. Defeito, agora, os magiermanes têm um papel aí dentro do romance, porque o narrador conhece uma das personagens principais, se não a principal, que é o GJ, exata uma manifestação de magiermanes na frente do museu da revolução. Para quem não deu o livro, você poderia explicar um pouco como esta cena de alguma maneira deflagra narrativa. O romance começa com um automóvel que vai do Japão para Moçambique. Mas depois, a partir daí, a narrativa, propriamente dita, com as personagens que sugem e são umas principais do romance, a narrativa é deflagrada a partir desta cena em que o narrador conhece um GJ. Se você pudesse dar uma pequena noção do enredo do livro para quem nos ouve, seria interessante, porque é um livro muito complexo. E eu não quero me estender aqui tentando dar conta dele, porque senão eu falaria mais do que vocês, se damos todos aqui para o livro. No fundo, o que é dizer o livro é composto para uma justa posição e um encaixe de diferentes vozes. E, de fato, o narrador conhece o GJ, que é, talvez a personagem que sou de Sai Mais, no museu da revolução. E há este caso que, Gilberto, que é real, do lado oposto da rua, de fato, era o jardim onde os mais germans se concentravam. Portanto, os mais germans são aqueles, eh, eh, estrabalhadores, eh, na Almanha que regressaram e achavam que o governo lhes devia dinheiro, não é? E isso também é um pouco complexo explicar, mas é a mesma, da mesma maneira, se passou com no tempo colonial com a África do Sul, era os trabalhadores iam para lá e uma parte do salário era entregue diretamente ao Estado. Eh, e no caso de não saber o colonial, África do Sul pagava em ouro, eh, uma parte do salário do, do, do trabalho dos migrantes, eh, ao Estado português, né? Eh, o, acontece aqui, é que os mais germans reclamavam uma parte do salário que, dizer, é um que ficava retida e que era passava diretamente, processado, me sabia, e e portanto, na, durante muitos anos, depois de independência, e só recentemente é que os muro ser um pouco esse movimento, eh, eles, periodicamente, eh, eh, eh, termos preenitos mais intensos, as quartas feias concentravam-se e faziam protestos, reclamando os seus direitos, né? Portanto, foi um emcais para mim, de várias motivações, portanto, as viagens do GJ, o, o, os protestos do ambiente social dessa altura, que eu localizo por volta, grosso modo, 2010, eh, tanto, há cerca de 10 anos atrás, a, a, a ação do romance, e, e o museu ali ao lado, que é com que, a tal visão ironica, mas também melancólica do, do, do, do um passado que, que, que ficou pro discutir, né? Portanto, tudo isso se conjuga para desportar ali o princípio da ação, eh, do romance, né? Quem é este narrador que está presente, mas sempre a expreita? É uma questão difícil essa, não é? Eh, tem, tem, tal vez, é um, um, um, um expediente técnico, digamos, eh, eh, do romance, mas é também, de alguma maneira, um expediente et, porque eu cada vez mais tenho essa impressão, que, tentando representar os outros, me estou apropriada da, da, da sua própria fógeno, e eu não, não, não pretendo isso, não é? Portanto, o, o narrador é uma espécie de figura cinzenta, entre o autor e a sua transfiguração literária se quiser, né? Eh, não é o autor, obviamente, mas, mas tem, tal vez, reis no próprio, no próprio autô, né? Isto, no sentido, não é no sentido autoritário, em relação ao, ao, ao control do romance, mas no sentido, de, é, é, é difícil explicar, de não crescer o vestitivo, a force, daqueles que não têm voz e que, e que, e que tem que ser, eles a falar, né? É um narrador que escuta, está presente, mas ele está, é, é, é, quase um, o seu livro nada tem de psicanalítico, mas ele é quase um, uma presença psicanalítica em cena, ele é, ele, ele, é uma, ele tem uma atitude de escuta da voz dos outros e as articula, né? Agora ele, é, a presença dele em cena é muito amigo, não é, nem um narrador oniciente, um narrador protagonista, ele, exatamente, não sei se você encontrou paralelos outros, ou se inspirou, talvez, na história da literatura, fiquei pensando que romance estaria este narrador, eu me lembrei que os demônios, os doce-eves, que têm um narrador que só lá pela página, 300, nós descobrimos que está em cena, embora ele pareça um narrador oniciente, da mesma maneira como nós temos o Dr. Faust, do Thomas Mann, aquele narrador, que é o amigo, que é o cinema, o site long, que é o amigo do lever kunk, que é o protagonista, então ele está sempre a espreita como o seu narrador, mas o seu narrador convide com uma gama de personagens muito maior e com a própria história de Moussambique, de alguma maneira ele, ao escuta Moussambique através das personagens, não sei se você concorda com esta, que é uma das possíveis leituras, das tantas possíveis leituras desse romance, que é um romance muito complexo, é um romance grande e complexo, mas é uma das possíveis leituras, é a partir deste ponto de vista desse narrador, este ponto de vista talvez, público concordo de certa maneira e digamos eu acho que espatamar para enunciar essa voz e essa escuta foi a própria condição dentro do contexto que eu criou, portanto foi uma produção natural por um lado, agora já que refriu e procurando talvez localizar na litratura existente, nas leituras, eu diria que há talvez uma procura meio sebal de Ana do sebal de que se encerra e ao mesmo tempo está fora dos enredos que ele cria, digamos eu não me ento de um jeito diferente, eu não me influencio diretamente, mas um certo pão que uma garada morra. muito na escarita de O. E que talvez possa ter aí um pelo menos uma das raízes da minhas estratégias, né? Perfeito. Pra quem nos escuta aqui nesse podcast cruzamento de literários, o João Paulo acaba de fazer referência ao Zébald, que é um ele falou de Zébald de ano, talvez os outros ouvintes não recolhe. Zébald de um grande valor alemão há ao mesmo tempo grandes diferenças e mas talvez digamos o que é atrativo em mim em relação a Zébald é a colocação do narrador muito individual. Eu procuro trabalhar mais, digamos, os percusos, mas no sentido mais coletivo. E porque há também, mas o que é a paixona nela é aquilo que eu acho que a meu ver, nós precisamos também, que é um trânsito digamos, de imagem exterior tipada da literatura coletiva, no sábicánica, que representa mais o povo, a totalidade, a moralidade, a ideologia, como um bloco e não uma literatura, digamos, mais junto das pessoas, mais individual, mais cotidiana, mais junto da terra, eu acho que precisamos de descer bastante da retórica, que é um produto criado por nós, mas também que os outros criam em nós quando o exterior tipam a visão daquilo que nós somos. Nós precisamos de diversidade, só assim é que a nossa literatura se pode consumidar. Eu gosto muito de uma frase do Camíqueo, o Camíqueo fala que o robôbante é mais fiel a realidade do que a filosofia, porque ele é fiel concreto, a complexidade do concreto, ou seja, ele faz justamente uma aproximação aquilo que não está contido em categorizações, como muitas vezes a filosofia, a própria historiografia, faz e obrigada, fazem em alguma medida ainda que de maneira consciente e se autointerrogando. Agora você falou em trânsito e de fato existe um trânsito, vários trânsitos no seu livro, esse trânsito de imagens, da imagem estereotipada para uma imagem mais complexa, mais próximo ao concritúde da vida mossã bicana, mas também há trânsitos objetivos, de um país de para-ultro, de uma localidade, de algo. Eu fiz uma pergunta lá atrás nessa nossa conversa que eu queria só, é uma coisa um pouco talvez mais anedótica, mais que eu acho que eu apenas mencionei e eu queria que você desse a resposta, porque o livro começa com no Japão e com a figura de um automóvel, que não seria como é que se mora num símbolo no nome do automóvel, você pode nos explicar que vai do Japão, que ele é. em todo um significado sócio econômico, mas o Japão já é o político, é assim, é quem nesse AES digamos que é o modelo que mais se vulgarizou na África Enteira, como o Carlos II. É a ideia de começar no Japão, não foi um plano constratado, como isso aí assim e depois fui ligando, por um lado representa numa zona de baixa tecnologia, mas de grande consumo tecnológico em que a nossa se tornou neste espaço neoliberal, digamos que o Japão é uma fabricante de milagres, não é? É onde saem as coisas já feitas, essas maravilhas que beneficiamos, não é? Desde do smartphone ou os carros, o Japão é um lugar de milagres e é também. eu confesso que desde criança não saio porque sempre tive curiosidade de olhar para a peninsula de Camichática, então finalmente arranjá-lo em uma maneira de. é imaginário, não é? Do norte do Japão, do aocaido, do outro lado do mar, as curilhas e a peninsula de Camichática, que pra mim é a mutáfora do fim do mundo, não é? E é também o princípio do mundo, na medida em que digamos sem estes carros em segunda mão africandava a pé, e portanto é a grande da mais lenta, mas por outro lado também isto é d'á alguma forma, dá um quadro de denuncia, porque é onde vão parar os carros de segunda mão, e é onde irão parar nos tempos mais próximos com a transição inagética e a transição poilétrica, o venha aí uma lavra de carros a óleo, diz-o, e a gasolina que nos vão inundar e portanto d'á alguma forma é o impacto dessa realidade que foi ajudando a construir esta ideia, em toda a África, a este modelo das vantes, como se são no Brasil, são vantes de transportes microetivo ou ocupar o. Estereótipos que são projetados sobre os países que foram em algum momento colonizados por Portugal, é a ideia de que a relação principal desses países é com Portugal e eventualmente, com o Brasil, por conta da identidade linguística, mas ali você traz na sua obra de maneiro geral, na sua reflexões, na suas entrevistas, se fala muito da relação com a África do Sul, que também que é um país vizinho, e aí essa relação é muito forte e a questão do apartheid e da constituição étnica de Mozambique, que é bastante diferente, me parece, você pode me corrigir por favor se estiver errado, mas me parece bastante diferente da composição étnica da África do Sul, me parece uma relação também de identificação e diferença que se estabelece, e que é muito importante, também temos a história historiográfica com outros interros literários para você, não há essa relação de Mozambique com a África do Sul, que é algo que nós, por exemplo, aqui em do Brasil, não temos ideia, quando nós vemos a história de Mozambique, a gente não pensa no peso que tem que existe na proximidade de um país com a África do Sul, e com o todo o legado de uma outra forma de economização, uma outra forma de enfrentamento, de civilizações, né? Eu diria que é pontacente que nós temos o ultralma, falou a pouco em psicanálise, né? Temos um trama em relação ao tempo, e temos um trama com o espaço e a língua e a cultura, né? Em relação ao tempo está na rotura que o fim do tempo colonial ditou em nós, que foi totalmente apagado da história, né? E era muito importante, nós continuamos a debateiro através das gerações, né? Do ponto de vista, digamos, atual, em mais horizontal e da língua e do espaço, digamos, eu arriscaria dizer que enquanto, por exemplo, Angola tem elintes muito mais ligadas a Portugal e o Brasil, a Mozambique tem uma metrópole própria que África do Sul, um país enorme, muito desenvolvida, tem as crises atuais, mas ele, digamos, África do Sul, agora, ao ver competindo com o Dubai, né? Mas África do Sul é o paraíso das elitras, Mozambicanas, mas é também o paraíso, a fonte de trabalho do ponto de vista histórico, das massas rorais também, né? Mas a uma ligação muito forte com África do Sul, mas mais uma vez é uma ligação violent e forte até porque a grande nação aqui do Sul, que são os de Songa, é partilhada pela África do Sul e para como se ninguém é dividido ao meio. As pessoas do Sul que não sabem inglês vão África do Sul e falam em Xangam, né? E é a mesma língua do Atorado. Agora, isto é uma ligação profunda, portanto, do próprio trabalho, da própria língua, da própria cultura, mas que foi violentada com o apartheid e depois da independência com a guerra, portanto, os relações extremamente hostis e muito da nossas, para, para me saber, depois da independência com a guerra, né? E digamos que enquanto que se refeis a ligação das elites e até se criou um mercado importante para os grandes empresas da África do Sul aqui, o que nós comemos vem da África do Sul, nossa televisão vem da África do Sul, a cerveja que bebemos vem da África do Sul, mas ao mesmo tempo é um ambiente muito mais arisco, o estilo em relação ao trabalho, né? a aquelas erupções de genofo, etc. Mas a minha opção na sua gratudu é que a relação cultural é muito escasa. Nós não lemos literatura sol-africana, não traduzimos literatura, não traduzimos nenhuma literatura, não temos uma política do livro. Mas os sol-africanos também não dá a empressão que não há essa curiosidade também em relação a digamos ao ponto cultural. Há um passado de ligação em termos da música, muitos músicos no sabedcanos no tempo colonial e a um as gravadoras sol-africanas, nos anos 50, escenta, há alguma ligação no teatro ou ovo mais, mas do ponto de vista da literatura, não há ligações. Isso, pra mim, é um mistério. Portanto, é uma espécie de sobrevivência das fronteiras do arame farpad que existiam no tempo do apartheid. E eu não sei como esse combate é uma questão que me intriga essa relação. Mas voltando a isso, sem dúvida que a África de Soré é nossa tropa. E a partir dessa relação entre Moussambique e África do Sul, o que você vê? A situação, a condição, o significado da África no mundo de hoje. O que a África significa no mundo? Nós estamos com um contexto de pandemia, em que a gente sabe que o continente africano sofreu, havia uma ameaça, a iminência de uma catásor, que por conta de uma incapacidade, talvez de rivalizar em índices de vacinação com os países europeus e asiático, os ouda-america. Então, havia assim, como uma ameaça constante. Mas o tempo africano é um continente mais jovem. Isso explica, porque também a covid não teve uma mortalidade tão alta na África quando se podia esperar e, felizmente, não teve. A gente sabe que a covid pega principalmente pessoas mais idosas e o continente africano tem uma média etária geral muito baixo, assim, me engana 18 anos, algo informo disso. Mas como é que, dependentemente do contexto pandêmico, no qual nós conversamos, o que a África significa hoje no contexto globalizado? Como é que você vê isso? A África é um continente. Claro que nós pode falar de um continente tão diverso quanto a África e entender as Áficas subsariana, até uma grébe, enfim, é uma complexidade enorme. Não se pode colocá-lo como um todo. Mas, de qualquer maneira, a gente existe a percepção de que a África é um espécie de continente esquecido e que talvez seja, dentro daquela metáfora automobilística do seu romance, para onde vão os carros de segunda mão, uma espécie de depositório daqui do que se quer esconder. Ele está aí. Na civilização. Exato, por favor. É um termo mais cruel, mas é um termo que dá alguma maneira retrata. Repuga na ideia da África com vítima e é sempre um talento pobre de todas as discussões do mundo, mesmo das discussões que parecem mais solidárias. Porque eu sou um defensor da África, os africanos de Fenda e África, mas eu não penso que as estratégias, digamos, para mudar a situação que vão para o bom caminho. A mim preocupa. Quer dizer, toda a discussão da raça, toda a discussão das raízes, toda é uma discussão. Que não é uma discussão. Eu arrisco dizer isto. Não é uma discussão africana. É uma discussão da condição negra, na Europa e nas Américas. E há africaços como um reforço dessa discussão. As nossas prioridades, pelo menos da maneira como eu hoje fazio, são a fome, a pobreza, a discriminação de gênero, a guerra. Essas são as nossas grandes prioridades. E, sobretudo, digamos, a própria discussão interna para fazer uma limpeza de uma ordem democrática do ente que tem surgido na África moderna, muito com. procurando. esse. o alíbido das injustiças do passado, para construir regímes que são, digamos, parecendo modernos, são antigos na ganância, na ineficacia, na corrupção, etc. Portanto, é preciso re-instituir uma cultura de discussão e de construção democrática, para, de fato, modernizar a África. E é preciso ilgeir claramente essas prioridades. Para mim, a prioridade absoluta, sendo a toda a educação. Eu lembro-me até de uma discussão com há muitos anos, em que se perguntava um ministro da Correta do Sul, qual foi o milagre que levou a Correta só de um dos países mais atrasados, muito curto, um dos países mais avançados do mundo. E ele disse exatamente isso. Foi a prioridade à educação. Mas não é a prioridade à educação, entre outras prioridades. É a prioridade na educação, contra todas as outras prioridades. É assim, se estabelece, é prioridade. Nós vivemos ainda, um ensino super-euro, muito frágil, doente, com base enretórica e engorduações e enfardas, mas com pouca substância, depois vão ser computados técnicos, foram dados fora, vivemos um sistema de ensino básico, isso com dados extremamente deficiente e carente de infrastrutúgios, de pessoal, etc., quer dizer, tudo isso tem que ser referido porque para transformar mentalidades e para transformar a discussão interna, para elevar a qualidade da nossa vida. Se isso não se transforma, a África continua a assistir às decisões do mundo. E quando muito me metis ao resto, e preocupa também que há muito poucos intelectuais africanos, onde a receja feita, por exemplo, a gente como o Aquilo Mimbe, que são pessoas no inamento empenadas e discutir em de algo com o resto do mundo, e não levantar velhas retógicas, só ligadas com a raça, ou com o passado gruíoso, etc., exercícios imputativos, porque o que é importante, a história é muito importante, mas o que é importante é transformar a realidade. Toma outro lado, a última palavra, peta ao diversidade. Com o feste que fica arrepiado quando se fala da África no singular, até no Brasil se diz muito África, porque África, a questão a referir, é exatamente a que serve de respaldo, a construção da problemática brasileira. A África são muitas Áfricas, muitas línguas, muitas economias, muitas culturas, muitas diversidades, e essa é a principal riqueza, e deve ser o ponto de partida. Nós não estamos numa época, de fazer uma frente comum, nós estamos numa época, para mim, de gerir harmoniosamente as diversidades, não é de pouco toda a gente pensar igual, é de deixar os primir e gerir harmoniosamente as diferenças. O Mozambique encontrou, não era muito diferente do Mozambique que deixara. Os ataques dos bandidos armados, estampados em panangonas nos jornais, a mortandade, a fome, que havia um passado a chamar, crise humanitária, enfim, os resmungos populares, e, no entanto, sentia-se já a aragem fresca da mudança. Falava-se em conversações com os rebeldes, a sociedade e impaciente, perdia passos largos a subserviência com que até então acatar as ordens da autoridade. Um leque, abrindo-se na suas inúmeras cores e agitando-á. João Paulo pode escuer muito obrigado pela conversa, pela sua participação aqui no podcast Cruzamentos Literários. Foi um prazer, ter eu que conosco. Foi um prazer estar convozco aí também. Perfeito. Acompõe o segundo episódio dos cruzamentos literários em 2022, que vai ao ar em fevereiro, e traará a jornalista Isabel Lucas, que é curadora do premiocéanos Portugal e também uma das curadoras desse tipo de cast, Isabel Lucas dialogando com a escritora brasileira André Delphine. Então é isso, um abraço a todos, até o próximo cruzamento literários. Cruzamento literários, uma parceria entre o Instituto Camões em Brasília e a Associação Oceanos.

Podcast Summary

Key Points:

  1. O podcast "Cruzamentos Literários" apresenta o escritor e historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho.
  2. A conversa explora o significado complexo da língua portuguesa em Moçambique, tanto como língua colonial quanto de libertação e unidade nacional.
  3. Discute-se a relação entre a formação do autor como historiador e sua obra literária, iniciada com anotações de campo que viraram ficção.
  4. O foco principal é o romance "O Museu da Revolução" (2021), que usa a metáfora de um museu fechado para questionar a memória histórica oficial de Moçambique.
  5. A obra aborda temas como trânsitos migratórios (ex.

Summary:

O episódio do podcast "Cruzamentos Literários" apresenta uma entrevista com o escritor e historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho. A conversa inicia-se com uma reflexão sobre o significado da língua portuguesa em Moçambique, destacando seu duplo papel: foi uma língua imposta colonialmente, mas também foi adotada pelo movimento de libertação como língua de unidade nacional, dado o país abrigar diversas línguas locais. Para o autor, pessoalmente, o português é parte estruturante de sua identidade.

Coelho explica como sua formação acadêmica em História e seu trabalho de campo em regiões remotas de Moçambique o levaram à literatura, permitindo-lhe captar sensibilidades que a historiografia tradicional não abarcava. Seu primeiro romance, "As Duas Sombras do Rio" (2003), nasceu de anotações de diário durante essa pesquisa.

O cerne da discussão é seu romance mais recente, "O Museu da Revolução" (2021). O título refere-se a um museu real, criado pós-independência para narrar a luta de libertação, mas que acabou fechado. O livro usa essa metáfora para questionar criticamente as narrativas históricas oficiais e a dificuldade de lidar com a memória coletiva. A trama, complexa e com múltiplas vozes, parte do encontro do narrador com um ex-trabalhador migrante (os "magermanes" que foram para a Alemanha Socialista) durante um protesto em frente ao museu. A obra explora trânsitos internacionais de moçambicanos, combate estereótipos sobre o país e propõe, através da ficção, a criação de arquivos imaginários que deem voz a histórias pessoais e sofrimentos anônimos muitas vezes silenciados pela "dor pública" oficial.

FAQs

É uma parceria entre o Instituto Camões em Brasília e a Associação Oceanos, apresentando episódios mensais com escritores de língua portuguesa para discutir literatura, cultura e visões de mundo.

É um escritor e historiador moçambicano, nascido no Porto em 1955, autor de obras como 'As Duas Sombras do Rio' e o romance mais recente 'O Museu da Revolução', lançado em 2021.

Foi uma língua colonial imposta, mas também se tornou uma língua de libertação, escolhida pelo movimento nacionalista para unificar o país, e hoje é a língua oficial, falada por uma parcela crescente da população.

Sua formação acadêmica o levou a explorar a micro-história, captando sensibilidades que a história tradicional não abrange, o que o motivou a escrever ficção para expressar essas nuances e realidades complexas.

É um museu real construído após a independência de Moçambique, que retratava a luta de libertação, mas foi privatizado e fechado. No romance, serve como metáfora para questionar a memória e criar arquivos imaginários da história do país.

São trabalhadores moçambicanos que migraram para a Alemanha Socialista e, após retornarem, reivindicam salários retidos pelo governo, representando temas de migração, direitos e memória no contexto pós-colonial.

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